terça-feira, 7 de janeiro de 2014

OUTROS CONTOS

«Cinzas dos Tempos», por Khalil Gibran.

«Cinzas dos Tempos»
Esboço, por Khalil Gibran

58- «CINZAS DOS TEMPOS»

Capítulo II (conclusão)

Primavera do Ano 1890

O dia estava findo, a Natureza fazia os seus muitos preparativos para o sono, e o sol recolhia os seus raios dourados das planícies de Baalbek. Ali El Hussein trazia o seu rebanho de volta ao redil, no meio das ruínas dos templos. Sentava-se ele perto das antigas colunas erguidas em lembrança dos inúmeros soldados tombados no campo de batalha.

As ovelhas faziam um círculo ao redor, encantadas com a música de sua flauta. Veio a meia-noite e o céu espalhou as sementes do dia seguinte nos profundos sulcos da escuridão. Os olhos de Ali cansavam-se das sombras de sua vigília, e a sua mente exauria-se na procissão de fantasmas, marchando em terrível silêncio ao meio de paredes demolidas. Descansou em seu proprio braço, e os seus cinco sentidos o envolveram com a ponta extrema de seu véu em pregas, como uma nuvem delicada, tocando de leve a face de um lago tranquilo. Ali esqueceu-se da sua individualidade atual e encontrou a sua identidade invisível, rico de sonhos e ideais mais altos do que as leis e os ensinamentos dos homens. Seu círculo visual alargou-se-lhe diante dos olhos, e os segredos da Vida tornaram-se, gradualmente, claros a ele. Sua alma abandonou o rápido desfile do tempo, correndo para o nada; ele permaneceu só, entre pensamentos simétricos e idéias transparentes, de tão claras. Pela primeira vez na vida, Ali atinava com as causas da fome espiritual que o acompanhava desde a juventude. A fome que equilibrava a amargura e a doçura da vida. Aquela sede que une o contentamento dos suspiros da Afeição aos silêncios da Satisfação. . . Aquele anseio que não pode ser vencido pela glória do mundo, nem dobrado pelo perpassar dos séculos.

Ali sentiu uma onda de estranha afeição e de bondade terna dentro de si — nada mais, nada menos que a Memória, avivando-se como um incenso a fumegar num turíbulo de prata… Era um amor mágico, cujos dedos macios haviam tocado o coração de Ali como os dedos finos de um músico tocando as cordas sensíveis de seu instrumento… Era um poder novo, emanado do nada e crescendo, irresistivelmente, abarcando o seu ser real e enchendo o seu coração de um amor ardente, ao mesmo tempo dolorido e doce.

Ali olhou para aquelas ruínas, e seus olhos cansados se tornaram vivos, quando imaginou a glória daqueles devastados santuários que ali se erguiam como antigos templos majestosos, inabaláveis. — eternos. Seus olhos pararam e o coração lhe palpitou no peito, acelerado… E, como um cego, cuja vista fosse, repentinamente, recuperada, começou a ver, pensar e meditar. Vieram-lhe à lembranças as lâmpadas e os incensórios de prata que rodeavam a imagem de uma deusa reverenciada e adorada… Ele se lembrou dos sacerdotes oferecendo sacrifícios diante de um altar de ouro e marfim… Vislumbrou as jovens dançando, os tocadores de pandeiros, os cantores que entoavam hinos de louvor à Deusa do Amor e da Beleza; viu tudo isso diante dele, e sentiu-lhes a impressão de obscuridade nas profundezas asfixiantes do coração. Mas só a memoria não traz nada senão os ecos de vozes ouvidas nas profundezas dos tempos idos. Qual, então, a bizarra relação entre essas tão fortes memórias entrelaçadas e a vida real de um jovem simples que nasceu numa tenda e passou a primavera da vida apascentando ovelhas nos vales?

Ali encolheu-se e caminhou no meio das ruínas; e, ruminando memórias, rompeu-se-lhe, de repente, do pensamento, o véu do esquecimento. Ao alcançar a entrada do templo, cava e enorme, parou, como se um poder magnético se apoderasse dele, e apressou o passo. Ao olhar para baixo descobriu uma estátua demolida no chão. Ele se desprendeu do controle do Invisível e, incontinenti, as lágrimas da alma desencadearam-se-lhe e correram como sangue de uma profunda ferida. Gemeu-lhe o coração, arfante, um fluxo e refluxo, como as agitadas ondas do mar.

Suspirou amargamente e chorou penosamente, pois sentia uma solidão apunhalante, uma saudade dorida, como se houvesse um abismo entre o seu coração e o coração de quem se separou antes que nascesse nesta vida. Ele sentiu que a substância de sua alma era apenas uma flama da tocha incandescente que Deus havia separado de Si mesmo, ante do perpassar dos séculos.  Ele percebeu o toque de plumas de delicadas asas esvoaçantes ao redor de seu coração em brasa, e um grande amor possuindo-o… Um amor capaz de separar a mente do mundo que se mede e se pesa… Um amor que se ergue como um farol, a apontar o caminho, guiando com luz invisível… Aquele amor, ou aquele Deus que desceu naquela hora calma sobre o coração de  Ali tinha imprimido em seu ser uma afeição agridoce, como os espinhos que crescem junto a viçosas flores.

Mas quem é esse Amor, e donde veio ele? Que deseja ele de um pastor ajoelhado no meio daquelas ruínas? Será ele uma semente lançada inconscientemente nos domínios do coração por uma beduína? Ou raio de luz partido do fundo de uma nuvem, para iluminar a vida? Será um sonho que se introduziu no silêncio da noite, para ridicularizá-lo? Ou será a Verdade, que sempre existiu, desde o Começo, e continuará existindo, até o Fim?

Ali cerrou os olhos lacrimosos e, estendendo os braços,como um mendigo, exclamou: "Quem és tu, junto ao meu coração e, entretanto, longe de minhas vistas, agindo, como uma parede, entre mim e o meu ser real, ligando o meu presente a um passado olvidado? És tu a sombra de um espectro da Eternidade, para mostrar-me a vaidade da vida e a fraqueza da humanidade? Ou um gênio saído das feridas da terra, para escravizar-me e tornar-me objeto de escárnio entre os jovens da minha tribo? Quem és tu, e qual é este poder estranho que ao mesmo tempo me mata e vivifica o coração? Quem sou eu, e que ser estranho é esse que eu chamo de "eu mesmo"? Será que a Água da Vida que bebi me fez um anjo, vendo e ouvindo os segredos misteriosos do Universo, ou é ela um vinho mau que me intoxicou e me ocultou de mim mesmo?"

Ele calou-se, enquanto crescia a sua ansiedade, e seu espírito exultava. E continuou: "Oh! aquilo que a alma revela e a noite oculta. . . Oh! esplêndido espírito a flutuar sobre os meus sonhos: tu acordaste em mim uma plenitude latente como sementes férteis sob camadas de neve; passaste por mim como uma brisa suave, trazendo ao meu coração faminto a fragrância das flores dos céus; tocaste, agitando-os e sacudindo-os, os meus sentidos, como as folhas de uma árvore. Deixe-me ver-te, se és humano, ou manda que o sono feche meus olhos, para que eu possa ver a tua grandeza, através do meu ser interior. Deixa-me tocar-te; deixa-me ouvir a tua voz! Rompe este véu que impede o meu desejo e destrói este muro que esconde a minha deusa da claridade dos meus olhos — e coloca-me um par de asas para que eu possa voar contigo ao palácio do Supremo Universo. Ou enfeitiça os meus olhos, de modo a poder seguir-te ao esconderijo dos gênios, se és uma de suas noivas. Se mereço, coloca a tua mão sobre o meu coração e toma posse de mim."

Ali murmurou essas palavras na noite mística, quando sentiu a aparição das sombras da noite, como se fossem um vapor das suas lágrimas ardentes. Nas paredes do templo imaginava ver figuras mágicas, pintadas com o pincel do arco-íris.

Assim se passou uma hora, com Ali derramando lágrimas e regozijando-se nos seus terríveis transes; ouvindo as pancadas de seu coração; e olhando além das coisas, como se estivesse observando as imagens da Vida, esvaecendo, vagarosamente, à medida que eram substituídas por um sonho, esquisito em sua beleza, mas terrível em sua enormidade. Como um profeta que contempla as estrelas do céu, aguardando a Hora da Revelação, ele meditava sobre o poder existente além da sua contemplação. Percebia que o seu espírito o abandonava e saía, entre os templos, à procura de um valioso, mas desconhecido seguimento de si mesmo, perdido entre as ruínas.

A madrugada apontou, e o silêncio rugiu ao perpassar da brisa. Os primeiros raios de luz deslizavam, iluminando as partículas de éter, e o céu sorriu, como um sonhador, ao contemplar a imagem da sua bem-amada. Os pássaros emergiam de seus ninhos das fendas das paredes e se engolfavam nos salões entre as colunas, cantando suas preces matinais.

Ali pôs, na testa, a mão em concha, olhando para baixo com olhos embargados. Como Adão, quando Deus lhe abriu os olhos com Seu divino hálito, Ali viu coisas novas, estranhas e fantásticas. Então, reuniu as suas ovelhas e chamou-as, ao que elas o seguiram, mansamente, em direção aos prados verdejantes. Conduzia-as, enquanto contemplava, extasiado, o céu, como um filósofo que adivinhasse os segredos do Universo, meditando sobre eles. Alcançou um riacho, cujo murmúrio era um sedativo para o espírito e sentou-se à beira de uma fonte sob um salgueiro, cujos ramos mergulhavam na água, como que bebendo de suas frescas profundezas. Gotas de orvalho brilhavam na lã das ovelhas que pastavam entre flores e ervas verdejantes.

Em poucos momentos Ali sentiu de novo que as pancadas do coração se lhe amiudavam rapidamente e seu espírito começava a vibrar violentamente, quase visivelmente.Como uma mãe acordada subitamente pelo choro de seu filho, ele saltou de sua posição e, fitando nela, irresistivelmente, os olhos, viu uma linda mulher, trazendo um cântaro a um dos ombros, que se aproximava, lentamente, do outro lado do riacho. Quando ela alcançou a margem e se curvou para encher o vaso, olhou-o em frente, e seus olhos se encontraram com os de Ali. Como se tivesse enlouquecido, deu um grito, deixou cair o cântaro e fugiu rapidamente. Depois voltou-se, olhando, ansiosa, para Ali, sem acreditar no que via.

Passou um minuto, cujos segundos pareceram lâmpadas brilhantes, iluminando os seus espíritos e corações, e o silêncio lhes trouxe uma vaga recordação, revelando-lhes imagens e cenas distantes daquelas árvores e daquele riacho. Eles ouviram, um ao outro, no silêncio que falava, escutando, em lágrimas, os suspiros mútuos partidos do coração e da alma, até que se estabeleceu um completo entendimento entre os dois.

Ali, compelido, ainda, por uma força misteriosa, saltou o riacho, aproximou-se da encantadora criatura, abraçou-a e beijou-a longamente nos lábios. Como se a doçura dos carinhos de Ali houvesse dominado a sua vontade, ela não se moveu, e o toque delicado nos braços de Ali como que lhe roubou os forças. Entregou-se a ele, como a fragrância do jasmim se entrega às vibrações da brisa, que a leva para o firmamento. Ela descansou a cabeça no seu peito, como um sofredor que encontrou descanso. E suspirou profundamente… Um suspiro que anunciava o renascimento da felicidade num coração despedaçado e soava como uma agitação de asas que subissem, depois de terem sido feridas e derrubadas.

Ela ergueu a cabeça, a alma nos olhos — o olhar de alguém que, em profundo silêncio, despreza as palavras convencionais usadas entre os homens; a expressão que oferece miríades de pensamentos na linguagem sem palavras do coração. Ela trazia a aparência de alguém que aceita o Amor, não como uma idéia contida num grupo de palavras, mas como um reencontro que se dá muito depois de duas almas terem sido separadas pela terra e reunidas por Deus, de novo.

O casal enamorado caminhou entre os salgueiros e a unidade das duas almas era a linguagem em que falavam; os olhos com que viam a glória da Felicidade; o ouvido atento aquela magnífica revelação do Amor.

As ovelhas continuavam a pastar, e os pássaros dos céus voejavam ainda sobre as suas cabeças, cantando a canção da Madrugada, que se seguia à amplidão da noite. Ao chegarem ao fim do vale, o sol apareceu, espalhando um véu dourado sobre os outeiros e as colinas, e eles sentaram ao lado de uma pedra junto a qual se escondiam violetas. A linda mulher olhava nos olhos negros de Ali, enquanto a brisa acariciava os seus cabelos que, assim, pareciam pontas de dedos a pedir beijos…

Ela sentiu como se uma brandura mágica e envolvente lhe estivesse tocando os lábios, a despeito de sua vontade, e com uma voz serena e encantadora disse: "Ishtar restaurou os nossos espíritos de outra para esta vida, de modo a não nos ser negada a alegria do Amor e a glória da Juventude, meu amado".

Ali fechou os olhos, como se a voz dela lhe houvesse trazido imagens de um sonho que ele tinha tido, e sentiu como que um par de asas invisíveis levando-o daquele lugar e colocando-o numa estranha alcova, ao lado de uma cama sobre a qual jazia o cadáver de uma mulher, cuja beleza havia sido reclamada pela Morte. Ele gritou, assustado, e, abrindo os olhos, viu a mesma mulher sentada ao seu lado, e nos seus lábios esboçava-se um sorriso. Os olhos dela brilharam com a luz da Vida. Um brilho estranho estampou-se também no rosto de Ali, e seu coração se reconfortou. A imagem de sua visão se retirou, vagarosamente, até que se esqueceu, completamente, do passado e seus cuidados. Os dois amantes abraçaram-se e beberam, juntos, o vinho de beijos capitosos, até se embriagarem. Dormitaram, abraçados, apertadamente, até que as últimas sombras do dia foram dispersadas pelo Poder Eterno e os despertou…

Khalil Gibran

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

OUTROS CONTOS

«Cinzas dos Tempos», por Khalil Gibran.

O escritor libanês Gibran Khalil Gibran, mais conhecido como Khalil Gibran, nasceu em Bicharre, a 6 de Janeiro de 1883. Foi igualmente um importante poeta e pintor, já com referência neste espaço em 10 de Abril de 2012 (efeméride da sua morte), que podem consultar por aqui- «PINTURA - KHALIL GIBRAN». Assinala-se a data do seu nascimento com a publicação do conto «Cinzas dos Tempos», em dois capítulos. Boas leituras!
Poet'anarquista
«Cinzas dos Tempos»
Esboço, por Khalil Gibran

58- «CINZAS DOS TEMPOS»

Capítulo I

Primavera do Ano 116 A.C. 

Já tinha caído a noite, e tudo era silêncio, enquanto a vida se arrastava na Cidade do Sol e as lâmpadas se apagavam nas casas espalhadas entre templos majestosos, ao meio de oliveiras e loureiros. A lua derramava seus raios prateados sobre as colunas de mármore branco, que se erguiam, como gigantes, no silêncio da noite, mantendo guarda aos templos dos deuses e como que contemplando com perplexidade as torres do Líbano, que se erguiam nos cumes, ao longe, das montanhas.

Aquela hora, quando as almas sucumbiam ao peso do sono, Natã, o filho do Sumo Sacerdote, entrou no templo de Ishtar,trazendo, nas mãos trêmulas, uma tocha.

Acendeu as luzes e os incensórios, até que o perfume da mirra e do olíbano alcançasse os últimos recantos; então ajoelhou-se diante do altar crivado de incrustações de ouro e marfim, ergueu as mãos à Ishtar e, com voz embargada e dolorida, exclamou: "Tem piedade de mim, ó grande Ishtar, deusa do Amor e da Beleza. Tem misericórdia e remove as mãos da Morte da minha Amada, eleita da minha alma, por tua vontade. Os remédios dos médicos e dos curandeiros não lhe restauram a vida, nem os encantamentos dos sacerdotes e feiticeiros. Nada resta fazer-se senão a tua santa vontade. Tu és a minha guia e meu auxilio. Tem piedade de mim e ouve a minha prece. Contempla o meu coração e a minha alma sofredora! Poupa a vida da minha Amada, de modo que eu possa regozijar-me com os segredos do teu amor e gloriar-me na juventude, que revela o mistério da tua força e sabedoria. Das profundezas de meu coração imploro a ti, ó suprema Ishtar! Das profundezas da escuridão da noite im­ploro a tua misericórdia! Ouve-me, ó Ishtar! Sou o teu dedicado servo Natã, filho do Sumo Sacerdote Irã, e dedico todas as minhas palavras e atos à tua grandeza, no teu altar.

"Eu amo uma jovem entre todas as jovens e a fiz minha companheira; mas os gênios do mal invejaram-na e sopraram em seu corpo uma aflição estranha e enviaram-lhe o mensageiro da Morte, que se pôs à sua cabeceira, como um espectro faminto, espalmando suas negras asas sobre ela e abrindo as suas agudas garras, prontas para a agarrarem.

"Aqui estou para rogar-te que tenhas piedade de mim e poupes aquela flor que ainda não se regozijou com o Verão da Vida. Salva-a das garras da Morte, de modo a podermos cantar alegremente em teu louvor, queimar incenso em tua honra e oferecer sacrifícios em teu altar, enchendo os teus vasos com óleo perfumado, espalhando rosas e violetas no teu lugar de adoração e queimando olíbano diante de teu sacrário. Salva-a, ó Ishtar, deusa dos milagres, e faze com que o Amor vença a Morte nesta luta da Alegria contra a Tristeza".

Natã então calou-se. Seus olhos inundaram-se de lágrimas e seu coração soltava sentidos suspiros; e depois continuou: "Ai de mim! Meus sonhos se desfizeram, ó divina Ishtar, e meu coração murchou. Revigora-me com a tua misericórdia e poupa a minha Amada!"

Nesse instante um dos seus escravos entrou no templo, correu até Natã e sussurrou-lhe aos ouvidos: "Ela abriu os olhos, senhor, e, olhando ao redor, na sua cama, não o encontrou; então chamou pelo senhor, e vim, por isso, à toda pressa, chamá-lo". Natã partiu apressadamente e o escravo seguiu-o.

Quando ele chegou ao seu palácio, entrou no quarto da pobre enferma, curvou-se sobre a sua cama, segurou-lhe a mão delicada e frágil, e beijou-a nos lábios várias vezes, como que tentando transfundir no corpo dela uma nova vida de sua própria vida. Ela moveu a cabeça nas almofadas de seda e abriu os olhos. Brotou-lhe nos lábios a sombra de um sorriso que era um leve resto de vida do seu corpo gasto, eco do apelo de um coração que parece parar aos poucos. E com uma voz que soava como o choro sumido de uma criança com fome, ao seio de uma mãe exangue, ela disse: "A Deusa chamou-me, ó Vida da minha Alma, e a Morte veio separar-me de ti. Mas não temas, pois a vontade da Deusa é sagrada, e as exigências da Morte são justas. Estou partindo agora e ouço o sussurro de uma alvura que desce sobre mim; mas as taças do Amor e da Juventude ainda estão cheias em nossas mãos, e os caminhos floridos da Vida ainda se estendem, belos, à nossa frente. Estou partindo, meu Amado, na arca do espírito, mas voltarei a este mundo, pois a grande Ishtar trará de volta à vida as almas dos namorados que partirem para a Eternidade antes de gozarem a doçura do Amor e a ventura da Juventude.

"Encontrar-nos-emos, de novo, Natã e beberemos juntos o orvalho da madrugada nas taças das pétalas dos lírios e nos regozijaremos com os pássaros das campinas além das cores do arco-íris. Até então, meu-por-toda-a-vida, adeus!"

Sua voz baixou, e seus lábios tremeram, como a flor solitária ante as lufadas da madrugada. Natã abraçou-a, com lágrimas nos olhos e, ao apertar os seus nos lábios dela, sentiu-os frios como uma pedra. Soltou um grito alucinante e começou a rasgar as suas vestes. E atirou-se ao corpo inanimado, enquanto sua alma em pranto boiava, inconsciente, entre a montanha da Vida e o precipício da Morte.

No silêncio da noite as almas adormecidas acordaram. Mulheres e crianças aterrorizaram-se ao ouvirem um grande estrondo, os penosos gritos e as amargas lamentações que vinham de todos os cantos do palácio do Sumo Sacerdote de Ishtar.

Quando chegou a manhã cansada, seus amigos procuraram Natã, para apresentar-lhe as suas expressões de simpatia; mas disseram-lhes que ele havia desaparecido. Uma quinzena depois o chefe de uma caravana recém-chegada do Oriente informou que havia visto Natã num deserto distante, vagando com um bando de gazelas.

As idades passaram, esmagando, com os pés invisíveis, os vislumbres de civilizações, e a Deusa do Amor e da Beleza tinha deixado a região. Uma deusa estranha e fraca tomou o seu lugar. Ela destruiu os magníficos templos da Cidade do Sonho e demoliu os seus lindos palacios.  Granjas florescentes e férteis prados foram devastados, e nada restou no local, senão ruínas, lembrando às almas sensíveis os gênios de Ontem, e repetindo aos espíritos tristes o eco, apenas, dos hinos de glória. Mas as idades cruéis que esmagaram os feitos dos homens não puderam apagar os seus sonhos nem puderam enfraquecer o seu amor, pois os sonhos e as afeições são eternos, como o Espírito Eterno. Sonhos e afeições podem desaparecer, por algum tempo, acompanhando o sol, quando a noite vem, e as estrelas, quando a manhã desponta, mas, como as luzes dos céus, eles, infalivelmente, voltam.

Khalil Gibran

Amanhã, capítulo II  e conclusão do conto «Cinzas dos Tempos».

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(6 de Janeiro de 1993, morre o compositor e trompetista de jazz norte-americano, Dizzy Gillespie)

DIZZY GILLESPIE - «For The Gypsies»

domingo, 5 de janeiro de 2014

CARTOON versus QUADRA

Os sentimentos de um portista aos familiares e adeptos benfiquistas. Obrigado Eusébio pela tua magia, classe e humildade no mundo do futebol! 
Poet'anarquista
«Pantera Negra»
HenriCartoon

«PANTERA NEGRA»

Sobe ao céu, envolto em magia,
«Pantera Negra» d' alma pura…
Desce o seu corpo à terra fria,
Descansa em paz na sepultura.

POETA

«NOITE AZUL», POR MALANGATANA

Foi no dia 5 de Janeiro de 2011. O grande pintor moçambicano Malangatana Valente Nguenha, conhecido por Malangatana, falecia no Hospital Pedro Hispano em Matosinhos. Pode rever por aqui- «PINTURA - MALANGATANA», ou ainda por aqui- «CRAVEIRINHA versus MALANGATANA», sobre vida e obra deste extraordinário artista africano.
Poet'anarquista
«Noite Azul»
Malangatana

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(5 de Janeiro de 2011, morre o baixista e compositor inglês, Mick Karn)

MICK KARN - «Saday, Maday»

OUTROS CONTOS

«Os Três Cosmonautas», por Humberto Eco.

O escritor italiano Humberto Eco, nasceu em Alexandria, a 5 de Janeiro de 1932. Para comemorar a data de aniversário do autor italiano, publica-se em sua homenagem «Os Três Cosmonautas», na rubrica «Outros Contos». Parabéns ao aniversariante e boa leitura aos visitantes deste espaço!
Poet'anarquista 
«Os Três Cosmonautas»
Conto de Humberto Eco

57- «OS TRÊS COSMONAUTAS»

Era uma vez a Terra.

E era uma vez Marte.

Ficavam muito longe um do outro, no meio do céu, e à volta havia milhões de planetas e de galáxias.
Os homens que estavam na Terra queriam ir a Marte e aos outros planetas: mas estavam tão longe!

Porém não descansaram. Primeiro lançaram satélites que andavam à roda da terra por dois dias e depois vinham de novo.

Depois lançaram foguetões que davam algumas voltas à Terra mas, em vez de regressarem, acabavam por escapar à atracção terrestre e seguiam para o espaço.

Primeiro, puseram cães nos foguetões: mas os cães não sabiam falar, e pela rádio só transmitiam “béu béu”. E os homens não percebiam o que eles tinham visto e até onde chegavam.

Por fim arranjaram homens corajosos que quiseram ser cosmonautas. Os cosmonautas tinham este nome porque iam explorar o cosmos, que é o espaço infinito com os planetas, as galáxias e tudo o que têm à sua volta.

Os cosmonautas partiam e não sabiam se voltariam ou não. Queriam conquistar as estrelas para que um dia todos pudessem viajar de um planeta para outro, porque a Terra se tornara demasiado apertada e os homens aumentavam de dia para dia.

Numa bela manhã, partiram da Terra três foguetões de três pontos diferentes.

No primeiro ia um americano, que, todo alegre, assobiava uma ária de jazz.

No segundo ia um russo que cantava com voz profunda Volga, Volga.

No terceiro ia um chinês, que cantava uma belíssima canção, que os outros dois achavam desafinada.
Cada um queria ser o primeiro a chegar a Marte, para mostrar que era o mais valente.

Na verdade, o americano não gostava do russo e o russo não gostava do americano, e o chinês desconfiava dos dois.

E isto, porque o americano, para dizer bom dia, dizia: how do you do, o russo dizia 3дpacтвyйтe e o chinês dizia bom dia em chinês. Não se percebiam e julgavam-se diferentes.

Como os três eram todos valentes, chegaram a Marte quase no mesmo instante. Desceram das suas astronaves, de capacete e fato espacial… E descobriram uma paisagem maravilhosa e inquietante: o terreno era sulcado por longos canais cheios de uma água de cor verde-esmeralda. Havia estranhas árvores azuis com aves nunca vistas, de penas de cores estranhíssimas. Lá no horizonte viam-se montanhas vermelhas que emitiam estranhos brilhos.

Os cosmonautas olhavam a paisagem, olhavam uns para os outros, e mantinham-se afastados, cada um desconfiado dos outros. Depois veio a noite.

Havia à roda um estranho silêncio, e a Terra brilhava no céu como se fosse uma longínqua estrela.
Os cosmonautas sentiam-se tristes e perdidos e o americano, na escuridão, chamou pela mãe. Disse Mommy…

E o russo disse: Mama.

E o chinês disse: Ma-ma.

Mas compreenderam logo que estavam a dizer a mesma coisa e tinham os mesmos sentimentos. E sorriram, aproximaram-se, acenderam juntos uma bela fogueira, e cada um cantou canções do seu país.

Então encheram-se de coragem e, à espera da manhã, aprenderam a conhecer-se.

Por fim, veio a manhã e fazia muito frio. E, de repente, de um tufo de árvores saiu um marciano. Tinha um aspecto horrível! Era todo verde, tinha duas antenas no sítio das orelhas, uma tromba, e seis braços. Olhou para eles e disse: Grrr!

Na sua língua queria dizer: “Mãezinha, o que são estes seres horríveis?”

Mas os terrestres não o compreenderam e julgaram que era um rugido de guerra. Era tão diferente deles que não foram capazes de o compreender e de o amar. Os três sentiram-se logo iguais e uniram-se contra ele.

Perante aquele monstro, as suas pequenas diferenças desapareciam. Que importava se falavam uma linguagem diferente? Compreenderam que eram os três seres humanos. O outro não. Era demasiado feio, e os terrestres pensavam que quem é feio também é mau. Por isso resolveram matá-lo com os seus desintegradores atómicos.

Mas, de repente, na grande geada da manhã, um passarinho marciano, que, evidentemente, fugira do ninho, caiu no chão, tremendo de frio e de medo. Piava desesperadamente, mais ou menos como um passarinho terrestre. Fazia mesmo pena. O americano, o russo e o chinês olharam-no e não conseguiram reter uma lágrima de compaixão.

E então aconteceu uma coisa estranha. Também o marciano se aproximou do passarinho, olhou para ele, e deixou escapar da tromba dois fios de fumo.

E os terrestres, de repente, compreenderam que o marciano estava a chorar à sua maneira, como fazem os marcianos.

Depois viram-no baixar-se para o passarinho e segurá-lo nos seus seis braços, tentando aquecê-lo.
O chinês voltou-se então para os dois amigos terrestres.

— Compreenderam? — disse. — Nós julgávamos que este monstro era diferente de nós, e afinal ele também ama os animais, pode comover-se, tem um coração e certamente um cérebro! Ainda acham que devemos matá-lo?

Nem era pergunta que se fizesse.

Os terrestres agora tinham compreendido a lição: não basta que duas criaturas sejam diferentes para que tenham de ser inimigas.

Por isso aproximaram-se do marciano e estenderam-lhe as mãos. E ele, que tinha seis, apertou de uma vez só a mão aos três, enquanto com as mãos livres fazia gestos de saudação.

E, apontando para a Terra, lá em cima no céu, deu a entender que desejava fazer uma viagem para conhecer os outros habitantes e estudar com eles a maneira de fundar uma grande república espacial, em que todos vivessem com amor e concórdia.

Os terrestres disseram que sim, todos contentes. E para festejar o acontecimento, ofereceram-lhe uma garrafinha de água fresquíssima trazida da terra. O marciano, muito feliz, meteu o nariz na garrafa, aspirou e disse que gostara muito daquela bebida, se bem que lhe fizesse andar a cabeça à roda. Mas agora os terrestres já não se espantavam. Tinham concluído que na Terra, tal como nos outros planetas, cada um tem os seus gostos, e é só questão de se compreenderem uns aos outros.

Humberto Eco

sábado, 4 de janeiro de 2014

CARTOON versus QUADRA

Novos Transportes Públicos Gratuitos
HenriCartoon

«NOVOS TRANSPORTES PÚBLICOS GRATUITOS»

E tudo o vendaval levou
À boleia, por cá foi único,
O Zé Povinho nada pagou
No novo transporte público!

POETA

OUTROS CONTOS

«À Imagem e Semelhança», por Mario Benedetti

«À Imagem e Semelhança»
Conto por Mario Benedetti

56- «À IMAGEM E SEMELHANÇA» 

EIa era a última formiga da caravana, e não pôde seguir a mesma rota das suas colegas. Um torrãozinho de açúcar tinha escorregado do alto, quebrando-se em vários pedacinhos. Era um deles que lhe interceptava o passo. Por um momento a formiga ficou imóvel em cima do papel cor creme. Em seguida, seus pezinhos dianteiros sondaram o cubinho. Retrocedeu, depois parou. Pegando seus pés traseiros quase como ponto fixo de apoio, deu uma volta em redor de si mesma no sentido dos ponteiros do relógio. Só então se aproximou de novo. As patinhas dianteiras se esticaram, numa primeira tentativa de erguer o açúcar, mas fracassaram. Porém, o rápido movimento fez com que o torrão ficasse mais bem posicionado para a operação de carga. Dessa vez a formiga investiu lateralmente no seu objetivo, ergueu o cubinho e segurou-o acima de sua cabeça. Por um instante pareceu vacilar, logo reiniciou a viagem, com um passo mais lento que o que a trouxera. Suas colegas já estavam longe, fora do papel, perto do rodapé. A formiga se deteve, exatamente no ponto em que a superfície sobre a qual andava mudava de cor. Os seis pezinhos pisaram um N maiúsculo e escuro. Depois de uma momentânea parada, acabou por atravessá-lo. Agora a superfície era outra vez clara. De repente o torrão escorregou sobre o papel, quebrando-se em dois. A formiga fez então uma ronda que incluiu uma parada para inspecionar ambas as porções, e escolheu a maior. Carregou-a e avançou. No caminho, livre até esse instante, apareceu um toco esmagado. Contornou-o lentamente e, quando reapareceu do outro lado do toco, a superfície havia-se tornado novamente escura, porque nesse instante o trajeto da formiga ocupava o lugar de um A. Houve uma leve corrente de ar, como se alguém tivesse soprado. Formiga e carga rolaram. Agora o grão se desintegrou por completo. A formiga caiu sobre suas patas e empreendeu uma louca corrida em círculos. Em seguida pareceu tranquilizar-se. Caminhou em direção a um dos grãos de açúcar que anteriormente tinha formado parte do meio torrão, mas não o carregou. 

Quando reiniciou sua marcha não havia perdido o caminho. Passou rapidamente sobre um D escuro e, ao reingressar na zona clara, outro obstáculo a deteve. Era um pedacinho de alguma coisa, um pauzinho, por acaso três vezes maior do que ela mesma. Retrocedeu, avançou, tateou o pauzinho, ficou imóvel durante alguns segundos. Depois recomeçou a tarefa da carga. Por duas vezes o pauzinho escorregou, mas afinal ficou bem firme, como um tipo de haste inclinada. Ao passar sobre a área do segundo A escuro, o andar da formiga era quase triunfal. No entanto, não havia ainda avançado dois centímetros pela superfície clara do papel, quando alguma coisa ou alguém moveu aquela folha e a formiga rodou, mais ou menos curvada sobre si mesma. Só conseguiu reincorporar-se quando alcançou a madeira do assoalho, a cinco centímetros, estava o pauzinho. A formiga avançou até ele, desta vez com parcimónia, como medindo cada sêxtuplo passo. Mesmo assim, chegou até seu objetivo, mas, quando esticava as patas dianteiras, novamente correu aquele ar e o pauzinho rodou até deter-se dez centímetros mais longe, caindo numa das fendas que separavam as tábuas do assoalho. Um dos extremos, porém, emergia para cima. Para a formiga, tal posição representou de certa maneira uma facilidade, já que permitiu fazer uma volta para tentar a operação de um ângulo mais favorável. Meio minuto depois, a tarefa estava cumprida. A carga, outra vez alçada, estava agora numa posição mais próxima da estrita horizontalidade. A formiga reiniciou a marcha, sem desviar-se jamais do seu caminho em direção ao rodapé. 

As outras formigas, com seus respectivos suprimentos, haviam desaparecido por algum invisível buraco. Sobre a madeira, a formiga avançava mais lentamente do que sobre o papel. Um nó bastante rugoso da tábua significou uma demora de mais um minuto. O pauzinho esteve a ponto de cair, mas um certo vaivém do corpo da formiga segurou sua estabilidade. Dois centímetros mais e um golpe ressoou. Um golpe aparentemente dado sobre o assoalho. Exatamente como as outras, essa tábua vibrou e a formiga deu um pulinho involuntário, durante o qual perdeu sua carga. O pauzinho ficou atravessado na tábua contígua. O trabalho seguinte foi atravessar a fenda, que já nesse ponto era bastante profunda. A formiga aproximou-se da beira, fez um leve avanço em sentido de alerta, mas, mesmo assim, precipitou-se naquele abismo de centímetro e meio. Demorou vários segundos para refazer-se, escalar o lado oposto da fenda e reaparecer na superfície da tábua seguinte. Ali estava o pauzinho. A formiga permaneceu um momentinho junto dele, sem outro movimento a não ser um intermitente tremor das patas dianteiras. Depois levou a termo sua quinta operação de carga. O pauzinho ficou horizontal, porém um pouco oblíquo em relação ao corpo da formiga. Ela fez um movimento brusco e dessa forma a carga ficou mais bem acomodada. A meio metro estava o rodapé. A formiga avançou na direção anterior, que, nesse espaço, por coincidência, se correspondia com a fenda. Agora o passo era rápido, e o pauzinho não parecia correr nenhum risco de cair. A dois centímetros de sua meta, a formiga se deteve, novamente alerta. 

Então, do alto, apareceu um polegar, um grosso dedo humano,
e conscientemente esmagou carga e formiga.

Mario Benedetti

CARTOON versus QUADRAS

Afinal o Fisco tem Coração
HenriCartoon

«AFINAL O FISCO TEM CORAÇÃO»

-Dizes ter recebido uma viatura
Que o fisco acabou de sortear,
Só porque pediste a factura
Com NIF? Não dá pra acreditar!

-Ah pois foi, um rico carro na hora!
-Tens a certeza? Cheira a confusão…
Deve ser alguma maldita penhora,
Coima, ou talvez contraordenação…

-Népia! Grande carrão sorteado…
Ao sério, fui o feliz contemplado!
-E onde se encontra estacionado?
-Na garagem do fisco penhorado!!

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

LITTLE FEAT - «Willin'»

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

«OS TRÊS REIS MAGOS»

«Os Três Reis Magos»
Telegrama de Boas Festas
Poet'anarquista

OUTROS CONTOS

«O Presente dos Reis Magos», por O. Henry.

Este conto clássico de O. Henry (pseudónimo do escritor americano William Sydney Porter), o mestre do jogo de palavras, foi publicado em 1906. Os temas de Henry fazem dele um eterno favorito do género. O seu legado está imortalizado no prestigiado «Prémio O. Henry», concedido ao autor americano ou canadense do melhor conto do ano.
Poet'anarquista
«O Presente dos Reis Magos»
Três Reis Magos Seguindo a Estrela 
St. Albans Psalter/ 1140/ Artista Desconhecido

55- «O PRESENTE DOS REIS MAGOS»

Um dólar e oitenta e sete centavos. Era tudo. E, desse valor, sessenta centavos eram em moedinhas de um. Moedinhas poupadas uma ou duas de cada vez, pechinchando na mercearia, no verdureiro, no açougueiro, até o rosto arder com a imputação calada de parcimônia que essas duras negociações envolviam. Della contou três vezes. Um dólar e oitenta e sete centavos. E o dia seguinte seria Natal.
Era claro que não havia nada a fazer senão cair no sofázinho puído e chorar. E foi o que Della fez. E isso instiga a reflexão moral de que a vida é formada por soluços, fungadas e sorrisos, com predomínio de fungadas.
Enquanto a dona da casa passa gradualmente do primeiro para o segundo estágio, deem uma olhada na casa. Um apartamento mobiliado que custa oito dólares por semana. 
Não é muito extraordinário descrevê-lo.
No vestíbulo do andar térreo havia uma caixa de correio na qual nenhuma carta entrava e um botão elétrico do qual nenhum dedo mortal arrancaria um som de campainha. Também havia um cartão com o nome “Sr. James Dillingham Young”.
O “Dillingham” fora mostrado ao mundo durante um período anterior de prosperidade em que pagavam ao seu possuidor 30 dólares por semana. Contudo, agora que sua renda encolhera para 20 dólares, eles pensavam seriamente em adotar um modesto e despretensioso D. Mas, sempre que chegava e se dirigia ao apartamento no andar de cima, o Sr. James Dillingham Young era chamado de “Jim” e muito abraçado pela Sra. James Dillingham Young, já apresentada aqui como Della. O que é tudo muito bom.
Della parou de chorar e cuidou das bochechas com pó de arroz. Ficou em pé junto à janela e olhou à toa o gato cinzento que andava numa cerca cinzenta num quintal cinzento. Amanhã seria o dia de Natal e ela só tinha US$ 1,87 para comprar um presente para Jim. Economizara cada centavo que conseguira durante meses, e era esse o resultado. Vinte dólares por semana não dão para muita coisa. As despesas tinham sido maiores do que ela calculara. Sempre são.
Apenas US$ 1,87 para comprar um presente para Jim. O seu Jim. Muitas horas felizes passou ela planejando algo agradável para ele. Algo fino, raro, esterlino – algo apenas um tiquinho próximo de ser merecedor da honra de pertencer a Jim.
Havia um espelho de parede entre as janelas da sala. Talvez os senhores já tenham visto um espelho de parede num apartamento de oito dólares. Uma pessoa magérrima e agilíssima, ao observar seu reflexo numa rápida sequência de tiras longitudinais, pode obter uma concepção bastante exata da própria aparência. Della, por ser magra, dominara a arte.
De repente, ela rodopiou e parou diante do espelho. Os olhos faiscavam brilhantes, mas o rosto perdera a cor em vinte segundos. Rapidamente, ela soltou o cabelo e o deixou cair.
Havia duas posses das quais os Dillingham Young se orgulhavam muito. Uma era o relógio de ouro de Jim, que fora do pai e do avô dele. A outra era o cabelo de Della. Se a rainha de Sabá morasse no apartamento ao lado, Della deixaria o cabelo pender da janela só para depreciar as joias e os dons de Sua Majestade. Se o rei Salomão fosse o zelador, com seus tesouros empilhados no porão, Jim tiraria o relógio toda vez que passasse só para vê-lo puxar a barba de inveja.
Assim, agora o lindo cabelo de Della caía em torno da moça, ondulando e luzindo como uma cascata de águas castanhas. Chegava abaixo do joelho e quase seria como vestido para ela. E então ela o prendeu de novo, nervosa e rapidamente. Vacilou um minuto e ficou imóvel enquanto uma ou duas lágrimas respingavam no gasto tapete vermelho.
Ela vestiu o velho casaco marrom e colocou o velho chapéu marrom. Com um rodopio de saias e a faísca brilhante ainda nos olhos, Della tremulou pela porta e desceu a escada até a rua.
Onde parou, a placa dizia: “Mme. Sofronie. Todos os tipos de produtos de cabelo.” Um lance de escada Della subiu correndo e se recuperou, ofegante. Madame, grande, branca demais, gelada, mal parecia “Sofronie”.
– Compra o meu cabelo? – perguntou Della.
– Compro cabelo – disse Madame. – Tire o chapéu e vamos dar uma olhada no jeito dele.
E lá desceu ondulante a cascata castanha.
 – Vinte dólares – disse Madame, erguendo a massa com mão treinada.
– Dê aqui, depressa – disse Della.
Ah, e as duas horas seguintes atropeladas por asas cor-de-rosa. Esqueça a metáfora rebuscada. Ela esquadrinhava as lojas atrás do presente de Jim.
Finalmente o encontrou. Sem dúvida fora feito para Jim e para mais ninguém. Não havia nada parecido em nenhuma das lojas, e ela virara todas do avesso. Era uma corrente de relógio de platina, de desenho simples e casto, que proclamava com propriedade o seu valor apenas pela substância e não pela ornamentação barata – como tudo o que é bom deveria ser. Era até merecedora d’O Relógio. Assim que a viu, soube que tinha de ser de Jim. Era como ele. Tranquilidade e valor – a descrição se aplicava a ambos.
Vinte e um dólares tiraram dela pela corrente, e ela correu para casa com os 87 centavos. Com aquela corrente no relógio, Jim, com toda a propriedade, poderia ficar ansioso em ver a hora estando em companhia de qualquer pessoa. Por mais grandioso que fosse o relógio, ele às vezes o olhava com timidez por conta da antiga correia de couro que usava em vez de uma corrente.
Quando Della chegou em casa, o estado inebriante deu lugar a um pouco de prudência e razão. Ela pegou os ferros de cachear, acendeu o gás e se pôs a trabalhar para reparar a devastação feita pela generosidade somada ao amor. O que é sempre uma dura tarefa, caros amigos – uma tarefa mastodôntica.
Em quarenta minutos, sua cabeça estava coberta de minúsculos cachinhos que a deixavam parecida com um menino travesso. Ela olhou o reflexo no espelho longa, cuidadosa e criticamente.
“Se Jim não me matar”, disse a si mesma, “antes de dar uma segunda olhada em mim, dirá que pareço uma garota de coro de Coney Island. Mas o que eu poderia fazer... Ah! O que poderia fazer com um dólar e oitenta e sete centavos?”
Às sete horas da noite, o café estava pronto e a frigideira, na parte de trás do fogão, quente e preprada para receber as costeletas.
Jim nunca se atrasava. Della dobrou na mão a corrente de relógio e sentou-se no canto da mesa perto da porta por onde ele sempre entrava. Então ouviu os passos dele na escada, lá embaixo no primeiro lance, e ficou branca apenas um instante. Era um hábito seu dizer uma pequena oração silenciosa pelas coisas mais simples e cotidianas, e nesse momento sussurrou: “Deus, por favor, faça com que ele ainda me ache bonita.”
A porta se abriu, Jim entrou e a fechou. Parecia magro e seriíssimo. Pobre rapaz, tinha apenas 22 anos – e sobrecarregado com uma família! Precisava de um sobretudo novo e estava sem luvas.
Jim parou à porta, já dentro da sala, tão imóvel quanto um cão de caça ao sentir o cheiro da presa. Os olhos estavam fixos em Della, e havia neles uma expressão que ela não conseguia ler, e isso a aterrorizou. Não era raiva, nem surpresa, nem desaprovação, nem horror, nem qualquer dos sentimentos para os quais ela se preparara. Ele apenas a fitava fixamente com aquela expressão peculiar no rosto.
Della se contorceu para sair da mesa e foi até ele.
– Jim, querido – ela disse, angustiada –, não me olhe desse jeito. Mandei cortar o cabelo e o vendi porque não conseguiria passar o Natal sem lhe dar um presente. Ele crescerá de novo. Você não se importa, não é? Eu tive de fazer isso. O meu cabelo cresce muitíssimo depressa. Diga “Feliz Natal!”, Jim, e sejamos felizes. Você não sabe que presente bom, que presente bom e lindo tenho para você.  
– Você cortou o cabelo? – perguntou Jim com esforço, como se ainda não tivesse chegado àquele fato nem depois da mais dura labuta mental.
– Cortei e vendi – respondeu Della. – Você não gosta de mim de qualquer forma? Continuo a mesma sem o cabelo, não?
Jim deu uma olhada na sala.
– Está dizendo que seu cabelo se foi? – perguntou com um ar quase idiota.
– Não precisa procurar por ele – disse Della. – Foi vendido, estou lhe dizendo. É véspera de Natal, rapaz. Seja bom comigo, porque ele se foi por você. Talvez os fios de cabelo da minha cabeça pudessem ser contados – continuou ela, com doçura séria e súbita –, mas ninguém jamais conseguiria medir o meu amor por você. Posso pôr as costeletas no fogo, Jim?
Jim pareceu despertar do transe e abraçou sua Della. Durante dez segundos, olhemos com atenção discreta algum objeto inconsequente na outra direção. Oito dólares por semana ou um milhão por ano: qual é a diferença? Um matemático ou um espirituoso lhes dariam a resposta errada. Os reis magos deram presentes valiosos, mas esse não estava entre eles. Essa afirmação sombria será esclarecida mais adiante.
Jim tirou um pacote do bolso do sobretudo e o largou em cima da mesa.
– Não se engane comigo, Dell – disse ele. – Não acho que haja nada parecido com um corte, raspagem ou lavagem de cabelo que possa me fazer gostar menos da minha garota. Mas se desembrulhar esse pacote, verá por que me deixou perplexo a princípio.
Dedos brancos e ágeis rasgaram o barbante e o papel. E então um grito extático de alegria, seguido por uma rápida mudança feminina para lágrimas e gemidos histéricos, exigindo o emprego imediato dos poderes consoladores do senhor do apartamento.
Pois lá estavam As Presilhas – o conjunto de presilhas, lateral e traseira, que Della adorara por muito tempo numa vitrine da Broadway. Lindas presilhas, de pura tartaruga, com a borda cravejada – do tom exato para usar no lindo cabelo desaparecido.
Eram presilhas caras, ela sabia, e o seu coração simplesmente desejara e ansiara por elas sem a mínima esperança de posse. E agora eram dela, mas as tranças que receberiam os cobiçados adornos tinham-se ido.
Assim mesmo, ela as abraçou junto ao peito, e finalmente foi capaz de erguer os olhos turvos com um sorriso e dizer:
– Meu cabelo cresce tão depressa!
Então Della pulou de pé como um gatinho chamuscado. Jim ainda não vira o seu lindo presente. Ela o entregou ansiosa, na palma da mão aberta. O metal fosco e precioso pareceu relampejar com um reflexo do seu espírito claro e ardente.
– Não é linda, Jim? Procurei‑a pela cidade inteira até encontrar. Agora você terá de olhar as horas cem vezes por dia. Dê-me o seu relógio. Quero ver como fica.
Em vez de obedecer, Jim se recostou no sofá, pôs as mãos na nuca e sorriu.
– Dell – disse ele –, vamos deixar de lado nossos presentes de Natal e guardá-los por algum tempo. São bons demais para usar neste momento. Vendi o relógio para ter dinheiro para comprar suas presilhas de cabelo. E agora acho que você pode pôr as costeletas no fogo.
Os reis magos, segundo a tradição, eram homens sábios – maravilhosamente sábios – que levaram presentes ao bebê na manjedoura. Eles inventaram a arte de dar presentes de Natal. Por serem sábios, seus presentes, sem dúvida, eram sábios, possivelmente com o privilégio da troca em caso de duplicação. E aqui, inepto, contei-lhes a crônica rotineira de dois jovens tolos num apartamento que, de forma nada sábia, sacrificaram um pelo outro os maiores tesouros da casa.
Mas, numa última palavra aos sábios de hoje em dia, é bom que se diga que, de todos os que dão presentes, esses dois foram os mais sábios. De todos os que dão e recebem presentes, os que são como eles são os mais sábios. Em toda parte são os mais sábios. São eles os reis magos.

O. Henry

ESPECIAL MÚSICAS DO MUNDO

E a música especial de hoje é...
(Dedicada ao aniversariante da manhã do dia 3, do mês de Janeiro, do ano de 1991)

STEPPENWOLF - «Happy Birthday»
Happy Birthday by Steppenwolf on Grooveshark
Poet'anarquista

FELIZ ANIVERSÁRIO

Feliz aniversário, querida, querida, amada,
Eu espero que você termine seu livro, seu diário
E na próxima manhã você estará um dia mais velha,
Mais um dia para você contemplar
Feliz aniversário, querida, querida, amada,
Eu espero que você termine seu livro, seu diário

E na próxima manhã você estará um dia mais velha,
Mais um dia para você contemplar
Feliz aniversário, amor.

Steppenwolf

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

CARTOON versus SONETO

As Passas do Algarvio
HenriCartoon

«AS PASSAS DO ALGARVIO»

-Animal, pró pedido resultar
As passas a engolir são doze,
Depois então podes formular
Desejos pra dois mil e catorze!

-Sinto-me cheio, adodada Madia,
Com o estômago muito inchado…

-Outra vez essa inesperada azia…
Mas que comeste tu, Acabado?

-Madia, faz tempo que não engolia
Tão indigesto Odçamento d’ Estado…
Bem avisaste: «Animal, eu não lia!»

Cheio de chumbo, o metal pesado
Actua  pelos intestinos à luz do dia,
E à noite, fico meio empantuddado!

POETA

Glossário: 
adodada - adorada 
Madia - Maria 
Odçamento - Orçamento 
empantuddado - empanturrado.

OUTROS CONTOS

«Clarisse Dançava», por Lázaro Marback D’Oliveira.

«Clarisse Dançava»
Anna Pavlova, por John Lavery

54- «CLARISSE DANÇAVA»

Secular ancila negra,
Sob correntes paralisantes,
Fita flébil, o inquieto infinito.
-Maravilha-se
E assim mesmo… Dança.
Na realidade poder-se-ia dizer…
Clarice nasceu dançando!

Quando ainda muito pequena, pequerrucha – miúda mesmo – já deu seus primeiros passos dançando. Seu desejo de dançar veio da alma, de dentro de si. Por isso ninguém jamais soube por que se manifestou este talento em Clarice.
“Por que tanto dançava Clarice?”
Clarice caminhava dançando, banhava-se dançando; dançando sorria, dançando vivia. Quando um novo dia raiava, encontrava Clarice dançando. Mesmo à noite se Clarice dormia e sonhava; sonhava que estava dançando.
Clarice que muito sorria pouco falava. Não pedia, não reclamava.
“Clarice somente dançava!”
Assim crescia Clarice, dançando. O sol ao surgir parecia vir lhe saudar todos os dias e que só resplandecia para vê-la dançar e sorrir. Na sua alegria Clarice dançava, era assim dançando que a Deus agradecia, e dançando dia adentro permanecia. Enfim, quando o crepúsculo retornava não raro a encontrava dançando.
Quando Clarice dançava, dançava toda Clarice. Dançavam seus olhos, seu dorso, seu sorriso. Até seus crespos cabelos negros, no ar, pareciam dançar.
Aos quinze anos, não era somente devido a suas danças, sempre originais, que Clarice a todos encantava, também pelo seu talhe já belo, esguio, faceiro, um tanto quanto altivo.
Clarice comemorou seus dezesseis anos dançando. Na festa do aniversário de Clarice ninguém dançou. Não, não dançaram os parentes, não dançaram os convidados, nem mesmo os não esperados; porque todos apenas queriam vê-la dançando.
Naquele dia foi tanto o deslumbramento das pessoas que os pais de Clarice sentiram n’alma orgulho e felicidade por terem gerado o talentoso ser. Além do mais, a Clarice deles apenas dançava e estava ali sob todos os seus cuidados.
“Que mal haveria em dançar, não há no mundo inteiro pessoas que se expressam dançando?”
“Que ganham muito, muito dinheiro dançando?”
“Não seria a dança tão antiga quanto o caminhar da humanidade?”
Não, não era possível haver algo do mal no fato da Clarice deles dançar! Além do mais, o mundo parecia mais vívido e menos impuro ante a graciosidade de sua Clarice dançando.
Um dia os pais sentiram falta de Clarice. Procuraram-na. Muitos, nos arredores, houveram visto a pequena passar, porém não souberam informar aonde ela fora. Na verdade, não ousaram atestar se Clarice passara indo ou se Clarice passara vindo. Isto porque se lembraram apenas de tê-la visto dançando.
No dia seguinte, encontraram a irrequieta menininha imersa nos florais do jardim da cidade. Era quase noite e chovia; entretanto, Clarice dançava. Por entre os pingos da chuva seu corpo realizava contornos no espaço. Seus pés pareciam sintonizar com o tamborilar do cair da chuva. De modo tão lindo dançava, que as pessoas paravam para observar e ali permaneciam, aplaudindo Clarice, dançando com Clarice.
Seus próximos sabiam que seus olhos nem-sempre-verdes entravam numa singular apatia quando ela não estava dançando; e sobrevinha-lhe um apático semblante demonstrando que quando ela não podia dançar o seu coração inquietava-se sofrendo, e como era lindo ver Clarice dançar!
Seguindo insuflados conselhos dos amigos, os pais de Clarice levaram-na ao Dr. analista. Então, Clarice pediu ao douto para dançar. Quando Clarice dançou, o médico compreendeu que se havia alguém doente, os doentes eram eles próprios. O que Clarice ofertava a todos era demasiado singelo e puro para aquelas pessoas compreenderem. Toda a clínica aplaudiu e dançou com Clarice.
Decidiu-se então que a pequena Clarice poderia dançar. Decidiu-se como se fosse correto impedir aquele corpinho esbelto de sair cabriolando no ar, misturando-se aos compassos musicais. Assim, desta vez, não foi feita a injunção comum e (Ave!) permitiram que Clarice dançasse.
Agora Clarice era menina-moça mais bela da região. No colégio a queriam dançando. Em casa, os irmãos, os parentes, os vizinhos se reuniam para vê-la dançar.
Certo dia, resolveram levar a terna e ainda ingênua Clarice para uma academia de dança profissional. Nas rápidas semanas seguintes Clarice aprendera os segredos da salsa, os passos marcados da valsa, a disciplina e altivez dos clássicos. “Ao requebrar-se no samba parecia criada entre os bambas”. Dançava o can-can, o vira, o afoxé. Dançava nas óperas, brilhava nas danças dos orixás do candomblé.
O mestre então disse que Clarice estava pronta. Nada mais tinha para ensinar para Clarice.
“Ela é a própria arte da dança..”.
Recomendou-a aos melhores empresários que ele conhecia. Aqueles que foram ver Clarice dançar quase não acreditaram…
Disputaram entre si o direito de contratá-la. Dispuseram e discutiram com os pais dela motivos e acordos contratuais, lançamentos e excursões, passeios, lucros e estadias, que Clarice com seu talento pagaria.
No dia da “première” novamente chovia. Clarice adentrou ao palco, confusa e impressionada com todo aquele aparato. Bem notou como a assistência estava lotada. Lá estavam seus pais, seus amigos, muitos conhecidos e desconhecidos da cidade.
Pouco Clarice havia dançado e eles começaram a aplaudir. Durante todo o tempo eles aplaudiram. Mal se podia ver, mal se podia ouvir. Quando Clarice terminou, aplaudiam todos:
- Aplaudim-na o diretor, os músicos, a platéia e o bilheteiro.
Vieram as grandes excursões e ao mundo Clarice encantou.
Ela não entendia bem por que ficar tão longe dos seus para dançar; mas sempre divinamente dançou. Encantados, os leigos a aplaudiam, os críticos aplaudiam.
- os artistas aplaudiam.
Assim o tempo fora passando. Clarice se destacava nos palcos, nos vídeos, nos jornais. Onde no mundo, a pequena Clarice estava, a bilheteria superfaturava.
Foi então que notaram que Clarice dançava demais…
“Clarice dançava demais, DEMAIS !”
Clarice vivia dançando! Colhia flores dançando? “Beijava as crianças dançando”; Abraçava os amigos dançando…
Estivessem seus pés calçados ou nus…
“Que perigo… Também dançava!”
Alguém, se pedisse para seus passos demonstrar – “Que prejuízo!” – graciosamente partia Clarice dançando.
Foi então “para sua própria segurança” que impuseram para Clarice: Fora do palco ela não poderia dançar (Cláusula contratual).
 Também seus pés teriam de ser mantidos calçados, intocados, presos e oleados.
No dia que Clarice dançava na platibanda do topo do edifício…
- A platéia não aplaudia… seus pais não entendiam, seu empresário blasfemava.
Na verdade, ela não estava se importando de estar ali, rompendo cláusulas contratuais.
Da borda da laje do altíssimo edifício de fria arquitetura de cimento e aço, Clarice perscrutou o horizonte e maravilhou-se, pois achou que todo o hemisfério dançava.
Dançavam os astros, dançavam as nuvens, dançavam as marés, dançavam as galeras e as gaivotas, ao ritmo da brisa do mar. Clarice viu também que imersas na mesma brisa fluídica as folhas das copas das árvores dançavam.
Ela agora se sentia mais alegre, liberta; porquanto realmente concebia haver dança em tudo.
“Em tudo? Nem tanto… “
Observou que algo estava inerte lá embaixo.
“Mesmo assim, a seu redor várias pessoas dançavam.”
De repente, pode ver melhor… Era seu próprio corpo!
Mas que importância poderia isto ter? Era apenas uma infinitésima parte de matéria do universo paralisada.
Além do mais, ela nunca compreendera bem essas coisas.
Ela agora finalmente se sentia em um verdadeiro estado de êxtase; fascinada! Percebera que dispunha diante de si de todo o infinito para poder livremente dançar.
Foi assim que a pequena Terpsícore partiu…
- Dançando no ar.

Lázaro Marback D’Oliveira

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

JOSÉ AFONSO - «Natal dos Simples»
Natal dos Simples by Jose Afonso on Grooveshark
Poet'anarquista

NATAL DOS SIMPLES

Vamos cantar as janeiras
Vamos cantar as janeiras
Por esses quintais adentro vamos
Às raparigas solteiras

Vamos cantar orvalhadas
Vamos cantar orvalhadas
Por esses quintais adentro vamos
Às raparigas casadas

Vira o vento e muda a sorte
Vira o vento e muda a sorte
Por aqueles olivais perdidos
Foi-se embora o vento norte

Muita neve cai na serra
Muita neve cai na serra
Só se lembra dos caminhos velhos
Quem tem saudades da terra

Quem tem a candeia acesa
Quem tem a candeia acesa
Rabanadas pão e vinho novo
Matava a fome à pobreza

Já nos cansa esta lonjura
Já nos cansa esta lonjura
Só se lembra dos caminhos velhos
Quem anda à noite à aventura

José Afonso

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

ESPECIAL MÚSICAS DO MUNDO

E a música especial de hoje é...
(Especialíssima d' Ano Novo!)

CONCERTO DE ANO NOVO 2014/ MARCHA RADETZKY/ JOHANN STRAUSS

ORQUESTRA FILARMÓNICA DE VIENA
Poet'anarquista

POESIA - ANASTÁCIO DA CUNHA

O poeta português José Anastácio da Cunha, ou simplesmente Anastácio da Cunha, nasceu em Lisboa, a 11 de Maio de 1744. Foi considerado um pré-romântico, precursor de importantes figuras da literatura portuguesa, como Maria Barbosa du Bocage e Almeida Garret. Anastácio da Cunha faleceu em Lisboa, a 1 de Janeiro de 1787.
Poet’anarquista
José Anastácio da Cunha
Poeta Português
SOBRE O AUTOR…

Poeta e matemático português, natural de Lisboa, esteve como oficial de artilharia em Valença do Minho, onde conviveu com os inúmeros estrangeiros que se encontravam no exército português. Através deles, entrou em contacto com as ideias e culturas europeias, nomeadamente com o pensamento de Voltaire e a literatura sentimentalista inglesa.

O marquês de Pombal nomeou-o professor de geometria na Universidade de Coimbra (1773-1777). A sua reduzida ortodoxia religiosa e o seu racionalismo levaram a que, após a queda de Pombal (1777), fosse preso pela Inquisição, reconciliando-se num auto-de-fé e sendo indultado nove meses mais tarde pelo intendente Pina Manique.

Foi, depois, professor e director do colégio de São Lucas. Escreveu obras de matemática — Princípios de Matemática (1790), Carta Físico-Matemática sobre a Teoria da Pólvora em Geral (1769) —, um volume de Notícias Literárias de Portugal, em que reflecte sobre o atraso cultural do país, e uma série de poemas. A sua Obra Poética, publicada em 1839, pela sensibilidade e veemência passional que revela contra os condicionalismos sociais, levou-o a ser visto como poeta pré-romântico, precursor de figuras como Bocage ou Garrett.
Fonte: www.escritas.org/pt

OS PORQUÊS DO AMOR

Céu, porque tão convulso  e consternado
Me bate, ao Vê-la, o coração no peito?
Porque pasma entre os beiços congelado,
Indo a falar-lhe, o tímido conceito?

Porque nas áureas ondas engolfado
Da caudalosa trança, inda que afeito,
Me naufraga o juízo embelezado,
E em ternura suavíssima desfeito?

Porque a luz dos seus olhos, tão activa,
Por lânguida inda mais encantadora,
Me cega, e por a ver, ansioso, clamo?

Porque da mão nevada  sai tão viva
Chama, que me electriza e me devora?
Os mesmos meus porquês me dizem: - Amo!

José Anastácio da Cunha

SONETO

Copado, alto, gentil Pinheiro Manso;
Debaixo cujos ramos debruçados
Do sol ou lua nunca penetrados,
Já gozei, já gozei mais que descanso...

Quando para onde estás os olhos lanço,
Tantos gostos ao pé de ti passados
Vejo na fantasia retratados,
Tão vivos, que jamais de ver-te canso!

Ah! deixa o outono vir; de um jasmineiro
te hei-de cobrir, terás cópia crescida
De flores, serás honra deste outeiro.

E para te dar glória mais subida,
No meu tronco feliz, alto Pinheiro,
O teu nome escreverei de Margarida.  

José Anastácio da Cunha

FELIZ ANO NOVO!

Muita Sorte e Saúde no Novo Ano!
Tudo de Bom para 2014!!!
Poet'anarquista

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

ESPECIAL MÚSICAS DO MUNDO

E a música especial de hoje é...
(Prenda d' Ano Novo)

BOLERO DE RAVEL/ DE MAURICE RAVEL

ANDRÉ RIEU/ LIVE IN AUSTRALIA
Poet'anarquista