domingo, 31 de janeiro de 2016

SÁTIRA...

Gestos
HenriCartoon

«GESTOS»

- Martelo, espero o apoio
Como sempre prometeste…
Decerto não esqueceste,
Separar o trigo do joio…?

- Mas é claro, amigo Bosta,
Um gesto de boa vontade…
Até já tenho saudade
De ver a mesa composta!

- Fica-te bem… não desistas…
Mesmo que sejas lesado
Nas tuas homílias populistas!

- Presidente nunca desiste…
Quanto a ficar prejudicado,
O gesto é dedo em riste!!

POETA

SÁTIRA...

Entre a Espada e a Parede
HenriCartoon

«ENTRE A ESPADA E A PAREDE»

Diabo!... em frente espada
E nas costas a parede…?
Alguém está com sede
De vingança encomendada!
A decisão foi tomada:
Mais imposto prós ricos…
Paguem, não sejam cínicos
Que o pobre já pagou…
Quase, quase se finou
Este país de tísicos!!

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

FRANZ SCHUBERT - «Serenade»

Poet'anarquista

Franz Schubert
Compositor Alemão ao Piano em Sarau

OUTROS CONTOS

«Dois Ovos ao fim da Tarde», por Fernando Namora.

«Dois Ovos ao fim da Tarde»
O Ovo ou Urutu, por Tarsila do Amaral/ 1928 

723- «DOIS OVOS AO FIM DA TARDE»

(Conto verídico sobre o pintor Luís Dourdil)      

Quando o homem saiu de casa, pensou apenas em que lhe saberia bem ir a pé até ao fundo da Alameda. Não eram muitas as vezes em que podia voltar as costas ao autocarro e dar-se a esse apetecido exercício. Sem o aguilhão do relógio. Sem moer-se com atrasos. Tinha um emprego que o enjaulava das tantas da manhã (que cedo acordavam as manhãs!) às tantas da tarde (que ronceiras eram as tardes!), com as nádegas pregadas a um banco alto, o cavalete na frente, a mão contrafeita a sujar papéis de olhos fechados, a cidade espalmada nos vidros da janela como um rosto triste (mas a tristura era dele, que a via tão perto e tão distante), e quando, enfim, se abriam as portas da prisão pouco mais tempo lhe restava do que, num rufo, tomava a bica no café mais próximo. Depois vinha o jornal lido no autocarro, o jantar e o serão que não chegava a nada para o muito que lhe daria gosto fazer. A mulher nem se atrevia a propor um passeio. Sabia respeitar aquela necessidade de iludir o sonho e tricotava enquanto ele, numa nuvem de cigarros, refundia, noite após noite, o que começara na véspera. Havia os domingos, é certo, mas os domingos eram a ressaca da semana: a indolência merecida ou desenganada, o pequeno almoço na cama, a música do rádio, a matiné no cinema do bairro e, sobretudo, o fastio das ruas em que a vida se adiava. A verdade é que, quando chegava o Verão, sentia as juntas perras, a moleza pegada ao corpo e, debalde, fugia ao langoroso convite dos cadeirões das esplanadas. Valia-lhe ser um peso pluma. Mas agora que, por um acaso da sorte e valendo-se de um duvidoso atestado de doença, interrompera o emprego para aceitar aquele trabalho, não desperdiçaria o ensejo de um pouco de marcha diária, já que da sua casa à Alameda nem dois quilómetros distavam. Marchar, numa rotina de sedentarismo (tanto os da alma como os dos músculos) também sabia a libertação. O homem, pois, saiu de casa a foi ao atravessar a rua que se lembrou dos ovos. Sem os ovos, nada feito. Estudara as coisas com rigorosa minúcia. Desavezado a certos lugares, e como nunca acompanhara a mulher nas compras, voltou atrás e gritou para cima, pelos roufenhos do intercomunicador:

- Maria, onde poderei encontrar ovos?

A mulher, com risos na voz, elucidou-o:

-Fica-te em caminho. Na Charcutaria "Pôr do Sol".

A Charcutaria "Pôr do Sol". Essa, conhecia ele. Ali a dois passos. Tomava lá café, nada mau, e só um herege podia ficar indiferente à exuberância da apetitosa montra, desde chourições aos papos de anjo de Amarante. Ovos, numa luxaria daquelas? A ideia intimidava-o. Entrou, porém armando-se com o alibi de precisar de cigarros, para o caso de se sentir em apuros. Viu-se, por momentos, aturdido com o labirinto de escaparates, mas logo um senhor mavioso, que o observara de longe, destes para quem "o cliente tem sempre razão", veio desembaraça-lo de hesitações.

-Tem a bondade. Vossa Excelência que deseja?

Adiou a resposta com um distraído ou ainda perturbado:

-Boa tarde.

-Boa tarde a Vossa Excelência. Deseja então...

-Ovos.

-Com certeza. Tem por onde escolher.

-Queria dos melhores.

O lojista, que parecia passado a ferro de cima a baixo, assentiu numa reverência e, guiando o cliente até uma pilha de tabuleiros, apontou com a mão esmerada:

-Aqui os tem Vossa Excelência.

O homem pegou num dos ovos, rodou-o vagarosamente entre os dedos, avaliou-lhe o peso e, quando ia a apreciá-lo contra a luz, o lojista interrompeu-o, já numa ênfase um tudo-nada agastada:

-São de primeira qualidade.Com carimbo. Vêm directamente de Albarraque, do produtor. Ovos saloios- e diluiu o olhar impaciente pelo que se passava em redor.

O pormenor do carimbo é que pareceu impressionar o cliente. Pois, lá estava o carimbo. Para quem não estivesse afeito aos códigos de mercancia, poderia parecer outra coisa, mas eram mesmo letras, números-um carimbo. Ficava a saber que por aí, se conheciam os ovos de confiança.

-Bem, já vejo que são bons. E suponho que frescos.

-Sem dúvida.

O lojista aguardou uma ordem, ou seja, que o freguês mandasse embalar a quantidade desejada, e, de raspão, atentou em que ele nada trazia consigo, nem um saquinho disfarçado que servisse para transportar os ovos. Mais que ia dizer-lhe para mandar a encomenda a casa.

-Quantas dúzias?

-Quero dois.

-Disse duas?

-Dois. Dois ovos.

-Vossa Excelência manda.

A imperturbabilidade do lojista era um modelo de controlo profissional das emoções. De calo no ofício. E também de natural fidalguia, perfeitamente compatível com uma actividade que alguns tinham por servil. Um senhor, enfim. Chamou a empregada para embrulhar os dois ovos e agradeceu como se tivesse tratado de uma compra choruda.

O homem esteve a trabalhar toda a tarde...

No dia seguinte, a cena da compra simplificou-se.

O senhor de falas corteses viu-o do balcão, antecipou-se a um marçano, talvez para que não houvesse perda de tempo e inquiriu:

-Hoje, Vossa Excelência deseja...

-Os ovos. Dois. Com carimbo.

Enquanto os escolhia no tabuleiro, o lojista repetiu:

-Dois. Com carimbo. Ei-los. Mais nada?

-Mais nada.

O outro franziu a testa ainda lisa. Só a testa. Mas, ao convidar o freguês a acompanhá-lo na cariciosa mirada pelos artigos expostos, via-se que lhe era difícil aceitar o vexame de uma compra que não justificava que alguém pusesse os pés na mais ordinária das lojas.

-Temos um esplêndido queijo de Azeitão. Talvez Vossa Excelência...Mas se prefere da Serra...

-Não quero queijo.

-Ou fiambre. Não encontra que se compare.

-Apenas os ovos.

-Vossa Excelência manda.

À despedida, foi com um tempero de discreta ironia que o senhor afável perguntou:

-Vossa Excelência ficou satisfeito com os ovos de ontem?

-Eram perfeitos.

-Ainda bem. Nunca tivemos uma reclamação.

E o mesmo diálogo com a ocasional variante de meias palavras de embuçada intenção, nos dias que se seguiram. Mas, à quarta vez, depois de o lojista o seduzir em vão com atuns, salpicões, alheiras de Mirandela, intrigado com a história dos ovos... bastar-se com os ovos em três jantares sucessivos? (e o almoço, com mil diabos?) e nem ao menos se consolar com um naco de presunto ou uma talhada de queijo!...Por isso, o estranho cliente era uma carga de ossos.

-Boa tarde.

-Boas tardes a Vossa Excelência.

-Dois ovos como os de ontem.

-Ou como os de anteontem...

Sorriam ambos. A resvalar para uma intimidade constrangida.

E estavam naquilo, à mesma hora. E, por ser à mesma hora, o lojista já o esperava à porta.

-Os dois ovinhos do costume, não é verdade?

-Dois.

-A que horas fecha a charcutaria?

-Às dez, caro senhor.

-Então passarei a vir à roda das nove.

O lojista passou a mão branda pelos cabelos grisalhos, que a brilhantina escurecia e domesticava. Encorajava-se a um reparo.

-Vossa Excelência desculpará a impertinência: mas porque não leva de cada vez uma dúzia de ovos, uma dúzia ou outra quantidade qualquer, evitando o incómodo de...

-Prefiro assim.

-Vossa Excelência manda.

Os gestos do lojista, porém, a custo dissimulavam o nervosismo, para não dizer a irritação. Aguardava o cliente à hora prevista...

-Vossa Excelência tem frigorífico?

-Tenho, mas porque me pergunta?

-É que se permite uma sugestão, poderia abastecer-se com uma quantidade razoável de ovos, visto que, no frigorífico, conservam-se muitos dias.

-Bem sei. Mas quero-os bem frescos. Dois de cada vez.

-Vossa Excelência é casado? Perdoe o atrevimento.

-Atrevimento? De modo nenhum! Sou casado, sou. Há uns bons anos.

-E janta, portanto, em casa.

-Quase sempre.

-Ah.

E não ousou ir mais longe. Em cada dia que entre ambos se insinuava uma convivência de ambiguidades, o lojista avançava em passo miúdo na tentativa de decifrar o mistério...

-Pelo que deduzo, Vossa Excelência gosta  muito de ovos.

-Nem por isso.

Era demais. Aquilo excedia o que a curiosidade e a compostura de um homem poderiam suportar. Sentia-se humilhado. Sentia-se humilhado desde o primeiro dia, para que negá-lo? Embrulhou os ovos à má cara, despediu o freguês sem a saudação habitual. Porém num repente, foi sobre ele antes que passasse a porta, e disse:

-Então os ovos são para alguém da família...

-Não, são para mim.

O lojista mais não pôde que abrir a boca...

-Na vez seguinte, o lojista escolheu com enfatuado desvelo os dois ovos...

-Sabe Vossa Excelência que tenho prazer em vender ovos? É que, para mim são um pitéu. Omelete com salsa...

-Pois eu nem com salsa nem sem ela.

-Ah.

No dia seguinte o lojista aguardava-o junto ao balcão acompanhado de uma senhora e um rapazola de uns catorze anos..., o grupo que parecia posar para um retrato, fitava-o com uma avidez imbuída de censura e reserva. Quanto ao lojista, entre o acusador e o triunfante: "Eu não vos dizia? É este." 
Aproximou-se de voz melada e irónica:

-Os dois ovinhos do costume, claro está.

-Aqui tem Vossa Excelência. Bom proveito.

No dia seguinte...

-Perdoe Vossa Excelência: gostaria de confessar uma curiosidade.

-Estou a ouvi-lo.

-Bom o caso é este: os ovos, os dois ovos diários, não são para o senhor comer, não são para ninguém comer, pois foi o senhor a dizê-lo; então para que servem?

-Muito simples: para pintar.

O lojista recuou, varado pela zombaria..., apontou o dedo trémulo...

-Diz Vossa Excelência que são para pintar. Tem graça. Carradas de graça. Para pintar de amarelo, bem entendido.

-De azul. Ou de violeta, vermelho, negro. -E após ter sublinhado uma pausa, falando espaçadamente e com uma deslavada inocência:-Mas às vezes também de amarelo, de facto.

Olhando à roda, não fosse alguém reparar no diálogo, o lojista retorquiu, sem já moderar o sarcasmo:

-De azul, de preto, de violeta. Pintando!

-Com ovos.

-O senhor, o senhor! -Estava prestes a pôr de banda todo o resguardo nas suas reacções. Estava preste a esquecer, pela primeira vez na vida, que um cliente é um cliente. Mesmo sendo tonto ou lunático. Ou provocador. -Mas pintar aonde?

-Numa parede. No fundo da Alameda. Naquelas obras ao lado do Cinema.

-Ao lado do...No fundo da Alameda.
Há um tapume. É nessas obras.

-Mas isso é um café.
Vai ser Grande. O maior de Lisboa.

-A pintar.

-Com ovos, sim. O senhor pode ir lá ver.

-E vou. Quando?

-Quando quiser. Agora mesmo.

O lojista ainda incrédulo disse: -E poderei ir depois de fechar a charcutaria?

-Claro que pode, agora já sabe o sítio.

-Então lá estarei.

O homem divertido, foi saboreando a conversa ao longo da rua. Chegou à Alameda sem dar por isso. Começou a preparar a emulsão no almofariz. Aquilo servido numa travessa passaria por maionese. De um lado a gema de ovo misturada com o óleo de linhaça; do outro o friso de latas com os pigmentos. Como estes eram uma poeira seca, aderiam ao pincel molhado na emulsão. Nada de colas. Estudara a técnica com todo o vagar. Lera alfarrábios, fizera experiências. A gema de ovo fora até ao século XVI um dos veículos das tintas. Os antigos não eram tolos. Para eles a arte começava na oficina. Interessara-lhes a gema de ovo, cuja albumina ligava perfeitamente a água ao óleo. Pintura com séculos de confirmação, resistindo às maiores usuras. Tinha de resultar. Mas quanto fizera sofrer o pobre lojista! Exagerara. Sem premeditação, é certo empurrado pelas circunstâncias, pelos espantos, pelos tais laconismos. No entanto, talvez o enigma tivesse agitado a monotonia daquele viver. Batiam à porta, devia ser ele. Disse para o ajudante:

-Vai abrir  que certamente é o senhor dos ovos.

-Procuro uma pessoa que pinta aí nas obras..., sentiu-se engolido por um túnel de surpresas: andaimes, o esgazeamento de luzes cruas. Não viu logo o seu cliente, porque este sumia-se no poleiro de cavaletes. Mas de lá lhe chegou uma voz familiar:

-Trepe a essa mesa, é mais fácil.

Levantou a cabeça para o alto, na direcção das lâmpadas que tinham o feitio de olhos de rã. Uma vasta parede de cal e areia, por onde progredia, uma labareda de cores, a incendiar os esboços de carvão, representando pessoas com o ar extasiado de quem aguarda um cometa no céu. Ei-los, os vermelhos, os azuis, os amarelos. Aceitou a mão que o ajudava. O cliente vestia um fato de macaco e, na face encovada, ondeava a magia das sombras.

-Repare- dizia-lhe o pintor, numa inflexão paciente e bem humorada-, repare nesse almofariz. E nas cascas dos ovos. É assim que se faz a mistura. Um pouco de pó vermelho e aí temos o pincel a fazer das suas.

O visitante permanece silencioso. Esforça-se por recuperar a sua personalidade de lojista...

-Razão tinha Vossa Excelência. Dois ovos por dia, claro. Não precisava de mais. Desculpe ter duvidado. Confesso que ainda me sinto confuso. Vender ovos para alguém pintar! -Apoiou-se no estrado, fitando o cliente com serena admiração: -Tenho a honra de estar falando com...

-Luís Dourdil, pintor.

-Agradecido a Vossa Excelência. O pior é que a minha mulher não vai acreditar.

 Fernando Namora

sábado, 30 de janeiro de 2016

PINTURA - LUÍS DOURDIL

O pintor português Luís César Pena Dourdil Dinis, conhecido como Luís Dourdil, nasceu em Coimbra a 8 de Novembro de 1914, e faleceu em Lisboa a 29 de Janeiro de 1989. Iniciou a sua carreira no figurativismo, vindo depois a evoluir para representações que combinam com o abstraccionismo. Hoje o recordamos...
Poet'anarquista
Luís Dourdil
Pintor Português
Sobre o pintor...

«Luís Dourdil discreto e organizado, pintou (superiormente) como viveu, inteiro, com coerência, numa espécie de modéstia ao mesmo tempo perplexa e empolgada, sentindo por dentro as suas referências culturais, auto-aprendizagem, o correr da História.

Entrar no seu atelier do Coruchéus era descobrir-lhe a ordem, a serenidade do lento e longo diálogo com as aparências, os materiais e as matérias da pintura, o equilíbrio de um profissionalismo conquistado em muitos anos de pesquisa gráfica.

É preciso reafirmar que Luis Dourdil é um dos principais autores da pintura moderna portuguesa e que a justiça de que porventura beneficia agora chegou tarde e mal dimensionada no confronto com personalidades, suas contemporâneas, de idêntico valor. Isso pode dever-se em parte, ao modo de ser do artista, à sua modéstia, mas deve-se também, e sobretudo, à incapacidade dos nossos analistas para escapar a este fenómeno provinciano (de mimetismo complexado) que os reduz aos padrões consumíveis da moda e os impede de assumir, com isenção científica, critérios históricos e estéticos, o estudo plural de modos de formar que se distingam, em exemplar qualidade, daquele tipo de referências.

Dourdil não foi um autor de circunstância. Não teve nunca de se submeter o mundo das suas formas e da sua escrita aos postulados efémeros da exterioridade consumista. Não teve porque acreditava no valor intrínseco das suas descobertas e conferia maior importância ao trajecto lento mas sincero, e essa interioridade que sempre sobrepôs.» 
Fonte: Rocha de Sousa in Artes Plásticas, nº1 Jul. 1990

Retrato de um Povo






Luís Dourdil

PINTURA DE LUÍS DOURDIL
Poet'anarquista

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

JONNY LANG
«Good Morning Little School Girl»

Poet'anarquista

BOM DIA MIÚDA DA ESCOLA

Bom dia miúda da escola
Posso ir para casa com você?
Diga a sua mãe e ao seu pai
Que eu também sou um miúdo da escola

Miúda, eu amo você, eu não posso evitar
Você é tão linda, querida
Eu não preciso de mais ninguém

Bom dia miúda da escola
Posso ir para casa com você?
Ooo, ooo, ooowee

Eu vou te deixar, querida
No nascer do dia
Por causa do jeito que você me trata
Eu tenho que ficar distante

Bom dia miúda da escola
Posso ir para casa com você?
Diga a sua mãe e ao seu pai
Que eu também sou um miúdo da escola

Vamos lá gatinha
Oh você sabe que eu não posso evitar
Ooo, ooo, ooowee

Eu vou comprar para mim um avião
E voar para sua cidade
E dizer a todos, miúda
Deus sabe que você vem me humilhando

Eu não consigo aguentar isso, miúda
Eu não posso evitar
Você é tão jovem e bonita
Mas você está apaixonada por um outro alguém

Bom dia miúda
Posso ir para casa com você?
Ooo, ooo, ooowee
Oh querida, o que você faz comigo

Oh, eu não posso evitar...

Jonny Lang
Cantor, Compositor e Guitarrista Norte-Americano

OUTROS CONTOS

«O Judeu», por Bernardo Santareno.
«O Judeu»
Texto Dramático de Bernardo Santareno

722- «O JUDEU»

[Excerto]

(Com desgosto e revolta)

Medo. O mesmo medo que enruga a mais pura alegria, que gera cobras na cama dos amantes, que deita neve nos mais negros cabelos, que seca o leite no peito das mães… No meu país quem governa é o medo! Os olhos e os ouvidos do medo crescem e multiplicam-se por toda a parte: Nem o pai, nem a mãe, nem a esposa, nem o irmão servem de porto abrigado; armadilhas de traição eles podem ser também. Em Portugal, as varejeiras do medo por toda a banda voam e em todas as cousas, vivas e mortas, de imprevisto pousam. Muitas, muitíssimas são; sem conto, realmente. As nojentas, as ardilosas, as pestíferas varejeiras do medo!

(Aponta enérgico para o sítio do palco onde o Estudante Pálido, meio oculto entre as pregas da cortina de fundo, aparece espiando o Judeu:)

Espião miserável, varejeira maldita!!

(O Estudante Pálido, como uma sombra, logo desaparece.)

Conhecem-se pelo fedor a podre, pela luz assassina dos olhos…

(Levanta-se com ímpeto; escarninho, desesperado:)

Na Europa civilizada, Portugal é a fortaleza do Medo; espiões e polícias, os seus alicerces e guarda!

Bernardo Santareno 

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

POESIA DE JOSEPH BRODSKY

«M.B.»
Poema de Joseph Brodsky
(Prémio Nobel da Literatura 1987)

M.B.

Querida, hoje saí de casa já muito ao fim da tarde
para respirar o ar fresco que vinha do oceano.
O sol fundia-se como um leque vermelho no teatro
e uma nuvem erguia a cauda enorme como um piano.

Há um quarto de século adoravas tâmaras e carne no braseiro,
tentavas o canto, fazias desenhos num bloco-notas,
divertias-te comigo, mas depois encontraste um engenheiro
e, a julgar pelas cartas, tomaste-te aflitivamente idiota.

Ultimamente têm-te visto em igrejas da capital e da província,
em missas de defuntos pelos nossos comuns amigos; agora
não param (as missas). E alegra-me que no mundo existam ainda
distâncias mais inconcebíveis que a que nos separa.

Não me interpretes mal: a tua voz, o teu corpo, o teu nome
já não mexem com nada cá dentro. Não que alguém os destruísse,
só que um homem, para esquecer uma vida, precisa pelo menos
de viver outra ainda. E eu há muito que gastei tudo isso.

Tu tiveste sorte: onde estarias para sempre – salvo talvez
numa fotografia - de sorriso trocista, sem uma ruga, jovem, alegre?
Pois o tempo, ao dar de caras com a memória, reconhece a invalidez
dos seus direitos. Fumo no escuro e respiro as algas podres.

Joseph Brodsky

POESIA DE EGITO GONÇALVES

«Só o Amor me Interessa»
Poema de Egito Gonçalves

SÓ O AMOR ME INTERESSA

Nesta fase em que só o amor me interessa 
o amor de quem quer que seja 
do que quer que seja 
o amor de um pequeno objecto 
o amor dos teus olhos 
o amor da liberdade 

o estar à janela amando o trajecto voado 
das pombas na tarde calma 

nesta fase em que o amor é a música de rádio 
que atravessa os quintais 
e a criança que corre para casa 
com um pão debaixo do braço 

nesta fase em que o amor é não ler os jornais 

podes vir podes vir em qualquer caravela 
ou numa nuvem ou a pé pelas ruas 
- aqui está uma janela acolá voam as pombas - 
podes vir e sentar-te a falar com as pálpebras 
pôr a mão sob o rosto e encher-te de luz 

porque o amor meu amor é este equilíbrio 
esta serenidade de coração e árvores 

Egito Gonçalves

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

JANIS JOPLIN - «One Good Man»

Poet'anarquista

UM BOM HOMEM

Querido, eu amo ir a festas
E eu gosto de me divertir
Mas se começar a ficar sem graça depois de um tempo
Oh meu amor, eu vou começar a procurar
Um bom homem
Hmm, você não sabe que eu tenho procurado
Oh sim eu tenho!
Um bom homem
Oh não é muito, querido, não é muito
Só é tudo, whoa

E eu não quero muito da vida
Eu nunca quis uma mansão no sul
E só quero encontrar alguém sincero
Que me tratasse como ele fala
Um bom homem
Oh, amor, você não sabe que eu venho procurando
Oh, um bom homem
Não é muito, amor, não é muito
Oh, isso é só tudo
Tudo certo

Algumas garotas querem fazer coleções de homens
Elas os usam como um entalhe em uma arma
Oh, amor, mas eu sei mais que isso
Eu sei que uma mulher só precisa de um
Um bom homem, oh
Oh, amor, você não sabe que eu venho procurando
Um bom homem
Não é muito, não, não amor, não é muito
Oh, é só todas as coisinhas
Só tudo, tudo
Oh yeah... "

Janis Joplin
Cantora e Compositora Norte-Americana

OUTROS CONTOS

«Viriato», por Teófilo Braga.
«Viriato»
Romance Épico

721- «VIRIATO»

[Excerto]

Era noite velha quando Ditálcon, Andaca e Minouro regressaram ao acampamento de Viriato. Demoraram-se mais tempo do que o Cabecilha imaginara, revolvendo por vezes na mente que fortes motivos ou razões políticas se debatiam na barraca do general romano, para lá se deterem. De vez em quando ocorria-lhe a conjectura de que Cepião, não reconhecendo a inviolabilidade dos seus parlamentários, os teria mandado passar pelas armas, ou pelo menos os guardava como prisioneiros, como reféns para lhe impor condições de rendição. Nesta prolongada preocupação de espírito, e sob a pressão dos inesperados acontecimentos, que só poderiam ser contrabalançados pela, energia e pela astúcia, Viriato caiu em um sono profundo, como aquele em que se fica imerso antes de caminhar para a morte. Embora profundo, o sono era agitação, como em homem costumado a estar alerta mesmo quando descansava; e nessa agitação, debatia-se Viriato com um pesadelo, um sonho, que sem diferença por fatalidade coincidia com o que estava prestes a acontecer. Na agitação daquele sono dormido sobre a terra recalcada poucas horas antes pelos cavalos, Viriato sentia os passos dos seus três Companheiros que se aproximavam silenciosamente da barraca em que estava dormindo; um deles, Minouro, afastou o pano e entrou escondendo de trás das costas um punhal de dois gumes. 

Naquela ansiedade cataléptica, Viriato quis erguer-se, gritar, mas era impossível qualquer movimento; em seguida entrou Ditálcon, e Andaca ficou quase da parte de fora, mas era ainda visto claramente. Sob o terror do sonho que o oprimia, Viriato viu Minouro curvar-se obre ele, e erguendo ao ar o braço com o punhal descarregar o golpe...

Nesse momento de extrema angústia acorda, e entre a ilusão e a realidade, sentiu um golpe vibrado fortemente no pescoço; antes que o sangue lhe embaraçasse a voz, Viriato, abrindo os olhos atónitos, pôde proferir as palavras:

– O meu maior amigo? Minouro...

Os borbotões de sangue que lhe encheram internamente o peito e repingaram pelos panos da barraca, não deixaram que pudesse mais exprimir-se, e ficou exânime, arquejando, até ao último alento, passando assim, horrorosamente, de um sonho tremendo, em que Viriato, pela sua lealdade não ousaria acreditar, para a realidade trágica e afrontosa, que ia actuar como uma eterna calamidade sobre o futuro da Lusitânia.

A morte de Viriato fez-se com rapidez e segurança; os três Companheiros da Trimarkisia saíram da barraca sem ruído, e simulando ordens recebidas de Viriato montaram nos seus cavalos e partiram à desfilada para o arraial romano. Cepião estava dormindo; um Cavaleiro foi acordá-lo, e dizer-lhe:

– Morreu Viriato!

Quinto Servílio Cepião, voltando-se sobre o lado direito para continuar o sono, deu ordem ao Cavaleiro:

– Que esses entes abjectos esperem lá fora, até que seja dia.

Viriato era sempre o primeiro que percorria o acampamento; a sua presença era como um toque de alvorada. Naquele dia, que despontava luminoso e sereno, não aparecera; como faltavam também os seus três Companheiros, facilmente imaginaram os mil Soldúrios que iria reconhecer algum fojo ou desfiladeiro para organizar uma emboscada contra o exército considerável de Cepião. Mas o sol erguia-se; era dia claro, e a barraca do Caudilho conservava-se fechada. Ocorreu a ideia de verificar se estaria caído por doença; o que estava mais perto levantou resoluto o pano da barraca, e viu o vulto de Viriato estendido em cima da relva, sobre postas de sangue coalhado; e recuando com espanto:

– Está morto Viriato! Apunhalado, apunhalado!

Aquele brado soou como um estalido de raio, quando, ao perto, fende o ar ambiente; o trovão foi o rumor propagado entre os Soldúrios e por entre o Terços e Companhias, que formavam agora o pequeno exército de Viriato.

– Apunhalado Viriato! Morto Viriato!

Para a barraca do general correram todos aterrados. o compareceram Ditálcon, Andaca e Minouro; eram os únicos que faltavam. Sem esforço reconheceram que esses, a quem Viriato considerava como os seus maiores amigos, é que o tinham apunhalado traiçoeiramente, covardemente, enquanto ele dormia!

Corriam lágrimas de desespero pelas faces dos velhos camaradas de Viriato nesta campanha de dez anos pela independência da terra lusitana.

A barraca foi desmantelada, ficou patente aos olhos de todos o corpo inânime e Viriato estendido como se tivesse passado momentaneamente do sono da vida ara o da morte; via-se-lhe o golpe profundo do pescoço dado por mão certeira, a que teria sucumbido rapidamente e quase sem agonia. Sobre o sangue derramado em cima de que jazi, e a seu lado, estava estendida a espada, que o acompanhava sempre, espada invencível, à qual atribuíam poderes maravilhosos. Vendo a espada, e não se atrevendo nenhum dos Soldúrios a tomá-la na mão, diziam entre si:

– Agora compreendemos as vozes que corriam: Viriato não morreu em batalha; assim lhe estava vaticinado.

– Mas o oráculo, que lhe parecia favorável, deixara no vago a hipótese atroz, de morrer apunhalado à traição pelos seus melhores amigos!

– Antes vencido e morto na refrega, no sacrifício voluntário da ida por uma ideia, do que esta sorte miseranda, por todo o exército, em grupos, que se formavam em tamanha desolação. Levantavam-se alaridos prantos de terror e de mágoa; bem reconheciam que aquele desastre era a perdição de todos e que sem o chefe prestigioso achavam-se à mercê do Cônsul romano, e para muitos anos abafada a resistência da Lusitânia. Na angústia em que todos se viam, a pouca distância do exército de Quinto Servílio Cepião, o desespero a situação causava uma apatia, uma obnubilação para planear a defesa urgente.

Neste momento, afastando os grupos que cercavam o corpo de Viriato, chegou Tantalo, um dos bravos em que mais confiava o Caudilho, e colocando-lhe a espada entre as mãos, cruzada sobre o peito, exclamou:

– Morreu o teu corpo, mas permanece imperecível o te ideal. Esta Espada transmitirá o esforço truncado pela traição, àquele que cedo ou tarde servir a aspiração de uma Lusitânia livre.

E voltando-se para o exército, que parecia reanimado por estas palavras:

– O que temos a fazer agora, e primeiro que tudo, é prestar a Viriato as honras do funeral.

Enquanto se davam as ordens para realizarem de pronto, com a maior solenidade a lúgubre cerimónia, no arraial dos romanos levantavam-se gritos de aclamação triunfal, que ecoavam de quebrada em quebrada:

– Acabou a Guerra da Lusitânia. Morreu Viriato! Morreu Viriato.

Os cavaleiros romanos, que chegaram com a intimação afrontosa de Cepião ao arraial lusitano, puderam ver e contaram as cerimónias grandiosas que se praticaram no Funeral de Viriato. Dentre os Mil Soldúrios que sempre o acompanharam, uns encarregaram-se de vesti-lo magnificentissimamente com as mais ricas e festivas roupas que trajava em tempo de gala, quando animava os jogos celebrando as derrotas romana. Amarraram-lhe os cabelos" na testa, como se fosse para entrar em combate, pondo-lhe na cabeça a tríplice cimeira e o capacete de couro; pendente do pescoço o pequeno escudo côncavo, preso por correias, e em uma das mão um punhal largo ou faca de mato, estendida a seu lado uma lança de ponta da bronze e gancho para não deixar fugir a presa. Outros Soldúrios acarretaram para cima de um alto penhasco que estava na coroa da montanha, grandes molhos de rama de pinheiro, de faias e carvalhos, formando ali uma estupenda pira, sobre a qual, com veneração foram processionalmente colocar o corpo rígido de Viriato. Parecia um soberbo trono a pira; e logo que cada um dos mil Soldúrios foi junto do cadáver dar-lhe o derradeiro adeus, dividiram-se em grupos de duzentos, e postos em frente uns dos outros, como quem vai entrar em combate, esperando que fosse lançado fogo à enorme pira. A chama começou a atear-se, e assim que ela irrompeu intensa, principiaram as danças guerreiras em volta da pira, em forma agonística, batendo os escudos, floreando as lanças, brandindo as espadas e entrecruzando-se vertiginosamente, como se esse tripúdio santificasse mais o acto lúgubre, continuando ininterruptamente, incansavelmente, até que a ultima labareda, tendo combusto o corpo de Viriato, e apagasse por não ter mais que queimar.

E enquanto aquelas turmas de duzentos cavaleiros dançavam em volta da pira, dois outros grupos conservavam-se balançando-se como a acentuar o ritmo e um Canto, em que celebravam as virtudes e o heroísmo de Viriato.

Teófilo Braga

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

SÁTIRA...

O Artista Incompreendido
HenriCartoon

«O ARTISTA INCOMPREENDIDO»

Troika-me então
Esta obra por miúdos...
Analisa os conteúdos
Ímpares da Nação!
Ó Diabo!?... Rejeição
Da obra de literatura…?
Quem foi a cavalgadura
Que me deixou prostrado
Com o Orçamento d’Estado,
E a perder compostura??

POETA

OUTROS CONTOS

«Crónica do Rei Pasmado», por Gonzalo Torrente Ballester.

«Crónica do Rei Pasmado»
Escritor Espanhol

720- «CRÓNICA DO REI PASMADO»

[Excerto]

O corpo de Marfisa estava meio descoberto: viam-se seus cabelos, costas, a cintura finíssima 
e o início de suas nádegas. O Rei a olhava com surpresa e estupefacção.

- Já viste algo mais belo?

- Há muitas coisas belas no mundo.

- Mais que o corpo de uma mulher?

- Mais que o de Marfisa, dificilmente.

- Nunca tinha visto, até esta noite, uma mulher nua.

- E que achastes?

- O paraíso tem de ser coisa semelhante.

O conde torceu o nariz.

- Não creio que os senhores inquisidores aprovariam tal ideia.

- E o que saberiam os senhores inquisidores de mulheres nuas?

Gonzalo Torrente Ballester

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

GIUSEPPE VERDI - «La Traviata»

Poet'anarquista

Giuseppe Verdi
Compositor Italiano

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

SÁTIRA...

A Candidata Engraçada
HenriCartoon

«A CANDIDATA ENGRAÇADA»

Digam lá quem é boa…
Se eu, ou a Maresia?…
Levei grande razia,
Não pensem ser à toa!
A idade não perdoa…
Eu perco pra ganhar,
Estou aqui a mostrar
Que sou melhor que ela…
Tenho uma rica panela,
Mas não sei cozinhar!!

POETA

SÁTIRA...

Últimos Cartuchos
HenriCartoon

«ÚLTIMOS CARTUCHOS»

- Madia, fico destdoçado
Sempde que há eleição…
- Precisas de boa refeição
E ficas novinho, Acabado!
- Não está mal pensado
Pda depod as sinedgias,
Gasto muitas enedgias
Quando tenho de id votad…
Tdaz o que há pada vetad
Nestes últimos dias!!

Trocando o 'd' pelo 'r'...

- Maria, fico destroçado
Sempre que há eleição…
- Precisas de boa refeição
E ficas novinho, Acabado!
- Não está mal pensado
Pra repor as sinergias,
Gasto muitas energias
Quando tenho de ir votar…
Traz o que há para vetar
Nestes últimos dias!!

POETA

«O BEIJO», POR THÉODORE GÉRICAULT

«O Beijo»
Théodore Géricault/ 1816-17

Poet'anarquista

OUTROS CONTOS

«Bar Don Juan», por Antonio Callado.

«Bar Don Juan»
Conto de Antonio Callado

718- «BAR DON JUAN»

Quando estacionou diante do edifício, na Lagoa, Karin já estava na calçada à sua espera, sapatos de corda, um impermeável por cima da roupa de banho, e, no bolso, um frasco de prata com vodka.

Escandalizou-se ao ver que Mansinho não vinha de calção de banho por baixo da capa.

— Você não vai cair n'água?

— E você? Está querendo me ver, depois desse tempo todo, ou só quer tomar banho de mar?

No apartamento de Karin tinha uísque, vodka, sardinha e pão. Que besteira tomar banho de mar. Foram subindo a Rua Montenegro e, ao chegarem à praia, dobraram à direita. Resignado que estava de andar até o Arpoador, Mansinho se animou, achando que iam parar talvez diante do Country, mas Karin prosseguiu pela calçada. Pelas alturas do Cinema Miramar, Mansinho teve uma dúvida atroz. 

Será que a Karin queria andar pela Avenida Niemeyer até o Vidigal, a Gávea, a própria Barra? Karin parou no fim do Leblon e obrigou Mansinho a tirar os sapatos para andarem na beira do mar. Entre as pedras achou flores da véspera, três copos-de-leite de talos amarrados com fita branca. Karin declamou para o mar, restituindo as flores às ondas;

Todo coberto de lírios
de velas, fogos e círios
o ano estava estendido     
das areias de Ipanema
aos rochedos do Leblon.
Diante do ano morto
lemanjá dá reveillon.

— O que é isso? — disse Mansinho.

— Ora! O poema do Murta. .         -

— Você sabe tudo de cor, hem!

— Claro! Pois o poema foi feito para mim.

Mansinho ficou meio amuado. Karin tomou um trago de vodka. Apesar da ressaca, Mansinho, resignado, bebeu também. Estava se sentindo mofado, húmido.

— Por que é que Murta depois começou a fugir de mim? Eu sempre tive tanta vontade de ser amada por uma poeta.

— Murta é cineasta. Pelo menos é o que ele diz.

— Quem faz versos é poeta. Onde é que ele anda?

— Em caso de dúvida, procure no Don Juan’s. Se formos até lá é quase certo encontrar o Murta.

— Ele me adorou aquela noite na areia, se lembra, de joelhos, e depois deixou a festa e veio me procurar, andou comigo pela praia inteira, recitando os versos que tinha feito. Mas não me propôs nada.

Mansinho deu de ombros. Puseram-se a andar pela beira da praia, Karin apanhando conchas, cantarolando, inventando uma música para cantar com o poema:

Dançando no gume fino
da meia-noite lunar!

Mansinho foi ficando mais emburrado e Karin cada vez mais alegre e cantadeira. Ao passarem pela frente da Rua General Urquiza ele propôs que fossem para o Bar Don Juan mas Karin, sem responder, enfiou o braço no braço dele andando e cantando. Quando chegaram à desembocadura do canal do Jardim de Alá, sentou-se no paredão que avançava pelas ondas cinzentas. Mansinho já tinha molhado as calças até os joelhos e a garoa lhe pingava dos cabelos. Dois desocupados, no paredão oposto, olhavam em frente, ou vagamente estudavam a grande escavadeira empregada no alargamento do canal. Enquanto os trabalhadores, na areia, enchiam a boca com a comida tirada da marmita, a bocarra de ferro da escavadeira descansava, os dentes imensos imobilizados em torno de uma rocha. 

Karin passou a mão nos cabelos encharcados de Mansinho e tomou mais vodka.

— Fala alguma coisa

— Você gosta de versos e eu só tenho prosa. De mais a mais você é que deve ter alguma coisa a contar. O que é que fez durante uma semana inteira?

Karin o olhou séria. 

— Aproveitei o pretexto de estudar a festa do Círio de Nazaré e fui conhecer a tua terra.

Mansinho arregalou os olhos.

— Você foi a Belém do Pará?

Karin fez que sim com a cabeça e tomou as mãos de Mansinho nas suas. Mansinho teve grande desejo dela e vontade de deitá-la ali mesmo, na areia ou até no dorso do paredão, mas ao mesmo tempo sentiu com certa melancolia aquele princípio de enjoo que sempre lhe davam as mulheres quando passavam da porra da posse e da boa cegueira física inicial para uma fixação de sentimentos.

Domesticadas e ciscando o chão até as garças viram galinhas.

Da janela do escritório do Bar Don Juan, Aniceto viu Mansinho e Karin que chegavam da praia e ficou pensando na Da Glória. Que estaria fazendo em Pão de Açúcar da beira do São Francisco, ela da voz rouca e que sabia falar longa e misteriosamente —como se tivesse aprendido a falar com o rio — mas que era tão breve de carta e de escrita tão vazia? Tinha medo dos escritos.

“Palavra escrita é feito passarinho na gaiola”, dizia. “Se um dia eu receber um telegrama me mato mas não abro.”

Antonio Callado

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(26 de Janeiro de 2010, morre o guitarrista português Jorge Fontes)

JORGE FONTES
«Eu e a Minha Guitarra»

Poet'anarquista

Jorge Fontes
Guitarrista Português

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

SÁTIRA...

O Enteado
HenriCartoon

«O ENTEADO»

E os parabéns vão
Pró presidente Martelo…
Em dia cinzento, amarelo,
Foi segundo a abstenção.
Nem palavra de gratidão
Aos cinquenta e um por cento,
Esquecem reconhecimento
A quem não quer votar…
Estou de papo pró ar
A fazer figura de jumento!

POETA

OUTROS CONTOS

«Retrato de uma Londrina», por Virgina Woolf.

«Retrato de uma Londrina»
Amadeo Modigliani

717- «RETRATO DE UMA LONDRINA»

Ninguém pode se considerar expert sobre Londres se não conhecer um verdadeiro cockney¹; se não dobrar numa rua lateral, longe das lojas e dos teatros, e bater em uma porta particular numa rua de casas particulares.

Casas particulares em Londres têm tendência a serem muito parecidas. A porta se abre para um vestíbulo escuro, ergue-se uma escada estreita; do patamar superior abre-se uma dupla sala de estar e nessa dupla sala de estar vê-se dois sofás, um de cada lado de um fogo crepitante, seis poltronas e três compridas janelas dando para a rua. Sempre é matéria de considerável conjectura o que acontece na segunda metade da sala dos fundos debruçando-se para os jardins de outras casas. Mas é com a sala de estar da frente que estamos preocupados; pois era ali que mrs. Crowe sentava-se sempre numa poltrona junto ao fogo; era ali que sua existência transcorria; era ali que ela servia o chá.

Que tenha nascido no campo, embora estranho, parece ser um fato; que ela às vezes deixasse a cidade, naquelas semanas de verão em que Londres não é Londres, também é verdade. Mas para onde ia ou o que fazia quando saía de Londres, quando sua poltrona estava vazia, sua lareira apagada e a mesa desfeita, ninguém sabia ou podia imaginar. Pois conceber mrs. Crowe com seu vestido preto, seu véu e seu chapéu caminhando num campo de nabos ou subindo um monte de pasto está além da mais desvairada imaginação.

Ali, junto à lareira no inverno ou à janela no verão, sentara-se ela por 60 anos — mas não sozinha. Havia sempre alguém na poltrona oposta, fazendo uma visita. E antes que o primeiro visitante estivesse sentado por dez minutos, a porta sempre se abria e a criada Maria, de olhos e dentes proeminentes, que por 60 anos abrira a porta, abria-a mais uma vez e anunciava um segundo visitante; e a seguir um terceiro, e logo depois um quarto.

Nunca se soube de um tête-à-tête com mrs. Crowe. Ela não gostava de tête-à-têtes. Era uma peculiaridade que compartilhava com muitas anfitriãs, a de nunca ser especialmente íntima de alguém. Por exemplo, havia sempre um homem idoso no canto junto ao armário; e que parecia tanto fazer parte daquela admirável mobília do século XVIII quanto seus pegadores de bronze. Mas mrs. Crowe sempre se dirigia a ele como mr. Graham; nunca John, nunca William; embora, às vezes, o chamasse de “caro mr. Graham” como para sublinhar que já o conhecia havia 60 anos.

A verdade é que não desejava intimidade, desejava conversa. A intimidade é um dos caminhos para o silêncio, e mrs. Crowe abominava o silêncio. Era preciso haver conversa, e que esta fosse geral e que abarcasse tudo. Não devia ser profunda demais nem inteligente demais, pois se progredisse muito nessas direcções alguém certamente se sentiria de fora, e ficaria sentado ali, balançando a xícara de chá, sem dizer nada.

Portanto, a sala de estar de mrs. Crowe tinha pouco em comum com os celebrados salões dos memorialistas. Gente inteligente ia lá com frequência — juízes, médicos, membros do parlamento, escritores, músicos, viajantes, jogadores de pólo, actores e completos anónimos —, mas se alguém dissesse uma coisa brilhante isto era sentido quase como uma gafe, um acidente que se ignorava, como um acesso de espirros ou alguma catástrofe com um bolinho. A conversa de que mrs. Crowe gostava e que a inspirava era uma versão glorificada do mexerico da cidade. A cidade era Londres, e o mexerico era sobre a vida de Londres. Mas o grande dom de mrs. Crowe consistia em tornar a grande metrópole tão pequena quanto uma aldeia, com uma igreja, um solar e 25 chalés. Mrs. Crowe tinha informação de primeira mão sobre cada peça, cada exposição de pintura, cada julgamento, cada caso de divórcio. Ela sabia quem estava casando, quem estava morrendo, quem estava na cidade e quem estava fora. Ela mencionava o fato de que acabara de ver o carro de lady Umphleby passar, e arriscava o palpite de que ia visitar a filha cujo bebê nascera na noite anterior, exactamente como uma mulher da aldeia fala sobre a esposa do juiz de paz dirigindo até a estação para receber mr. John, que estaria voltando da cidade.

E enquanto mrs. Crowe fazia essas observações pelos últimos 50 anos ou algo assim, adquiria um surpreendente arquivo sobre a vida de outras pessoas. Quando mr. Smedley, por exemplo, disse que sua filha estava noiva de Arthur Beecham, mrs. Crowe observou imediatamente que nesse caso ela seria uma prima em terceiro grau de mrs. Pirebrace, e num certo sentido sobrinha de mrs. Burns, pelo primeiro casamento com mr. Minchin de Blackwater Grange. Mas mrs. Crowe não era nem um pouco snobe. Era apenas uma cultivadora de relações; e sua surpreendente habilidade nesse campo servia para dar um carácter familiar e uma personalidade doméstica às suas colheitas, pois muitas pessoas se espantariam de serem primos em vigésimo grau, se soubessem disso.

Portanto, ser admitido na casa de mrs. Crowe significava tornar-se membro de um clube, e o pagamento exigido era a contribuição com um número de tópicos de mexerico por ano. O primeiro pensamento de muita gente quando a casa incendiava ou os canos rebentavam ou a criada fugia com o mordomo deve ter sido: “Vou correr até mrs. Crowe e lhe contar isso.” Mas nisso também as distinções precisavam ser observadas. Certas pessoas tinham o direito de aparecer na hora do almoço; outras, em maior número, podiam ir entre cinco e sete horas. A classe que tinha o privilégio de jantar com mrs. Crowe era pequena. Talvez somente mr. Graham e mrs. Burke realmente jantassem com ela, pois mrs. Crowe não era rica. Seu vestido preto estava um tanto gasto; seu broche de diamante era sempre o mesmo broche de diamante. Sua refeição favorita era chá, porque a mesa do chá pode ser suprida economicamente, e há uma elasticidade no chá que combinava com o temperamento gregário de mrs. Crowe. Mas fosse almoço ou chá, a refeição mostrava um carácter distinto, exactamente como um vestido ou a joia que usava combinavam com ela à perfeição, traziam em si uma moda própria. Haveria um bolo especial, um pudim especial, algo peculiar à casa e tanto parte dela quanto Maria, a velha criada, ou mr. Graham, o velho amigo, ou o velho chintz da poltrona, ou o velho carpete no assoalho.

É verdade que mrs. Crowe deve ter saído algumas vezes, convidada para almoços e chás de outras pessoas. Mas em sociedade ela parecia furtiva, fragmentária e incompleta, como se tivesse meramente passado para uma espiada no casamento ou na reunião noturna ou no funeral, a fim de recolher as migalhas de notícias de que precisava para completar seu próprio estoque. Por isso, era raramente induzida a sentar-se; estava sempre voando. Parecia deslocada entre as mesas e cadeiras dos outros; precisava ter seus próprios chintzes, seu próprio armário e seu próprio mr. Graham junto a ele a fim de ser completamente ela própria. À medida que os anos foram passando, as pequenas incursões no mundo exterior praticamente cessaram. Mrs. Crowe construiu seu ninho de modo tão compacto e completo que o mundo exterior não tinha uma pena ou um graveto a lhe acrescentar. 

Além disso, seus próprios camaradas lhe eram tão fiéis que podia confiar neles para transmitir qualquer noticiazinha que ela devesse acrescentar à sua coleção. Era desnecessário que abandonasse a própria poltrona junto ao fogo no inverno, ou junto à janela no verão. E com a passagem dos anos seu conhecimento não se tornou mais profundo — a profundidade não era a linha de nossa anfitriã — e sim mais redondo e completo. Deste modo, se uma nova peça fazia um grande sucesso, mrs. Crowe conseguia no dia seguinte não só registar o facto com uma pitada de mexerico divertido dos bastidores, como também podia remeter-se a outras estreias, nos anos 1880, 1890, e descrever o que Ellen Terry usara, o que Duse tinha feito, o que o querido mr. Henry James comentara — nada muito notável talvez; mas enquanto falava, era como se todas as páginas da vida de Londres nos últimos 50 anos fossem levemente folheadas para sua diversão. Havia muitas, e suas ilustrações eram vivas e brilhantes, e de pessoas famosas; mas mrs. Crowe de modo nenhum vivia no passado, de modo nenhum o exaltava acima do presente.

Na verdade, era sempre a última página, o momento presente que mais importava. O delicioso de Londres era que sempre dava ao indivíduo algo novo para observar, algo fresco sobre o que falar. Era preciso apenas manter os olhos abertos e sentar em sua própria poltrona das cinco às sete horas todos os dias da semana. Enquanto mrs. Crowe sentava-se com os convidados em torno de si, dava de tempos em tempos uma rápida olhadela de pássaro por sobre o ombro para a janela, como se tivesse meio olho na rua, meio ouvido para os carros e ônibus e os gritos dos jornaleiros lá fora. Ora, algo novo podia estar acontecendo naquele mesmo instante. Não se podia passar tempo demais no passado: não se devia dar uma atenção total ao presente.

Nada era mais característico e talvez um pouco desconcertante do que a ansiedade com a qual mrs. Crowe erguia os olhos e interrompia a frase no meio quando a porta sempre se abria e Maria, que se tornara muito corpulenta e um pouco surda, anunciava uma nova visita. Quem estaria prestes a entrar? O que teria a acrescenta à conversa? Mas sua habilidade em extrair fosse o que fosse que poderiam oferecer e sua destreza em atirar a notícia no quotidiano, eram tais que nenhum dano ocorria; e fazia parte de seu peculiar triunfo que a porta jamais se abrisse com demasiada frequência; o círculo nunca ultrapassava sua possibilidade de controle.

Assim, para conhecer Londres não apenas como um espectáculo deslumbrante, um mercado, uma corte, uma colmeia de indústria, mas como um lugar onde pessoas se encontram, conversam, riem, casam-se e morrem, pintam, escrevem e actuam, mandam e legislam, era essencial conhecermos. Crowe. Era em sua sala de estar que os inúmeros fragmentos da vasta metrópole pareciam juntar-se num todo animado, compreensível, divertido e agradável. Viajantes ausentes por anos, homens esgotados e ressecados pelo sol, recém-chegados da Índia ou da África, de remotas viagens e aventuras entre selvagens e tigres, iam directo para a casinha na rua quieta para serem conduzidos novamente ao coração da civilização numa única pernada. Mas nem a própria Londres podia manter mrs. Crowe viva para sempre. E é fato que um dia ela já não estava sentada na poltrona junto ao fogo quando o relógio bateu cinco horas; Maria não abriu a porta; mr. Graham separara-se do armário. Mrs. Crowe está morta; e Londres, embora Londres ainda exista, jamais será de novo a mesma cidade.

Virginia Woolf