sexta-feira, 30 de setembro de 2016

OUTROS CONTOS

«Alvura», conto poético por Matias José.

«Alvura»
Foto: Nuno Mendes

886- «ALVURA»

Usas rodapé azul
Roubaste a cor ao céu…
De branco é o teu véu,
Feito do mais puro tule.
Tens a Rainha do sul
Como não há outra igual,
Padroeira de Portugal
Nossa Senhora da Conceição…
Esta linda conjugação
Só encontras no Alandroal!

Matias José

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

SUEDE - «The Wild Ones»

Poet'anarquista

OS SELVAGENS

Há uma canção tocando
no rádio
No céu, a atmosfera
do espetáculo matutino
E há uma vida se esvaindo
enquanto a música toca
E enquanto abro as cortinas
na minha mente, estou acreditando
que você poderia ficar

E, se você ficar,
eu perseguirei a chuva pelos campos afora
Nós brilharemos como a manhã
e pecaremos ao sol
Se você ficar
Nós seremos os selvagens,
correndo com os cães, hoje

Há uma canção soando
através da parede
Tudo o que vemos e acreditamos é o D.J.,
e assim já não há mais dívidas
E é uma pena o avião estar partindo
neste dia ensolarado
Porque em você minha tatuagem estará sangrando,
e o nome manchará

Mas, se você ficar,
nós iremos passear disfarçados
pelos cemitérios suburbanos
Nós iremos aos bangalôs
onde nossas dívidas crescem a cada dia

E se você ficar,
eu perseguirei a chuva
e me livrarei dos medos
Nós brilharemos como a manhã
e pecaremos ao sol,
oh se você ficar
Nós seremos os selvagens,
correndo com os cães, hoje
Nós seremos os selvagens,
correndo com os cães, hoje

Suede
Banda Britânica

OUTROS CONTOS

«Nos Mares do Fim do Mundo», por Bernardo Santareno.

«Nos Mares do Fim do Mundo»
Crónicas de Viagem ao Bacalhau

885- «NOS MARES DO FIM DO MUNDO»

[Excerto]

Foi no Granja, um velho lugre de três mastros, ao que me dizem já desaparecido. O Albino algarvio era o bobo do veleiro: não havia ninguém na companha, desde os moços de convés até aos oficiais da ponte, que não gostasse de molhar a sopa.

Uns puxavam-lhe a camisola, outros tiravam-lhe o barrete e todos o feriam com graçolas pesadas, achincalhando-o com alcunhas e risos destemperados. O Albino ia sofrendo em silêncio e às vezes, que remédio!, chegava mesmo a emprestar aos lábios um sorriso dolorosamente pregueado. Mas no interior, lá por dentro, era uma chaga viva, um cancro que, sem tréguas, o vinha roendo: Malvados! Se lhes pudesse ser bom... Mas não podia. Enfim, uma desgraça: ele, ali no navio, era o fantoche, o bombo onde todos malhavam, o escarradoiro para onde, sem cerimónia, os outros cuspiam! Mas tantas lhe faziam que um dia... ora, ora, um dia... nada, sempre nada! Estava sozinho, não tinha ninguém por ele: como um bicho desprezível e feio... Feio! Todos lho chamavam. E cabeçudo, e torto, e marreco... Feio: de tudo, seria talvez o que mais o fazia sofrer!

Por duas vezes já, em acessos de raiva, calcara a pés juntos o espelhinho de algibeira. Ah, mas eles não sabiam ainda quem era o Albino! E daí talvez tivessem razão: em muitas horas, quase sempre!, sentia-se manso e receoso como um boi capado. Até que um dia, só até um dia!... Que se acautelassem, pois uma vez o palonça, o pobre diabo, podia perder a cabeça e... Um mar de gargalhadas apagava sempre as suas ameaças: Como os odiava, nestas alturas! E passava as noites a remoer planos de vingança, arrepios de terror e lágrimas de abandono. Então ele, Albino, não seria um homem como os outros?! Tinha que o provar, tinha que lhes mostrar do que era capaz. Era um homem, ele era um homem!

Mas os dois piores, os mais verdugos, seriam o cozinheiro Ricoca e o seu ajudante, o Mazorro: Ganhara-lhes medo, só de vê-los ficava com febre! Ainda ontem o Ricoca, à saída da cozinha, lhe passara uma rasteira de tal jeito, que ele fora estatelar-se no convés, no preciso momento em que uma grande onda galgava a amurada: Ficara todo encharcado, da cabeça aos pés. Em redor, os outros apertavam o ventre, de tanto rirem...

Ná, não podia continuar assim: perdera o gosto pela vida e sentia-se como um espantalho de eira, como uma vela esfarrapada ao vento. Os outros faziam-lhe tudo quanto queriam e ele nem reagia, sempre se ficava quedo e mudo: Verdade, verdadinha, ao cabo e ao resto, não passava dum reles cobarde. Só de pensar na mulher e no filho, sentia a cara arder de vergonha e o corpo alagado em suores frios: Rico chefe de família, não haja dúvida! Ah, mas aquele Ricoca!... A raiva que lhe tinha! E o outro, esse Mazorro do diabo, não era melhor... Pudesse ele! Tinha que poder: ou arranjava coragem para tirar vingança daqueles dois, ou deitava-se ao mar. E, noite após noite, foi acumulando projectos, imaginando torturas... Mas vinha a manhã e era como se o vento marítimo lhe apagasse o lume das veias: cada dia mais amarfanhado, mais triste. Uma miséria, uma vergonha! Aquilo tinha que acabar: ou ele, ou os outros dois! Daquela noite não passaria. Mas como? Sòzinho, apenas com as suas próprias forças, não podia: estava mais que visto.

E, contra o seu costume, naquela tarde, logo ao jantar, bebeu fartamente. E depois continuou... até sentir fósforos de lume acenderem-se-lhe na cabeça. Os da companha, admirados, riam e davam-lhe palmadas nas costas. Então, veio o Ricoca: Eh, Albino! Eh, Algarvio!, Atão o que é isso, home? Queres afogar as mágoas?... Calem-se praí, rapazes: Na sabem que ele inda na recebeu cartas da família? São coisas qu’acontecem a calquer mortal: Se calhar a mulher...

E os risos chocarreiros apertaram-no, como um círculo de chumbo a ferver. Um pouco cambaleante, o Albino conseguiu erguer-se à altura do cozinheiro: olhos nos olhos do inimigo, as mãos contraídas nos bolsos, os dentes arreganhados como os dum lobo, o algarvio, por momentos e em silêncio, bafejou com o seu hálito azul espesso a cara surpreendida do Ricoca; depois, de súbito, soltou uma gargalhada impressionante, estridente e sacudida como um soluço e, sem palavra, afastou-se precipitadamente dali. Desta vez os pescadores não chicanaram: antes ficaram calados, inquietos, num vago pressentimento de perigo.

E realmente foi nessa mesma noite (quantos, passados já mais de quinze anos, ainda a recordam angustiados!) que o Albino, mais conhecido no mar pelo algarvio, esfaqueou barbaramente, enquanto dormiam nos beliches, o cozinheiro Ricoca e o seu ajudante Mazorro: Cego de fúria, bêbado de vinho e de sangue, deu facadas à toa, no peito, no pescoço... por onde achou carne penetrável! Quando, enfim, conseguiram arrancar-lhe a lâmina das mãos, o Albino mostrava a face tinta de vermelho e, em uivos lamentosos, chorando e rindo convulsivamente, repetia baixinho: Ai a minha mulher... ai, o mê filhinho... estão desgraçados, estão desgraçados!...

E o algarvio foi logo amarrado ao mastro do meio, com guarda permanente. Toda a noite ondeou, em volta do assassino, uma vaga crepitante de archotes. O vigia recebera ordem para disparar contra quem quer que tocasse no preso: Só por isso, o Albino não foi estrangulado naquele anel de lume, movediço e feroz. Quando a madrugada veio, o Albino, esfarrapado, sujo de sangue, estava roxo de frio e de terror! A cada ameaça, a cada impropério, a cada escarro que lhe lançavam os da companha, o homem só gemia: Ai, o mê filhinho... ai, o mê filhinho!... Mais não dizia. E, nem a neve que incessantemente caía, nem as ondas do mar que mais duma vez o cobriram, puderam limpá-lo daquele sangue.

Depois levaram-no para o Gil Eannes. Aí, mais compreensivos, deixavam-no andar à solta pelo navio. Mas ele nunca mais quis falar. E mal comia. De noite, ouviam-no chorar. O comandante, condoído, tentava animá-lo: o Albino sorria tristemente, abanava a cabeça e, sem palavra, punha os olhos no chão. Assim sempre. Foi ainda com este mesmo sorriso triste, sem ódio nem fúria, que, naquela manhã de procela, o Albino galgou a amurada do Gil Eannes para se lançar ao mar revolto. Houve quem o tivesse visto, neste preciso momento: e todos afirmam que ele cumpriu o acto serenamente, sem a costumeira precipitação desesperada, sem a mínima atitude ritual, nada disso...simples , naturalmente, com o tal sorriso triste e infantil a chorar-lhe nos lábios. Lá ficou. Não foi possível salvá-lo….

Bernardo Santareno

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

FOTO-POESIA

A Objectiva
Foto: Nuno Mendes

A OBJECTIVA

Um olhar no entardecer
Sobre Igreja da Misericórdia,
Momento de concórdia
Registado ao anoitecer.
Tudo pode acontecer
Nesse instante invisível,
O olho fica sensível
Ao espaço que o rodeia…
Diz o castelo à ameia:
- Maior beleza impossível!

Matias José

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

JOSEPH ARTHUR - «Touched»

Poet'anarquista

Joseph Arthur
Guitarrista, Cantor e Compositor Norte-Americano

OUTROS CONTOS

«A Cadeira», conto poético por Pedro Tamen.

«A Cadeira»
A Cadeira/ Vincent van Gogh

884- «A CADEIRA»

Sento-me na cadeira 
e olho para o chão: 
mesmo à minha beira 
abre-se o vulcão

onde o fogo assume 
sua condição 
de rubro negrume 
sem limitação,

sem mira que veja 
onde acaba a mão 
que tem a bandeja 
do vinho e do pão.

Mesmo que não queira, 
sorvido me sumo: 
desfaz-se a cadeira 
e eu desfeito em fumo.

Pedro Tamen

terça-feira, 27 de setembro de 2016

SÁTIRA...

5 Assaltos, 5 Vitórias
Sátira...

«5 ASSALTOS, 5 VITÓRIAS»

5 assaltos, 5 vitórias,
O ‘pântano’ regressou…
5 vezes ele ganhou,
O resto são histórias!
Redigiu as memórias
Quando esteve no exílio,
Agora tem domicílio
Na conhecida ONU…
‘Eu com isso!?’... dizes tu,
Já KO e sem auxílio!!

POETA

OUTROS CONTOS

«Ele e Ela», por Ramalho Ortigão.

«Ele e Ela»
Ele e Ela/ Ilustração de Alfred  Gockel

883- «ELE E ELA»

[A Júlio César Machado]

Meu velho amigo: - Aqui tens a história que ontem me contou, ao separarmos-nos de ti depois de jantarmos juntos, aquele sujeito que tu conheces.

* * *

Eu tinha chegado de um porto de França em companhia de uma alemã, que entrevira em Paris, e com quem me encontrei depois a bordo do paquete que tinha de nos trazer ao Tejo. Era uma senhora de maneiras muito graves e de fisionomia perfeitamente distinta, sincera e despresumida, como quase toda a gente dessa bela raça germânica, que floresce em todos os climas como na sua pátria, e aceita toda a convivência como a da sua família.

Desembarcámos no Terreiro do Paço. Ela vinha tão abatida e alquebrada pelos efeitos de uma viagem tempestuosa no grosso mar da Gasconha e da Mancha, que eu determinei-me, contra os usos do país a que me recolhia, a oferecer-lhe o meu braço para passearmos por um momento à réstia vivificadora do sol de Lisboa no mês de Janeiro.

Soube então que a minha simpática dama se encontrava só na capital, e tinha de partir para o Porto, assim como eu, no dia imediato. Falámos por algum tempo, ela das suas saudades, eu das minhas recordações, até que a acompanhei numa carruagem ao hotel de Bragança, onde ficámos de reunir-nos na manhã seguinte, para seguir no caminho de ferro para a cidade das camélias.

À hora aprazada fui encontrar-me efectivamente com ela e achei-a pronta para partir, radiante de saúde, vestida com um trajo de primavera, tendo um ramo de flores junto do rolo do seu édredon, e mostrando-se maravilhada da suave brandura do clima e da engenhosa convenção que levava os habitantes a usarem paletot, com o fim de fazerem acreditar uns aos outros e a quem viesse de fora que também por cá se tinha inverno.

Saímos a pé pelo braço um do outro, e fomos almoçar a um café, fazendo horas para chegar a Santa Apolónia a tempo de entrar no trem e partir.

Achámo-nos no vagão, acompanhados unicamente de um respeitável ancião, o sr. S. M., que lia filosoficamente um número do Diário de Notícias no canto do compartimento oposto àquele em que nós ficámos um defronte do outro.

Estava com efeito uma bela e donosa manhã sem calor nem frio, sem nuvens no céu, sem lama na terra e sem pó no ar.

De um lado a frescura das laranjeiras e o reluzente viço das hortas que bordam a estrada até o Carregado, e do outro o límpido cristal do Tejo em plena majestade iam-nos acompanhando como um sorriso e um afago da natureza em hora de bom humor.

A minha companheira de viagem tinha remoçado cinco anos com este brando acolhimento do amorável país do seu exílio. Estava buliçosa como um estudantinho, tinha desmolhado o seu ramalhete à força de o respirar com frenesim, até deixar ver toda a alvura dos seus pequeninos dentes com a infantil alegria de uma felicidade inteiramente desanuviada, e era muito bonita, assim contente e alegre.

Pelas quatro horas da tarde estávamos perto de Aveiro e principiava a desenrolar-se aos nossos olhos a esplêndida paisagem do norte de Portugal. As campinas estavam virentes e viçosas como em plena primavera, o sol inclinava-se para o ocaso entre uns ténues vapores de opala e de ouro, respirava-se a brisa fragrante das ondas e havia no ar como um fluido de melancolia e de saudade. Era a plácida morbidez de uma tela de Correggio.

A jovem alemã, que eu tinha defronte de mim, havia tirado o chapéu e recostado para trás a sua bela cabeça, aureolada por uma espécie de vaga irradiação proveniente do azul dos seus olhos e da expressão dos seus lábios arqueados num sorriso triste como o dos sonhadores, dos namorados e dos poetas.

Eu atirei fora um charuto que ela me permitira acender, e perguntei-lhe como lhe parecia a paisagem que íamos vendo.

Ideal murmurou ela, quase num suspiro.

Este laconismo deixou-me entender que estava com uma verdadeira apreciadora do belo, uma dessas criaturas privilegiadas em quem a contemplação dos grandes espectáculos da natureza entumece o coração e suplica a palavra fazendo bailar as lágrimas nos olhos. Entendi que não devia perturbar o seu pensamento, a sua ilusão talvez, ou por ventura o seu êxtase, e pus-me a olhar silenciosamente para ela.

Ao cabo porém de meia hora não pude resistir à tentação de lhe dizer:

Que horas estas para dois entes que se amassem! - É verdade, confirmou ela.

Como deve ser bom, nestes momentos em que a saudade vaga e indefinida nos inunda como um banho de recordações, de esperanças e de afectos, ter junto de nós um honrado e leal coração que nos entenda e nos ame, e poder a gente casar ternamente com o hino do crepúsculo, o hino da sua alma! Dá-me licença que a ame...

Ela fitou-me com um olhar penetrante. - ... por cinco minutos? terminei eu - ou por um quarto de hora?... daqui até se pôr o sol? No fim desse prazo recebe cada um os protestos que adiantou, retira as juras que fez, e fica senhor de si como dantes. É como quem joga a tentos.

Assim, pode ser, disse-me ela rindo, mas verá que se aborrece antes de chegar ao meio da partida...

Porquê?

Porque não faz uma vasa.

Quem sabe? Conforme o lado para que ficarem os trunfos.

Demos então as cartas.

Eu principio. Conto trinta anos de idade, sou pobre e tenho o coração ocupado, mas deu-me Deus um génio apaixonado. . . sincero! Entendo eu que uns dedos fininhos, cor-de-rosa, elegantemente tratados e perfumados são feitos para receber de quando em quando um beijo; que um olhar inteligente e suave deve descer ao fundo da nossa alma, se nós temos uma alma pura, e desse dentar-se nela como uma pomba em um lago; que a elegância, o espírito e a educação de uma mulher amável devem em todo o tempo receber o culto da admiração e do reconhecimento de um homem de bem, porque é certamente para os homens de bem que Deus permitiu a amabilidade às mulheres honestas...

Mas é amizade o que me está dizendo e o que eu mais prezo! E a única pessoa que conheço em Portugal, e já ninguém poderá agora evitar que seja o meu primeiro amigo... Vou-lhe fazer também as minhas confidências. Tenho contraído grandes encargos de coração. Acredita que seja possível amar-se por cartas muito tempo?

O amor em cartas, objectei-lhe eu, é como um jantar de que não nos oferecem senão a lista. Nada obsta a que seja o mais sumptuoso, mas não é por certo o mais nutriente ... No entanto como em tais banquetes dizem que é a imaginação quem prepara as iguarias mais delicadas...

Eu creio que sou amada...

Por alguém que está longe! a quem escreveu esta manhã uma carta de consolação, de resignação e de esperança... uma carta que dentro de oito dias o há-de fazer chorar, e que ele há-de trazer por muito tempo junto do coração como uma santa relíquia... E em troca desta carta há-de mandar-lhe outra escrita ardentemente com as lágrimas do coração e com o sangue das veias, a qual, antes e depois de se saber de cor, será lida e relida todos os dias entre a oração da manhã e o piedoso beijo deposto no retrato de sua mãe. Veja que ideal ventura! o prazer de amar sem ter do amor o que há nele mais impertinente e mais prosaico: as imperfeições que a convivência descobre e multiplica! E, depois, dentro de um ou dois anos, o prazer de tornarem a ver-se! Aparecer-lhe mais bela, porque a saudade e a esperança poetizam, melancolizam, tresdobram a beleza; e encontrá-lo mais velho, e portanto mais expressivamente homem e mais expressivamente simpático! tê-lo finalmente ao seu lado...

(E, nisto, passei para o lado dela, e sentei-me no mesmo sofá em que ela se achava.)

Ouvi-lo, continuei eu, ouvi-lo falar-lhe da ausência e do futuro comum, pondo-lhe aos pés o seu amor, o seu nome e a sua liberdade! Possa Deus reuni-los cedo e não o matar a ele de felicidade na hora suprema em que a vir, sendo-lhe permitido, em paga do seu amor constante, beijá-la na fronte longamente e inebriar-se com a certeza de ser amado pela mulher mais adoravelmente meiga, mais terna e mais simpática!

 Chegado a este ponto, e falando-lhe já, insensivelmente, com muito mais veemência e afogo do que se emprega para conversar, peguei-lhe nas pontas dos dedos, levantei a mão que ela tinha caída no regaço e pousei os lábios no debrum da luva.

Ela então levantou o cabazinho de viagem, que estava colocado entre nós ambos, segurou-o nos joelhos, desafivelou a correia que lhe segurava a tampa, e dando-me uma laranja que tirou de dentro, disse-me com a gravidade indulgente e bondosa de um enfermeiro ou de um médico:

Prescrevo-lhe o regime refrigerante.

Por Deus, me parece que estava precisando da receita! tornei-lhe eu, pondo-me a rir.

E, voltando para o lugar que primeiramente ocupava defronte dela, principiei a descascar a laranja e a morder com apetite nesse fruto, que não era por certo o fruto proibido.

Sim, senhor… ia-me dizendo no entanto a minha graciosa companheira, baralhou bem as cartas e arranjou bom jogo!

Ah! então confessa . . .

Confesso-lhe que sim.

Posso oferecer-lhe da minha dieta? preguntei eu, dando-lhe metade da laranja.

Ela separou um gomo.

Quando acabar, podemos continuar.

Continuo imediatamente, cortei eu logo, debruçando-me na portinhola para cuspir uma pevide que tinha nos beiços.

Senão quando a corrente do ar cortado pela locomotiva levou-me da cabeça o meu chapéu.

Preciso abrir para este objecto perdido um parêntese, de cuja substância Deus me livre que se soubesse! Tinha sido feito em Paris por - Pinaud & Amour - esse bonito chapéu tão flexível, que se meteria dentro de um sobrescrito! Era de casimira azul como a minha jaqueta de viagem, forrado de azul-claro com debrum pespontado de seda preta. O próprio Amour me tinha dito ao vender-mo por vinte francos - Cela vous coiffc à merveille - e eu tinha tido a criminosa fraqueza de o acreditar! Aquele chapéu não era para mim somente um chapéu, era um elmo e um arnês. Não me considerava simplesmente coberto quando o punha, considerava-me também armado. Queres que te confesse a verdade? Eu não me teria nunca atrevido a apertar os dedos da minha alemã, nem a beijar-lhe apaixonadamente a luva, se o não trouxesse na cabeça, e era realmente muito mais com o talento dos srs. Pinaud & Arnour, do que com o meu próprio, que eu contava para me fazer passar junto dela por um homem de espírito !

Os cabelos despenteados pelo vento tinham-me caído para cima dos olhos; compreendi que estava ridículo, não podendo esconder este ar sumamente tolo de todo o homem a quem de repente desaparece o chapéu na asa de um tufão.

Ela ria às gargalhadas, as quais me caíam na cabeça... na cabeça não - pelas costas abaixo! - como torrentes de água nevada.

O sr. S. M., de quem confesso que me tinha completamente esquecido, e que continuava sempre a sua viagem no nosso compartimento, apiedou-se de mim, e, lançando generosamente a mão à rede da carruagem, baixou nos seus braços uma caixa de chapéu do tamanho de um gasómetro, e disse-me assim:

Tenho aqui com que lhe valer!...

Entendi que rabearia um castor inteiro para fora daquela toca ambulante, e ia conter com um gesto a benevolência do meu delicado companheiro, quando ele me observou, rebatendo o meu susto com um sorriso:

Não é o que cuida! Está cá dentro o objecto que lhe convém.

E dizendo isto, sacou da chapeleira, suspenso por uma aparatosa borla de retrós preto, um barrete de veludo ornado de amores-perfeitos bordados a matiz.

Hesitei por um instante entre aceitar o barrete, o que era hediondo, e confessar-lhe medo, o que era pueril. Revesti-me finalmente de todo o meu valor e estendi a dextra para o inocente carapuço, que estava sendo na mão do sr. S. M. gládio da suprema justiça, alfange exterminador da minha pecadora vaidade. Fechei em seguida os olhos como quem vai lançar-se em um abismo, peguei no barrete com ambas as mãos, levantei-o à altura do rosto, deixando-lhe a borla pendente, entreabri os olhos e vi o monstro boquiaberto... Tornei logo a cerrar as pálpebras, e meti a minha infeliz cabeça no seu novo invólucro!

Estava consumado.

A minha gentil companheira deu-me o golpe de misericórdia inclinando-se para mim, pegando-me em ambas as mãos e dizendo-me entre duas gargalhadas:

Valor! acredite... que o amo.

Respondeu-lhe o silêncio da morte. O barrete de veludo, circundado do matiz dos amores-perfeitos, cuja borla me caía como o crepe funerário de uma lança ao longo da orelha esquerda, era o túmulo e o epitáfio das minhas ilusões desse formoso dia!

Ser amado, tendo na cabeça um barretinho de veludo com sua borlazinha ao lado, pedindo para cima da outra orelha a pena de pato ramalhuda e majestosa, insígnia burocrática do guarda-mor pontual e do tabelião zeloso! Ser amado, e ouvi-lo assim dizer nessa hora tremenda pela boca mais engraçadamente zombeteira a que Deus permitiu a momice da provocação! Que havia de retorquir eu em tão horrorosa conjuntura? Mover-me para fazer bambolear sobranceira ao meu coração aquela borla fatal como o espanador dos meus afectos juvenis? ajoelhar-me aos pés dela e pôr-lhe nojosamente no regaço aquela cabeça do feitio e da fazenda de uma afrontosa almofada de costura, ou de uma ignóbil pregadeira de alfinetes?!…

Assim os perdi pois, para todo sempre, a ambos: a ela e a ele; a mais encantadora alemã que meus olhos têm visto e o mais bonito chapéu que em minha cabeça tenho posto!

* * *

Encerra esta pequena história a imagem da felicidade e por isso ta dedico a ti, meu querido Júlio, a quem a desejo mais completa e mais perfeita. O que é desgraçadamente a fortuna senão esse chapéu que um pé-de-vento arrebata, e esse amor que a presença de um barrete extingue?

Ramalho Ortigão

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

HISTÓRIA DO RUFA...

Enorme satisfação, como conterrâneo e amigo!

Rufino Borrego...
ou Rufa, para os amigos.

DIAGNÓSTICO

O Rufa começou a andar,
Muita gente nisso pasma…
Um medicamento prá asma
Acabou por resultar.
Orgulho-me ao versar
Pra este conterrâneo,
Também em simultâneo
A quem o ajudou…
Uma médica acertou,
E o resultado foi instantâneo!

Matias José

OUTROS CONTOS

«Molas» versus «O Nome dos Gatos», contos poéticos por Matias José e T. S. Eliot.

«O Nome dos Gatos»
«Molas», o gato que não tinha nome

858- «MOLAS»

Tudo se passou no dia em que fez quatro meses... 

Estava o gato nas costas do sofá brincando com o meu cabelo, 
quando resolveu saltar para o parapeito da janela. Mediu mal o salto, 
e num repente encontrou-se no vazio a quatro metros do chão. 

Surgiu então a alcunha: — o gato parece que tem 'Molas'.

A aterragem foi perfeita!

Até ao quarto mês
O gato não tinha nome…
Surgiu então o cognome,
Ficou Molas de vez.
Uma grande insensatez
Pular do sofá prá rua,
Qual astronauta na lua
O felino amorteceu…
Uma vida já se venceu:
— Molas, que sorte a tua!

Matias José

882- «O NOME DOS GATOS»

Dar nome aos gatos é assunto complicado,
   Não é apenas um jogo que divirta adolescentes;
Podem pensar, à primeira vista, que sou doido desvairado
Quando eu digo, um gato deve ter três nomes diferentes.
Primeiro, temos o nome que a família usa diariamente,
   Como Pedro, Augusto, Alonso ou Zé Maria,
Como Vitor ou Jonas, Jorge ou Gui Clemente –
   Todos nomes sensíveis para o dia-a-dia.
Há nomes mais requintados se pensam que podem soar melhor,
   Alguns para os cavalheiros, outros para titia:
Como Platão, Demetrius, Electra ou Eleonor –
   Mas todos eles são sensíveis nomes de todo dia.
Mas eu digo, um gato precisa ter um nome que é particular,
   Um nome que lhe é peculiar, e que muito o dignifica,
De outro modo, como poderia manter sua cauda perpendicular,
   Ou espreguiçar os bigodes, orgulhar-se de sua estica?
Dos nomes deste tipo, posso oferecer um quórum,
   Como Munkustrap, Quaxo, ou Coricopato,
Como Bombalurina, ou mesmo Jellylorum –
   Nomes que nunca pertencem a mais de um gato.
Mas, acima e para além, ainda existe um nome a suprir,
   E este é o nome que você jamais cogitaria;
O nome que nenhuma investigação humana pode descobrir –
   Mas o gato e somente ele sabe, e nunca o confessaria.
Se um gato for surpreendido com um olhar de meditação,
   A razão, eu lhe digo, é sempre a mesma que o consome:
Sua mente está engajada em uma rápida contemplação
   De lembrar, de lembrar, de lembrar qual é o seu nome:
       Seu inefável afável
       Inefável
Oculto, inescrutável e singular nome.

T.S. Eliot

domingo, 25 de setembro de 2016

OUTROS CONTOS

«As Brumas de Avalon/ Morgana Fala», por Marion Zimmer Bradley.

«As Brumas de Avalon/ Morgana Fala»
Conto de Marion Zimmer Bradley

881- «AS BRUMAS DE AVALON/ MORGANA FALA»

[Prólogo – A Senhora da Magia]

Em vida, chamaram-me de muitas coisas: irmã, amante, sacerdotisa, maga, rainha. Na verdade cheguei a ser maga, e poderá vir um tempo em que tais coisas devam ser conhecidas. Verdadeiramente, porém, creio que os cristãos darão a última palavra. O mundo das fadas afasta-se cada vez mais daquele em que Cristo predomina. Nada tenho contra o Cristo, apenas contra os seus sacerdotes, que chamam a Grande Deusa de demónio e negam o seu poder no mundo. Alegam que, no máximo, esse seu poder é o de Satã. Ou vestem-na com o manto azul da Senhora de Nazaré – que realmente foi poderosa, a seu modo, que, dizem, foi sempre virgem. Mas o que pode uma virgem saber das mágoas e labutas da humanidade?

E, agora, que o mundo está mudado e Arthur –  meu irmão, meu amante, rei que foi e rei que será – está morto (o povo diz que ele dorme) na ilha sagrada de Avalon, é preciso contar as coisas antes que os sacerdotes do Cristo Branco espalhem por toda parte os seus santos e as suas lendas. Pois, como disse, o mundo mudou. Houve um tempo em que um viajante, se tivesse disposição e conhecesse apenas uns poucos segredos, poderia levar sua barca para fora, penetrar o Mar do Verão e chegar não ao Glastonbury dos monges, mas à ilha sagrada de Avalon; isso porque, em tal época, os portões entre os mundos vagavam com as brumas, e estavam abertos, um após o outro, ao capricho e ao desejo do viajante. Esse é o grande segredo, conhecido de todos os homens cultos de nossa época: pelo pensamento criamos o mundo que nos cerca, novo a cada dia.

E agora os padres, acreditando que isso interfere no poder do seu Deus, que criou o mundo de uma vez por todas, para ser imutável, fecha os portões (que nunca foram portões, exceto na mente dos homens) e os caminhos só levam à ilha dos padres, que eles protegeram com o som dos sinos das suas igrejas, afastando todos os pensamentos de um outro mundo que vivia nas trevas. Na verdade, dizem eles, se aquele mundo algum dia existiu, era propriedade de Satã, e a porta do Inferno, se não o próprio Inferno.

Não sei o que o Deus deles pode ter criado ou não. Apesar das histórias contadas, nunca soube muito sobre seus padres e jamais usei o negro de uma de suas monjas-escravas. Se os cortesões de Arthur em Camelot fizeram de mim esse juízo, quando fui lá (pois sempre usei as roupas negras da Grande Mãe em seu disfarce de maga), não os desiludi. E, na verdade, ao final do reino de Arthur, teria sido perigoso agir assim, e inclinei a cabeça à conveniência, como nunca teria feita a minha grande Senhora Viviane, Senhora do Lago, que depois de mim foi a maior amiga de Arthur, para a transformar mais tarde em sua maior inimiga, também depois de mim.

A luta, porém, terminou. Pude finalmente saudar Arthur, em sua agonia, não como meu inimigo e o inimigo de minha Deusa, mas apenas como meu irmão, e como um homem que ia morrer e precisava da ajuda da Mãe, para a qual todos os homens finalmente se voltam. Até mesmo os sacerdotes sabem disso, com sua Maria sempre-virgem em seu manto azul, pois ela, na hora da morte, também se transforma na Mãe do mundo.

E assim, Arthur jazia enfim com a cabeça em meu colo, vendo-me não como irmã, amante ou inimiga, mas apenas como maga, sacerdotisa, Senhora do Lago; descansou, portanto, no peito da Grande Mãe, de onde nasceu, e para quem, como todos os homens, tem de finalmente voltar. E talvez, enquanto eu guiava a barca que o levava, desta vez não para a ilha dos padres, mas para a verdadeira ilha sagrada no mundo das trevas que fica além do nosso, para a ilha de Avalon, aonde, agora, poucos, além de mim, poderiam ir – ele estivesse arrependido da inimizade surgida entre nós.

Ao contar esta história, falarei por vezes de coisas que ocorreram quando eu ainda era demasiado jovem para compreendê-las, ou quando não estava presente. Meu leitor fará uma pausa e dirá, talvez: “Esta é a sua magia.” Mas eu tive sempre o dom da Visão, dever o interior da mente dos homens e das mulheres; e durante todo esse tempo, estive perto de todos. Assim, por vezes, tudo o que pensavam era do meu conhecimento, de uma forma ou de outra. Por isso, contarei esta história.

Um dia também os padres a contarão, tal como a conhecem. Talvez entre as duas se possam perceber alguns lampejos de verdade.

O que os sacerdotes não sabem, com o seu Deus uno e a sua verdade única, é que não existe história totalmente verdadeira. A verdade tem muitas faces e assemelha-se à velha estrada que conduz à Avalon; o lugar para onde o caminho nos levará depende da nossa própria vontade e de nossos pensamentos, e, talvez, no fim, cheguemos ou à sagrada ilha da eternidade, ou aos padres, com seus sinos, sua morte, seu Satã e Inferno e danação… Mas talvez eu seja injusta com eles. Até mesmo a Senhora do Lago, que odiava a batina do padre tanto quanto teria odiado a serpente venenosa, e com boas razões, censurou-me certa vez por falar mal do Deus deles.

“Todos os deuses são um Deus”, disse ela, então, como já dissera muitas vezes antes, e como eu repeti para minhas noviças inúmeras vezes, e como toda sacerdotisa, depois de mim, há de dizer novamente, “e todas as deusas são uma Deusa, e há apenas um iniciador. E a cada homem a sua verdade, e Deus com ela.”

Assim, talvez a verdade se situe em algum ponto entre o caminho para Glastonbury, a ilha dos padres, e o caminho para Avalon, perdido para sempre nas brumas do Mar do Verão. 

Mas esta é a minha verdade; eu, que sou Morgana, conto-vos estas coisas, Morgana que em tempos mais recentes foi chamada Morgana, a Fada.

Marion Zimmer Bradley

OUTROS CONTOS

«Moda do Chapéu Preto», conto poético por Matias José.

«Moda do Chapéu Preto»
Alandroal- Primórdios do séc. XX/ Foto: AC

880- «MODA DO CHAPÉU PRETO»

Mas que lindo chapéu preto,
Memória de um tempo passado…
Todo o chapéu posto com jeito,
Fica bem a quem o traz usado.

Chapéu preto, chapéu preto,
Quem o põe é com preceito…

Mas que rico chapéu preto
Compõe aquela linda cabeça...
Não se sabe o que vai dentro,
Não há ninguém que a conheça.

Chapéu preto, chapéu preto,
Quem o põe é com preceito…

Mas que pobre chapéu preto
Naquela triste cabeça vai…
Todos sabem que é honesto,
Filho de boa mãe e bom pai.

Chapéu preto, chapéu preto,
Quem o põe é com preceito…

Mas que novo chapéu preto
Mesmo agora foi a estrear,
Lá p’rós lados do deserto
Onde o sol teima em queimar!

Chapéu preto, chapéu preto,
Quem o põe é com preceito…

Mas que velho chapéu preto,
Que de preto, já pouco tem…
Correu o mundo por certo
E nunca foi de ninguém!

Chapéu preto, chapéu preto,
Quem o põe é com preceito…

Matias José

sábado, 24 de setembro de 2016

CONCURSO DE POESIA POPULAR

«O Contrabando»
Contrabandista

Mote e Décimas de um só jorro

O CONTRABANDO

[Auto-Retrato/ O Contrabandista]

Clandestino ou ilegal
Assim me vou aguentando…
Fugindo à Guarda Fiscal,
A viver do contrabando.

Governo a minha vida
Fazendo o que não devo,
A muito me atrevo
Pra não andar à pida.
Diz a lei ser proibida
Certa troca comercial,
Mas não levem a mal
Matar a fome aos meus…
Só isso peço a Deus,
Clandestino ou ilegal.

Muito tenho penado
Em caminhos sinuosos…
Dias quentes ou chuvosos,
Noite adentro esgotado.
Lonjura tem galgado
O coração palpitando,
As forças vão faltando
E o tempo não perdoa…
Por mais que isso doa,
Assim me vou aguentando.

Léguas hei-de percorrer
Pra chegar ao destino…
O perigo vem repentino,
Tudo pode acontecer.
A regra é não esquecer
Da prudência habitual,
Esperar um bom final
No regresso até casa…
Se preciso, bater a asa
Fugindo à Guarda Fiscal!

Os bens que transacciono
São meu único sustento…
Pão na mesa dá-me alento,
Esta vida não abandono.
Noites avessas ao sono
E o cérebro magicando,
Isto vai durar até quando (?)
Pergunto eu, sem fim à vista…
Sou um contrabandista
A viver do contrabando.

Matias José

ALANDROAL/ CRIME EM 1889

Corria o ano de 1889, mais precisamente o dia 4 de Novembro, quando Bartholomeu Bernardino foi assassinado com 46 facadas na 'azinhaga' da Consolação. 

A lápide que se publica evocando o sucedido, refere que o infeliz foi roubado, mas outras versões contam que a vítima era um ladrão, e por esse motivo terá sido esfaqueada. 

Por esclarecer um mistério com quase 127 anos de história...
Poet'anarquista
Crime no Alandroal
Lápide

ALANDROAL/ CRIME EM 1889

Bartholomeu Bernardino

Na azinhaga da Consolação
Deu-se hediondo crime…
Nada que o legitime,
Quem morreu era ladrão.
46 facadas no coirão
Sofreu Bartholomeu Bernardino,
Aos 23 anos, um assassino,
Resolveu com ele acabar…
Da lápide a assinalar
Não se conhece o destino.

Matias José

OUTROS CONTOS

«O Caso de Bartholomeu Bernardino», por AC.

«O Caso de Bartholomeu Bernardino»
Foto: João Lebre/ Fonte: Altejo

879- «O CASO DE BARTHOLOMEU BERNARDINO»

Vai longe o dia 4 de Novembro de 1889, conforme reza na lápide, encimada com cruz, posta no local onde foi barbaramente assassinado Bartholomeu Bernardino.

Quando se conta uma estória, ou determinado facto, decorridos muitos anos do seu acontecimento, cada narrador elimina pedaços do episódio que lhe parecem menos consentâneos com a realidade, acrescenta aqui e ali o que julga estar mais de acordo com a mesma, chegando a mudar nomes de intervenientes no ocorrido apenas por serem mais do seu agrado. O resultado final está à vista: é um modo de contar pessoal e descaraterizado tão diferente de outras narrativas anteriores como a noite é do dia.

Consultando os arquivos do nosso amigo Francisco, onde descobri referência a este caso, escreve ele que, ao contrário do escrito na pedra “Foi Roubado…”, Bartholomeu Bernardino era antes um ladrão, com quem teriam acertado contas manhosas naquele fatídico dia de 4 de Novembro de 1889.

Eu próprio tive contacto com o assunto, nos tempos remotos da infância, a caminho de Vale Vaqueiros, acompanhando meu avô Sousa. A lápide, então cravada no muro de xisto que acompanhava o caminho, chamou a minha atenção de pequeno curioso. À pergunta singela “avô que pedra é esta na parede?”, recebi a resposta seca «não é coisa para a tua idade».

Fiquei ciente que do avô, nesse ou noutro dia qualquer, não teria explicação para o significado da lápide aposta no velho muro de xisto.

Logo que tive oportunidade entrei na oficina do mestre Palma, sapateiro que me punha as meias solas nas botas, pois gostava de ver a arte que empregava no ofício e de ouvir estórias antigas sobre a vila, que mestre Palma sabia contar com o jeito inato de captar a atenção de quem o ouvia.

Encontro com mestre Palma

Abordei a questão à defesa, pois temia, tratando-se de algo vedado a pequenos como eu…, ouvir outra resposta seca como a do avô…

Mestre Palma fixou-me nos olhos com os seus, que expressavam sempre um sorriso doce e tácito com a vida, criando em mim, desde logo, a noção de que sabia a estória 
tim tim por tim tim…

Eu também tinha sido honesto e comentara-lhe a evasiva de meu avô Sousa em contar-me o que se tinha passado no dia 4 de Novembro de 1889.

Disse mestre Palma: «não podes, nunca… por nunca…, dizer lá em casa que falámos do Bartholomeu…, as pessoas não querem saber desse passado com quase um século de morto…, e eu devo bastantes favores ao teu avô doutor…, sim…, em criança tratou-me de febres intestinais e já rapazote com pelos na cara, livrou-me da febre carraça…, que essa ia pregando comigo na cova…, enfim favores que não se esquecem.

Não se ouvia uma mosca, nem a nossa respiração que parecia suspensa no tempo, ao encontro de outros tempos que preenchiam agora todo o pequeno espaço da oficina.

O que mestre Palma sabia sobre o assassinato que perturbou as gentes da vila

Mestre Palma estava a meio de umas botas novas – cozia a parte do corpo à palmilha aonde ia assentar a sola – e continuou o seu trabalho enquanto falava, variando apenas a entoação da voz quando tinha que perfurar o cabedal com a grossa agulha para passar o fio.

«Esse Bartholomeu Bernardino…, assim era o seu nome de batizado…, era guarda municipal, ou guarda noturno… – que nesse tempo era a mesma coisa – …ainda estávamos na monarquia.

Fazia a ronda noturna pela vila, sempre começando nos baixos – nas eiras…, onde aliás morava – e vinha topando, nesta rua e mais naquela, se havia descuidos dos moradores, como portas mal fechadas, lumes esquecidos por apagar, ou algum malandrote a fazer das suas a desoras, até passar pela Praça Municipal e percorrer os altos da povoação.

Nessa noite entrou na rua da Mata – dizem que é a rua mais antiga da vila – avistando uma luz ténue numa loja bem fornecida de tudo, precisamente onde é hoje a do Sr. Bernardino – vê tu bem a coincidência do nome – e ao aproximar-se viu a porta entreaberta, o que o pôs de sobreaviso. Pé ante pé, não ouviu ruído algum que lhe indicasse a presença de alguém dentro da loja… …e lá estava um pequeno candeeiro com o petróleo quase gasto, em cima da mesa da escrita do dia a dia.

Chamou…, primeiro em surdina, depois mais afoito, chamou pelo proprietário do estabelecimento – creio que se chamava Macedo – e não obtendo resposta, admitiu que tinha havido esquecimento do mesmo. Apagou o candeeiro e fechou a porta, murmurando entre dentes – é com um descuido destes que se arranja um fogo para destruir tudo.

No outro dia a pequena vila acordou em polvorosa com a notícia da “visita” noturna à loja da Rua da Mata – rapinaram tudo o que puderam carregar.

Bartholomeu estava nervoso…, sentia um grande rubor facial e não conseguia que o corpo parasse de tremer. A mulher gritava-lhe «vergonha…, onde andavas tu que não deste por nada?, ainda correm contigo da guarda… e era bem feito…, tenho pena é do senhor Macedo… uma loja com tanta coisa boa…».

–Mas onde diabo é que eles estavam metidos? – foi a única frase que o tremelicante Bartholomeu conseguiu articular de jeito.

A mulher de Bartholomeu Bernardino, que ia sempre aviar a casa à loja do Macedo, estava possessa, como depreenderia quem quer que a ouvisse: –a loja só tem duas dependências…, a de atender os fregueses e o armazém, que fica na parte de trás, onde o coitado do senhor Macedo tem em reserva os produtos que mais se vendem…, pois era aí que estava o gatuno – ou os gatunos – branco é galinha o põe. A mulher não vira crescer o rubor facial do marido, assim como a expressiva inquietude nos seus olhos, procurando esconder-se dos dela.

Até aqui a narrativa foi de mestre Palma, com toda a habilidade e perspicácia que punha no seu modo de contar característico, dando ênfase a frases que queria realçar, fazendo mudanças no tom de voz, consoante o ritmo que desejava imprimir à narrativa, mesmo vírgulas e pontos finais o ouvinte dava conta deles.

O que segue é, simplesmente, uma visão do autor sobre o desenrolar trágico de um acontecimento ainda hoje, cento e vinte e sete anos depois, envolto sob a capa do mistério.

Um pressentimento com consequências funestas

Alda, assim se chamava a mulher de Bartholomeu Bernardino, sentia que o senhor Macedo a cortejava, sabendo-a uma mulher casada.

Freguesa habitual, como outras, era-lhe dispensada uma atenção especial pelo dono da mercearia: «leve deste bacalhau que é muito bom…, a carne é de primeira qualidade…, manteiga e açúcar são sempre produtos racionadas, mas para a D. Alda arranjam-se sempre…».

Um sorriso discreto quando a via chegar, ou a insistência para ver um tecido da moda, procurando reter a sua presença por mais tempo, eram sinais que Alda captava e traduzia para si.

Macedo era viúvo, de meia idade, além de bem parecido e com educação, estava assente numa vida desafogada.

A comparação que lhe aflorava no pensamento prostrava-a num estado de confusão inevitável, levando-a a sair bruscamente da loja e a procurar refúgio na ermidinha de Nossa Senhora da Consolação.

Se eram horas de encerrar, ou não tinha fregueses para atender, Macedo seguia-a a distância segura de modo a não levantar suspeitas, apreciando o estado de alma que conseguia provocar em Alda… e ela em si…, que sempre dissera, para os seus botões, ser mal empregue aquela flor no bexigoso monte de banha do guarda noturno.

A vila era pequena e os mexericos pelo menos com o dobro do tamanho. Qualquer desgraça, ou sucedido alheio, saltavam de porta em porta mais velozes que o vento em dias de zumbir.
No dia de folga, Bernardino visitava as tascas que eram muitas nesse tempo, quase uma por cada rua.

E foi aí que começou a ouvir os ditos e desditos dos companheiros de copos, a quem a língua se solta mal emborcam uma gota a mais, sobre o seu estado de saúde, para ser mais preciso, da sua testa que parecia estar cada dia mais disforme.

Fingia passar-lhe ao lado, não ser para ele cada farpa lançada, regressando a casa não só a abarrotar de vinho, mas também de incontida raiva. E bem se continha perante a mulher: dava-lhe jeito mesa posta a tempo e horas e a roupa bem lavada e engomada.
Arquitetou um plano de vingança bem orquestrado, pensava ele, para assaltar, ele próprio guarda noturno, a loja da Rua da Mata.

A porta não lhe ofereceu resistência, pois no chaveiro da guarda municipal estava um duplicado para casos de emergência. E o candeeiro que ficara aceso…, fora ele que o acendera para descobrir a caixa onde o Macedo guardava o contado que depositaria no Banco do Alentejo, quando fosse a Estremoz comprar mercadoria. Eram 48 mil réis que tinha dentro, ficando a caixa limpa.

Soube logo o Macedo quem fora o autor da proeza, pois a porta não tinha sinais de arrombamento, antes pelo contrário, a boa conservação era notória. E grande parte do petróleo com que abastecera o candeeiro na manhã anterior evaporara-se.

Só Bartholomeu Bernardino tinha acesso à chave dupla, cogitou o Macedo, ao mesmo tempo que lhe jurava a cobrança com juros de mora… «disso podia estar certo o canalha»…

Planeou, então, fazer saber que o produto do roubo se limitara a géneros de mercearia e da drogaria, isco facilmente engolido por um ou dois alcoviteiros que espalharam a notícia por toda a vila, num ápice.

Uma espera na volta para casa num fim de tarde de domingo, dia em que o guarda noturno folgava, regresso sempre feito com o buxo atulhado e a mente leve que nem a pena de um passarinho… assim trataria do assunto.

Macedo sabia-lhe a rotina do caminho, determinou o dia da ação e pôs-se à coca.

Caíra a noite e cacimbava. De ouvido atento, esperava o primeiro sinal do regresso de um bêbedo que tinha por hábito falar para o vazio e cantarolar para as estrelas.

De repente, o piar de uma ave noturna, por perto, levou o encoberto a deitar a mão ao cabo do facalhão que trazia sob a capa.

Mais uma e duas vezes apurou o ouvido…, então sim…,era sem dúvida ele que estava de regresso…, percebia-se o andar aos ziguezagues, da bebedeira que carregava às costas. A “alegria” – estado de embriaguez – dava-lhe para vir assobiando uma melodia  roufenha…, impercetível… a melodia da morte!

Já mais perto, Macedo ouviu o que lhe pareceu ser uma ameaça: «meeuu graande saacana voou coortar-te as goelas como faaço aos frangos…

Calou-se! A passeata estava agora muito perto…, uma pedra e outra saltavam debaixo dos pés de quem caminhava.

Macedo saltou para cima do muro, certo que não daria pela sua presença. Viu um vulto no escuro, quase a cruzar-se com o sítio onde se encontrava. Cortou-lhe o caminho, com o facalhão na mão e a capa atirada para trás. «Não era tempo para conversa o momento, ainda que seria inútil falar com um candidato a morto completamente embriagado».

As duas primeiras facadas, que recebeu no ventre, nem as sentiu, tal o estado de anestesia que o álcool provocara…, …às três seguintes disse um «ai» apenas. À sexta estava morto.

O Macedo, para cumprir a promessa, cobriu-lhe o tronco e o bandulho com mais quarenta e duas, contadas no dia seguinte pelo oficial de diligências da Comarca e verificadas pelo perito forense que fez a autópsia – foram quarenta e oito facadas.

O médico legista, cofiando o farto bigode, desabafou com o oficial de diligências: «nos termos legais está tudo conforme…, identificação, hábito externo e hábito interno do cadáver, assinatura das duas testemunhas que o reconheceram e as nossas assinaturas…

…mas quem teria tanto ódio a um pobre pastor de 23 anos, de volta para o redil…, não foram facadas para roubar… …não foram… não!».

Epílogo

Por terrível coincidência o desgraçado rapaz tinha o nome de batismo de Bartholomeu Bernardino. Natural de uma aldeiazinha da Beira Baixa, viera com o pai, ainda muito novo, trabalhar para a casa de um lavrador abastado, como ajudante de pastor.

Já moço homem viu o progenitor morrer com uma doença que o secou por dentro e por fora..., em vésperas da morte deitou pela boca o pouco sangue que lhe restava.

O lavrador, vendo o mancebo desenvolto, entregou-lhe o rebanho por conta.

Mas já nesses anos, as falsas amizades rondavam à volta da carteira que sabiam ter algum recheio como as abelhas o fazem ao mel.

Nesse dia 4 de Novembro de 1889 Bartholomeu fora despedido pelo patrão, farto de ver o gado maltratado e atacado pelos lobos e cães vadios, enquanto o seu pastor deambulava pela vila, percorrendo as tabernas. E também com a desconfiança de que alguns animais eram roubados pelas más companhias de Bartholomeu, sabendo-o longe do sítio onde pernoitava.
O fim, como acabámos de ler, não foi nada bom.

O Macedo nunca mais viu Alda entrar-lhe pela porta da loja…, faleceu pouco tempo depois, meio louco, ninguém acreditou na confissão que fez à hora da morte.

O guarda noturno Bartholomeu Bernardino continuou a fazer as suas rondas à vila, com a mesa posta a tempo e horas… e a roupa bem lavada e engomada…
  
AC