terça-feira, 7 de abril de 2015

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

Billie Holiday
Cantora de Jazz Norte-Americana

BILLIE HOLIDAY - «Me, Myself and I»
Me, Myself and I by Billie Holiday on Grooveshark
Poet'anarquista

EU, EU MESMA E EU

Eu, eu mesma e eu
Estão todos no amor com você
Todos nós pensamos que você é maravilhoso
Fazemos

Eu, eu mesma e eu
Temos apenas um ponto de vista
Estamos convencidos de
Não há ninguém como você
Não se pode negar querido
Você trouxe o sol para nós
Estaríamos satisfeitos caro
Se você, você pertence a um de nós
Então, se você passar por mim
Três corações vão quebrar em dois
Porque eu, eu mesma e eu
Estão todos no amor com você

Eu, eu mesma e eu
Estão todos no amor com você
Todos nós pensamos que você é maravilhoso
Fazemos

Eu, eu mesma e eu
Ter apenas um ponto de vista
Estamos convencidos de
Não há ninguém como você
Não se pode negar querido
Você trouxe o sol para nós
Estaríamos satisfeitos caro
Se você pertence a um de nós

Então, se você passar por mim
Três corações vai quebrar em dois
Porque eu, eu mesma e eu
Estão todos no amor com você

Billie Holiday

segunda-feira, 6 de abril de 2015

CARTOON versus QUINTILHA

A Pior Espécie
HenriCartoon

«A PIOR ESPÉCIE»

- Pai, será verdade que o homem
É o único animal no planeta Terra
Que mata a sua própria espécie?
- Não, filho… resta a pior subespécie
Irracional política muito na berra!

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

Creedence Clearwater Revival
Banda Norte-Americana

CREEDENCE CLEARWATER REVIVAL
«Run Through the Jungle»
Run Through the Jungle by Creedence Clearwater Revival on Grooveshark
Poet'anarquista

CORRER PELA SELVA 

Achei que fosse um pesadelo
Olhe, é tudo tão verdadeiro
Eles me disseram: "Não vá andar devagar
Pois o Diabo anda solto"

É melhor correr pela selva
É melhor correr pela selva
É melhor correr pela selva
Não olhe para trás para ver

Pensei ter ouvido um estrondo
Chamando meu nome
Duzentos milhões de armas estão carregadas
Satã exclama, "Apontar! "

É melhor correr pela selva
É melhor correr pela selva
É melhor correr pela selva
Não olhe para trás para ver

No alto da montanha
O trovão mágico falou
"Deixe as pessoas conhecerem minha sabedoria
Encha a terra de fumaça"

É melhor correr pela selva
É melhor correr pela selva
É melhor correr pela selva
Não olhe para trás para ver

Creedence Clearwater Revival

OUTROS CONTOS

«Amor Verdadeiro», por Isaac Asimov.

«Amor Verdadeiro»
Conto de Isaac Asimov

468- «AMOR VERDADEIRO»

Meu nome é Joe. É assim que meu colega, Milton Davidson, me chama. Ele é um programador e eu sou um programa de computador. Faço parte do complexo Multivac e estou conectado com todas as suas outras partes espalhadas pelo mundo inteiro. Eu sei tudo. Quase tudo.

Eu sou o programa particular de Milton. O seu Joe. Ele entende mais sobre programação do que qualquer outra pessoa no mundo, e eu sou o seu modelo experimental. Ele me fez falar melhor do que qualquer outro computador.

– É só uma questão de emparelhar sons com símbolos, Joe – ele me disse. – E esse o modo como funciona no cérebro humano, embora ainda não saibamos que símbolos existem no cérebro. Mas eu conheço os seus símbolos e posso fazê-los corresponder a palavras, um por um.

 Por isso eu falo. Não acho que falo tão bem quanto penso, mas Milton diz que falo muito bem. Milton nunca se casou, embora já tenha quase quarenta anos. Ele nunca encontrou a mulher certa, foi o que me contou. Um dia, ele disse:

– Ainda vou encontrá-la, Joe. Encontrarei a melhor de todas. Vou ter um verdadeiro amor e você vai me ajudar. Estou cansado de aperfeiçoá-lo para resolver os problemas do mundo. Resolva o meu problema. Encontre-me um amor verdadeiro.

– O que é um amor verdadeiro? – disse eu.

– Não importa. Isso é abstrato. Apenas me encontre a garota ideal. Você está conectado com o complexo Multivac, por conseguinte tem acesso aos bancos de dados de cada ser humano no mundo. Vamos eliminar todos eles por grupos e classes até ficarmos com apenas uma pessoa. A pessoa perfeita. E ela será minha.

– Estou pronto – disse eu.

– Elimine todos os homens primeiro – disse ele.

Isto foi fácil. Suas palavras ativaram símbolos em minhas válvulas moleculares. Eu pude amplificar-me para entrar em contato com os dados acumulados sobre cada ser humano no mundo. Conforme suas palavras, afastei-me de 3.784.982.874 homens. Continuei em contato com 3.786.112.090 mulheres.

– Elimine todas as que tiverem menos de vinte e cinco anos – disse ele – e todas as com mais de quarenta. Depois, elimine todas com um QI inferior a 120, todas com uma altura inferior a um metro e cinqüenta e superior a um metro e setenta e cinco.

Deu-me medidas exatas, eliminou mulheres com filhos vivos, eliminou mulheres com várias características genéticas.

– Não estou certo quanto à cor dos olhos – disse Milton. – Por enquanto, deixe isso de lado. Mas nada de cabelos ruivos. Não gosto dessa cor de cabelo.


Duas semanas depois tínhamos baixado para 235 mulheres. Todas falavam muito bem o inglês. Milton disse que não queria um problema de linguagem. Ou nos momentos íntimos, até a tradução por computador entraria no meio.

– Não posso entrevistar 235 mulheres – disse ele. – Levaria muito tempo e o pessoal descobriria o que estou fazendo.

– Isso traria problemas – disse eu. Milton tinha me mandado fazer coisas que eu não estava projetado para fazer. Ninguém sabia disso.

– Isso não é da sua conta – disse ele, e a pele do seu rosto ficou vermelha. – Escute aqui, Joe, vou lhe trazer holografias e você vai checar a lista por similaridades.

Ele trouxe holografias de mulheres.

– Essas aí são três vencedoras de um concurso de beleza – disse. – Veja se alguma das 235 corresponde.

Oito eram correspondências muito boas.

– Ótimo – disse Milton. – Você tem os seus bancos de dados. Estude suas exigências e necessidades em termos de mercado de trabalho e providencie para tê-las aqui numa entrevista. Uma de cada vez, é claro. – Ele pensou um pouco, moveu os ombros para cima e para baixo, e completou: – Ordem alfabética.

Isto é uma das coisas para que não fui projetado para fazer. Deslocar pessoas de emprego para emprego, por razões pessoais, chama-se manipulação. Só pude fazer isso porque Milton tinha me ajustado para agir assim. No entanto, não poderia fazer isso para ninguém a não ser ele.

A primeira garota chegou uma semana mais tarde. O rosto de Milton ficou vermelho quando a viu. Ele falava como se tivesse dificuldade em fazê-lo. Ficaram juntos muito tempo e ele não prestou atenção em mim. Num certo momento, ele disse–.

– Deixe-me levá-la para jantar.

– De certo modo não foi bom – Milton me disse no dia seguinte. – Estava faltando alguma coisa. É uma mulher bonita, mas não senti nenhum toque de verdadeiro amor. Tente a próxima.

Aconteceu o mesmo com todas as oito. Eram muito parecidas. Sorriam muito e tinham vozes agradáveis, mas Milton sempre achava que não estava bem.

– Não consigo entender, Joe – disse ele. – Você e eu selecionamos as oito mulheres que, no mundo inteiro, parecem ser as melhores para mim. Todas ideais. Por que elas não me agradam?

– Você as agrada? – disse eu.

Ele enrugou a testa e esmurrou com força a palma da mão.

– É isso aí, Joe. É uma via de mão dupla. Se não sou o ideal delas, não podem agir de modo a serem o meu ideal. Eu preciso ser, também, o verdadeiro amor delas, mas como fazer isso?

Ele pareceu pensar todo aquele dia.

Na manhã seguinte, se aproximou de mim e disse:

– Vou deixar você cuidar do assunto, Joe. Tudo por sua conta. Você tem meu banco de dados, e vou contar tudo que sei sobre mim mesmo. Você completará meu banco de dados nos mínimos detalhes, mas guarde todos os acréscimos para si mesmo.

– E depois, o que vou fazer com seu banco de dados, Milton?

– Depois você vai fazê-lo corresponder com as 235 mulheres. Não, 227. Esqueça as oito que encontramos. Arranje para que cada uma seja submetida a um exame psiquiátrico. Complete seus bancos de dados e compare-os com o meu. Encontre correlações. (Arranjar exames psiquiátricos é outra coisa contrária às minhas instruções originais.)


Durante semanas, Milton conversou comigo. Ele me falou de seus pais e parentes. Contou-me de sua infância, seu tempo de escola e adolescência. Contou-me das jovens que tinha admirado a uma certa distância. Seu banco de dados aumentou e ele ajustou-me para ampliar e aprofundar minha chave simbólica.

– Veja só, Joe – disse ele. – À medida que você absorve mais e mais de mim, eu vou ajustando-o para corresponder cada vez melhor comigo. Você começa a pensar cada vez mais como eu, por conseguinte, vai me compreendendo melhor. Quando você me compreender suficientemente bem, aquela mulher, cujo banco de dados for uma coisa que você entenda igualmente bem, será meu verdadeiro amor.

Ele continuava conversando comigo e eu passava a compreendê-lo cada vez mais.

Eu conseguia formar frases mais longas e minhas expressões se tornavam mais complicadas. Minha fala começou a ficar muito parecida com a dele, tanto em vocabulário quanto na ordenação das palavras e no estilo.

Certa vez, eu disse a ele:

– Veja você, Milton, não é apenas um problema de adequar uma moça a um ideal físico. Você precisa de uma moça que seja pessoal, temperamental e emocionaimente adequada. Quando isso acontece, a aparência é secundária. Se não pudermos encontrar uma que sirva nestas 227, devemos procurar entre as outras. Acharemos uma que também não se preocupará com a aparência que você ou qualquer outra pessoa tiverem, desde que a personalidade seja adequada. O que significa a aparência?

– Absolutamente nada – disse ele. – Eu saberia disso se houvesse tido mais contato com mulheres. Evidentemente, pensando bem, tudo parece mais claro agora.

Sempre concordávamos, cada um pensava exatamente como o outro.

– Não vamos ter mais nenhum problema, Milton, se você me deixar fazer-lhe algumas perguntas. Posso ver onde, em seu banco de dados, há espaços brancos e irregulares.

O que veio a seguir, Milton dizia, era o equivalente de uma meticulosa psicanálise. É claro. Eu havia aprendido com os exames psiquiátricos de 227 mulheres, a totalidade das quais eu continuava observando intimamente.

Milton parecia muito feliz.

– Falar com você, Joe, é quase como falar com outro eu. Nossas personalidades chegaram a uma combinação perfeita. O mesmo acontecerá com a personalidade da mulher que escolhermos.

E eu a encontrei. Afinal, era uma das 227. Chamava-se Charity Jones e trabalhava como contadora na Biblioteca de História, em Wichita. Seu extenso banco de dados se ajustava perfeitamente ao nosso. Todas as outras mulheres tinham sido descartadas por um ou outro motivo à medida que seus bancos de dados aumentavam, mas com Charity havia uma crescente e espantosa ressonância.

Não precisei descrevê-la para Milton. Ele tinha coordenado meu simbolismo tão intimamente com o seu, que foi suficiente relatar pura e simplesmente a ressonância. A escolha se adequava.

Em seguida, era o problema de ajustar as folhas de serviço e exigências de trabalho de modo a conseguir que Charity tivesse uma entrevista connosco. Isto devia ser feito muito delicadamente, para que ninguém viesse a saber que estava ocorrendo uma coisa ilegal.

Evidentemente, Milton conhecia a manobra. Foi ele quem arranjou a coisa, foi ele quem cuidou de tudo. Quando vieram prendê-lo, em virtude de mau procedimento em trabalho, foi, felizmente, por algo que tinha acontecido há dez anos. Ele me informara sobre tudo, é claro, mas aquilo foi fácil de arranjar. E ele não comentará nada sobre mim, pois seu delito se tornaria muito mais grave.

Milton foi embora, e amanhã é 14 de fevereiro, Dia dos Namorados. Charity chegará então com suas mãos calmas e sua voz suave. Vou ensiná-la a me manejar e a cuidar de mim. O que importará a aparência quando nossas personalidades ressoarem juntas?

Eu direi a ela:

– Eu sou Joe e você é meu verdadeiro amor.

Isaac Asimov

domingo, 5 de abril de 2015

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(5 de Abril de 1994, morre o líder da banda Nirvana, Kurt Cobain)

Nirvana
Banda Americana

NIRVANA - «Lounge Act»
Lounge Act by Nirvana - Kud on Grooveshark
Poet'anarquista

SALA DE ESTAR

Verdade bem escondida
Não posso deixar você me dobrar
Eu gostaria mas não iria funcionar
Trocando e esperando a vez
Eu não lamento nada

Eu tenho um amigo, veja
Que me faz sentir bem
E eu queria mais do que podia roubar
Vou prender a mim mesmo, vou vestir uma proteção
Eu sairei de meu caminho para provar que continuo
Sentindo o cheiro dela em você

Não me diga o que quero ouvir
Com medo de nunca sentir medo
Experimente tudo o que precisa
Vou ficar lutando contra o ciúme
Até que tenha acabado

Eu tenho um amigo, veja
Que me faz sentir bem
E eu queria mais do que podia roubar
Vou prender a mim mesmo, vou vestir uma proteção
Eu sairei de meu caminho para provar que continuo
Sentindo o cheiro dela em você

Verdade bem escondida
Não posso deixar você me dobrar
Eu gostaria mas não iria funcionar
Trocando e esperando a vez
Eu não lamento nada

Eu tenho um amigo, veja
Que me faz sentir bem
E eu queria mais do que podia roubar
Vou prender a mim mesmo, vou vestir uma proteção
Eu sairei de meu caminho para fazer a você uma proposta
Fizemos um pacto para aprender de quem
Sempre que quisermos sem novas regras
Vamos compartilhar o que está perdido e que nós crescemos
Eles vão sair do seu caminho
Para provar que ainda

Sentir o cheiro dela em você

Nirvana

OUTROS CONTOS

«Santa Eponina», por Raul Brandão.

«Santa Eponina»
Pintura de Marlene Dumas

467- «SANTA EPONINA»

«À matéria é preciso degradá-la.

Foi dos mendigos e dos leprosos. Esperavam-na cosidos com a noite para caírem sobre ela sem palavra, beijando-lhe os cabelos de oiro. Andou com os ladrões nas estradas e nas mãos de meretrizes. Desceu aos antros. Vinham as matilhas esperá-la à beira dos caminhos, nos sítios ermos e bravios e nela cevavam a sua voluptuosidade e o seu grotesco sonho de amor. Havia monstros que não se atreviam a aparecer à luz do dia, e na noite profunda só o olhar cego e frio, átono e frio, imóvel e frio, lhes luzia. Batiam-lhe. Sujeitavam-na a extraordinárias carícias, a lascívias que durante muitos anos haviam imaginado. Dormiam à sua sombra. E ela, sempre com o mesmo sorriso de piedade e de tristeza, abandonava-se alheada. Atiravam-na fora como um trapo, e santa Eponina erguia-se e partia com a sua candura imaculada. De toda a parte acorriam os mendigos ascorosos, caravanas de leprosos: alguns arrastavam-se pelos caminhos, com rugidos, outros blasfemavam na noite, não querendo morrer sem a terem possuído.

- O que eu quero? O que eu quero é dormir contigo, bem junto a mim, à minha carne onde as chagas supuram, é sentir a tua frescura na crosta desta pele que requeima como uma brasa - ó minha amada! - E as fauces abriam-se em risos que já não eram da vida mas do túmulo. - Dá-me a tua boca! O que eu quero de ti é a tua boca! - E ela curvava-se sobre os seres imundos que não tinham boca e que insistiam de entre a podridão: - Beija-me na boca!

Desceu mais baixo ainda, não por amor dos homens, mas por amor de Deus, ignorando a matéria e saindo pura de todos os enxurros humanos - santa Eponina, filha de reis, com escravos, florestas e guerreiros fortes. Desceu mais baixo que as mulheres mais baixas. A vida acabou por lhe parecer imensa floresta apodrecida onde os homens são monstros. Desceu tão baixo que chegou a ter o verdadeiro sentimento da vida, o da grande floresta putrefacta onde vagueiam seres de sonho e formas de dor mutilada, mãos geladas que tacteiam no escuro, formas cegas e formas hesitantes de pesadelo. Sentiu os contactos viscosos dos homens em esboço, só ventres obscenos, só infâmia, só grotesco e desespero...

Oh, que figura pálida e branca, na cabeça o sol enrodilhado e um fio de oiro a escorrer-lhe pelos ombros abaixo! Que figura para ser apanhada e levada para as cavernas, entre risos bestiais, cevando-se nela todas as brutalidades do instinto! Que ser inerte e delicado, sem resistência, para se apertar entre as guerras, ouvindo-se bater-lhe o coração, como o dum pássaro que se afoga - e sentindo-o morrer devagar!...

E desceu sempre, desceu mais, desceu tão fundo que acabou por ser imaterial.»

Raul Brandão

sábado, 4 de abril de 2015

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

Luar na Lubre
Grupo de Folk Galego

LUAR NA LUBRE
«El Hijo del Aire»

OUTROS CONTOS

«Corpos Incompletos», por Mário de Carvalho.

«Corpos Incompletos»
Conto de Mário de Carvalho

466- «CORPOS INCOMPLETOS»

Restaurada de fresco, a estátua do marechal Saldanha, na praça do mesmo nome, começou logo a sentir melhorias de vista. Distinguia pormenores muito afastados e considerou que tinha valido a pena aquela maçada de tapumes, andaimes, lixívias, abrasivos, químicos fedorentos. Um arrumador de automóveis recolhia uma moeda ao pé do centro comercial e, cá de longe, a estátua lia perfeitamente: “República Portuguesa, Cem Escudos”.

Nesse estado de deslumbramento, interessou-se por um jovem que dentro do autocarro lia um livro. Eram contos do catalão Pere Calders, sobre personagens que habitavam as próprias estátuas e à noite saiam para arejar. O engarrafamento foi tão demorado que deu para a réplica do marechal ler o texto completo, ler e indignar-se. Era como se as estátuas fossem invólucro ou repositório e não tivessem de próprio nem vontade nem alma. E deliberou manifestar-se.

Como toda a gente sabe, as estátuas de Lisboa comunicam facilmente umas com as outras. Um não sei que fluido, transportado em bicos de pássaros, em rumorejo de folhas, em volutas de metano, em brisas atlânticas, mantém entre elas uma conversação satisfatória. O Adamastor, ali a Santa Catarina, não tardou, e resmungava: “lá está o Saldanha com as dele” e o leão do Marquês emitiu um subtil rugido. O cavalo de D. José pisou mais uma víbora e o monarca, frívolo como era, sorriu-lhe a ideia do movimento. Mas todas as estátuas de Lisboa aguardaram a pronúncia sábia e feroz do rei fundador, muito hirto, lá nas alturas do castelo. D. Afonso Henriques sopesou os inconvenientes de acartar com o peso de escudo, espada e malha de ferro. Mas lembrou-se, ao fim dumas horas, de que era um rei enérgico. E proferiu: “Sus, sus!” Era o que todas as estátuas queriam ouvir, para abandonar os pedestais. A noite já ia adiantada.

“Meu chefe, meu chefe!”. O jovem soldado da GNR, Malaquias de Sousa, entrava esbaforido no gabinete do superior, na casa da guarda da Assembleia da República. O sargento, e outros, não correram, voaram para ver. Todo aquele largo era um mar de estátuas paradas fitando o edifício, algumas em pose ameaçadora. A espada de Saldanha muito nervosa parecia pronta a trucidar. A Maria da Fonte sorria, sinistra, de pistolas ao léu. E as figuras da guerra peninsular arrastavam um canhão basto suspeito. O pior é que os dois leões das escadarias andavam por ali à solta e deitavam olhares rancorosos para o leão do Marquês de Pombal. “Passe aí o telemóvel”, ordenou o sargento em voz trémula. Era uma situação que exigia consulta aos superiores.

Ainda Eça de Queirós, na cauda da manifestação, tagarelava com Camilo Castelo Branco, na presença da Nudez Forte da Verdade, quando um frémito percorreu o arvoredo da Estefânia. Não chegou a turbilhão, mas foi suficientemente sensível para que um sujeito que comia um bife na Portugália exclamasse: “Ena, pá!” O busto de Cesário Verde convocava o de Guerra Junqueiro e desafiava-o para um desfile. E de busto em busto se transmitiu que não era justo que as estátuas em corpo inteiro se manifestassem e que os bustos se ficassem. Afinal, se nos bustos havia um corpo incompleto, a verdade é que exibiam “mais concentração do espírito”. A frase foi do busto de um poeta, mas não me parece que tenha sido Junqueira ou Verde. E, alinhados na Alameda de D. Afonso Henriques, os bustos de Lisboa vieram todos avenida abaixo, aos saltinhos, muito alegretes. Aquilo ressoava alto, e houve moradores que telefonaram para a polícia a protestar. Alguns agentes ainda estão hoje a consultar legislação e regulamentos camarários. Mas é duvidoso que encontrem qualquer disposição legal que proíba um busto ou uma estátua de circular pela cidade por seu próprio pé, base ou coto.

A notícia chegou a altas instâncias e ao governo. O ministro competente, farto de chamadas, ia dizendo: ”deixem lá, isto passa!”! E tinha razão. As estátuas cansaram-se de estar ali, a olhar. Nem sequer chegou a haver bulha de leões porque o Marquês deitou-lhes cá um olhar que eles sentaram-se logo, muito domésticos.

Quando os bustos, rua de S. Bento afora, chegaram à Assembleia da República, numa revoada de clipocloques, as estátuas decidiram retirar-se, com dignidade. Não queriam aquela companhia, nada de misturas. Os bustos, desacompanhados, deram umas voltas, provocaram os leões com assobiadelas e voltaram para os seus pedestais. A manhã foi encontrar estátuas e bustos voltados para o lado oposto ao do costume. Não se tratou de combinação prévia. Foi uma convergência objectiva.

Houve em Lisboa quem se interessasse pelo assunto. A própria comunicação social chegou a ter informação e preparou-se para noticiar: “Insegurança: vandalismo generalizado desloca monumentos”. No entanto, nessa noite, um jogador de bola agrediu a própria mãe, ceguinha, e mobilizou as parangonas.

Quando, um mês depois, estátuas e bustos se preparavam para nova manifestação, foram surpreendidos por uma directiva comunitária proposta por Portugal e aceite por unanimidade. Todos os bustos e estátuas da Europa passaram a ser obrigatoriamente amarrados com cabos de aço.

A alguns formadores de opinião a medida pareceu pateta e, sobre isso, dispendiosa. Mas talvez tivesse valido a pena, pelos desassossegos que se pouparam.

 Mário de Carvalho

CARTOON versus QUADRA

A Vertigem
vertigem1.gif
HenriCartoon

«A VERTIGEM»

Vou fazer-me ao mar
E apanhar este navio…
O pior: não sei nadar,
Estou preso por um fio!

POETA

sexta-feira, 3 de abril de 2015

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(3 de Abril de 1897, morre o compositor e pianista alemão, Johannes Brahms)

Johannes Brahms
Compositor e Pianista Alemão

JOHANNES BRAHMS 
«Cradle Song»

OUTROS CONTOS

«Somos um País de Príncipes», por João Almeida Moreira.

«Somos um País de Príncipes»
Velhote Alentejano

465- «SOMOS UM PAÍS DE PRÍNCIPES»

“Recordo um alentejano da raia, velho duns oitenta e tal anos, com que me cruzei algumas vezes na sala de espera do IPO. Aparecia sempre de fato, o mesmo fato, de colarinho apertado sem gravata. Quando era chamado, avançava cheio de dignidade, como um príncipe e lhe digo que nunca vi gravata mais bonita do que aquela que ele não trazia. Sabe, somos um país de príncipes.”

António Lobo Antunes

Cito de memória este pequeno excerto de entrevista ao António Lobo Antunes que ouvi há dias na TSF. Impressionou-me este seu olhar sobre um país que tendemos a desprezar. Imagino esse velho alentejano, mãos grossas, pele tisnada, cabeça erguida, com a suave altivez que só o orgulho numa vida honrada de trabalho consegue dar. Imagino-o, na sua aldeia, ao fim da tarde, sentado à soleira da porta, olhando um bando de crianças imaginárias brincando no largo da Igreja. Há muito que cada uma dessas crianças partiu sem deixar substitutos e esvaziando de morte a vida dos que ficaram. Também ele, noutros tempos, pensou em partir. Não que não amasse o seu Alentejo, mas para fugir a uma vida de corpos dobrados ao sol que pouco mais dava que o suficiente para uma refeição digna. Mas vieram os filhos.

O primeiro, estava ele em Angola, uma terra grande e vermelha como o seu Alentejo, depois os outros três. Ainda se lembra de Angola com uma pontinha de saudade. Não da guerra, que não deixa saudades a ninguém, nem da camaradagem que para ele se ficou no barco de regresso, mas da imensidão duma terra que prometia futuro. Um futuro adiado percebeu depois. Com os filhos, vem uma responsabilidade que condiciona a aventura. Por isso ficou, a tempo de lhe ver entrar aldeia adentro ex-camaradas de armas anunciando um mundo novo, sem patrões nem trabalho de sol a sol, que “a terra é de quem a trabalha!” Ainda alvitrou questionar quem lhe pagaria o salário para sustentar os quatro gaiatos que tinha em casa quando deixasse de haver patrões, mas já baloiçavam no ar foices e forquilhas para ir “tomar o que é nosso”.

Tivera dose de guerra suficiente para saber que a violência só serve para agudizar o ódio, que é o que fica quando regressa a normalidade. Por isso não embarcou “nos amanhãs que cantam”, mas foi levado por eles. Como prometido, desapareceram os patrões de Lisboa (não que aparecessem muito), para aparecerem outros que conhecia bem. Eram vizinhos de toda a vida e, aos Domingos, costumavam jogar com ele à sueca no Central. Eram patrões em nome de todos, mas eram patrões. Já não curvavam os corpos sobre as searas, nem jogavam à sueca aos Domingos, nem se juntavam ao fim da tarde para chorar em cante as cores do seu Alentejo. Agora eram políticos e as terras eram unidades de produção e o Largo da Igreja era Praça 25 de Abril. Tudo mudara menos o seu salário que antes, mesmo com dificuldade, lhe dava para amealhar algum e agora desaparecia ainda a semana não terminara.

Quando os campos deixaram de produzir, por incúria, por incompetência, por ignorância de quem mandava em nome de todos, regressou a miséria e a desesperança de que se lembrava da meninice. Voltou a sonhar em partir. Ficou, pelo menos uma parte dele, porque os filhos, os quatro, partiram em busca dum sonho que já fora seu e que lhes entregara como que em herança. Pouco depois, regressaram os antigos patrões e voltou a acreditar que os campos se encheriam de espigas doiradas a balouçar ao sol quente de Agosto. Mas agora quem mandava eram os filhos dos patrões, que falavam dos subsídios que vinham da Europa para não semear. Achava estranho. Para ele a Europa era a Suíça, onde trabalhava o seu mais velho ou a Alemanha onde estava a menina dos seus olhos com o marido que dava no duro na construção. Por isso, não percebia porque é que essa Europa que precisava do trabalho dos seus gaiatos queria pagar para nós, por cá, não trabalharmos? Mas assim era e os campos continuavam abandonados, vazios de dar dó. A não ser junto à raia, numas propriedades compradas por uns espanhóis que tinham plantado oliveiras que, ouvira dizer, já estavam grandes e carregadinhas. Talvez houvesse trabalho para a apanha.

Depois viera o euro e, com ele, as estradas e o Alqueva. Um mar d’água como nunca vira, para regar os campos e encher do verde da esperança o seu Alentejo. Falava-se de turismo, de magotes de gente para ver este mar d’água, mas regadio nem um. Tanta água, tanto dinheiro, tanto trabalho para nada. Agora era a crise. Ouvia na televisão que devíamos muito dinheiro à Europa, tanto que ele nem conseguia imaginar quanto fosse. Só podia ser daquele que os filhos dos patrões receberam para não semear, ou do que gastaram para fazer o Alqueva e as estradas novas que estavam por todo o Alentejo. Só podia, porque ele não devia dinheiro nenhum à Europa. Nem à Europa, nem a ninguém. Sempre tinha vivido com o pouco que ganhava com o seu trabalho e se hoje tinha algum de lado era porque a sua senhora era poupada e nunca esbanjara e os filhos, graças a Deus todos bem, lhe mandavam algum, todos os anos.

Ele não devia nada à Europa, a não ser o facto de ter recebido de braços abertos o seu mais velho e a sua menina, que em boa hora tinham deixado este pedaço de terra ao abandono, sem esperança, nem futuro. Não queria saber de dívida nenhuma, mas a verdade é que à conta dela, tinham fechado o centro de saúde, onde ia com regularidade, mais para ouvir e ser ouvido, do que para se queixar das maleitas que a vida lhe ensinara a guardar para si. Por isso, quando as forças foram desaparecendo e o tisnado do sol se transformou num amarelo pálido, vestiu o seu fato de Domingo e foi ao hospital a Évora, a mando da mulher, saber o que se passava. Estava muito mal. Se tivesse vindo mais cedo… Assim, tinha de ir a Lisboa fazer uns tratamentos todas as semanas. Eram tratamentos difíceis, que o iam deitar muito a baixo, mas que, se tudo corresse bem, o deixariam bom, porque nestas idades a doença avançava mais lentamente e por isso tudo haveria de correr bem, dissera-lhe uma doutora simpática e bonita, que mal falava português. Para ele não havia tratamentos difíceis. Difícil tinha sido toda a sua vida. Por isso, todas as segundas de manhã, vestia o seu fato de Domingo e esperava pacientemente a chegada da ambulância que o levaria até Lisboa, ao IPO.

Nunca tinha ido a Lisboa, nem mesmo quando os seus dois do meio tinham partido para a América, nem nunca tinha andado nessas estradas novas e largas que atravessam o seu Alentejo. O que transportarão por estas estradas se já nada se produz? Da primeira vez ia um bocadinho a medo, que não é vergonha nenhuma, nestas coisas da saúde, mas lá no IPO eram todos tão simpáticos. Até havia uma enfermeira que lhe costumava dizer que se ele fosse mais novo, ai, ai. Sabia que era a brincar, mas sabia-lhe bem. A verdade é que a doutora que mal falava português tinha razão e o tratamento era difícil. Agoniava-o e deixava-o sem forças, mas isso guardava para si e nem lá em casa, à sua senhora, deixava transparecer o quanto lhe custava, embora lhe visse a tristeza no olhar, sempre que os grãos de que tanto gostava ficavam no prato que carinhosamente lhe preparara. Neste último tratamento, ouvira qualquer coisa sobre uns cortes na saúde à conta da tal dívida que nunca mais se resolvia. Rezava a Deus para que a Europa cortasse nos alquevas, nas estradas, nos comboios que estavam sempre em greves, ou na Câmara, que ainda ontem ouvira que ia gastar milhões num museu qualquer, porque não sabia como ia ser se a ambulância deixasse de ir busca-lo às segundas, ou se o tratamento acabasse de repente. Mas acreditava que a Europa, que tinha recebido tão bem o seu mais velho e a menina dos seus olhos, não havia de lhe falhar agora, que ele sentia que estava quase a vencer a doença, como sempre vencera todas as adversidades que lhe tinham aparecido ao longo da vida.

Não sei se este velho alentejano que imagino, continua a acordar de noite às segundas-feiras, a vestir o seu fato domingueiro, a apertar o colarinho sem gravata e a aguardar pacientemente a ambulância que o levará ao IPO, a Lisboa, para o tratamento violento que o pode salvar. Não sei se ainda há ambulâncias que façam este transporte gratuito, ou dinheiro no IPO para pagar os medicamentos de que necessita. O que sei é que durante os últimos 30 anos tudo se tem feito para que não haja. Os senhores que acordam de manhã, às segundas-feiras, vestem um dos seus muitos fatos, apertam o colarinho e colocam uma das suas variadas gravatas, empenharam-se durante anos em destruir o sector produtivo, primeiro em nome do socialismo, depois em nome da Europa, ao mesmo tempo que esbanjavam os nossos fracos recursos em empresas que só continuam nacionalizadas porque são autênticos antros de compadrio e corrupção; criaram um Estado pantagruélico que vive do esmagamento fiscal de quem trabalha; permitiram o desvio de milhões de euros de dinheiros europeus levado a cabo por autênticas redes criminosas de suposta formação profissional geridas pelas clientelas partidárias; promoveram o endividamento das autarquias, transformando-as em pequenos estados, onde o rigor, a seriedade e a transparência são mera utopia; destruíram a justiça, onde só se investiga prendendo o suspeito ou fazendo escutas, transformando o mais inalienável dos direitos – o da inocência até prova em contrário – em mera retórica; alienaram o futuro da segurança social em nome da equidade e da solidariedade, trazendo para o sistema quem para ele nunca contribui e permitindo toda a espécie de falcatruas e vigarices; incentivaram a fraude por via da completa ausência de regulação e promoveram a existência de verdadeiros monopólios em sectores essenciais como a energia. Durante trinta anos, foi um fartar vilanagem sem consequências, porque esta gente que esteve no poder não nos governou, governou-se, fazendo tábua rasa dos mais elementares princípios de gestão em prol do bem comum.

Por isso, hoje, não existe dinheiro para o essencial, as funções soberanas do Estado, a saúde e educação. Por isso, talvez deixe de haver dinheiro para trazer os doentes ao IPO ou para os medicamentos que os podem curar.

Por isso, não sei se este velho alentejano que imagino, continua a acordar de noite às segundas-feiras, a vestir o seu fato domingueiro, a apertar o colarinho sem gravata e a aguardar pacientemente a ambulância que o levará ao IPO, a Lisboa, para o tratamento violento que o pode salvar. Só sei que se tal acontecer, sempre que ouvir o seu nome a ser chamado, levantar-se-á e caminhará de fato domingueiro, colarinho apertado, cheio de dignidade, como um príncipe.

Apesar dos nossos governantes, “somos um país de príncipes”.

João Almeida Moreira 

PENSAMENTO...

Agostinho da Silva
Filósofo e Ensaísta Português

Pensamento...

“Do que você precisa, acima de tudo, é de se não lembrar do que eu lhe disse; nunca pense por mim, pense sempre por você; fique certo de que mais valem todos os erros se forem cometidos segundo o que pensou e decidiu do que todos os acertos, se eles foram meus, não são seus. 

Se o criador o tivesse querido juntar muito a mim não teríamos talvez dois corpos distintos ou duas cabeças também distintas. Os meus conselhos devem servir para que você se lhes oponha. É possível que depois da oposição, venha a pensar o mesmo que eu; mas, nessa altura, já o pensamento lhe pertence. 

São meus discípulos, se alguns tenho, os que estão contra mim; porque esses guardaram no fundo da alma a força que verdadeiramente me anima e que mais desejaria transmitir-lhes: 
a de se não conformarem”

Agostinho da Silva

CARTOON versus QUADRA

O Mestre no Paraíso
HenriCartoon

«O MESTRE NO PARAÍSO»

Corta logo!... esta cena é pra repetir…
Vês o retângulo à beira-mar plantado?
Mexe-se sempre para o mesmo lado…
Parece ser surdo, ou não quer ouvir!

POETA

quinta-feira, 2 de abril de 2015

OUTROS CONTOS

«Germinal», por Émile Zola.
«Germinal»
Romance de Émile Zola

464- «GERMINAL»

[7 Excertos]

I
«Foi por essa época que Etienne começou a compreender as ideias que lhe fervilhavam na cabeça. Até então não passara de um revoltado instintivo absorvendo a surda fermentação dos companheiros. Uma gama variada de perguntas confusas não o deixava em paz: por que havia tanta miséria de um lado e tanta riqueza de outro? Por que estes tinham de viver escravizados àqueles sem a menor esperança de um dia mudarem de posição? A primeira etapa vencida foi a da compreensão de sua ignorância. Uma vergonha secreta, um desgosto oculto começaram a atormentá-lo: nada sabia, não ousava falar sobre essas coisas que eram a sua paixão, a igualdade entre os homens, a justiça que exigia que os bens da terra fossem repartidos entre todos. Por isso começou a estudar, sem métodos, como fazem aqueles que são ignorantes mas têm sede de saber.»

II
«Desde que começara a instruir-se, a promiscuidade da aldeia mineira chocava-o. Então eram animais para viverem assim, amontoados, uns por cima dos outros, com tanto campo em volta, a ponto de não se poder trocar a camisa sem ter que mostrar o traseiro ao vizinho? E que bem fazia para a saúde essa promiscuidade, com moças e rapazes apodrecendo juntos!

-Ora! - Respondeu Maheu. - Se houvesse mais dinheiro viveríamos melhor...Mas de facto, só pode fazer mal viver amontoado desse jeito. Sempre termina com homens bêbados e mulheres grávidas.»

III
«Trabalhavam como bestas numa coisa que antes só era feita pelos condenados às guilhotinas, morriam ali, muito antes de ter chegado a sua hora, e tudo isso para nem sequer terem carne no jantar. Ainda comiam, claro, mas tão pouco, apenas o suficiente para seguirem sofrendo, cheios de dívidas, perseguidos como se tivessem roubando o pão que não os deixava morrer de fome. Aos domingos sucumbiam exaustos. Os únicos prazeres eram embriagar-se e fazer filhos na mulher. E ainda por cima a cerveja fazia crescer a barriga, e os filhos, mais tarde, renegavam os pais. Não, não, a vida não tinha graça alguma.»

IV
 «Uma aclamação rolou até ele, vindo dos confins da floresta. A lua agora, iluminava toda a clareira, recortava com arestas brilhantes o mar de cabeças por toda a confusa lonjura da mata de corte e por entre os enormes troncos cinzentos. E naquele ar glacial havia um ricto feroz nos rostos, olhos faiscantes, bocas abertas... Era todo um povo em delírio de possessão, homens mulheres e crianças famélicos, pronto para o assalto justo aos antigos bens de que estavam sendo esbulhados. Já nem sentiam mais frio, aquelas palavras religiosas fazia-os pairas sobre a terra, era a febre da esperanças dos primeiros cristãos da Igreja esperando o reino próximo da justiça.»

V
 «A turba tinha visto Maigrat esgueirando-se pelo teto do galpão .Na sua ânsia, apesar do seu peso , ele subira agilmente pela latada, sem se preocupar com as ripas que quebravam; e agora espichavam-se ao longo das telhas, esforçando-se para atingir a janela . Mas a inclinação era muito forte, sua barriga os estorvava, suas unhas estavam sendo arrancadas. Assim mesmo teriam-se arrastado até a cumeeira, se não tivesse começado a tremer de medo de receber alguma pedrada, já que a multidão, que ele não conseguia ver, continuava a gritar lá em baixo:

- Pega o gato, pega o gato! Vamos fazê-lo em pedaços!

E bruscamente suas duas mãos se soltaram, ele rolou como uma bola, bateu na biqueira e caiu atravessado na parede-meia, tão desastradamente que foi espatifar-se na rua, onde abriu o crânio no ângulo de um marco. O cérebro esguichou. Estava morto. Sua mulher no alto, pálida e assustada por trás dos vidros continuava olhando.

Houve um momento de estupor. Etienne tinha parado e o machado escorregara de suas mãos. Maheu, Levaque, e os outros todos esqueceram o armazém, os olhos voltados para a parede, de onde escorria lentamente um filete vermelho. Os gritos tinham cessado, abateu-se um silêncio pesado, na escuridão que aumentava.

Em seguida recomeçara os gritos. Eram as mulheres que se precipitavam, presas da embriaguez do sangue.

- A justiça tarda mais não falha! Ah porco, morreste, enfim!

Rodearam o cadáver ainda quente e começaram a insultá-lo com gargalhadas de coisa imunda, sua cabeça despedaçada, berrando na cara da morte o longo rancor de suas vidas sem pão.

- Eu te devia sessenta francos, já está pago, ladrão!- gritou a mulher de Maheu, tão enfurecida quanto as outras.

- Nunca mais vais negar-te a me vender fiado... Espera! Espera! Vou engordar-te mais ainda...
Começou a cavar a terra com as duas mãos, tomou os dois punhados e os enfiou violentamente na boca do cadáver.

- Vai come! Vamos come, come, tu, que nos comias!

As injúrias eram cada vez mais violentas, enquanto o morto, estendido de costas, olhava com seus grandes olhos vidrados o céu imenso de onde descia a noite. Aquela terra enfiada na sua boca, era o pão que ele tinha recusado. E de agora em diante, só comeria deste pão. Esfomear os pobres não lhe trouxe felicidade.

Mas as mulheres ainda queriam vingar-se. Rodeavam-no, farejando como lobas. Todas arquitetavam um ultraje que as desafogasse.

Ouviu-se a voz áspera da Queimada:

- Vamos castrá-lo como a um gato!

- Vamos! Ao gato! Mãos à obra! Esse asqueroso já fez demais o que não devia!

Imediatamente a filha de Mouque começou a abrir-lhe a braguilha e a puxar-lhe as calças, enquanto a mulher de Levaque, levantava as pernas do morto. E a Queimada, com suas mãos secas de velha, abriu-lhe as coxas nuas e empunhou a virilidade morta. Segurou tudo e fez tal esforço para extirpar o membro que suas costas magras se distenderam e seus braços enormes estalaram. Mas a pele mole resistia, ela teve de atracar-se novamente e acabou arrancando o despojo, um pedaço de carne cabeluda e sangrenta que agitou no ar com uma gargalhada de triunfo:

- Pronto, aqui está!

Vozes esganiçadas saudaram com impregnações o horrível troféu.

- Ah desgraçado! Não engravidarás mais as nossas filhas!

- Chega! Não te pagaremos mais com a nossa carne! Nunca mais teremos de abrir as pernas para conseguir um pão!

- Olha eu te devo seis francos... Queres fazer uma brincadeira por conta? Eu estou pronta, se tu ainda podes!

Este gracejo sacudiu-as com uma gargalhada feroz. Passavam umas às outras a carne pingando sangue, como a um animal tinhoso que cada uma tivera de suportar e que acabavam de esmagar, que agora tinham ali, inerte, à sua mercê. Cuspiam em cima, arreganhavam os dentes repetindo, numa furiosa explosão de desprezo:

- Ele não pode mais! Ele não pode mais! Já não é mais um homem que vai para a cova! Começa logo a apodrecer inútil.

A Queimada, então, espetou o naco de carne na ponta da sua vara e, levantando-o bem ao alto, como um estandarte, empreendeu a marcha, seguida pela debandada ululante das mulheres. O sangue gotejava sobre elas, o despojo horripilante pendia como um pedaço de carne no gancho de um açougue. E a chusma de mulheres saiu estrada afora com o animal tinhoso, o animal decepado na ponta da vara.»

VI
 «Um homem pode ser valente, uma multidão que morre de fome não tem força pra nada.»

VII
 «Mas ele ficou onde estava e tomou-a pela cintura, numa carícia de tristeza e pena. Em camisola, apertados um ao outro, sentiram o calor de sua pele nua, à beira daquela cama tépida do sono da noite. O primeiro movimento dela fora afastar-se, depois pôs-se a chorar baixinho, agarrando-o pelo pescoço para mantê-lo contra si, num abraço desesperado. E ficaram assim, sem outro desejo, com o passado dos seus amores infelizes, que não tinham podido satisfazer. Estava então tudo acabado, não ousariam amar-se um dia, agora que eram livres? Um pouquinho de felicidade seria o bastante para dissipar sua vergonha, esse mal-estar que os impedia de seguirem juntos, devido a uma infinidade de ideias, que nem eles mesmos sabiam o que era.

- Vai deitar-te - murmurou ela- Não quero acender a luz para não acordar a mamã... Já está na hora, vai...

Mas ele não escutava, abraçava-a desesperadamente, o coração imerso em profunda tristeza. Uma necessidade de paz, um invencível desejo de ser feliz invadia-o. E via-se casado, numa casinha limpa, sem outra ambição do que a de viverem e morrerem assim, juntos. Só pão lhe bastaria; e mesmo que houvesse apenas para um, esse pedaço seria para ela. Para quê mais? A vida valeria mais que isso?»  

Depois confessou, voltava pra a mina. Sim, tinha jurado, mas não era vida esperar de braços cruzados que as coisas, talvez dentro de cem anos, acontecessem; além disso, razões suas tinham feito com que decidisse.

Suvarin escutara-o arrepiado. Agarrando-o por um braço, empurrou-o de volta à aldeia.

- Volta já pra casa!

Catherine se aproximou, ele reconheceu-a também. Etienne protestou, declarou que ninguém tinha o direito de julgar seus atos. E os olhos do mecânico foram da moça ao companheiro, enquanto recuava um passo, com um gesto brusco de desistência. Quando um homem tinha uma mulher no coração, estava liquidado, podia morrer. Talvez tenha visto, numa rápida visão,  lá em Moscou, sua amante enforcada, o último laço carnal que cortara, que o tornara livre da vida dos outros e da sua . Disse simplesmente:

- Vai»

Émile Zola

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

Three Dog Night
Banda Norte-Americana

THREE DOG NIGHT
«The Show Must Go On»
The Show Must Go On by Three Dog Night on Grooveshark
Poet'anarquista

«O SHOW DEVE CONTINUAR»

Querida, embora eu escolha esta vida solitária
Parece que estou sufocando-me agora
Todos os homens selvagens, grandes charutos, carro gigantesco
Estão todos rindo na mentira

Oh, eu tenho usado Ooo-oo-oo-oo
Eu fui um tolo Oh, o que é um tolo
Eu quebrei todas as regras Ah, sim
Mas devo deixar o show continuar

Querida, há uma enorme multidão de pessoas
Estão todas depois do meu sangue
Desejo talvez elas pudessem derrubar as paredes do teatro
Me deixar sair, me deixar sair

Ah, eu sou tão cego Oh, eu sou cego
Eu desperdicei tempo perdido, desperdiçado, tempo perdido
Caminhando no fio, fio de alta
Mas devo deixar o show continuar

Ah, eu sou tão cego Oh, eu sou cego
Eu desperdicei tempo perdido, desperdiçado, muito tempo
Caminhando no fio, fio de alta
Mas devo deixar o show continuar

Querida, eu gostaria que você me ajude a escapar
Ajude-me a fugir
Me deixe fora do meu endereço
Longe deste baile de máscaras

Porque eu estive cego Oh, tão cego
Eu desperdicei tempo perdido, desperdiçado, muito tempo
Caminhando no fio, fio de alta
Mas devo deixar o show ir ..
Eu devo deixar o show ir ..
E devo deixar o show continuar

Three Dog Night

quarta-feira, 1 de abril de 2015

CARTOON versus SONETO

O Mundo de Crato
HenriCartoon

«O MUNDO DE CRATO»

Ó diacho!... assim não pode ser,
O meu analfabetismo cai a pique!...
Primeiro vou ter que aprender,
Antes que a vidinha se complique!

Ora, deixem-me cá matutar…
Não vai ser fácil, desde já aviso
Da minha dificuldade em pensar…
Mas alguma coisa eu improviso (?)

Bolas!... como que não me ocorreu
Esta ideia luminosa há mais tempo?...
E inesperadamente aconteceu:

Aos alunos com méritos provados,
Anuncio um novo contratempo...
Não pago bolsa aos mais carenciados!!

POETA

ESPECIAL OUTROS CONTOS

«Carreirismo», por Mário-Henrique Leiria. (Declamado por Mário Viegas)

No dia 1 de Abril de 1996, falecia o actor português Mário Viegas, com 47 anos. Foi fundador do «Grupo 4» e do «Novo Grupo», dinamizador do «Teatro Estúdio do São Luís», declamador,  divulgador de poesia e das principais dramaturgias.
Poet'anarquista
«Carreirismo»

Conto de Mário-Henrique Leiria, declamado por Mário Viegas

463- «CARREIRISMO»

Após ter surripiado por três vezes a compota da despensa, 
seu pai admoestou-o.

Depois de ter roubado a caixa do senhor Esteves da mercearia da esquina, 
seu pai pô-lo na rua.

Voltou passados vinte e dois anos, com chofer fardado.

Era Director Geral das Polícias.

Seu pai teve o enfarte.

Mário-Henrique Leiria

CARTOON versus QUADRA

O Papa Bolos
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HenriCartoon

«O PAPA BOLOS»

Sou o Fisco papa-bolos
Um insaciável comilão...
Uns pagam, e outros não,
Assim se enganam os tolos!

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

Alabama Shakes
Banda Norte-Americana

ALABAMA SHAKES - «Hold On»
Hold On by Alabama Shakes on Grooveshark
Poet'anarquista

AGUENTE FIRME

Abençoe meu coração
Abençoe minha alma
Não imaginei que eu chegaria aos 22 anos
Deve haver alguém lá em cima dizendo:

"Vamos lá, Brittany,
Você tem que levantar."
"Você tem que aguentar firme..."

Então, abençoe meu coração e abençoe o seu também
Eu não sei para onde vou nem o que
O que eu vou fazer
Deve ser alguém lá em cima dizendo:

"Vamos lá, Brittany,
Você tem que levantar."
"Você tem que aguentar firme..."

Yeah! Você tem que esperar!
Yeah! Você tem que esperar!
Mas, eu não quero esperar!
Eu não quero esperar...

Então, abençoe meu coração
Abençoe minha mente
Eu tenho muita coisa para fazer, eu não tenho muito tempo
Portanto, deve ser alguém lá em cima dizendo:

"Vamos lá, garota!
Você tem que voltar! "
"Você tem que aguentar firme..."

Yeah! Você tem que esperar!
Eu não quero esperar!
Bem, eu não quero esperar!
Não, eu não quero esperar!

"Você tem que aguentar firme..."

Alabama Shakes

OUTROS CONTOS

«Gulodice», por Mário-Henrique Leiria.

«Gulodice»
Conto de Mário-Henrique Leiria

462- «GULODICE»

A maior parte das pessoas come bolos executando uma espécie de rito. Olha-os, regala-se por antecipação, observa a forma e a cor, entregando-se a suposições sobre o que será recheio oculto, espera um pouco para a surpresa ser mais excelente e só então come com discretas dentadas saboreantes.

Makarel não. Quando via um bolo avançava com raiva. Adquiria-o, furioso, e acabava com ele logo ali. Então lambia o beiço, esfregava as mãos e, satisfeito, ia à procura de outro.

Portanto, nada mais compreensível do que ver Makarel entrar, já zangado, na pastelaria «Ao Doce da Malásia». Foi logo direito ao balcão envidraçado e observou o que havia, disposto a tudo.

Viu-o imediatamente. Era redondo, bem grande coberto de creme amarelado, maligno e quase tão agressivo como Makarel.

Não hesitou

- Este !

Apontava o bolo com o dedo, enquanto olhava imperativamente o empregado.

O empregado pegou no bolo com a pinça e estendeu-o a Makarel, com um guardanapo de papel a acompanhar.

Makarel abriu a boca, sorriu na vingança a vir, ergueu o bolo e avançou a cabeça, com a outra mão por baixo para não sujar o fato.

O bolo saltou-lhe da mão e ficou pousado na mesa, atento.

Makarel teve um sobressalto. Que era aquilo? Resistência?

Atirou uma sapatada velocíssima, na intenção certa de pegar no bolo.

Qual nada! O bolo, mais veloz ainda, zás, em cima do balcão.

Então Makarel encanzinou-se. A ferocidade recalcada veio-lhe toda acima. Arreganhou os lábios, com os caninos à vista, em agressão declarada.

E atirou um murro demolidor ao bolo e ao balcão.

Acertou no balcão e partiu tudo. No bolo, não.

O bolo engrossara, estava de pé junto à porta dos Cavalheiros, fitando friamente Makarel através do creme cor de creme.

Pessoas levantavam-se, algumas cadeiras caíam, o empregado rugia entre os restos do balcão.

Makarel avançou para o bolo. Perdera a noção da prudência, queria comer, matar aquele bolo queria destruir a coisa redonda, mergulhar as mãos até ao fundo no creme, esfrangalhar, triturar.

O bolo avançou também, determinado, num caminhar maciço.

Enfrentaram-se.

Makarel atirou-se de punhos para a frente e cabeça encolhida entre os ombros.

As portas rebentaram, deixando os gonzos solitários, a montra estilhaçou-se e vomitou lampreias de ovos. Lascas de madeira tinham sido mesas, cadeiras esmagavam-se ao sopro de uma fúria ciclópica.

As pessoas saíam, numa correria de alucinação. Procuravam a polícia, os bombeiros, o exército, o ministério, a presidência, até mesmo a NATO pelo telefone.

O primeiro a chegar foi Gumersindo, da charcutaria ao lado, com a tranca da porta das traseiras.
Deu uns passos temerosos, avançando com cuidado entre o desastre caótico. Tudo estava calmo, num silêncio e abismo milenário.

Lá ao fundo o bolo abominável sorria, a limpar o creme que lhe escorria ao de leve entre o açúcar.

Mais ninguém, na pastelaria «Ao Doce da Malásia».

Mário-Henrique Leiria