quarta-feira, 11 de novembro de 2015

«TESO MAS CONTENTE»

O amigo Carlos Vieira escreveu assim:

«- Hoje estou como o outro, teso mas contente!!!! Eheh...»

Nem vos conto o que me ri!!!
Poet'anarquista
Carlos Vieira
Amigo de longa data

«TESO MAS CONTENTE»

Como o tal hoje estou,
Ainda teso, mas contente…
E eu a rir perdidamente,
Foi o Carlos que provocou.
A Direita se cagou
Com a Esquerda Unida,
Vamos lá mudar de vida
Já chega de misérias…
Queremos pessoas sérias
E Vila Morena cumprida!

Matias José

CARTOON versus SONETO

Um dos cartoons de hoje do cartunista HenriCartoon, com publicação no Poet'anarquista, mas sem acompanhamento  da habitual sátira poética...

Lua de Fel
HenriCartoon

Achei mais apropriado para o momento político que se vive, repescar um cartoon de 6 de Maio de 2015 com o mesmo título (Lua de Fel), do mesmo autor e que na altura não teve direito à sátira poética que habitualmente por aqui se publica. Hoje que me perdoem, mas vou puxar a brasa à minha sardinha!

Lua de Fel
HenriCartoon

«LUA DE FEL»

- Fedelho, não posso acreditar
No que está a acontecer…
A primeira vez quis romper,
À segunda vou-me divorciar!

 Contigo já não penso casar
Agora que deixaste o poder…
Escusas de me ofender
Com o que andas a divulgar!

- Tortas, deixa de te preocupar…
Ocultei o que não se pode saber,
Os palavrões só a ti vou dizer.

- A intimidade é pra respeitar…
Já que ninguém está a escutar,
Aproveito pra te mandar foder!

POETA
  

CARTOON versus DÉCIMA

As Águas do Poder
HenriCartoon

«AS ÁGUAS DO PODER»

Quase, não?… já está!...
Ou esperam milagres?
Acabaram-se os dias agres,
Emigrem, não voltem cá!
Desculpem, mas não dá
Uns viverem na abastança,
Outros sem esperança
Por não terem que comer…
Como pode acontecer
Esta má vizinhança?

POETA

terça-feira, 10 de novembro de 2015

CARTOON versus QUADRA

O Pistoleiro
HenriCartoon

«O PISTOLEIRO»

Acabo com PàF de vez…
Dois cartuchos ‘in loco’,
Tiro ao alvo com Bloco
E em simultâneo PCP!

POETA

OUTROS CONTOS

«Para Não Ser Lido», conto poético de Paulo Henriques Britto.

«Para Não Ser Lido»
Conto Poético de Paulo Henriques Britto

663- «PARA NÃO SER LIDO»

Não acredite nas palavras,
nem mesmo nestas,
principalmente nestas.

Não há crime pior
que o prometido
e cometido.

Não há fala
que negue
o que cala.

Paulo Henriques Britto

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(10 de Novembro de 1999, morre o trompetista norte-americano, Lester Bowie)

LESTER BOWIE - «Tobago, Tobago»

Poet'anarquista

Lester Bowie
Trompetista Norte-Americano

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

OUTROS CONTOS

«Colina de Samambaias», conto poético por Dylan Thomas.

«Colina de Samambaias»
Conto Poético de Dylan Thomas

662- «COLINA DE SAMAMBAIAS»

Quando, junto à casa em festa, sob os ramos da macieira,
Eu era lépido e jovem, e feliz como era verde a relva,
     A noite suspensa sobre as estrelas do desfiladeiro,
          O tempo a permitir que eu gritasse e me erguesse,
    Dourado, no fulgurante apogeu de seus olhos,
Eu, venerado entre as carroças, era o príncipe da cidade das maçãs,
E certa vez, com orgulho, fiz com que as árvores e as folhas
            Se arrastassem com margaridas e cevada
     Até os rios iluminados pelos frutos caídos sobre a terra.

E como era moço e descuidado, famoso entre os celeiros
Ao redor do pátio feliz, e cantava, pois a fazenda era o meu lar,
   Sob o sol, que é jovem apenas uma vez,
         O tempo deixava-me brincar e ser dourado
    Na misericórdia de seus bens,
E, verde e dourado, eu era caçador e pastor, mugiam os bezerros
Ao som de minha trompa, das colinas vinha o uivo claro e frio das raposas,
        E lentamente ecoava a celebração do domingo
    Nos seixos dos córregos sagrados.

Tudo fluía e era belo sob o sol: os campos de feno
Altos como a casa, a música das chaminés, tudo era ar
     E ecoava, cheio de água e sortilégio,
         E fogo era tão verde quanto a relva,
    E à noite, sob a luz das estrelas humildes,
Enquanto eu cavalgava rumo ao sono, as corujas subjugavam a fazenda,
E sob a lua, abençoado entre os estábulos, eu ouvia os noitibós
        Voando entre as medas, e os cavalos
    Que flamejavam em meio às trevas.

E então, ao despertar, a fazenda, como um vagabundo
Branco de orvalho, regressa com o galo sobre o ombro: tudo
    Fulgia, tudo era Adão e sua donzela,
       O céu se adensava outra vez
   E o sol crescia ao redor daquele dia imaculado.
Assim deve ter sido após o nascimento da luz elementar
No primitivo espaço giratório, e os ardentes cavalos encantados
       Saíam relinchando da verde estrebaria
   Rumo ao campo da celebração.

E na casa em festa, venerado entre raposas e faisões,
Sob as nuvens recém-formadas, e tão feliz quanto era grande o coração,
    Ao sol que renasce a cada dia,
       Eu corria por meus caminhos temerários,
   Meus desejos  se precipitavam pelo alto feno da casa
E nada me importava, em meu comércio celestial, pois o tempo
Em suas órbitas melodiosas, só concede raras canções matinais
         Antes que as crianças verdes e douradas
    O acompanham até o estertor da graça,

Nada me importava, nos dias brancos como cordeiros, que o tempo
                                                                                     [me levasse,
Pela sombra de minhas mãos, até o paiol cheio de andorinhas,
    Sob a lua que jamais deixa de galgar os céus,
      Nem mesmo, ao cavalgar rumo ao sono,
    Que chegasse a ouvi-la flutuar entre os altos campos
E acordasse na fazenda apagada para sempre nessa terra sem crianças,
Ah! Quando eu era lépido e jovem, na misericórdia de seus bens,
   Embora eu cantasse em meus grilhões como canta o mar.

Dylan Thomas

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(9 de Novembro de 1967, morre o cantor lítico português, Tomáz Alcaide)

TOMÁZ ALCAIDE - «Os Pescadores de Pérolas»

Poet'anarquista

Tomáz Alcaide
Cantor Lírico Português, Natural de Estremoz

domingo, 8 de novembro de 2015

«MESTRE ANDRÉ», POR MATIAS JOSÉ

André, meu Neto
Décima de Matias José

MESTRE ANDRÉ

Mestre André já anda
Muito acelerado...
Não pára sossegado,
O gaiato não abranda!
É ele quem manda
Pra onde pensa ir,
Do Skipe quer fugir
Pra de novo voltar…
Desenvolto no andar,
Feito sacana a sorrir!

Matias José

OUTROS CONTOS

«A Escrita em Dia», conto poético por Matias José.

«A Escrita em Dia»
Décima de Matias José

661- «A ESCRITA EM DIA»

Tinha que acontecer
Este gosto pela poesia,
Era assim que eu a lia…
Gostar dela, um prazer!
Quem havia de dizer
Que tal me acontecia,
Sem o saber, eu sentia
Vontade pra escrever…
Não sei se vou puder
Deixar a escrita em dia.

Matias José

sábado, 7 de novembro de 2015

CARTOON versus SONETO

A Desmancha-Prazeres
HenriCartoon

«A DESMANCHA-PRAZERES»

- Maria, ouve a boa notícia:
As pensões vão triplicar!...
Agora já te posso comprar
A tal lembrança natalícia.

- Não sejas ingénuo, Manel…
Esse aumento é destinado
Ao pobre do Ricaço Safado…
O homem está sem granel!

- És desmancha-prazeres…
Mostrar falta de confiança
Quando se trata a receberes?

- Há uma réstia d’esperança…
Então, pra me convenceres,
Pede ao Safado a lembrança!

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

TCHAIKOVSKY - «Valsa das Flores»

Poet'anarquista

Retrato de Tchaikovsky/ Glazunov
Compositor Russo

GAIOLA ABERTA

Só Deus Sabe...
Gaiola Aberta/ José Vilhena

SÓ DEUS SABE…

Por agora, este fado é uma treta!...
Só Deus sabe amanhã o que virá,
Se algum de nós ainda cá estará
A ver o socialismo sair da gaveta!!

POETA

OUTROS CONTOS

«Salve-se quem Puder», por Lawrence Durrell.

«Salve-se quem Puder»
Conto de Lawrence Durrell

660- «SALVE-SE QUEM PUDER»

“... têm o prazer de convidar V.Exª para a jucunda circuncisão de seu filho Abdul...

Imagine a nossa surpresa colectiva quando Abdul penetrou na tenda de rompante... apareceu-nos um jovem de aspecto sólido... expressão simpática... que se transformou radicalmente quando percebeu para que o haviam chamado. Mostrava-se pouco interessado - direi mais, energicamente relutante - em participar em tão jucunda cerimónia... A mãe e o pai pareciam perturbados e principiaram a teimar, a suplicar, em curdo...

Por fim, o pai perdeu a paciência e fez sinal aos brutos congregados a um canto. Ia obrigar o relutante mancebo a participar na jucundidade do momento. Mas o rapaz aprendera umas coisas em Oxford... Rodopiando como um louco, com os curdos às cavalitas , Abdul ceifou metade do corpo diplomático... perdi o chapéu alto mas consegui rastejar e safar-me dali para fora.”

Lawrence Durrell

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

CARTOON versus SONETO

Às Armas!
HenriCartoon

«ÀS ARMAS!»

- Tortas, o Alguidar-Bronco
Diz que vamos receber
Armamento pra combater…
Mais dividendos a pronto!

- Boa, Fedelho!… junto
Com os meus submarinos,
Arrasamos os esquerdinos
E ponto final no assunto!!

- Um batalhão e uma fragata,
Seis F-16 atacam depois,
Vai ser grande a zaragata!

- E submarinos (pois, pois...)
Fiz uma rica negociata
Pró meu partido com dois!!

POETA

OUTROS CONTOS

«O Silêncio», por Sophia de Mello Breyner Andresen.

«O Silêncio»
Silêncio/ Carrie Vielle

659- «O SILÊNCIO»

Era complicado. Primeiro deitou os restos de comida no caixote do lixo. Depois passou os pratos e os talheres por água corrente debaixo da torneira. Depois mergulhou-os numa bacia com sabão e água quente e, com um esfregão, limpou tudo muito bem. Depois tornou a aquecer água e deitou-a no lava-loiças com duas medidas de sonasol e de novo lavou pratos, colheres, garfos e facas. Em seguida passou a loiça e os talheres por água limpa e pô-los a escorrer na banca de pedra.

As suas mãos tinham ficado ásperas, estava cansada de estar de pé e doíam-lhe um pouco as costas. Mas sentia dentro de si uma grande limpeza como se em vez de, estar a lavar a loiça estivesse a lavar a sua alma. A luz sem abat-jour da cozinha fazia brilhar os azulejos brancos. Lá fora, na doce noite de Verão, um cipreste ondulava brandamente.

O pão estava no cesto, a roupa na gaveta, os copos no armário. O vaivém, a agitação e o tumulto do dia repousavam.

Havia um grande sossego. Tudo estava arrumado e o dia estava pronto.

E Joana atravessou devagar a sua casa.

Ia abrindo e fechando as portas, abrindo e fechando as luzes. Os quartos desapareciam no escuro e surgiam do escuro na claridade.

Um doce silêncio pairava como uma sede estendida.

O silêncio desenhava as paredes, cobria as mesas, emoldurava os retratos. O silêncio esculpia os volumes, recortava as linhas, aprofundava os espaços. Tudo era plástico e vibrante, denso da própria realidade. O silêncio como um estremecer profundo percorria a casa.

As coisas conhecidas — o muro, a porta, o espelho — mostravam uma por uma a sua beleza e a sua serenidade. E nas janelas abertas a noite de Junho mostrava o seu rosto constelado e suspenso.

Joana deu lentamente a volta à sala. Tocou o vidro, a cal, a madeira. Há muito já que cada coisa tinha encontrado ali o seu lugar. E era como se esse lugar, como se a relação entre a mesa, o espelho, a porta, fossem a expressão de uma ordem que ultrapassava a casa.

As coisas pareciam atentas. E a mulher que lavara a loiça procurava o centro dessa atenção. Sempre o procurara, mas quem o pode captar?

O silêncio agora era maior. Era como uma flor que tivesse desabrochado inteiramente e alisasse todas as suas pétalas.

E em roda deste silêncio os astros da noite exterior giravam lentamente e o seu movimento imperceptível tomava em si a ordem e o silêncio da casa.

Com as mãos tocando a parede branca Joana respirou docemente. Era ali o seu reino, ali na paz da contemplação nocturna. Da ordem e do silêncio do universo erguia-se uma infinita liberdade: Ela respirava essa liberdade que era a lei da sua vida, o alimento do seu ser.

A paz que a cercava era aberta e transparente. A forma das coisas era uma grafia, uma escrita. Uma escrita que ela não entendia mas reconhecia.

Atravessou a sala e debruçou-se na janela aberta em frente do puro instante azul da noite.

As estrelas brilhavam, íntimas e distantes. E pareceu-lhe que entre ela e a casa e as estrelas fora estabelecida desde sempre uma aliança. Era como se o peso da sua consciência fosse necessário ao equilíbrio das constelações, como se uma intensa unidade atravessasse o universo inteiro.

E ela habitava essa unidade, estava presente e viva na relação das coisas e a própria realidade atenta a abrigava em sua imensa e aguda presença.

No ar, na cal, no vidro, tocava a sua felicidade e essa felicidade era no seu centro unidade.
Debruçou-se na janela e apoiou os braços na pedra fresca do parapeito.

Uma leve brisa agitou os ramos dos cedros. No rio, rouca, apitou uma sereia. Na torre o sino bateu duas badaladas. Foi então que se ouviu o grito.

Um longo grito agudo, desmedido. Um grito que atravessava as paredes, as portas, a sala, os ramos do cedro.

Joana virou-se na janela. Houve uma pausa. Um pequeno momento imóvel, suspenso, hesitante. Mas logo novos gritos se ergueram, trespassando a noite. Estavam a gritar na rua, do outro lado da casa. 

Era uma voz de mulher. Uma voz nua, desgarrada, solitária. Uma voz que de grito em grito se ia deformando, desfigurando até ficar transformada em uivo. Uivo rouco e cego. Depois a voz enfraqueceu, baixou, tomou um ritmo de soluço, um tom de lamentação. Mas logo voltou a crescer, com fúria, raiva, desespero, violência.

Na paz da noite, de cima a baixo, os gritos abriram uma grande fenda, uma ferida, E assim como a água começa a invadir o interior enxuto quando se abre um rombo no casco de um navio, assim agora, pela fenda que os gritos tinham aberto, o terror, a desordem, a divisão, o pânico penetravam no interior da casa, do mundo, da noite.

Joana afastou-se da janela que dava para o jardim, atravessou a sala, o corredor e o quarto e, no outro lado da casa, debruçou-se na janela que dava para a rua.

A mulher via-se mal, agarrada à parede, na meia-luz, do outro lado do passeio. Os seus gritos nus, próximos, desmedidos enchiam a penumbra. Na sua voz a terra e a vida tinham despido os seus véus, o seu pudor e mostravam o seu abismo, revelavam a sua desordem, a sua treva. De uma ponta à outra da rua os gritos corriam batendo contra as portas fechadas.

Era uma rua estreita, apertada entre edifícios sem cor, pesados e tristes. Ali a noite era cinzenta, o ar baço, parado e pegajoso.

Cães vadios farejavam o chão dos passeios e rebuscavam os caixotes do lixo tentando agarrar sob as tampas os restos, as cascas, o pescoço da galinha degolada.

O edifício enorme da prisão enchia todo o lado esquerdo da rua com as altas paredes cortadas por pequenas janelas de grades. A essa parede estava encostada a mulher. As vezes erguia a cara e então via-se o rosto torcido e desfigurado pelo grito. Ao seu lado desenhava-se o vulto de um homem. Era tarde. As portas e as janelas estavam fechadas sobre gente adormecida e na rua não passava mais ninguém. Só de longe a longe se ouvia um chiar de carros na viragem das esquinas.

O homem procurava arrastar a mulher e, quando os gritos diminuíam um instante, implorava-lhe que se calasse, pedia:

— Vamos embora.

Mas ela não o ouvia. Gritava como se estivesse só no mundo, como se tivesse ultrapassado toda a companhia e toda a razão e tivesse encontrado a pura solidão. Gritava contra as paredes, contra as pedras, contra a sombra da noite. Erguia a sua voz como se a arrancasse do chão, como se o seu desespero e a sua dor brotassem do próprio chão que a suportava. Erguia a sua voz como se quisesse atingir com ela os confins do universo e, aí, tocar alguém, acordar alguém, obrigar alguém, a responder. Gritava contra o silêncio.

Às vezes calava-se um momento e inclinava a cabeça para trás como quem espera ouvir uma resposta.

Então, de novo, o homem implorava:

— Cala-te, cala-te. Vamos embora daqui.

Mas ela recomeçava a gritar e batia com os punhos na parede da prisão como se quisesse forçar a pedra a responder. Gritava como se quisesse atingir um ausente, acordar um adormecido, abalar uma consciência impassível e, alheada, tocar o coração de um morto.

Através das paredes, das portas, das ruas, da cidade, gritava para o fundo do universo, para o fundo do espaço, para o fundo da ocultação da noite, para o fundo do silêncio.

De repente calou-se, curvou a cabeça, tapou o rosto com as mãos. Então o homem cobriu-lhe os cabelos com o xaile, afastou-a da parede, passou-lhe um braço em roda dos ombros, e, devagar, juntos, desceram a rua e viraram a esquina.

Durante algum tempo flutuou no ar pesado da rua um eco de soluços e de passos que se afastavam e diminuíam. Depois voltou o silêncio.

Um silêncio opaco e sinistro onde se ouvia o esgravatar dos cães.

Joana voltou para a sala. Tudo agora, desde o fogo da estrela até ao brilho polido da mesa, se tinha tornado desconhecido. Tudo se tinha tornado acidente absurdo, sem ligação, sem reino. As coisas não eram dela, nem eram ela, nem estavam com ela. Tudo se tornara alheio, tudo se tornara ruína irreconhecível.

E, tocando sem os sentir o vidro, a madeira, a cal, Joana atravessou como estrangeira a sua casa.

Sophia de Mello Breyner Andresen

ESPECIAL MÚSICAS DO MUNDO

E a música especial de hoje é...
(Escolha da conterrânea Liva, dedicada a sua Mãe)

ANDREIA BOCELLI - «Mamma»

Poet'anarquista

MAMÃE

Mamãe estou tão feliz
Porque retorno para ti
A minha canção te diz
Que é o dia mais bonito pra mim
Mamãe estou tão feliz
Viver longe por quê
Mamãe, só para ti
A minha canção voa
Mamãe, estarás comigo
Não estarás nunca sozinha
Quanto te quero bem
Estas palavras de amor
Que te suspira o meu coração
Talvez não se ouvem mais
Mamãe, a minha canção mais bonita és tu
Tu és a vida e pela vida não te deixo nunca mais
Eu sinto a tua mão cansada
Procurar os meus cachos de ouro
Ouço e te falta a voz
A canção de ninar de então
Hoje a tua cabeça branca
Quero abraçar ao meu coração

Andrea Bocelli
Tenor Italiano

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

CARTOON versus DÉCIMA

Almoço Adiado
HenriCartoon

«ALMOÇO ADIADO»

- Deixa-me cá engolir
Este bife de direita…
Tem sido a minha receita,
A esquerda é a fingir.
- Chuchas, toca a reunir
As ovelhas do partido,
O menu foi escolhido...
A comissão aconselha
Comer carne vermelha.
- Ora bolas, estou fodido!!

POETA

CORRUPÇÃO

Corrupção
Décima de Matias José

CORRUPÇÃO

O país foi assaltado
Por um bando de ladrões…
São muitos os vilões,
Portugal está desgraçado!
Chegados a este estado,
O Estado é o maior ladrão…
Rouba o pobre, dá ao vilão
Tudo quanto nos tirou…
A corrupção se instalou,
Tomou conta da Nação!!

Matias José

GAIOLA ABERTA

A Mamada
Gaiola Aberta/ José Vilhena

«A MAMADA»

Se queres mamar
Porta-te com juízo…
Chega de prejuízo,
A teta pode secar!
Vais ter que pagar
O leite da vacada,
Por cada mamada
Apresento a conta…
A paga é de monta,
Quantia avultada!!

POETA

OUTROS CONTOS

«Ascensão e Queda dos Porcos-Voadores», por José Cardoso Pires.

«Ascensão e Queda dos Porcos-Voadores»
Conto de José Cardoso Pires

658- «ASCENSÃO E QUEDA DOS PORCOS-VOADORES»

[Excerto]

«E um dia, para seu assombramento, viu-os passar outra vez. A eles, aos porcos-alados. Em bando. Cruzando os céus à mesma hora e na mesma direcção das outras vezes. O Juiz regulou o binóculo até ao olho-limite, até à verdade impossível. E confirmou. Certo, os porcos do sol poente.

Com a alegria do investigador que acaba de comprovar a sua descoberta, correu à procura do Cirurgião Sequera. (…) o magistrado conduziu o médico à varanda do salão de música e ali, a sós, comunicou-lhe o acontecimento apenas no essencial, o resto ficaria para depois.

Este, na sua qualidade profissional, teve a natural hesitação do prático científico perante o fenómeno inesperado: não só pôs respeitosas reticências no tocante aos estranhos vultos alados como admitiu que a refracção das nuvens sangrentas do ocaso fosse a causa de tão intrigantes imagens. 

Consequentemente, punha à meritíssima consideração do Juiz a probabilidade, naturalíssima aliás, de ter sido vítima de qualquer miragem frente à solidão do oceano e à luz agonizante da tarde.

Visivelmente compreensivo, o Doutor Juiz manifestou todo o apreço pela prudência científica do Doutor Cirurgião em relação ao fenómeno. Reconhecia que, embora transmitido sob palavra do magistrado, o assunto tinha que se lhe dissesse. Óbvio. Em matéria de conclusões a dúvida era essencial. Indiscutível. Até aí não podia deixar de concordar. Não obstante, com Juiz de longa carreira ao serviço da Verdade, propunha que o Cirurgião se interrogasse sobre as estranhas criaturas do pôr-do-sol porque de certo não perdia nada com isso; que as não pusesse de parte como um simples divertissement (sic) queria ele dizer; nem como uma alucinação, longe disso; que, por simples método de análise, aquilo que designara há pouco por «estranhos vultos alados» fosse classificado provisoriamente como AVNIS, «animais volantes não identificados», enquanto não dispusessem de novos dados de identificação. De acordo? O Juiz esperava que sim, o fenómeno tinha mais que matéria para poder interessar um espírito científico. Adiantou ainda que não era por acaso que os cintilantes porcos de asas negras resultavam dum cruzamento de duas criaturas tão nojosas (palavra dele) como o porco e o morcego. As associações malditas, disse, sempre exerceram uma fascinação irreprimível no homem civilizado e em particular naquele que se interroga sobre 
A Ordem e A Configuração da Natureza.»

José Cardoso Pires

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

VLADIMIR HOROWITZ
«Waltzs, Op. 34: No 2 in A Minor, Lento»

Poet'anarquista

Vladimir Horowitz
Pianista Russo

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

OUTROS CONTOS

«As Suspeitas dum Bravo Capitão», por José Martins Garcia.

«As Suspeitas dum Bravo Capitão»
Escritor Português José Martins Garcia

657- “AS SUSPEITAS DUM BRAVO CAPITÃO”

Com a chegada do mês de Dezembro, a situação melhorara a olhos vistos. Os tornados rodopiantes e lamacentos haviam cedido o lugar a uma viração seca, quase apetitosa, que parecia limpar da planura guineense aquele fedor alagado onde se misturava à erosão um subtil, talvez moral, cheiro a cadáver.

Na vila de Catió, lá para o Sul, onde a mosquitagem crescia delirante na estação das chuvas, o batalhão de caçadores tinha agora um novo comandante, o tenente-coronel Galvão, um ser tratável, quase bondoso, um tanto sentimental, um tudo-nada neurasténico antes de se lançar nos uísques. O antigo comandante, o insuportável tenente-coronel Barradas, cuja paranóia crescera na proporção directa do entupimento dos tímpanos, havia sido afastado do activo, finalmente.

 Para aboletar todo este pessoal belicoso, o quartel expandiu-se pelo povoado. Os militares ocuparam tudo o que possuísse tecto, desde casas meio arruinadas até às moradias de comerciantes que, alertados pelos primeiros rumores do invencível terrorismo, rapidamente se haviam transferido para regiões de mais densa população branca, nomeadamente Bissau e Bafatá.

O ataque à ilha de Como, onde posteriormente se instalaria a chamada companhia do Cachil, nunca foi registado pelos cronistas, talvez porque estes, sempre tão eloquentes em casos de vitória, se desgostam das estrondosas derrocadas... a Força Aérea cumpriu o seu dever, descarregando sobre os objectivos o arsenal estipulado. Para nada! Os abrigos subterrâneos da ilha do Como, construídos, dizia-se pelos soldados do Hitler, em certa fase da Segunda Guerra Mundial, resistiam bem a qualquer bombardeamento, não só devido à cortina natural da vegetação como pela consistência do material, coisa alemã, coisa inexpugnável, ali mandada cavar pelo Hitler... Depois da Força Aérea, coube a vez à Artilharia, ali classicamente postada para cobrir o avanço da Cavalaria. A Artilharia cumpriu a sua missão, despejando sobre a ilha sinistra a quantidade estipulada de material ardente, sem grande precisão, aliás, pois o alvo flutuava nessa latitude onde as marés esticam e encurtam a terra em vários milhares de quilómetros quadrados. A Cavalaria entrou nas lanchas da Marinha e, sob a protecção da Artilharia, escorregou para o lamaçal desconhecido. A Infantaria, finalmente chamada a reconquistar com seu pé clássico o terreno rebelde, saltou no vazio, atolou-se, afundou-se, emaranhou-se e alguns dos nossos mais bravos soldados crucificaram-se a si mesmo no matagal.

E então o inimigo invisível foi abatendo misericordiosamente os feridos, enquanto a Marinha dava por cumprida a delicada missão, a Artilharia cessava a actuação segunda bem conhecidas regras e a Cavalaria jazia em veículos inoperantes. Havia muito que a Força Aérea despejara seus inócuos carregamentos, pois a noite caíra, repentina, e só os moribundos, sem cronista de serviço, se esvaiam sobre a lama que o tempo não guardou.

Foi quando chegou a Catió, em escala para Bissau o doente capitão Lourenço, ex-comandante efectivo do Cachil. As suas faces chupadas não excluíam de forma alguma a hipótese de doença ruim... o comandante Galvão apressou-se a enviar para Bissau o hóspede impertinente, “para ele se curar”. Do Cachil não vinham nem bons ventos nem bons hóspedes, nem sequer boas notícias. A última irregularidade cometida por essas bandas rezava da alquimia operada no interior de um barril, cujo conteúdo vínico se revelara água. O comandante Galvão abominava as pequenas trapaças tão frequentes na carreira que escolhera. E, por pensar em reabastecimentos, fez-lhe espécie, pela primeira vez, o facto de o capitão Clemente, oficial de Cavalaria, se ter enconchado na manutenção, superintendendo na batata, no vinho, no arroz, no bacalhau, como se fosse um desses da Administração, um “padeiro”. O capitão Clemente empalideceu quando soube da decisão do tenente-coronel Galvão: mandá-lo para o Cachil, na qualidade de comandante interino, encarregando-o, mui honrosamente, de apurar a verdade acerca da transformação do vinho em água, alquimia tanto mais escandalosa quanto invertia a regra dos Evangelhos.

– Mas, meu comandante – gaguejou o capitão Clemente – logo agora, que a minha mulher veio para cá...

– Mas você fica lá só uns dias, homem! Há meses que não se ouve um tiro para aquelas bandas... a situação melhorou é o que toda a gente diz.

O capitão Clemente partiu desmoralizado e começou a portar-se mal diante da escolta que o acompanhou ao cais, chegando ao ponto de gemer de voz embargada:

– Agora é que não torno a ver a minha mulher nem os meus filhos...

Ao cair brusco da noite, encontrava-se no seu novo e miserável posto de comando, enclausurado pelo arame farpado, remoendo angústias, ao centro do improvisado quartel: um abrigo subterrâneo com duas toscas divisões, uma saleta quase desmobilada, separada do quarto por uma vedação de bambu mal entrançado... Mais tarde quando deu as boas noites aos alferes e se fechou no quarto, voltaram-lhe à memória as fábulas incertas, tão incertas quanto divulgadas em terras da Guiné: dezenas de mortos e feridos: a Cavalaria a atolar-se, a Artilharia a esquivar-se, a Infantaria a imolar-se. Às duas da manhã, porque era preciso poupar combustível, as lâmpadas extinguiram-se e a geradora deixou de arquejar. O capitão Clemente chamou a sentinela e recomendou-lhe vigilância; que não abandonasse a porta da tabanca. A sentinela limitou-se a acenar afirmativamente. Que imbecis! E as latrinas haviam mergulhado no escuro, lá para o outro extremo. Que criminosos! Nem havia uma privada para uso privado do comandante.

O capitão Clemente começou a sentir dores de barriga. Tinha medo, é certo; mas a causa daquelas cólicas devia ser o mau estão do jantar: uns feijões embrulhados em farrapos de carne duvidosa... o capitão Clemente dormiu pessimamente, revolvendo-se na cama dura, sentir atolar na água negra do canal. Muito cedo, a passarada desatou a chilrear. O Sol, finalmente, viria trazer-lhe um pouco de alento, depois do horrível negrume daquela noite memorável.

O capitão espreitou por uma nesga da porta e avistou a sentinela. Com um berro indignado, onde perpassavam a aspereza e o peso do comando, mandou que o militar se aproximasse:

– Entra, que temos de conversar!

O soldado mal abria os olhos atordoados, pois acabara de render um camarada:

– Estás a ver aquilo, pá?

Hirto, solene, o capitão Clemente apontava um canto do quarto, onde alguns cagalhões se cavalgavam.

– Põe-te em sentido! – uivou a indignação do bravo capitão Clemente.

O soldado obedeceu, boquiaberto.

– E agora – rematou o bravo capitão, mais que fera – responde! Quem foi o filho da puta que fez uma coisa destas?

José Martins Garcia

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(4 de Novembro de 1809, nasce o compositor e pianista alemão Felix Mendelssohn, 
expoente maior do Romantismo)

FELIX MENDELSSOHN - «Spring Song»

Poet'anarquista

Felix Mendelssohn
Compositor Alemão

MATOS SERRA versus MATIAS JOSÉ

Sátira em sextilha - uma parceria de Matos Serra e Matias José.
Poet'anarquista
Sátira Poética
Sextilhas/ Parceria

SÁTIRA...

Como pode este país
suportar ser indigente
e manter um ar feliz?
É que, além de paciente,
'ma parte da sua gente
sempre dobrou a cerviz.

Matos Serra

Realmente deprimente!...
Um povo com cariz,
Subservientemente 
Baixar o nariz?
Acomodar-se, infeliz,
É pouco inteligente!!

Matias José 

terça-feira, 3 de novembro de 2015

SEXTILHA

Mau tempo no Algarve? “Deus nem sempre é amigo”, diz ministro. 

Calvão da Silva diz que falta de seguro em Albufeira “é uma lição de vida” e que homem que morreu em Boliqueime “entregou-se a Deus”.

Sátira...
Ministro da Administração Interna

CALVÃO CAGÃO

Pra burro não ofender...
Animal de minha afeição,
Este cagão há-de comer
Merda de um tal Calvão!...
Palha prá refeição,
E caganeira até morrer!!

POETA

CARTOON versus QUADRAS

O Prémio
HenriCartoon

«O PRÉMIO»

- Senhor Zé, tenho a honra
De entregar este prémio…
A crise foi um caso sério,
Mas lutar não é desonra!

- Essa luta no defeso
Causou-me um problema…
- Metido nalgum esquema?
- Muito pior… fiquei teso!!

POETA

OUTROS CONTOS

«Buda», conto poético por Teixeira de Pascoaes.

«Buda»
O Buda/ Odilon Redon

656- «BUDA»

Seguia Buda, um dia, o seu caminho,
Sob os raios do sol que o penetravam,
Quando avistou, deitado, um cão velhinho,
Com chagas, onde os vermes pululavam.

E, com amor e fraternal carinho,
Limpou-lhe as chagas podres, que cheiravam
Tão mal! – livrando assim o pobrezinho,
Mendigo cão das dores que o matavam.

Mas, preocupado, continuou andando…
E lembrou-se dos vermes, que, ficando
Sem nenhum alimento, iam morrer.

E voltou junto deles; e um pedaço
De carne, ali, cortara do seu braço
E, abençoando-os, deu-lhes de comer.

Teixeira de Pascoaes

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(Em memória do cineasta português, José Fonseca e Costa)

SÉRGIO GODINHO - «Balada da Rita»

Poet'anarquista

BALADA DA RITA

Disseram-me um dia Rita põe-te em guarda
aviso-te, a vida é dura põe-te em guarda
cerra os dois punhos e andou põe-te em guarda
eu disse adeus à desdita
e lancei mãos à aventura
e ainda aqui está quem falou

Galguei caminhos de ferro (põe-te em guarda)
palmilhei ruas à fome (põe-te em guarda)
dormi em bancos à chuva (põe-te em guarda)
e a solidão não erre
se ao chamá-la o seu nome
me vai que nem uma luva

 Andei com homens de faca (põe-te em guarda)
vivi com homens safados (põe-te em guarda)
morei com homens de briga (põe-te em guarda)
uns acabaram de maca
e outros ainda mais deitados
o coveiro que o diga

 O coveiro que o diga
quantas vezes se apoiou na enxada
e o coração que o conte
quantas vezes já bateu p´ra nada

 E um dia de tanto andar (põe-te em guarda)
eu vi-me exausta e exangue (põe-te em guarda)
entre um berço e um caixão (põe-te em guarda)
mas quem tratou de me amar
soube estancar o meu sangue
e soube erguer-me do chão

 Veio a fama e veio a glória (põe-te em guarda)
passaram-me de ombro em ombro (põe-te em guarda)
encheram-me de flores o quarto (põe-te em guarda)
mas é sempre a mesma história
depois do primeiro assombro
logo o corpo fica farto

Sérgio Godinho
Kilas, o Mau da Fita/ de José Fonseca e Costa

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

CARTOON versus DÉCIMA

Logo de Esquerda
HenriCartoon

«LOGO DE ESQUERDA»

Em bloco ergo a foice,
Corto p’la raiz o PS…
Dou o primeiro coice
Pra ver se isto aquece!
Por que me apetece
Falo em primeira mão,
Vai subir a pensão
E o ordenado mínimo…
Sinto-me com ânimo
A chefiar a negociação!

POETA