quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

ESPECIAL MÚSICAS DO MUNDO

E a música especial de hoje é...

CESÁRIA ÉVORA - «Natal»
Natal by Cesária Évora on Grooveshark
Poet'anarquista

NATAL

Hoje é Natal irmão
Noite di paz e ligria
Dia di nascimento di nosso irmão
Dia di festa e harmonia

Cristo Jesus
Fidje di Deus e Maria
Ki trazem luz amor e sabedoria
Oh aleluia, aleluia fidje di David
Alegria, boas festas pa tud família

Cesária Évora

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

NATAL, SÍMBOLOS E TRADIÇÕES

Natal, Símbolos e Tradições.
«O Natal»
Família Reunida, por George Smith (?)
O Natal

O Natal é uma festa cristã envolta em ritos e tradições. É celebrado no dia 25 de Dezembro em comemoração ao nascimento de Jesus Cristo. De acordo com um almanaque romano, a festa já era celebrada em Roma no ano 336. Na parte oriental do Império Romano, comemorava-se em 6 de Janeiro tanto o nascimento de Cristo quanto o seu baptismo. 

No século IV, as igrejas orientais passaram a adoptar o dia 25 de Dezembro para o Natal, e o dia 6 de Janeiro para a Epifânia (manifestação) — festividade religiosa em que se celebra a aparição ou manifestação divina e que ocorre em 6 de Janeiro, data em que se comemora a primeira manifestação de Jesus Cristo aos gentios, representados pelos reis magos, e a manifestação de sua divindade (o seu baptismo no rio Jordão) e o seu primeiro milagre — nas bodas de Canaã, transformando água em vinho.

A festa do Natal foi instituída oficialmente pelo bispo romano Libério (m. 366) no ano 354. Na verdade, a data de 25 de Dezembro não se deve a um estrito aniversário cronológico, mas sim à substituição, com motivos cristãos, das antigas festas pagãs. A razão provável da adopção do dia 25 de Dezembro é que os primeiros cristãos desejaram que a data coincidisse com a festa pagã dos romanos dedicada “ao nascimento do Sol inconquistado”, que comemorava o solstício do inverno.

No mundo romano, a Saturnália, comemorada em 17 de Dezembro, era um período de alegria e troca de presentes. No Ano Novo romano, comemorado no 1º de janeiro, havia o hábito de enfeitar as casas com folhagens e dar presentes às crianças e aos pobres. A esses costumes, foram acrescentados os ritos natalinos germânicos e célticos, quando as tribos teutónicas penetraram na Gália, na Grã-Bretanha e na Europa Central. A acha de lenha, o bolo de Natal, as folhagens, o pinheiro, os presentes e as saudações comemoram diferentes aspectos dessa festividade. Os fogos e luzes são símbolos de ternura e vida longa. 

 «A Estrela de Belém»
António Cláudio Massa/ 2011
A Estrela de Belém

Tanto a astronomia quanto a história apontam para a possibilidade de a estrela de Belém, longe de ser um artifício destinado a reforçar uma tradição religiosa, constituir um fenómeno autêntico. O facto, entretanto, teria ocorrido antes do que reza a tradição cristã. Ao que tudo indica, o massacre das crianças de Belém ocorreu no ano 7 a.C.

Durante séculos, astrónomos tentaram esclarecer o que era realmente a estrela de Belém. A primeira hipótese é que se tratava de um cometa, corpo celeste geralmente associado a importantes factos da história. Entretanto, pelos cálculos feitos actualmente, nenhum cometa conhecido teria sido visto na época do nascimento de Jesus. Vale ressaltar que não se descarta a hipótese de que possa ter existido um cometa desaparecido tempos depois (todos os cometas seguem uma trajectória regular em torno do Sol).

Mais tarde pensou-se em uma nova ou supernova, estrelas que explodem tornando-se muito brilhantes. Graças aos grandes astrónomos orientais da Antiguidade, porém, sabemos que não apareceu nenhuma nova ou supernova no período em questão. As mais próximas do nascimento de Jesus datam de 184 a.C. e 123.

A única teoria mais forte foi anunciada pelo astrónomo alemão Johannes Kepler (1571-1630), em 1606. Segundo ele, a estrela de Belém é o resultado de uma tríplice conjunção de Saturno e Júpiter na constelação de Peixes, o que significa que ambos os planetas teriam se alinhado três vezes em relação à Terra e podiam ser vistos como um ponto de brilho intenso na constelação de Peixes. O tríplice alinhamento é um fenómeno muito raro. Calcula-se que nos últimos quatro mil anos ocorreu na constelação de Peixes apenas em 860 e aproximadamente nos dias 12 de Abril, 3 de Outubro e 4 de Dezembro do ano 7 a.C.

Passamos a interpretar, então, as descrições dos textos sagrados: alguns astrólogos judeus da Babilónia (os reis magos da tradição, embora nada indique se tratar de reis), depois de observar a primeira conjunção em 12 de Abril do ano 7 a.C. e outra por volta do dia 3 de Outubro, vêem nela o sinal da tão esperada vinda do Messias para expulsar os invasores da Palestina. Partem então em direcção a Jerusalém, onde chegam no final de Novembro. A terceira conjunção confirma a convicção desses estudiosos que seguem, em torno do dia 4 de Dezembro, para Belém, distante oito quilómetros ao sul de Jerusalém, guiados pelo grande ponto que brilha a frente deles ao cair da noite. De acordo com os textos sagrados, foi a estrela que assinalou a aldeia onde Jesus nasceu. 

«Os Três Reis Magos»
Os três Reis Magos com os Presentes 
Mosaico da Basílica de San Apollinare Nuovo 
(séc. VI D.C.) – Ravena, Itália 
Os Três Reis Magos

Reis magos é o nome que a tradição conferiu aos três personagens que, segundo o Evangelho de Mateus, saíram do Oriente guiados por uma estrela para prestar homenagem ao recém-nascido rei dos judeus (Mateus 2:1-12). O relato bíblico que se refere aos “magos”, mas não a “reis”, inspirou a tradição cristã primitiva e a imaginação popular. Segundo Mateus, os magos chegaram a Jerusalém perguntando pelo rei dos judeus recém-nascido, e foram interpelados por Herodes. Este os incumbiu de localizar o menino e informá-lo, pois queria ele também homenagear o rei dos reis. Avisados em sonhos de que não deviam voltar a Herodes, tomaram outro caminho para o Oriente.

Os magos ficaram conhecidos como Melchior, Gaspar e Baltasar, mas as pinturas das catacumbas e escritos do século I sugerem dois, quatro e até doze magos. O número três pode corresponder aos presentes recebidos pelo Menino Jesus — ouro, incenso e mirra — ou às três raças humanas representadas pelos reis. O nome mago se aplica aos sacerdotes da antiga religião persa, membros de uma casta coesa e poderosa, tidos como sábios e possuidores de dons divinos. Comumente escolhidos para preceptores dos príncipes, chegaram algumas vezes a usurpar o trono. 

«Presépio»
Presépio de Olinda, Pernambuco/ Brasil 2009
Presépio

A tradição atribui a criação do presépio a uma reconstituição do nascimento de Jesus feita em 1223 por são Francisco de Assis (c. 1181-1226), em Greccio, mas essa representação já era conhecida desde o século IV.

Presépio é um grupo escultórico que representa o nascimento e adoração do menino Jesus na manjedoura de Belém, em conformidade com o relato dos Evangelhos e fontes apócrifas. Nossa Senhora, são José, anjos, pastores e animais em torno do recém-nascido Jesus Cristo são as principais figuras do conjunto, no qual aparecem também os reis magos, às vezes com seus séquitos, camelos e outros animais.

A cena da natividade era erguida pelas freiras do Salvador já em 1391, em Lisboa. Aproximadamente no século XVI passou a ser dramatizada com danças e cantos populares. Por essa época somaram-se aos principais personagens do evento figuras extraídas da vida camponesa e aldeã, mostradas em tarefas cotidianas ou levando oferendas ao menino. Ao longo dos anos, essa tradição foi conservada e transmitida em muitos lugares do mundo.

No Brasil, o presépio foi provavelmente introduzido no início do século XVII, em Olinda, Pernambuco, pelo frei franciscano Gaspar de Santo Agostinho. Desde então, os presépios são armados em dezembro em igrejas, casas e lojas, e desmontados no dia 6 de janeiro do ano seguinte, coincidindo com o dia atribuído aos reis magos. 

«Missa do Galo»
Noite de Natal
Missa do Galo

A missa que se celebra na noite de Natal é chamada de Missa do Galo. O seu nome provém de uma fábula segundo a qual este foi o primeiro animal a presenciar o nascimento de Jesus, encarregando-se, em seguida, de anunciar a todos o evento com o seu canto.

Até começos do século XX, era habitual que à meia-noite fosse anunciado de dentro da igreja, por um canto de galo, o nascimento de Jesus. Essa missa surgiu no século V, e a partir da Idade Média transformou-se numa celebração jubilosa, diferente do caráter mais solene que tem hoje.
«Árvore de Natal»
Árvore de Natal, por Ivan Zolotuhin/ 1998
Árvore de Natal

Tem suas origens na antiga crença germânica de que uma imensa árvore sustentava o mundo e que em seus galhos ficavam penduradas estrelas, a Lua e o Sol — o que explica o costume de colocar luzes nas árvores de Natal. Era também o símbolo da vida, por não perder a folhagem verde no inverno, quando a natureza parece morta. Nos países nórdicos, costumava-se colocar em casa alguns galhos de pinheiro no inverno e decorá-los com pão, frutas e enfeites para alegrar o ambiente.

A árvore, em si, tem vários significados religiosos que já foram usados como símbolo de união do céu e da terra, pois fixa suas raízes na terra e ergue-se até ao céu. Por isso, em muitas religiões, sobretudo nas orientais, a árvore é um símbolo de encontro entre o homem e a divindade. Algumas tribos europeias, americanas e grupos, como os druidas, reuniam-se ao redor de árvores sagradas para entrar em comunhão com os seus deuses. 

«São Nicolau»
Ícone Russo/ séc. XIII
Pai Natal

A figura mítica do Pai Natal remete a São Nicolau, padroeiro da Rússia e da Grécia. A generosidade a ele atribuída granjeou-lhe a reputação de milagreiro e distribuidor de presentes.

A existência de Nicolau de Bari, ou Nicolau de Mira, nunca foi comprovada por documentos, mas supõe-se que tenha sido bispo de Mira, na Anatólia, no século IV. Preso em Roma pelo imperador Diocleciano (c.245-c. 316), implacável perseguidor dos cristãos, teria sido depois libertado por Constantino o Grande (c. 280-337) e participado do primeiro Concílio de Nicéia (325). Sepultados em Mira, os seus restos foram roubados em 1087 e trasladados a Bari, na Itália. Aumentou então a devoção pelo santo em toda a Europa medieval e Bari transformou-se num dos mais procurados centros cristãos de peregrinação.

A transformação de São Nicolau em Pai Natal ocorreu primeiro na Alemanha. Depois da Reforma, com a Europa convertida ao protestantismo, o culto do santo arrefeceu. A sua lenda, no entanto, foi levada por colonos holandeses à América do Norte, onde uma bondosa figura de velho tomou o nome de Santa Claus. Festejado em 6 de Dezembro, tem a sua grande noite na véspera do Natal, quando premeia com presentes as crianças. 
Fonte: editorial.planetasaber.com/
«Santa Claus»
Thomas Nast/ 1881

ESPECIAL MÚSICAS DO MUNDO

E a música especial de hoje é...
(24 de Dezembro de 2007, morre o pianista e compositor de jazz canadiano, Oscar Peterson)

OSCAR PETERSON/ 'An Oscar Peterson Christmas'
«Santa Claus is Coming to Town»
Poet'anarquista

OUTROS CONTOS

«Conto de Natal», por Rubem Braga.

«Conto de Natal»
Mulher e Menino Morto, por Cândido Portinari

47- «CONTO DE NATAL»

Sem dizer uma palavra, o homem deixou a estrada andou alguns metros no pasto e se deteve um instante diante da cerca de arame farpado. A mulher seguiu-o sem compreender, puxando pela mão o menino de seis anos.

— Que é?

O homem apontou uma árvore do outro lado da cerca. Curvou-se, afastou dois fios de arame e passou. O menino preferiu passar deitado, mas uma ponta de arame o segurou pela camisa. O pai agachou-se zangado: 

— Porcaria...

Tirou o espinho de arame da camisinha de algodão e o moleque escorregou para o outro lado. Agora era preciso passar a mulher. O homem olhou-a um momento do outro lado da cerca e procurou depois com os olhos um lugar em que houvesse um arame arrebentado ou dois fios mais afastados.

— Péra aí...

Andou para um lado e outro e afinal chamou a mulher. Ela foi devagar, o suor correndo pela cara mulata, os passos lerdos sob a enorme barriga de 8 ou 9 meses.

— Vamos ver aqui...

Com esforço ele afrouxou o arame do meio e puxou-o para cima.

Com o dedo grande do pé fez descer bastante o de baixo.

Ela curvou-se e fez um esforço para erguer a perna direita e passá-la para o outro lado da cerca. Mas caiu sentada num torrão de cupim!

— Mulher!

Passando os braços para o outro lado da cerca o homem ajudou-a a levantar-se. Depois passou a mão pela testa e pelo cabelo empapado de suor.

— Péra aí...

Arranjou afinal um lugar melhor, e a mulher passou de quatro, com dificuldade. Caminharam até a árvore, a única que havia no pasto, e sentaram-se no chão, à sombra, calados.

O sol ardia sobre o pasto maltratado e secava os lameirões da estrada torta. O calor abafava, e não havia nem um sopro de brisa para mexer uma folha.

De tardinha seguiram caminho, e ele calculou que deviam faltar umas duas léguas e meia para a fazenda da Boa Vista quando ela disse que não aguentava mais andar. E pensou em voltar até o sítio de «seu» Anacleto.

— Não...

Ficaram parados os três, sem saber o que fazer, quando começaram a cair uns pingos grossos de chuva. O menino choramingava.

— Eh, mulher...

Ela não podia andar e passava a mão pela barriga enorme. Ouviram então o guincho de um carro de bois.

— Oh, graças a Deus...

Às 7 horas da noite, chegaram com os trapos encharcados de chuva a uma fazendinha. O temporal pegou-os na estrada e entre os trovões e relâmpagos a mulher dava gritos de dor.

— Vai ser hoje, Faustino, Deus me acuda, vai ser hoje.

O carreiro morava numa casinha de sapé, do outro lado da várzea. A casa do fazendeiro estava fechada, pois o capitão tinha ido para a cidade há dois dias.

— Eu acho que o jeito...

O carreiro apontou a estrebaria. A pequena família se arranjou lá de qualquer jeito junto de uma vaca e um burro.

No dia seguinte de manhã o carreiro voltou. Disse que tinha ido pedir uma ajuda de noite na casa de “siá” Tomásia, mas “siá” Tomásia tinha ido à festa na Fazenda de Santo Antônio. E ele não tinha nem querosene para uma lamparina, mesmo se tivesse não sabia ajudar nada. Trazia quatro broas velhas e uma lata com café.

Faustino agradeceu a boa-vontade. O menino tinha nascido. O carreiro deu uma espiada, mas não se via nem a cara do bichinho que estava embrulhado nuns trapos sobre um monte de capim cortado, ao lado da mãe adormecida.

— Eu de lá ouvi os gritos. Ô Natal desgraçado!

— Natal?

Com a pergunta de Faustino a mulher acordou.

— Olhe, mulher, hoje é dia de Natal. Eu nem me lembrava...

Ela fez um sinal com a cabeça: sabia. Faustino de repente riu. Há muitos dias não ria, desde que tivera a questão com o Coronel Desidério que acabara mandando embora ele e mais dois colonos. Riu muito, mostrando os dentes pretos de fumo: 

— Eh, mulher, então “vâmo” botar o nome de Jesus Cristo!

A mulher não achou graça. Fez uma careta e penosamente voltou a cabeça para um lado, cerrando os olhos. O menino de seis anos tentava comer a broa dura e estava mexendo no embrulho de trapos:

— Eh, pai, vem vê...

— Uai! Péra aí...

O menino Jesus Cristo estava morto.

Rubem Braga

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

ÁRVORE DE NATAL

Árvore de Natal/ Poet'anarquista 2013
Cabras Loucas em Marrocos 
Foto: Jean-Pierre 

Feliz Quadra Natalícia!

CARTOON versus QUADRA

Rica Prenda
HenriCartoon

«RICA PRENDA»

-Pai Natal, o amigo aceita devolução,
Ou a rica prenda é de tara perdida?

-Bem me avisou a Rena: «de fugida,
Leva este inferno pra outra Nação!

POETA

ESPECIAL MÚSICAS DO MUNDO

E a música especial de hoje é...
(Alusiva à Quadra Natalícia)

MANNHEIM STEAMROLLER/ Christmas Sweet

«Wassail, Wassail»
Poet'anarquista


«God Rest Ye Merry, Gentlemen»
Christmas Sweet: God Rest Ye Merry, Gentlemen by Mannheim Steamroller on Grooveshark
Poet'anarquista

OUTROS CONTOS

«Breve Conto de Natal», por Luís Galhardas.

«Breve Conto de Natal»
Ilustração: Paula Costa

46- «BREVE CONTO DE NATAL»

A cidade adormece num cenário quase rotineiro.
Quase..., porque esta noite instalou-se um frio de rachar, que penetra impiedosamente quem o enfrenta.

Só este componente atmosférico desagradável diferencia esta noite da anterior e de muitas noites antes desta, que foram metodicamente iguais.

Nos locais habituais onde as estrelas são visíveis com um simples arremelgar ou onde o vento se faz sentir, endiabrado, sem outra sorte que não seja suportá-lo, os mesmos vultos, sem nome e sem destino, acomodam-se o melhor que podem, com a esperança irrisória de que mais uma noite passe.

Tento afastar-me, abafado no calor aconchegante do meu sobretudo de burguês, fugir a sete pés daquele local habitual onde “descansam” vultos humanos sob pilhas de cartão prensado.

Um grupo de crianças soa a alguma distância com a alegria estampada nas vozes que procuram afinar a canção: –é Natal, é Natal, já nasceu Jesus...

Um dos vultos, sob a amálgama de cartão prensado, pragueja em réplica à melodia: «é Natal o caraças...», e desfila um chorrilho de obscenidades irrepetíveis. O ar fica empestado com um cheiro pouco recomendável, apesar da aragem fria se renovar constantemente.

Assustado..., fujo a sete pés daquele local habitual onde não é Natal.

Luís Galhardas

domingo, 22 de dezembro de 2013

CARTOON versus QUADRA

O Grande Culpado
HenriCartoon

«O GRANDE CULPADO»

-Mas que mal lhe fiz, senhor Leão?...
Então não estamos perto do Natal??

-Acredita Mota, se eu te deito a mão
A quadra natalícia vai acabar mal!!

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

WATERBOYS - «Strange Boat»
Strange Boat by The Waterboys on Grooveshark
Poet'anarquista

BARCO ESTRANHO 

Estamos navegando num barco estranho
Indo para uma praia estranha
Estamos navegando num barco estranho
Indo para uma praia estranha
Transportando carga estranha
Que já foi transportada a bordo

Estamos navegando num mar estranho
Soprado por um vento estranho
Estamos navegando num mar estranho
Soprado por um vento estranho
Transportando tripulação estranha
Que nunca pecou

Estamos andando num carro estranho
Estamos seguindo uma estrela estranha
Estamos subindo na escada estranha
Que sempre lá esteve para subir

Estamos vivendo numa época estranha
Trabalhando para um objetivo estranho
Estamos vivendo numa época estranha
Trabalhando para um objetivo estranho
Estamos virando a carne e o corpo
Na alma

Waterboys

OUTROS CONTOS

«Natal Chinês», por Maria Ondina Braga.

«Natal Chinês»
Pai Natal Chinês

45- «NATAL CHINÊS»
             
A senhora Tung chegava dois dias antes da consoada. Costumava vê-la logo de manhã, com a irmã jardineira, no pátio maior, a admirar as laranjeiras anãs nos vasos de loiça. Via-a casualmente a contemplar, embevecida, o presépio do convento. Encontrava-a por fim à mesa. 
         
A senhora Tung viajava todos os anos da Formosa para Macau, na época do Natal, a fim de festejar o nascimento de Cristo na companhia da sua primogénita, a irmã Chen-Mou. 
         
Nesses dias, com as meninas em férias, o refeitório do colégio parecia maior e mais desconfortável: só eu e Miss Lu nos sentávamos à mesa comprida das professoras. Daí a presença da senhora Tung, que noutra ocasião passaria talvez despercebida (estirada a sala entre pátios de cimento e plantas verdes), se tornar nessa altura notável. 
         
Baixa, seca de carnes, de olhos atenciosos, pensativos, a senhora Tung sorria constantemente, falava inglês, gostava de comer, de fumar, de jogar ma-jong. As criadas cortejavam-na nos corredores, preparavam-lhe pratos especiais, levavam-lhe chá ao quarto. Além de ser mãe da subdirectora, tinha fama de rica e distribuía moedas de prata a todo o pessoal na noite de festa. 
          
Nessa noite assistiam três freiras ao nosso jantar (a regra não lhes permitia comer connosco): a directora, a subdirectora e a mestra dos estudos. E muito empertigada, segurando com ambas as mãos um tabuleiro de laca coberto com um pano de seda, a senhora Tung recebia-as à porta do refeitório, entregando cerimoniosamente o presente à filha, que por sua vez o oferecia à directora. Eram bolos de farinha fina de arroz amassada com óleo de sésamo. Toda de vermelho, de sapatos bordados e ganchos de jade no cabelo, a senhora Tung, quando a superiora colocava o tabuleiro dos bolos na mesa, dobrava-se quase até ao chão. Rezava-se, depois. Para lá dos pátios, à porta da cozinha, as criadas espreitavam, curiosas. 
          
Nem no primeiro, nem no segundo, nem no terceiro Natal que passei em Macau, a senhora Tung era cristã, mas todos os anos se nomeava catecúmena. A seguir ao jantar falava-se nisso. A directora, uma francesa de mãos engelhadas que noutros tempos frequentara a Universidade de Pequim, perguntava em chinês formal quando era o baptizado. Inclinando a cabeça para o peito, a senhora Tung balbuciava, indicando a irmã Chen-Mou. A filha... a filha sabia. Talvez se pudesse chamar cristã pelo espírito, mas o coração atraiçoava-a. O coração continuava apegado a antigas devoções... Todavia, vestira-se de gala para a festividade da meia-noite, tinha no quarto o Menino Jesus cercado de flores, e a alma transbordava-lhe de alegria como se cristã verdadeiramente fosse. 
         
Com um sorriso meio complacente meio contrariado, a irmã Chen-Mou desconversava, passando a bandeja dos bolos à superiora, que separava uns tantos para o convento. Os restantes comê-los-íamos nós, ao fim da Missa do Galo, com chocolate quente. 
         
O chocolate era a esperada surpresa da directora. A senhora Tung chamava-lhe, em ar de gracejo, «chá de Paris». No fim das três missas vinham outra vez as três freiras ao refeitório do colégio para trocarem connosco o beijo da paz e nos oferecerem a tigela fumegante do chocolate. Vinham e partiam logo (tarde de mais para se demorarem), e Miss Lu, fanática terceira-franciscana, sempre atenta aos passos das monjas, sorvia à pressa o líquido escaldante, como quem cumprisse um dever, e saía atrás delas. 
         Ficávamos, assim, a senhora Tung e eu, uma em frente da outra. À luz das velas olorosas do centro de mesa, os seus olhos eram dois riscos tremulantes. Sorríamos. Finalmente, o reposteiro ao fundo da sala apartava-se. Uma das criadas entrava, silenciosa. Servia-se vinho de arroz. 
         
Creio que o vinho de arroz figurava entre as bebidas proibidas no colégio e que chegava ali por portas travessas. O certo, contudo, é que ambas o bebíamos, a acompanhar os bolos de sésamo, no grande e deserto refeitório, na noite de Natal. 
        
 O vinho de arroz queimava-me a garganta e fazia-me vir lágrimas aos olhos. Quanto à senhora Tung, saboreava-o devagar, molhando nele o bolo, e, como mal provara o «chá de Paris», bebia dois cálices. 
        
 Entretanto, Aldegundes, a criada macaense mais antiga do colégio, aparecia com as especialidades da terra: aluares, fartes e coscorões, dizendo que aluá era o colchão do Minino Jesus, farte almofada, coscorão lençol. E eu traduzia em inglês para a senhora Tung, que achava isto enternecedor e gratificava a velha generosamente. 
         
Quando por fim atravessávamos a cerca a caminho de casa, sob uma lua branca, espantada, anunciadora do Inverno para a madrugada, a senhora Tung abria-se em confidências. 
         
A menina sabia... ― a «menina» era a irmã Chen-Mou, a subdirectora do colégio ―, sabia que ela continuava a venerar a Deusa da Fecundidade. Tratava-se de uma pequena divindade, toda nua e toda de oiro. Fora ela quem lhe dera filhos. Estéril durante sete anos, a senhora Tung recorrera à sua intercessão divina quando o marido já se preparava para receber nova esposa. Não podia portanto deixar de a amar. Toda a felicidade lhe provinha daí, dessa afortunada hora em que a deusa a escutara. 
        Parava a meio do largo átrio enluarado, de olhar meditabundo, mãos cruzadas no colo. E as palavras saíam-lhe lentas e soltas, como se falasse sozinha. 
        
... E aquele mistério da virgindade de Nossa Senhora! Virgem e mãe ao mesmo tempo... Não se lia no Génesis: «O homem deixará o pai e a mãe para se unir a sua mulher e os dois serão uma só carne?» Não era essa a lei do Senhor? Porquê então a Mãe de Cristo diferente das outras, num mundo de homens e de mulheres onde o Filho havia de vir pregar o amor? A Deusa da Fecundidade, patrona dos lares, operava milagres, sim, mas racionalmente, atraindo a vontade do homem à da sua companheira e exaltando essa atracção. Como o Céu alagando a Terra na estação própria. 
      
 Retomávamos a marcha em direcção aos nossos aposentos. Difícil para mim responder às dúvidas da senhora Tung, nem ela parecia esperar resposta. Mudava, rápida, de assunto, aludindo ao tempo, à viagem de regresso, às saborosas guloseimas da criada macaísta. 
       
Já em casa, convidava-me a ir ver o seu presépio. O quarto cheirava fortemente a incenso. Em cima da cómoda, entre flores, lá estava o Menino Jesus, de cabaia de seda encarnada, sapatinhos de veludo preto, feições chinesas. 
        
Depois, timidamente, a senhora Tung abria a gaveta... e surgia a deusa. 
        O Menino Jesus era de marfim. A Deusa da Fecundidade era de oiro. O Menino, de pé, de um palmo de altura, trajando ricamente. A deusa, sentada, pequenina, nua. 
         
Os olhos da senhora Tung atentavam nos meus, como se à procura de compreensão, mas as suas palavras prontas (a deter as minhas?) eram de autocensura. Não, não devia fazer aquilo. A filha asseverara que o Menino Jesus entristecia, em cima da cómoda, por causa da deusa, na gaveta. E quem sabia mais do que a filha ? 
        
 Eu já sentia frio, apesar da aguardente de arroz. O Inverno, ali, chegava de repente. A senhora Tung, no entanto, tinha as mãos quentes e as faces afogueadas. 
        
Despedíamo-nos. Eu sempre me apetecia dizer-lhe que estivesse sossegada, que de certeza o Menino Jesus não havia de se entristecer, em cima da cómoda, por causa da deusa, na gaveta. Mas nunca lho disse nos três anos que passei o Natal com ela. Palpitava-me que a senhora Tung se enervava com o assunto. E que, de qualquer jeito, não me acreditaria.

Maria Ondina Braga

sábado, 21 de dezembro de 2013

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(Escolha musical da blogosfera, a quem endereço votos de Boas Festas!)

NANA MOUSKOURI - «Serenade» 
(Schubert)
Poet'anarquista

SERENATA 
(Schubert) 

Silenciosamente imploro minhas músicas 
Durante a noite para você; 
Em baixo no bosque silencioso, 
Querida, venha a mim! 
Sussurros farfalhudos nas copas magras das árvores 
À luz da lua; 
O traidor hostil ouve-se 
Medo, não Holde. 
Ouves os rouxinóis? 
Oh! eles te rogo, 
Com as queixas doces sons 
Roga-los para mim. 
Eles entendem os tendões, 
Sei que você ama a dor, 
Mexendo com tons de prata 
Cada coração terno. 
Também permitem que você mova o peito, 
Querida, ouça-me! 
Tremor, esperando eu conhecê-la! 
Venha para alegrar-me! 

Nana Mouskouri 

OUTROS CONTOS

X e último capítulo de...

«Cinco Minutos», por José de Alencar.

Ler aqui: I- «OUTROS CONTOS»/ II- «OUTROS CONTOS»/ III- «OUTROS CONTOS»/ IV- «OUTROS CONTOS»/ V- «OUTROS CONTOS»/ VI- «OUTROS CONTOS»/ VII- «OUTROS CONTOS»/ VIII- «OUTROS CONTOS»/ IX- «OUTROS CONTOS».
Poet'anarquista
«Cinco Minutos»
Igreja de Santa Maria Novella, em Florença

43- «CINCO MINUTOS

X

O resto desta história, minha prima, a senhora conhece, com exceção de algumas particularidades.
Vivi um mês, contando os dias, as horas e os minutos; e tempo corria vagarosamente para mim, que desejava poder devorá-lo.
Quando tinha durante uma manhã inteira olhado o seu retrato, conversado com ele, e lhe contado a minha impaciência e o meu sofrimento, começava a calcular as horas que faltavam para acabar o dia, os dias que faltavam para acabar a semana e as semanas que ainda faltavam para acabar o mês.
No meio da tristeza que me causara a sua ausência, o que me deu um grande consolo foi uma carta que ela me havia deixado e que me foi entregue no dia seguinte ao da sua partida.
“Bem vês, meu amigo, dizia-me ela, que Deus não quer aceitar o teu sacrifício. Apesar de todo o teu amor, apesar de tua alma, ele impediu a nossa união; poupou-te um sofrimento e a mim talvez um remorso.
“Sei tudo quanto fizeste por minha causa e adivinho o resto; parto triste por não te ver, mas bem feliz por sentir-me amada, como nenhuma mulher talvez o seja neste mundo.”
Esta carta tinha sido escrita na véspera da saída do paquete; um criado que viera de Petrópolis e a quem ela incumbira de entregar-me a caixinha com o seu retrato, contou-lhe metade das extravagâncias que eu praticara para chegar à cidade no mesmo dia.
Disse-lhe que me tinha visto partir para a Estrela, depois de perguntar a hora da saída do vapor; e que em baixo da serra referiram-lhe como eu tinha morto um cavalo para alcançar a barca e como me embarcara numa canoa.
Não me vendo chegar, ela adivinhara que alguma dificuldade invencível me retinha, e atribuía isto à vontade de Deus, que não consentia no meu amor.
Entretanto, lendo e relendo a sua carta, uma coisa me admirou; ela não me dizia um adeus, apesar de sua ausência e apesar da moléstia, que podia tornar essa ausência eterna.
Tinha-me adivinhado! Ao mesmo tempo que fazia por me dissuadir, estava convencida de que a acompanharia.
Com efeito parti no paquete seguinte para a Europa.
Há de ter ouvido falar, minha prima, se é que ainda não o sentiu, da força dos pressentimentos do amor, ou da segunda vista que tem a alma nas suas grandes afeições.
Vou contar-lhe uma circunstância que confirma este fato.
No primeiro lugar onde desembarquei, não sei que instinto, que revelação, me fez correr imediatamente ao correio; parecia-me impossível que ela não tivesse deixado alguma lembrança para mim.
E de fato em todos os portos da escala do vapor havia, uma carta que continha duas palavras apenas:
“Sei que tu me segues. Até logo.”
Enfim cheguei à Europa e vi-a. Todas as minhas loucuras e os meus sofrimentos foram compensados pelo sorriso de inexprimível gozo com que me acolheu.
Sua mãe dizia-lhe que eu ficaria no Rio de Janeiro, mas ela nunca duvidara de mim! Esperava-me como se a tivesse deixado na véspera, prometendo voltar.
Encontrei-a muito abatida da viagem; não sofria, mas estava pálida e branca como uma dessas Madonas de Rafael, que vi depois em Roma.
Às vezes uma languidez invencível a prostrava; nesses momentos um quer que seja de celeste e vaporoso a cercava, como se a alma exalando-se envolvesse o seu corpo.
Sentado ao seu lado, ou de joelhos a seus pés, passava os dias a contemplar essa agonia lenta; sentia-me morrer gradualmente, à semelhança de um homem que vê os últimos clarões da luz que vai extinguir-se e deixá-lo nas trevas.
Uma tarde em que ela estava ainda mais fraca, tínhamo-nos chegado para a varanda.
A nossa casa em Nápoles dava sobre o mar; o sol, transmontando, escondia-se nas ondas; um raio pálido e descorado veio enfiar-se pela nossa janela e brincar sobre o rosto de Carlota, sentada ou antes deitada numa conversadeira.
Ela abriu os olhos um momento e quis sorrir; seus lábios nem tinham força para desfolhar o sorriso.
As lágrimas saltaram-me dos olhos; havia muito que eu tinha perdido a fé, mas conservava ainda a esperança; esta desvaneceu-se com aquele reflexo do ocaso, que me parecia o seu adeus à vida.
Sentindo as minhas lágrimas molharem as suas mãos, que eu beijava, ela voltou-se e fixou-me com os seus grandes olhos lânguidos.
Depois, fazendo um esforço, reclinou-se para mim e apoiou as mãos sobre o meu ombro.
— Meu amigo, disse ela com voz débil, vou pedir-te uma coisa, a última; tu me prometes cumprir?
— Juro, respondi-lhe eu, com a voz cortada pelos soluços.
— Daqui a bem pouco tempo… daqui a algumas horas talvez… Sim! sinto faltar-me o ar!…
— Carlota!…
— Sofres, meu amigo! Ah! se não fosse isto eu morreria feliz.
— Não fales em morrer!
— Pobre amigo, em que deverei falar então? Na vida?…
Mas não vês que a minha vida é apenas um sopro… um instante que breve terá passado?
— Tu te iludes, minha Carlota.
Ela sorriu tristemente.
— Escuta; quando sentires a minha mão gelada, quando as palpitações do meu coração cessarem, prometes receber nos lábios a minha alma?
— Meu Deus!…
— Prometes? sim?…
— Sim.
Ela tornou-se lívida; sua voz suspirou apenas:
— Agora!
Apertei-a ao peito e colei os meus lábios aos seus. Era o primeiro beijo de nosso amor, beijo casto e puro, que a morte ia santificar.
Sua fronte se tinha gelado, não sentia a sua respiração nem as pulsações de seu seio.
De repente ela ergueu a cabeça. Se visse, minha prima, que reflexo de felicidade e alegria iluminava nesse momento o seu rosto pálido!
— Oh! quero viver! exclamou ela.
E com os lábios entreabertos aspirou com delícia a aura impregnada de perfumes que nos enviava o golfo de Ischia.
Desde esse dia foi pouco a pouco restabelecendo-se, ganhando as forças e a saúde; sua beleza. reanimava-se e expandia-se como um botão que por muito tempo privado de sol, se abre em flor viçosa.
Esse milagre, que ela, sorrindo e corando, atribuía ao meu amor, foi-nos um dia explicado bem prosaicamente por um médico alemão que nos fez uma longa dissertação a respeito da medicina.
Segundo ele dizia, a viagem tinha sido o único remédio e o que nós tomávamos por um estado mortal não era senão a crise que se operava, crise perigosa, que podia matá-la, mas que felizmente a salvou.
Casamo-nos em Florença na igreja de Santa Maria Novella.
Percorremos a Alemanha, a França, a Itália e a Grécia; passamos um ano nessa vida errante e nómada, vivendo do nosso amor e alimentando-nos de música, de recordações históricas, de contemplações de arte.
Criamos assim um pequeno mundo, unicamente nosso; depositamos nele todas as belas reminiscências de nossas viagens, toda a poesia dessas ruínas seculares em que as gerações que morreram, falam ao futuro pela voz do silêncio; todo o enlevo dessas vastas e imensas solidões do mar, em que a alma, dilatando-se no infinito, sente-se mais perto de Deus.
Trouxemos das nossas peregrinações um raio de sol do Oriente, um reflexo de lua de Nápoles, uma nesga do céu da Grécia, algumas flores, alguns perfumes, e com isto enchemos o nosso pequeno universo.
Depois, como as andorinhas que voltam com a primavera para fabricar o seu ninho no campanário da capelinha em que nasceram, apenas ela recobrou a saúde e as suas belas cores, viemos procurar em nossa terra um cantinho para esconder esse mundo que havíamos criado.
Achamos na quebrada de uma montanha um lindo retiro, um verdadeiro berço de relva suspenso entre o céu e a terra por uma ponta de rochedo.
Aí abrigamos o nosso amor e vivemos tão felizes que só pedimos a Deus que nos conserve o que nos deu; a nossa existência é um longo dia, calmo e tranquilo, que começou ontem, mas que não tem amanhã.
Uma linda casa, toda alva e louçã, um pequeno rio saltitando entre as pedras, algumas braças de terra, sol, ar puro, árvores, sombras, …eis toda a nossa riqueza.
Quando nos sentimos fatigados de tanta felicidade, ela arvora-se em dona de casa ou vai cuidar de suas flores; eu fecho-me com os meus livros e passo o dia a trabalhar. São os únicos momentos em que não nos vemos.
Assim, minha prima, como parece que neste mundo não pode haver um amor sem o seu receio e a sua inquietação, nós não estamos isentos dessa fraqueza.
Ela tem ciúmes de meus livros, como eu tenho de suas flores. Ela diz que a esqueço para trabalhar; eu queixo-me de que ela ama as suas violetas mais do que a mim.
Isto dura quando muito um dia; depois vem sentar-se ao meu lado e dizer-me ao ouvido a primeira palavra que balbuciou o nosso amor: — Non ti scordar di me.
Olhamo-nos, sorrimos e recomeçamos esta história que lhe acabo de contar e que é ao mesmo tempo o nosso romance, o nosso drama e o nosso poema.
Eis, minha prima, a resposta à sua pergunta; eis por que esse moço elegante, como teve a bondade de chamar-me, fez-se provinciano e retirou-se da sociedade, depois de ter passado um ano na Europa.
Podia dar-lhe outra resposta mais breve e dizer-lhe simplesmente que tudo isto sucedeu porque me atrasei cinco minutos.
Desta pequena causa, desse grão de areia, nasceu a minha felicidade; dele podia resultar a minha desgraça. Se tivesse sido pontual como um inglês, não teria tido uma paixão nem feito uma viagem; mas ainda hoje estaria perdendo o meu tempo a passear pela rua do Ouvidor e a ouvir falar de política e teatro.
Isto prova que a pontualidade é uma excelente virtude para uma máquina; mas um grave defeito para um homem.
Adeus, minha prima. Carlota impacienta-se, porque há muitas horas que lhe escrevo; não quero que ela tenha ciúmes desta carta e que me prive de enviá-la.
Minas, 12 de agosto.
Abaixo da assinatura havia um pequeno post-scriptum de uma letra fina e delicada:
“P. S. — Tudo isto é verdade, D…, menos uma coisa.
“Ele não tem ciúmes de minhas flores, nem podia ter, porque sabe que só quando seus olhos não me procuram é que vou visitá-las e pedir-lhes que me ensinem a fazer-me bela para agradá-lo.
“Nisto enganou-a; mas eu vingo-me, roubando-lhe um dos meus beijos, que lhe envio nesta carta.
“Não o deixe fugir, prima; iria talvez revelar a nossa felicidade ao mundo invejoso.”

José de Alencar
Fim de «Cinco Minutos»

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

CARTOON versus QUADRA

Dia de Caça Grossa
HenriCartoon

«DIA DE CAÇA GROSSA»

Colegas, ala que se faz tarde
Soltem o Fedelho do buraco…
Treze tiros, por unanimidade,
Bem certeiros no olho do cu!

POETA

CARTOON versus QUADRAS

Dia de Caça
HenriCartoon

«DIA DE CAÇA»

Dia de caça, arma na mão,
Soltem logo os professores…
Vou pôr fim aos infratores,
Tenho a mira em prontidão!

Raios partam a má pontaria!
Deixei escapar caça grossa…
Volto à carga assim que possa,
Caçar profes é uma alegria!!

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

HARRY CROWL 
«Suíte Antiga Brasileira» 
III. Matinas de Natal

OUTROS CONTOS

(Continuação...)

«Cinco Minutos», por José de Alencar.

Ler por aqui: I- «OUTROS CONTOS»/ II- «OUTROS CONTOS»/ III- «OUTROS CONTOS»/ IV- «OUTROS CONTOS»/ V- «OUTROS CONTOS»/ VI- «OUTROS CONTOS»/ VII- «OUTROS CONTOS»/ VIII- «OUTROS CONTOS».
Poet'anarquista
«Cinco Minutos»
Barco de Pesca ao Pôr-de-Sol, por Rouault

43- «CINCO MINUTOS»

IX

ERAM seis horas da tarde.
O sol declinava rapidamente e a noite, descendo do céu, envolvia a terra nas sombras desmaiadas que acompanhavam o ocaso.
Soprava uma forte viração de sudoeste, que desde o momento da partida retardava a nossa viagem; lutávamos contra o mar e o vento.
O velho pescador, morto de fadiga e de sono, estava exausto de forças; a sua pá, que a princípio fazia saltar sobre as ondas como um peixe o frágil barquinho, apenas feria agora a flor da água.
Eu, recostado na popa, e com os olhos fitos na linha azulada do horizonte, esperando a cada momento ver desenhar-se o perfil do meu belo Rio de Janeiro, começava seriamente a inquietar-me na minha extravagância e loucura.
À proporção que declinava o dia e que as sombras cobriam o céu, esse vago inexprimível da noite no meio das ondas, a tristeza e melancolia que infunde o sentimento da fraqueza do homem em face dessa solidão imensa de água e de céu, se apoderavam do meu espírito.
Pensava então que teria sido mais prudente esperar o dia seguinte e fazer uma viagem breve e rápida, do que sujeitar-me a mil contratempos e mil embaraços, que no fim de contas nada adiantavam.
Com efeito já tinha anoitecido; e, ainda que conseguíssemos chegar à cidade por volta de nove ou dez horas, só no dia seguinte poderia ver Carlota e falar-lhe.
De que havia servido, pois, todo o meu arrebatamento, toda a minha impaciência? Tinha morto um animal, tinha incomodado um pobre velho, tinha atirado às mãos cheias dinheiro, que poderia melhor empregar socorrendo algum infortúnio e cobrindo esta obra de caridade com o nome e a lembrança dela.
Concebia uma triste ideia de mim; no meu modo de ver então as coisas, parecia-me que eu tinha feito do amor, que é uma sublime paixão, apenas uma estúpida mania; e dizia interiormente que o homem que não domina os seus sentimentos, é um escravo, que não tem o menor merecimento quando pratica um ato de dedicação.
Tinha-me tornado filósofo, minha prima, e decerto compreenderá a razão.
No meio da baía, metido numa canoa, à mercê do vento e do mar, não podendo dar largas à minha impaciência de chegar, não havia senão um modo de sair desta situação, e este era arrepender-me do que tinha feito.
Se eu pudesse fazer alguma nova loucura, creio piamente que adiaria o arrependimento para mais tarde, porém era impossível.
Tive um momento a ideia de atirar-me à água e procurar vencer a nado a distância que me separava dela; mas era noite, não tinha a luz de Hero para guiar-me, e me perderia nesse novo Helesponto.
Foi decerto uma inspiração do céu ou o meu anjo da guarda que me veio advertir que naquela ocasião eu nem sabia mesmo de que lado ficava a cidade.
Resignei-me, pois, e arrependi-me sinceramente.
Dividi com o meu companheiro algumas provisões que tínhamos trazido; e fizemos uma verdadeira colação de contrabandistas ou piratas.
Caí na asneira de obrigá-lo a beber uma garrafa de vinho do Porto, bebendo eu outra para acompanhá-lo e fazer-lhe as honras da hospitalidade. Julgava que deste modo ele restabeleceria as forças e chegaríamos mais depressa.
Tinha-me esquecido de que a sabedoria das nações, ou a ciência dos provérbios, consagra o princípio de que devagar se vai ao longe.
Acabada a nossa magra colação, o pescador começou a remar com uma força e um vigor que me reanimaram a esperança.
Assim, docemente embalado pela ideia de vê-la e pelo marulho das ondas, com os olhos fitos na estrela da tarde, que se ia sumindo no horizonte e me sorria como para consolar-me, senti a pouco e pouco fecharem-se-me as pálpebras, e dormi.
Quando acordei, minha prima, o sol derramava seus raios de ouro sobre o manto azulado das ondas: era dia claro.
Não sei onde estávamos; via ao longe algumas ilhas; o pescador dormia na proa, e ressonava como um boto.
A canoa tinha vogado à mercê da corrente; e o remo, que caíra naturalmente das mãos do velho, no momento em que ele cedera à força invencível do sono, tinha desaparecido.
Estávamos no meio da baía, sem poder dar um passo, sem poder mover-nos.
Aposto, minha prima, que a senhora acaba de dar uma risada, pensando na cómica posição em que me achava; mas seria uma injustiça zombar de uma dor profunda, de uma angústia cruel como a que sofri então.
Os instantes, as horas, corriam de decepção em decepção; alguns barcos que passaram perto, apesar dos nossos gritos, seguiram o seu caminho, não podendo supor que com o tempo calmo e sereno que fazia, houvesse sombra de perigo para uma canoa que boiava tão levemente sobre as ondas.
O velho, que tinha acordado, nem se desculpava; mas a sua aflição era tão grande que quase me comoveu; o pobre homem arrancava os cabelos e mordia os beiços de raiva.
As horas correram assim nessa atonia do desespero. Sentidos em face um do outro, talvez culpando-nos mutuamente do que sucedia, não proferíamos uma palavra, não fazíamos um gesto.
Por fim veio a noite. Não sei como não fiquei louco, lembrando-me de que estávamos a 18, e que o paquete devia partir no dia seguinte.
Não era unicamente a ideia de uma ausência que me afligia; era também a lembrança do mal que ia causar-lhe, a ela, que, ignorando o que se passava, me julgaria egoísta, suporia que a havia abandonado e que ficara em Petrópolis, divertindo-me.
Aterrava-me com as consequências que poderia ter esse fato sobre a sua saúde tão frágil, sobre a sua vida, e me condenava já como assassino.
Lancei um olhar alucinado sobre o pescador e tive ímpetos de abraçá-lo e atirar-me com ele ao mar.
Oh! como sentia então o nada do homem e a fraqueza da nossa raça, tão orgulhosa de sua superioridade e do seu poder!
De que me serviam a inteligência, a vontade e essa força invencível do amor, que me impelia e me dava coragem para arrostar vinte vezes a morte?
Algumas braças d’água e uma pequena distância me retinham e me encadeavam naquele lugar como a um poste; a falta de um remo, isto é, de três palmos de madeira, criava para mim o impossível; um círculo de ferro me cingia, e para quebrar essa prisão, contra a qual toda a minha razão era impotente, bastava-me que fosse um ente irracional.
A gaivota, que frisava as ondas com a ponta de suas asas brancas; o peixe, que fazia cintilar um momento seu dorso de escamas à luz das estrelas; o inseto, que vivia no seio das águas e plantas marinhas, eram reis dessa solidão, na qual o homem não podia sequer dar um passo.
Assim, blasfemando contra Deus e sua obra, sem saber o que fazia nem o que pensava, entreguei-me à Providência; embrulhei-me no meu capote, deitei-me e fechei os olhos, para não ver a noite adiantar-se, as estrelas empalidecerem e o dia raiar.
Tudo estava sereno e tranquilo; as águas nem se moviam; apenas sobre a face lisa do mar passava, uma aragem ténue, que se diria hálito das ondas adormecidas.
De repente, pareceu-me sentir que a canoa deixara de boiar à discrição e singrava lentamente; julgando que fosse ilusão minha, não me importei, até que um movimento contínuo e regular convenceu-me.
Afastei a aba do capote e olhei, receando ainda iludir-me; não vi o pescador; mas a alguns passos da proa percebi os rolos de espuma que formavam um corpo, agitando-se nas ondas.
Aproximei-me e distingui o velho pescador, que nadava, puxando a canoa por meio de uma corda que amarrara à cintura, para deixar-lhe os movimentos livres.
Admirei essa dedicação do pobre velho, que procurava remediar a sua falta por um sacrifício que eu supunha inútil: não era possível que um homem nadasse assim por muito tempo.
Com efeito, passados alguns instantes, vi-o parar e saltar ligeiramente na canoa como temendo acordar-me; a sua respiração fazia uma espécie de burburinho no seu peito largo e forte.
Bebeu um trago de vinho e com o mesmo cuidado deixou-se cair n’água e continuou a puxar a canoa.
Era alta noite quando nesta marcha chegamos a uma espécie de praia, que teria quando muito duas braças. O velho saltou e desapareceu.
Fitando a vista nas trevas, vi uma claridade, que não pude distinguir se era fogo, se luz, senão quando uma porta, abrindo-se, deixou-me ver o interior de uma cabana.
O velho voltou com um outro homem, sentaram-se sobre uma pedra e começaram a falar em voz baixa. Senti uma grande inquietação; na verdade, minha prima, só me faltava, para completar a minha aventura, uma história de ladrões.
A minha suspeita, porém, era injusta; os dois pescadores estavam à espera de dois remos que lhes trouxe uma mulher, e imediatamente embarcaram e começaram a remar com uma força espantosa.
A canoa resvalou sobre as ondas, ágil e veloz como um desses peixes de que havia pouco invejava a rapidez.
Ergui-me para agradecer a Deus, ao céu, às estrelas, às águas, a toda a natureza enfim, o raio de esperança que me enviavam.
Uma faixa escarlate já se desenhava no horizonte; o oriente foi-se esclarecendo de gradação em gradação, até que deixou ver o disco luminoso do sol.
A cidade começou a erguer-se do seio das ondas, linda e graciosa, como uma donzela que, recostada sobre um monte de relva, banhasse os pés na corrente límpida de um rio.
A cada movimento de impaciência que eu fazia, os dois pescadores dobravam-se sobre os remos e a canoa voava. Assim nos aproximamos da cidade, passamos entre os navios, e nos dirigimos à Glória, onde pretendia desembarcar, para ficar mais próximo de sua casa.
Em um segundo tinha tomado a minha resolução; chegar, vê-la, dizer-lhe que a seguia, e embarcar-me nesse mesmo paquete em que ela ia partir.
Não sabia que horas eram; mas há pouco havia amanhecido; tinha tempo para tudo, tanto mais que eu só precisava de uma hora. Um crédito sobre Londres e a minha mala de viagem eram todos os meus preparativos; podia acompanhá-la ao fim do mundo.
Já via tudo cor-de-rosa, sorria à minha ventura e gozava da alegre surpresa que ia causar-lhe, a ela que já não me esperava.
A surpresa, porém, foi minha.
Quando passava diante de Villegaignon, descobri de repente o paquete inglês: as pás se moviam indolentemente e imprimiam ao navio essa marcha vagarosa do vapor, que parece experimentar as suas forças, para precipitar-se a toda a carreira.
Carlota estava sentada sob a tolda, com a cabeça encostada ao ombro de sua mãe e com os olhos engolfados no horizonte, que ocultava o lugar onde tínhamos passado a primeira e última hora de felicidade.
Quando me viu, fez um movimento como se quisesse lançar-se para mim; mas conteve-se, sorriu-se para sua mãe, e, cruzando as mãos no peito, ergueu os olhos ao céu, como para agradecer a Deus, ou para dirigir-lhe uma prece.
Trocamos um longo olhar, um desses olhares que levam toda a nossa alma e a trazem ainda palpitante das emoções que sentiu noutro coração; uma dessas correntes elétricas que ligam duas vidas em um só fio.
O vapor soltou um gemido surdo; as rodas fenderam as águas; e o monstro marinho, rugindo corno uma cratera, vomitando fumo e devorando o espaço com os seus flancos negros, lançou-se.
Por muito tempo ainda vi o seu lenço branco agitar-se ao longe, como as asas brancas do meu amor, que fugia e voava ao céu.
O paquete sumiu-se no horizonte.

José de Alencar

(Continua... amanhã, X e último capítulo do conto, «Cinco Minutos»)