segunda-feira, 31 de março de 2014

CARTOON versus OITAVA

Parentalidades
HenriCartoon

«PARENTALIDADES»

-Pai, esqueces o lado parental…
-Já arranjei outra vez sarilho?
-Dizes não te rever neste Portugal
Mas quem o governa, é teu filho!
-Rapaz, minha máxima culpa!...
Peço a todos os portugueses
Que aceitem esta desculpa:
Vou castigar-te mil vezes!!

Quadra Remate:

(Começa a faltar-lhe o juízo...)
-Pai, não pensas em desandar?

-Filho, escuta bem este aviso:
Vê lá quem andas a roubar!

POETA

AMIZADE POÉTICA NA BLOGOSFERA

Consultar aqui:
«SAUDAÇÃO ENTRE POETAS»
«CORDEL DAS DÉCIMAS»
Ou ainda por aqui no Altejo: «DESPIQUE»
Poet'anarquista

«Amizade Poética na Blogosfera»

Décimas do Poeta «Versos Diversos»

MOTE

Óh! Senhor, que aflição!... 
Com quem eu me fui meter. 
Não aperte comigo, não?... 
Olhe, eu já estou a tremer… 

Glosas

Ao tempo que me não via, 
Metido em alhadas destas. 
Ó dicionário vê se m’emprestas 
Um pouco de sabedoria… 
Isto de compor poesia 
Faz-me cá uma confusão!... 
Há quem verse do pé prá mão 
Mas esse não é o meu caso. 
Ainda estou num grande atraso, 
Óh! Senhor, que aflição!...

II 
Pregou-me uma grande partida. 
Admito que se dialogue, 
Mas pôr meus versos num blogue, 
Onde vai gente sabida… 
Bem mal vai a minha vida, 
Quem me havia de dizer!... 
Eu estou só a aprender 
E isso põe-me stressado… 
Estou mesmo atrapalhado: 
Com quem eu me fui meter…

III
Ó amigo, por favor,
Não me deixe ficar mal.
Não me ponha num pedestal!
E se de lá cair? Que horror…
Tal não era o dissabor,
Era um grande trambolhão!
Fico mais firme no chão,
Representa menos perigo…
Se é mesmo meu amigo,
Não aperte comigo, não?…

IV
Umas vezes acanhado,
Outras desinibido…
Desta vez foi divertido
Pôr o silêncio de lado!…
Adoro décimas, e fado,
Compostos como deve ser!
E sinto um certo prazer,
Em desvendar seus segredos!
Faça décimas, sem medos!...
Olhe, eu já estou a tremer…

Versos Diversos
(Março de 2014)

OUTROS CONTOS

«Minha Vida com a Onda», por Octavio Paz.

«Minha Vida com a Onda»
A Onda, pintura de Gustave Courbet

106- «MINHA VIDA COM A ONDA»

Quando deixei aquele mar, uma onda se adiantou entre todas. Era esbelta e ligeira. Apesar dos gritos das outras, que a seguravam pelo vestido flutuante, pendurou-se em meu braço e foi-se embora comigo pulando. Não quis dizer-lhe nada, porque me dava pena envergonhá-la diante das colegas. Além disso, os olhares de cólera das ondas maiores me paralisaram.

Quando chegamos à cidade, expliquei-lhe que não podia ser, que a vida ali não era o que ela pensava na sua ingenuidade de onda que nunca tinha saído do mar. Olhou para mim com seriedade: "Sua decisão estava tomada. Não podia voltar”. Tentei doçura, dureza, ironia. Ela chorou, gritou, acariciou, ameaçou. Tive que pedir-lhe perdão. No dia seguinte começaram meus problemas. Como subir no trem sem que nos vissem o condutor, os passageiros, a polícia? É verdade que os regulamentos não falam nada sobre o transporte de ondas nos trens, mas era justamente essa ressalva um indício da severidade com que se julgaria nossa atitude. 

Depois de pensar muito, cheguei à estação uma hora antes da partida, ocupei meu assento e, quando ninguém olhava, esvaziei o depósito de água para os passageiros; em seguida, cuidadosamente, verti nele minha amiga.

O primeiro incidente aconteceu quando as crianças de um casal vizinho declararam sua ruidosa sede. Adiantei-me para prometer-lhes refrescos e limonadas. Justamente no momento em que iam aceitar, aproximou-se outra sedenta. Quis convidá-la também, mas o olhar de seu acompanhante me conteve. A senhora pegou um copinho de papel, aproximou-se do depósito e abriu a torneira. Tinha apenas enchido metade do copo quando, de um salto, me interpus entre ela e minha amiga. A senhora olhou para mim com assombro. Enquanto pedia desculpas, um dos garotos voltou a abrir o depósito. Fechei-o com violência.

A senhora levou o copo aos lábios: 

— Ai, a água está salgada! — O menino fez eco. — Vários passageiros se levantaram. O marido chamou o condutor: 

— Este indivíduo jogou sal na água? — O condutor chamou o inspetor: 

— O senhor jogou substâncias na água? — O inspetor chamou o policial de plantão: 

— O senhor jogou veneno na água? — O policial de plantão chamou o capitão: 

— O senhor é o envenenador? — O capitão chamou três agentes. Os agentes me levaram para um vagão vazio, entre olhares e cochichos dos passageiros. Na primeira estação empurraram-me para fora do trem e arrastaram-me até a cadeia. Durante dias ninguém falou comigo, exceto durante os longos interrogatórios. Quando contava meu caso, ninguém acreditava, nem sequer o carcereiro, que mexia a cabeça, dizendo: "O assunto é grave, verdadeiramente grave. Não tinha tentado o senhor envenenar umas crianças?" Uma tarde, levaram-me ao procurador. 

— O assunto é difícil — repetiu. — Vou remetê-la ao juiz criminal. Assim passou-se um ano. Finalmente me julgaram. Como não houve vítimas, minha punição foi leve. Pouco tempo depois, chegou o dia de minha liberdade. O chefe da prisão me chamou: 

— Bom, já está livre. Teve sorte, graças a não terem acontecido desgraças. Mas que não volte a repetir-se, pois da próxima vez lhe custará caro... — E olhou para mim com a mesma expressão séria com que todos me olhavam.

Nessa mesma tarde peguei o trem e depois de algumas horas de incômoda viagem cheguei ao México. Peguei um táxi para minha casa. Ao chegar à porta do meu apartamento, ouvi risos e cantos. Senti uma dor no peito, como o golpe da onda da surpresa quando a surpresa nos golpeia em cheio no peito: minha amiga estava lá, cantando e rindo como sempre.

— Como você voltou?

— Muito fácil: no trem. Alguém, depois de certificar-se de que eu era apenas água salgada, me jogou na locomotiva. Foi uma viagem agitada: de repente era um tufo branco de vapor, de repente caía uma chuva fina sobre a máquina. Emagreci muito. Perdi muitas gotas.

Sua presença mudou minha vida. A casa de corredores escuros e móveis empoeirados se encheu de ar, de sol, de rumores e reflexos verdes e azuis, povoado de numerosos ecos e felizes reverberações.

Quantas ondas é uma onda ou como pode fazer praia ou rocha ou quebra-mar um muro, um peito, uma testa que coroa com espumas! Até os cantos abandonados, os abjetos cantos de poeira e os detritos foram tocados por suas mãos leves. Tudo começou a sorrir e por toda parte brilhavam dentes brancos, O sol entrava com gosto nos velhos quartos e ficava na casa por horas, quando já fazia muito tempo que havia abandonado as outras casas, o bairro, a cidade, o país. E várias noites, já bem tarde, as escandalizadas estrelas o viram sair de minha casa, escondido. O amor era um jogo, uma criação perpétua. Tudo era praia, areia, leito de lençóis sempre frescos. Se eu a abraçava, ela se erguia, incrivelmente esbelta, como talo líquido de um álamo; e de repente essa esbelteza florescia num jorro de penas brancas, num penacho de risos que caíam sobre minha cabeça e minhas costas e me cobriam de brancuras. Ou então estendia-se diante de mim, infinita como o horizonte, até que eu também me fazia horizonte e silêncio. Plena e sinuosa, envolvia-me como uma música ou uns lábios imensos. Sua presença era um ir-e-vir de carícias, de rumores, de beijos. Entrava em suas águas, quase me afogava e num fechar de olhos encontrava-me acima, no alto da vertigem, misteriosamente suspenso, para cair depois como uma pedra, e me sentir suavemente depositado no seco, como uma pena. Nada é comparável ao dormir embalado nas águas, a não ser acordar com os golpes de mil alegres chicotes ligeiros, por arremetidas que se retiram rindo.

Mas jamais cheguei ao centro de seu ser. Nunca toquei o nó do ai e da morte. Quiçá nas ondas não exista esse lugar secreto que faz a mulher vulnerável e mortal, esse pequeno botão elétrico onde tudo se enlaça, se crispa e se ergue, para logo desfalecer. Sua sensibilidade, como a das mulheres, se propagava em ondas, só que não eram ondas concêntricas, senão excêntricas, que se estendiam cada vez mais longe, até tocar outros astros. Amá-la era prolongar-se em contatos remotos, vibrar com estrelas distantes de que nem suspeitamos. Mas seu centro... não, não tinha centro, senão um vazio parecido com o dos torvelinhos, que me sugava e me asfixiava.

Estendidos um ao lado do outro, trocávamos confidências, cochichos, risadas. Feito um novelo, caía sobre meu peito e ali se desenrolava como uma vegetação de rumores. Cantava ao meu ouvido, caracol. Fazia-se humilde e transparente, jogada aos meus pés como um animalzinho, água mansa. Era tão límpida que podia ler todos os seus pensamentos. Certas noites sua pele se cobria de fosforescências e abraçá-la era abraçar um pedaço de noite tatuada de fogo. Mas também se fazia negra e amarga. Nas mais inesperadas horas mugia, suspirava, se contorcia. Seus gemidos acordavam os vizinhos. Quando a ouvia, o vento do mar arranhava a porta da casa ou delirava em voz alta pelos terraços. Os dias nublados a irritavam; quebrava móveis; falava palavrões, cobria-me de insultos e de uma espuma cinza e esverdeada. Cuspia, chorava, blasfemava, profetizava. Sujeita à lua, às estrelas, ao influxo da luz de outros mundos, mudava de humor e de fisionomia de uma maneira que me parecia fantástica, mas que era tal qual a maré.

Começou a queixar-se de solidão. Enchi a casa de caracóis e conchas, pequenos barcos veleiros, que em seus dias de fúria ela fazia naufragar (junto com os outros, carregados de imagens, que todas as noites saíam de minha frente e afundavam nos seus ferozes ou graciosos remoinhos). Quantos pequenos tesouros se perderam naquele tempo! Porém não eram suficientes meus barcos, nem o canto silencioso dos caracóis. Confesso que não sem ciúmes os via nadar na minha amiga, acariciar seus peitos, dormir entre suas pernas, enfeitar seu cabelo com leves relâmpagos de cores. Entre todos aqueles peixes havia uns particularmente repulsivos e ferozes, uns pequenos tigres de aquário, grandes olhos fixos e bocas fendidas e carnívoras. Não sei por que aberração minha amiga tinha prazer de brincar com eles, demonstrando por eles sem rubor uma preferência cujo significado prefiro ignorar. Passava longas horas fechada com aquelas horríveis criaturas.

Um dia não pude mais; derrubei a porta e me joguei sobre eles. Ágeis e fantasmagóricos, escapavam-se entre minhas mãos enquanto ela ria e me batia até me derrubar, Senti que me afogava. E quando estava a ponto de morrer, arroxeado, me depositou na beira e começou a beijar-me, humilhado. E ao mesmo tempo a voluptuosidade me fez fechar os olhos. Porque sua voz era doce e me falava da morte deliciosa dos afogados.

Quando voltei a mim, comecei a temê-la e a odiá-la. Tinha descuidado dos meus assuntos. Voltei a freqüentar os amigos e reatei velhas e queridas relações. Encontrei uma amiga da juventude. Pedindo-lhe que jurasse guardar segredo, contei-lhe minha vida com a onda. Nada comove tanto as mulheres quanto a possibilidade de salvar um homem. Minha redentora usou todas as suas artes, mas o que podia uma mulher, dona de um número limitado de almas e corpos, diante de minha amiga, sempre mutante - e sempre idêntica a si mesma na sua metamorfose incessante? Chegou o inverno. O céu se tornou cinza. O nevoeiro cobriu a cidade. Caía um chuvisco gelado. Minha amiga gritava todas as noites. Durante o dia isolava-se, quieta e sinistra, murmurando uma sílaba só, como uma velha rabugenta que reclama num canto. Ficou fria; dormir com ela era perder a noite e sentir como se gelasse paulatinamente o sangue, os ossos, os pensamentos. Tornou-se impenetrável, revolta. Eu saía com freqüência e minhas ausências eram cada vez mais prolongadas. Ela, no seu canto, uivava longamente. Com os dentes afiados e a língua corrosiva, roia os muros, desmoronava as paredes. Passava as noites acordada, queixando-se de mim. Tinha pesadelos, delirava com o sol, com um grande pedaço de gelo, navegando sob os céus negros nas compridas noites que pareciam meses. Injuriava-me. Amaldiçoava e ria; enchia a casa de gargalhadas e fantasmas. Chamava os monstros das profundidades, cegos, rápidos e obtusos. Carregada de eletricidade, carbonizava tudo o que a roçava. Seus doces braços se tornaram cordas ásperas que me estrangulavam. E seu corpo esverdeado e elástico era um chicote implacável, que batia, batia, batia.

Fugi. Os horríveis peixes riam com risadas ferozes. Lá nas montanhas, entre os altos pinheiros e os despenhadeiros, respirei o ar frio e fino como um pensamento de liberdade. Depois de um mês regressei. Estava decidido. Tinha feito tanto frio que encontrei sobre o mármore da lareira, junto do fogo extinto, uma estátua de gelo. Não me comoveu sua abominável beleza. Joguei-a num grande saco de lona e saí à rua, com a adormecida nas costas. Num restaurante da periferia vendi-a para um garçom amigo, que imediatamente a quebrou em pequenos pedaços, que depositou cuidadosamente nos baldes onde se esfriam as garrafas.

Octavio Paz

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

HUSNU SENLENDIRICI
«Geri Don»

domingo, 30 de março de 2014

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

DAMIEN RICE
«Volcano (Instrumental)»

OUTROS CONTOS

«A Charles Morice», conto poético por Paul Verlaine.

Por aqui:
Poet'anarquista

«A Charles Morice»
Dedicatória do poeta Francês Paul Verlaine, 
ao seu homólogo Charles Morice

105- «A CHARLES MORICE»

Antes de qualquer coisa, música
e, para isso, prefere o Ímpar
mais vago e mais solúvel no ar,
sem nada que pese ou que pouse.
E preciso também que não vás nunca
escolher tuas palavras em ambiguidade:
nada mais caro que a canção cinzenta
onde o Indeciso se junta ao Preciso.
São belos olhos atrás dos véus,
é o grande dia tremulo de meio-dia,
é, através do céu morno de outono,
o azul desordenado das claras estrelas!
Porque nós ainda queremos o Matiz,
nada de Cor, nada a não ser o matiz!
Oh! O matiz único que liga
o sonho ao sonho e a flauta à trompa.
Foge para longe da Piada assassina,
do Espírito cruel e do Riso impuro
que fazem chorar os olhos do Azul
e todo esse alho de baixa cozinha!
Toma a eloquência e torce-lhe o pescoço!
Tu farás bem, já que começaste,
em tornar a rima um pouco razoável.
Se não a vigiarmos, até onde ela irá?
Oh! Quem dirá os malefícios da Rima?
Que criança surda ou que negro louco
nos forjou esta joia barata
que soa oca e falsa sob a lima?
Ainda e sempre, música!
Que teu verso seja um bom acontecimento
esparso no vento crispado da manhã
que vai florindo a hortelã e o timo...
E tudo o mais é só literatura.

Paul Verlaine

sábado, 29 de março de 2014

CARTOON versus DÉCIMA

«No Poupar é que Está a Perda»
HenriCartoon

«NO POUPAR É QUE ESTÁ A PERDA»

-Mister, parece praga…
-Não, perderam os piores
Mas poupei os melhores, 
Pró jogo contra o Braga…
-Mister, isso não estraga?
-Claro, mas eu nasci torto!...
Poupo no Braga pró Porto,
A perda está no poupar
E a cabeça desmotivar…
Joga quem estiver morto!!

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

HAYLEY WESTENRA
«She Moves Through the Fair»
She Moves Through the Fair (classical mix) by Hayley Westenra on Grooveshark
Poet'anarquista

ELA SE MOVE PELA FEIRA

Meu jovem amor disse-me:
Minha mãe não vai se importar
E meu pai não vai desconsiderar você
Por sua falta de jeito

Ela se afastou de mim
E se moveu pela feira
E carinhosamente eu assisti
Movendo aqui e ali
Então ela passou a partir
Apenas uma estrela acordada
Como o cisne da noite
Move-se pelo lago

Noite passada ela veio até mim
Meu morto amor entrou
Tão calmamente veio
Que seus pés não fizeram nenhum barulho
E colocou sua mão em mim
E isso ela não disse
Isso não vai demorar agora

Hayley Westenra

sexta-feira, 28 de março de 2014

CARTOON versus QUADRAS

Portugueses do Amanhã
HenriCartoon

«PORTUGUESES DO AMANHû

-Meus meninos, portem-se bem,
Trabalho pra vocês todos os dias…
Por um país cheio de melhorias,
Mais justo… -e mentiroso também!

-Conclusão: sei que convosco
O futuro está na palma da mão,
Já o mesmo não digo connosco…
-Agarra que é ladrão!

-O que querem os meninos ser
Depois da vida de estudantes?
 -E tem alguma coisa que saber??
Seremos os novos emigrantes!!

POETA

CARTOON versus QUADRAS

A Explosão
HenriCartoon

«A EXPLOSÃO»

-Pareceu-me ouvir barulho, Imediato…
Terá encalhado a nossa embarcação?

-Foi na reforma de pensões, Capitão…
A cabine explodiu com muito aparato!

-Soou realmente uma forte explosão!...
Fuga de gás é perigosa em mar-alto...

-Capitão, bufaria houve aqui de facto!...
Grande rombo, e fuga d’ informação!!

POETA

OUTROS CONTOS

«O Nudista Militante», por Mario Vargas Llosa.

Por aqui:

«O Nudista Militante»
Pietro da Cortona

104- «O NUDISTA MILITANTE»

Durante vários anos, na década de sessenta, um de meus trabalhos principais foi traduzir e ler Les Actualités Françaises, noticiário cinematográfico que a França distribuía semanalmente para a América Latina. A tradução me tomava apenas alguns minutos, mas me detinha toda tarde de quarta-feira nos estúdios de Génnévilliers, nos arredores de Paris. Havia herdado este trabalho de um locutor uruguaio a quem ocorreu a pior tragédia para um homem de sua profissão: tornar-se afônico. O fazia com gosto, pois era bem pago, e me distraía essa saída semanal da cidade, na qual com frequência, na ida ou na volta, costumava fazer uma parada no cemitério de cães de Asniéres, lugar onde está enterrado o célebre Rintintin e que realmente é muito bonito.

A gravação consistia em fugazes entradas na cabine de locução, separadas por compridos intervalos que eu matava lendo, espiando a dobragem de outras películas ou, mais amiúde, conversando com meu amigo projecionista, Monsieur Louis. Dizer conversando é um exagero e uma mentira, pois conversar sugere intercâmbio e reciprocidade, e o nosso consistia exclusivamente em eu escutar o que ele dizia e em, de tempos em tempos, me limitar a intercalar em seu monólogo alguma observação banal, para manter a aparência, e dar a ele e a mim mesmo a impressão de que, de fato, conversávamos. Monsieur Louis era um desses homens que não admitem interlocutores: somente ouvintes.

Devia estar beirando os sessenta e era baixo, magro, com uns cabelos brancos que rareavam, uma tez rosada e uns olhinhos azuis muito tranquilos. Tinha uma voz que nunca se elevava nem endurecia, suave, monótona, persistente, ininterrupta. Vestia sempre um avental branco, imaculado como toda a sua pessoa, e seu rosto ostentava em qualquer ocasião um assomo de sorriso que nunca chegava a materializar-se. Poder-se-ia tomá-lo por um enfermeiro ou um laboratorista pois seu traje, seu semblante e suas maneiras de algum modo faziam pensar em hospitais, doentes e provetas cheias de química. Mas era projecionista e estava ligado ao cinema desde muito jovem. Alguma vez ouvi que, nos anos trinta, trabalhara como cameraman na filmagem clandestina de curtas pornográficos cujos galãs eram, de preferência, cavalheiros tuberculosos, já que estes, dizia ele, tinham ereções prolongadíssimas que, dada a lentidão da rodagem, facilitavam muito as coisas. Mas Monsieur Louis havia deixado esse trabalho por temor à polícia. Na realidade não gostava de falar sobre isso nem de nada que não fosse o tema de sua vida: o nudismo.

Porque Monsieur Louis era nudista. Passava integralmente seu mês de férias na Île du Levant, uma pequena ilha mediterrânea onde funcionava a única colónia de nudistas autorizada na França nesse tempo. Passava os onze meses restantes economizando, trabalhando e contando as horas que faltavam para, com o sol de agosto, voltar a viver por trinta dias ao ar livre, fotografando mariposas e casulos, acendendo fogueiras, queimando-se sobre as rochas ou molhando-se no mar, nu como uma foca. Andar nu, rodeado de pessoas nuas, lhe produzia uma ilimitada felicidade e, aparentemente, lhe resolvia todos os problemas. O nudismo era para ele uma dedicação permanente. Dez minutos após conhecê-lo, descobria-se que não só era seu único tema de conversação como também de reflexão e de ação. Porque assim como outros dedicam seus dias e suas noites a catequizar os demais e ganhá-los para a verdadeira religião ou para a verdadeira revolução, Monsieur Louis havia consagrado os seus a esse inconcebível apostolado: ganhar adeptos para o nudismo.

Nossa boa relação provinha de que ele me considerava um catecúmeno. E eu encorajava essa crença, escutando com verdadeiro interesse, entre as gravações de Les Actualités Françaises, os discursos com que me ia iluminando sobre os fundamentos, segredos, lições e virtudes da filosofia nudista. Explicou-me tudo cem vezes, com argumentos e exemplos que se repetiam, obsessivos, em sua vozinha pausada, confiada, e incansável na propagação da fé. Falou-me da Grécia e da beleza dos corpos que se movem e despregam em liberdade, sem coberturas escravizantes; da comunhão do homem com a natureza, a única que pode devolver-nos a saúde física e a paz espiritual que perdemos por renegar covardemente a nossa primeira nudez; da necessidade de vencer os preconceitos, a hipocrisia, a mentira (em outras palavras: o vestuário) e de restabelecer a sinceridade e a frescura que existem nas relações entre, por exemplo, as aves e os pequenos cervos e que no paraíso terreno existiram também entre os humanos (e a que se devia isso?). Incontáveis vezes assegurou-me que, na Île du Levant, ao despojar-se das roupas, os homens e as mulheres tiravam também os maus pensamentos, os complexos de inferioridade, os vícios. Ouvindo-o, chegava-se quase a convencer-se de que o nudismo era aquela panaceia universal, cura de todos os males, que os alquimistas medievais buscaram com tanto desespero.

As lições não eram somente orais. Monsieur Louis me levava folhetos proselitistas e fotografias coloridas da ilha da liberdade. Aí estavam os nudistas, de corpo inteiro, a aí estava ele, rosáceo, helênico, bebendo o néctar das flores ou picando alegremente uns tomates, enquanto uma jovenzinha de lindos seios e púbis encaracolado refrescava umas alfaces. Durante um bom tempo chegaram em minha casa formulários, boletins de subscrição, convites de clubes nudistas, que nunca preenchi nem respondi.

Porque, apesar de seus esforços, Monsieur Louis não me ganhou para o nudismo. Mas, em compensação, me ajudou a identificar uma variedade humana que, sob diferentes roupas e afazeres, encontra-se pavorosamente estendida pelo mundo. O que recordo dele, sobretudo, é seu olhar: tranquilo, fixo, irredutível, cego para tudo o que não fosse ele mesmo. É um olhar que, em parte graças a ele, reconheço com facilidade e que vi reaparecer, multiplicada, uma e outra vez em religiosos e revolucionários, em intelectuais e em moralistas, sobretudo em ideólogos de toda espécie. É o olhar do que pensa ser dono da verdade, do que não se distrai, do que nunca duvida, do humano mais prejudicial: o fanático.

Mario Vargas Llosa

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

STEVIE RAY VAUGHAN
«Boiler Maker»

quinta-feira, 27 de março de 2014

CORDEL DAS DÉCIMAS

Mote do poeta com heterónimo «Versos Diversos», e glosas de Matias José com dedicatória ao seu homólogo. Tudo começou no Altejo, e como não podia deixar de ser, o tema poesia deu azo a uma troca de opiniões sobre as décimas populares. Ficam nesse registo alguns comentários, as décimas populares e duas quadras que podem ser consultadas por aqui- «DIREITO DE RESPOSTA», publicação no Altejo de 24 de Março de 2014.
Poet'anarquista
Poesia Popular
Cordel das Décimas

Mote

Nunca supus que os meus versos
Merecessem tais distinções...
Assino: Versos Diversos
...Em certas ocasiões!

«Versos Diversos»

Glosas

CORDEL DA DÉCIMA

Qualquer coisa que suponho
Interrogo-me:  é ou não é?…
Tenha mais ou menos fé,
Imagino-a como num sonho.
Dou então por mim risonho
Em sentimentos dispersos,
Chegam mesmo a ser inversos
Ao que penso do seu real valor,
Por não me julgar professor…
«Nunca supus que os meus versos!»

 Foi de todo escolha péssima
A palavra empregue pra rimar...
Não é correcto a mesma usar,
Estava assim «furada» a décima!
Seja então na duodécima
Ou quaisquer outras posições,
Quem duplicar comete infrações
Às regras, que são mais-valias,
Não creio que as minhas poesias
«Merecessem tais distinções!»

Todo o poeta secretamente
Desenvolve os seus poemas,
Sobre os mais variados temas
Que vão fluindo de sua mente.
Constrói escrupulosamente
 Vagueando entre universos,
Os versos que serão impressos
Com normas, nunca esquecer…
Escreveu então pra agradecer:
«Assino: Versos Diversos».  

Desta forma dizer-lhe obrigado
P’la sua chamada de atenção,
As décimas com correcção
Têm um sabor mais refinado!
No Altejo ficou registado
Uma boa troca de impressões,
Esclarecidas certas questões
Humildemente peço desculpa…
A poesia é que não tem culpa,
«… Em certas ocasiões!»

Matias José

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

THE PASSENGER - «Let Her Go»
Let Her Go by The Passenger on Grooveshark
Poet'anarquista

A DEIXOU IR

Bem, você só precisa da luz quando está escurecendo
Só sente falta do sol quando começa a nevar
Só sabe que a ama quando a deixa ir
Só sabe que estava bem quando se sente mal
Só odeia a estrada quando sente saudade de casa
Só sabe que a ama quando a deixa ir
E você a deixou ir

Olhando para o fundo do seu copo
Esperando que um dia você faça um sonho durar
Porque sonhos chegam devagar e se vão muito rápido
Você a vê quando fecha seus olhos
Talvez um dia você entenda o porquê
De que tudo o que você toca seguramente, morre

Mas, você só precisa da luz quando está escurecendo
Só sente falta do sol quando começa a nevar
Só sabe que a ama quando a deixa ir
Só sabe que estava bem quando se sente mal
Só odeia a estrada quando sente saudade de casa
Só sabe que a ama quando a deixa ir

Olhando para o teto no escuro
O mesmo velho sentimento de vazio em seu coração
Porque o amor vem devagar e se vai muito rápido
Bem, você a vê quando adormece
Mas para nunca tocar e nunca manter
Porque você a amava muito
E você mergulhou fundo demais

Bem, você só precisa da luz quando está escurecendo
Só sente falta do sol quando começa a nevar
Só sabe que a ama quando a deixa ir
Só sabe que estava bem quando se sente mal
Só odeia a estrada quando sente saudade de casa
Só sabe que a ama quando a deixa ir
E você a deixou ir

Ooooo ooooo oooooo
E você a deixou ir
Ooooooo ooooo ooooo
Bem, você a deixou ir

Pois você só precisa da luz quando está escurecendo
Só sente falta do sol quando começa a nevar
Só sabe que a ama quando a deixa ir
Só sabe que estava bem quando se sente mal
Só odeia a estrada quando sente saudade de casa
Só sabe que a ama quando a deixa ir

Pois você só precisa da luz quando está escurecendo
Só sente falta do sol quando começa a nevar
Só sabe que a ama quando a deixa ir
Só sabe que estava bem quando se sente mal
Só odeia a estrada quando sente saudade de casa
Só sabe que a ama quando a deixa ir

E você a deixou ir

The Passenger

quarta-feira, 26 de março de 2014

CARTOON versus QUADRA

O Principal Suspeito
HenriCartoon

«O PRINCIPAL SUSPEITO»

-Não gosto desses olhares pra mim!
Qualquer um pode cair na pobreza…

-Estamos caídos faz tempo sem fim…
Cai agora tu, que a malta está tesa!

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

THE CORRS
«Lough Erin Shore»

SAUDAÇÃO ENTRE POETAS

Saudação cordial entre dois poetas (só podia ser...)
Poet'anarquista
«Saudação entre Poetas»
Drummond de Andrade e Mário Quintana

«AMIZADE POÉTICA»

Não tem que pedir desculpa!...
Acontece até aos melhores
Às vezes momentos piores,
Sem que disso tenham culpa.
Quando a cabeça se ocupa
E o pensar é interrompido,
Pode dar-se por perdido
Muito tempo a magicar...
Não me estou a desculpar,
O assunto está resolvido!!

Matias José

Olha! Por esta não esperava eu...
Então, lá vai!


"O assunto está resolvido!!"
E resolvido a bom gosto.
Mau seria o oposto...
Noto que não está ofendido!
Eu fico-lhe agradecido
E pela sua bondade,
Dou-lhe a minha amizade
E se a quiser receber,
Eu dá-me um grande prazer
Ter amigos de verdade!

Boa noite e obrigado.

Versos Diversos

Fim de saudação!

PENSAMENTO DO DIA...

Tennessee Williams
Escritor e Dramaturgo Norte-Americano


Pensamento do dia...

«Estamos todos condenados à prisão solitária, dentro da nossa própria pele, para toda a vida» 

Tennessee Williams

OUTROS CONTOS

«Fala comigo doce como a chuva», por Tennesse Williams.

«Fala comigo doce como a chuva»
Pintura de Marc Allante

103- «FALA COMIGO DOCE COMO A CHUVA»

Dentro de um quarto de pensão, um homem está deitado na cama, acaba de despertar. Não usa mais do que cuecas, velhas e amarrotadas, enquanto sua mulher, num quimono cor-de-rosa, está sentada numa cadeira junto à janela. Lá fora o céu está cinzento, carregado de uma chuva que a qualquer instante haverá de cair. Ela segura um copo de água do qual, com gestos nervosos, toma pequenos goles. Ambos têm rostos jovens e desolados como os rostos de crianças sobreviventes em países devastados pela fome.
        Que horas são?, pergunta ele com voz rouca. Ao que ela responde murmurando qualquer coisa inaudível. O quê, meu bem?, insiste ele.
        Domingo, responde ela.
        Eu sei que é domingo. Você nunca dá corda no relógio.
        Ela bebe outro gole d’água. Seus braços delicados e magros se esforçam para suportar o peso do copo que parece puxá-la para frente como se o peso dos anos estivesse contido no liquido que ela, trêmula, agora sorve. O homem a observa da cama, solene e ao mesmo tempo carinhoso. Ao longe se pode escutar uma música, suave, cristalina — um bandolim. De onde viria? Talvez do quarto ao lado, ele conclui.
        Será que eu descontei o meu cheque de desemprego?, ele pergunta.
        Começa a chover, forte, fazendo os pombos esvoaçarem com estardalhaço pela janela ao lado da mulher e seu pesado copo de água. De algum outro quarto, agora também se escuta a voz de uma criança que cantarola:
        Chuva, chuva, vai embora! Volta novamente num outro dia!
        Sem fôlego a mulher começa a rir, enquanto o homem, desanimado, continua a falar.
        Eu espero não ter descontado o meu cheque. Onde está a minha roupa? Procura nos meus bolsos e vê se o cheque está comigo.
        Você voltou quando eu tinha saído para te procurar, pegou o cheque na cama e deixou um bilhete que eu não pude entender, defende-se ela.
        Você não entendeu o bilhete?
        Somente um número de telefone, eu telefonei mas o barulho era tanto que não pude escutar coisa alguma.
        Barulho? Aqui?
        Não, barulho lá.
        Aonde lá?
        Eu não sei. Alguém disse “vem pra cá” e desligou e tudo que eu consegui depois foi um sinal de ocupado.
        Quando eu acordei, eu estava numa banheira cheia de cubos de gelo derretendo e cerveja. Minha pele estava azul. Eu estava respirando com dificuldade numa banheira cheia de cubos de gelo. Era perto de um rio, mas não sei se era o East ou o Hudson. As pessoas fazem coisas horríveis quando alguém está inconsciente nesta cidade. Eu estou todo dolorido, como se tivessem me dado pontapés escada abaixo, não como se eu tivesse caído, mas como se tivesse sido chutado. Eu me lembro de uma vez que rasparam todo o meu cabelo. Outra vez me enfiaram numa lata de lixo, em um beco e eu acordei com cortes e queimaduras no meu corpo. Gente má abusa de você quando você está inconsciente. Quando eu acordei estava despido numa banheira cheia de cubos de gelo que derretiam. Eu me arrastei pra fora da banheira, fui para a sala e alguém estava saindo pela outra porta quando eu entrei e, eu abri a porta e ouvi a porta de um elevador fechando e vi as portas de um corredor de hotel. A TV estava ligada e havia um disco tocando ao mesmo tempo; a sala estava cheia de carrinhos de chá carregados de coisas da copa, presuntos inteiros, perus inteiros, sanduíches de três andares já velhos e ficando duros, e garrafas, garrafas e mais garrafas de todos os tipos de bebidas que ainda nem tinham sido abertas, e baldes de gelo derretendo… Alguém fechou uma porta quando eu entrei… Quando eu entrei alguém estava saindo. Eu ouvi a porta de um elevador fechar… Tudo espalhado pelo chão daquele quarto perto do rio, coisas, roupas por todo lado… Soutiens! Calcinhas! Camisas, gravatas, meias e outras coisas…
          Roupas?, pergunta ela baixinho.
        Sim, todo tipo de coisas pessoais e vidro quebrado e móveis derrubados, como se estivesse acontecendo uma briga do tipo vale-tudo na rua e a polícia tivesse dado uma batida policial.
        Oh.
        Deve ter havido violência naquele lugar…
        E onde você estava?
        Na banheira, gelado…
        Oh…
        E eu me recordo de pegar o telefone para perguntar o nome do hotel, mas não me lembro se eles me disseram ou não. Me dá um gole de água.
        Os dois se levantam e se encontram no meio do quarto. O copo é passado de uma mão para outra com seriedade. O homem começa a bochechar olhando fixamente para ela, e cruza para cuspir a água pela janela. Em seguida volta e devolve o copo para ela. Ela toma mais um pouco de água. De modo carinhoso, ele desliza os dedos sobre o longo pescoço dela.
        Agora que recitei a ladainha de minhas tristezas, continua ele, o que você tem para me contar? Diga-me um pouco do que está se passando dentro do…
        Os dedos dele passam sobre a testa e os olhos dela que fecha os olhos e levanta a mão no ar como se fosse tocá-lo. Ele pega sua mão e beija seus dedos apertando-os contra seus lábios. Ao fundo se escuta o bandolim, a chuva… Ela toca seu peito magro e ossudo como de uma criança, toca seus lábios com afeto. Os dedos dele deslizam pelo pescoço dela e pela abertura do quimono enquanto o bandolim toca e toca com mais e mais força. Então ela se volta e se encosta no corpo magro dele curvando o pescoço sobre seus ombros pontudos. A mão dele correndo no pescoço dela quando ele diz:
        Faz tanto tempo que não estamos juntos… quase como dois estranhos vivendo juntos. Vamos nos reencontrar e talvez não ficaremos mais perdidos. Fala comigo! Eu estive perdido! Eu pensei em você muitas vezes, porém não podia lhe telefonar, meu bem. Pensei em você o tempo todo mas não podia telefonar. O que eu poderia dizer se telefonasse? Poderia dizer, estou perdido? Perdido nesta cidade? Jogado de um lado para o outro entre o povo como um cartão postal sujo? E depois de desligar o telefone… Eu estou perdido nesta cidade…
        A única coisa que botei na boca desde que você saiu foi água!, ela diz quase que alegre, sorrindo. O Homem a abraça com desespero num grito suave e chocado. Nada a não ser café instantâneo até que acabou… e água.
        Ela ri convulsivamente. A chuva cai. O bandolim canta.
        Você pode falar comigo, bem? Você pode falar comigo agora!, ele quase implora.
        Sim!, ela sorri.
        Então fala comigo como se fosse a chuva e me deixa ouvir, me deixa deitar aqui e ouvir…
        Ele se deixa cair para trás atravessado na cama, vira-se sobre o estômago com um braço caindo do lado, batendo um ritmo no piso com os dedos da mão fechada. O bandolim continua.
        Faz tanto tempo que não nos entendemos, ele prossegue. Agora me conta as coisas. O que você tem pensado em silêncio? Enquanto eu era jogado de um lado para outro nesta cidade como se fosse um cartão postal sujo… Me conta, fala comigo como se fosse a chuva e eu ficarei deitado aqui e ouvirei.
        Eu… Eu quero ir embora.
        Você quer?
        Sozinha!, ela volta para a janela. Eu me registrarei sob um nome falso num pequeno hotel na costa…
        Que nome?
        Anna Jones… A arrumadeira será uma pequena velhinha que tem um neto e ela fala sobre ele… eu sentarei numa cadeira enquanto a velhinha faz a cama, meus braços cairão dos lados da cadeira, e… a voz dela será… tranquila… Ela me contará o que o neto comeu no almoço! Mingau de tapioca… O quarto estará na penumbra, fresco, e cheio de murmúrio da…
        Chuva?
        Sim. Chuva. A ansiedade desaparecerá.
        Sim…
        Depois de algum tempo a velhinha dirá, sua cama está feita, Senhorita, e eu direi – Obrigada… Tire um dólar da minha carteira para você. A porta fechará. E eu ficarei sozinha novamente. As janelas serão altas com venezianas azuis e será a estação da chuva… Minha vida será como o quarto, fresco… cheia de sombra fresca e do murmúrio da…
        Chuva…
        Eu receberei um cheque pelo correio toda semana no qual eu possa confiar. A pequena velhinha irá ao banco descontar meu cheque e me trará livros da biblioteca e pegará minha roupa lavada… Eu sempre terei coisas limpas! Eu me vestirei de branco. Eu nunca serei muito forte nem terei muita energia, porém depois de algum tempo terei energia suficiente para andar na calçada, para passear na praia sem esforço… À noite eu passearei na calçada junto à praia. Eu terei um certo lugar onde me sentarei, um pouco afastada do pavilhão onde a banda toca as músicas de Victor Herbert ao anoitecer… Eu terei um quarto grande com venezianas na janela. Haverá uma estação de chuva, chuva, chuva. E eu estarei tão cansada de uma vida passada na cidade que eu não me importarei de ficar apenas ouvindo a chuva. Eu ficarei tão quieta. As rugas desaparecerão do meu rosto. Meus olhos não ficarão mais inflamados. Eu não terei amigos. Eu nem sequer terei conhecidos. Quando eu ficar com sono, andarei devagarzinho de volta para o pequeno hotel. O empregado dirá, Boa Noite, Senhorita Jones, e eu apenas sorrirei e pegarei minhas chaves. Eu nunca olharei um jornal ou escutarei o rádio; eu não terei a menor ideia do que está acontecendo no mundo. Eu não terei consciência da passagem do tempo… Um dia eu me olharei no espelho e notarei que meus cabelos começam a embranquecer e pela primeira vez terei consciência de estar vivendo neste pequeno hotel sob um nome falso, sem amigos ou conhecidos de qualquer tipo por vinte e cinco anos. Isto vai me surpreender um pouco mas não me incomodará nem um pouco. Eu ficarei contente que o tempo tenha passado tão facilmente assim. De vez em quando eu talvez vá ao cinema. Sentarei nas filas de trás, com toda a escuridão ao meu redor e, ficarei sentada com as pessoas imóveis ao meu lado sem tomarem conhecimento da minha presença. Olhando a tela. Pessoas imaginárias. Pessoas das estórias. Lerei grandes livros e os diários de escritores mortos. Eu me sentirei mais próxima deles do que das pessoas que conheci antes de ter me retirado do mundo. Esta minha amizade com poetas mortos será doce e refrescante, porque não terei que tocá-los ou responder suas perguntas. Eles falarão comigo sem esperar minhas respostas. E ficarei sonolenta ouvindo suas vozes explicando os mistérios pra mim. Dormirei com o livro ainda entre os dedos, e choverá. Acordarei e ouvirei a chuva e tornarei a dormir. Uma estação de chuva, chuva, chuva… Então um dia, quando tiver fechado um livro ou voltado sozinha do cinema para casa às onze horas da noite. Olharei no espelho e verei que meu cabelo ficou branco. Branco, completamente branco. Tão branco quanto a espuma das ondas.
        Ela se levanta e anda pelo quarto enquanto continua a falar.
        Passarei as mãos pelo meu corpo e sentirei o quanto fiquei leve e magra. Oh, como estarei magra. Quase transparente. Quase irreal. Então compreenderei, saberei, de modo vago, que estava morando neste pequeno hotel, sem nenhuma relação social, responsabilidade, ansiedades ou perturbações de qualquer tipo por quase cinquenta anos. Meio século. Praticamente uma vida inteira. Nem sequer me lembrarei dos nomes das pessoas que conhecia antes de vir para cá, nem da sensação de ser alguém esperando por alguém que… talvez não venha… Então saberei… olhando no espelho que pela primeira vez chegou o momento de andar sozinha mais uma vez na calçada com o vento forte batendo em mim, o vento limpo e branco que vem do princípio do mundo, ainda mais além do que isto, vem do princípio do espaço, ainda mais além de qualquer coisa que haja além do princípio do espaço…
        Ela senta novamente, sem muita firmeza, perto da janela.
        Então sairei e andarei pela calçada. Andarei sozinha e serei empurrada pelo vento e ficarei pequenina, pequenina.
        Amorzinho. Vem para a cama, ele chama.
        A mulher torna a se levantar, com dificuldade, e segue em direção ao homem, a chuva caindo, o bandolim soando.
        Pequena, pequena, pequena e mais pequenina e pequenina! Até que finalmente não teria mais corpo e o vento viesse me tomar em seus braços brancos e refrescantes para sempre, e me levasse embora!
        Sentado à beirada da cama, ele a segura e aperta a boca contra seu pescoço, os olhos cheios de nuvens, como o céu molhado que castiga a cidade com a chuva que não cessa. Mas ela se solta e volta para o centro do quarto soluçando descontroladamente.
        Eu quero ir embora… Eu quero ir embora, ela fala baixinho de forma dolorosa.
        O homem suspira e, se levantando, caminha até a janela onde se debruça, ao passo que ela se senta na cama. As luzes da cidade piscam doídas e a chuva cai ainda mais forte. O vento sopra frio e ela, tremendo, cruza os braços contra o peito. Seus soluços morrem. O bandolim já não toca mais, apenas a chuva, a chuva, a chuva, enquanto ela diz:
        Volta para a cama. Volta para a cama, meu amor…
        E o homem se volta para ela com uma expressão perdida.
        A chuva cai.

Tennesse Williams

terça-feira, 25 de março de 2014

A POESIA POPULAR, POR JRGASPAR

Por aqui:

José Rabaça Gaspar
Professor de Língua Portuguesa

A POESIA E O CANCIONEIRO POPULAR PORTUGUÊS

Sobre o cancioneiro... 

E termina assim a sua introdução (Maria Arminda Zaluar Nunes, in CANCIONEIRO POPULAR PORTUGUÊS, coligido por josé Leite de Vasconcellos, coordenado e com introdução de MAZN, vol. I, por Ordem da Universidade, 1975, p. XXXIX:

“As cantigas são valiosas nos seus aspectos literário, filológico e etnográfico. É o Cancioneiro importantíssimo documento para a revelação do povo português, encarado tanto na sua vida psíquica como na material e na evolução dentro do meio em que habita. Conceitos de vida, sentimentos, usos e costumes tradicionais, frequentemente já obliterados nas classes evoluídas, tudo aí se espelha.”

E termina:

“Não será insistência demasiada recordar que eminentes etnógrafos da actualidade são concordes em que, para o perfeito conhecimento dum país, é imprescindível o estudo das suas manifestações não só cultas mas também populares.”

Sobre as décimas...

Seria bom ouvir aqui, só de Manuel de Castro, “Fui nova cortante enxada...” e “Em tudo sinto poesia...”

- De mineral, a metal, a enxada que se gastou até ir para a um canhão, tudo isto dito como quem fala e fala como quem canta, temos aí alimento para ver a vida do Homem e da Humanidade!!!

- O encanto perante as maravilhas da Natureza e da Vida, desde o mais simples, aos sons sotaques, aos montes e montanhas, é um Cântico que é muito raro encontrar em poesia!!!

Eis aí um desafio que o Povo lança aos estudiosos, com o respeito, a tolerância, a seriedade que é apanágio dos verdadeiros estudiosos que buscam a sabedoria.

As décimas, pela sua raridade, pela sua originalidade, pelo seu enraizamento em certas regiões do Sul do país, são ou devem ser consideradas de alto valor artístico, são ou devem ser consideradas património inalienável da Humanidade, talvez não como catedrais, mas pelo menos como jóias de uma arquitectura rara, e para nossa glória, são, obra do Povo, que não foi à Escola, se foi não as aprendeu na Escola, porque a Escola nem sequer lhe tem dado a atenção, que esta extraordinária forma de expressão poética, merece. Somos nós que temos de fazer este estudo e de o apreciar devidamente, ou estamos à espera que os estranhos o venham fazer?

As décimas, caro leitor e amigo, acho que têm a magia e o encanto daqueles misteriosos livros circulares que todos desejavam ter ou escrever, mas que os monges medievais disseram não existir nas suas bibliotecas, nem nunca ter existido, como denuncia Humberto Eco no seu labiríntico Nome da Rosa.

Assim, após longas e aturadas investigações, chegámos à conclusão que pode começar a ler uma décima por onde lhe aprouver.


Dando seguimento... (não faz parte do texto de José Rabaça Gaspar)

Saudação cordial entre dois poetas (no Poet'anarquista, só podia ser...)

«AMIZADE POÉTICA»

Não tem que pedir desculpa!...
Acontece até aos melhores
Às vezes momentos piores,
Sem que disso tenham culpa.
Quando a cabeça se ocupa
E o pensar é interrompido,
Pode dar-se por perdido
Muito tempo a magicar...
Não me estou a desculpar,
O assunto está resolvido!!

Matias José


Olha! Por esta não esperava eu...
Então, lá vai!


"O assunto está resolvido!!"
E resolvido a bom gosto.
Mau seria o oposto...
Noto que não está ofendido!
Eu fico-lhe agradecido
E pela sua bondade,
Dou-lhe a minha amizade
E se a quiser receber,
Eu dá-me um grande prazer
Ter amigos de verdade!

Boa noite e obrigado.

Versos Diversos

Fim de saudação!


Continuação do texto de José Rabaça Gaspar...

O mote, ou quadra redonda se for perfeita ou de rima quadrada, há-de dar-lhe o quadrado que se vai transformar num círculo, à medida que as décimas, que vão terminar em cada verso, começarem a girar, construindo a circulatura do quadrado, ou a quadratura do círculo, que nunca foi conseguida por nenhuma das artes.

Só esta arte, de cariz e índole popular e tradicional, pela sua ingenuidade e ousadia, tenta ir mais além daquilo que as ciências exactas e as exegeses eruditas permitem arriscar.

Talvez seja mesmo a realização da «utopia».

Ousamos pois dizer que, através da magia das «décimas, a utopia é possível».

José Rabaça Gaspar

PENSAMENTO DO DIA...

Friedrich Novalis
Filósofo e Poeta Alemão


Pensamento do dia...

«A poesia é o autêntico real absoluto. Isto é o cerne da minha filosofia. 
Quanto mais poético, mais verdadeiro»

Novalis

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(25 de Março de 1881, nasce o compositor, pianista e musicólogo húngaro, Béla Bartók)

BÉLA BARTÓK
«Folkdances Romenos»

OUTROS CONTOS

«A Vingança do Prestidigitador», por Stephen Leacock.

«A Vingança do Prestidigitador»
Conto de Stephen Leacock

112- «A VINGANÇA DO PRESTIDIGITADOR»

— Agora, senhoras e senhores — disse o mágico —, tendo-lhes mostrado que este pano está absolutamente vazio, passo a retirar dele um aquário de peixes dourados. Pronto!
Em torno dele, a assistência comentava:
— Que maravilha! Como será que ele faz?
Mas o Homem Sabido da cadeira da frente disse, num cochicho audível, às pessoas ao lado:
— Ele o tinha escondido na manga.
Então a assistência fez ao Homem Sabido, com a cabeça, um sinal de concordância inteligente, e disse:
— Claro!
E todos cochicharam pelo salão:
— Ele o tinha escondido na manga.
— Agora, a minha mágica — disse o prestidigitador — são as famosas argolas hindustânicas. Observem que as argolas estão, evidentemente, separadas; um sopro, e ei-las juntas (tlim, tlim tlim)... Presto!
Houve um murmúrio geral de estupefação, até que se ouviu o Homem Sabido murmurar:
— Ele devia ter outras argolas escondidas na manga.
Outra vez todos concordaram com a cabeça, e cochicharam:
— As argolas estavam na manga dele.
O semblante do mágico anuviou-se, com um franzir de sobrancelhas.
— Agora — continuou — vou-lhes mostrar uma mágica bem divertida, que me permite retirar de um chapéu qualquer quantidade de ovos. Um dos cavalheiros aqui presentes poderia ter a gentileza de emprestar-me o seu chapéu? Ah, muito obrigado... Presto!
Extraiu dezessete ovos, e durante trinta e cinco segundos a assistência começou a pensar que ele era maravilhoso. E então o Homem Sabido cochichou pelo banco da frente:
— Ele tem uma galinha escondida na manga.
E todo mundo cochichou adiante a novidade:
— Ele tem uma porção de galinhas escondidas na manga.
A mágica dos ovos foi um desastre.
E o espetáculo continuou mais ou menos assim. Pelos cochichos do Homem Sabido, percebeu-se que o mágico devia ter escondido na manga, além das argolinhas e peixes, diversos baralhos, um pão, um berço de boneca, um porquinho-da-índia vivo, uma moeda de cinqüenta centavos e uma cadeira de balanço.
A reputação do mágico descera rapidamente abaixo de zero. Pelo fim da noite, ele reanimou-se para um esforço final:
— Minhas senhoras e meus senhores, para terminar, apresentarei uma formosa mágica japonesa, recentemente inventada pelos habitantes de Tipperary. O cavalheiro aí — continuou, dirigindo-se ao Homem Sabido —, o cavalheiro quer ter a bondade de entregar-me o seu relógio de ouro?
O relógio foi-lhe entregue.
— O cavalheiro me autoriza a colocá-lo neste almofariz e a despedaçá-lo? — perguntou, fulo de raiva.
O Homem Sabido disse que sim com a cabeça, e sorriu.
O mágico atirou o relógio no almofariz e agarrou um malho que se achava em cima da mesa. Ouviu-se um barulho de algo esmagado com violência.
— Ele o escondeu na manga — cochichou o Homem Sabido.
— Agora, cavalheiro — continuou o mágico —, permite-me tomar o seu lenço e esburacá-lo? Obrigado. Vejam, senhoras e senhores, não há engano possível; todos estão vendo os buracos.
O Homem Sabido estava radiante. Desta vez o mistério real da coisa fascinava-o.
— E agora, cavalheiro, quer ter a bondade de passar-me o seu chapéu de seda e permitir-me dançar em cima dele? Obrigado.
O mágico fez alguns passes rápidos, desta vez com os pés, e exibiu o chapéu, irreconhecível de tão amassado.
— E agora, cavalheiro, quer ter a bondade de retirar seu colarinho de celulóide e permitir-me queimá-lo com a vela? Obrigado, cavalheiro. E permite-me espatifar os seus óculos com o meu martelo? Obrigado.
Por essas alturas, as feições do Homem Sabido estavam tomando uma expressão de perplexidade.
— Não compreendo este negócio — cochichou. — Não consigo entendê-lo nem um pouquinho.
Fez-se grande silêncio no auditório. Então o mágico se empertigou em toda a sua estatura e, com um olhar fulminante para o Homem Sabido, concluiu:
— Senhoras e senhores, queiram observar que, com a permissão deste cavalheiro, quebrei-lhe o relógio, queimei-lhe o colarinho, espatifei-lhe os óculos e dancei-lhe em cima do chapéu. Se ele me permitir ainda pintar-lhe o sobretudo de listras verdes e dar-lhe um nó nos suspensórios, ficarei encantado em poder divertir os meus espectadores. Caso contrário, está terminado o espetáculo.
Envolto numa explosão de música da orquestra, caiu o pano e a assistência dispersou-se, convencida de que há algumas mágicas, pelo menos, que não dependem da manga do mágico.

Stephen Leacock