terça-feira, 12 de janeiro de 2016

OUTROS CONTOS

«Uma Estranha Charada», por Agatha Christie.

«Uma Estranha Charada»
Conto de Agatha Christie

708- «UMA ESTRANHA CHARADA»

— E esta — disse Jane Helier, completando suas apresentações — é misse Marple!
Como actriz, ela conseguiu atingir seu intento. Era claramente o clímax, o gran finale triunfal! Seu tom era uma mistura de admiração reverente e triunfo.
O estranho é que o objecto tão orgulhosamente proclamado era apenas uma velhota
solteirona, afável, detalhista. Os olhos dos dois jovens que haviam sido recém-apresentados a
ela pelos bons ofícios de Jane, mostraram incredulidade e um traço de desalento.
Eram pessoas de boa aparência; a moça, Charmian Stroud, esbelta e morena; o homem,
Edward Rossiter, um jovem gigante, amável e de cabelos loiros.
— Oh! Estamos muito felizes de conhecê-la! — Charmian disse de um fôlego.
Mas havia dúvida em seus olhos. Ela lançou um olhar rápido e inquiridor a Jane Helier.
— Querida — disse Jane respondendo ao olhar —, ela é absolutamente maravilhosa.
Deixe tudo com ela. Eu lhe disse que a traria aqui e trouxe — e acrescentou para misse Marple:
— Você vai resolver para eles, eu sei. Vai ser fácil para você.
Misse Marple virou seus plácidos olhos azul-turquesa para mr. Rossiter.
— Poderia me dizer — ela perguntou — do que se trata tudo isso?
— Jane é uma amiga nossa — interrompeu Charmian ardendo de impaciência. —
Edward e eu estamos numa encrenca. A Jane disse que se pudéssemos vir à sua festa, ela nos
apresentaria a alguém que ia... que iria... que poderia...
Edward veio em seu socorro:
— A Jane nos contou que a senhora é a fina flor dos detetives, miss Marple!
Os olhos da velha senhora reluziram, mas ela protestou modestamente:
— Oh, não, não! Nada disso. Ocorre que vivendo numa cidadezinha como a que eu vivo,
a gente acaba conhecendo bem a natureza humana. Mas vocês me deixaram realmente curiosa.
Contem-me qual é o problema de vocês.
— Temo que seja terrivelmente banal... apenas um tesouro enterrado — disse Edward.
— Mesmo? Mas isso parece muito excitante!
— Eu sei. Como A Ilha do Tesouro. Mas nosso problema não tem os toques românticos
usuais. Nenhum ponto num mapa indicado por uma caveira e ossos cruzados, nenhuma
orientação como “quatro passos para a esquerda, oeste por norte”. É terrivelmente prosaico...
indica apenas onde nós devemos cavar.
— Vocês já tentaram?
— Posso dizer que cavamos cerca de oito quilômetros quadrados! O local está pronto
para virar uma horta comercial. Só estamos discutindo se vamos plantar abobrinhas ou
batatas.
Charmian o cortou bruscamente:
— Que acha de lhe contar logo tudo sobre o caso?
— Mas, claro, minha querida.
— Então vamos encontrar um lugar calmo. Venha, Edward.
Ela abriu caminho pela sala apinhada de gente e repleta de fumaça, e eles subiram a
escada até uma saleta de estar no segundo andar.
Mal eles se sentaram, Charmian começou intempestivamente:
— Bem, aí vai! A história começa com o tio Mathew, tio, ou melhor, tio-avô de nós dois.
Ele era muito velho. Edward e eu éramos seus únicos parentes. Ele gostava de nós e sempre
declarou que quando morresse deixaria seu dinheiro para nós dois. Bem, ele morreu em março
passado e deixou tudo que tinha para ser dividido igualmente entre Edward e eu. O que acabei
de dizer parece rude... não quis dizer que foi bom que ele tenha morrido... na verdade, nós
éramos muito afeiçoados a ele, mas já fazia algum tempo que ele estava doente.
— A questão é que o “tudo” que ele deixou se revelou, na prática, absolutamente nada. E
isso, francamente, foi um pequeno golpe para nós dois, não foi, Edward?
O amável Edward concordou.
— Sabe — ele disse —, nós contávamos um bocado com isso. Isto é, quando a gente
sabe que vai receber uma bolada de dinheiro, a gente... bem... não se empenha para ganhar a
vida por conta própria. Eu estou no Exército e não recebo nada além do meu soldo, a
Charmian não tem um tostão. Trabalha como contrarregra num teatro de repertório. Muito
interessante, e ela gosta, mas dinheiro que é bom, nada. Nós contávamos em nos casar, mas
não estávamos preocupados com o lado pecuniário porque sabíamos que ficaríamos muito
bem de vida algum dia.
— E agora, como vê, não ficamos! — disse Charmian. — Além disso, Ansteys é a
propriedade da família, e Edward e eu a amamos, e provavelmente teremos que vendê-la. E
Edward e eu sentimos que não conseguiremos suportar isso! Mas se não acharmos o dinheiro
do tio Mathew, teremos de vender.
— Sabe, Charmian, ainda não chegamos ao ponto vital — disse Edward.
— Bem, fale você, então.
Edward virou-se para misse Marple.
— É o seguinte. À medida que envelhecia, o tio Mathew foi ficando cada vez mais
cismado. Ele não confiava em ninguém.
— Muito sábio da parte dele — disse misse Marple. — A depravação da natureza humana
é inacreditável.
— Bem, a senhora pode ter razão. Seja como for, o tio Mathew pensava assim. Ele tinha
um amigo que perdeu todo seu dinheiro em um banco, e outro que foi arruinado por um
advogado fujão, e ele próprio perdeu algum dinheiro numa companhia fraudulenta. Ele chegou
ao ponto de sustentar, durante muito tempo, que a única coisa segura a fazer era converter seu
dinheiro em lingotes sólidos e enterrá-lo.
— Ah — exclamou misse Marple —, começo a entender.
— Sim. Amigos discutiram com ele, apontaram que ele não receberia nenhum juro dessa
maneira, mas ele sustentava que isso realmente não tinha importância. O grosso do seu
dinheiro, ele dizia, deveria ser “mantido numa caixa debaixo da cama ou enterrado no
jardim”. Essas foram suas palavras.
— E quando ele morreu — Charmian prosseguiu —, não deixou quase nada em ações,
embora fosse muito rico. De modo que nós pensamos que foi isso que ele deve ter feito.
— Descobrimos que ele tinha vendido ações e sacado grandes somas de dinheiro de
tempos em tempos, e ninguém sabe o que fez com elas. Mas parece provável que ele tenha
vivido de acordo com seus princípios, comprado ouro e o enterrado — Edward explicou.
— Ele não disse nada antes de morrer? Deixou algum papel? Alguma carta?
— Essa é a parte desesperadora da coisa. Não deixou. Ficou inconsciente por alguns
dias, mas se reanimou antes de morrer. Ele olhou para nós e deu uma risadinha... uma
risadinha fraca, apagada. Ele disse “Vocês ficarão bem, meu lindo casal de pombinhos”. E aí
ele deu um tapinha no olho, seu olho direito, e piscou para nós. E logo em seguida... morreu.
Pobre tio Mathew.
— Ele deu um tapinha no olho — disse misse Marple pensativa.
Edward disse ansiosamente:
— Isso faz algum sentido para a senhora? Me fez lembrar uma história de Arsène Lupin
em que havia alguma coisa oculta no olho de vidro de um homem. Mas o tio Mathew não tinha
um olho de vidro.
Misse Marple abanou a cabeça.
— Não... não consigo pensar em nada por enquanto.
— A Jane nos disse que a senhora indicaria na hora onde cavar! — Charmian disse,
decepcionada.
Misse Marple sorriu.
— Não sou tão feiticeira, sabe. Não conheci o seu tio, ou que tipo de homem ele era, e
não conheço a casa ou o terreno.
— E se os conhecesse? — Charmian disse.
— Bem, deve ser bem simples, de fato, não deve? — disse misse Marple.
— Simples! — disse Charmian. — Venha até Ansteys e veja se é simples!
É possível que ela não tenha feito o convite a sério, mas misse Marple disse prontamente:
— Bem, minha querida, é muita gentileza sua. Eu sempre quis ter a chance de procurar
um tesouro escondido. E — acrescentou, olhando para eles com um sorriso pudico radiante —
com um interesse amoroso, também!
— Viu só! — disse Charmian, gesticulando dramaticamente.
Eles haviam terminado um grande giro por Ansteys. Haviam contornado a horta,
totalmente revirada. Haviam atravessado os pequenos bosques, onde o entorno de cada árvore
importante fora escavado, e observado entristecidos a superfície esburacada do antes liso
gramado. Haviam subido até o sótão, onde velhos baús e arcas haviam sido pilhados de seus
conteúdos. Haviam descido aos porões, onde ladrilhos do piso haviam sido arrancados
deliberadamente de seus encaixes. Haviam feito medições e dado pancadinhas em paredes, e
haviam mostrado a misse Marple cada peça de mobília antiga que continha ou poderia ser
suspeita de conter uma gaveta secreta.
Sobre uma mesa na sala de desjejum havia uma pilha de papéis, todos os papéis que o
falecido Mathew Stroud havia deixado. Nenhum fora destruído, e Charmian e Edward criaram
o hábito de voltar a eles a todo momento, vasculhando atentamente contas, convites e
correspondência comercial na esperança de topar com uma pista que passara despercebida.
— Consegue pensar em algum lugar que não olhamos? — perguntou Charmian,
esperançosa.
Misse Marple abanou a cabeça.
— Parece que vocês foram muito meticulosos, minha querida. Talvez, se posso dizer, um
tantinho meticulosos demais. Sabem, eu sempre penso que é preciso ter um plano. É como
minha amiga, mrs. Eldritch, ela tinha uma ótima criadinha que lustrava lindamente o linóleo,
mas ela era tão meticulosa que lustrava demais o piso do banheiro, e, um dia, quando mrs.
Eldritch estava saindo do banho o capacho de cortiça escorregou sob seus pés, e ela teve uma
queda muito feia, aliás, quebrou a perna! Muito embaraçoso, porque a porta do banheiro
estava trancada, é claro, e o jardineiro teve de pegar uma escada e entrar pela janela...
terrivelmente angustiante para mrs. Eldritch, que sempre foi uma mulher muito recatada.
Edward se remexia sem parar.
— Por favor, me perdoe — misse Marple disse rapidamente. — Tenho a mania, eu sei, de
sair pela tangente. Mas uma coisa puxa outra. E às vezes isto é útil. O que eu estava tentando
dizer é que talvez se nós tentássemos aguçar nossa sagacidade e pensar num lugar provável...
Edward cortou sua fala:
— Pense em um, misse Marple. Os cérebros da Charmian e o meu agora são lindos
vazios!—
Querido, querida. É claro... é estafante para vocês. Se não se importam, vou dar uma
espiada em tudo isso — ela apontou para os papéis sobre a mesa. — Isto é, se não houver
nada privado... não quero parecer uma bisbilhoteira.
— Oh, tudo bem. Mas temo que não encontrará nada.
Ela sentou-se à mesa e examinou metodicamente o maço de documentos. Ao recolocar
cada um no lugar, ela os separava automaticamente em montículos. Quando terminou, ficou
sentada olhando para frente por alguns minutos.
Edward perguntou, não sem um traço de malícia:
— E então, misse Marple?
Misse Marple voltou a si com um pequeno sobressalto.
— Desculpe-me. Muito proveitoso.
— Descobriu alguma coisa relevante?
— Oh, não, nada disso, mas acredito que sei que tipo de homem era seu tio Mathew.
Muito parecido com meu próprio tio Henry, eu creio. Gosta de piadas bem óbvias. Um
solteiro, evidentemente... me pergunto por quê... talvez uma decepção antiga? Metódico até
certo ponto, mas não muito afeito a se amarrar... poucos solteiros são assim!
Pelas costas de misse Marple, Charmian fez um sinal para Edward. O sinal dizia: Ela está
gagá.
Miss Marple continuara a falar alegremente de seu falecido tio Henry.
— Gostava muito de trocadilhos, e como. E, para algumas pessoas, trocadilhos são uma
chatice. Um mero jogo de palavras pode ser muito irritante. Era um homem desconfiado,
também. Estava sempre convencido de que a criadagem o estava roubando. E, às vezes, é
claro, ela estava, mas não sempre. A coisa se apoderou dele, pobre homem. Perto do fim, ele
suspeitava que estivessem adulterando a sua comida, e finalmente se recusou a comer qualquer
coisa exceto ovos cozidos! Querido tio Henry, ele foi uma alma tão alegre numa época.
Gostava muito de seu café após o jantar. Ele sempre dizia “Este café é bem mourisco”,
querendo dizer, entendem, que gostaria de um pouco mais.
Edward sentiu que se ouvisse mais alguma coisa sobre o tio Henry ficaria louco.
— Gostava de pessoas jovens também — prosseguiu misse Marple —, mas tendia a
arreliá-las um pouco, se entendem o que eu digo. Costumava pôr sacos de doces onde uma
criança simplesmente não conseguiria alcançá-los.
Deixando a polidez de lado, Charmian disse:
— Ele me parece horrível!
— Oh, não, querida, apenas um velho solteirão, sabe, e pouco acostumado com crianças.
E ele não era nada estúpido, aliás. Costumava guardar uma boa quantia de dinheiro na casa, e
tinha um cofre para colocá-lo. Fazia um estardalhaço sobre ele... sobre como ele era seguro.
De tanto ele falar, ladrões entraram uma noite e abriram um buraco no cofre com um
dispositivo químico.
— Bem feito para ele — disse Edward.
— Oh, mas não havia nada no cofre — disse misse Marple. — Percebem, ele na verdade
guardava o dinheiro em alguma outra parte... atrás de alguns volumes de sermões na
biblioteca, aliás. Dizia que as pessoas jamais tiravam um livro daquele tipo da estante!
Edward a interrompeu excitadamente:
— Eu digo, é uma ideia e tanto. Que tal a biblioteca?
Mas Charmian abanou a cabeça com desdém.
— Acha que não pensei nisso? Verifiquei todos os livros na terça-feira da semana
passada, quando você foi a Portsmouth. Tirei-os para fora, sacudi cada um. Nada ali.
Edward suspirou. Depois, levantando-se, ele tratou de se livrar diplomaticamente de sua
decepcionante convidada.
— Foi extrema bondade sua ter vindo como veio e tentado nos ajudar. Pena que tenha
sido tudo um fracasso. Sinto termos tomado tanto tempo seu. Mas... vou tirar o carro, e a
senhora poderá pegar o trem das três e meia...
— Oh — disse misse Marple —, mas nós precisamos encontrar o dinheiro, não é? Não
deve desistir, mr. Rossiter. “Se de inicio não consegues, tenta, tenta, tenta de novo.”
— Quer dizer que vai... continuar tentando?
— Estritamente falando — disse miss Marple —, ainda não comecei. “Primeiro pegue
sua lebre...”, como diz mrs. Beaton em seu livro de culinária... um livro maravilhoso, mas
extremamente caro; a maioria das receitas começa com “Pegue um quarto de creme de leite e
uma dúzia de ovos”. Deixe-me ver, onde é que eu estava? Oh, sim. Bem, por assim dizer, nós
pegamos nossa lebre, sendo a lebre, é claro, seu tio Mathew, só nos restando decidir agora
onde ele teria escondido o dinheiro. Deve ser bem simples.
— Simples? — perguntou Charmian.
— Oh, sim, querida. Estou certa de que ele teria feito a coisa óbvia. Uma gaveta secreta,
esta é a minha solução.
Edward disse secamente:
— Não se podem pôr barras de ouro numa gaveta secreta.
— Não, não, claro que não. Mas não há razão para acreditar que o dinheiro esteja em
barras de ouro.
— Ele sempre costumava dizer...
— O mesmo fazia meu tio Henry sobre o seu cofre! De modo que eu deveria suspeitar
fortemente de que isso era apenas um subterfúgio. Diamantes... estes sim poderiam estar
facilmente numa gaveta secreta.
— Mas nós olhamos em todas as gavetas secretas. Chamamos um carpinteiro para
examinar os móveis.
— Chamaram, querida? Foi muito inteligente da sua parte. Eu sugeriria que a
escrivaninha pessoal de seu tio seria o mais provável. Seria aquela alta encostada lá na
parede?
— Sim. E vou lhe mostrar — Charmian foi até o móvel e abriu o tampo. Dentro havia
escaninhos e pequenas gavetas. Ela abriu então uma portinhola no centro e tocou numa mola
dentro da gaveta da esquerda. O fundo do recesso central deu um estalo e deslizou para frente.
Charmian o puxou para fora, revelando um pequeno espaço oco embaixo.
Ele estava vazio.
— Mas não é uma coincidência? — exclamou misse Marple. — O tio Henry tinha uma
escrivaninha igualzinha a essa, só que a dele era de nogueira e esta é de mogno.
— Seja como for — disse Charmian —, não há nada ali, como pode ver.
— Imagino — disse misse Marple — que seu carpinteiro era um jovem. Ele não sabia
tudo. As pessoas eram muito habilidosas quando faziam esconderijos naqueles tempos. Havia
como que um segredo dentro de um segredo.
Ela tirou um grampo de seu coque bem arrumado de cabelos grisalhos. Endireitando-o,
ela enfiou a ponta no que parecia um minúsculo buraco de cupim em um lado do recesso
secreto. Com alguma dificuldade, ela puxou uma gavetinha. Nela havia um maço de cartas
desbotadas e um papel dobrado.
Edward e Charmian saltaram juntos sobre o achado. Com os dedos tremendo, Edward
desdobrou o papel. Ele o deixou cair com uma exclamação de desgosto.
— Uma droga de receita de culinária. Presunto assado!
Charmian estava desatando uma fita que amarrava o maço de cartas.
Ela tirou uma e deu uma olhada. — Cartas de amor!
Misse Marple reagiu com entusiasmo vitoriano:
— Que coisa interessante! Talvez a razão porque seu tio nunca se casou.
Charmian leu em voz alta:
Meu sempre querido Mathew, devo confessar que parece que faz muito tempo que recebi sua última carta. Tento
me ocupar com as várias tarefas que me foram conferidas, e amiúde digo a mim que sou mesmo uma afortunada
de ver tanta coisa do globo, embora tivesse pouca ideia de que quando fosse para a América viajaria para estas
ilhas distantes!
Charmian fez uma pausa:
— De onde ela veio? Oh! Havaí! — e prosseguiu:
Estes nativos, coitados, ainda estão longe de ver a luz. Ainda vivem num estado selvagem e despidos, e passam a
maior parte do tempo nadando e dançando, adornando-se com guirlandas de flores. Mr. Gray fez algumas
conversões, mas é um trabalho árduo, e ele e mrs. Gray ficam tristemente desencorajados. Tento fazer tudo que
posso para animá-lo e encorajá-lo, mas eu também fico com frequência triste por uma razão que você pode
imaginar, querido Mathew. A ausência é uma provação severa para um coração que ama. Seus renovados votos e
protestos de afeição me alegraram enormemente. Agora e sempre você tem meu fiel e devotado coração, querido
Mathew, e eu continuo sendo o seu sincero amor, Betty Martin.
PS — Endereço minha carta protegida para nossa amiga mútua, Matilda Graves, como sempre. Espero que
Deus me perdoe esse pequeno subterfúgio.
Edward assobiou:
— Uma missionária! Então era esse o romance do tio Mathew. Fico tentando imaginar
por que eles nunca se casaram.
— Ela parece ter viajado pelo mundo todo — disse Charmian, examinando as cartas. —
Ilha Maurício... toda sorte de lugares. Provavelmente morreu de febre amarela ou algo assim.
Uma risadinha suave os sobressaltou. Misse Marple estava aparentemente se divertindo
muito.—
Bem, bem — disse ela. — Quem diria!
Ela estava lendo a receita de presunto assado. Ao notar seus olhares curiosos, ela leu em
voz alta:
— Presunto assado com espinafre. Pegue uma bonita peça de presunto, recheie-a com
cravos, e cubra com açúcar mascavo. Asse em forno baixo. Sirva rodeado por puré de
espinafre. O que acham disso, agora?
— Penso que parece horrível — disse Edward.
— Não, não, na verdade seria muito bom... mas o que pensam da coisa toda?
Um súbito raio de luz iluminou a face de Edward.
— Acha que é um código... algum tipo de criptograma? — ele comprou a ideia. — Sabe,
Charmian, poderia ser, não é? Se não, por que colocar uma receita de culinária numa gaveta
secreta?
— Exatamente — disse misse Marple. — Muito, muito significativo.
— Eu sei o que pode ser — disse Charmian. — Tinta invisível! Vamos aquecê-lo. Ligue
o fogão elétrico.
Edward assim fez, mas não surgiram sinais de escrita com o tratamento.
Misse Marple tossiu.
— O que eu realmente penso, sabem, é que vocês estão complicando demais a coisa. A
receita é apenas um indício, por assim dizer. Creio que as cartas é que são mais significativas.
— As cartas?
— Em especial — disse misse Marple —, a assinatura.
Mas Edward mal a ouviu e chamou cheio de excitação:
— Charmian! Venha aqui! Ela está certa. Veja... os envelopes são velhos, isso é fato, mas
as cartas foram escritas muito depois.
— Exatamente — disse misse Marple.
— Elas são falsamente velhas apenas. Aposto qualquer coisa que o velho tio Mat as falsificou pessoalmente...
— Exatamente — disse misse Marple.
— A coisa toda é um embuste. Nunca existiu uma missionária. Deve ser um código.
— Minhas caras, caras crianças... não há mesmo nenhuma necessidade de tornar tudo tão difícil. Seu tio era de fato um homem muito simples. Ele teve de fazer sua piadinha, apenas isso.
Pela primeira vez eles lhe prestaram inteira atenção.
— O que exatamente quer dizer, misse Marple? — perguntou Charmian.
— Quero dizer, querida, que você está segurando o dinheiro em sua mão neste minuto.
Charmian olhou para baixo.
— A assinatura, querida. Isso revela tudo. A receita é apenas um indício. Retire todos os cravos, o açúcar mascavo e o resto todo. O que ela é de fato? Ora, presunto e espinafre, é claro! Presunto e espinafre! Significando... Bobagem! Então está claro que as cartas é que são importantes. E aí se você levar em consideração o que seu tio fez pouco antes de morrer. Ele deu uma batidinha no olho, você disse. Bem, aí está... Isso lhe dá a pista, percebe.
— Nós estamos loucos, ou a senhora está? — Charmian disse.
— Seguramente, minha querida, você deve ter ouvido a expressão “por fora bela viola, por dentro pão bolorento”, ou ela já terá caído em desuso? Que incrível!
Edward arquejou, seus olhos fitavam a carta em sua mão:
— Betty Martin...
— Claro, mr. Rossiter. Como disse agora há pouco... Não havia tal pessoa. As cartas foram escritas por seu tio, e eu imagino que ele se divertiu um bocado ao escrevê-las! Como diz, a escrita nos envelopes é muito mais antiga... Aliás, o envelope não poderia pertencer às cartas, de todo modo, porque o carimbo postal da que você está segurando é de 1851 — ela fez uma pausa. E prosseguiu enfaticamente: — Mil oitocentos e cinquenta e um. E isso explica tudo, não é?
— Não para mim — disse Edward.
— Bem, é claro — disse misse Marple. — Ouso dizer que não significaria para mim não fosse meu sobrinho-neto Lionel. Um garotinho tão querido e um apaixonado colecionador de selos. Sabe tudo sobre selos. Foi ele que me contou sobre os selos raros e caros e que uma maravilhosa nova descoberta fora colocada em leilão. E eu me lembro de ele mencionar um selo — um azul de dois cents de mil oitocentos e cinquenta e um. Ele saiu por algo em torno de vinte e cinco mil dólares, creio. Caramba! Eu devia imaginar que os outros selos são também raros e valiosos. Seu tio seguramente os comprou por meio de intermediários e
cuidadosamente “encobriu suas pegadas” como dizem em histórias policiais.
Edward gemeu e enterrou o rosto nas mãos.
— O que foi? — perguntou Charmian.
— Nada. Foi só o pensamento horrível de que, não fosse por misse Marple, nós poderíamos ter queimado estas cartas por decente cavalheirismo.
— Ah — disse misse Marple —, é precisamente isso que esses velhos cavalheiros piadistas não percebem. O tio Henry, lembram, enviou a sua sobrinha favorita uma nota de cinco libras de presente de Natal. Ele a colocou num cartão de Natal, selou o cartão com goma, e escreveu nele “Amor e boas festas. Lamento que isso seja tudo que posso lhe dar este ano”. Ela, pobre menina, ficou aborrecida com o que achou que fosse sovinice da parte dele e o atirou direto no fogo; aí, é claro, ele teve de dar-lhe outra.
Os sentimentos de Edward para com o tio Henry haviam sofrido uma brusca e completa mudança.
 — Miss Marple — disse. — Vou buscar uma garrafa de champanhe. Beberemos à saúde do seu tio Henry.

Agatha Christie

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

CLARENCE CLEMONS - «Abraxas»

Clarence Clemons
Saxofonista Norte-Americano

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

SÁTIRA...

O Arranque da Campanha
HenriCartoon

«O ARRANQUE DA CAMPANHA»

Na frente pior candidato
A presidente da república…
Atendam a minha súplica,
Não votem em tal gaiato!
Depressa muda o fato
Assim como de opinião,
Apresenta-se o charlatão
Com Alzheimer à data…
Este grande democrata
Veste pele de camaleão!!

POETA

ESPECIAL MÚSICAS DO MUNDO

E a música especial de hoje é...
(11 de Janeiro de 2016, morre o músico, cantor e compositor inglês, David Bowie)

DAVID BOWIE - «My Death»

Poet'anarquista

MINHA MORTE

Minha morte espera como uma velha libertina
Tão confiante seguirei seu caminho
Lutando com ela
E com o passar do tempo
Minha morte espera como uma verdade da bíblia
No funeral da minha juventude
Chore alto por isso
E pelo passar do tempo
Minha morte espera como
Uma bruxa na noite
Tão certo quanto nosso amor é brilhante
Não vamos pensar na hora da passagem

O que quer que esteja atrás da porta
Não há muito a fazer
Anjo ou demónio, eu não me importo
Porque na frente daquela porta
Está você

Minha morte espera como um mendigo cego
Que vê o mundo através de uma mente escura
Dê uma moeda a ele
Pelo passar do tempo
Minha morte espera para permitir meus amigos
Algumas épocas boas
Antes de acabar
Então vamos beber a isso
E à hora do passar do tempo
Minha morte espera lá, entre suas coxas
Seus dedos frios fecharão meus olhos
Vamos pensar nisso e na hora da passagem

O que quer que esteja atrás da porta
Não há muito a fazer
Anjo ou demónio, eu não me importo
Porque na frente daquela porta
Está você

Minha morte espera lá entre as folhas
Nas misteriosas mangas do mágico
Coelhos e cachorros e a hora da passagem
Minha morte espera lá entre as flores
Onde as sombras mais escuras
Sombras mais escuras se acolhem
Vamos colher lilases para a hora da passagem
Minha morte espera lá, numa cama de casal
Velas do perdão em minha cabeça
Então puxe os lençóis contra
A hora da passagem

O que quer que esteja atrás daquela porta
Não há muito a fazer
Anjo ou demónio, eu não me importo
Porque na frente daquela porta está você

David Bowie
Músico, Cantor e Compositor Inglês

OUTROS CONTOS

«A Cabra, o Carneiro e o Cevado», conto poético por João de Deus.

«A Cabra, o Carneiro e o Cevado»
O Bode/ JPGalhardas

707- «A CABRA, O CARNEIRO E O CEVADO»

Uma vez
Uma cabra, um carneiro e um cevado
Iam numa carroça todos três,
Caminho do mercado...
Não iam passear, é manifesto;
Mas vamos nós ao resto.
Ia o cevado numa gritaria,
Que a cabra e o carneiro
Não podendo na sua boa fé
Acertar com a causa do berreiro,
Diziam lá consigo:
Que mania!
Cá este nosso amigo
E companheiro
Por força gosta mais de andar a pé!...
o caso é
que o cevado gritou tanto 
ou tão pouco
que o carroceiro
perde a cabeça
vai como louco
saca o foeiro
e diz:
homessa !
eu inferneiras tais não as aturo
ouvir berrar há tanto tempo é duro
o senhor não vê que esta não chora
nem ao menos 
as lágrimas lhe saltam 
o que é tão natural
numa senhora
goelas não lhe faltam
e de ferro
o ponto é que ela as abra
mas é cabra;
teve outra criação
não dá alguma sem alguma razão
e julga que este cavalheiro é mudo?
tem propósito é sério é sisudo!
às vezes, dá um berro que estremece tudo
mas é só quando é preciso
tem juízo
miolo!
miolo... exclama o outro!
pobre tolo!
ele supõe que o levam à tosquia
e por isso nem pia!
e esta, pensa que vai de carro ao tarro
vazar a teta
pobre pateta
mas porcos não se ordenham
cevados não se ordenham
nem tosquiam
demais sei eu
demais sei eu 
o fim com que se criam
por isso grito e gritarei
do fundo da minha alma
até à morte
aqui d'el-rei aqui d'el-rei
gritava como um homem muita gente
não discorre com tanta discrição
infelizmente
quando o mal é fatal
a lamuria que vale
que vale a prevenção
mais vale ser insensato
que prudente
o insensato 
ao menos
menos sente
não vê um palmo adiante do nariz

vê o presente!
está contente!
é mais feliz!!

João de Deus

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

JOAN BAEZ - «Até Amanhã»

Poet'anarquista

ATÉ AMANHÃ

Até amanhã ou depois meu amor. 
Sinto muito, não posso ficar.
O remédio melhor para nós dois,
Eu partir e você esperar

Até amanhã, eu me vou, meu amor
Sinto muito não posso ficar
Terminei, é melhor p'ra nós dois
Vou partir e você vai ficar

La....La....La.... até amanhã

Joan Baez
Música, Cantora e Compositora Estadunidense

domingo, 10 de janeiro de 2016

FOTO versus POESIA

Porta do Arrabalde
Foto: Nuno Mendes

PORTA DO ARRABALDE

A porta do Arrabalde
Virada a sol poente,
Com casario de frente
Vê passar a mocidade.
Uma enorme saudade
Do tempo de criança,
Guardo na lembrança
Esse lugar especial…
Castelo do Alandroal
Não tem semelhança!

Matias José 

SÁTIRA...

À Escolha do Freguês
HenriCartoon

«À ESCOLHA DO FREGUÊS»

- Diga-me, senhor Bosta…
Há emprego pra desempregado?
- De momento está esgotado,
Mas brevemente dá à costa.
- E outro artigo em resposta…
Arranja-se pra estes lados?
-De imediato, quatro feriados
Acabadinhos de repor!
- Agradeço-lhe o favor...
Os quatro, foram roubados!!

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

ROD STEWART - «I'd Rather Go Blind»

Poet'anarquista

ALGO ME DISSE QUE TINHA ACABADO

Algo me disse que tinha acabado
quando te vi conversando com ele
Algo no fundo da minha alma disse, "Chore garoto"
quando te vi sair com aquele garoto.

Eu preferiria, eu preferiria ficar cego, garota
A vê-la me deixar
Ooooo então, veja, eu te amo tanto
Que eu não quero vê-la me deixar
Mais do que tudo, eu simplesmente não quero,
simplesmente não quero ser livre, não

Eu estava apenas, eu estava apenas, eu estava apenas
sentado pensando
Nos seus beijos e nos seus abraços, sim
Quando o reflexo no copo que eu segurava próximo aos
meus lábios, amor,
revelou as lágrima que eu tinha no rosto, sim
E amor, amor, eu preferiria, eu preferiria ficar cego,
garota
A vê-la a ir embora, a vê-la me deixar, sim
Amor, amor, amor, eu preferiria ficar cego agora
A vê-la ir embora

Darlene

Rod Stewart
Cantor e Compositor Britânico

OUTROS CONTOS

«Vi Apenas Uma Vez», conto poético por Jaroslav Seifert.

«Vi Apenas Uma Vez»
Poeta Checoslovaco, Prémio Nobel da Literatura

706- «VI APENAS UMA VEZ»

Vi apenas uma vez
um sol tão ensanguentado.
            E nunca mais
Descia funesto sobre o horizonte
e parecia
que alguém havia escancarado as portas do inferno.
Perguntei pelo observatório astronómico
e hoje sei o porquê.

O inferno, conhecemos: está em toda parte
e caminha sobre duas pernas.
            E o paraíso?
Talvez o paraíso nada mais seja
além de um sorriso
           por muito tempo esperado
e lábios
           que murmuram o nosso nome.
E aquele frágil instante fabuloso
quando depressa podemos esquecer-nos
do inferno.

Jaroslav Seifert

sábado, 9 de janeiro de 2016

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

JIMMY PAGE - «Rave On»

Poet'anarquista

EM DELÍRIO

As pequenas coisas que você diz e faz,
Faça-me querer estar com você,
Em delírio que é um sentimento louco,
E eu sei que está me enrolando,
Quando você diz, eu te amo,
Em delírio.

A maneira como você dança e me abraça forte,
A maneira como você beija e diz boa noite,
Em delírio que é um sentimento louco,
E eu, eu sei que está me enrolando,
Quando você diz, eu te amo,
Em delírio.

Em delírio louco, sentindo,
E eu sei que está me enrolando,
Estou tão feliz que você está revelando seu amor por mim.
Em delírio, em delírio e diga-me,
Diga-me que não estará sozinha,
Diga-me só que você me ama,
Em delírio.

Em delírio, em delírio e diga-me,
Diga-me que não estará sozinha,
Diga-me só você me ama,
Em mim delírio.

Jimmy Page

Guitarrista e Compositor Inglês

OUTROS CONTOS

«Aniversário», conto poético por Matias José.

Muitos Parabéns, Filha!
Linda com 10 Anitos

705- «ANIVERSÁRIO»

Foi no dia 9 de Janeiro
Mil nove e oitenta e quatro…
A Deus estou muito grato,
Fui pai de corpo inteiro!
Ano Novo certeiro
Trouxe-me o presente,
Fiquei tão contente
Que não cabia em mim…
Ser pai é mesmo assim,
E só quem é, isso sente!

Matias José

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

SÁTIRA...

O Lar de Belém
HenriCartoon

«O LAR DE BELÉM»

- Quando for presidenta
Dos lares de idosos…?
Trago uns bens jeitosos,
Presunção e água benta.
- Anota aí na sebenta:
Vota na Maria de Belém!…
Não faz mal a ninguém
Este belo cogumelo…
- Mudo fraldas ao Martelo,
E ficamos todos bem!!

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

ELVIS PRESLEY - «Mystery Train»

Poet'anarquista

TREM MISTERIOSO

No trem que eu ando, de dezasseis vagões
No trem que eu ando, de dezasseis vagões
Bem, aquele trem preto e longo se foi com o meu amor

Trem, trem, voltando, voltando pela curva
Trem, trem, voltando pela curva
Bem, ele levou minha querida, mas nunca mais vai fazer isso de novo

Trem, trem, vindo pela, vindo pela linha
Trem, trem, vindo pela linha
Bem, ele está trazendo o meu amor, pois ela é minha, toda minha
(ela é minha, toda minha)

Elvis Presley
Músico, Compositor e Cantor Estadunidense

OUTROS CONTOS

«Um Anarquista e Outros Contos», por Joseph Conrad.

«Um Anarquista e Outros Contos»
Romancista Inglês, de origem Polaca

704- «UM ANARQUISTA E OUTROS CONTOS»

[Excertos]

“Anarquistas, suponho, não têm famílias –de qualquer forma, não do modo como entendemos essa relação social. A organização em famílias talvez responda a uma necessidade da natureza humana, mas em última instância é baseada na lei, e  portanto deve ser algo odioso e impossível para um anarquista. Mas, de fato, não entendo os anarquistas. Um homem dessa… dessa facção permanece anarquista quando só, totalmente só e indo dormir, por exemplo? Ele deita sua cabeça no travesseiro, puxa suas mantas e vai dormir com a necessidade do ´chambardement général´, como na gíria francesa, o ´bombardeio geral´, sempre presente em sua mente? Se sim, como pode? Estou certo de que se tal fé (ou fanatismo) se apossasse de meus pensamentos, jamais seria capaz de compor-me suficientemente para dormir ou comer ou realizar quaisquer das rotinas da vida diária. Não desejaria esposa, ou filhos; não poderia ter amigos, me parece… Enfim, não sei. Tudo o que sei é que o Sr. X fazia suas refeições num restaurante muito bom, que eu também frequentava.”

“A parte mais interessante era o seu diário; pois esse homem, metido num trabalho tão mortal, teve a fraqueza de manter um registo do tipo mais condenatório. Lá estavam seus actos e pensamentos, desnudados diante de nós. Mas os mortos não se importam com isso… Um humanitarismo vago mas ardente o havia impelido em tenra idade para os mais amargos extremos da negação e da revolta. Você já ouviu falar de ateus convertidos. Eles se tornam fanáticos perigosos, mas a alma permanece a mesma. Após ter conhecido a garota, encontram-se naquele seu diário estranhas rapsódias político-amorosas. Tomava as poses de soberania dela com seriedade circunspecta. Ansiava por convertê-la… não sei se você se lembra, faz uns bons anos já, da sensação jornalística do Mistério da Hermione Street; encontraram o corpo de um homem no porão de uma casa vazia;  o inquérito, algumas prisões, várias conjecturas, e então silêncio, o final costumeiro para muitos mártires e confidentes obscuros. O fato é que ele não era suficientemente optimista. É preciso ser um optimista selvagem, tirânico, impiedoso, um faz-tudo como Horne, por exemplo, para resultar num bom rebelde social do tipo extremista”. O narrador pergunta sobre a garota: “Você quer realmente saber?  Confesso a pequena malícia de ter-lhe enviado o diário de Sevrin. Ela retirou-se; foi, então, para Florença; daí, recolheu-se a um convento. Não lhe saberia dizer onde irá depois. E isso importa? Gestos! Gestos! Meros gestos de sua classe! … Por isso essa raça está com os dias contados”.

Joseph Conrad

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

SÁTIRA...

Antes & Depois
HenriCartoon

«ANTES & DEPOIS»

Comentador sem brio
A palrar na TVI…
O que pode vir daí,
Provoca-me calafrio!
Começa agora o frio
Vê não te constipes,
Aparecem as gripes
Que podem ser fatais…
Nas presidenciais
Espero que dissipes!

POETA

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

DIZZY GILLESPIE - «Dizzy Atmosphere»

Poet'anarquista

Dizzy Gillespie
Compositor e Trompetista de Jazz
Norte-Americano

OUTROS CONTOS

«O Louco», por Khalil Gibran.

«O Louco»
Cabeça de Homem Velho/ Katsushika Hokusai
Xilogravura Japonesa

703- «O LOUCO»

Eu estava andando nos jardins de um asilo de loucos, quando encontrei um jovem rapaz, lendo um livro de filosofia.

Pelo seu jeito, e pela saúde que mostrava, não combinava muito com os outros internos.
 Sentei-me ao seu lado e perguntei:

- O que você está fazendo aqui?

O rapaz olhou surpreso. Mas, vendo que eu não era um dos médicos, respondeu:

- É muito simples. Meu pai, um brilhante advogado, queria que eu fosse como ele. Meu tio, que tinha um grande entreposto comercial, gostaria que eu seguisse seu exemplo. Minha mãe desejava que eu fosse a imagem do seu adorado pai. Minha irmã sempre me citava seu marido como exemplo de um homem bem-sucedido. Meu irmão procurava treinar-me para ser um excelente atleta como ele.

Parou um instante e continuou:

- E o mesmo acontecia com meus professores na escola, o mestre de piano, o tutor de inglês - todos estavam determinados em suas acções e convencidos de que eram o melhor exemplo a seguir. Ninguém me olhava como se deve olhar um homem, mas como se olha no espelho.

Dessa maneira, resolvi me internar neste asilo. Pelo menos aqui eu posso ser eu mesmo.

Khalil Gibran

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

CANTAR OS REIS


Cantadores do Alandroal
Cante Alentejano em Noite de Reis

CANTAR OS REIS

Os Reis já se ouvem
Nas ruas da nossa vila…
Uma estrela cintila
Prós lados de Belém.
Como cantam bem
A Deus Menino Jesus,
O seu cante seduz
Até o velho mote…
Cantadores com capote
Enchem a noite de luz!

Matias José

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

ERROLL GARNER - «I Didn't Know»

Poet'anarquista

Erroll Garner
Pianista e Compositor de Jaz Norte-Americano

OUTROS CONTOS

«A Morte do Porteiro», por Albert Camus.

«A Morte do Porteiro»
Enterro/ Portinari

702- «A MORTE DO PORTEIRO»

Os vendedores dos jornais da tarde anunciavam que a invasão dos ratos tinha parado. Mas Rieux encontrou o seu doente meio deitado para fora do leito, com uma das mãos no ventre e a outra em volta do pescoço, vomitando, com grandes arrancos, uma bílis rosada numa lata de lixo. Após grandes esforços, sem fôlego, o porteiro voltou a deitar-se. A temperatura era de trinta e nove e meio, os gânglios do pescoço e os membros tinham inchado, duas manchas escuras alastravam-se pelo flanco. Queixava-se agora de uma dor interna.

- Está ardendo - dizia ele -, esta porcaria está ardendo.

A boca fuliginosa obrigava-o a mastigar as palavras e voltava para o médico uns olhos protuberantes, dos quais a dor de cabeça fazia correr lágrimas. A mulher olhava com ansiedade para Rieux, que continuava mudo.

- Doutor - perguntou ela -, que é isto?

- Pode ser uma série de coisas. Mas não há ainda nada de certo. Até esta noite, dieta e depurativo. Deve tomar bastante líquido.

Precisamente, o porteiro sentia-se devorado pela sede. Ao voltar à casa, Rieux telefonou ao seu colega Ríchard, um dos médicos mais importantes da cidade.

- Não - dizia Richard -, não vi nada de extraordinário.

- Nem febre com inflamações locais?

- Ah! Sim, na verdade, dois casos de gânglios muito inflamados.

- Anormalmente?

- Sim - respondeu Richard -, o normal, você sabe. . .

A noite, de qualquer forma, o porteiro delirava e, com quarenta graus, queixava-se dos ratos. Rieux tentou um abcesso de fixação. Sob a queimadura da teribintina, o porteiro berrou:

- Ah, são uns safados.

Os gânglios tinham aumentado, estavam duros e fibrosos ao tacto.
A mulher do porteiro afligia-se:

- Fique junto dele - ordenou o médico - e, se for necessário, pode me chamar.
No dia seguinte, 30 de Abril, uma brisa já morna soprava sob um céu azul e húmido. Trazia um cheiro de flores que vinha dos bairros mais afastados. Nas ruas, os ruídos da manhã pareciam mais vivos, mais alegres do que habitualmente. Em toda a nossa pequena cidade, liberta da apreensão em que tinha vivido durante a semana, esse era o dia da renovação. O próprio Rieux, tranquilizado por uma carta da mulher, desceu até a casa do porteiro. E na verdade, de manhã, a febre caíra para trinta e oito graus. Enfraquecido, o doente sorria no leito.

- Está melhor, não é verdade, doutor? - perguntou a mulher.

- Vamos esperar um pouco.

Ao meio-dia, porém, a febre subira bruscamente a quarenta graus, o paciente delirava sem cessar e os vômitos tinham recomeçado. Os gânglios do pescoço eram dolorosos ao tato, e o doente parecia querer manter a cabeça o mais afastada possível do corpo. A mulher estava sentada aos pés da cama, segurando levemente os pés do doente. Olhava para Rieux.

- Ouça - disse ele -, é preciso isolá-lo e tentar um tratamento mais radical. Vou telefonar para o hospital e vamos levá-lo de ambulância.

Duas horas depois, na ambulância, o médico e a mulher curvavam-se sobre o doente. Da boca, coberta de fungosidades, saíam fragmentos de palavras: ”Os ratos”, dizia ele. Esverdeado, com lábios descorados, pálpebras pesadas, respiração entrecortada e breve, dilacerado pelos gânglios, abatido no fundo da maca, como se quisesse fechá-la em torno dele ou como se qualquer coisa, vinda do fundo da terra, o chamasse sem descanso, o porteiro sufocava sob um peso invisível. A mulher chorava.

- Não há mais esperança, doutor?

- Está morto - disse Rieux.

A morte do porteiro, pode-se dizer, marcou o fim desse período, cheio de sinais desconcertantes, e o início de outro, relativamente mais difícil, em que a surpresa dos primeiros tempos se transformou, pouco a pouco, em pânico. Nossos concidadãos - a partir de agora eles se davam conta disso - nunca tinham pensado que nossa pequena cidade pudesse ser um lugar particularmente designado para que os ratos morressem ao sol e os porteiros perecessem de doenças estranhas. Sob esse ponto de vista, era evidente que estavam errados e que suas ideias precisavam ser revistas. Se tudo tivesse ficado por aí, os hábitos, sem dúvida, teriam vencido. Mas outros concidadãos nossos, que nem sempre eram porteiros nem pobres, tiveram de seguir o caminho que Michel fora o primeiro a tomar. Foi a partir desse momento que começou o medo e com ele a reflexão.

Albert Camus

SÁTIRA...

Sem Dramas
HenriCartoon

«SEM DRAMAS»

- E esta!... o canal a mudar?
Era a cena do Titanic!…
Quando o barco vai a pique
Prás profundezas do mar…

Quem terá sido o animal?...
Estava o programa no ar,
E sem ninguém suspeitar
Resolve mudar de canal.

- Fui eu… o grande Martelo!...
Cá do alto do meu castelo
Na TVI  a desdramatizar.

- Olha-me este caramelo!...
A quem pensas tu enganar
Com essa saia a arrojar?

POETA

domingo, 3 de janeiro de 2016

OUTROS CONTOS

«Cantos Indecisos – XXXI», conto poético por Teixeira de Pascoaes.

«Cantos Indecisos – XXXI»
Escritor e Poeta Português

701- «CANTOS INDECISOS – XXXI»

Só tem profundo olhar o nosso sentimento. 
Para se descobrir a origem duma flor, 
Não basta o raciocínio, o humano pensamento, 
É preciso sentir por ela um grande amor. 

Teixeira de Pascoaes

sábado, 2 de janeiro de 2016

OUTROS CONTOS

«Dois Mil e Quê?», conto poético por Matias José.

Dois Mil e Quê?
HenriCartoon

700- «DOIS MIL E QUÊ?»

Com piso escorregadio
É preciso ter cuidado…
Está o plano inclinado,
Travar pode ser tardio. 
Ano Novo quer-se sadio
Em dois mil e dezasseis,
No Martelo não confieis
Pra presidente da nação...
Que não haja abstenção
Depois do dia de Reis! 

POETA

Bom Ano Novo... Sejam Felizes!