domingo, 22 de março de 2015

OUTROS CONTOS

«A Senhora da Graça», por Adolfo Coelho.

«A Senhora da Graça»
O Dia Depois/ Edvard Munch

453- «A SENHORA DA GRAÇA»

Era uma vez um homem que era casado com uma mulher, muito amiga de vinho, a ponto de não deixar parar vinho na adega. Um dia o homem saiu para comprar uns bois e recomendou à mulher que não fosse à adega beber o vinho. Apenas o homem virou costas, a mulher chamou logo uma comadre e foram ambas para a adega beber o melhor pipo de vinho que encontraram.

O homem, quando voltou para casa e se achou sem o vinho, queria bater na mulher; mas ela disse-lhe que não lhe batesse, pois estava inocente, quem tinha bebido o vinho tinha sido a gata. Como o homem não quisesse acreditar, a mulher disse-lhe: «Pois olha, homem, havemos de ir à Senhora da Graça, e havemos de perguntar-lhe quem foi que bebeu o vinho, se fui eu ou a gata; se a Senhora disser que fui eu, hei-de trazer-te às costas para casa, e se eu estiver inocente hás-de tu trazer-me a mim.

Partiu o homem mais a mulher para a Senhora da Graça, e tendo chegado a um sítio onde havia um eco, a mulher disse ao homem: «Olha, escusamos de ir mais longe; Nossa Senhora também aqui nos ouve.» O homem então gritou com toda a força: «Dizei-me, Senhora da Graça, quem bebeu o vinho, foi a mulher ou foi a gata?» E o eco respondeu: «A gata». Três vezes o homem perguntou o mesmo, e três vezes o eco lhe respondeu a gata.

O homem então, convencido de que a mulher estava inocente, levou-a às costas para casa e matou a gata para ela não lhe ir beber mais o vinho.

Adolfo Coelho

POESIA POPULAR

 Dia 21 de Março, dia mundial da poesia!

«A Política»
Rafael Bordalo Pinheiro

A POLÍTICA

Mote

Eis a política à portuguesa:
Mudam as moscas no poder,
Não há nenhuma surpresa…
Continua a merda a feder!

Glosas

 I
Traço o retrato lastimoso
De quem governa o país,
Depois de apodrecer a raiz
Ainda dizem estar famoso.
Chega a ser vergonhoso
Já faltar o pão na mesa,
Ser cada vez mais pobreza
E uns quantos a engordar…
Amigos, não há que enganar:
Eis a política à portuguesa!

II
Sendo altura de promessas
Todos falam na mudança,
Prometem-nos a bonança
Com o tempo às avessas.
Nuvens negras dispersas...
Céu cinzento a escurecer,
O que hoje é, deixou de ser
Imediatamente a seguir…
Com tempestade a persistir
Mudam as moscas no poder!

III
A mosca conhecido insecto
Gosta de zumbir voando…
Poisa no que estás cagando,
Como em qualquer dejecto.
Engana até o mais esperto
 Poisando com subtileza,
De bom olfacto e destreza
Camufla-se no mau odor…
Na merda os ovos vai pôr,
Não é nenhuma surpresa!

IV
Merda é merda, cheira mal,
Só fedor pra ser diferente,
Mas ainda tem certa gente
Há procura de Bosta fecal.
No desgoverno nacional
É onde se faz notar a valer,
Tudo aí pode acontecer
No meio de tanta porcaria…
Muda o cheiro de noite e dia,
Continua a merda a feder!

POETA

sábado, 21 de março de 2015

CARTOON versus SONETO

Convite Irrecusável
HenriCartoon

«CONVITE IRRECUSÁVEL»

- És tu, Ricardo Safado?
Fala o teu ex-primeiro…
Ouve lá, companheiro,
Preciso de ti a meu lado!

- Por agora ando ocupado
 Caríssimo engenheiro,
A fazer sumir dinheiro…
Melhor esperar sentado.

- Antipático, este banqueiro…
Milhões que tem roubado
E eu sozinho no cativeiro!

 - Com o crédito mal parado,
Eu compro o carcereiro
Se pretendes ser libertado!

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

Johann Sebastian Bach
Músico e Compositor Alemão

JOHANN SEBASTIAN BACH
«Toccata & Fugue in D Minor»

OUTROS CONTOS

«Os Pobrezinhos», por António Lobo Antunes.

«Os Pobrezinhos»
A Catedral dos Pobres/ Joaquim Mir

452- «OS POBREZINHOS»

«Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros; na minha família os animais domésticos eram pobres. Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre, pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana buscar, com um sorriso agradecido, a ração de roupa e comida.

Os pobres, para além de serem obviamente pobres (de preferência descalços, para poderem ser calçados pelos donos; de preferência rotos, para poderem vestir camisas velhas que se salvavam, desse modo, de um destino natural de esfregões; de preferência doentes a fim de receberem uma embalagem de aspirina), deviam possuir outras características imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os filhos, não andarem bêbedos, e sobretudo, manterem-se orgulhosamente fiéis a quem pertenciam. Parece que ainda estou a ver um homem de sumptuosos farrapos, parecido com o Tolstoi até na barba, responder, ofendido e soberbo, a uma prima distraída que insistia em oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria:

- Eu não sou o seu pobre; eu sou o pobre da minha Teresinha.

O plural de pobre não era «pobres». O plural de pobre era «esta gente». No Natal e na Páscoa as tias reuniam-se em bando, armadas de fatias de bolo-rei, saquinhos de amêndoas e outras delícias equivalentes, e deslocavam-se piedosamente ao sítio onde os seus animais domésticos habitavam, isto é, uma bairro de casas de madeira da periferia de Benfica, nas Pedralvas e junto à Estrada Militar, a fim de distribuírem, numa pompa de reis magos, peúgas de lã, cuecas, sandálias que não serviam a ninguém, pagelas de Nossa Senhora de Fátima e outras maravilhas de igual calibre. Os pobres surgiam das suas barracas, alvoraçados e gratos, e as minhas tias preveniam-me logo, enxotando-os com as costas da mão:

- Não se chegue muito que esta gente tem piolhos.

Nessas alturas, e só nessas alturas, era permitido oferecer aos pobres, presente sempre perigoso por correr o risco de ser gasto

(- Esta gente, coitada, não tem noção do dinheiro)
de forma de deletéria e irresponsável. O pobre da minha Carlota, por exemplo, foi proibido de entrar na casa dos meus avós porque, quando ela lhe meteu dez tostões na palma recomendando, maternal, preocupada com a saúde do seu animal doméstico

- Agora veja lá, não gaste tudo em vinho

O atrevido lhe respondeu, malcriadíssimo:

- Não, minha senhora, vou comprar um Alfa-Romeu

Os filhos dos pobres definiam-se por não irem à escola, serem magrinhos e morrerem muito. Ao perguntar as razões destas características insólitas foi-me dito com um encolher de ombros

- O que é que o menino quer, esta gente é assim
e eu entendi que ser pobre, mais do que um destino, era uma espécie de vocação, como ter jeito para jogar bridge ou para tocar piano.

Ao amor dos pobres presidiam duas criaturas do oratório da minha avó, uma em barro e outra em fotografia, que eram o padre Cruz e a Sãozinha, as quais dirigiam a caridade sob um crucifixo de mogno. O padre Cruz era um sujeito chupado, de batina, e a Sãozinha uma jovem cheia de medalhas, com um sorriso alcoviteiro de actriz de cinema das pastilhas elásticas, que me informaram ter oferecido exemplarmente a vida a Deus em troca da saúde dos pais. A actriz bateu a bota, o pai ficou óptimo e, a partir da altura em que revelaram este milagre, tremia de pânico que a minha mãe, espirrando, me ordenasse

- Ora ofereça lá a vida que estou farta de me assoar
e eu direitinho para o cemitério a fim de ela não ter de beber chás de limão.

Na minha ideia o padre Cruz e a Saõzinha eram casados, tanto mais que num boletim que a minha família assinava, chamado «Almanaque da Sãozinha», se narravam, em comunhão de bens, os milagres de ambos que consistiam geralmente em curas de paralíticos e vigésimos premiados, milagres inacreditavelmente acompanhados de odores dulcíssimos a incenso.

Tanto pobre, tanta Sãozinha e tanto cheiro irritavam-me. E creio que foi por essa época que principiei a olhar, com afecto crescente, uma gravura poeirenta atirada para o sótão que mostrava uma jubilosa multidão de pobres em torno da guilhotina onde cortavam a cabeça aos reis»

António Lobo Antunes

sexta-feira, 20 de março de 2015

HUMORANDO

«O Eclipsado»
Ministro dos Eclipses

«O ECLIPSADO»

Deixa-me cá ver o eclipse solar…
Bolas!... eclipsou-se a educação,
Os professores é abaixo de cão,
Pra não falar do pessoal auxiliar!
Não esquecer então de comprar
Uns óculos próprios para o efeito,
De preferência sem terem defeito
Adquiridos em qualquer farmácia…
Como ministro sou a maior falácia
Do pretérito passado imperfeito!

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

Kila
The Bearna Waltz

KILA - «The Bearna Waltz»

OUTROS CONTOS

«O Derradeiro Eclipse», por Mia Couto.

«O Derradeiro Eclipse»
Conto de Mia Couto

451- «O DERRADEIRO ECLIPSE

Justinho Salomão era ratazanado pela dúvida sem método. O homem sofria de ser marido, lhe pesavam as frias sombras da desconfiança. A mulher, Dona Acera, é linda de fazer crescer bocas, águas e noites. Devorado pelo ciúme, Justinho emagrecia a pontos de tutano. Lastimagro, cancromido, ele para se enxergar precisava procurar-se por todo o espelho. Justinho fazia comichão às pulgas. Um dia, o padre o avisou à saída da missa:

- “Seja prestável na atenção, Justinho: sua alma é como um fumo que não tem lugar onde caiba”.

Raios picassem o padre que nunca falava direito. O que o sacerdote sabia era do domínio incomum: Acera era demasiado mulher para esposa. Justinho suspeitava mais dos argumentos que dos factos. Seria a esposa mais desleal que um segredo? A resposta era sombra sem luz nem objecto. Em véspera de viagem, a suspeição do marido se agravava. Desta vez, um longo serviço de visitações o vai obrigar a geográfica ausência. Acera recebe, tristonha, a notícia:

- “Quanto tempo você me vai sozinhar?”

Um mês. A mulher contorce o bâton, abana as mechas. Até uma lágrima lhe crocodileja a pálpebra. O marido ainda mais se aflige perante tanto inconsolo. Será verdade ou conveniência de fingimento? Quem, tão novo, guelra tão ensanguentada, pode se aguentar em guardos de fidelidade? Na véspera de partir, o marido se decidiu certificar em garantia de lealdade. Primeiro se dirigiu à Igreja e solicitou socorro do padre português. O religioso torce as mãos, reticente e, como era hábito, barateou filosofia:

- “Bem, não sei. Para cruzar as pernas é preciso que haja duas...

- “Duas quê?

- “Duas pernas, ora essa”.

E prosseguiu divaguando, água em líquidos carreiros. Justinho esperava que o sacerdote o tranquilizasse. Lhe dissesse, por exemplo: vai em paz, você está bem casado, mais anelado que Saturno. Mas não, o padre ondulava a testa de suposições.

- “Não sei, não. Quem mais espreita não é o próprio sol?

- “Explique-se melhor, senhor padre.

- “Quer que seja mais claro? Me responda, então: onde o chão está mais limpo não é em casa de mortos?”

Justinho não respondeu. Voltou costas e saiu da igreja. Ainda se afastava e a voz irada do padre se faz ouvir:

- “Já sei para onde vais, criaturazita. Vais ter com o feiticeiro! Mas verás o que os meus poderes, aliás os poderes divinos, irão fazer com esse bruxo tropical!”

Um arrepio ainda atravessou Justinho. Mas ele não toldou passo no caminho para o feiticeiro e pediu que lhe assegurasse. Heresia bater nos ambos lados da porta? Se um mortal tem mais que um deus-pai não pode ter mais que uma crença?

- “Isso não posso. Vontade de mulher está acima dos meus poderes. Posso, sim, destinar castigo nos abusadores.

- “E como?

- “Hei-de tratar sua casa”.

E foi executado o tratamento: uma pequena cabaça à entrada da residência de madeira e zinco. Desrespeitoso que entrasse haveria de sofrer muitas consequências. O marido ainda tem acanhamento na consciência:

- “Eles... eles irão morrer?”

O feiticeiro ri-se. O que iria suceder eram inchaços e gases, tudo inflando as entranhas do culposo intrometedor. No final dos serviços e depois de saldadas as contas, o feiticeiro hesita no momento da despedida:

- “Você, antes de mim, consultou o senhor padre? E ele o que disse de mim?”

Justinho subiu as omoplatas, fosse um assunto superior a suas competências. O feiticeiro virou costas e se afasta, enquanto comenta:

- “Esse padre ainda vai chorar como a galinha. Conhece a história da galinha que comeu o colar das missangas só para a outra galinha não usar?”

Passaram-se dias e Justinho lá partiu. A viagem demora mais que ele pretende. Quando regressa, a mulher está à espera dele, à entrada. Vestido do gosto dele, penteada a presente, corpo todo na conveniência do marido. Até o botão cimeiro está desempregado, distraído sobre o decote. Acera, toda ela, está às ordens da saudade dele. Se engolfinham, enredando pernas nos suspiros, confundindo lábios e suores, vidas e corpos.

Cumpridos os compridos amores Justinho se estira na cama, consolado. Fecha os olhos, menino após o seio. Depois, olha para cima e é fulminado por uma visão: dois homens flutuam de encontro ao tecto. Estão redondos, insuflados como balões.

- “Mulher quem é aquilo?

- “Que aquilo?”

Levanta-se em gesto de lamina e se espanta ainda mais ao reconhecer os desditosos ditos. E quem eram? O padre e o feiticeiro. Esses mesmos a que Justinho confiara a guarda de sua esposa. Esses mesmos estavam ali perspregados no tecto.

- “Vocês, logo vocês?

- “Marido, está falar com quem?”

Gaguejadiço o marido aponta o tecto. A mulher acredita que ele está em ataque de religiosidade, aspirando proximidades com o céu. Justinho insanou-se, epiléctrico?

Acera ainda correu atrás do tresloucado marido. Mas o homem, de venta peluda, se eclipsou pelo escuro. Nem demorou: voltou com testemunhas. Fez introduzir uns tantos no quarto e apontou os autores do flagrante. Os outros ficaram, parvos da cara, sem nada vislumbrarem. Só Justinho via os voáveis amantes de sua mulher. E lhe explicam o padre e o feiticeiro não são possíveis ali Eles se ausentaram em breve excursão à cidade. Todos os viram partir, todos lhes acenaram à saída do machimbombo.

Os vizinhos lhe asseguram os bons comportamentos de Acera. Despedem-se, cuidando de o seguir, doente que estava o viajante. Dava até azar ter um desvairado daqueles no lugar. Mesmo o enfermeiro reformado lhe trouxe uns comprimidos de arrefecer o sangue. Justinho aceitou ficar estendido, a apurar descansos. Dava forma à cabeça, ajustava o pensamento à existência.

E todos e tanto insistiram que ele deixou de ver gente suspensa no tecto. Aos poucos se libertou das visões, manufacturas de suas ciumeiras. Noites há em que, de sobressalto, se levanta. Escuta risos. O padre e o feiticeiro se divertem à sua custa? Escuta melhor: não é gargalhada, é um pranto, um pedido de socorro. Incapazes de descer, os homens aprisionados no tecto lhe pedem uma aguinha, migalha de entreteter fome e sede. Os pobres já são só ar e osso.

A voz de Acera o traz à realidade: “venha marido, se deite. Se acalme. Não quer dormir comigo? Durma em mim, então. Não me quer atravessar? Me use de travesseiro. Isso, descanse, meu amor”. E o tempo passava, compondo semana e mais semana. Justinho não melhora. Mais e mais escuta as lamentações dos dois que agonizam dentro das suas paredes.

Até que, uma noite, ele acordou estremunhado. Não eram já os gemidos dos moribundos mas uma estrangeira acalmia. Olhou por entre o escuro e viu Acera vagueando, o pé pedindo licença ao silêncio. O marido nem se mexeu, desejoso de decifrar a misteriosa deambulação da mulher. Então ele viu que Acera subia para um banco e, com um cordel, amarrava o padre e o feiticeiro pela cintura. E assim, atados como balões, ela os transportou para fora de casa. No quintal, Acera limpou no rosto do padre uma lágrima e beijou a face do feiticeiro. Depois, largou os cordéis e os dois insufláveis começaram a subir pelos ares, atravessando nuvens e extinguindo-se no céu e nas pupilas espantadas de Justinho Salomão.

Nessa noite, os habitantes da vila assistiram à lua se obscurecer naquilo que viria a ser um derradeiro e permanente eclipse.

Mia Couto

quinta-feira, 19 de março de 2015

ECLIPSE SOLAR

A 19 de Março a Lua passa no Perigeu, a 20 há máximo do Eclipse às 09h00m com a Lua Nova às 09h36m, e o Equinócio às 22h45m.
Poet'anarquista
PINK FLOYD - «Eclipse»

Eclipse Solar
20 de Março de 2015

ÉVORA

Começo: 08h00
Máximo: 09h01
Termo: 10h09

PONTO DE CONTACTO

Ângulo de Posição: 266/ 49
Ângulo de Vértice: 319/ 87
Diâmetro Solar = 1: 0,72
Obscuridade: 65.6%

***
Eclipse Solar/ 20. 03. 2015

ROGER WATERS
«Brain Damage/ Eclipse»
Brain Damage/Eclipse by Roger Waters on Grooveshark
Poet'anarquista

OUTROS CONTOS

«A Mudança», por Carlos Drummond de Andrade.

«A Mudança»
Pequeno Conto de Carlos Drummond de Andrade

450- «A MUDANÇA»

O Homem voltou à terra natal e achou tudo mudado. Até a igreja mudara de lugar. Os moradores pareciam ter trocado de nacionalidade, falavam língua incompreensível. O clima também era diferente.

A custo, depois de percorrer avenidas estranhas, que se perdiam no horizonte, topou com um cachorro que também vagava, inquieto, em busca de alguma coisa. Era um velhíssimo animal sem trato, que parou à sua frente.

Os dois se reconheceram: o cão Piloto e seu dono. Ao deixar a cidade, o homem abandonara Piloto, dizendo que voltaria em breve, e nunca mais voltou. O animal inconformado procurava-o por toda parte. E conservava uma identidade que talvez só os cães consigam manter, na Terra mutante.

Piloto farejou longamente o homem, sem abanar o rabo. O homem não se animou a acariciá-lo. Depois, o cão virou as costas e saiu sem destino. O homem pensou em chamá-lo, mas desistiu. Afinal, reconheceu que ele próprio tinha mudado, ou que talvez só ele mudara, e a cidade era a mesma, vista por olhos que tinham esquecido a arte de ver.

Carlos Drummond de Andrade

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

Abbey Lincoln Jazz Band
Music is the Magic

ABBEY LINCOLN - «Music is the Magic»

CARTOON versus QUADRAS

Mau Cheiro
HenriCartoon

«MAU CHEIRO»

- Ó senhor Doutor João Corujo…
O Correio da Manhã  enviou aviso
De queixa crime por falta de juízo...
(E arma-se este tipo em sabujo!?)

- E se fores dar banho ao cão,
Gene orgânico transgénico?
Arranja-me papel higiénico,
Que eu já limpei o cu à mão!

POETA

PENSAMENTO...

Camões na Prisão em Goa
Litografia de Moreaux

Pensamento...

«Tem o tempo sua ordem já sabida. Mas anda tão confuso,
Que parece que Deus dele se esquece.»

Luís Vaz de Camões

quarta-feira, 18 de março de 2015

CARTOON versus QUADRA

E Ao Quinto Ensaio ...

HenriCartoon

«E AO QUINTO ENSAIO»

Depois do quinto ensaio
Habeas Corpus cai a pique,
Vítima de um tremelique...
Ainda não é desta que saio!

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de Hoje é ...

Steve Hackett
Waters of the Wild 

STEVE HACKETT - «Waters of the Wild»
Waters of the Wild by Steve Hackett on Grooveshark
Poet'anarquista

ÁGUAS DA VIDA SELVAGEM

Venha embora criança humana
Para as águas da vida selvagem
Com uma mão de fada na mão
Para o mundo é mais cheio de choro
Do que você pode entender

Voe para longe, roubada criança
Através de um slide lanterna mágica
Cantando na chuva ácida
Com todos aqueles que bebem
As águas do selvagem

Longe do meu filho perdido
Eu vejo sua respiração e seu sorriso

Steve Hackett

OUTROS CONTOS

«Reunião», por Arthur C. Clarke.
«Reunião»
Astro-Nave, por JPGalhardas

449- «REUNIÃO»

Povo da Terra, não tenham medo. Nós viemos numa missão de paz  – e por que não? Pois somos seus primos; já que estivemos aqui uma vez.

Vocês nos reconhecerão quando nos encontrarmos, dentro de poucas horas. Estamos nos aproximando do sistema solar quase tão rapidamente quanto esta mensagem pelo rádio. Já o Sol de vocês domina o céu à nossa frente. É o sol que nossos antepassados e os seus compartilharam há dez milhões de anos. Nós somos homens, como vocês; mas vocês esqueceram a sua história, enquanto nós nos lembramos da nossa.

Fomos nós que colonizamos a Terra, no reinado dos grandes répteis, que estavam perecendo quando viemos e que não pudemos salvar. Este mundo era então um planeta tropical, e pensamos que daria uma excelente morada para nossa gente. Estávamos enganados. Embora fôssemos senhores do espaço, muito pouco sabíamos sobre clima, evolução, genética...

Durante milhões de estios – pois não havia invernos naqueles velhos tempos – a colónia floresceu. Isolada como era obrigada a viver, num universo em que a viagem de uma estrela a outra dura anos, ela se manteve em contacto com a sua civilização-mãe. Três ou quatro vezes por século, era visitada por astro-naves que lhe traziam notícias da galáxia.

Mas, há dois milhões de anos, a Terra começou a mudar. Durante milhões de milénios tinha sido um paraíso tropical; depois a temperatura baixou e o gelo começou a descer lentamente dos pólos. À proporção que o clima se alterava, também mudavam os colonos.

Compreendemos que agora se tratava de uma adaptação natural ao fim do longo verão, mas aqueles que haviam feito da Terra o seu lar pelo espaço de tantas gerações acreditavam estar sendo vítimas de uma estranha e repulsiva doença. Uma doença que não matava, não causava nenhum dano físico – mas apenas desfigurava.

Entretanto, alguns ficaram imunes; foram poupados, eles e os seus filhos, pela mudança. De modo que, no espaço de poucos milénios a colónia se cindiu em dois grupos distintos – quase duas espécies distintas – que suspeitavam e tinham ciúme um do outro.

A divisão trouxe logo a inveja, a discórdia, e finalmente o conflito. À medida que a colónia se desintegrava e o clima ia constantemente piorando, aqueles que puderam fazê-lo retiraram-se da Terra. Os restantes mergulharam no barbarismo.

Podíamos ter-nos mantido em contacto, mas há tanto que fazer num universo de cem triliões de estrelas! Até poucos anos atrás não sabíamos se alguns de vocês haviam sobrevivido. Foi então que captamos os seus primeiros sinais de rádio, aprendemos as suas linguagens tão simples e descobrimos que vocês tinham realizado a longa ascensão a partir da selvageria.

Aqui viemos para saudá-los, nossos parentes há tanto tempo perdidos – e para ajudá-los.
Muitas coisas descobrimos durante os milénios decorridos desde que abandonamos a Terra. Se desejam que façamos voltar o eterno verão que aqui reinava antes das épocas glaciais, nós podemos fazê-lo. Acima de tudo, temos um remédio simples para a desagradável, embora inofensiva, epidemia que atacou tantos colonos.

Talvez o seu ciclo tenha terminado – mas, em caso contrário, temos boas notícias para lhes dar. Povo da Terra, vocês podem reunir-se mais uma vez à sociedade universal sem sentirem vergonha nem constrangimento.

Se alguns de vocês ainda continuam brancos, nós podemos curá-los.

Arthur C. Clarke

terça-feira, 17 de março de 2015

CARTOON versus DÉCIMA

Homem Estátua
HenriCartoon

«HOMEM ESTÁTUA»

- Olha cá, Bosta… pra quando
Uma verdadeira oposição
Ao desgoverno desta nação?...
Ouves o que estou falando??
Parece que se está cagando…
- Golo!... o Benfica a marcar
E o Zé sempre a reclamar...
Fui eu, o do perdão fiscal
Ao maior clube de Portugal (!?)
- Sou Porto, Bosta… vai-te catar!!

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

Indigenous
Monkey Shuffle

INDIGENOUS - «Monkey Shuffle»

OUTROS CONTOS

«Pão Nosso de Cada Dia», por António Botto.

«Pão Nosso de Cada Dia»
Conto de António Botto

448- «PÃO NOSSO DE CADA DIA»

Viviam juntas mãe e filha. Uma encantava pela modéstia; outra irritava pela toleima – apesar de ser bonita. Certa noite, a mãe, não podendo adormecer, preocupada a pensar no destino de sua filha, ajoelhou-se e pediu a Deus que modificasse o feitio de Sília, fazendo-a bondosa e discreta.

Na manhã seguinte, perguntou-lhe:

— Que sonho era aquele, filha, quando esta noite cantavas?

— Ai, sonhava, minha mãe, que um senhor descia de uma carruagem de cobre e me oferecia um anel com uma jóia tão preciosa e brilhante que não haverá no céu estrela de maior brilho.

— Foi um sonho de vaidade! — responde a mãe.

E nisto batem à porta. Sília corre e vai abrir: entra um rico lavrador. Oferece-lhe terras de lavoura, montados, hortas, pomares, uma infinita riqueza!

— Mesmo que viesses em carro de cobre e me desses uma jóia mais fulgurante e mais bela do que uma estrela do céu, não casaria contigo.

O lavrador, desiludido, foi-se embora, e, nessa noite, Sília voltou a sonhar.

— Com quem estás tu a sonhar? — perguntou a mãe, acordando-a.

— Ai, sonhava, minha mãe, que um senhor descia de uma carruagem de prata e punha nos meus cabelos valiosíssimo diadema de oiro!

— Que pecado, minha filha! Vai rezar para abrandar esse teu grande egoísmo!

Na tarde do dia seguinte, um moço esbelto, sadio, apareceu a oferecer-lhe a sua vida, a sua fortuna, o seu amor.

— Nem que viesses em carro de prata e pusesses nos meus cabelos formosíssimo diadema de oiro eu casaria contigo!

E o moço partiu tristemente.

— O teu orgulho há-de perder-te! — dizia a mãe para a filha.

Outra noite, Sília voltou aos seus sonhos de perdição e, ao ser interrogada pela mãe, contentíssima, exclamou:

— Ai, sonhava que um fidalgo descia de um carro de oiro e, pedindo-me em casamento, oferecia-me um vestido de rubis e diamantes.

— Não te emendas, minha filha, mas hás-de pagar bem caro essa fome de grandezas.

Momentos depois, três carros paravam à porta onde residiam ambas. Um de bronze, outro de platina e outro de cristal. O primeiro puxado a doze cavalos; o segundo, a vinte cavalos; e o terceiro, a quarenta! Dos carros de bronze e platina desceram pajens vestidos de seda verde e azul. Do carro de cristal saiu um lindo rapaz coberto de pedraria. Entrou em casa de Sília e, de joelhos e humilde, beijou-lhe as mãos num sorriso.

— Finalmente, sou feliz! O meu sonho transformou-se na mais bela realidade.

E, orgulhosa, foi vestir o vestido de noivado. Partiram para a Igreja. Os cavalos galopavam num frémito de alegria.

— Vou dar a minha mulher os meus presentes! — dizia ele ao regressar, e entrando na sala suave do seu palácio de turquesa:

— Tudo isto é para ti.

Sília sorriu e a sorrir foi-lhe dizendo:

— Sabes que já tenho fome?

— Ponham a mesa e sirvam-nos o banquete! — gritou ele aos seus vassalos.

Saladas de topázio, assados de ametistas e doce de pérolas; todos comiam e repetiam. Só ela não podia comer. A medo pediu um bocadinho de pão.

— É a única coisa que não te posso dar! — respondeu ele.

E desatou às gargalhadas, gargalhadas metálicas, cantantes, porque o seu coração também era de metal.

Ela chorou!

— Chorar para quê? Não desejavas tudo isto? Não tens agora o que sempre ambicionaste?
Rodeada de riquezas, saía do palácio, à noite, e andava de porta em porta disfarçada e muito triste, a pedir cheia de fome um bocadinho de pão.

António Botto

segunda-feira, 16 de março de 2015

CARTOON versus QUADRA

O Descobridor do Monstro Marinho 
de 500 Milhões de Anos
HenriCartoon

«O DESCOBRIDOR DO MONSTRO MARINHO 
DE 500 MILHÕES DE ANOS»

- És devedas impdessionante,
Mas ainda não te vejo pedfil
Pada substituídes o cessante…
- £%$#-se!... o gajo é imbecil!!

Traduzindo…

- És deveras impressionante,
Mas ainda não te vejo perfil
Para substituíres o cessante…
- £%$#-se!... o gajo é imbecil!!

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

Mark Knopfler
Hill Farmer's Blues

MARK KNOPFLER
«Hill Farmer's Blues»
Poet'anarquista

FAZENDEIRO DAS COLINAS AZUIS

Eu estou indo para a legislação de reboque 
Para o que eu preciso 
Cadeia para o serrador
Assassino para a erva daninha 
O cão está na porta traseira 
Deixá-lo ser 
Não alimentá-lo Jack 
E não espere por mim 

Vai no direito de reboque 
Para alimentar meu fogo 
Conchas para os doze 
E arame farpado 
O cão está na porta traseira 
Deixá-lo ser 
Não faça Jack 
E não espere por mim 

Tão mau tão mau 
Tão mau tão mau 

Eu estou indo para a legislação de reboque 
Para ter minha diversão 
Não me leve a mal 
Você foi o único 
Atrás meu senhor volta 
Você fez de mim uma idiota 
Não faça Jack 
E não espere por mim 

Tão mau tão mau 
Tão mau tão mau 

Mark Knopfler

OUTROS CONTOS

«Hades», por Luísa Costa Gomes.

«Hades»
Conto de Luísa Costa Gomes

447- «HADES»

- São os anos do Rodrigo e a gente faz o que ele quiser. Foi o que eu disse e é o que se faz. Agora calas-te e andas para a frente. E cara alegre e não arrastas os pés. 

- Por que é que ‘hadem’ estar sempre a discutir, mesmo no dia dos meus anos? 

- Olha-me aquele, -disse o pai - parece o Guilherme nosso vizinho. Só lhe falta o boné. 

Todos se riram a olhar para o peixe vermelho, até o Rolando, embora contrariado. 

- Fechastes o carro? - perguntou a mãe. 

- Tudo sobre controle - disse o pai. 

- Não te debruces, Rodrigo Tiago, parece que fazes de 'prepósito!' 

Os peixes rebolavam pela água esverdeada. Estavam muito feitos a serem visitados. O Rodrigo queria perguntar ao pai como é que eles conseguiam ver, só com um olho de cada lado da cabeça. Mas teve medo que ele empreendesse uma explicação demorada e agora queria mais que tudo despachar-se. E teve sorte, porque não havia muita gente a querer entrar no Aquário Vasco da Gama. 

- Tens dinheiro destrocado? - perguntou a mãe. E o pai tirou da carteira uma nota de mil e deu-a ao guarda. O Rolando ficou de costas, distraído a olhar para a montra das conchas envernizadas e de cavalos marinhos para sempre empertigados. Entraram pelas anémonas logo a seguir. 

- Isto é que era uma coisa boa lá para casa - disse o pai. - Esta luz que só acende enquanto a gente carrega no botão. Era um grande poupar de energia. Depois leu: 

- Anemonia Sulcata, nome vulgar, anémona. 

- A cabeleira delas até parece a do Rolando - disse a mãe a querer brincar. - E logo, para o Rodrigo . - Não lambuzes o vidro, pá, que é ‘poribido’. Ainda vem aí o homem e nos põe a todos fora. 

- Ih, mãe, olha-me esta lula! - gritou o Rodrigo. - Olha-me esta lula! 

Ficaram todos pasmados com a lula gigante. 

- Isto dava uma caldeirada para uma casa de família - disse o pai. E leu depois, no cartaz iluminado: - Oito metros e vinte e duzentos e sete quilos! Os olhos têm vinte e cinco centímetros de diâmetro... 

- A oitocentos paus o quilo - calculou a mãe - vê lá tu quanto é que aí não está de lulas. 

- Assim congelada é capaz de ser mais barato - disse o pai. 

Foram pelo corredor conscienciosos, acendendo luzes, espreitando anémonas e cavalos marinhos, juntando as cabeças sobre as janelinhas redondas dos aquários. O Rolando acompanhava-os à distância, como se não lhes pertencesse, de mãos nos bolsos, deitando olhares descomprometidos aos espécimes quando não podia mesmo deixar de ser, absorto num grave problema íntimo que nenhuma visita, nenhuma festa, nenhuma palavra podiam resolver. Depois começavam os peixes. 

- Olha-me aquele todo às pintinhas. Ó pai, podemos ter um? 

-Isto não são uns peixes ‘quaisquers’, não se arranjam assim do pé para a mão -explicou o pai. - Se calhar há para aí um ou dois no mundo inteiro. 

- São muito feios os peixes - disse a mãe. - Têm um ar muito estúpido. 

- Há quem diga que vimos deles, sabias? - disse o pai ao Rodrigo. 

- Só se fores tu, eu cá não venho com certeza. Uma vez a minha madrinha até me quis dar um peixinho vermelho, mas aquilo fazia-me espécie, a criatura às voltas no frasco, deitei-o pela pia abaixo. 

- Deitastes fora o peixe? - perguntou o pai, incrédulo. 

- Era pequena - disse a mãe. - Coisas da minha madrinha. 

Assim dizendo chegaram a uma grande sala. No tanque havia tartarugas. O Rodrigo debruçou-se para ver. 

- Ó pai, que grandes cágados! O Pedro tem um, mas é pequeno. E aqueles ali, que é que eles estão a fazer? 

O pai e a mãe olharam para as duas tartarugas que o menino apontara. 

- Não são coisas para a tua idade - disse a mãe. - Sai lá daí. 

O Rolando aproximou-se, porque de repente sentira uma grande motivação para ver tartarugas. Encostou-se ao muro que rodeava o tanque, repousou a cara na mão direita e observou desapaixonadamente o namoro daqueles bichos. 

- Mas eu já sou crescido - ripostou o Rodrigo. - Já vi na Televisão. 

Viraram à direita e puseram-se a subir para as focas. Abrandavam o passo porque o Rolando não descolava do tanque educativo e também porque ainda era cedo para o almoço e, pelo andar da carruagem, calculavam que não houvesse ali muito mais para ver. 

Na sala das otárias, a mãe deixou-se embevecer pela decoração marinha de conchas e barrocos búzios. 

- Isto está um luxo, já vistes? Está lindo. E, para o Rolando, que chegava. - Hades ficar sempre para trás e andares de trombas. Nem nos anos do teu irmão nos fazes o favor de estares contente, poças! 

- Agora por poças - disse o pai com o seu ar das festas, pegando no Rodrigo ao colo para lhe mostrar as focas. - Lembro-me de andar um dia na pesca com o meu tio Olindo... 

- Lá vem a história do tio Olindo! - suspirou a mãe a rebolar os olhos. 

- ... e não pescávamos nada, estivemos para ali a manhã toda e nada, até que ele resolveu ir mais para baixo no rio, onde a água ia com mais força... 

- Deixa lá os ‘promenores’ e despacha-te - disse a mãe, admirando ainda as convolutas da decoração da sala. 

- ... e eu a ver, era pequeno, tinha para aí a tua idade. Bom, vai o tio Olindo por ali abaixo, chega aonde a corrente era mais forte e posta-se de perna aberta e lança o isco e fica à espera.
A certa altura só o vejo começar assim como que a dançar, levantava uma perna, depois outra e eu pensei que ele estava todo contente porque tinha apanhado algum, mas não. Depois vejo-o cair estatelado dentro de água, ao comprido. 

- Ih, que fixe! - disse o Rodrigo. 

- Tinha-lhe entrado uma rã para a galocha e estava-lhe a fazer uma comichão danada. Então caiu na água. Bom, mas o melhor foi que o tio Olindo se despiu todo e ficou só em ceroulas e pôs a roupa a secar numa pedra e vieram uns miúdos e roubaram-lhe tudo. 

O Rolando emprestava àquela história uma orelha meio ausente. Conhecia de cor a história do tio Olindo, lembrava-se de ouvir o pai contá-la em casamentos e baptizados da família, com um copito a mais, e quando o Rodrigo, depois de ter estado muito doente em bebé, saíra finalmente do Hospital. No carro, na viagem para casa, com o Rodrigo no colo, o pai contara a história do tio Olindo e a mãe chorara a rir. 

Agora só o Rodrigo é que se ria a ouvir o pai. 

- Bom, mas não acaba aqui - disse o pai. - Do que eu mais gosto de me lembrar é do meu tio Olindo, muito gordo, todo nu só com as ceroulas, descalço a passear-se todo contente pela aldeia, de cana de pesca ao ombro e a rir-se para as mulheres que chegavam à porta e se benziam como se tivessem visto o diabo. 

- Era muito bom homem, o tio Olindo - concedeu a mãe. - Já lá está, coitado. 

- Ó pai, como é que se dá de comer às enguias eléctricas? - perguntou o Rodrigo. Mas o pai ainda estava com a memória noutro lado, enquanto lia no cartaz: 

- Descargas de duzentos a trezentos volts, é o mesmo que pôr a mão na tomada. 

- Isto está visto - disse a mãe, e começou a descer para o tanque das tartarugas, que controlou. - Estou farta de ‘le’ dizer para não pôr tanta porcaria nos bolsos, que me deforma as Levis - queixou-se ela, a ninguém em especial - depois é, ó mãe quero uns Nike, ó mãe quero umas Levis, e rebenta com tudo. Levanta os pés, Rolando Bruno! 

Portanto, a mãe estava a ficar com fome. Ainda bem que tinham chegado a uma sala cheia de peixes comestíveis. 

-Ele é bacalhau, ele é garoupa, cherne, badejo! Anchovas, pargo, polvo! Só faltam as batatas e os grelos! - disse o pai. 

Riram-se. 

- Não se percebe nada! - disse a mãe. - Mas que vigarice, desde quando é que o bacalhau é peixe de aquário? 

- Se tivéssemos azeite, almoçava-se já aqui! 

- Ih! - gritou o Rodrigo - olha-me só a tromba daquele! 

Mas os pais tinham parado diante de um cardume de peixinhos vermelhos e a mãe encostara a ponta do dedo indicador ao vidro. Ficara sonhadora, depois o pai afastara-se e premira o botão da luz noutro aquário. 

- Apogon Imberbis - leu em voz alta, para o resto dos visitantes - "a fêmea expele os ovos (envoltos numa substância gelatinosa que os mantém unidos num aglomerado), que vão ser incubados na boca do macho; este jejua até ao nascimento das larvas, expelindo-as então"... 

- Que porcaria! - disse a mãe. - Lembram-se de cada uma! 
‘Poderia-se’ lá pensar! 

Nessa noite, ao adormecer, no fim do dia em que fez cinco anos, o Rodrigo lembrou-se dos peixes, perguntou-se como podiam respirar debaixo de água. Mas quando a mãe lhe perguntou, dando-lhe um beijo de boa-noite, o que é que ele tinha gostado mais de ver, respondeu: 

- Do que eu gostei mais foi do bolo de chocolate do restaurante. 

A mãe também estava já farta de peixes. O pai demorava-se a ler as legendas, o Rolando não conseguia disfarçar a impaciência, batia com as biqueiras dos ténis no chão, ora uma, ora outra e assobiava entre dentes. 

- Não sei ‘porquéque’ ‘hades’ estar sempre a fazer isso - disse a mãe ao Rolando. -Estragas-me o ‘téni’ todo. 

- Não é ‘hades’, é hás-de - disse o Rolando. 

Os outros três estacaram, ficaram parados a olhá-lo. O Rolando mudou o peso do corpo para a outra perna, cruzou os braços sobre o peito e repetiu, numa ameaça: 

- Não é ‘hades’, é hás-de.

Luísa Costa Gomes

CARTOON versus SEXTILHA

Gralha nas Galerias
HenriCartoon

«GRALHA NAS GALERIAS»

- Ó Fedelho!... some-te daí já!
- Só governas pra gente rica!
- És levado ao colinho, pá!!
- Amigo, isso é mais o Benfica…
- Roubo de Capela, Lampião!...
Tens o gajo do apito na mão!!

POETA

domingo, 15 de março de 2015

OUTROS CONTOS

«Arroz do Céu», por José Rodrigues Miguéis.

«Arroz do Céu»
Ilustração/ João Botelho

446- «ARROZ DO CÉU»

Ao longo dos passeios de Nova York, por sobre as estações e galerias do subway, abrem-se grandes respiradouros gradeados por onde cai de tudo: o sol e a chuva, o luar e a neve, luvas, lunetas e botões, papelada, chewing gum, tacões de sapatos de mulheres que ficam entalados, e até dinheiro. Às vezes, lá no fundo, no lixo acumulado ou em poças de água estagnada, brilham moedas de níquel e mesmo de prata. Os garotos ajoelham de nariz colado às grades, tentando lobrigar tesouros na obscuridade donde sopra um hálito húmido e oleoso e o cheiro dos freios queimados. Fazem prodígios de habilidade e obstinação para pescar as moedas perdidas. Alguns têm êxito nisso, mas depois engalfinham-se em disputas tremendas sobre a posse e a partilha do tesouro: nunca se sabe quem foi que viu primeiro.

Outros, quando a colheita promete, chegam a arriscar nisso algum capital: juntam as posses, e entram dois, é quanto basta, no subway; uma vez lá dentro. trepam sub-repticiamente aos respiradouros, o que é uma difícil operação de acrobacia, para colher aquele dinheiro-de-ninguém, enquanto um ou mais camaradas vigilantes os vão guiando cá de fora. Também os há que entram sem pagar, por entre as pernas da freguesia e agachando-se por baixo dos torniquetes.

O limpa-vias trabalhava há muitos anos no subway, sempre de olhos no chão. Uma toupeira, um rato dos canos. Picava papéis na ponta de um pau com um prego, e metia-os no saco. Varria milhões de pontas de cigarros, na maioria quase intactos, de fumadores impacientes, raspava das plataformas ochewing gum odioso, limpava as latrinas, espalhava desinfectantes, ajudava a pôr graxa nas calhas, polvilhava as vias de um pó branco e misterioso, e todas as vezes que o camarada da lanterna soltava um apito estrídulo – lá vem o comboio! – ele encolhia-se contra a parede negra, onde escorriam águas de infiltração, na estreita passagem de serviço. Até já tinha ajudado a recolher pedaços de cadáveres, de gente que se atirava para debaixo dos trens, e a transportar os corpos exangues de velhos que de repente se lembravam de morrer de ataque cardíaco, nas horas de maior ajuntamento, uns e outros perturbando o horário e provocando a curiosidade casual e momentânea dos passageiros apressados. 

Sempre de olhos no chão, bisonho e calado, como quem nada espera do Alto, e não esperava. A vida dele vinha toda do chão imundo e viscoso. Nem sequer olhava a lívida claridade que resvala dos respiradouros para o negrume interior, onde tremeluzem lâmpadas eléctricas, entre as pilastras inumeráveis daquela floresta subterrânea metalizada: nunca lhos tinham mandado limpar. Eram provavelmente o domínio exclusivo de operários especializados, membros de outro sindicato, que ele não conhecia. Nem talvez soubesse que existiam os respiradouros. Era estrangeiro, imigrante, como tanta gente, não brincara nem vadiara na voragem empolgante das ruas da grande cidade, e vivia perfeitamente resignado à sua obscuridade. Devia aquele emprego a um camarada que era membro dum clube onde mandavam homens de peso, mas ele de política não entendia nada, nem fazia perguntas. Como tinha nascido na Lituânia, ou talvez na Estónia, só falava em monossílabos; e, debaixo da pátina oleosa e negra que o ar do subway nela imprimira com o tempo. a sua face era incolor e a raça indistinta. Antes disso tinha trabalhado em escavações, um «toupeira». Este emprego era muito melhor, embora também fosse subterrâneo. E não tinha que falar o inglês, que mal entendia.

Ora, à esquina de certa rua, no Uptown, há uma igreja, a de São João Baptista e do Santíssimo Sacramento, a todo o comprimento de cuja fachada barroca e cinzenta os respiradouros do subway formam uma longa plataforma de aço arrendado. Os casamentos são frequentes, ali, por ser chique a paróquia e imponente a igreja. O arroz chove às cabazadas em cima dos noivos, à saída da cerimónia, num grande estrago de alegria. Metade dele some-se logo pelas grelhas dos respiradouros, outra parte fica espalhada nas placas de cimento do passeio. Depois dos casamentos, o sacristão ou porteiro da igreja, de cigarro ao canto da boca, varre o arroz para dentro das grades, por comodidade. 

Provavelmente é irlandês, o arroz não lhe interessa, nem se ocupa de pombos: pombos é lá com os italianos, que, apesar de se dizerem católicos, são uma espécie de pagãos. O que se derramou no pavimento da rua, lá fica: é com os varredores municipais.

Volta e meia há casório, sobretudo no bom tempo, ou aos domingos. E um desperdício de arroz, não sei donde vem o costume: talvez seja um prenúncio votivo de abundância, ou um símbolo do «crescei e multiplicai-vos» (como arroz). A gente pára a olhar, e tem vontade de perguntar: «A como está hoje o arroz de primeira cá na freguesia?»

Aquela chuva de grãos atravessa as grades, resvala no plano inclinado do respiradouro, e, se mão adere à sujidade pegajosa ou ao chewing gum (o bairro é pouco dado a mastigar o chicle), ressalta para dentro do subterrâneo, numa estreita passagem de serviço vedada aos passageiros.

A primeira vez que viu aquele arroz derramado no chão, e sentiu os bagos a estalar-lhe debaixo das botifarras, o limpa-vias não fez caso; varreu-os com o resto do lixo para dentro do saco cilíndrico, com um aro na boca. Mas como ia agora por ali com mais frequência, notou que a coisa se repetia. O arroz limpo e polido brilhava como as pérolas de mil colares desfeitos no escuro da galeria. O homem matutou: donde é que viria tanto arroz? Intrigado, ergueu os olhos pela primeira vez para o Alto, e avistou a vaga luz de masmorra que escorria da parede. Mas o respiradouro, se bem me compreendem, obliquava como uma chaminé, e a grade, ela própria, ficava-lhe invisível do interior. Era dali, com certeza, que caía o arroz, como as moedas, a poeira, a água da chuva e o resto. O limpa-vias encolheu os ombros, sem entender. Desconhecia os ritos e as elegâncias. No casamento dele não tinha havido arroz de qualidade nenhuma, nem cru, nem doce, nem de galinha.

Até que um dia, depois de olhar em roda, não andasse alguém a espiá-lo, abaixou-se, ajuntou os bagos com a mão, num montículo, e encheu com eles um bolso do macaco. Chegado a casa, a mulher cruzou as mãos de assombro: alvo, carolino, de primeira! Dias depois, sempre sozinho, varreu o arroz para dentro de um cartucho que apanhara abandonado num cesto de lixo da estação, e levou-o para casa. Pobres, aquela fartura de arroz enchia-lhes a barriga, a ele, à patroa e aos seis ou sete filhos. Ela habituou-se, e às vezes dizia-lhe: «Vê lá se hoje há arroz, acabou-se-nos o que tínhamos em casa.» 

Confiada naquele remedeio de vida!

O limpa-vias nunca perguntou donde é que chovia tanto grão, sobretudo no bom tempo, pelo Verão, e aos domingos, que até parecia uma colheita regular. Embrulhava-o num jornal ou metia-o num cartucho, e assim o levava à família. Ignorando que lá em cima era a Igreja de São João Baptista e do Santíssimo Sacramento, e como tal de bom-tom, não sabia a que atribuir o fenómeno. Pelo lado da raiz, no subway, os palácios, os casebres e os templos não se distinguem.

E foi assim que aquela chuva benéfica, de arroz polido, carolino, de primeira, acabou por lhe dar a noção concreta de uma Providência. O arroz vinha do Céu, como a chuva, a neve, o sol e o raio. Deus, no Alto, pensava no limpa-vias, tão pobre e calado, e mandava-lhe aquele maná para encher a barriga aos filhos. Sem ele ter pedido nada. Guardou segredo – é mau contar os prodígios com que a graça divina nos favorece. Resignou-se a ser o objecto da vontade misericordiosa do Senhor. E começou a rezar-lhe fervorosamente, à noite, o que nunca fizera: ao lado da mulher. Arroz do Céu...

O Céu do limpa-vias é a rua que os outros pisam.

José Rodrigues Miguéis