terça-feira, 31 de março de 2015

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(31 de Março de 2006, morre o saxofonista norte-americano, Jackie MacLean)

Jackie MacLean
Saxofonista Norte-Americano

JACKIE MACLEAN - «I Never Knew»

OUTROS CONTOS

«Insepultos», por Aluísio Azevedo.

«Insepultos»
Ilusões Ópticas/ Salvador Dalí

461- «INSEPULTOS»

Havia nada menos de trinta e cinco anos que eu deixara minha cidade natal quando lá tornei pela primeira vez.

Trinta e cinco anos! Quantas voltas não dera o mundo durante essa larga ausência! De lá saíra levando por única bagagem – pobre órfão desamparado! – um leve saco cheio de ilusões, e voltava agora triunfante, de novo sozinho é verdade, mas com o meu saco cheio de ouro até à boca.

Como é de calcular, tão brilhante foi a volta quão mesquinha e triste tinha sido a partida; receberam-me com música, vivas e foguetes, numa estrondosa manifestação de entusiasmo; e desde logo por diante começaram a ferver em volta do meu nome ou do meu título os melhores e mais carinhosos adjetivos, como em volta de mim ferveram as festas, os bailes e os regalos.

Tomaram-me por tal modo que me não deixaram tempo sequer para lembrar-me da única pessoa talvez que tivesse tido uma lágrima sincera quando de lá parti desamparado e pobre.

Foi essa gentil pessoa a dona dos meus primeiros amores. Um romancete dos dezoito anos. – Ah! como nesse tempo meu coração era puro! – Vi-a uma vez numa festa de arraial e logo ficamos namorados. Chamava-se Alice. Consegui relacionar-me com a família dela; depois tivemos entrevista ao fundo do quintal de sua casa, debaixo de um caramanchão de jasmins. Fiz-lhe, trémulo, com as suas pequeninas mãos entre as minhas, a confissão do meu amor; ela abaixou os olhos enrubescendo e, toda confusa, toda medrosa, jurou, balbuciando como num sonho, que só a mim queria por toda a vida e só a mim aceitaria por esposo.

E parti, no entanto, para o Rio de Janeiro sem ao menos lhe dizer adeus, porque nessa ocasião estava Alice fora da cidade. Mas, por muitas vezes, nos meus primeiros desenganos e na febre das minhas lutas pela vida e principalmente depois na ressaca das minhas vitórias sem mérito, a sua singela imagem, graciosa e casta, vinha alegrar a sombria aridez dos castelos da minha ambição com a brancura das suas asas, como alva pomba vai às vezes pousar na enegrecida torre de uma velha igreja abandonada e vazia.

Amigo desmemoriado e ingrato que és tu, meu pobre coração! só três meses depois da minha estada na província – três meses! te lembraste de Alice! E achaste-la de novo, perjuro! achaste-la, de memória, na amargura da tua velha saudade, como no fundo de um venturoso sonho extinto! achaste-la, a fitar-me ainda do passado, com os seus grandes olhos inocentes e amorosos. Achaste-la, sim, que meus lábios ainda sentiram a doce impressão da inocente boca de donzela que os beijou noutro tempo! Achaste-la, que em minha alma cansada respirou ainda o delicado aroma que eu nela adivinhava dantes, como se adivinha no botão de rosa o perfume que há de ter a flor desabrochando.

Ah! muito e muito me impressionaram semelhantes recordações! impressionaram-me tanto que, quando depois me achava em sociedade, instintivamente iam sempre meus olhos procurar no grupo das damas alguma que me desse idéia da formosa criatura por quem meu coração gemeu a primeira nota de amor. Mas qual! estavam todas bem longe de lembrar sequer aquela graça meiga e despretensiosa, aquele doce agrado, humilde, quase infantil, que em Alice me cativaram. Em nenhum daqueles olhos de mulher que agora me cobiçavam, em nenhum daqueles sorrisos que nas salas me seguiam atados numa esperança de casamento rico, encontrava eu o mais ligeiro vislumbre do amor passado, daquele amor que eu vira outrora nos olhos dela, tão natural e sincero!

Mas uma noite, no palácio do presidente, por ocasião de um baile que me era oferecido, ruminava a minha incoercível saudade ao fundo de uma janela, quando notei que viera colocar-se ao meu lado uma senhora gorda, idosa e respeitável. Aprumei-me logo, vergando-me galantemente, de claque em punho, e, antes de achar tempo para dizer qualquer banalidade de cortesia, reparei que ela me fitava com estranha insistência.

Tive um sobressalto. O coração bateu-me com mais força. Entre nós dois cavou-se um profundo silêncio, frio e desconsolado como a velhice.

Encaramo-nos ainda um instante, sem dar palavra; depois, voltando pouco a pouco do meu abalo, senti ir acordando a minha memória defronte daquela triste e cansada fisionomia, que ali me fitava obstinadamente, como se por detrás dela uma alma oculta me estivesse espiando do passado.

E reunindo, como depois de um naufrágio, os miseráveis destroços de uma querida formosura que já não existia senão na memória do meu coração e na poesia da minha saudade, balbuciei com os lábios trémulos e os olhos húmidos:

- Alice!

Ela sorriu tristemente e conservou-se muda.

No fim de algum tempo suspirou e disse-me que estava à espera de ver se eu ainda a reconheceria.

Aproxima-mo-nos então um do outro e conversamos. Contou-me que já tinha netos. Enviuvara com seis filhos e sofrera muito desde o primeiro parto.

Em seguida vieram as recordações, e tudo lembrado por ela, com uma voz em que faltavam dentes e uma comoção que lhe fazia os olhos menores e mais empapuçados.

E eu, enquanto a ouvia, examinava-a disfarçadamente, procurando descobrir e colher uma lembrança da encantadora companheira dos meus primeiros sonhos por entre aqueles fúnebres restos insepultos.

Que terrível desilusão, meu Deus!

Oh! por que aquela desumana criatura consentiu que eu a visse assim, indecorosamente descomposta de beleza? Por que aquela insensata não fugiu para dentro do mundo, não se escondeu na terra, antes que a senilidade lhe viesse daquele modo ultrajar tão miseravelmente o corpo que eu até esse instante divinizava na minha saudade?

Ela, coitada! como se percebera o meu íntimo juízo, fez-me notar, jovialmente, que também eu pelo meu lado estava bem longe de lembrar o que fui. E de novo entristecida, malgrado o esforço que fazia para alegrar o rosto, recordou-me, com um inquietante sorriso, os meus belos cabelos de moço, quando eu os tinha negros, abundantes e anelados; e referiu-se, meneando a cabeça desconsoladamente, à extinta alvura dos meus dentes e à rosada frescura primitiva de meus lábios, outrora tão bonitos e tão senhores dos meus últimos beijos de criança e dos seus primeiros beijos de mulher. E, fitando meus olhos, parecia procurar neles uns olhos que não eram os meus, mas ia com os dela entrando por eles familiarmente, para vir cá dentro de mim buscar os outros, os seus íntimos, os seus alegres companheiros de mocidade, que deviam lá estar ainda nesse passado feliz que cada um de nós carinhosamente continuava a guardar no fundo d’alma.

Acordei-a desse devaneio com uma facécia desenxabida, falando do meu bigode branco e da minha calva.

Rimo-nos ambos e continuei a rir durante o resto da nossa conversa. Mas, enquanto eu ria e gracejava, ia-me entrando traiçoeiramente no coração um hóspede sombrio, uma sinistra amargura, que principiava a instalar-se nele, varrendo para fora os últimos farrapos de ilusão que o intruso ainda encontraria lá dentro, esquecidos pelo chão e pelas paredes frias.

Não pude demorar-me ali. Dei-me por indisposto e retirei-me em meio da festa, sem levar na deserção outro companheiro além de um charuto acudido no momento de tomar o carro.

Ao entrar em casa dispensei o criado, recolhi-me sozinho aos meus aposentos e, ao passar pelo espelho do guarda-roupa, mirei-me longa e silenciosamente, como se só então e de surpresa me visse tão velho e acabrunhado, estranhando por tal modo a minha própria imagem como se naquele instante desse cara a cara com um desconhecido que eu não sabia donde vinha, nem o que de mim queria, para estar ali a fixar-me com tamanha impertinência.

Maldita sombra importuna! Maldito despojo de mim mesmo!

Traço por traço examinei-me da cabeça aos pés; todo eu, como Alice, tinha já desaparecido na melhor parte, e os meus restos eram cabelos sem cor, olhos sem luz, boca sem beijos e alma sem dono.

Como eu estava retardado neste mundo!

Despi-me. Não pude ler, nem pensar, nem fazer nada. Pus-me a fumar, estirado no divã, perdido numa infinidade de tolices aborrecidas. De vez em quando observava com tédio as minhas mãos engelhadas, o meu ventre disforme, as minhas pernas trôpegas e os meus pés deformados.

Oh! definitivamente esta vida era uma mistificação e não valia a pena viver! isto é, trabalhar tanto, desejar tanto, e para quê? para ir morrendo, até nos estalar afinal a última fibra e rolar dentro da terra indiferente mais uma pouca de lama.

E senti um doloroso e vago desejo de não continuar a existir, mas sem morrer; uma insaciável vontade de desertar do presente para o passado extinto; volver-me de novo o que eu fora, desprotegido e pobre, mas rico de inexperiência, com a minha mocidade inteira e inteiro o meu tesouro de ilusões; e que eu pudesse ir pelo passado a dentro, correndo, até chegar de novo aos dezoito anos, e atravessar então o muro do quintal daquela Alice, que não morrera e que já vivia, e cair-lhe aos pés, debaixo do cheiroso caramanchão de jasmins, e beijar-lhe os dedos brancos e mimosos, e dizer-lhe com a minha boca de moço mil cousas de amor e ouvir em resposta: “Eu te amo! Eu te amo!” e poder acreditar nestas palavras sem a mais ligeira sombra de desconfiança, como outrora, quando elas saíam quentes do coração de Alice para estalarem à superfície da boca num beijo contra meus lábios.

E depois, abraçado com ela, eternamente jovens como os amantes que os poetas celebram nos seus poemas de amor, queria fugir para um outro mundo bem longe deste, ideal e puro, onde não houvesse dinheiro nem honrarias, e onde se não fosse apodrecendo em vida, aos poucos, como nesta miserável terra em que nos arrastamos sem asas.

Aluísio Azevedo

segunda-feira, 30 de março de 2015

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

David Garrett
Violinista Americano

DAVID GARRETT - «Zorba's Dance»

OUTROS CONTOS

«Arte Poética», conto poético por Paul Verlaine.

«Arte Poética»
Retrato do escritor, poeta e ensaísta Charles Morice 

460- «ARTE POÉTICA

(A Charles Morice)

Música, antes de qualquer coisa,
E para tal, prefere o Ímpar,
Mais vago e mais solúvel no ar,
Sem nada que lhe pese ou que lhe pouse.

É preciso também que não vás nunca
Escolher tuas palavras sem algum engano:
Nada mais caro que a canção cinzenta
Onde o Indeciso se junta ao Preciso.

São belos olhos atrás dos véus,
É a grande luz trémula do meio-dia,
É, através do morno céu de outono,
O azul desordenado das claras estrelas!

Porque nós queremos ainda o Matiz,
Não a Cor, nada senão o Matiz!
Ok! Só o Matiz vincula
O sonho ao sonho e a flauta à trompa!

Foge para longe da Piada assassina,
Do Espírito cruel e do Riso impuro,
Que fazem chorar os olhos do Azul,
E todo este alho de baixa cozinha!

Toma a eloquência e torce-lhe o pescoço!
Farás bem, com um pouco de energia,
Em tornar a rima um pouco razoável:
Se não a vigiamos, até onde irá?

Oh, o que dizer dos danos da Rima!
Que criança surda ou que negro louco
Nos forjou essa jóia de um vintém
Que soa oca e falsa sob a lima?

A música, ainda e sempre!
Que teu verso seja a coisa fugidia
Que sentimos escapar de uma alma em caminhada
Na direcção de outros céus e de amores outros.

Que teu verso seja a boa aventura
Esparsa no vento crispado da manhã
Que vai florindo a hortelã e o timo...
E todo o resto é literatura.

Paul Verlaine

CARTOON versus QUADRAS

A Súplica
HenriCartoon

«A SÚPLICA»

- O meu geniozinho superior,
Suplica que devo escrever
Outra obra por via inferior….
Falta uma coisa acontecer (?)

- E que falta, senhor engenheiro,
Para que tal venha a suceder?
- Preciso que arranjes dinheiro...
O escritor decerto irá aparecer!

POETA

domingo, 29 de março de 2015

OUTROS CONTOS

«Ortografia», por João de Melo.

«Ortografia»
Conto de João de Melo

459- «ORTOGRAFIA»

[Excerto do «Dicionário de Paixões]

Dá-se com os olhos nele e já ninguém estranha. Ele está em toda a parte : nos tapumes das obras daqueles bancos solícitos e hipócritas que pedem desculpam pelo incómodo e prometem ser breves a devolver aos peões o passeio público; nos painéis publicitários, nas legendas televisivas, nos placards que encimam os andaimes dos edifícios em construção. Está também nas coisas da Câmara; circula nos autocarros do Porto, de Lisboa e de todas as cidades; foi escrito a giz nos muros — como protesto público, paixão de amor, exercício naïf de pintura e caligrafia. Na província, atravessando as ruas, vibra nas faixas que anunciam arraiais, quermesses, eventos desportivos…

Não conhecem o erro ortográfico?

O maior deles é irreversível. Consiste em não o (re)conhecermos. E esse irreconhecimento fez dele uma instituição secreta.

A correcção linguística e gramatical, pela qual se batem as gerações da exigência e da cultura, é de tal maneira uma raridade deste alegre tempo português, que da nossa indignação vamos todos nós pouco a pouco abdicando. Os professores das disciplinas científicas deixaram de o corrigir — por o não identificarem ou por a ele se terem já conformado. Os das chamadas ciências sociais limitam-se a sublinhá-lo a azul ou a amarelo, com a timidez de quem não tem autoridade nem voz na matéria. Os docentes de língua materna não sabem que peso atribuir-lhe nem se devem considerá-lo como argumento ou ónus de avaliação. Vai sendo um castigo e uma temeridade ser-se professor de Português. Não é só o caso de figurarmos na condição de réus, mas sobretudo o risco de a todo o instante sermos postos em trabalhos e em tormentos. No intervalo das aulas, em plena sala de professores, levantam-se vozes contra a ignorância frásica e a pobreza vocabular dos alunos (dizem-no de dedo apontado a nós, culpando-nos desse crime de lesa-idioma). Nas compridas e presunçosas reuniões de escola, havendo à mão um “purista” da escrita, os outros professores sentem-se dispensados de redigir actas ou quaisquer outros documentos — porque só Deus sabe como é chato escrever comunicados, relatos, actas, postulados pedagógicos, redacções… […]

[Os professores de Português] Incompreendidos tentam não ceder ao desespero. Perderam as ilusões: estão do lado errado de uma cruzada sem sentido. Não sabem que destino dar a tanto erro ortográfico. Eles bem que explicam a diferença entre o “há” do verbo haver e o “à” que contrai uma preposição com um artigo definido. Quanto à conjugação verbal, bem se esforçam os pobres por levar os alunos a distinguir entre “abraça-se” e “abraçasse”. É um inferno de loucos, um mundo de surdos. Ninguém é profeta na sua terra; menos ainda na sua língua.

Aos erros escritos somam-se agora, em grande, profusa e incontrolada abundância, os chamados erros de “ortografia oral”. De que adianta um homem emendar “possamos” por “possamos” ou “traze-a” por “trá-la”, com a respectiva explicação gramatical? Ao cardume dos alunos junta-se a vasta legião dos conspiradores televisivos, radiofónicos, políticos e desportivos — numa imensa epidemia de labregos linguísticos. Quando vejo um atleta aceder a prestar um depoimento, fico logo em guarda: lá vem bombarda! 

Ouço os yuppies empresariais, os jovens repórteres ou certos representantes das associações de estudantes — e é um pânico. Há tempos, em S. Bento, ao microfone de uma rádio, um rapaz de Coimbra justificava a turbulência de uma manifestação estudantil dizendo que “as pessoas estavam um pouco excedidas”. Mas a uma locutora desportiva ouvi eu que aquela “era uma pista onde a prova tinha sido decorrida…”

A última geração que lê será também a última a não dar erros ortográficos e a fechar a porta atrás de si. Há quem atribua aos escritores toda a culpa desta decadência linguística, acusando-os de prescindir da pontuação e de subverter a sintaxe. Pela parte que me toca, e já que não é pecado pecar, disponho-me a ir à santa inquisição da língua explicar a minha transgressão da norma. Sem dúvida que a minha dupla condição de professor/escritor me levará à fogueira. Mas permitir-me-á também usar a forquilha do Diabo e rir da gramática, do Acordo Ortográfico […]…   

João de Melo       

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(29 de Março de 2009, morre o compositor francês Maurice Jarre)

Maurice Jarre
Compositor Francês

MAURICE JARRE - «Carpe Diem»

A ARTE DE RUGENDAS

«Negra e Negro da Bahia»
Rugendas

Por aqui:
Poet'anarquista

sábado, 28 de março de 2015

OUTROS CONTOS

«Graus Negativos», conto poético por Tomas Transtrômer.

«Graus Negativos»
Conto Poético de Tomas Transtrômer

 458- «GRAUS NEGATIVOS»

Encontramo-nos numa festa que não gosta de nós. Ao fim, a festa deixa cair a sua máscara e mostra-se tal como é: uma estação de manobras. Colossos gelados estão de pé, sobre os carris, no nevoeiro. Um pedaço de giz riscou as portas da carruagem.

Não se devia mencionar, mas aqui há muita violência reprimida. Por isso os pormenores são tão pesados. E é tão difícil vermos o outro, que também existe: um raio de sol reflectido que se movimenta por cima do muro da casa, que desliza através do bosque ignorado, de rostos cintilantes; uma frase bíblica que nunca se escreveu: «vem até mim, pois eu sou contraditório como tu».

Amanhã trabalharei numa outra cidade. Eu corro para lá, através da madrugada que é um grande cilindro negro e azul. Oríon está pendurada por cima da geada. Crianças num montão de mudez esperam pelo autocarro, crianças pelas quais ninguém reza. A luz cresce, pouco a pouco, como o nosso cabelo.

Tomas Transtrômer

CARTOON versus DÉCIMA

A Pique

HenriCartoon

«A PIQUE»

Aí  vão eles a pique...
Onde será a colisão?
Segue-se a explosão,
Depois de um clique.
Nada que justifique
Medidas adicionais,
Estes, e outros que tais
 É deixá-los colidir…
De vez devem sumir
Os que já estão a mais!

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(28 de Março de 1943, morre o pianista e compositor russo, Sergei Rachmaninov)

Sergei Rachmaninov
Pianista e Compositor Russo

SERGEI RACHMANINOV
«Duets op. 11 (1894) - IV. Valse»

sexta-feira, 27 de março de 2015

CARTOON versus QUADRA

Novo Hino com Coreografia
HenriCartoon

«NOVO HINO COM COREOGRAFIA»

Detrás da grade aprisionado
Um olhar me está matando…
Trocas-te, muito obrigado,
Podes continuar roubando!

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

Blind Faith
Banda Britânica

BLIND FAITH - «Acoustic Jam»

OUTROS CONTOS

«A Coisa no Umbral», por H. P. Lovecraft.

«A Coisa no Umbral»
Conto de H. P. Lovecraft

457- «A COISA NO UMBRAL»

Morgan não é um literato; na verdade, ele mal consegue falar inglês com algum grau de coerência. É isso o que me faz estranhar as palavras que ele escreveu, embora outros tenham gargalhado.

Ele estava sozinho na noite em que aconteceu. Subitamente uma vontade incontrolável de escrever lhe assomou, e tomando a pena na mão ele escreveu o seguinte:

Meu nome é Howard Phillips. Vivo na Rua College, 66, em Providence, Rhode Island. A 24 de Novembro de 1927 – pois não sei sequer em que ano estamos agora – adormeci e sonhei, e desde então tem sido incapaz de despertar.

Meu sonho teve início num pântano húmido e atulhado de juncos que jazia sob um céu cinzento de outono, com um desfiladeiro encapelado de rochas cobertas de líquenes elevando-se ao norte. Impelido por alguma motivação obscura, ascendi à uma fenda ou fissura nesse gigantesco precipício, notando enquanto o fazia que as bocas negras de muitos buracos terríveis estendendo-se de ambas as partes até as profundezas do platô de pedra.

Em vários pontos a passagem era coberta pelo chocalhar das partes superiores da fissura estreita; esses lugares sendo excessivamente escuros, e proibindo a percepção de tais buracos que possam ter existido ali. Em tal espaço escuro senti consciência de um singular acesso de pânico, como se alguma subtil e incorpórea emanação do abismo estivesse engolindo meu espírito; mas a escuridão era grande demais para que eu pudesse perceber a fonte de meu alarme.

Concluindo, emergi sobre um platô de rocha musgosa e solo pobre, iluminado por um pálido luar que havia substituído o orbe moribundo do dia. Lançando meus olhos ao redor, não vi objecto vivo; mas estava sensível a uma comoção muito peculiar que vinha muito abaixo de mim, entre os sussurrantes vestígios do pântano pestilento que eu havia acabado de abandonar. Depois de caminhar por uma certa distância, encontrei os trilhos enferrujados de uma ferrovia de rua, e as placas comidas de cupins ainda seguravam o trólei em boas condições. Acompanhando esta linha, logo dei com um carro amarelo de vestíbulos de número 1852 – de um tipo de dois vagões comum entre 1900 e 1910. Não estava tinindo, mas evidentemente preparado para partir; o trólei estando no fio e o freio aéreo de quando em vez pulsando abaixo do chão. Entrei a bordo e olhei em vão pelo interruptor de luz – notando, enquanto o fazia, a ausência de cabineiro, que assim implicavam a ausência do motorneiro. 

Então sentei-me num dos bancos cruzados do veículo. Ouvi um farfalhar na grama esparsa à esquerda, e vi as formar escuras de dois homens caminhando ao luar. Tinham os quépis de uma companhia ferroviária, e não pude duvidar de que fossem o condutor e o motorneiro. Então um deles fungou com presteza singular, e elevou o rosto para uivar para a lua. O outro caiu de quatro para correr na direção do carro. Levantei-me de um salto e corri como louco para fora daquele carro e atravessei intermináveis léguas de platô até que a exaustão me forçou a parar: fazendo isto não porque o condutor tivesse caído de quatro, mas porque o rosto do motorneiro era um simples cone branco com um tentáculo vermelho como sangue na ponta…

Eu estava ciente de que apenas sonhava, mas a própria consciência não me foi agradável.
Desde aquela noite pavorosa, tenho rezado apenas para despertar: isso não acontece!

Ao invés disso eu me encontro com um habitante deste terrível mundo dos sonhos! Aquela primeira noite deu lugar à aurora, e caminhei sem rumo pelos pântanos solitários. Quando a noite veio, eu ainda caminhava, esperando acordar. Mas subitamente abri caminho entre os juncos e vi à minha frente o antigo bonde: e, a um lado, uma coisa com rosto em forma de conte levantava sua cabeça e uivava estranhamente para o luar que se derramava!

Tem sido a mesma coisa todo dia. A noite sempre me leva àquele lugar de horror. Tenho tentado não me mover com a chegada da noite, mas devo andar em meu sonambulismo, pois sempre acordo com a coisa de terror uivando à minha frente na pálida luz do luar, e viro-me e fujo como um louco.

Deus! Quando despertarei?

Foi isso o que Morgan escreveu. Eu iria à Rua College 66, em Providence, mas tenho medo do que posso encontrar lá.

H. P. Lovecraft

quinta-feira, 26 de março de 2015

CARTOON versus QUADRAS

Clube dos Poetas Vivos
HenriCartoon

«CLUBE DOS POETAS VIVOS»

- Herberto, essa é boa!…
Porque não aceitaste
O prémio que ganhaste
Do teu amigo Pessoa?

- Eu sei lá, colega Fernando…
Tu aceitavas o prémio Camões
Em troca de uns míseros tostões?
- Quem é que está chamando?

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E as músicas de hoje são...
(26 de Março de 1827, morre o compositor alemão Beethoven)

Ludwig van Beethoven
Compositor Alemão

BEETHOVEN - «Para Elisa»

OUTROS CONTOS

«Não temos muito tempo para amar», conto poético de Tennessee Williams.

«Não temos muito tempo para amar»
Casal se Admirando/ Marc Chagall

456- «NÃO TEMOS MUITO TEMPO PARA AMAR»

Não temos muito tempo para amar 
a luz vai desaparecendo,
as coisas que amamos são as mesmas
que em breve perderemos.

Os piores vestidos são os que
diariamente se vão usar.
Os teus cabelos já te vi pentear,
em silêncio - íntimo,
escuro e caloroso.

Tentaria tocar-te num braço,
mas escolhi não o fazer.

Podia, mas não quis, quebrar
aquilo que se mantém imóvel.
(O mais ténue suspiro
quase seria um estridente grito).

Por isso, os momentos passam
como se quisessem ficar.
E não temos muito tempo para amar.
Uma noite. Um dia...

Tennessee Williams

quarta-feira, 25 de março de 2015

OUTROS CONTOS

«Não Digam a Ninguém», por António Alçada Baptista.

«Não Digam a Ninguém»
Por António Alçada Baptista

455- «NÃO DIGAM A NINGUÉM»

«Foi assim: ninguém tinha o telefone do Herberto Helder, eu só sabia o nome da rua porque tenho muita dificuldade em decorar números. Foi então que a Clara propôs irmos à procura do poeta na rua que eu tinha. Só havia dois prédios de habitação. Um deles era quase uma torre e tinha um painel de campainhas. A Clara tocou numa delas ao acaso. Daquela gradinha de rede veio uma voz. «Quem é?». A Clara perguntou se era da casa do poeta Herberto Helder. «Mas quem é?». Ela disse o meu nome. Então a porta abriu-se e nós subimos. 

A Olga estava à entrada da casa. Eu gosto muito da Olga, primeiro por ela e depois porque nos toma conta do Herberto. Digamos que ele faz parte do nosso Património e ela é a Conservadora. Eu disse-lhe baixinho - Olga, o Herberto ganhou o Prémio Pessoa, são sete mil contos. Como é que isto vai ser?

Ela fez-me uma cara de conformação e só com um gesto de cabeça fiquei a saber que ele não ia aceitar.

O Herberto estava na sala. Falou à Clara e depois a mim.

Eu disse, meio a brincar meio a sério: - Vimos numa difícil missão...

Ele, com toda a simplicidade dele, disse-me logo que não, calculando que era um prémio.

Não foi possível demovê-lo e sentimos que aquilo era tão fundo e tão importante para ele que não devíamos insistir. Ele disse:

- Vocês não digam a ninguém e dêem o prémio a outro...

- Não pode ser, o júri escolheu-te a ti, a decisão está tomada; respeitamos que digas que não...

Ele ainda acrescentou:

- Peço que vocês sejam meus mandatários e digam ao júri que eu agradeço mas não posso aceitar.

Eu queria transmitir bem que não havia aqui nenhuma arrogância: a sua recusa não era contra ninguém. Era uma decisão do seu eu mais íntimo, que logo nos mereceu o maior respeito. Eu só lhe disse: - Eu já gostava de ti e vi agora que é possível ainda gostar mais...

A Clara falou muito com ele porque ambos gostavam de se conhecer. Ela sabe fazer conversas inteligentes como se fossem banais. A certa altura viemos embora com alguma comoção por dentro e desabafámos no carro:

- Já ninguém faz isto...

- Todos ganhámos este prémio. Quando a regra é a procura de dinheiro, é bonito que um homem pobre dê exemplos assim.

Eu, confesso que passou pela cabeça de um bocadinho de mim que ele pudesse aceitar o prémio. Sempre eram sete mil contos. Talvez uma segurança até ao fim da vida. A verdade é que quase me apeteceu voltar atrás e pedir-lhe desculpa por este «mau pensamento». Mas eu era um homem feliz: o Herberto não nos deixou ficar mal...»

António Alçada Baptista

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

Lee 'Scratch' Perry
Banda Jamaicana

LEE 'SCRATCH' PERRY
«Panic in Babylon»

CARTOON versus QUADRA

Agir
agir1.gif
HenriCartoon

«AGIR»

Estou pronta a AGIR
Com os activistas do PTP…
As letras dão em fugir
E fico GIRA, como se vê!

POETA

terça-feira, 24 de março de 2015

MORREU HERBERTO HELDER

Considerado um dos maiores poetas portugueses, Herberto Helder, que morreu segunda-feira aos 84 anos, deu a sua última entrevista em 1968 e recusou o Prémio Pessoa na década de noventa, rejeitando quase sempre o mediatismo literário.
Poet'anarquista
Herberto Helder (Agosto de 2014)
Poeta Português
SOBRE O POETA...

Herberto Helder Luís Bernardes de Oliveira nasceu a 23 de Novembro de 1930 no Funchal, ilha da Madeira, no seio de uma família de origem judaica.

Aos 16 anos viajou para Lisboa para frequentar o liceu, tendo posteriormente ingressado na Faculdade de Direito de Coimbra.

Em 1949, mudou para a Faculdade de Letras, onde frequentou o curso de Filologia Romântica, que não chegou a concluir.

De regresso a Lisboa, passou a viver "por razões pessoais" numa 'casa de passe' e começou a trabalhar na Caixa Geral de Depósitos e posteriormente como angariador de publicidade.

Em 1954, data da publicação do seu primeiro poema, em Coimbra, regressou à Madeira, onde trabalhou como meteorologista.

Quando regressou a Lisboa, em 1955, frequentou o grupo do Café Gelo, formado por figuras como Mário Cesariny, Luiz Pacheco, Hélder Macedo, João Vieira e António José Forte.

Trabalhou como delegado de propaganda médica e redactor de publicidade durante três anos e em 1958 publicou o seu primeiro livro, "O Amor em Visita".

Nos anos seguintes viveu em França, Holanda e Bélgica, como operário, empregado numa cervejaria, cortador de legumes, empacotador de aparas de papel e policopista, tendo mesmo vivido na clandestinidade em Antuérpia, onde foi guia de marinheiros no submundo da prostituição.

Regressado a Portugal em 1960, tornou-se encarregado das bibliotecas itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian, profissão que o fez percorrer vilas e aldeias do Baixo Alentejo, Beira Alta e Ribatejo.

Foi para Angola em 1971, trabalhar numa revista. Como repórter de guerra, sofreu um grave acidente e esteve hospitalizado três meses.

Regressou a Lisboa e partiu novamente, agora para os Estados Unidos, em 1973, ano em que publicou "Poesia Toda", reunindo a sua produção poética até à data, e fez uma tentativa falhada de publicar "Prosa Toda".

A Portugal, voltaria só depois do 25 de Abril, já em 1975, para trabalhar na rádio e em revistas, como meio de sobrevivência, tendo sido editor da revista literária Nova, de que se publicaram apenas dois números.

Da sua poesia, escreveu o crítico literário e responsável pela primeira edição brasileira da poesia de Herberto Helder publicada no Brasil, em 2000, Jorge Henrique Bastos, que o poeta "impulsiona a viva encantação das palavras [e que] o abalo que a sua poesia provoca é um dos mais profundos que a literatura de língua portuguesa já sofreu".

Já neste século, o poeta voltou a editar pela Porto Editora, nomeadamente a sua poesia completa em "Poemas completos", obra que segue a fixação empregue na edição anterior, "Ofício cantante", e inclui os esgotados "Servidões", que foi considerado pela crítica literária como o livro do ano em 2013, e "A morte sem mestre", o livro de inéditos escrito em 2013 e publicado em 2014, numa edição limitada.

Herberto Helder morreu na segunda-feira aos 84 anos na sua casa em cascais e segundo fonte familiar haverá uma cerimónia fúnebre privada apenas para a família. 
Fonte: Lusa

«MINHA CABEÇA ESTREMECE» - POEMA DE HERBERTO HELDER

Do álbum «Os Poetas»: Entre Nós e as Palavras, 1997/ Rodrigo Leão & Gabriel Gomes

OUTROS CONTOS

«Manuscrito», por Jules Verne.
«Manuscrito»
Jules Verne

454- «MANUSCRITO»

A minha obra ficaria incompleta se, em apêndice à Viagem ao Centro da Terra, não houvesse o breve Regresso à Superfície da Terra que hoje venho dar-vos. Foi para o escrever que abandonei, transitoriamente, o formoso túmulo em que me inumaram, e, envergando as roupas do guarda deste cemitério (a quem lego, a título de indemnização, os direitos desta carta), fiz uma peregrinação pelo mundo. Tudo vi. E bem escuso descrever-vos as novidades que encontrei, pois sobejamente as conheceis.

O meu propósito é outro. À semelhança do que os tártaros fizeram a Miguel Strogoff, momentos antes de lhe chegarem aos olhos a lâmina incandescente, quero gritar-vos: Abri os olhos! Abri-os bem, pois estais, como ele, em riscos de cegueira!

Em breve sabereis que há vida na Lua. Quando? Na noite de lua-nova em que fizerdes explodir no espaço, qual gigantesco very light, uma das vossas bombas termo-nucleares. Então vereis os segredos da face desconhecida da Lua que, pelo facto da velocidade de rotação desse satélite ser igual à de translação, tem estado, desde o princípio dos tempos, mergulhada em sombra para os habitantes da Terra. E conhecereis que miríades de estranhos seres habitam essa face, deslocando-se, sem parança, no sentido do poente, logo que a luz do Sol se avizinha do horizonte do ponto em que estão. Porquê? Porque a pequena massa da Lua, a natureza do seu solo, a sua menor superfície em relação à Terra, bem assim como a maior proximidade do Sol a que se encontra uma parte da órbita que descreve tornam a vida incompatível com a temperatura que atinge o solo da face iluminada. Daí que toda uma legião de seres, anaeróbios mas corpulentos, corra incessantemente atrás da sombra. E, porque a velocidade de rotação e translação da Lua é suficientemente pequena para o permitir, assim vão vivendo numa sucessão de pequenos altos em que se nutrem dos fungos e cogumelos que cobrem as paredes das inúmeras cavernas e galerias de que a Lua —gigantesca pedra-pomes — está minada, e em que descansam, se reproduzem e enterram (ou enluam) os mortos, — autênticos caixeiros-viajantes da vida que são.

Mas vós, meus queridos leitores, fazeis hoje, mentalmente, o mesmo! Pois que é a vossa vida senão uma corrida sem tréguas na peugada da sombra que a sinistra bola de fogo das explosões atómicas projecta a milhares de quilómetros de distância? Todos viveis na insegurança da noite em que poderá raiar, subitamente, o clarão sinistro da fissuração dos átomos. Essa admirável conquista da ciência, que o meu Nemo anteviu, e que tão amplas perspectivas de futuro poderia rasgar aos vossos olhos — não apontei há pouco senão uma das mais ínfimas! — tornou-se um pesadelo. Por isso recolhi ao túmulo, angustiado. E só consentirei em reassumir a posição, face à posteridade, que a vossa gentileza me talhara no mármore, no dia em que tiverdes conjurado a ameaça que paira sobre a Humanidade, eliminado o perigo duma guerra!

Amarguradamente vosso,

Júlio Verne

CARTOON versus QUADRAS

A Ave Rara
HenriCartoon

«A AVE RARA»

- Pai, que estás a fazer
Aí, amagado no chão?
- Caçar pra dar de comer
A ti, e ao teu irmão…

-E que ave caças, pai?
Não se ouvem chilreios…
- Caço ave rara que sai
 Daqueles cofres cheios!

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

April Wine
Banda Canadiana

APRIL WINE
«You Could Have Been A Lady»
You Could Have Been a Lady by April Wine on Grooveshark
Poet'anarquista

VOCÊ PODERIA TER SIDO UMA SENHORA

Poderia ter sido tudo bem, poderia ter sido aqui esta noite
Poderia ter sido doce como o vinho, você poderia ter sido uma senhora
Eu poderia ter sido tudo bem, eu poderia ter sido aqui esta noite
Poderia ter sido doce como o vinho, você poderia ter sido uma senhora

Todos eles precisam de você, faça amor
Quando você acorda, você encontrá-los na cama, deitado ao seu lado
Todos eles te amam, você é uma boa menina
E eu não estou surpreso, quando você percebe, exactamente para onde você está indo

Você poderia ter sido tudo bem, você poderia ter sido aqui esta noite
Você poderia ter sido doce como o vinho, você poderia ter sido uma senhora
Poderia ter sido tudo bem, você poderia ter sido aqui esta noite
Poderia ter sido doce como o vinho, você poderia ter sido uma senhora

Se eu dissesse a você, para onde você está indo
Você iria rir na minha cara, dizer que estou fora do lugar, importa o seu negócio
E todos eles querem que você, faça amor
É uma vergonha, o destino do jogo, do jeito que o agrada

Você poderia ter sido tudo bem, você poderia ter sido aqui esta noite
Você poderia ter sido doce como o vinho, você poderia ter sido uma senhora
Poderia ter sido tudo bem, você poderia ter sido aqui esta noite
Poderia ter sido doce como o vinho, você poderia ter sido uma senhora

Na, na na na na, na, na, na na na na, na
Na, na na na na, na, na na
Na, na na na na, na, na, na na na na, na
Na, na na na na, na, na na

Tudo bem, você poderia ter sido aqui esta noite
Você poderia ter sido doce como o vinho, você poderia ter sido uma senhora
Poderia ter sido tudo bem, você poderia ter sido aqui esta noite
Poderia ter sido doce como o vinho, você poderia ter sido uma senhora

April Wine

segunda-feira, 23 de março de 2015

CARTOON versus DÉCIMA

Y Viva España
HenriCartoon

«Y VIVA ESPAÑA»

- Em Espanha tudo é consentido…
Aqui, a liberdade de expressão
Permite escultura em exposição
Mostrar o velho rei a ser comido.
- E em Portugal é muito parecido,
A tradição por cá pegou de raiz...
Podem fazer tudo no nosso país!
- Também aí têm rei sodomizado…?
- Aqui mais o povo a ser enrabado,
E quem sodomiza sente-se feliz!

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

Frank Vincent Zappa
Músico Norte-Americano

FRANK ZAPPA
«Bobby Brown Goes Down»
Bobby Brown Goes Down by Frank Zappa on Grooveshark
Poet'anarquista

BOBBY BROWN PARA BAIXO 

E aí, pessoal, eu sou o Bobby Brown
Dizem que eu sou o cara mais lindo da cidade
Meu carro é veloz, meus dentes são brilhantes
As garotas sabem que podem beijar o meu pipi
Aqui estou eu, numa escola famosa
Eu estou bem vestido e estou legal
Eu tenho uma líder de torcida aqui que quer me ajudar com meus trabalhos de escola
Vou deixar ela fazer todo o trabalho e talvez depois eu coma ela

Oh, Deus, eu sou o sonho americano!
Eu não acho que sou exagerado
E eu sou um filho da puta gostoso
Eu vou arranjar um bom emprego e ser bem rico
Arranjar um bom, arranjar um bom, arranjar um bom,
arranjar um bom emprego...

Libertação Feminina
Veio rastejando pela nação
Eu digo a vocês, pessoal, eu não estava pronto
Quando eu comi essa puta com o nome de Freddie
Ela fez um pequeno discurso,
Aw, ela tentou me fazer dizer
Fissurou nas minhas bolas, mas ela esqueceu o pau
Eu acho que ele ainda funciona, mas agora ele dispara rápido demais

Oh, Deus, eu sou o sonho americano!
Mas agora eu tenho cheiro de Vaselina
E eu sou um miserável filho da puta
Eu sou um garoto ou uma garota? Eu não sei qual
Eu penso... penso... penso...

Então eu saí para comprar um terno descolado
Mudei um pouco, mas continuo sendo lindo
Arranjei um emprego de fazer propagandas no rádio
E nenhum dos locutores percebem que eu sou bicha
De vez em quando eu e meu amigo
Vamos juntos para a S&M
E ficamos uma hora na torre de energia
Enquanto eu puder ter o meu chuveirinho dourado

Oh, Deus, eu sou o sonho americano!
Com disparos no meu traseiro até que eu grite
E eu faço qualquer coisa para seguir em frente
Passo noites em claro dizendo, "Obrigado, Fred!"
Oh Deus, oh Deus, eu sou tão fantástico!
Graças ao Freddie eu sou um espádico erótico
E o meu nome é Bobby Brown
Olhe para mim agora; eu estou indo para baixo

E o meu nome é Bobby Brown
Olhe para mim agora; eu estou indo para baixo
E o meu nome é Bobby Brown
Olhe para mim agora; eu estou indo para baixo
E o meu nome é Bobby Brown
Olhe para mim agora; eu estou indo para baixo

É.... eu sabia que você iria ficar surpreso...

Frank Zappa

OUTROS CONTOS

«Quatro Novelas», por Ana de Castro Osório.

«Quatro Novelas»
Conto de Ana de Castro Osório

454- «QUATRO NOVELAS»

Chamo-me Raquel. Creio que este nome é hereditário na minha família, porque a minha avó e a mãe da minha avó eram também Raquel. Não sei. De genealogias, como de tudo mais, entendo pouco.
O mais longe que posso recordar na minha existência humana, vejo-me feliz.
Era uma grande casa de aldeia, a nossa. Havia ali de tudo quanto pode desejar uma criança acostumada à simplicidade da vida campestre.
Os pátios eram habitados por uma multidão de animais domésticos, que nos conheciam bem, de tanto milho que às escondidas lhes deitávamos.
Eu era a mais velha, e os meus quatro irmãozitos seguiam-me alegremente pelos campos fora, como um rebanho segue o pastor. Nada nos era defeso, nem parede que não tivéssemos escalado, nem árvore que não conhecêssemos como os nossos dedos. Os frutos eram vigiados desde que as árvores se cobriam de prometedoras flores, e antes, muito antes da família os ver em casa, já nós tínhamos feito a nossa primeira escolha. Quando a nossa pobre burrica descansava do fatigante trabalho da nora, íamos desamarrá-la da manjedoura, saltávamos-lhe para cima, e fazíamo-la trotar pelos caminhos pedregosos da aldeia como um pur-sang trotaria nas avenidas areadas dum luxuoso parque.
Felizes tempos!…

Ana de Castro Osório