segunda-feira, 30 de novembro de 2015

CARTOON versus DÉCIMA

A Alergia
HenriCartoon

«A ALERGIA»

- Mãe, mas que passa
Com o planeta Terra?...
Adivinha-se desgraça,
Muito má cara encerra!
- É alergia da guerra
Provocada pelos humanos,
Nós os marcianos
Somos mais civilizados…
- Esses incivilizados
Não resistem muitos anos!!

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

LOU REED & JOHN CALE
«Open House»

Poet'anarquista

CASA ABERTA

Por favor
Vem para a rua 81
Estou no apartamento acima da barra
Você sabe que não pode perder, é através do metro
E a loja brega com os lenços meu lar
Minha pele é pálida como a lua ao ar livre
Prata meu cabelo é como um relógio Tiffany
Eu gosto de muitas pessoas ao meu redor, mas não beije
Olá e por favor não toque

É um costume checoslovaco minha mãe passou para mim
Caminho para fazer amigos, Andy convida-os para o chá
Casa aberta
Casa aberta

Eu tenho um monte de gatos, aqui está meu favorito
Ela é a senhora chamada Sam
Eu fiz uma boneca de papel dela, você pode tê-la
É isso que eu fiz quando eu tinha dança de São Vito

É um costume Checoslovaco minha mãe passou para mim
Dar às pessoas presentes pequenos para que eles se lembrem de mim
Casa aberta
Casa aberta

Alguém traz os legumes
Alguém por favor traga calor
Minha mãe mostrou-se ontem
Precisamos de algo para comer

Acho que tenho um trabalho hoje que quer que eu desenhe sapatos
Os que eu desenhei eram velhos e usados
Disseram-me para desenhar algo novo
Casa aberta
Casa aberta

Faça-me voar até a lua
Me faça voar a uma estrela
Mas não há estrelas no céu de Nova York
Elas estão todos no chão

Assustou-se com música, eu com medo da pintura
Eu atraí 550 sapatos diferentes hoje, quase me fez desmaiar
Casa aberta
Casa aberta
Casa aberta
Casa aberta

Lou Reed & John Cale
Músicos Norte-Americano e Britânico

OUTROS CONTOS

«Simão, o Cireneu», por Oscar Wild.

«Simão, o Cireneu»
Conto de Oscar Wild

675- «SIMÃO, O CIRENEU»

O velho sentou-se com a cabeça encurvada e as costas doloridas enquanto as censuras, fúteis de sua colérica mulher, lhe feriam os ouvidos.

Semelhante a uma infindável cascata, ela espadanava toda uma série de recriminações: imbecil barbudo, por que desperdiças o teu tempo vagabundeando pelas estradas? O teu pai, o teu avô e o teu bisavô foram todos guardiães do Templo; se estivesses a postos quando foste chamado, sem dúvida terias sido nomeado guardião como os outros. Agora, porém, um homem mais expedito foi o escolhido. Tu, o mais idiota dos homens, preferiste vagabundear pelas estradas, afim de que, renegado, pudesses carregar a cruz de um jovem carpinteiro sedicioso.

– Isto é verdade – disse o velho -, encontrei um jovem que ia ser crucificado e o centurião mandou-me carregar a cruz. Carreguei-a até o cimo da colina e demorei-me porque as palavras que ele pronunciou, embora grandemente maltratado, não eram de pesar por ele mesmo e, sim, pelos outros; as suas palavras retardaram-me lá. Por isso esqueci tudo mais.

– Sim, na verdade esqueceste tudo mais e o pouco senso que possuías, e regressaste demasiadamente tarde para ser guardião do Templo! Não estás envergonhado ao pensares que teu pai, teu avô e teu bisavô, foram todos guardiães da Casa do Senhor, que seus nomes estão lá escritos em letras de ouro e serão lidos pelos homens do futuro para todo o sempre? Quanto a ti, velho tonto, quando morreres isolado de todos os parentes, quem se lembrará neste mundo de Simão, o Cireneu?

Oscar Wild

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

OUTROS CONTOS

«A Dama das Camélias», por Alexandre Dumas Filho.

«A Dama das Camélias»
Conto de Alexandre Dumas Filho

674- «A DAMA DAS CAMÉLIAS»

[Excerto]

"Existia, no ano da graça de 1845, nesses anos de abundância e de paz em que todos os dotes da inteligência, do talento, da beleza e da fortuna aureolavam a França, uma bela e jovem mulher dotada da mais encantadora figura, cuja simples presença fazia despertar admiração em todo aquele que, ao vê-la pela vez primeira, não lhe conhecia o nome nem a profissão.

Nela se conjugavam, da forma mais natural, o olhar inocente, os modos provocantes, o andar simultaneamente petulante e honesto da mulher da mais alta sociedade. Tinha um ar grave, o seu sorriso era senhoril, e só de vê-la caminhar, poder-se-ia dizer o que um dia se disse de uma dama da corte: “Evidentemente, se não é duquesa, é uma mulher de vida fácil.” Ai! Esta não era duquesa.

De humilde nascimento, e com os dezoito anos que então teria, precisava, na verdade, de ser bem atraente para subir tão alto e com tanta facilidade.

Recordo-me de a ter encontrado um dia, pela primeira vez, no abominável átrio de um teatro de Boulevard, mal iluminado e repleto dessa multidão barulhenta que geralmente aprecia os melodramas de sensação. Viam-se ali mais blusas que casacas, mais gorros do que chapéus de plumas, e mais casacos coçados do que fatos novos.

Ali falava-se de tudo, de arte dramática e de batatas fritas; das peças do Ginásio e do pão-de-ló do Ginásio. Pois quando esta mulher apareceu à entrada daquele lugar estranho, o brilho dos seus olhos como que impregnou de graça tanta coisa ridícula, apenas com o poder do seu olhar.

Pisava aquele soalho lamacento como se, na verdade, atravessasse o Boulevard num dia chuvoso; erguia a saia instintivamente, para não tocar naquela lama seca, e sem pretender mostrar – para quê? – o seu pé, que rematava uma perna bem torneada coberta por meia de seda de ponto aberto, miudinho.

No conjunto, a sua toilette coadunava-se bem com aquele talhe flexível e jovem; o rosto, dum belo oval, um pouco pálido, justificava a graça que ela derramava em redor como um suave perfume.

Entrou, pois, e atravessou, de cabeça erguida, por entre aquela multidão assombrada.
Eu e Liszt ficamos muito surpreendidos ao vê-la sentar-se familiarmente no banco onde estávamos, pois nunca nenhum de nós lhe tinha falado.

Mulher espirituosa, de gosto apurado e de bom senso, dirigiu-se logo ao grande artista, dizendo-lhe que o ouvira havia pouco e que a sua música a deixara extasiada.

Ele, entretanto, como esses instrumentos sonoros sensíveis ao primeiro sopro da brisa de Maio, escutava, enlevado, aquela bela linguagem cheia de ideias, aquela língua sonora, eloquente e sonhadora ao mesmo tempo.

Com esse instinto maravilhoso de que é dotado, e essa grande prática das mais altas esferas sociais, ele perguntava a si próprio quem seria aquela mulher desconhecida, de modos tão familiares e tão nobres, que se lhe dirigia assim inopinadamente e que, logo após trocarem as primeiras palavras, o tratava com certa altivez, como se lhe tivesse sido apresentado em Londres, nas salas da rainha ou da duquesa de Sutherland.

Entretanto, tinham ecoado na sala as três pancadas solenes do contra-regra, e o voyeurismo esvaziara-se de toda aquela chusma de espectadores e críticos.

A desconhecida ficara só connosco. Aproximara-se mesmo do fogo e estendera os pés tiritantes na direcção das achas ardentes, de forma que a podíamos apreciar à nossa vontade, desde as pregas bordadas da saia de baixo aos caracóis do cabelo negro.

A sua mão enluvada mais parecia uma pintura; o seu lenço era maravilhosamente ornado de fina renda; nas orelhas ostentava duas pérolas do oriente capazes de causar inveja a uma rainha. Trazia todos esses pequenos requintes de elegância como se tivesse nascido entre sedas e veludos, sob qualquer tecto dourado dos bairros elegantes, com uma coroa sobre a cabeça e um mundo de aduladores a seus pés.

Assim, o seu porte correspondia a linguagem, o seu pensamento ao sorriso, a sua toilette à pessoa, e em vão se procuraria nas mais altas camadas sociais uma criatura que estivesse em mais bela e mais completa harmonia com a sua personalidade, os seus hábitos e as suas aliciantes conversas.

Entretanto Liszt, muito espantado por encontrar tal maravilha em semelhante lugar, entregava-se inteiramente à sua fantasia. Ele não é apenas um grande artista, mas também um homem eloquente. Sabe falar às mulheres, passando como elas de uma ideia à outra, e escolhendo as mais opostas.

Adora o paradoxo, conversa em tom sério, ou burlesco, e ser-me-ia impossível dizer com que arte, com que tacto, com que gosto infinito ele percorreu, com essa mulher cujo nome não conhecia, todas as gamas vulgares e todos os floreios elegantes da conversação quotidiana.

 (…) Passou esse Inverno e depois o Verão, e, no Outono seguinte outra vez, mas então em todo o esplendor de um espectáculo de benefício, em plena ópera, vimos de súbito abrir-se, com estrondo, um dos camarotes do proscénio, e aparecer-nos na frente, com um ramalhete na mão, essa mesma beleza que avistáramos no Boulevard.

Era ela!

Mas, nessa noite, o seu vestuário constituía o expoente máximo da moda feminina, e brilhavam nela todos os esplendores da conquista.

O seu penteado era primoroso, e nos belos cabelos viam-se diamantes e flores misturados com essa graça estudada que lhes dava o movimento e a vida; no colo e nos braços nus ostentava colares, pulseiras e esmeraldas.

Na mão segurava um ramalhete: de que cor? Não me seria possível dizê-lo; é necessário possuir olhos de mancebo e imaginação de criança para distinguir a cor verdadeira de uma flor sobre a qual se debruça um rosto formoso.

Na nossa idade, apenas atentamos na beleza da face e no brilho do olhar, pondo-se de parte os acessórios; e se, por acaso, nos entretemos a tirar consequências, tira-mo-las da própria pessoa, o que, na verdade, já nos dá bastante que fazer. (…)"

Alexandre Dumas Filho

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

CARTOON versus DÉCIMA

Já Cá Canta
canta1.gif
Poet'anarquista

«JÁ CÁ CANTA»

Já cá canta o poder!...
Vou ser primeiro-ministro,
Se bem não administro
Depressa o posso perder.
O que pode suceder
Se não me portar bem:
Entro a dez, saio a cem
Numa louca correria…
Encontro-me em minoria
No hemiciclo de Belém.

POETA

OUTROS CONTOS

«Conto Nº 01», por Eugène Ionesco.

«Conto Nº 01»
Conto de Eugène Ionesco

673- «CONTO Nº 01»

Josette já é uma menininha bem crescida, ela tem trinta e três meses. Uma manhã, como de costume, ela avança com seus passinhos até a porta do quarto dos seus pais. Ela tenta empurrar a porta, tenta abri-la, como se fosse um cachorrinho. Ela perde a paciência, chama, e isso acorda os seus pais, que fazem de conta que não estão ouvindo.

Nesse dia, seu papá e sua mamã estavam muito cansados. Na véspera, eles tinham ido ao teatro, ao restaurante; depois do restaurante, ao teatro de marionetes. Agora, eles estavam com muita preguiça. E isso não é bonito para os pais!...

A empregada também perde a paciência. Ela abre a porta do quarto e diz: “Bom-dia, senhora, bom-dia, senhor, aqui está o seu jornal da manhã, aqui está a correspondência que os senhores receberam, aqui está seu café com leite adoçado, aqui está seu suco de frutas, aqui estão seus croiassants, aqui está seu pão torrado, aqui está sua manteiga, aqui está seu doce de laranja, aqui está sua geleia de morango, aqui está seu ovo estrelado, aqui está o presunto e aqui está a sua filhinha.”

Os pais estavam enjoados, pois eu esqueci de dizer que, após o teatro de marionetes, eles ainda tinham ido ao restaurante. Os pais não querem beber o café com leite, eles não querem o pão torrado, eles não querem os croissants, eles não querem o presunto, eles não querem o ovo estrelado, eles não querem o doce de laranja, eles não querem seu suco de frutas, eles não querem também a geleia de morango (não era mesmo de morango, era de laranja). 

— Dê tudo isso a Josette, diz o papá à empregada, e quando ela tiver terminado, traga-a de volta.

A empregada pega a criança nos braços. Josette berra. Mas como ela é gulosa, ela se consola comendo na cozinha: o doce da mamã, a geleia do papá, os croissants dos dois; ela bebe o suco de frutas.

— Oh! que apetite de ogro! diz a empregada. Você tem o olho maior que a barriga!...

E para que a criança não fique doente, é a empregada que bebe o café com leite, come o ovo estrelado, o presunto, e também o arroz-doce que havia sobrado da noite anterior.

Durante esse tempo, o papá e a mamã adormecem de novo e roncam. Mas não por longo tempo. A empregada leva de volta Josette ao quarto deles.

— Papá!... diz Josette, Jacqueline (esse é o nome da empregada), Jacqueline comeu o seu presunto. 

— Não faz mal, diz o pai.

— Papai, diz Josette, conte uma história para mim. 

E enquanto a mamãe dorme, pois ela está muito cansada por se ter divertido tanto, o papá conta uma história para Josette.

— Tinha uma vez uma menininha que se chamava Jacqueline.

— Como Jacqueline? pergunta Josette.

— Sim, diz o papá, mas não era Jacqueline. Jacqueline era uma criança.

Ela tinha uma mamã que se chamava senhora Jacqueline. O papá da pequena Jacqueline se chamava senhor Jacqueline. A pequena Jacqueline tinha duas irmãs que se chamavam Jacqueline, e dois priminhos que se chamavam Jacqueline e uma tia e um tio que se chamavam Jacqueline. 

O tio e a tia, que se chamavam Jacqueline, tinham dois amigos que se chamavam senhor e senhora Jacqueline, e eles tinham uma filhinha que se chamava Jacqueline, e um garotinho que se chamava Jacqueline, e a filhinha tinha umas bonecas, três bonecas, que se chamavam: Jacqueline, Jacqueline, e Jacqueline. O garotinho tinha um coleguinha que se chamava Jacqueline, e cavalos de madeira que se chamavam Jacqueline, e soldadinhos de chumbo que se chamavam Jacqueline. 

Um dia, a pequena Jacqueline, com seu papá Jacqueline, seu irmãozinho Jacqueline, sua mamãe Jacqueline, vai ao bosque de Boulogne. Lá, eles encontram seus amigos Jacqueline com a filhinha Jacqueline, com o filho Jacqueline, com os soldadinhos de chumbo Jacqueline, com as bonecas Jacqueline, Jacqueline, e Jacqueline. 

Enquanto o papá conta essas histórias para a pequena Josette, entra a empregada. Ela diz: “O senhor vai deixar essa menina louca!....”

Josette diz à empregada: “Jacqueline, nós vamos ao mercado?” (pois como eu disse, a empregada se chamava também Jacqueline). 

Josette vai fazer as compras com a empregada. 

O papá e a mamã dormem de novo, pois eles estavam muito cansados, eles tinham ido, na véspera, ao restaurante, ao teatro, ainda ao restaurante, ao teatro de marionetes, depois ainda ao restaurante. 

Josette entra numa loja com a empregada e lá ela encontra uma menininha que estava com os pais. Josette pergunta à menininha:

— Você quer brincar comigo? Como você se chama?

— Eu me chamo Jacqueline, responde a menininha.

— Eu sei, diz Josette, seu papá se chama Jacqueline, seu irmãozinho se chama Jacqueline, sua boneca se chama Jacqueline, seu vovô se chama Jacqueline, seu cavalo de madeira se chama Jacqueline, sua casa se chama Jacqueline, seu potinho se chama Jacqueline....

Então, o dono da loja, a esposa do dono da loja, a mamã da outra menininha, todos os clientes que estavam na loja voltaram-se para Josette e fitaram-na com os olhos cheios de espanto. “Não é nada, diz tranquilamente a empregada, não se preocupem, são as histórias idiotas que o seu pai lhe conta.”

Eugène Ionesco

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

THE SHADOWS - «Apache»

Poet'anarquista

The Shadows
Banda Britânica

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

OUTROS CONTOS

«Sapo-Cavaco», conto poético por Matias José.

«Sapo-Cavaco»
Décima de Matias José

672- «SAPO-CAVACO»

Engolindo um sapo,
Estou ainda a mastigar…
Está a custar a passar
Da goela pró papo!
Desta já não escapo
Vou ter que o digerir,
Difícil de engolir
Este maldito anfíbio…
Provoca-me distúrbio
Não o poder expelir!!

POETA

terça-feira, 24 de novembro de 2015

CARTOON versus DÉCIMA

Eu Te Indigito
HenriCartoon

EU TE INDIGITO…

Pra minha grande desgraça
Vou ter mesmo que indigitar,
Podes começar por assinar
Onde vou cuspir a morraça.
Eu sou uma velha carcaça
Que não tem aonde cair morta,
Mais teimoso que uma porta
Não quero dar braço a torcer…
Estou agarrado ao poder,
É só isso que me importa!

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

FREDDIE MERCURY - «Living On My Own»

Poet'anarquista

VIVENDO POR MIM MESMO

Às vezes eu sinto que eu vou ceder e chorar (tão solitário)
Nenhum lugar para ir, nada para fazer com meu tempo
Eu fico solitário, tão solitário que vivo na minha

Às vezes eu sinto que estou andando muito rápido
E tudo esta fazendo me senti para baixo, para baixo, eu vou ficar louco
Oh tão louco - vivendo na minha

Dee do de de dee do de de
Eu não tenho tempo para enrolação
Dee do de de dee do de de
Eu fico tão solitário, solitário, solitário, solitário yeah
Quero ter algum tempo bom adiante

Às vezes eu sinto que ninguém me dá uma advertência
Encontro minha cabeça sempre nas nuvens no meu mundo de sonhos
Não é fácil viver na minha

Dee do de de dee do de de
Eu não tenho tempo para enrolação
Dee do de de dee do de de
Eu fico tão solitário, solitário, solitário, solitário yeah
Quero ter algum tempo bom adiante

Dee do de de dee do de de
Eu não tenho tempo para enrolação
Dee do de de dee do de de
Eu fico tão solitário, solitário, solitário, solitário yeah
Quero ter algum tempo bom adiante

Freddie Mercury

Vocalista Britânico, membro dos Queen

POEMA DE ANTÓNIO GEDEÃO

«Lição sobre a Água»
Ofélia (detalhe)/ John Millais

LIÇÃO SOBRE A ÁGUA

Este líquido é água.
Quando pura
é inodora, insípida e incolor.
Reduzida a vapor,
sob tensão e a alta temperatura,
move os êmbolos das máquinas que, por isso,
se denominam máquinas de vapor.

É um bom dissolvente.
Embora com excepções mas de um modo geral,
dissolve tudo bem, bases e sais.
Congela a zero graus centesimais
e ferve a 100, quando à pressão normal.

Foi neste líquido que numa noite cálida de Verão,
sob um luar gomoso e branco de camélia,
apareceu a boiar o cadáver de Ofélia
com um nenúfar na mão.

António Gedeão

OUTROS CONTOS

«Livre», conto poético por Cruz e Sousa.

«Livre»
Soneto de Cruz e Sousa

 671- «LIVRE»

Livre! Ser livre da matéria escrava,
arrancar os grilhões que nos flagelam
e livre penetrar nos Dons que selam
a alma e lhe emprestam toda a etérea lava.

Livre da humana, da terrestre bava
dos corações daninhos que regelam,
quando os nossos sentidos se rebelam
contra a Infâmia bifronte que deprava.

Livre! bem livre para andar mais puro,
mais junto à Natureza e mais seguro
do seu Amor, de todas as justiças.

Livre! para sentir a Natureza,
para gozar, na universal Grandeza,
Fecundas e arcangélicas preguiças.

Cruz e Sousa

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

CARTOON versus QUADRAS

Os Caprichos da Democracia
HenriCartoon

«OS CAPRICHOS DA DEMOCRACIA»

- O presidente marca eleições
Pra vinte e quatro de Janeiro...
Se o resultado for meeiro,
À segunda volta há decisões.

- Era bem mais democrático
Ser assim nas legislativas...
(Segundas voltas repetitivas,
E o país em estado apático!)

- Constituição é clara, mulher…
Mas às vezes não dá jeito
A democratas por defeito…
Isto não é como cada um quer!!

POETA

OUTROS CONTOS

«Nostalgia», conto poético por Nazim Hikmet.

«Nostalgia»
Noite Estrelada sobre o Ródano/ Van Gogh

670- «NOSTALGIA»

passaram cem anos seu eu ver o teu rosto,
prender a tua cintura,
passar o dia nos teus olhos,
questionar a tua sapiência,
e estar próximo do calor do teu ventre.

passaram cem anos que uma mulher me espera
numa bela cidade.

nós, nós estávamos na mesma rama,
nessa mesma rama.
caímos dessa mesma rama e separámo-nos.
e hoje cem anos nos afastam,
cem anos de caminho.

hoje faz sem anos que
por entre a escuridão
eu a procuro.

Nazim Hikmet

«SONETO», POR MATIAS JOSÉ

Noite Fratricida
Poema de Matias José

NOITE FRATRICIDA

Encontram-se na paragem
Frente a frente separados...
No ar, a brisa, leve aragem
E os seus corpos decepados.

Diz a morte: - ao que vens
Irmão, neste tempo suicida?...
- Encontrar paz, aqui me tens!...
Responde a guerra decidida.

Derradeira hora de viagem…
Afastando-se abraçados
Um ao outro aconchegados;

Sepultam na terra seus bens,
E partem na noite fratricida
Os irmãos p'ra uma nova vida.

Matias José

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

DOC PAULIN'S MARCHING BAND
«Tulane Swing»

Poet'anarquista

Doc Paulin's Marching Band
Orquestra Norte-Americana

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

SÁTIRA DECIMAL

Sátira Decimal
Poesia Popular

A MÚMIA

- Vocês na Madeira
Têm banana maior,
Julguei ser menor
O fruto da bananeira.
- Não se come inteira
Essa magana gulosa,
É muito saborosa
Cuidando da memória…
Vai ficar na história
Esta múmia manhosa!

Matias José

OUTROS CONTOS

«As Raízes do Mundo», por G. K. Chesterton.

«As Raízes do Mundo»
Conto de G. K. Chesterton

669- «AS RAÍZES DO MUNDO»

Era uma vez um garoto que vivia em um jardim no qual se permitia colher flores, porém era proibido arrancá-las pela raiz. Havia, no entanto, uma planta em particular, insignificante, meio espinhenta, com uma flor pequena semelhante a uma estrela, que ele desejava ardentemente arrancar pela raiz. Seus tutores e guardiões, que viviam na casa com ele, eram pessoas sérias e de valores, e davam razões pelas quais o garoto não deveria arrancar a flor. Em geral eram razões tolas. Porém, nenhuma das razões contra o seu desejo eram tão tolas quanto a que o garotinho tinha para querer executá-la, pois sua razão era que a Verdade lhe exigia que arrancasse a planta para ver como crescia. No entanto, a casa era de gente insensível e despreocupada, e ninguém lhe deu a verdadeira resposta a seu argumento, que era o de que mataria a planta, e que não há mais verdade em uma planta morta do que em uma planta viva. Assim, em uma noite escura, quando as nuvens escondiam a lua, como um segredo demasiadamente bom ou demasiadamente mal para ser revelado, o garotinho desceu os velhos degraus de sua casa de campo e foi até o jardim vestido com seu pijama. Já se disse e já se repetiu que não havia mais razões contra seu desejo de arrancar a planta do jardim, do que contra o de golpear um cardo, por distração, numa vereda. Entretanto, a escuridão que o envolvia o contradizia, bem como seu próprio pulso agitado, porque dizia a si mesmo que na manhã seguinte poderia ser crucificado como a um blasfemos que havia destroçado a árvore sagrada.

Talvez o houvessem crucificado, caso tivesse conseguido arrancar. Isso eu não posso afirmar com certeza. Porém não conseguiu, e não porque não tivesse se empenhado. Todavia, quando chegou à planta, puxou e puxou, e descobriu que se agarrava, como se estivesse cravada na terra com ferros. E quando fez força pela terceira vez, sentiu por trás de seus ombros um barulho aterrador e, fosse por impulso – o que ele negaria – ou pela intranquilidade da consciência, saltou para trás tremulante e olhou ao seu redor. A casa em que vivia era um simples vulto sombrio contra um céu igualmente obscuro. No entanto, depois de olhar com mais cuidado ao seu redor, viu que o contorno de sua casa havia deixado de ser familiar, pois a grande chaminé da cozinha havia caído, torcida e calamitosa. 

Desesperadamente deu outro puxão na planta e viu como, ali mais distante, o estábulo caía e os cavalos relinchavam e davam coices. Rapidamente ele correu para casa e se meteu debaixo do lençol. 

No dia seguinte a cozinha amanheceu em ruínas, os alimentos estavam estragados, dois cavalos mortos e três haviam fugido. Porém o garoto continuava com uma furiosa curiosidade e um pouco depois, quando a névoa do mar cobriu a casa e o jardim, ele foi novamente até as raízes da planta indestrutível. Agarrou-se a ela com todas as forças, mas a planta não cedeu. Mas por trás da densa neblina cinza do mar, ouviram-se gritos desesperados de pânico: gritava-se que o castelo do rei havia caído, que não se via as torres que guardavam a costa, que a metade da cidade havia se partido e sumido no mar. Então o garoto se assustou por um momento, e não disse nada mais sobre a planta, porém, quando chegou a sua forte e despreocupada maturidade e a destruição de sua cidade já havia sido reparada lentamente, disse: “Vamos por fim ao enigma deste mal irracional. Em nome da Verdade, arranque-mo-la”. E reuniu um enorme grupo de homens fortes, como um exército que fosse enfrentar algum invasor. E todos eles se agarraram à planta e puxaram-na dia e noite. E a Grande Muralha da China veio abaixo em um trecho de sessenta quilómetros. E as Pirâmides fenderam- se e caíram e ficaram reduzidas a entulho. E a Torre Eiffel, em Paris, veio abaixo como uma haste, matando metade dos parisienses. E em Nova Iorque, a estátua da Liberdade tombou para frente e destruiu a frota norte-americana. E a Catedral de São Paulo matou a todos os jornalistas de Fleet Street. E no Japão se registrou tremores de terra nunca antes vistos, até que o país inteiro desapareceu no mar. 

Alguns dizem que esses dois últimos incidentes não merecem propriamente o nome de calamidades, porém não entraremos nessa matéria. A questão é que em um intervalo de vinte e quatro horas, os homens fortes desse país haviam destroçado metade do mundo civilizado, porém não haviam arrancado a planta. Não cansarei o leitor com todos os detalhes dessa história realista… como usaram primeiramente elefantes e máquinas a vapor, por exemplo, com o único resultado de que a planta permanecia agarrada, ainda quando a lua começou a balançar e até o sou ficou um pouco inquieto. Por fim, a raça humana interveio, como sempre faz, através de uma revolução. Porém muito antes disso, o garoto, o homem, que é o herói dessa história, havia abandonado essa empreitada, dizendo simplesmente aos seus pastores e mestres:

– Vocês me deram várias razões complicadas e inúteis do porquê eu não deveria arrancar esse arbusto. Por que não me deram as verdadeiras razões: primeiro, que não posso, e segundo, que destruiria tudo o mais se chegasse a tentar?

Todos que têm tratado, em nome da ciência, de desarraigar a religião me parecem muito semelhantes ao garoto do jardim. Os cépticos não conseguem arrancar as raízes do cristianismo, porém, sim, conseguem arrancar as raízes das parreiras e figueiras de todos os homens, do jardim de todos os homens e dos cercados de todos os homens. Os laicista não têm conseguido destruir as coisas divinas, porém, têm conseguido destruir as coisas humanas.

Não é possível demonstrar que, no fim das contas, uma religião é monstruosa: uma religião é monstruosa desde o princípio. Anuncia-se como algo extraordinário. É oferecida como algo extravagante. Os cépticos, além disso, podem nos pedir que rechacemos nosso credo como algo estranho. E o temos aceitado justamente assim, como algo estranho. Até aqui, alguém pode imaginar que há um simples impasse, um bloqueio que se interpõe entre nós e aqueles que não conseguem sentir como nós sentimos. Porém, então, vem a curiosa experiência prática que tem ratificado a religião para sempre em nossa razão. Porque os inimigos da religião não podem deixá-la continuar. 

Laboriosamente, tentam esmagá-la. Não conseguem destruí-la, porém destroem tudo o mais. Com suas interrogações e dilemas não provocam nenhum transtorno na fé; desde o começo ela é uma convicção transcendental; não se pode fazê-la mais transcendental do que já é. Porém, se isto de alguma forma conforta, conseguiram provocar um redemoinho na moral comum e no senso- comum.

Os opositores de nossa religião não nos obrigam a aceitar seus axiomas; nossos axiomas continuam sendo o que sempre foram. Porém, eles sim, aderem-se a toda doutrina de insensatez e desespero. 

Não nos golpeiam, mas passam distante e se afundam no pântano e no abismo. O senhor Blatchford não pode nos forçar a aceitarmos a afirmação de que o homem não é a imagem de Deus, porque essa afirmação é tão dogmática como sua negação. Porém, isso sim, ele se obriga a aceitar a afirmação – humanamente ridícula e intolerável – de que não devo acusar um valentão, nem louvar ao que o vence. Os evolucionistas não nos podem, devido a inefável graduação da natureza, hipnotizar para negar a personalidade de Deus, pois um Deus pessoal poderia fazer igualmente bem de forma gradual ou de qualquer outra forma. Porém os evolucionistas, isso sim, ficam, através dessas graduações, hipnotizados para negar a existência concreta do senhor Perez, porque ele está dentro do alcance da evolução, e seus contornos estão desaparecendo. Os evolucionistas destroçam o mundo, porém não as flores. Os Titans jamais escalaram o céu, porém arrasaram a terra.

G. K. Chesterton

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

FRANZ SCHUBERT
«Impromptu, Op. 90, D. 899: No 2 in E Flat Major»

Poet'anarquista

Franz Schubert
Compositor e Pianista Alemão em Sarau

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(18 de Novembro de 1994, morre o chefe de orquestra e compositor norte-americano,
Cab Calloway)

CAB CALLOWAY - «Minnie the Moocher»

Poet'anarquista

MINNIE, O MOOCHER

Gente, agora aqui está a história sobre Minnie, o Moocher,
Ela era uma hootchie-cootcher vermelho-quente,
Ela era a mais dura, mais difícil frágil,
Mas Minnie tinha um coração tão grande como uma baleia.

[Ligue e fezes resposta do coro é diferente a cada vez.]
Hi-de-oi-de-oi-di-oi!
Ho-de-ho-ho-de-de-ho!
He-de-ele-de-ele-de-ele!
Ho-de-ho-de-ho!

Ela brincou com um cara chamado Smoky,
Amava-o embora ele fosse cokie,
Ele a levou para baixo para Chinatown,
E ele mostrou a ela como chutar o gongo ao redor.

Ela teve um sonho com o rei da Suécia,
Deu-lhe coisas que ela estava precisando,
Ele deu-lhe uma casa construída de ouro e aço,
Um carro de diamante com uma roda de platina.

Ele deu a ela sua moradia e seus cavalos de corrida,
Cada refeição que ela comeu foi uma dúzia de cursos;
Ela tinha um milhão de dólares em moedas e moedas,
Ela se sentou ao redor e contou-lhe um milhão de vezes.

Má Min, pobre Min, pobre Min.

Cab Calloway
Chefe de Orquestra e Compositor de Jazz

CARTOON versus DÉCIMA

À Espera de Cavaco
Cavaco1.gif
HenriCartoon

«À ESPERA DE CAVACO»

Bate nove ao meio-dia,
As três às cinco da tarde…
O relógio que aguarde,
Na Madeira boa estadia.
Sofre grave anomalia
Nos neurónios obtusos,
Faltam-lhe parafusos
E umas quantas porcas…
Apanha grandes mocas
Nos miolos confusos!

POETA

OUTROS CONTOS

«Cena IX», conto poético por Paul Bowles.

«Cena IX»
Conto de Paul Bowles

668- «CENA IX»

Aqui está a matéria. Ainda não te desossaram.
Aqui está a cascata e o grilo.
Mexe um dedo. Grita. Faz um esgar –
A pesada respiração da terra contém o desespero.

Aqui estão as bocas fechadas na sua mudez, os ossos insensíveis.
Inveja as árvores com a sua dor, decepa os anos que hão-de vir.
Destrói a águia do vale, afoga o grito do clarim –
A mente transformou-se em escorpião e vive entre as pedras.

Tudo o que a vontade quer são as tesouras e a esponja,
A coroa de úlceras, a imunidade.
Uma voz estrangeira sussurra nos quartos
E interminável é o penetrante garrote do sol.

Paul Bowles

terça-feira, 17 de novembro de 2015

CARTOON versus SONETO

Congestão
HenriCartoon

«CONGESTÃO»

Estou à noventa e seis meses
Numa presidência de gestão…
O Estado em congestão,
Coitados dos portugueses!

Acontece muitas vezes
Esta má indigestão,
Vivo com a sensação
Que todos os dias são trezes.

Coabito com a agitação
Resultante das acidezes,
E da maldita contradição;

Depois de inúmeros reveses,
Entram em ebulição
As minhas próprias fezes!!

POETA

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

OUTROS CONTOS

«Ser Doido-Alegre, Que Maior Ventura!», conto poético por António Aleixo.

«Ser Doido-Alegre, Que Maior Ventura!»
Retrato de Louco/ Maître (1537)

667- «SER DOIDO-ALEGRE, QUE MAIOR VENTURA!»

Ser doido-alegre, que maior ventura!
Morrer vivendo p’ra além da verdade.
É tão feliz quem goza tal loucura
Que nem na morte crê, que felicidade!

Encara, rindo, a vida que o tortura,
Sem ver na esmola, a falsa caridade,
Que bem no fundo é só vaidade pura,
Se acaso houver pureza na vaidade.

Já que não tenho, tal como preciso,
A felicidade que esse doido tem
De ver no purgatório um paraíso…

Direi, ao contemplar o seu sorriso,
Ai quem me dera ser doido também
P’ra suportar melhor quem tem juízo.

António Aleixo

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

JOHN LENNON - «Scared»

Poet'anarquista

ASSUSTADO

Estou com medo, tenho medo, estou com medo
Estou com medo, muito medo
Estou com medo, tenho medo, estou com medo
Conforme os anos vão passando
E o preço que eu paguei
E as palhetas escapam

Você não tem que sofrer
É o que é
Nenhum livro sino ou vela
Você pode ficar fora disto? Oh não!

Eu estou assustado, estou assustado, eu estou cicatrizado
Eu estou assustado, uh huh
Eu estou assustado, estou assustado, eu estou cicatrizado
Todos os dias da minha vida
Eu só tento sobreviver
Eu só quero ficar vivo

Você não precisa se preocupar
No céu ou no inferno
Apenas dance ao som da música
Você faz isso tão bem, bem, bem!

Ódio e ciúme, vão ser a minha morte
Eu acho que eu sabia desde o início
Cante sobre amor e paz
Não quero ver a carne vermelha crua
A maldita de olhos verdes directo de seu coração

Eu estou cansado, estou cansado, estou cansado
De ser tão só
Nenhum lugar para chamar de meu
Como uma pedra rolando

John Lennon
Músico Britânico

domingo, 15 de novembro de 2015

«CAVACAL CRIATURA»

Cavacal Criatura
Décima por Matias José

CAVACAL CRIATURA

A Cavacal criatura
Anda na passeata…
Não ata nem desata
Esta reles figura!
O que se prefigura,
De tardia decisão:
Esquecer a Constituição
Que jurou solenemente…
Eis o mais deprimente
Presidente da Nação!!

Matias José

sábado, 14 de novembro de 2015

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

ELTON JOHN 
«Goodbye Yellow Brick Road»

Poet'anarquista

ADEUS ESTRADA DOS TIJOLOS AMARELOS

Quando você vai descer?
Quando você vai aterrissar?
Eu devia ter permanecido na fazenda
Eu devia ter ouvido meu velho pai

Você sabe que não pode me segurar eternamente
Eu não assinei contrato com você
Eu não sou um presente para seus amigos abrirem
Este rapaz é jovem demais para cantar as tristezas

Então adeus, estrada dos tijolos amarelos
Onde os cães da sociedade uivam
Você não pode me plantar na sua cobertura do apartamento
Estou voltando para o meu arado

De volta para a velha coruja que uiva na mata
Caçando o sapo de dorso áspero
Eu finalmente decidi que o meu futuro está
Além da estrada dos tijolos amarelos

O que você pensa que fará então?
Eu aposto que derrubará seu avião
Você vai precisar de um pouco de vodka e tônica
Para te ajudar a se recuperar novamente

Talvez você consiga um substituto
Existem muitos como eu para serem encontrados
Vira-latas que não têm um centavo
Fuçando por petiscos como você pelo chão

Elton John
Pianista, Cantor e Compositor Britânico

OUTROS CONTOS

«Uma Recordação», conto poético por Júlio Dinis.

«Uma Recordação»
Conto Poético

666- «UMA RECORDAÇÃO»

Lembra-me ver-te inda infante,
Quando nos campos corrias
Em folguedos palpitantes;
Eras bela! e então sorrias.

Depois, na infância, eras inda,
Junto ao cadáver rezavas
De tua mãe, com dor infinda;
Eras bela! e então choravas.

Num baile vi-te valsando
Da juventude nos dias,
Todos de amor fascinando;
Eras bela! e então sorrias.

Dias depois encontrei-te;
Nos céus os olhos fitavas;
Sem me veres contemplei-te;
Eras bela! e então choravas.

Quando ao templo caminhando
Entre flores e alegrias,
De esposa a vida encetando,
Eras bela! e então sorrias.

Quando na campa do esposo
Com teu filho ajoelhavas,
Grupo inocente e saudoso!
Eras bela! e então choravas.

Num ataúde deitada
Eu te vi em breves dias,
Mimosa flor desfolhada!
Eras bela! e então sorrias.

Sorrindo, na vida entraste,
Sorrindo deixaste a vida;
Alguma flor que encontraste
A espinhos a viste unida.

Sim, às vezes tu sorrias.
E os sorrisos o que são?
Quase sempre profecias
Das penas do coração.

Júlio Dinis

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(13 de Novembro de 1868, morre o compositor italiano e autor de «O Barbeiro de Sevilha»,
Gioacchino Rossini)

GIOACCHINO ROSSINI
«O Barbeiro de Sevilha/ Abertura»

Poet'anarquista

Caricatura de Rossini
Compositor Italiano

CARTOON versus SONETO

O Desafio
HenriCartoon

«O DESAFIO»

- Desafio a revisão constitucional
Para irmos novamente a eleições…
Continuar a empobrecer Portugal,
Ali-Babá e mais uns quantos ladrões!

- Nem penses nisso, gaiato mimado
Agarrado ao poder, fedelho birrento!…
Percebe-se o quão desesperado
Estás, mais o amigo lá de S. Bento.

- Aqui não passarás!... avisamos
Que podes apanhar nas trombas…
Tu, ou quem faça parte do staff!

- Decididamente, não poupamos...
Se desafias, é certo que tombas
 Na muralha d’ aço… «KAPÀF!!»

POETA

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

OUTROS CONTOS

«Psicologia de um Vencido», conto poético de Augusto dos Anjos.

«Psicologia de um Vencido»
Soneto de Augusto dos Anjos

665- «PSICOLOGIA DE UM VENCIDO»

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundíssimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância…
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há-de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!

Augusto dos Anjos