terça-feira, 15 de dezembro de 2015

OUTROS CONTOS

«A Pane», conto de Friedrich Durrenmatt.

«A Pane»
Conto de Friedrich Durrenmatt

687- «A PANE»

[Excerto]

Uma história ainda possível

I Parte

Existem ainda, histórias possíveis, historias para escritores? Se alguém não quiser narrar sobre si mesmo, generalizar seu eu de maneira romântica, lírica, se não sentir a obrigação de falar de suas esperanças e derrotas, com total veracidade, de falar do seu modo de deitar-se com mulheres, como se a veracidade transpusesse tudo isso para o âmbito geral, e não para o plano da Medicina, da Psicologia na melhor das hipóteses..., se alguém não quisesse fazer isso, mas antes recuar discreto, educadamente preservando a esfera privada, tendo a trama diante de si como um escultor tem seu material, e nela trabalhar, nela se desenvolver, e como uma espécie de artista clássico tentar não se desesperar de imediato, ainda que seja inegável o puro absurdo que por todos os lados se revela, então o acto de escrever torna-se mais difícil e solitário, mais sem sentido também. Uma boa nota na História da Literatura não interessa – afinal, quem é que já não ganhou uma boa nota, que embustes já não foram premiados com distinção? –, as exigências do momento são mais importantes. No entanto, também aqui nos vemos diante de um dilema e uma situação ruim no mercado. A vida oferece puro e simples entretenimento: à noite, o cinema; no jornal diário, a poesia, bem ou mal. Por um pouco mais – num gesto de generosidade social, já a partir de um franco suíço – exige-se a alma, confissões, veracidade mesmo;
deve-se veicular valores elevados, lições de moral, sentenças úteis, alguma coisa deve ser superada ou afirmada, ora o Cristianismo, ora o desespero corrente – literatura enfim. Porém, e se o autor se recusar a produzir tal coisa? E se, cada vez mais decidido e obstinado, certo de que a razão para sua escrita esta nele mesmo, em seu consciente ou inconsciente, dependendo, de caso a caso, de uma dose de sua crença ou de sua duvida, mas julgando também que justamente isso já não diga respeito ao publico, sendo suficiente o que escreve, configura, forma, bastando mostrar a superfície o que escreve, e só ela, de modo apetitoso, trabalhando-se somente nela, de resto seria o caso de calar a boca, sem comentários nem conversa fiada? Tendo descoberto tal coisa, ele há de gaguejar, hesitar, ficar perplexo. Isso será praticamente inevitável.Cresce o pressentimento de que não há mais nada para narrar,considera-se seriamente a possibilidade de renunciar. Talvez ainda sejam possíveis algumas frases; pois, caso contrário, é uma guinada rumo à Biologia, para pelo menos em pensamento dar conta da explosão da humanidade, de seu avanço para a casa dos bilhões, dos úteros produzindo sem parar; ou rumo a Física. Á Astronomia, e por uma questão de ordem prestar contas a si mesmo sobre a armação na qual balançamos. O resto fica para a revista de variedades, para a Life, a Match, a Quick e para a Sie und Er: o presidente na tenda de oxigénio, tio Bulganin em seu jardim, a princesa com seu prodigioso comandante de vôo, personalidades do cinema e rostos-dólares, peças substituíveis, já fora da moda, quase não se fala mais nelas. Paralelamente, o cotidiano de uma pessoa qualquer; em meu caso, europeu ocidental – suíço, para ser mais exato –, tempo ruim e panorama económico bom, preocupações e tormentos, abalos por acontecimentos privados, só que
 sem ligação com o todo mundo, com o decorrer dos acertos e desacertos, com o desenrolar das necessidades. O destino abandonou o palco no qual encenando para ficar a espreitar os bastidores, fora da dramaturgia vigente; no primeiro plano tudo se transforma em acidente: as doenças, as crises. Mesmo a guerra se torna dependente dos cérebros eletrónicos poderem ou não prever sua rentabilidade. Porem, isso nunca acontecerá: sabe-se que, se as maquinas calculadoras funcionarem, somente as derrotas serão matematicamente prováveis; ai de nós, se ocorrerem fraudes, intervenções proibidas nos cérebros artificiais. Mas mesmo isso é menos constrangedor que a possibilidade de que um parafuso se afrouxe, um fuso saia do curso normal, um botão reaja errado, o fim do mundo causado por um curto-circuito técnico, uma conexão malfeita. Assim, nenhum deus mais nos ameaça, nenhuma justiça, nenhum destino como na “Quinta Sinfonia”, e sim acidentes de trânsito, rupturas de diques em virtude de falha de construção, a explosão de uma fabrica de bombas atómicas provocada por um funcionário de laboratório distraído, chocadeiras mal-instaladas. É a esse mundo de panes que leva nosso caminho, de cuja margem poeirenta, além de reclames para calçados Bally, automóveis Studebaker, ou sorvetes, e lápides em memória dos acidentados, resultam ainda algumas histórias possíveis. A humanidade olhando a partir de uma cara comum, o azar sem querer se generalizando, julgamento e justiça tornando-se visíveis, talvez até a piedade, captada por acaso, refletida pelo monóculo de um embriagado.

Friedrich Durrenmatt

CARTOON versus SONETO

Pacheco vai a Serralves
HenriCartoon

«PACHECO VAI A SERRALVES»

- Embora lá, Peixeiro Pereira,
Ofereço a Fundação Serralves…
Um lugarzinho pra que salves
Essa casa bem à tua maneira!

- Aceito, Bosta… não obstante
Esse cargo de segundo plano;
Pior seria ficar mais um ano
Arrumado na velha estante…?

- Que mais quer um intelectual,
Do que fazer parte duma casa
Tão prestigiada em Portugal?

- A minha alma só extravasa
Se bater na direita radical…
A PàF comigo fica em brasa!!

POETA

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

OUTROS CONTOS

«Mar e Noite», conto poético por Vicente Aleixandre.

«Mar e Noite»
Noite de Verão/ Holmer

686- «MAR E NOITE»

O mar betuminoso esmaga sombras
contra si mesmo. Vazios de azuis
profundos se detêm imóveis no arco das ondas.
Larga voluta de aço seria
de súbito forjada se o instante
seguinte não demolisse a alta oficina.
Tumultos, cataclismos de volumes
irrompem do cimo à base,
que se desfaz bramindo,
devoradora de si e do tempo, contra o ar
mural, entorpecida pelo arranco.
Sob céus altíssimos e negros
ruge - clamor - a funda
boca e implora pela noite.
Boca - mar - toda ela implora pela noite,
noite ampla, negra e enorme,
retém as hórridas fauces e arma
todos os brancos dentes de espuma.
Uma pirâmide linguada
de massa turva e fria
se alça, implora,
funde-se logo na côncava garganta
e tremula abaixo, prestes outra vez
a se erguer, devoradora da alta noite,
que roda pelos céus
- redonda, pura, escura, alheia,
doce na serenidade do espaço.

Vicente Aleixandre

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

WATERBOYS - «Old England»

Poet'anarquista

VELHA INGLATERRA

Homem olha para cima em um céu amarelo
E a chuva se transforma em ferrugem nos olhos
Rumores sobre sua saúde são mentiras
Velha Inglaterra está morrendo

Suas roupas estão sujas de sombra azul
E seus sapatos antigos usados? Completamente
Ele rouba de mim e ele mente para você
Velha Inglaterra está morrendo

Ainda canta uma canção de impérios
E ele mantém sua marinha forte
E ele enfia a bandeira onde se doente pertence
Velha Inglaterra está morrendo

Você está perguntando o que me faz suspirar agora
O que é que me faz tremer assim
Bem
Eu só congelar no vento
E eu estou entorpecido da surra da neve
Que cai do alto nos céus amarelos
Onde o tempo manchado de Inglaterra voa
Onde as casas são quentes e as mães suspiro
Onde comediantes rir e bebés chorando
Onde os criminosos são televisionados políticos a confraternizar
Jornalistas são dignos e todo mundo é civilizado
E as crianças olham com olhos de heroína
Velha Inglaterra!

A noite caiu
Os cisnes estão cantando
O último domingo sinos a tocar
O vento nas árvores está suspirando

E velha Inglaterra está morrendo

Waterboys
Banda Escocesa

domingo, 13 de dezembro de 2015

OUTROS CONTOS

«O Desbunde», por Adélia Prado.

«O Desbunde»
Conto de Adélia Prado

685- «O Desbunde»

Tinha, como direi, eu, que sou uma senhora a seu modo pacata e até pudica, uma, ou melhor, um derrière esplendido. Não é preciso ser homem pra essas avaliações. Firme em definidos e perfeitos contornos, rebelde ao disfarce das saias e anáguas daquele tempo, inscrevia-se na cara de sua dona, que, movendo os olhos como as ancas, subia a rua em falsa pudicicia, apregoando-se: tenho. Os homens ficavam loucos.

Eu era mocinha boba e escutei no armazém do Calixto ele dizer pro Teodoro, meu futuro marido, naquele tempo preocupado em fazer bodoques de goma: eh, ferro! O Vicente não vai dar conta daquela ali, não. É preciso muita saúde. Calixto falava com o Teodoro do que eu suspeitava serem os tesouros da Oldalisa e ela nem aí, toda sobe e desce rua. Exatamente o que era me escapava, só podia ser coisa de homem e mulher. Felicitei-me por estar viva e participar de segredos tão  excitantes. 

O Vicente era muito magrinho, não jogava bola, não nadava, "não salientava em nada", o Vicente Cisquim. Pois foi dele que a Raimunda — como o Calixto chamou ela naquele dia — gostou.  Casaram e tiveram pencas de filhos. O Calixto ficou chupando o dedo. Ser bonitão e dono de armazém não contou ponto pra ele.

Pois é, falou o Teodoro, hoje, assim que botou o pé em casa: O que é a tecnologia, hein? Tecnologia? É o avanço da medicina. Teodoro falava era do avanço do tempo. Tou aqui matutando, disse ele, porque a Oldalisa escolheu o Vicente, não tem base. Tô vendo aquela dona pegando as compras no caixa e... Plim! Era ela, a velha senhora. A Oldalisa do Vicente? É. O Vicente estava junto? Não. Estava com duas alianças e um menino, neto dela com certeza. Será que o Vicente morreu da praga do Calixto? Acho que não, porque eu procurei o traseiro da Oldalisa e nada da olda, só mesmo a lisa, magra e murcha. Ter encontrado a Oldalisa expropriada de seu dote mais tentador deixou Teodoro bem filosofante sobre as agruras do corpo.

Teria ele também sido um apaixonado da Oldalisa e eu corrido sérios riscos? Porque amor não olha idade, não é mesmo? Agora, daquela do escritório eu tive, medo não, por causa de meus outros poderes, tive inveja. A uma cintura de vespa seguia-se, instruída e fatal, o que a Oldalisa trazia com inocência. Batia à máquina, agarradinha no Teodoro, de saia justa e batom cor de sangue. O apelido dela na firma era Corrosiva, e foi Teodoro quem pôs. Se chamava Rosiva, a perigosa. Imagina o risco que eu corri.

Adélia Prado

sábado, 12 de dezembro de 2015

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

ORA COGAN - «Lily»

Poet'anarquista

Ora Cogan
Guitarrista, Cantora e Compositora Canadiana

OUTROS CONTOS

«O Mote», conto poético por Matias José.

«O Mote»
Décimas por Matias José

684- «O MOTE»

A matutar num mote
Pra poder desenvolver,
Caiu-me este em sorte...
Que mais posso querer?

Glosas

I
A décima popular
Prodígio d' arquitectura,
É uma arte pura
No cordel a desfilar.
A sua forma d’entoar
Que nunca se esgote,
Não há nada que corte
A raiz ao pensamento…
Estou neste momento
A matutar num mote.

II 
Uma arte superior
Acessível a poucos…
A escrita, é de loucos,
Quando feita com amor.
O poeta fazedor
Mostra então o seu saber,
Sempre pronto a escrever
Se o mote o seduz…
Até que se faça luz
Pra poder desenvolver.

III
A quadra marca o ritmo
À décima com métrica,
A sua rima esotérica
Um verdadeiro biorritmo!
O seu compasso óptimo
Não é fraco nem forte,
Pra que bem se note
Construído com esmero…
Era um mote sincero,
Caiu-me este em sorte!

IV 
Talvez certa magia
Só ao alcance dos Deuses…?
Alentejanos… portugueses,
Com muita sabedoria!
Vão compondo a poesia
Sem nunca esmorecer,
Tudo pode acontecer
Neste cantinho do mundo…
Pergunto-me, sortudo:
Que mais posso querer?

Matias José

CARTOON versus DÉCIMA

O Bom Exemplo
HenriCartoon

«O BOM EXEMPLO»

Martelo, e a jogada eleitoral:
- Apoiamos laranja do chão
Com uma simples condição…
Serás presidente imparcial.
Foi assim em Portugal
Põe os olhos no Acabado,
Esteve sempre deste lado
Não respeitando ninguém…
Se queres chegar a Belém
Tens que saber cantar o fado!

POETA

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

CARTOON versus QUADRAS

Medidas Adicionais
HenriCartoon

«MEDIDAS ADICIONAIS»

- Afinal como é, Empeno...
Sempre vais fechar o ano
Quando baixar o pano
Com o défice mais pequeno?

- Evidente que sim, Zé…
E com medidas adicionais (?)
- Ok… devem ser das tais
Que estou a pensar… não é?

POETA

OUTROS CONTOS

«Sobre a Escrita...», por Clarice Lispector.

«Sobre a Escrita...»
Conto de Clarice Lispector

683- «SOBRE A ESCRITA…»

Meu Deus do céu, não tenho nada a dizer. O som de minha máquina é macio.

Que é que eu posso escrever? Como recomeçar a anotar frases? A palavra é o meu meio de comunicação. Eu só poderia amá-la. Eu jogo com elas como se lançam dados: acaso e fatalidade. A palavra é tão forte que atravessa a barreira do som. Cada palavra é uma ideia. Cada palavra materializa o espírito. Quanto mais palavras eu conheço, mais sou capaz de pensar o meu sentimento.

Devemos modelar nossas palavras até se tornarem o mais fino invólucro dos nossos pensamentos. 

Sempre achei que o traço de um escultor é identificável por uma extrema simplicidade de linhas. 

Todas as palavras que digo – é por esconderem outras palavras.

Qual é mesmo  a palavra secreta? Não sei é porque a ouso? Não sei porque não ouso dizê-la? Sinto que existe uma palavra, talvez unicamente uma, que não pode e não deve ser pronunciada. Parece-me que todo o resto não é proibido. Mas acontece que eu quero é exactamente me unir a essa palavra proibida. Ou será? Se eu encontrar essa palavra, só a direi em boca fechada, para mim mesma, senão corro o risco de virar alma perdida por toda a eternidade. Os que inventaram o Velho Testamento sabiam que existia uma fruta proibida. As palavras é que me impedem de dizer a verdade.

Simplesmente não há palavras.

Que não sei dizer é mais importante do que o que eu digo.  Acho que o som da música é imprescindível para o ser humano e que o uso da palavra falada e escrita são como a música, duas coisas das mais altas que nos elevam do reino dos macacos, do reino animal, e mineral e vegetal também.  Sim, mas é a sorte às vezes.

Sempre quis atingir através da palavra alguma coisa que fosse  ao mesmo tempo sem moeda e que fosse e transmitisse tranquilidade ou simplesmente a verdade mais profunda existente no ser humano e nas coisas. Cada vez mais eu escrevo com menos palavras. Meu livro melhor acontecerá quando eu de todo não escrever. Eu tenho uma falta de assunto essencial. Todo homem tem sina obscura de pensamento que pode ser o de um crepúsculo e pode ser uma aurora.

Simplesmente as palavras do homem.

Clarice Lispector

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

FRANK ZAPPA
«Bobby Brown Goes Down»

Poet'anarquista

BOBBY BROWN EMBAIXO 

E aí, pessoal, eu sou o Bobby Brown
Dizem que eu sou o cara mais lindo da cidade
Meu carro é veloz, meus dentes são brilhantes
As garotas sabem que podem beijar o meu pipi
Aqui estou eu, numa escola famosa
Eu estou bem vestido e estou legal
Eu tenho uma líder de torcida aqui que quer me ajudar com meus trabalhos de escola
Vou deixar ela fazer todo o trabalho e talvez depois eu coma ela

Oh, Deus, eu sou o sonho americano!
Eu não acho que sou exagerado
E eu sou um filho da puta gostoso
Eu vou arranjar um bom emprego e ser bem rico
Arranjar um bom, arranjar um bom, arranjar um bom,
arranjar um bom emprego...

Libertação Feminina
Veio rastejando pela nação
Eu digo a vocês, pessoal, eu não estava pronto
Quando eu comi essa puta com o nome de Freddie
Ela fez um pequeno discurso,
Aw, ela tentou me fazer dizer
Fissurou nas minhas bolas, mas ela esqueceu o pau
Eu acho que ele ainda funciona, mas agora ele dispara rápido demais

Oh, Deus, eu sou o sonho americano!
Mas agora eu tenho cheiro de Vaselina
E eu sou um miserável filho da puta
Eu sou um garoto ou uma garota? Eu não sei qual
Eu penso penso... penso... penso...

Então eu saí para comprar um terno descolado
Mudei um pouco, mas continuo sendo lindo
Arranjei um emprego de fazer propagandas no rádio
E nenhum dos locutores percebem que eu sou bicha
De vez em quando eu e meu amigo
Vamos juntos para a S&M
E ficamos uma hora na torre de energia
Enquanto eu puder ter o meu chuveirinho dourado

Oh, Deus, eu sou o sonho americano!
Com disparos na minha bunda até que eu grite
E eu faço qualquer coisa para seguir em frente
Passo noites em claro dizendo, "Obrigado, Fred!"
Oh Deus, oh Deus, eu sou tão fantástico!
Graças ao Freddie eu sou um espádico erótico
E o meu nome é Bobby Brown
Olhe para mim agora; eu estou indo para baixo

E o meu nome é Bobby Brown
Olhe para mim agora; eu estou indo para baixo
E o meu nome é Bobby Brown
Olhe para mim agora; eu estou indo para baixo
E o meu nome é Bobby Brown
Olhe para mim agora; eu estou indo para baixo

É.... eu sabia que você iria ficar surpreso...

Frank Zappa
Músico Norte-Americano

CARTOON versus QUADRAS

As Memórias do Aníbal
HenriCartoon

«AS MEMÓRIAS DO ANÍBAL»

- Querida Maria… vou ler-te
As minhas velhas memórias…
Sou muito fértil em histórias,
Nunca mais irá esquecer-te.

- Mas lê logo, querido… lê
Ia mesmo agora pedir-te,
Estou ansiosa por ouvir-te...
Não me perguntes porquê! (?)

- Sem saber como, assoleime
Num belo dia de Verão…
Nascia em Boliqueime
Grande cromo desta Nação!

- Ainda me cheguei a arrepiar…
Finalmente tudo em ordem;
Mas afinal, quem é o homem
Que fazes questão de elogiar?

POETA

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

CROWDED HOUSE - «Help is Coming»

Poet'anarquista

A AJUDA CHEGANDO

A ajuda está vindo
A ajuda está chegando
Eu ouvi um sussurro
Gorros brancos girando
Respiração de verão

Sonhando Distante
Aves Lira chamando
Escapam da angústia do nosso passado
E reze

Edifícios desmoronando
Inverno Insensível
O medo está em execução
Não está mais connosco
Nós navegamos amanhã

Para Ellis Island
Fuja ira do nosso passado
E reze para que a paz venha no último
E sonhe

Solte a ira do nosso passado
E reze para que a paz venha no último
E fique
A ajuda está chegando

A ajuda está chegando
Nós navegamos amanhã
Para Ellis Island
A ajuda está chegando

Sonhos
Vamos velejar amanhã
Sonhos
A ajuda está chegando

Crowded House
Banda Australiana

OUTROS CONTOS

«Mãe Morta», conto poético por Matias José.

«Mãe Morta»
Mãe Morta/ Lasar Segall

682- «MÃE MORTA»

Mote

Vai-se uma luz, outra existe,
Nova aurora nos seduz;
Deve ser muito mais triste,
A gente deixar a luz.

António Aleixo

Glosas

I
Partindo do princípio
Que nada é imortal…
Amigo, não leve a mal,
Temos o mesmo ofício!
As palavras são vício
E ninguém lhes resiste,
O poeta não desiste
De as querer imortalizar...
Nada pode sempre durar,
Vai-se uma luz, outra existe.

II 
Por não nos ser possível
Viver eternamente,
Iludimos a própria mente
Ao crer no impossível.
Um amor insubstituível
A cinza ou pó se reduz,
Carregamos essa cruz
Sentindo o peso da dor…
Faça frio ou calor,
Nova aurora nos seduz.

III 
Se aperta a saudade
Do tempo de criança,
Vem logo à lembrança
Aquela santa bondade.
Emanavas tranquilidade
A tudo sempre acudiste,
Nunca me desiludiste
Quando de ti precisei…
Viver sem isso, pensei,
Deve ser muito mais triste.

IV 
Chegado então o dia
Da nossa separação,
Falou-me o coração
Que a vida de ti fugia.
Baixando à cova fria
Onde o sol não reluz,
Perder nunca supus
Que podia acontecer…
Pior que pode suceder,
A gente deixar a luz!

Matias José

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

JOHN LENNON - «Crippled Inside»

Poet'anarquista

ALEIJADO POR DENTRO

Você pode lustrar os sapatos e vestir um terno
Você pode pentear seu cabelo e ficar bonito
Você pode esconder seu rosto atrás de um sorriso
Uma coisa que você não pode esconder
É quando está aleijado por dentro

Você pode usar uma máscara e pintar o seu rosto
Você pode chamar-se de a raça humana
Você pode usar um colarinho e gravata
Uma coisa que você não pode esconder
É quando está aleijado por dentro

Bem, agora você sabe que seu
Gato tem sete vidas
Sete vidas para si próprio
Mas você só tem uma
E a vida de um cão não é divertida
Mamãe, olhe lá fora

Você pode ir à igreja e cantar um hino
Você pode me julgar pela cor da minha pele
Você pode viver uma mentira até morrer
Uma coisa que você não pode esconder
É quando está aleijado por dentro

Bem, agora você sabe que seu
Gato tem sete vidas
Sete vidas para si próprio
Mas você só tem uma
E a vida de um cão não é divertida
Mamãe, olhe lá fora

Você pode ir à igreja e cantar um hino
Você pode me julgar pela cor da minha pele
Você pode viver uma mentira até morrer
Uma coisa que você não pode esconder
É quando está aleijado por dentro

Uma coisa que você não pode esconder
É quando está aleijado por dentro
Uma coisa que você não pode esconder
É quando está aleijado por dentro

John Lennon
Músico, cantor e compositor Britânico

OUTROS CONTOS

«Tradução», conto poético por Marin Sorescu.

«Tradução»
Poema de Marin Sorescu

681- «TRADUÇÃO»

Estava eu fazendo um exame
Numa língua morta
E tinha de me passar em tradução
De homem a macaco.

Joguei com tranquilidade,
Traduzindo primeiro um texto
De uma selva.

Mas a tradução se tornou mais difícil
Quando me aproximei de mim mesmo.
Com algum esforço
Achei, contudo, satisfatórias equivalências
Para as unhas e o pelo dos pés.

Perto dos joelhos
Comecei a gaguejar.
Em direção ao coração minha mão começou a tremer
E manchou o papel com luz.

Ainda assim, tentei remendar
Com o pelo do peito,
Mas falhei redondamente
Na alma.

Marin Sorescu

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

OUTROS CONTOS

«Bombardeamento na Alvorada», conto poético por Robert Graves.

«Bombardeamento na Alvorada»
Poema de Robert Graves

680- «BOMBARDEAMENTO NA ALVORADA»

Canhões do mar atiram sobre nós:
Na casamata o fumo oscila opaco
E um clamor de perdição ascende.
Contamos, bendizemos cada novo abalo -
Cativos aguardando ser libertos.
Anjo visitador de cabeleira em fogo,
O qual em sonhos vinha às noites consolar-nos
Lá onde éramos a ferros,
De nós se ri, ao acordarmos - rostos
Tão tensos de esperança: as lágrimas os descem.

Robert Graves


MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(Escolha musical da blogosfera)

GONÇALO SALGUEIRO - «Alma Minha Gentil»

Poet'anarquista

ALMA MINHA GENTIL

[Soneto de Luís Vaz de Camões]

Alma Minha Gentil, que te Partiste
Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste. 

Se lá no assento Etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente,
Que já nos olhos meus tão puro viste. 

E se vires que pode merecer-te
Algũa cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te, 

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou. 

Gonçalo Salgueiro
Fadista Português

sábado, 5 de dezembro de 2015

OUTROS CONTOS

«Janela Aberta», conto poético por Matias José.

«Janela Aberta»
Foto: Nuno Mendes

679- «JANELA ABERTA»

A vista é desconcertante
Da janela prós arrabaldes…
O pôr-de-sol no horizonte
Espreita todas as tardes.
Viu passar mocidades…
Amores não sei quantos,
Esta terra de encantos
Faz despertar os sentidos…
P’las ruelas ouvidos
Muitos risos e prantos!

Matias José

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

URIAH HEEP - «Paradise/ The Spell»

Poet'anarquista

PARAÍSO/ O FEITIÇO

Embora em meu coração eu saiba que estás mentindo
E embora o seu amor por mim esteja morrendo
Eu vejo você chorar

É a dor do seu coração secreto
Te levando às lágrimas
Te enchendo de medos
Por sua mente e por sua alma

Eu te toco suavemente agora
Nascido em esperança até o fim, de algum modo
Eu sou um homem e eu devo manter meu voto
Eu devo continuar

Mas a parede do seu coração secreto
Mantém minha distância clara
Ajuda meus passos a caírem
De volta na linha dentro de minha mente

O que adiantou você me soltar
E me deixar aqui chorando?
Onde está o amor na qual falamos?
Onde está o meu céu ensolarado?

Corações secretos e contos tristes
Jamais ajudarão o amor crescer
Abra suas asas, minha alma atemorizada
É chegada a hora

Eu não serei apressado
Ou obscurecido por suas mentiras
Eu devo ir encontrar meu sonho
E viver no paraíso

O que adiantou você me soltar
E me deixar aqui chorando?
Onde está o amor na qual falamos?
Onde está o meu céu ensolarado?

Corações secretos e contos tristes
Jamais ajudarão o amor crescer
Abra suas asas, minha alma atemorizada
É chegada a hora

Eu não serei apressado
Ou obscurecido por suas mentiras
Eu devo ir encontrar meu sonho
E viver no paraíso

O que adiantou você me soltar
E me deixar aqui chorando?
Onde está o amor na qual falamos?
Onde está o meu céu ensolarado?

Uriah Heep
Banda Britânica

CARTOON versus QUADRAS

Pedido de Esclarecimento
HenriCartoon

«PEDIDO DE ESCLARECIMENTO»

- Catarina… logo hoje na estreia!…
Será mesmo que é verdade
Esta enorme contrariedade
De aplaudir a União Europeia?

- Afirmativo, camarada Jerónimo…
Sem esquecer a moeda única,
A esquerda aprendeu a música
E saiu do buraco anónimo!!

POETA

OUTROS CONTOS

«Música Calada», conto poético por Luís Filipe Castro Mendes.

«Música Calada»
Conto Poético

678- «MÚSICA CALADA»

Dizias que nos sobram as palavras:
e era o lugar perfeito para as coisas
esse escuro vazio no teu olhar.

E demorava a dura paciência,
fruto do frio nas nossas mãos vazias
que mais coisas não tinham para dar.

Dizia então a dor o nosso gesto
e durava nas coisas mais antigas
a solidão sem rasto que há no mar.

Luís Filipe Castro Mendes

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

CARTOON versus DÉCIMA

Retaliação
ret1.gif
Poet'anarquista

«RETALIAÇÃO»

Moção de rejeição?
Eles começam cedo…
Ai credo, mas que medo,
Vem aí a retaliação!
Dispara o canhão
Bala de pólvora seca,
Não têm estaleca
Para acertar no alvo…
Peço ao mouro Galvo
Que os vire pra Meca!

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

ODETTA - «Believe I'Il Go»

Poet'anarquista

Odetta
Cantora e Compositora Norte-Americana

OUTROS CONTOS

«Rabos de Lagartixa», por Juan Marsé.

«Rabos de Lagartixa»
Romance de Juan Marsé

677- «RABOS DE LAGARTIXA»

[Excerto]

Tivemos, mas são notícias do ano da Maria Cachucha, e não são boas – entoa David 
abafando um bocejo forçado e um repentino calafrio dentro do jersey de angorina, 
que lhe fica pequeno e deixa ver o umbigo. – Recebemos uma carta dele, 
e afinal não está onde julgávamos… 

Eu conto-lhe. 

Ele disse sempre que empreenderia uma longa viagem ao centro de África, 
desde Cartum até ao Lago Vitória passando pelos Montes Azuis, 
mas não, afinal à última hora mudou de plano. 

Está a embrenhar-se cada dia mais na selva de Mindanao, 
sabe onde isso fica, bwana? Nas Filipinas. 

E diz que teve de se disfarçar de Juramentado para prender Datu e todos os que 
traficam com peles de porco e dentes de elefante.

 E ainda há mais. 

Diz que é mentira que os Juramentados morram de medo 
se os envolvem numa pele de porco. 

Mentira vil.

Juan Marsé

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

KATE BUSH - «Whutering Heights»

Poet'anarquista

O MORRO DOS VENTOS UIVANTES

Lá fora nas tempestuosas colinas
Nós girávamos e caíamos no gramado
Seu temperamento era como o meu ciúme
Ardente e ávido demais
Como você pôde me abandonar
Quando eu mais precisei te possuir?
Eu te odiei, eu te amei também

Pesadelos na noite
Você me dizia que eu iria perder essa luta
Deixar para trás meu morro, meu morro
Meu morro dos ventos uivantes

Heathcliff, sou eu, Cathy, eu voltei para casa
Sinto tanto frio, deixe-me entrar por sua janela
Heathcliff, sou eu, Cathy, eu voltei para casa
Sinto tanto frio, deixe-me entrar por sua janela

Oh, aqui é escuro e solitário
Deste outro lado, longe de você
Eu definho tanto, eu percebo que o destino
Fracassa sem você
Estou voltando, amor, cruel Heathcliff
Meu único sonho, meu único mestre

Há muito tempo eu vagueio pela noite
Estou voltando para o seu lado para consertar isto
Estou voltando para meu morro, meu morro
Meu morro dos ventos uivantes

Heathcliff, sou eu, Cathy, eu voltei para casa
Sinto tanto frio, deixe-me entrar por sua janela
Heathcliff, sou eu, Cathy, eu voltei para casa
Sinto tanto frio, deixe-me entrar por sua janela

Oh, me deixe possuí-la, deixe-me levar sua alma
Oh, me deixe possuí-la, deixe-me levar sua alma
Você sabe que sou eu, Cathy

Heathcliff, sou eu, Cathy, eu voltei para casa
Sinto tanto frio, deixe-me entrar por sua janela
Heathcliff, sou eu, Cathy, eu voltei para casa
Sinto tanto frio, deixe-me entrar por sua janela
Heathcliff, sou eu, Cathy, eu voltei para casa
Sinto tanto frio

Kate Bush
Cantora e Compositora Britânica

OUTROS CONTOS

«Vida Conjugal», por Sergio Pitol.

«Vida Conjugal»
Romance de Sergio Pitol

676- «VIDA CONJUGAL»

[Excerto]

"A Maldade vem da ignorância- disse ela, imitando o tom de voz de María Dorotea- É fruto do mau gosto, da cafonice. Você não faz ideia de como eu gostaria de compartilhar com você as conversas de que participo nos sábados à noite na casa de Márgara Armengol. Como gostaria que nós começássemos a conversar... Não pudemos fazê-lo quando éramos mais jovens... A maldita miséria nos tirou essa oportunidade... Sobre Os Irmãos Karamazov, A Metamorfose ou Les Demoiselles d'Avignon, do grande Picasso! Gostaria de poder proporcionar a você e a María Del Carmen essas oportunidades que a vida lhes negou. 

Mas, o que estou fazendo? Eu aqui, falando com uma vendedora ambulante qualquer, sendo que esta tarde tenho uma consulta com meu médico, um homem admirável, eu lhe garanto; Ele insiste em que eu escreva. Segundo ele, devia começar com um conto. Pode acreditar, não me falta vontade de descrever a frustração dos medíocres, seu rancor em relação a tudo que lhes é superior, em relação àquilo que nunca conseguirão atingir. Teria de situar meu conto numa cidade imaginária, numa época diferente da nossa, para não correr o risco de alguém vestir a carapuça, não acha? Mas continuo falando! Bom, eu vou embora, vou embora!.

Levantou-se e, sem nem mesmo estender a mão à irmã, deu-lhe "boa tarde",
pegou uma revista que estava sobre a mesa e dirigiu-se ao quarto."

Sergio Pitol

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

CARTOON versus DÉCIMA

A Alergia
HenriCartoon

«A ALERGIA»

- Mãe, mas que passa
Com o planeta Terra?...
Adivinha-se desgraça,
Muito má cara encerra!
- É alergia da guerra
Provocada pelos humanos,
Nós os marcianos
Somos mais civilizados…
- Esses incivilizados
Não resistem muitos anos!!

POETA