domingo, 26 de março de 2017

MEU PAI, POR MANEL D' SOUSA

Meu Pai
Pescando/ Pintura de Almeida Júnior
 
MEU PAI
 
Meu pai sempre me dizia:
- Filho, a vida é uma passagem…
Envelhece a nossa imagem,
Para trás fica outro dia.
 
E ainda outra vez lhe ouvia
Repetir a mesma mensagem…
- O tempo não faz paragem,
Vai e vem, como a ventania! 
 
 Meu velhote ainda insistia:
- O passar desta carruagem,
Vai chegar à outra margem.
 
Homem de muita sabedoria,
A vida em verso descrevia
Com rebuscada linguagem!
 
 Manel d’ Sousa
 


sábado, 25 de março de 2017

OUTROS CONTOS

«Antes que seja Tarde», conto poético por Manuel da Fonseca.

«Antes que seja Tarde»
Poema de Manuel da Fonseca

1002- «ANTES QUE SEJA TARDE»

Amigo,
tu que choras uma angústia qualquer
e falas de coisas mansas como o luar
e paradas
como as águas de um lago adormecido,
acorda!
Deixa de vez
as margens do regato solitário
onde te miras
como se fosses a tua namorada.
Abandona o jardim sem flores
desse país inventado
onde tu és o único habitante.
Deixa os desejos sem rumo
de barco ao deus-dará
e esse ar de renúncia
às coisas do mundo.
Acorda, amigo,
liberta-te dessa paz podre de milagre
que existe
apenas na tua imaginação.
Abre os olhos e olha,
abre os braços e luta!
Amigo,
antes da morte vir
nasce de vez para a vida.

Manuel da Fonseca
 

SÁTIRA...

Gajas & Copos
GajaseCopos1.gif
Sátira...

«GAJAS & COPOS»

Gajas boas a granel
E copos pra animar,
Uma bunda a dar a dar
Aqui neste rico bordel!
Esta é boa como o mel
Nota alta deve valer,
Ela vem logo a correr
Quando lhe vejo a fuça…
Nem com carapuça
Comigo irás coser!

POETA

sexta-feira, 24 de março de 2017

SÁTIRA...

O Crente
Sátira...

«O CRENTE»

Beleza Letal Fedelho
Tem condição boa
Para ganhar Lisboa,
Seguindo este conselho:
Revirar os olhos ao espelho
E colocar-se de borco,
Irá ver passar um porco
A andar de bicicleta…
A vitória é quase certa,
Senão, juro me enforco!

POETA

quarta-feira, 22 de março de 2017

SÁTIRA...

Ego Ferido
Sátira...

«EGO FERIDO»

Ouve cá, bronco Dijssel,
Ou lá como te chamas tu…
Mete o Eurogrupo no cu,
E vai cagar pró teu bordel!
A tua boca cheira a fel
Já empesta todo o sul,
Lava a língua no paul
Com a merda que fizeres…
Sobre copos e mulheres,
Queixa-te ao teu cônsul!!

POETA

terça-feira, 21 de março de 2017

OUTROS CONTOS

«Décima de Primavera», por Manel d' Sousa.

«Décima de Primavera»
Flor de Alecrim e Alfazema

1001- «DÉCIMA DE PRIMAVERA»

Era uma vez um poema
Que vivia num jardim,
Por companhia o alecrim
E a flor de alfazema.
Habitava lá na estrema
Um poeta que sorria,
A quem passava pedia
Palavras do verbo amar…
Primavera a chegar
Com cheirinho a poesia!

Manel d’ Sousa

OUTROS CONTOS

«Recado de Primavera», por Rubem Braga.

(Mil contos no Poet'anarquista com este «Recado de Primavera»... e que recado!)

«Recado de Primavera»
Flor de Azaleia e Manacá

1000- «RECADO DE PRIMAVERA»

Meu caro Vinicius de Moraes:

Escrevo-lhe aqui de Ipanema para lhe dar uma notícia grave: A Primavera chegou. Você partiu antes. É a primeira Primavera, de 1913 para cá, sem a sua participação. Seu nome virou placa de rua; e nessa rua, que tem seu nome na placa, vi ontem três garotas de Ipanema que usavam mini-saias. Parece que a moda voltou nesta Primavera — acho que você aprovaria. O mar anda virado; houve uma Lestada muito forte, depois veio um Sudoeste com chuva e frio. E daqui de minha casa vejo uma vaga de espuma galgar o costão sul da Ilha das Palmas. São violências primaveris.

O sinal mais humilde da chegada da Primavera vi aqui junto de minha varanda. Um tico-tico com uma folhinha seca de capim no bico. Ele está fazendo ninho numa touceira de samambaia, debaixo da pitangueira. Pouco depois vi que se aproximava, muito matreiro, um pássaro-preto, desses que chamam de chopim. Não trazia nada no bico; vinha apenas fiscalizar, saber se o outro já havia arrumado o ninho para ele pôr seus ovos.

Isto é uma história tão antiga que parece que só podia acontecer lá no fundo da roça, talvez no tempo do Império. Pois está acontecendo aqui em Ipanema, em minha casa, poeta. Acontecendo como a Primavera. Estive em Blumenau, onde há moitas de azaleias e manacás em flor; e em cada mocinha loira, uma esperança de Vera Fischer.

Agora vou ao Maranhão, reino de Ferreira Gullar, cuja poesia você tanto amava, e que fez 50 anos. O tempo vai passando, poeta. Chega a Primavera nesta Ipanema, toda cheia de sua música e de seus versos. Eu ainda vou ficando um pouco por aqui — a vigiar, em seu nome, as ondas, os tico-ticos e as moças em flor. Adeus.

Rubem Braga

segunda-feira, 20 de março de 2017

SÁTIRA...

A Melhor Solução
Sátira...

«A MELHOR SOLUÇÃO»

- Zé, cortei o mal pla raiz…
Fiz sair Santana Flopes,
Baralhei os envelopes,
E zás!... solução do país! (?)
- Nessa troca pouco feliz
Entrou o tal engenheiro,
Com queda pró dinheiro
De aspecto meio-sinistro…
- Chega então a ministro,
Aprovado como primeiro!

POETA

domingo, 19 de março de 2017

OUTROS CONTOS

«O Disco», por Jorge Luís Borges.

«O Disco»
Caricatura de Borges

999- «O  DISCO»

Sou lenhador. O nome não importa. A choça em que nasci e na qual logo hei de morrer fica à beira do bosque. Do bosque dizem que se estende até o mar que rodeia toda a terra e que nele existem casas de madeira iguais à minha. Tampouco vi o outro lado do bosque. Meu irmão mais velho, quando éramos pequenos, me fez jurar que nós dois derrubaríamos todo o bosque até não restar uma única árvore. Meu irmão morreu e agora procuro e continuarei procurando outra coisa. No rumo do poente corre um riacho em que sei pescar com a mão. No bosque há lobos, mas os lobos não me amedrontam e meu machado nunca me foi infiel. Não fiz o cálculo de meus anos. Sei que são muitos. Meus olhos já não vêm. Na aldeia, aonde já não vou porque me perderia, tenho fama de avaro, mas que pode ter amealhado um lenhador do bosque?

Fecho a porta de minha casa com uma pedra para que a neve não entre. Uma tarde ouvi passos trabalhosos e depois uma batida. Abri e entrou um desconhecido. Era um homem alto e velho, envolto numa manta puída. Uma cicatriz atravessava seu rosto. Os anos pareciam haver dado a ele mais autoridade que fraqueza, mas notei que lhe custava andar sem o apoio do bastão. Trocamos umas palavras que não lembro. Disse afinal:

– Não tenho casa e durmo onde posso. Percorri toda a Saxónia.

Aquelas palavras convinham à velhice dele. Meu pai sempre falava da Saxónia; agora as pessoas dizem Inglaterra.

Eu tinha pão e peixe. Não falamos durante o jantar. Começou a chover. Com uns couros armei uma cama para ele no chão de terra, onde meu irmão morreu. Ao chegar a noite, dormimos.

O dia clareava quando saímos de casa. A chuva cessara e a terra estava coberta de neve recente. Deixou cair o bastão e ordenou-me que o erguesse.

– Por que devo te obedecer? - disse-lhe.

– Porque sou um rei – respondeu.

Julguei-o um louco. Apanhei o bastão e lhe dei.

Falou uma voz diferente.

– Sou o rei dos Secgens. Muitas vezes, levei-os à vitória na dura batalha, mas na hora marcada pelo destino perdi meu reino. Meu nome é Isern e sou da estirpe de Odin.

– Não venero Odin – respondi. - Venero Cristo.

Como se não me ouvisse, continuou:

– Ando pelos caminhos do desterro, mas ainda sou rei porque tenho o disco. Queres vê-lo?

Abriu a palma da mão, que era ossuda. Não havia nada na mão. Foi então que percebi que sempre a mantinha fechada.

Olhando-me fixamente, disse:

– Podes tocá-lo.

Já com algum receio pus a ponta dos dedos sobre a palma. Senti uma coisa fria e vi um brilho. A mão fechou-se bruscamente. Eu não disse nada. O outro continuou com paciência, como se falasse com um menino:

– É o disco de Odin. Tem um único lado. Na terra não existe outra coisa que tenha um só lado. Enquanto estiver em minha mão, serei rei.

– É de ouro? - disse a ele.

– Não sei. É o disco de Odin e tem um só lado.

Então senti a cobiça de possuir o disco. Se fosse meu, poderia vendê-lo por uma barra de ouro e seria um rei.

Disse ao vagabundo que ainda odeio:

– Na choça tenho um cofre de moedas escondido. São de ouro e brilham como o machado. Se me deres o disco de Odin, eu te darei o cofre.

Disse teimosamente:

– Não quero.

– Então – disse eu – podes prosseguir teu caminho.

Deu-me as costas. Uma machadada na nuca bastou e sobrou para que vacilasse e caísse, mas, no cair, abriu a mão e vi o brilho no ar. Marquei bem o lugar com o machado e arrastei o morto até o riacho, que estava muito cheio. Atirei-o lá.

Ao voltar para casa, procurei o disco. Não o encontrei. Faz anos que continuo à sua procura.

Jorge Luís Borges

sábado, 18 de março de 2017

SÁTIRA...

Duas Boas Razões
Sátira...

«DUAS BOAS RAZÕES»

- Pedro, que notícia boa!...
Fico eternamente grata
Por ser eu a candidata,
À Câmara de Lisboa.
Pergunto se foi à toa
Que fizeste as nomeações…
- Houve duas boas razões:
Ambos somos Coelho,
O nome do meio espelho
Das minhas pretensões!

POETA

OUTROS CONTOS

«Devia Morrer-se de Outra Maneira», por José Gomes Ferreira.

«Devia Morrer-se de Outra Maneira»
Metamorfoses/ Vladimir Kush

998- «DEVIA MORRER-SE DE OUTRA MANEIRA»

Devia morrer-se de outra maneira.
Transformando-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.

Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos os amigos mais íntimos com um cartão de convite para o ritual do Grande Desfazer: “Fulano de tal comunica ao mundo que vai transformar-se em nuvem hoje, às 9 horas. Traje de passeio.”

E, então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos todos assistir à despedida. Apertos de mãos quentes, ternura de calafrio. “Adeus!  Adeus!” E pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento, numa lassidão de arrancar raízes... (primeiro, os olhos… em seguida, os lábios... depois o cabelo...) a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se em fumo... tão leve... tão subtil.... tão pólen... como aquela nuvem além (vêm?) - nesta tarde de Outono ainda tocada por um vento de lábios azuis...

José Gomes Ferreira

quinta-feira, 16 de março de 2017

OUTROS CONTOS

«O Combate», por Josué Montello.

«O Combate»
Conto de Josué Montello
997- «O COMBATE»

Na véspera do combate, quando a lua despontou por cima dos contrafortes da serra do Medeiro, já encontrou as tropas do Capitão Nelson de Melo a poucos quilómetros do lugar escolhido para o duplo movimento - de vanguarda e retaguarda - contra as forças governistas. O batalhão marchava em silêncio, cobrindo a picada no passo certo da marcha, de baterias prontas para a ofensiva, enquanto a cavalaria se alongava em fila indiana, com os animais de orelhas fitas, rédeas soltas, batendo cadenciadamente os cascos nas pedras do chão. Adiante, nas carretas vagarosas, seguiam dois canhões, ladeados por quatro artilheiros.

Por volta das dez e meia, o batalhão parou para acampar. Dali se podia ver, banhada pela claridade do luar, a silhueta compacta das montanhas fechando o cenário da luta. Ocultos pela vegetação das encostas, já os canhões inimigos espreitariam, alongando o pescoço comprido, prontos para atirar.

João Maurício, que dispensara a barraca de campanha, preferira ficar ao relento, na companhia de seus soldados, sentindo à sua volta a noite imensa e clara. Jamais tinha visto outra assim. Afeito a galgar escarpas e desfiladeiros, vivia agora uma emoção diferente, com aquela luz húmida, aquele silêncio espaçoso, aquelas cumeadas, aquelas árvores que a brisa balouçava. Por terra, junto aos fuzis e às mochilas, jaziam os companheiros adormecidos, agasalhados nas mantas e nos capotes, sem que se lhes ouvisse o ressonar sobressaltado. Parecia a João Maurício que, afora as sentinelas, que se mantinham alerta nos postos avançados, somente ele permanecia vigilante, àquela hora tardia, sentado no chão, com as mãos frias escorando o corpo, que se reclinava para trás. Apesar da marcha longa, não sentia sono nem cansaço. Aquela vigília não seria um aviso de que seu fim se aproximava? Entregava-se às mãos de Deus, convicto de que tomara o partido da boa causa. E alongava para os alcantis a vista insone. A noite, olhada daquela iminência, com as montanhas empinadas sob a luz alvacenta, tinha a imponência inaugural do mundo primitivo, como se Deus houvesse acabado de fazer tudo aquilo. Aqui, além, esguios pinheiros imóveis, perfilados no sopé das encostas, abriam-se no alto, como em gesto de oferenda. Com o passar das horas, a luz adquiria gradações novas. A própria lua, suspensa sobre a crista da serra, dava a impressão de buscar alguma coisa na claridade fosca, com um ar de notívaga assustada.

Nisto João Maurício percebeu que um vulto se movia ao seu lado, firmando as mãos no solo para erguer a cabeça, e logo reconheceu o Cabo Ruas, que por fim se sentou, esticando os braços curtos:

— Não quis dormir, Tenente? Eu passei pelo sono. Em noites assim, durmo e acordo, durmo e acordo. Tomara que esta briga acabe depressa. Já estou sentindo a falta de casa. Vou brigar ainda um mês ou dois, depois pego licença: já está em tempo de ver minhas crianças. Agora mesmo sonhei com a patroa. Ela fazia um festão com a minha chegada.

E após um silêncio longo, olhando a noite erma:

— Isto aqui mete medo. Aquela montanha ali, muito escura, muito alta, parece que está de dedo empinado, ralhando com a gente. E olhe o vento assobiando. Deus não pode ter inventado a guerra, Tenente. Isto é coisa do Diabo. Eu, aqui, com o meu fuzil, e o senhor, aí, com a sua pistola, só estamos pensando em matar para não ser morto. Deus disse: "Não matarás." E nós, aqui, não fazemos outra coisa. Acho que foi esse pensamento que me tirou o sono. Estou dizendo besteira, Tenente? João Maurício bateu-lhe no ombro: 

— Não. Mas trata de dormir. Precisas estar descansado, e eu também. Fica quieto.

E alongou-se ao comprido do chão, com o rosto voltado para o céu, como em busca das estrelas, enquanto o Cabo Ruas se deitava de borco com a cabeça no braço dobrado. Mas, mesmo quieto, João Maurício não dormiu. Para os lados de Belarmino, voltavam a retumbar tiros isolados, que as montanhas repetiam.

— Boa-noite, Tenente.

— Boa-noite, Ruas.

E João Maurício, com as mãos sob a nuca, ia vendo farrapos de nuvens que o vento levava. Quando a luz da aurora se espalhasse por aquelas alturas, haveria sangue no horizonte, por cima das árvores, e sangue na terra, com os primeiros mortos e feridos. Os cavalos se precipitariam sobre o verde dos desfiladeiros, e muitos deles relinchariam, ouvindo o toque das cornetas, por entre o rugir dos canhões, o sibilar das balas, e o estrugir nervoso da metralha. E tanto de um lado quanto de outro, os corpos iriam tombando, à proporção que o dia fosse crescendo.

Sem perceber a transição da vigília para o sono, João Maurício deixou cair pesadamente as pálpebras, e só voltou a si com o Ruas a lhe sacudir o braço:

— Depressa, Tenente: o ataque está começando.

De um salto, ele ficou de pé, ouvindo em redor o alvoroço dos companheiros que se apresentavam para o combate. Na manhã ainda clareando, estrondavam as primeiras cargas cerradas do bombardeio inimigo. Soavam longe os clarins e as cornetas. Alguns cavalos galopavam, outros relinchavam com o repuxo das rédeas e o toque das esporas. E as granadas não tardaram a explodir ali no alto, arrancando touceiras de mato e salpicos de terra revolvida. De vez em quando, um grito. E os canhões rugiam dos dois lados, escancarando na luz atônita o clarão instantâneo das balas detonadas.

Após a desordem assustada dos momentos iniciais de luta, uma ordem natural ia-se impondo — com os soldados nas posições de combate, a resposta rápida dos tiros, o corpo-a-corpo que lá adiante se travava, a arremetida dos cavalarianos, os grupos que se infiltravam pelos capões de mato e pelo aclive das ribanceiras. A cada instante, uma nova ordem da corneta. Novas cargas cerradas. As granadas de mão que se amiudavam, e já um ou outro soldado inimigo tentava infiltrar-se nas linhas rebeldes, enquanto a luz da manhã crescia e se alastrava.

Josué Montello

quarta-feira, 15 de março de 2017

SÁTIRA...

O Ubíquo
Sátira...

«O UBÍQUO»

- Senhor Presidente,
Peço-lhe com delicadeza:
Faz-me a gentileza
De sair da minha frente?
- É já num repente!…
Embora eu não mereça,
Não se aborreça
Que vou sair dali…
Então, fico bem aqui?
- Senhor Presidente… desapareça!

POETA

terça-feira, 14 de março de 2017

SÁTIRA...

O Crânio
Sátira...

«O CRÂNIO»

- Arrasei, não arrasei?
O meu crânio é certeiro!
- Boa, senhor engenheiro…
Como sempre, adorei!
- Na caveira me inspirei
Achada em Portugal,
400 mil anos é normal
Que chegue a essa idade…
Vai durar uma eternidade
Este processo judicial!

POETA

segunda-feira, 13 de março de 2017

SÁTIRA...

O Interrogatório
Sátira...
 
«O INTERROGATÓRIO»

 - Que temos hoje na agenda?
- Trócas-te em interrogatório!
- Já dei pra esse peditório…
Saiu-me a fava de prenda!
Mande entrar a encomenda…
- Estreia nova peça de teatro
Na sala quarenta e quatro…
Mando preparar os aposentos?
- Primeiro ouço argumentos,
Depois segue pró anfiteatro!
 
POETA
 


domingo, 12 de março de 2017

SÁTIRA...

Dia Perdido
Sátira...

«DIA PERDIDO»

Maria, o dia está perdido...
Manda a corda, não demores,
Neste mar não há offshores,
Só vi um tubarão fodido!
Antes que seja comido
Termina lá esse croché,
Não te esqueças do teu Zé
Neste mar de tubarões…
Por aqui passam milhões,
E a mim falta-me o pé!!

POETA 

sábado, 11 de março de 2017

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

NINA HAGEN 
«Sometimes I Ring Up Heaven»

Poet'anarquista

Nina Hagen
Cantora Germânica

OUTROS CONTOS

«O Largo», por Manuel da Fonseca.

«O Largo»
Ilustração de Adão Cruz
996- «O LARGO»

Antigamente, o Largo era o centro do mundo. Hoje, é apenas um cruzamento de estradas, com casas em volta e uma rua que sobe para a Vila. O vento dá nas faias e a ramaria farfalha num suave gemido, o pó redemoinha e cai sobre o chão deserto. Ninguém. A vida mudou-se para o outro lado da Vila.

O comboio matou o Largo. Sob o rumor do rodado de ferro morreram homens que eu supunha eternos. O senhor Palma Branco, alto, seco, rodeado de respeito. Os três irmãos Montenegro, espadaúdos e graves. Badina fraco e repontão. O Estroina, bêbado, trocando as pernas, de navalha em punho. O Má Raça, rangendo os den­tes, sempre enraivecido contra tudo e todos. O lavra­dor de Alba Grande, plantado ao meio do Largo com a sua serena valentia. Mestre Sobral. Ui Cotovio, rufião, de caracol sobre a testa. O Acácio, o bebedola do Acácio, tirando retratos, curvado debaixo do grande pano preto. E, lá ao cimo da rua, esgalgado, um homem que eu nunca soube quem era e que aparecia subitamente à esquina, olhando cheio de espanto para o Largo.

Nesse tempo, as faias agitavam-se, viçosas. Ace­navam rudemente os braços e eram parte de todos os grandes acontecimentos. À sua sombra, os palhaços faziam habilidades e dançavam ursos selvagens. À sua sombra, batiam-se os valentes; junto do tronco de uma faia caiu morto António Valmorim, temido pelos ho­mens e amado pelas mulheres.

Era o centro da Vila. Os viajantes apeavam-se da diligência e contavam novidades. Era através do Largo que o povo comunicava com o mundo. Também, à fal­ta de notícias, era aí que se inventava alguma coisa que se parecesse com a verdade. O tempo passava, e essa qualquer coisa inventada vinha a ser a verdade. Nada a destruía: tinha vindo do Largo. Assim, o Largo era o centro do mundo.

Quem lá dominasse, dominava toda a Vila. Os mais inteligentes e sabedores desciam ao Largo e daí instruíam a Vila. Os valentes erguiam-se no meio do Largo e desafiavam a Vila, dobravam-na à sua vonta­de. Os bêbados riam-se da Vila, cambaleando, esta­vam-se nas tintas para todo o mundo, quem quisesse que se ralasse, queriam lá saber — cambaleavam e caíam de borco. Caíam ansiados de tristeza no pó branco do Largo. Era o lugar onde os homens se sentiam grandes em tudo que a vida dava, quer fosse a valentia, ou a inteligência, ou a tristeza.

Os senhores da Vila desciam ao Largo e falavam de igual para igual com os mestres alvanéis, os mestres-ferreiros. E até com os donos do comércio, com os camponeses, com os empregados da Câmara. Até, de igual para igual, com os malteses, os misteriosos e ar­rogantes vagabundos. Era aí o lugar dos homens, sem distinção de classes. Desses homens antigos que nunca se descobriam diante de ninguém e apenas tiravam o chapéu para deitar-se.

Também era lá a melhor escola das crianças. Aí aprendiam as artes ouvindo os mestres artífices, olhan­do os seus gestos graves. Ou aprendiam a ser valentes, ou bêbados, ou vagabundos. Aprendiam qualquer coisa e tudo era vida. O Largo estava cheio de vida, de valentias, de tragédias. Estava cheio de grandes rasgos de inteligência. E era certo que a criança que apren­desse tudo isto vinha a ser poeta e entristecia por não ficar sempre criança a aprender a vida — a grande e misteriosa vida do Largo.

A casa era para as mulheres.

No fundo das casas, escondidas da rua, elas pen­teavam as tranças, compridas como caudas de cavalos. Trabalhavam na sombra dos quintais, sob as parreiras. Faziam a comida e as camas — viviam apenas para os homens. E esperavam-nos, submissas.

Não podiam sair sozinhas à rua porque eram mu­lheres. Um homem da família acompanhava-as sem­pre. Iam visitar as amigas, e os homens deixavam-nas à porta e entravam numa loja que ficasse perto, à espe­ra que saíssem para as levarem para casa. Iam à missa, e os homens não passavam do adro. Eles não entravam em casas onde fossem obrigados a tirar o chapéu. Eram homens que, de qualquer modo, dominavam no Largo.

Veio o comboio e mudou a Vila. As lojas enche­ram-se de utensílios que, antes, apenas se vendiam nos ferreiros e nos carpinteiros. O comércio desenvol­veu-se, construiu-se uma fábrica. As oficinas faliram, os mestres-ferreiros desceram a operários, os alvanéis passaram a chamar-se pedreiros e também se transfor­maram em operários. Apareceu a Guarda, substituiu os pachorrentos cabos de paz, e prendeu os valentes. As mulheres cortaram os cabelos, pintaram a boca e saem sozinhas. Os senhores tiram agora os chapéus uns aos outros, fazem grandes vénias e apertam-se as mãos a toda a hora. Vão à missa com as mulheres, passam as tardes no Clube, e já não descem ao Largo. Apenas os bêbados e os malteses se demoram por lá nas tardes de domingo.

Hoje, as notícias chegam no mesmo dia, vindas de todas as partes do mundo. Ouvem-se em todas as vendas e nos numerosos cafés que abriram na Vila. As telefonias gritam tudo que acontece à superfície da terra e das águas, no ar, no fundo das minas e dos oceanos. O mun­do está em toda a parte, tornou-se pequeno e íntimo para todos. Alguma coisa que aconteça em qualquer região todos a sabem imediatamente, e pensam sobre ela e to­mam partido. Ninguém já desconhece o que vai pelo mundo. E alguma coisa está acontecendo na terra, algu­ma coisa terrível e desejada está acontecendo em toda a parte. Ninguém fica de fora, todos estão interessados.

A Vila dividiu-se. Cada café tem a sua clientela própria, segundo a condição de vida. O Largo que era de todos, e onde apenas se sabia aquilo que a alguns interessava que se soubesse, morreu. Os homens sepa­raram-se de acordo com os interesses e as necessida­des. Ouvem as telefonias, lêem os jornais e discutem. E, cada dia mais, sentem que alguma coisa está acon­tecendo.

Também as crianças se dividiram: brincam em comum apenas as da mesma condição; param às portas dos cafés que os pais ou irmãos mais velhos frequen­tam. O Largo, agora, é todo o vasto mundo. É lá que estão os homens, as mulheres e as crianças. No outro Largo, só os bêbados e os madraços dos malteses — e aqueles que não querem acreditar que tudo mudou. O certo é que ninguém já liga importância a esta gente e a este Largo.

As grandes faias ainda marginam o Largo como antigamente e, à sua sombra, João Gadunha ainda tei­ma em continuar a tradição. Mas nada é já como era. Todos o troçam e se afastam.

João Gadunha, o bêbado, fala de Lisboa, onde nunca foi. Tudo nele, os gestos e o modo solene de falar, é uma imitação mal pronta dos homens que ouviu quando novo.

— Grande cidade, Lisboa! — diz ele. — Aquilo é gente e mais gente, ruas cheias de pessoal, como numa feira!

Gadunha supõe que em Lisboa ainda há largos e homens como ele conheceu, ali, naquele Largo margi­nado pelas velhas faias. A sua voz ressoa, animada:

—   Querem vocês saber? Uma tarde, estava eu no Largo do Rossio...

—   No Largo do Rossio?

—   Sim, rapaz! — afirma Gadunha erguendo a ca­beça, cheio de importância. — Estava eu no Largo do Rossio a ver o movimento. Vá de passar o pessoal para baixo, famílias para cima, um mundo de gente, e eu a ver. Nisto, dou com um tipo a olhar-me de esguelha. Cá está um larápio, pensei eu. Ora se era!... Veio-se chegando, assim como quem não quer a coisa, e me­teu-me a mão por baixo da jaqueta. Mas eu já estava à espera!... Salto para o lado e, zás, atiro-lhe uma pu­nhada nos queixos: o tipo foi de gangão, bateu com a cabeça num eucalipto e caiu sem sentidos!

Uma gargalhada acolhe as últimas palavras do Gadunha.

— Um eucalipto?

Apenas por um pormenor, estragou uma tão bela história. Fosse antigamente, todos ouviriam calados. Agora, sabem tudo e riem-se. Mas Gadunha teima. Diz que sim, que já esteve no Largo do Rossio, lá em Lisboa.

— Vocês já viram um largo sem eucaliptos, ou faias, ou outra árvore qualquer? — pergunta ele, des­norteado.

Todos se afastam, rindo.

João Gadunha fica sozinho e triste. Os olhos arra­sam-se-lhe de água, a bebedeira dá-lhe para chorar. Agarra-se às faias, abraça-as, e fala-lhes carinhosa­mente. Aperta-as contra o peito, como se tentasse abarcar o passado. E as suas lágrimas molham o tronco carunchoso das faias.

Vai morrendo assim o Largo. Aos domingos, é ainda maior a dor do Largo moribundo. Vão todos para os cafés, para o cinema ou para o campo. O Largo fica deserto sob a ramaria das faias silenciosas.

É nesses dias, pelo fim da tarde, que o velho Ranito sai da venda rangendo os dentes. Outrora, foi mestre-artífice; era importante e respeitado. Hoje, é tão pobre e sem préstimo que nem sabe ao certo o número dos filhos. Apenas sabe embebedar-se. Pequeno e fraco, o vinho transforma-o. Entesa-se, ergue o cacete e, sem dobrar os joelhos, apenas com um golpe de pés, pula para o ar e dá três cacetadas no pó do Largo antes de tocar de novo com os pés no chão. Ergue a cabeça e grita, estonteado:

— Se há aí algum valente, que salte para aqui!

Mas já não há nenhum valente no Largo, já não há ninguém no Largo. Ranito olha em volta com o olha espantado.

A vista turva-se-lhe, range os dentes:

— Ah vida, vida!...

Volteia o cacete sobre a cabeça. Vai de roda, fe­roz, pelo Largo ermo de vida, atirando cacetadas con­tra o chão. Vai, de cinta solta rojando, ágil e ridículo, a desafiar homens que já morreram.

Até que se cansa naquela luta desigual. O cacete despega-se-lhe das mãos e ele fica lasso, desequilibra­do. Aos tropeções, pende para a frente e cai, tem que cair, o Largo já morreu, ele não quer, mas tem de cair. Pesado de bebedeira e de desgraça, cai vencido.

Uma nuvem de poeira ergue-se; depois, tomba vagarosa e triste. Tomba sobre o Ranito esfarrapado e tapa-o.

Ele já não pode ver que o Largo é o mundo fora daquele círculo de faias ressequidas. Esse vasto mundo onde qualquer coisa, terrível e desejada, está aconte­cendo.

Manuel da Fonseca

quinta-feira, 9 de março de 2017

SÁTIRA...

Sete Longos Dias
Sátira...

«SETE LONGOS DIAS»

- Como chefe da nação
Foram sete os dias,
Em que houve anomalias
E não apareceste na televisão.
- Sete dias sem aparição?
É boicote da televisão pública
Ao Presidente da República…
Vou usar o meu poder
Pra todos os dias aparecer,
Sem ter que pedir súplica (?)

POETA

SÁTIRA...

As Escutas
Sátira...

«AS ESCUTAS»

- Aposto que o Obama
Put my phone,
Under listening on
Pra mexer na lama.
- Este Trampa só reclama…
I said a thousand times,
I did not commit these crimes!
- Grande algazarra no radar
Estou agora a escutar…
Vou ter que usar açaimes!!

POETA

SÁTIRA...

Os Optimistas
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Sátira...

«OS OTIMISTAS»

- Martelo… escuta, e anota:
Foi o teu aluno Tonho Bosta
Quem ganhou a velha aposta,
Que seria tua a melhor nota.
- O optimismo não se esgota…
Abre a janela e deixa entrar
Este sol de Março a brilhar…
- Ser prudente na governação
Pode evitar uma constipação…
Fecho a janela pra te salvar!

POETA

terça-feira, 7 de março de 2017

OUTROS CONTOS

«O Guadiana», por António Tátá.

(Décimas a concurso de poesia popular/ Alandroal 2017, na categoria geral usando o pseudónimo António Tátá, em homenagem a este amigo da família. Não foram premiadas nos três primeiros lugares.)

Moinho do Guadiana
O Guadiana

995- «O GUADIANA»

Eu fui Guadiana abaixo
Pelas margens do rio…
Hoje procuro e não acho,
A beleza que lá existiu!

Quando eu era menino
Junto à margem raiana,
Corria o velho Guadiana
Que hoje não descortino.
Traçado tinha o destino
O Alqueva dele fez riacho,
Levou o rio lá pra baixo
E com ele toda a beleza…
Assim, com essa tristeza,
Eu fui Guadiana abaixo.

Eu vi nesse percurso
Videiras milenares,
Papoilas brancas seculares
Ao longo do seu curso.
Homem sábio em discurso
Falou com muito brio,
Das pedras que descobriu
Com covinhas gravadas…
As histórias que são contadas
Pelas margens do rio.

As correntes e redemoinhos
Sumiram-se da paisagem,
A água na sua passagem
Afogou os velhos moinhos.
Para o fundo sozinhos
Foram como um fogacho,
Lá permanecem debaixo
Longe da vista humana…
Nesta margem alentejana,
Hoje procuro e não acho!

O tempo que está incerto
Acaba por se transformar…
Tudo aqui pode mudar,
Quer seja longe ou perto.
Nada é dado como certo
E o rio não resistiu,
Nas profundezas sumiu
Pra mal dos meus pecados…
Tem os dias contados
A beleza que lá existiu!

António Tátá

OUTROS CONTOS

«Rio Guadiana», por Augusto Garcia.

(Décimas a concurso de poesia popular/ Alandroal 2017, na categoria residente do concelho usando o pseudónimo Augusto Garcia, em homenagem ao poeta e amigo Augusto Garcia Toucinho. Foi ele quem me ensinou a construção das décimas populares. Não foram premiadas nos três primeiros lugares.)

Os Olhos do Guadiana
Rio Guadiana

994- «RIO GUADIANA»

O Alqueva o sepultou,
Seu nome era Guadiana…
Nunca mais se avistou
Daquela vila alentejana!

Corrias livremente
Em escarpas sinuosas,
Nas águas vigorosas
Ao sabor da corrente.
Do teu peixe excelente
O povo se alimentou,
Com engenho pescou
No rio que já não corre…
Nada eterno, tudo morre,
O Alqueva o sepultou.

Nasce em lagoas de Ruidera,
Província de Ciudad Real…
Depois entra em Portugal,
Juromenha lhe faz espera.
Gente humilde e sincera
A quem chamam de raiana,
Orgulha-se toda ufana
Das histórias do velho rio…
Ali, ninguém mais o viu,
Seu nome era Guadiana.

Percorre sempre veloz
Na direcção leste-oeste,
Em Badajoz investe
Para sul até à foz.
O Grande Lago feroz
Depressa o abafou,
A paisagem mudou
E o velho rio cedeu…
Do olhar desapareceu,
Nunca mais se avistou!

Duas vezes faz fronteira
Entre Portugal e Espanha,
Muitos afluentes apanha
Na sua viagem rotineira.
Os moinhos à sua beira
Tiveram sorte tirana,
A barragem foi profana
E submergiu a história…
O rio ficou na memória
Daquela vila alentejana.

Augusto Garcia

segunda-feira, 6 de março de 2017

SÁTIRA...

Água e Derivados
Sátira...

«ÁGUA E DERIVADOS»

- Pai, o que quer dizer offshore…
É algo em que se aposta?
- Quer dizer afastado da costa,
Que por terra não se demore…
Na gíria financeira: quem colabore
Tem pipas de massa no oceano,
Livre de impostos todo o ano…
Politicamente é meter água,
E o Zé Povinho a carpir mágoa…
Nota fiscal: inundação pelo cano!

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(Álbum Completo)

DAVID GILMOUR - «Rattle That Lock»

Poet'anarquista

David Gilmour
Guitarrista, Cantor e Compositor Britânico

OUTROS CONTOS

«O Afogado mais Bonito do Mundo», por Gabriel García Márquez.

«O Afogado mais Bonito do Mundo»
Mulher encontrada afogada/ Vasily Perov

993- «O AFOGADO MAIS BONITO DO MUNDO»

Os primeiros meninos que viram o volume escuro e silencioso que se aproximava pelo mar imaginaram que era um barco inimigo. Depois viram que não trazia bandeiras, nem mastreação, e pensaram que fosse uma baleia. Quando, porém, encalhou na praia, tiraram-lhe os matos de sargaço, os filamentos de medusas e os restos de cardumes e naufrágios que trazia por cima, e só então descobriram que era um afogado.

Tinham brincado com ele toda a tarde, enterran­do-o e o desenterrando na areia, quando alguém os viu por acaso e deu o alarme no povoado. Os homens que o carregaram à casa mais próxima notaram que pesava mais que todos os mortos conhecidos, quase tanto quanto um cavalo, e se disseram que talvez tivesse estado muito tempo à deriva e a água penetrara-­lhe nos ossos. Quando o estenderam no chão viram que fora muito maior que todos os homens, pois mal cabia na casa, mas pensaram que talvez a capacidade de continuar crescendo depois da morte estava na natureza de certos afogados. Tinha o cheiro do mar e só a forma permitia supor que fosse o cadáver de um ser humano, porque sua pele estava revestida de uma couraça de rêmora e de lodo.

Não tiveram que limpar seu rosto para saber que era um morto muito estranho. O povoado tinha apenas umas vinte casas de tábuas, com pátios de pedra, sem flores dispersas, no fim de um cabo desértico. A terra era tão escassa que as mães andavam sempre com medo de que o vento levasse os meninos, e os poucos mortos que os anos iam causando tinham que atirar das escarpas. Mas o mar era manso e pródigo, e todos os homens cabiam em sete botes. Assim, quando encontraram o afogado, bastou-lhes olhar uns aos outros para perceber que nenhum faltava.

Naquela noite não foram trabalhar no mar. Enquanto os homens verificaram se não faltava ninguém nos povoados vizinhos, as mulheres ficaram cuidando do afogado. Tiraram-lhe o Iodo com escovas de esparto, desembaraçaram-lhe os cabelos dos abrolhos submarinos e rasparam a rêmora com ferros de descamar peixes. À medida que o faziam, notaram que a vegetação era de oceanos remotos e de águas profundas; e que suas roupas estavam em frangalhos, como se houvesse navegado por entre labirintos de corais. Notaram também que carregava a morte com altivez, pois não tinha o semblante solitário dos outros afogados do mar, nem tampouco a catadura sórdida e indigente dos afogados dos rios. Somente, porém, quando acabaram de limpá-lo tiveram consciência da classe de homem que era, e então ficaram sem respiração. Não só era o mais alto, o mais forte, o mais viril e o mais bem servido que jamais tinham visto, senão que, embora o estivessem vendo, não lhes cabia na imaginação.

Não encontraram no povoado uma cama bastante grande para estendê-lo, nem uma mesa bastante sólida para velá-lo. Não lhe serviram as calças de festa dos homens mais altos, nem as camisas de domingo dos mais corpulentos, nem os sapatos do maior tamanho. Fascinadas por sua desproporção e sua beleza, as mulheres decidiram então lhe fazer umas calças com um bom pedaço de vela carangueja e uma camisa de cre­tone de noiva, para que pudesse continuar sua morte com dignidade. Enquanto costuravam, sentadas em círculo, contemplando o cadáver entre ponto e ponto, parecia-lhes que o vento não fora nunca tão tenaz, nem o Caribe estivera tão ansioso como naquela noite, e supunham que essas mudanças tinham algo a ver com o morto. Pensavam que se aquele homem magnífico tivesse vivido no povoado, sua casa teria as portas mais largas, o tecto mais alto e o piso mais firme, e o estrado de sua cama seria de cavernas mestras com pernas de ferro, e sua mulher seria a mais feliz. Pensavam que tivera tanta autoridade que poderia tirar os peixes do mar só os chamando por seus nomes, e pusera tanto empenho no trabalho que fizera brotar mananciais en­tre as pedras mais áridas, e semear flores nas escarpas. Compararam-no, em segredo, com seus homens, pen­sando que não seriam capazes de fazer, em toda uma vida, o que aquele era capaz de fazer numa noite, e acabaram por repudiá-los, no fundo dos seus corações, como os seres mais fracos e mesquinhos da terra. An­davam perdidas por esses labirintos de fantasia, quan­do a mais velha das mulheres, que por ser a mais ve­lha contemplara o afogado com menos paixão que compaixão, suspirou:

– Tem cara de se chamar Estevão.

Era verdade. À maioria bastou olhá-lo outra vez para compreender que não podia ter outro nome. As mais teimosas, que eram as mais jovens, mantiveram-se com a ilusão de que, ao vesti-lo, estendido entre flores e com uns sapatos de verniz, pudesse chamar-se Lautaro. Mas foi uma ilusão vã. O lençol ficou curto, as calças, mal cortadas e pior costuradas, ficaram aper­tadas e as forças ocultas de seu coração faziam saltar os botões da camisa. Depois da meia-noite diminuíram os assobios do vento e o mar caiu na sonolência da quarta-feira. O silêncio pôs fim às últimas dúvidas: era Estevão. As mulheres que o vestiram, as que o pen­tearam, as que lhe cortaram as unhas e barbearam não puderam reprimir um estremecimento de compaixão quando tiveram de resignar-se a deixá-lo estendido no chão. Foi então quando compreenderam quanto devia ter sido infeliz com aquele corpo descomunal, se até depois de morto o estorvava. Viram-no condenado em vida a passar de lado pelas portas, a ferir-se nos tectos, a permanecer de pé nas visitas, sem saber o que fazer com suas ternas e rosadas mãos de boi marinho, en­quanto a dona da casa procurava a cadeira mais re­sistente e suplicava-lhe, morta de medo, sente-se aqui Estevão, faça-me o favor, e ele encostado nas paredes, sorrindo, não se preocupe senhora, estou bem assim, com os calcanhares em carne viva e as costas abrasa­das de tanto repetir o mesmo, em todas as visitas, não se preocupe senhora, estou bem assim, só para não passar pela vergonha de destruir a cadeira, e talvez sem ter sabido nunca que aqueles que lhe diziam não se vá, Estevão, espere pelo menos até que aqueça o café, eram os mesmos que, depois, sussurravam lá se foi o bobo grande, que bom, já se foi o bobo bonito. Isto pensavam as mulheres diante do cadáver um pouco antes do amanhecer. Mais tarde, quando lhe cobriram o rosto com um lenço para que não o maltratasse a luz, viram-no tão morto para sempre, tão indefeso, tão parecido com os seus homens, que se abriram as pri­meiras gretas de lágrimas nos seus corações. Foi uma das mais jovens que começou a soluçar. As outras, con­solando-se entre si, passaram dos suspiros aos lamentos, e enquanto mais soluçavam, mais vontade sentiam de chorar, porque o afogado estava se tornando cada vez mais Estevão, até que o choraram tanto que ficou sen­do o homem mais desvalido da Terra, o mais manso e o mais serviçal, o pobre Estevão. Assim que, quando os homens voltaram com a notícia de que o afogado também não era dos povoados vizinhos, elas sentiram um vazio de júbilo entre as lágrimas.

– Bendito seja Deus – suspiraram: – é nosso!

Os homens acreditaram que aqueles exageros não eram mais que frivolidades de mulher. Cansados das demoradas averiguações da noite, a única coisa que queriam era descartar-se de uma vez do estorvo do intruso, antes que acendesse o sol bravo daquele dia árido e sem vento. Improvisaram umas padiolas com restos de traquetes e espichas, e as amarraram com carlingas de altura, para que resistissem ao peso do corpo até as escarpas. Quiseram prender-lhe aos tor­nozelos uma âncora de navio mercante para que ancorasse, sem tropeços, nos mares mais profundos, onde os peixes são cegos e os búzios morrem de saudade, de modo que as más correntes não o devolvessem à margem, como acontecera com outros corpos. Porém, quanto mais se apressavam, mais coisas as mulheres lembraram para perder tempo. Andavam como gali­nhas assustadas, bicando amuletos do mar nas arcas, umas estorvando aqui porque queriam pôr no afogado, os escapulários do bom vento, outras estorvando lá para abotoar-lhe uma pulseira de orientação; e depois de tanto sai daí mulher, ponha-se onde não estorve, olhe que quase me fez cair sobre o defunto, aos fígados dos homens subiram as suspeitas e eles começaram a resmungar, para que tanta bugiganga de altar-mor para um forasteiro, se por muitos cravos e caldeirinhas que levasse em cima os tubarões iam mastigá-lo, mas elas continuavam ensacando suas relíquias de quinqui­lharia, levando e trazendo, tropeçando, enquanto gastavam em suspiros o que poupavam em lágrimas, tanto que os homens acabaram por se exaltar, desde quando aqui semelhante alvoroço por um morto ao léu, um afogado de nada, um presunto de merda. Uma das mu­lheres, mortificada por tanta insensibilidade, tirou o lenço do rosto do cadáver e também os homens per­deram a respiração.

Era Estevão. Não foi preciso repeti-lo para que o reconhecessem. Se lhe tivessem chamado Sir Walter Raleigh, talvez, até eles ter-se-iam impressionado com seu sotaque de gringo, com sua arara no ombro, com seu arcabuz de matar canibais, mas Estevão só podia ser único no mundo e ali estava atirado, como um peixe inútil, sem polainas, com umas calças que não lhe ca­biam e umas unhas cheias de barro, que só se podia cortar a faca. Bastou que lhe tirassem o lenço do rosto para perceber que estava envergonhado, de que não tinha a culpa de ser tão grande, nem tão pesado, nem tão bonito, e se soubesse que isso ia acontecer, teria procurado um lugar mais discreto para afogar-se, de verdade, me amarraria eu mesmo uma âncora de ga­leão no pescoço e teria tropeçado como quem não quer nada nas escarpas, para não andar agora estorvando com este morto de quarta-feira, como vocês chamam, para não molestar ninguém com esta porcaria de pre­sunto que nada tem a ver comigo. Havia tanta verdade no seu modo de estar que até os homens mais descon­fiados, os que achavam amargas as longas noites do mar, temendo que suas mulheres se cansassem de so­nhar com eles para sonhar com os afogados, até esses, e outros mais empedernidos, estremeceram até a me­dula com a sinceridade de Estevão

Foi por isso que lhe fizeram o funeral mais esplêndido que se podia conceber para um afogado enjeitado. Algumas mulheres, que tinham ido buscar flores nos povoados vizinhos, voltaram com outras que não acreditavam no que lhes contavam, e estas foram buscar mais flores quando viram o morto, e levaram mais e mais, até que houve tantas flores e tanta gente que mal se podia caminhar. Na última hora, doeu-lhes devolvê-lo órfão às águas, e lhe deram um pai e uma mãe dentre os melhores, e outros se fizeram seus irmãos, tios e primos de tal forma que, através dele, todos os habitantes do povoado acabaram por ser pa­rentes entre si. Alguns marinheiros que ouviram o choro à distância perderam a segurança do rumo, e se soube de um que se fez amarrar ao mastro maior, recordando antigas fábulas de sereias. Enquanto se dispu­tavam o privilégio de levá-lo nos ombros, pelo de­clive íngreme das escarpas, homens e mulheres perceberam, pela primeira vez, a desolação de suas ruas, a aridez de seus pátios, a estreiteza de seus sonhos, dian­te do esplendor e da beleza do seu afogado. Jogaram­-no sem âncora, para que voltasse se quisesse, e quando o quisesse, e todos prenderam a respiração durante a fração de séculos que demorou a queda do corpo até o abismo. Não tiveram necessidade de olhar-se uns aos outros para perceber que já não estavam todos, nem voltariam a estar jamais. Mas também sabiam que seria diferente desde então, que suas casas teriam as portas mais largas, os tetos mais altos, os pisos mais firmes, para que a lembrança de Estevão pudesse an­dar por toda parte, sem bater nas traves, e que nin­guém se atrevesse a sussurrar no futuro já morreu o bobo grande, que pena, já morreu o bobo bonito, por­que eles iam pintar as fachadas de cores alegres para eternizar a memória de Estevão, e iriam quebrar a espinha cavando mananciais nas pedras e semeando flores nas escarpas para que, nas auroras dos anos ven­turosos, os passageiros dos grandes navios despertassem sufocados por um perfume de jardins em alto-mar, e o capitão tivesse que baixar do seu castelo de proa, em uniforme de gala, astrolábio, estrela polar e sua enfia­da de medalhas de guerra, e, apontando o promontó­rio de rosas no horizonte do Caribe, dissesse em ca­torze línguas, olhem lá, onde o vento é agora tão manso que dorme debaixo das camas, lá, onde o sol brilha tanto que os girassóis não sabem para onde girar, sim, lá é o povoado de Estevão.

Gabriel García Márquez