«A Utilidade da Visão»
Platão, por Rafael Sanzio
275- «A UTILIDADE DA VISÃO»
[...] À imagem da figura do universo, que é esférica, as
divindades prenderam as órbitas divinas, que são duas, num corpo esférico: este
a que chamamos cabeça, que é a parte mais divina, e domina todas as outras
partes que há em nós; a ela os deuses entregaram todo o corpo, como servo, ao
qual a juntaram, percebendo que tomaria parte em todos os movimentos e em tudo
quanto ele tivesse. Para que não rolasse sobre a terra, que tem altos e
depressões de todo o tipo, e não tivesse dificuldade em transpor umas e sair de
outras, deram-lhe este veículo para fácil deslocação; daí que o corpo seja
comprido, e tenha por natureza quatro membros extensíveis e flexíveis,
fabricados pelo deus para a deslocação. Recorrendo a eles para se apoiar e se
agarrar, era capaz de se deslocar por todos os locais, enquanto transportava no
topo a morada daquilo que em nós é mais divino e sagrado. Foi por este motivo e
deste modo que a todos foram anexadas pernas e mãos.
Considerando que a parte da frente é mais nobre e própria
para governar do que a de trás, os deuses deram-nos a capacidade de caminhar
melhor nesse sentido. Portanto, era preciso que a parte da frente do corpo
humano fosse distintiva e dissemelhante. Foi por isso que, em primeiro lugar,
estabeleceram neste lado da parte exterior da cabeça o sítio do rosto, e em
seguida firmaram os instrumentos relacionados com todas as capacidades de
providência da alma, e estabeleceram que, de acordo com a natureza, seria na
parte anterior que ficariam situados os órgãos que tomam parte na governação.
Entre os instrumentos, fabricaram em primeiro lugar os
olhos, portadores da luz, tendo-os ali fixado pela seguinte razão: essa espécie
de fogo que não arde, antes oferece uma luz suave, os deuses engendraram-no, de
modo a que a cada dia se gerasse um corpo aparentado. O fogo puro que há dentro
de nós, irmão do outro, fizeram com que ele corresse pelos nossos olhos com
suavidade e de modo contínuo, pelo que comprimiram ao máximo o centro dos
olhos, de tal forma que sustivesse a outra espécie mais espessa, na sua
totalidade, e filtrasse apenas esta espécie pura. Deste modo, quando a luz do
dia cerca o fluxo da visão, o semelhante recai sobre o semelhante, tornam-se
compactos, unindo-se e conciliando-se num só corpo ao longo do eixo da visão; o
que acontece onde quer que aquele fogo que sai do interior contacte com o que
vem do exterior. Assim, gera-se uma homogeneidade de impressões, pois o todo é
muito semelhante; se esse todo tocar em algo ou se algo tocar nele, distribui
os seus movimentos por todo o corpo até à alma, e produz a sensação a que nós
chamamos “ver”. Quando o fogo se afasta ao cair da noite, separa-se do fogo de
que é congénere; por cair sobre algo que lhe é dissemelhante, ele altera-se e
extingue-se, pois a sua natureza não é congénere à do ar que o rodeia, já que
este não tem fogo. Então, a visão acaba e gera-se o convite ao sono.
De facto, quando se cerra a protecção que os deuses
engendraram para a visão ― as pálpebras ―, essa protecção sustém
o poder do fogo interno. Este dispersa-se e acalma os movimentos do interior.
Uma vez acalmados, gera-se o sossego, e, uma vez gerado um sossego profundo,
abate-se um sono com poucos sonhos; mas quando restam alguns movimentos fortes,
conforme a sua natureza e os locais onde ficam, produzem no interior simulacros
que se assemelham, quanto à natureza e ao número, ao exterior e que serão
recordados ao acordar. Assim, já não é difícil perceber a formação de imagens
em espelhos e em todas as superfícies reflectoras e lisas. Por causa da relação
recíproca que o fogo interior e o fogo exterior mantêm entre si, cada vez que
um deles encontra uma superfície lisa, mudando constantemente de forma, todas
estas imagens aparecem, por necessidade, graças à conjunção entre o fogo que
circunda o rosto e o fogo que circunda a visão, quando se deparam com uma
superfície lisa e brilhante. Aquilo que está à direita aparece à esquerda,
porque é com as partes contrárias da visão que as partes contrárias do fogo
exterior estabelecem contacto, em oposição ao que habitualmente acontece quando
chocam entre si. Pelo contrário, a direita está à direita e a esquerda à
esquerda, quando a luz muda de direcção por se fundir com o objecto com que se
funde; o que acontece sempre que a superfície lisa dos espelhos, por adquirir
uma saliência de um lado e de outro, empurra para o lado esquerdo da visão a
luz que vem do lado direito e vice-versa. Mas, se o espelho for redondo
transversalmente, em relação ao rosto, fará com que tudo apareça invertido,
porque empurra para cima a luz que vem de baixo e para baixo a que vem de cima.
Todas estas são causas acessórias que um deus utiliza como
auxiliares para cumprir o que lhe compete, conforme pode, a ideia do melhor. No
entanto, a maioria considera que não são causas acessórias mas sim as causas de
tudo, visto que produzem o arrefecimento e o aquecimento, a solidificação e a
fusão e efeitos desse tipo. Mas não é possível que tais causas possuam razão ou
intelecto em relação ao que quer que seja. Temos que dizer que, entre todos os
seres, o único ao qual é adequado possuir intelecto é a alma ― pois
esta é invisível, enquanto que o fogo, a água, a terra e o ar foram todos
gerados como corpos visíveis ― e que o amante da intelecção e do
saber persegue, por necessidade, as causas primeiras do que na natureza é
racional; aquelas que são movimentadas por outros seres e que, por necessidade,
transmitem o movimento a outras, essas são causas secundárias. Também nós
devemos fazer isso; devemos falar de ambos os géneros de causas, distinguindo
as que fabricam coisas belas e boas com o intelecto das que, isentas de
intelecção, cada vez que produzem algo, o fazem ao acaso e sem ordem. Coube-nos
então falar das causas acessórias, pelas quais os olhos obtiveram o poder que
agora têm. Da obra mais importante, do ponto de vista da sua utilidade, razão
pela qual o deus no-la ofereceu, é sobre ela que nós devemos falar.
Em meu entender, a visão foi gerada como causa de maior
utilidade para nós, visto que nenhum dos discursos que temos vindo a fazer
sobre o universo poderia de algum modo ser proferido sem termos visto os
astros, o Sol e o céu. Foi o facto de vermos o dia e a noite, os meses, o
circuito dos anos, os equinócios e os solstícios que deu origem aos números que
nos proporcionam a noção de tempo e a investigação sobre a natureza do
universo. A partir deles foi-nos aberto o caminho da filosofia, um bem maior do
que qualquer outro que veio ou possa vir alguma vez para a espécie mortal, oferecido
pelos deuses. Afirmo que este foi o maior bem facultado pelos olhos. Por que
razão havemos de celebrar os outros que são inferiores a estes, pelos quais só
um não-filósofo choraria, se ficasse cego, com lamentos em vão?
Quanto a nós, declaremos que esse bem nos foi dado pelo
seguinte motivo: o deus descobriu e concedeu-nos a visão em nosso favor, para
que, ao contemplar as órbitas do Intelecto no céu, as aplicássemos às órbitas
da nossa actividade intelectiva que são congéneres daquele, ainda que as nossas
tenham perturbações e as deles sejam imperturbáveis. Só depois de termos
analisado aqueles movimentos, calculando-os correctamente em conformidade com o
que se passa na natureza, e de termos imitado esses movimentos do deus,
absolutamente impassíveis de errar, podemos estabilizar os que em nós são
errantes. [...]
Platão
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