quarta-feira, 30 de abril de 2014

CARTOON versus QUADRAS

A Melhor Escolha
HenriCartoon

«A MELHOR ESCOLHA»

-Dado o nosso desconhecimento
Em estratégia orçamental sofrível,
É melhor alguém sério e credível
Pra nos apresentar o documento…

-E quem achas poder estar à altura
Desse importante acontecimento?

-Qualquer marreta, sua cavalgadura...
Que vocês tem mais conhecimento!

POETA

OUTROS CONTOS

«A Árvore», por Sophia de Mello Breyner Andresen.

«A Árvore»
Árvore Japonesa

133- «A ÁRVORE»

Era uma vez – em tempos muito antigos, no arquipélago do Japão – uma árvore enorme que crescia numa ilha muito pequenina.

Os japoneses têm um grande amor e um grande respeito pela Natureza e tratam todas as árvores, flores, arbustos e musgos com o maior cuidado e com um constante carinho.

Assim, o povo dessa ilha sentia-se feliz e orgulhoso por possuir uma árvore tão grande e tão bela: é que em nenhuma outra ilha do Japão, nem nas maiores, existia outra árvore igual. Até os viajantes que por ali passavam diziam que mesmo na Coreia e na China nunca tinham visto uma árvore tão alta, com a copa tão frondosa e bem formada.

E, nas tardes de Verão, as pessoas vinham sentar-se debaixo da larga sombra e admiravam a grossura rugosa e bela do tronco, maravilhavam-se com a leve frescura da sombra, o suspirar da brisa entre as folhagens perfumadas.

Assim foi durante várias gerações.

Mas, com o passar do tempo, surgiu um problema terrível, e por mais que todos meditassem e discutissem, ninguém era capaz de arranjar uma boa solução.

Porque, ao longo dos anos, a árvore tinha crescido tanto, os seus ramos tinham-se tornado tão compridos, a sua folhagem tão espessa e a sua copa tão larga que, durante o dia, metade da ilha ficava sempre à sombra.

De maneira que metade das casas, das ruas, das hortas e dos jardins nunca apanhava sol.

E, na metade ensombrada, as casas estavam a ficar húmidas, as ruas tinham-se tornado tristes, as hortas já não davam legumes, os jardins já não davam flor. E a gente que ali morava andava sempre pálida e constipada.

E, à medida que a sombra da árvore crescia, crescia também a perturbação.

As pessoas gemiam:

— Que havemos de fazer? Que havemos de fazer?

* * *

Até que foi decidido a população reunir-se toda em conselho para examinar bem o problema e decidir o remédio que devia dar-lhe.

Discutiram durante muitos dias e, depois de todos terem falado, chegou-se à triste conclusão de que era preciso cortar a árvore.

Houve choros, lamentações, gemidos.

A árvore era bela, antiga e venerável. Fazê-la desaparecer era um acto que não só entristecia os habitantes da ilha mas que também os assustava.

Mas não havia outro remédio e quase todos acabaram por concordar com o corte.
No lugar onde antes ela se erguia, plantaram um pequeno bosque de cerejeiras, pois as cerejeiras nunca crescem muito.

* * * 

Abater a árvore foi difícil e toda a gente teve de ajudar.

Mas, depois de cortada, ela ocupava tanto espaço que a ilha ficou quase sem lugar para mais nada. Por isso começaram a desfazê-la: primeiro cortaram os ramos e as pernadas e a sua madeira foi distribuída entre todos, para que cada um pudesse fabricar alguma coisa que lhe lembrasse a árvore tão amada.

Alguns fabricaram pequenas mesas, outros, varandas para as suas casas, outros, caixilhos para os biombos, outros, caixas, tabuleiros, tigelas, colheres, pentes e ganchos para as mulheres espetarem no cabelo. No fim ficou só o enorme e grosso tronco nu, deitado através da ilha.

Então começaram a chegar viajantes e armadores que queriam aquela óptima madeira para fabricar barcos.

Mas a população não quis. Reuniram todos outra vez em conselho e decretaram:— Os habitantes desta ilha não querem separar-se da sua árvore que, antes de crescer demais, lhes deu tanta alegria. Vamos nós próprios construir o nosso barco. E assim foi. Depois da chuva do Outono, deixaram o tronco secar durante longos meses e, logo que viram que a madeira já estava bem seca, meteram mãos à obra. E, como são um povo muito inteligente, os japoneses, que trabalham muito bem, muito depressa, com muito esmero e são óptimos carpinteiros, construíram rapidamente uma grande e linda barca toda esculpida e pintada de muitas cores. Então houve uma grande festa e a barca foi lançada ao mar. À noite houve fogo de vista e em todas as ruas e praças se acenderam balões de papel, azuis, amarelos e vermelhos.

* * *

Assim, durante muitos anos, a vida naquela ilha correu com muita alegria e animação.
Mas apesar dessa alegria, apesar dos bons negócios e dos grandes passeios, todos se lembravam com saudade da velha árvore.— Como era alta e bela! — diziam.— Como a sua sombra era perfumada!— Como era doce e leve o sussurrar da brisa nas suas folhas!— Como a sua copa era redonda e bem formada!— Como as suas folhas eram verdes e bem desenhadas!— Como era tão suave a frescura debaixo dos seus ramos, nas manhãs de Verão!E, assim, entre palavras e pensamentos, a árvore nunca era esquecida.

* * *

E os anos foram passando. Até que os marinheiros e os calafates descobriram que estava a acontecer uma grande desgraça: A madeira da quilha da grande barca tinha começado a apodrecer.— Ai de nós! — choravam os habitantes. — Não vamos dar mais passeios pelo mar. Nas noites de lua cheia, não vamos visitar mais as outras ilhas, não vamos fazer mais negócios. Mas os comerciantes sossegaram-nos.— Durante estes anos — disseram eles — graças à nossa grande barca, andámos a navegar de ilha em ilha, de porto em porto, a comprar e a vender, e fizemos negócios tão bons que juntamos muito dinheiro. Por isso, como aqui não há outra árvore enorme, e as árvores que agora temos fazem muita falta se forem cortadas, estamos dispostos a ir às outras ilhas comprar boa madeira. E todos juntos podemos construir outra grande barca. A população aplaudiu o discurso e concordou com o projecto e daí a poucos meses a barca nova ficou pronta e logo a puseram a flutuar. Então, a barca velha foi arrastada para a praia. O povo cercou-a em silêncio com grande tristeza, e os carpinteiros e os calafates examinaram-na tábua por tábua. A madeira do casco, do convés e dos bancos estava quase toda semi-apodrecida e só servia para queimar. Mas o mastro grande, que tinha sido tirado do cerne da velha árvore, continuava são e bem conservado.— Temos que fazer com este mastro alguma coisa que nos lembre a nossa árvore antiga e a nossa barca — disse o chefe da ilha. Depois de muito pensar resolveram fazer uma biwa, que é uma espécie de guitarra japonesa. Quando a obra ficou pronta, a população reuniu-se na praça principal e sentaram-se em silêncio em redor do melhor músico da ilha para ouvirem o som da biwa. Mas, mal os dedos do músico fizeram soar as cordas, de dentro da biwa ergueu-se uma voz que cantou:

A árvore antiga
Que cantou na brisa
Tornou-se cantiga

Então, todos compreenderam que a memória da árvore
nunca mais se perderia, nunca mais deixaria de os proteger,
porque os poemas passam de geração em geração e são fiéis ao seu povo.

Sophia de Mello Breyner Andresen

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

SÉRGIO GODINHO
«O Galo é o Dono dos Ovos»
O Galo É Dono dos Ovos by Sérgio Godinho on Grooveshark
Poet'anarquista

O GALO É O DONO DOS OVOS

O galo é o dono da casa
a galinha, da cozinha
ou se porta direitinha
ou apanha com a asa
que o galo é o dono da casa

O galo canta de galo
a galinha, cacareja
e o pintainho deseja
o fim de tanto badalo
e o galo canta de galo

O galo come faisão
a galinha é quem o assa
e o pobre do pinto passa
passa uma fome de cão
e o galo come faisão

O galo é o dono dos ovos
a galinha é quem os bota
e o pinto é compatriota
da miséria de outros povos
que o galo é o dono dos ovos

Por mais que cante de galo
o galo está a dar o berro
é que nem com mão de ferro
faz do pinto seu vassalo
por mais que cante de galo

Anda amarelado o galo
como a gema que o pariu
o sol nunca lhe sorriu
quanto ao pinto, é um regalo
não há sol que não o tisne
o galo canta de galo
para o pinto é o canto do cisne

Sérgio Godinho

OUTROS CONTOS

«O Casamento da Franga», conto poético infantil de Jaime Cortesão.


«O Casamento da Franga»
Galo e Galinhas, por Aelbert Cupy  

132- «O CASAMENTO DA FRANGA»

Diz o Galo
Para a Galinha:
- Quando casaremos
A nossa filhinha?
Casaremos
Ou não casaremos:
Agora o noivo
D´onde o arranjaremos?

Salta o Gato
Do seu modo mural:
«Eu estou pronto
Para me ir casar.»
- Agora o noivo
Já nós cá temos;
Agora a madrinha
D´onde a arranjaremos?

Salta a Cabra
Da sua casinha:
«Eu estou pronta
P´ra ser madrinha.»
- Agora a madrinha
Já nós cá temos;
Agora o padrinho
D´onde o arranjaremos?

Salta o Rato
Do seu buraquinho:
«Eu estou pronto
P´ra ser padrinho.»
- Agora padrinho
Já nós cá temos;
Agora o padre
D´onde o arranjaremos?

Salta o Escaravelho
Do seu escaravelhar:
«Eu estou pronto
Para os ir casar.»
- Agora o padre
Já nós cá temos:
Agora o chibo
D´onde o arranjaremos?

Salta o Lobo
Do seu lobal:
«Eu estou pronto
P´rò chibo dar.»
Chibo já nós cá temos;
Agora o vinho
D´onde o arranjaremos?

Salta o Mosquito
Do seu mosquital:
«Eu estou pronto
P´rò vinho dar.»
- Agora o vinho
Já nós cá temos;
Agora o trigo
D´onde o arranjaremos?

Salta o Pardal,
Do seu ninho estar:
«Eu estou pronto
P´ra o trigo dar.»

Acabou-se a boda
Com tal desatino;
Veio o noivo
Engoliu o padrinho.

Jaime Cortesão

terça-feira, 29 de abril de 2014

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

PINK FLOYD - «Mother»
Mother - The Wall by Pink Floyd on Grooveshark
Poet'anarquista

MÃE

Mãe, você acha que eles jogarão a bomba?
Mãe, você acha que eles gostarão dessa música?
Mãe, você acha que eles tentarão me castrar?
Mãe, eu devo construir o muro?

Mãe, eu devo concorrer para presidente?
Mãe, eu devo confiar no governo?
Mãe, eles me colocarão na linha de fogo?
Isso é só uma perda de tempo?

Calma agora, bebé, bebé, não chore
Mamã irá fazer todos os seus pesadelos virarem realidade
Mamã irá colocar todos os medos dela em você
Mamã vai manter você bem debaixo da asa dela

Ela não deixará você voar, mas talvez te deixe cantar
Mamã vai manter o bebé aconchegado e aquecido

Oh, bebé
Oh, bebé

Oh, bebé, claro que mamãe irá ajudar a construir o muro

Mãe, você acha que ela é boa o bastante
Para mim?
Mãe, você acha que ela é perigosa
Para mim?
Mãe, ela vai dilacerar seu menininho em pedaços?
Mãe, ela irá quebrar meu coração?

Calma agora bebé, bebé, não chore
A mamã vai verificar todas as suas namoradas pra você
Mamã não irá deixar ninguém sujo se aproximar
Mamã vai esperar acordada até você entrar
Mamã vai sempre descobrir por onde você esteve
Mamã vai sempre manter o bebé saudável e limpo

Oh, bebé
Oh, bebé

Oh, bebé, você sempre irá ser uma criança para mim

Mãe, precisava ser tanto?

Pink Floyd

MÃE JOANA

Mãe de criação, a que me deu carinhos!
Poet'anarquista
«Mãe Joana»
Mãe de Criação

MÃE!...

Mãe!...  Esse  terno  rosto,  lindo  sorriso
Quando  na  casa  humilde  me  acolhias...
Oh!...  Como  tudo   parecia  caloroso,
Do  jeito  manso  que  sempre  sorrias!

Mãe!...  A  casa  tão  pequenina  acolhedora
De  uma  estranha  paz  no  seu  aconchego,
E  as  imagens  da  Virgem  Nossa  Senhora
Reconfortando  a  alma  em  desassossego!

Mãe!...  Com  as  tuas  mãos  entrelaçavas
As  minhas  que  dormir  quase  pareciam,
Ouvindo  a  tua  voz  enquanto  rezavas              
Pedir  à  Virgem  pelos  que  mais  sofriam!

Mãe!...  Quanta  saudade  do  teu  regaço,
Desses  ternos  carinhos  que  fazias...
Dos  teus  beijos,  do  suave  abraço,
E  das  palavras  doces  que  me  dizias!

Matias  José 

segunda-feira, 28 de abril de 2014

CARTOON versus QUADRA

O Cativante Discurso da Oposição
HenriCartoon

«O CATIVANTE DISCURSO DA OPOSIÇÃO»

Homem, que fazes tu aí tão sossegado?
Ouvindo Zé Inseguro no canal do estado…
Mas como, se tens o televisor desligado??
Essa é boa, mulher… nem tinha reparado!

POETA

OUTROS CONTOS

«A Caolha», por Julia Lopes de Almeida.

«A Caolha»
A Celestina, por Picasso

131- «A CAOLHA»

A caolha era uma mulher magra, alta, macilenta, peito fundo, busto arqueado, braços compridos, delgados, largos nos cotovelos, grossos nos pulsos; mãos grandes, ossudas, estragadas pelo reumatismo e pelo trabalho; unhas grossas, chatas e cinzentas, cabelo crespo, de uma cor indecisa entre o branco sujo e o louro grisalho, desse cabelo cujo contato parece dever ser áspero e espinhento; boca descaída, numa expressão de desprezo, pescoço longo, engelhado, como o pescoço dos urubus; dentes falhos e cariados.

O seu aspecto infundia terror às crianças e repulsão aos adultos; não tanto pela sua altura e extraordinária magreza, mas porque a desgraçada tinha um defeito horrível: haviam lhe extraído o olho esquerdo; a pálpebra descera mirrada, deixando, contudo, junto ao lacrimal, uma fístula continuamente porejante.

Era essa pinta amarela sobre o fundo denegrido da olheira, era essa destilação incessante de pus que a tornava repulsiva aos olhos de toda gente.

Morava numa casa pequena, paga pelo filho único, operário numa fábrica de alfaiate; ela lavava a roupa para os hospitais e dava conta de todo o serviço da casa inclusive cozinha. O filho, enquanto era pequeno, comia os pobres jantares feitos por ela, às vezes até no mesmo prato; à proporção que ia crescendo, ia-se a pouco e pouco manifestando na fisionomia a repugnância por essa comida; até que um dia, tendo já um ordenadozinho, declarou à mãe que, por conveniência do negócio, passava a comer fora...

Ela fingiu não perceber a verdade, e resignou-se.

Daquele filho vinha-lhe todo o bem e todo o mal.

Que lhe importava o desprezo dos outros, se o seu filho adorado lhe pagasse com um beijo todas as amarguras da existência?

Um beijo dele era melhor que um dia de sol, era a suprema carícia para o triste coração de mãe! Mas... os beijos foram escasseando também, com o crescimento do Antonico! Em criança ele apertava-a nos braços e enchia-lhe a cara de beijos; depois, passou a beijá-la só na face direita, aquela onde não havia vestígios de doença; agora, limitava-se a beijar-lhe a mão!

Ela compreendia tudo e calava-se.

O filho não sofria menos.

Quando em criança entrou para a escola pública da freguesia, começaram logo os colegas, que o viam ir e vir com a mãe, a chamá-lo - o filho da caolha.

Aquilo exasperava-o; respondia sempre:

- Eu tenho nome!

Os outros riam e chacoteavam-no; ele se queixava aos mestres, os mestres ralhavam com os discípulos, chegavam mesmo a castigá-los - mas a alcunha pegou. Já não era só na escola que o chamavam assim.

Na rua, muitas vezes, ele ouvia de uma ou outra janela dizerem: o filho da caolha! Lá vai o filho da caolha! Lá vem o filho da caolha!

Eram as irmãs dos colegas, meninas novas, inocentes e que, industriadas pelos irmãos, feriam o coração do pobre Antonico cada vez que o viam passar!

As quitandeiras, onde iam comprar as goiabas ou as bananas para o lanche, aprenderam depressa a denominá-lo como os outros, e, muitas vezes, afastando os pequenos que se aglomeravam ao redor delas, diziam, estendendo uma mancheia de araçás, com piedade e simpatia:

- Taí, isso é para o filho da caolha!

O Antonico preferia não receber o presente a ouvi-lo acompanhar de tais palavras; tanto mais que os outros, com inveja, rompiam a gritar, cantando em coro, num estribilho já combinado:

- Filho da caolha, filho da caolha!

O Antonico pediu à mãe que não o fosse buscar à escola; e muito vermelho, contou-lhe a causa; sempre que o viam aparecer à porta do colégio os companheiros murmuravam injúrias, piscavam os olhos para o Antonico e faziam caretas de náuseas.

A caolha suspirou e nunca mais foi buscar o filho.

Aos onze anos o Antonico pediu para sair da escola: levava a brigar com os condiscípulos, que o intrigavam e malqueriam. Pediu para entrar para uma oficina de marceneiro. Mas na oficina de marceneiro aprenderam depressa a chamá-lo - o filho da caolha, a humilhá-lo, como no colégio.

Além de tudo, o serviço era pesado e ele começou a ter vertigens e desmaios. Arranjou então um lugar de caixeiro de venda: os seus colegas agruparam-se à porta, insultando-o, e o vendeiro achou prudente mandar o caixeiro embora, tanto que a rapaziada ia-lhe dando cabo do feijão e do arroz expostos à porta nos sacos abertos! Era uma contínua saraivada de cereais sobre o pobre Antonico!

Depois disso passou um tempo em casa, ocioso, magro, amarelo, deitado pelos cantos, dormindo às moscas, sempre zangado e sempre bocejante! Evitava sair de dia e nunca, mas nunca, acompanhava a mãe; esta poupava-o: tinha medo que o rapaz, num dos desmaios, lhe morresse nos braços, e por isso nem sequer o repreendia! Aos dezesseis anos, vendo-o mais forte, pediu e obteve-lhe, a caolha, um lugar numa oficina de alfaiate. A infeliz mulher contou ao mestre toda a história do filho e suplicou-lhe que não deixasse os aprendizes humilhá-lo; que os fizesse terem caridade!

Antonico encontrou na oficina uma certa reserva e silêncio da parte dos companheiros; quando o mestre dizia: sr. Antonico, ele percebia um sorriso mal oculto nos lábios dos oficiais; mas a pouco e pouco essa suspeita, ou esse sorriso, se foi desvanecendo, até que principiou a sentir-se bem ali.

Decorreram alguns anos e chegou a vez de Antonico se apaixonar. Até aí, numa ou outra pretensão de namoro que ele tivera, encontrara sempre uma resistência que o desanimava, e que o fazia retroceder sem grandes mágoas. Agora, porém, a coisa era diversa: ele amava! Amava como um louco a linda moreninha da esquina fronteira, uma rapariguinha adorável, de olhos negros como veludos e boca fresca como um botão de rosa. O Antonico voltou a ser assíduo em casa e expandia-se mais carinhosamente com a mãe; um dia, em que viu os olhos da morena fixarem os seus, entrou como um louco no quarto da caolha e beijou-a mesmo na face esquerda, num transbordamento de esquecida ternura!

Aquele beijo foi para a infeliz uma inundação de júbilo! Tornara a encontrar o seu querido filho! Pôs-se a cantar toda a tarde, e nessa noite, ao adormecer, dizia consigo:

- Sou muito feliz... o meu filho é um anjo!

Entretanto, o Antonico escrevia, num papel fino, a sua declaração de amor à vizinha. No dia seguinte mandou-lhe cedo a carta. A resposta fez-se esperar. Durante muitos dias Antonico perdia-se em amarguradas conjecturas.

Ao princípio pensava: - É o pudor.

Depois começou a desconfiar de outra causa; por fim recebeu uma carta em que a bela moreninha confessava consentir em ser sua mulher, se ele se separasse completamente da mãe! Vinham explicações confusas, mal alinhavadas: lembrava a mudança de bairro; ele ali era muito conhecido por filho da caolha, e bem compreendia que ela não se poderia sujeitar a ser alcunhada em breve de - nora da caolha, ou coisa semelhante!

O Antonico chorou! Não podia crer que a sua casta e gentil moreninha tivesse pensamentos tão práticos!

Depois o seu rancor se voltou para a mãe.

Ela era a causadora de toda a sua desgraça! Aquela mulher perturbara a sua infância, quebrara-lhe todas as carreiras, e agora o seu mais brilhante sonho de futuro sumia-se diante dela! Lamentava-se por ter nascido de mulher tão feia, e resolveu procurar meio de separar-se dela; iria considerar-se humilhado continuando sob o mesmo teto; havia de protegê-la de longe, vindo de vez em quando vê-la à noite, furtivamente...

Salvava assim a responsabilidade do protetor e, ao mesmo tempo, consagraria à sua amada a felicidade que lhe devia em troca do seu consentimento e amor...

Passou um dia terrível; à noite, voltando para casa levava o seu projeto e a decisão de o expor à mãe.

A velha, agachada à porta do quintal, lavava umas panelas com um trapo engordurado. O Antonico pensou: "Ao dizer a verdade eu havia de sujeitar minha mulher a viver em companhia de... uma tal criatura?" Estas últimas palavras foram arrastadas pelo seu espírito com verdadeira dor. A caolha levantou para ele o rosto, e o Antonico, vendo-lhe o pus na face, disse:
- Limpe a cara, mãe...

Ela sumiu a cabeça no avental; ele continuou:

- Afinal, nunca me explicou bem a que é devido esse defeito!

- Foi uma doença, - respondeu sufocadamente a mãe - é melhor não lembrar isso!

- E é sempre a sua resposta: é melhor não lembrar isso! Por quê?

- Porque não vale a pena; nada se remedeia...

- Bem! Agora escute: trago-lhe uma novidade. O patrão exige que eu vá dormir na vizinhança da loja... já aluguei um quarto; a senhora fica aqui e eu virei todos os dias saber da sua saúde ou se tem necessidade de alguma coisa... É por força maior; não temos remédio senão sujeitar-nos!...

Ele, magrinho, curvado pelo hábito de costurar sobre os joelhos, delgado e amarelo como todos os rapazes criados à sombra das oficinas, onde o trabalho começa cedo e o serão acaba tarde, tinha lançado naquelas palavras toda a sua energia, e espreitava agora a mãe com um olhar desconfiado e medroso.

A caolha se levantou e, fixando o filho com uma expressão terrível, respondeu com doloroso desdém:

- Embusteiro! O que você tem é vergonha de ser meu filho! Saia! Que eu também já sinto vergonha de ser mãe de semelhante ingrato!

O rapaz saiu cabisbaixo, humilde, surpreso da atitude que assumira a mãe, até então sempre paciente e cordata; ia com medo, maquinalmente, obedecendo à ordem que tão feroz e imperativamente lhe dera a caolha.

Ela o acompanhou, fechou com estrondo a porta, e vendo-se só, encostou-se cabaleante à parede do corredor e desabafou em soluços.
O Antonico passou uma tarde e uma noite de angústia.

Na manhã seguinte o seu primeiro desejo foi voltar à casa; mas não teve coragem; via o rosto colérico da mãe, faces contraídas, lábios adelgaçados pelo ódio, narinas dilatadas, o olho direito saliente, a penetrar-lhe até o fundo do coração, o olho esquerdo arrepanhado, murcho - murcho e sujo de pus; via a sua atitude altiva, o seu dedo ossudo, de falanges salientes, apontando-lhe com energia a porta da rua; sentia-lhe ainda o som cavernoso da voz, e o grande fôlego que ela tomara para dizer as verdadeiras e amargas palavras que lhe atirara no rosto; via toda a cena da véspera e não se animava a arrostar com o perigo de outra semelhante.

Providencialmente, lembrou-se da madrinha, única amiga da caolha, mas que, entretanto, raramente a procurava.

Foi pedir-lhe que interviesse, e contou-lhe sinceramente tudo o que houvera.

A madrinha escutou-o comovida; depois disse:

- Eu previa isso mesmo, quando aconselhava tua mãe a que te dissesse a verdade inteira; ela não quis, aí está!

- Que verdade, madrinha?

Encontraram a caolha a tirar umas nódoas do fraque do filho - queria mandar-lhe a roupa limpinha. A infeliz se arrependera das palavras que dissera e tinha passado a noite à janela, esperando que o Antonico voltasse ou passasse apenas... Via o porvir negro e vazio e já se queixava de si! Quando a amiga e o filho entraram, ela ficou imóvel: a surpresa e a alegria amarraram-lhe toda a ação.

A madrinha do Antonico começou logo:

- O teu rapaz foi suplicar-me que te viesse pedir perdão pelo que houve aqui ontem e eu aproveito a ocasião para, à tua vista, contar-lhe o que já deverias ter-lhe dito!

- Cala-te! - murmurou com voz apagada a caolha.

- Não me calo! Essa pieguice é que te tem prejudicado! Olha, rapaz! Quem cegou a tua mãe foste tu!

O afilhado tornou-se lívido; e ela concluiu:

- Ah, não tiveste culpa! Eras muito pequeno quando, um dia, ao almoço, levantaste na mãozinha um garfo; ela estava distraída, e antes que eu pudesse evitar a catástrofe, tu o enterraste pelo olho esquerdo! Ainda tenho no ouvido o grito de dor que ela deu!

O Antonico caiu pesadamente de bruços, com um desmaio; a mãe acercou-se rapidamente dele, murmurando trêmula:

- Pobre filho! Vês? Era por isto que eu não queria dizer nada!

Julia Lopes de Almeida

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(28 de Abril de 2007, morre o compositor e saxofonista norte-americano, Tommy Newsom)

TOMMY NEWSOM
«All Alone»

domingo, 27 de abril de 2014

OUTROS CONTOS

«Proscrito», por Delminda Silveira.

«Proscrito»
O Desterrado, por Soares dos Reis

130- «PROSCRITO»

Era forçoso partir.

Era um decreto dos fados; talvez um decreto de Deus!

Mais poderoso que o amor de um povo, mais do que o raio que de improviso cai sobre a eminência de um templo sagrado derrubando-a, força irresistível o impelia.

E o velho obedeceu; partiu.

Lá fora, em pleno oceano, a fronte pendida, a barba alvíssima e crespa como a espuma dos mares a beijar-lhe o peito em que gemia o coração que levava um nome escrito entre saudades, o velho chorava.

Entretanto ele sentia inocência na alma cheia de amargores, e no peito o coração repleto de amor; — o coração que levava gravado um nome...

O doce nome da Pátria!

E, lá, na vastidão intérmina do oceano, entre o Infinito azul e o Infinito Glauco, o proscrito fez vibrar as cordas a harpa gemedora de sua alma de poeta; e as aves carinhosas que atravessavam o espaço, levavam os acordes daquele adeus magoado, e a viração marinha suspirando nas enxárcias, repercutia, daquela dor, os gemidos a se perderem pela soledade ilimitada dos mares.

Descera a noite estendendo desde a altura o negro véu recamado de estrelas que se ampliava sobre as ondas em renda de alvas espumas com semeados de ardentia luminosa.

Enquanto a viração marinha ciciava endeixas de saudade pelas enxárcias da nau balançada em ondulações de luz, o proscrito adormecera e sonhava.

Era uma visão formosíssima!

— Um índio belo, colossal, vestido de brilhante enduápe trazendo sobre a cabeça o vistoso kanitar dos reis da selva que lhe deixava a descoberto a fronte morena, altiva, cingidos os musculosos braços e os tornozelos com ornatos de áurea plumagem, adornado o colo hercúleo de um colar de alvo marfim, entremeado de pedras brilhantes, sobraçando possante arco, e tendo na destra uma flecha de cuja extremidade pontiaguda pendia, traspassado, um coração sangrento, — joelho em terra, o índio ideal apresentava ao velho sonhador aquele emblema de afetos gotejando sangue, e tristemente murmurava: Pátria! Pátria!

E o proscrito acordava suspirando, em lágrimas, um nome... O doce nome da terra amada!

Mas, quem era esse coração majestoso, terno como David o rei poeta, e tão venerável como em profeta hebreu?

Era um monarca destronado.

Era um soberano a quem o seu povo, outrora, chamara pai!

Um dia, o Céu de formosa terra longínqua, Céu de azul puríssimo, em que a noite brilhava esplendorosa cruz formada de estrelas cintilantes, — escurecera. Um sopro gelado, vindo de além-mar, vestira de luto os ares e as águas...

Vergara o jequitibá robusto na floresta virgem e o sol empalidecera na amplidão turbada.

O mar rebentava lastimoso regando as praias de suas lágrimas salinas.

As andorinhas que voltavam não chilreavam de contentes, antes, parecia gemerem ao chegar aos tetos da terra pátria.

E o vento espalhava no espaço uma melodia triste...

Eram nênias de magoada saudade...

Eram lamentos de um coração dorido...

Era o extremo Adeus do proscrito que adormecera— para sempre na terra do exílio!

Delminda Silveira

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

JOSÉ AFONSO
«Quem diz que é pela Rainha»

JOSÉ AFONSO
«Quem diz que é pela Rainha»
Quem Diz Que é Pela Rainha by José Afonso on Grooveshark
Poet'anarquista

QUEM DIZ QUE É PELA RAINHA

Quem diz que é pela rainha
Nem precisa de mais nada
Embora seja ladrão
Pode roubar à vontade
Todos lhe apertam a mão
É homem de sociedade

Acima da pobre gente
Subiu quem tem bons padrinhos
De colarinhos gomados
Perfumando os ministérios
É dono dos homens sérios
Ninguém lhe vai aos costados

José Afonso

sábado, 26 de abril de 2014

EM MEMÓRIA DE CASQUINHA E CARAVELA

Decorria o ano de 1979. O Novembro maldito de 1975 havia se encarregado de destruir muitas conquistas do povo trabalhador alentejano. Eram assassinados no Escoural Casquinha e Caravela às mãos da GNR, sem dó nem piedade. O povo alentejano sentiu na pele um castigo que se pensou não ser mais possível voltar a acontecer, depois de quase meio século de ditadura e repressão nos campos do Alentejo. Para que ninguém esqueça o que aconteceu aos nossos compatriotas... aqui os recordarmos, hoje e sempre!
Poet'anarquista
«Cantata, Pranto e Louvor»
Em Memória de Casquinha e Caravela

Em memória de José Caravela e António Maria Casquinha
Mortos em Montemor-o-Novo pela Guarda

27 DE SETEMBRO DE 1979 

O primeiro governo constitucional, chefiado por Mário Soares, deu início, em 1976, a uma brutal ofensiva contra as Conquistas da Revolução, tendo como objectivo destruir tudo o que de mais avançado e progressista tinha sido alcançado - ofensiva que foi prosseguida por todos os governos que lhe sucederam ao longo de 32 anos.

A Reforma Agrária foi o primeiro alvo dos inimigos de Abril.

Contra ela foi lançada uma operação cheia de ódio de classe que se desenvolveu através de ilegalidades, de roubos de terras e de gado, de sabotagens e de violenta repressão policial. A resistência dos trabalhadores foi heróica.

No dia 27 de Setembro de 1979, uma força da GNR - comandada pelos capitães Martins e Faria e pelo sargento Maximino, todos conhecidos pelo seu ódio à Reforma Agrária - acompanhada por um grupo de agrários e por funcionários do Ministério da Agricultura, procedeu a um roubo de um rebanho de vacas na UCP Bento Gonçalves, no concelho de Montemor-o-Novo.

Os trabalhadores resistiram.

A GNR, agindo como no tempo do fascismo a mando dos agrários, disparou ferindo vários trabalhadores e assassinando dois:

Casquinha já sem vida, com apenas 17 anos
Assassinado pela GNR em 1979

António Casquinha, de 17 anos e José Caravela, de 54 anos, ambos militantes comunistas.

O Governo, na altura chefiado por Maria de Lurdes Pintasilgo, mandou instaurar um inquérito.

A principal conclusão desse inquérito também fazia lembrar as conclusões tiradas pelos ministérios do interior no tempo do fascismo quando as forças repressivas matavam:

A GNR disparou, sim, mas para o ar...

«Funeral de Casquinha e Caravela»
Cemitério do Escoural

O Cravo de Abril assinala, hoje, o assassinato dos dois camaradas com um poema escrito no dia do seu funeral, que se realizou para o cemitério de Escoural e ao qual acorreram dezenas de milhares de pessoas.
Texto: Cravo de Abril
«Cravo de Abril Ferido»
Poema de José Gomes Ferreira

I
Aqui
nesta planície de sol suado
dois homens desafiaram a morte, cara a cara,
em defesa do seu gado
de cornos e tetas.

Aqui
onde agora vejo crescer uma seara
de espigas pretas.

II
Quando os dois camponeses desceram às covas,
ante os punhos cerrados de todos nós,
chorei!

Sim, chorei
sentindo nos olhos a voz
do que há de mais profundo
nas raízes dos homens e das flores
a correrem-me em lágrimas na face.

Chorei pelos mortos e pelos matadores
- almas de frio fundo.

III
Digam-me lá:
para que serviria ser poeta
se não chorasse
publicamente
diante do mundo?

José Gomes Ferreira

DÉCIMAS - MATIAS JOSÉ

«Eles comem tudo...
E não deixam nada!»

MOTE

Esta mascarada enorme
Com que o mundo nos aldraba,
Dura enquanto o povo dorme,
Quando ele acordar, acaba.

António Aleixo

Glosas

Demora esta gente pra acordar
Começa a ser grande o desleixo,
Ó grande poeta António Aleixo:
Quando vai o povo despertar?
De norte a sul ouço protestar
A desigualdade é enorme,
Muitos no país já passam fome
E uns poucos a enriquecer,
Só mesmo tu não queres ver
Esta mascarada enorme!

 
Promessas são aos centos
Em vésperas d’ eleições,
Esses enganosos camaleões
Logo esquecem os juramentos.
Começam por faltar alimentos
Triste carência em nós desaba,
E ainda quem de tal se gaba
Com tantos a ganhar menos…
Sofrem mais, os mais pequenos,
Com que o mundo nos aldraba.

3ª 
Podes enganar muitas vezes
Mas não o tempo todo...
Deixar atolados no lodo
Sempre os mesmos fregueses?
A mentira tem seus revezes
E saciada, já pouco come,
No dia em que se transforme
E desperte do sono profundo…
Esse mau estado moribundo
Dura enquanto o povo dorme.

4ª 
Nada é certo eternamente
Eis uma verdade ‘la Palice’,
Cair sempre na mesma idiotice
Não se caie seguramente.
Um idiota quando nos mente
Deixa escorrer saliva e baba,
E pra que ninguém disso saiba
Engole seu cuspo nojento…
Enganas o pobre sofrimento,
Quando ele acordar, acaba!

Matias José

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(26 de Abril de 1984, morre o compositor, chefe de orquestra e pianista norte-americano, Count Basie)

COUNT BASIE - «Blues Festival»

sexta-feira, 25 de abril de 2014

OUTROS CONTOS

«Era uma vez um Soldado que foi Capitão de Abril de Abril», por Gi Negrão.

«Era Uma Vez Um Soldado 
Que Foi Capitão De Abril De Abril»
Salgueiro Maia, Capitão de Abril

129- «ERA UMA VEZ UM SOLDADO QUE FOI CAPITÃO DE ABRIL DE ABRIL»

Era uma vez um soldado de um país muito cinzento, que teve de ir para a guerra que ele não queria. Quem mandava no país pouco sabia de guerras e do sofrimento que elas faziam, ou fingia que não sabia, mas com uma grande teimosia mandava para a guerra os soldados que sem quererem, tinham que para lá ir. Outros havia que fugiam, faziam como podiam, mas para a guerra é que eles não iam. Iam para França e outros destinos, que sabiam as razões porque eles fugiam, e, por isso, os protegiam. O país era mesmo cinzento. Os pais e as famílias dos soldados que iam para a guerra ficavam tão tristes, tão tristes, que era impossível ao país ter outra cor.

O nosso soldado, que foi depois capitão, já tinha ouvido falar de guerras. Quando tinha um ano de idade, acabou a 2ª guerra mundial, o que foi um grande alívio para toda a gente em todo o mundo. Claro que ele nessa idade não deu por isso. Tinha durado 6 anos. Já imaginaste? 

Uns anos depois, andava para aí no 9ºano, o nosso soldado percebeu que alguma coisa ia mudar. O General Humberto Delgado era a grande esperança do país cinzento se tornar num país com um bocadinho de cor. Mas o nosso soldado, que depois foi capitão, percebeu mal. Ele ainda era muito jovem para conhecer toda a maldade que existia no país cinzento. O General Humberto Delgado perdeu obviamente as eleições. E o país continuou cinzento. Quando era já um jovem adolescente ouviu falar da guerra em Angola; ele nem percebeu muito bem qual era o sentido daquela guerra, mas quando ele era adolescente havia perguntas que não se podiam fazer, neste país cinzento, porque quem mandava no país não gostava que as pessoas fizessem perguntas. Por outro lado, havia pessoas que não gostavam daquela mania de mandar em toda a gente, que se indignavam e que, por isso, iam para a prisão. A cor do país não mudava: estava cada vez mais cinzenta.

A seguir a Angola, veio a Guiné-Bissau e Moçambique. Eram os movimentos de cidadãos destes países, também chamados movimentos de libertação, a bater o pé, e a dizer que não, aqui mandamos nós, não esse país cinzento, que maltrata os seus filhos e filhas. 

O nosso soldado, que foi depois capitão, não conseguiu fugir à guerra em Moçambique. Numa manhã cinzenta, neste país cinzento, foi para o cais de Alcântara, com muitos soldados, (muitos não foram capitães), tomar o grande navio que ia partir para Lourenço Marques 
(agora Maputo).

O cais estava cheio de gente: mães, pais, filhos, filhas, tios, tias, sobrinhos e sobrinhas, famílias inteiras, que se tinham vindo despedir dos seus soldados e desejar que eles regressassem. Para muitos era uma questão de sorte, e eles partiam com essa angústia, que era uma grande aflição, que se via nos seus olhos, quando o barco partia do cais. Aliás, essa grande aflição era igual à que ficava e acenava do cais (já alguma vez ficaste aflito?) Olha, tenho a certeza de que aquela aflição era muito, muito pior).

Cada partida era, para os que embarcavam e para os que ficavam no cais e regressavam a casa mais pobres, uma espécie de muitos corações partidos aos bocadinhos com uma esperança pequenina de que um dia fosse possível montar aquele puzzle sem que faltasse nenhuma peça.

Depois de Moçambique o nosso soldado foi capitão. Foi para a Guiné-Bissau. E este tempo em que andou a conhecer a guerra, nestes países de África, onde fez muitos amigos, fez dele um capitão sem vontade de fazer guerra e de lutar para acabar com a guerra.

Veio para Portugal, conheceu outros soldados que foram capitães, e que como ele achavam aquela guerra injusta (como quase são todas as guerras, não achas?). Formaram um movimento: o M.F.A. – Movimento das Forças Armadas.

O M. F. A. tinha alguns objectivos: o principal era que o país deixasse de ser cinzento. Isso queria dizer muitas coisas: que acabasse a guerra para que os corações deixassem de andar aflitos; que houvesse liberdade de expressão para que as pessoas pudessem dizer aquilo que pensavam sem ir para a prisão; que acabasse a PIDE, que era uma polícia que, às vezes, ia buscar os pais à cama, de noite, para os levar para a prisão, o que deixava os filhos muito aflitos, sem perceber porque é que aquilo lhes estava a acontecer. Como já percebeste, para além de ser um país cinzento, este era um país em que praticamente, por variadíssimas razões, as pessoas andavam todas aflitas. Era mesmo o país da aflição.

E, sabes, quando as pessoas querem muito que uma coisa aconteça e se esforçam e fazem tudo o que podem e sabem, as coisas acontecem mesmo!

É mesmo verdade: no dia 25 de Abril de 1974 aconteceu, neste país cinzento, uma revolução de cores. O país inteiro foi surpreendido pelo Movimento das Forças Armadas onde à frente, estava o nosso soldado, que foi capitão, que se chamava Salgueiro Maia.

Ele e os seus camaradas do Movimento (nunca podia ser uma pessoa sozinha a fazer isto tudo), como se fosse um filme de aventuras, prepararam tudo com muito cuidado e com muitas reuniões secretas (soube-se depois) e até inventaram umas senhas para comunicar uns com os outros, através da rádio. Claro que também lá tinham amigos. (ter amigos é uma coisa muito boa, ajuda-nos muito) Sabes quais eram as senhas? Se calhar, já as ouviste: Grândola, vila morena, do Zeca Afonso (já ouviste falar dele, não?) e, E depois do Adeus, do Paulo de Carvalho. Foi uma canção que ganhou o Festival (os teus pais lembram-se, hás-de perguntar-lhes!)

Como vês, para fazer bem uma coisa, que queremos que resulte, temos de ter um plano primeiro e de trabalhar com uma grande equipa. Depois é distribuir bem as tarefas e claro, cada um fazer bem a sua parte.

Voltamos ao nosso soldado, que foi capitão, e lá está ele no Terreiro do Paço, com os seus homens e os seus tanques, a convencer o capitão da fragata, que está no Tejo, de que melhor do que disparar contra Lisboa é render-se e ficar do lado dos que querem libertar o país do cinzento, que é a sua cor, desde há 48 anos. (Era corajoso ou não, o nosso capitão?)

Foi assim (enfim, com um bocadinho mais de dificuldade) que foi deposto o primeiro-ministro da altura, que se chamava Marcelo Caetano. 

A alegria que se viveu nas ruas no dia 25 de Abril e nos dias seguintes contrariava o país cinzento, o país da aflição que até aí se vivia.

Agora era o país ao contrário: as pessoas não iam para a prisão, a pessoas saíam das prisões; o cais, de onde partiam barcos para a guerra, era agora o cais onde chegavam os barcos da guerra; já não era o cais da aflição, era o cais da reunião (não faltava nenhuma peça no puzzle); o país onde havia solidão (duas pessoas a conversar era sinal de suspeição), era o país da comunhão (na rua sentia-se esta súbita alegria nas pessoas que mal se conheciam); era finalmente o país de todas as cores, que as pessoas quisessem inventar.

Foi a muita coragem e a sabedoria deste capitão de Abril, Salgueiro Maia, que levou a que as pessoas viessem para as ruas (também a alegria delas, claro) e, que, nesse dia 25 de Abril de 1974, os tanques que inundaram Lisboa parecessem tanques de papel enfeitados com cravos vermelhos, que tinham sido oferecidos aos soldados num impulso de gratidão. As ruas de Lisboa estavam cheias de tanques, e uma multidão de gente a abraçá-los. O povo é quem mais ordena, era como se dizia, e gritava nas ruas (era muito, muito, muito mais gente que tanques).

Nos dias e meses que se seguiram, a rua era a casa das pessoas, que gritavam, com o Sérgio Godinho “a paz, o pão, habitação, saúde, educação, só há liberdade a sério… Era a democracia na rua, a democracia vestida de todas as cores, como as pessoas sonhavam há tanto tempo. 

Há pessoas assim. Pessoas que fazem tudo o que está ao alcance delas para tornar os outros felizes. O capitão de Abril, Salgueiro Maia, foi sem dúvida um corajoso capitão, podemos mesmo dizer um herói que ajudou a escrever a História recente do nosso país. Já tinhas ouvido falar dele?

Tu, que gostas de coleccionar heróis, (eu sei) bem o podes incluir na galeria dos teus super-heróis. É que ele, sendo um soldado, que foi capitão como tantos, foi muito mais do que isso, como te contei. Por isso, merece um destaque especial na nossa História e no cantinho, que reservamos àqueles “que por obras valerosas se vão da lei da morte libertando.” (Luís de Camões, Canto I).

E a terminar, podemos saudá-lo: Viva Salgueiro Maia, Viva o 25 de Abril. Achas bem?

Gi Negrão

ESPECIAL MÚSICAS DO MUNDO

E a música especial de hoje é...

JOSÉ MÁRIO BRANCO - «EU VI ESTE POVO A LUTAR»

Poet'anarquista

EU VI ESTE POVO A LUTAR
(Confederação)

Letra e música: José Mário Branco

Eu vi este povo a lutar
Para a sua exploração acabar
Sete rios de multidão
Que levavam História na mão

Sobre as águas calmas
Um vulcão de fogo
Toda a terra treme
Nas vozes deste povo

Mesmo no silêncio
Sabemos cantar
Povo por extenso
É unidade popular

Somos sete rios
Rios de certeza
Vamos lá cantando
No fragor da correnteza

Eu vi este povo a lutar
Para a sua exploração acabar
Sete rios de multidão
Que levavam História na mão

A fruta está podre
Já não se remenda
Só bem cozidinha
No lume da contenda

Nós queremos trabalho
E casa decente
E carne do talho
E pão para toda a gente

Ai, meus ricos filhos
Tantos nove meses
Saem do meu ventre
Para a pança dos burgueses

Eu vi este povo a lutar
Para a sua exploração acabar
Sete rios de multidão
Que levavam História na mão

Alça meu menino
Vê se te arrebitas
Que este peixe podre
Só é bom para os parasitas

Só a nosso mando
É que há liberdade
Vamos lá lutando
P’ra mudar a sociedade

Bandeira vermelha
Bem alevantada
Ai minha senhora
Que linda desfilada

Eu vi este povo a lutar
Para a sua exploração acabar
Sete rios de multidão
Que levavam História na mão

José Mário Branco

CARTOON versus QUADRA

O Dia Mais Importante
HenriCartoon

«O DIA MAIS IMPORTANTE»

- Menino, que lhe foi ensinado
Sobre o Vinte e Cinco de Abril?

-Xô professor, é uma data baril
Enquanto esse dia for feriado!

POETA

ABRIL TRAÍDO

Abril Traído
Valores Essenciais Esquecidos

MOTE

São Cravos Senhor são Cravos
que vislumbro com desgosto...
tornaram-nos um POVO escravo,
caem lágrimas em tanto rosto!

Uma Alandroalense (L...)

Glosas

Eis que vos trago floridos
Cravos vermelhos de Abril,
Regados com águas mil
P’ra não serem esquecidos.
Libertaram-se os oprimidos
Prisioneiros feitos escravos,
Por um Movimento de bravos
Conquistaram-se as liberdades...
Nos campos, vilas e cidades
São cravos, senhor são cravos!

Os Ideais estavam traçados
Para a revolução se cumprir,
E os cravos poderem florir
Nos corações esperançados.
Mas vampiros esfomeados
Aos poucos, deixam Abril exposto,
Esse sonho lindo quase morto
Ninguém mais o quis comandar...
É uma Primavera a murchar
Que vislumbro com desgosto!

Começam então por atraiçoar
Princípios sagrados da revolução,
O sofrimento de uma nação
Quarenta e oito anos a penar.
Abril acaba assim a asfixiar
 Do saque até ao último centavo,
Portugal sem um único chavo
Resolve vender-se à TROIKA...
Está cozinhada a paparoca
Tornaram-nos um povo escravo!

As conquistas fundamentais
Que se julgavam garantidas,
Depressa foram esquecidas
Por governantes irracionais.
Vários danos colaterais
Sempre em sentido oposto,
Aos ideais d’um Abril justo
Acabaram por nos tramar...
Vejo um povo a sufocar
Caem lágrimas em tanto rosto!

Matias José