terça-feira, 6 de maio de 2014

OUTROS CONTOS

«O Cágado», por Almada Negreiros.

«O Cágado»
Conto de Almada Negreiros

139- «O CÁGADO»

Havia um homem que era muito senhor da sua vontade. Andava às vezes sozinho pelas estradas a passear. Por uma dessas vezes viu no meio da estrada um animal que parecia não vir a propósito — um cágado.

O homem era muito senhor da sua vontade, nunca tinha visto um cágado; contudo, agora estava a acreditar. Acercou-se mais e viu com os olhos da cara que aquilo era, na verdade, o tal cágado da zoologia.

O homem que era muito senhor da sua vontade ficou radiante, já tinha novidades para contar ao almoço, e deitou a correr para casa. A meio caminho pensou que a família era capaz de não aceitar a novidade por não trazer o cágado com ele, e parou de repente. Como era muito senhor da sua vontade, não poderia suportar que a família imaginasse que aquilo do cágado era história dele, e voltou atrás. Quando chegou perto do tal sítio, o cágado, que já tinha desconfiado da primeira vez, enfiou buraco abaixo como quem não quer a coisa.

O homem que era muito senhor da sua vontade pôs-se a espreitar para dentro e depois de muito espreitar não conseguiu ver senão o que se pode ver para dentro dos buracos, isto é, muito escuro. Do cágado, nada. Meteu a mão com cautela e nada; a seguir até ao cotovelo e nada; por fim o braço todo e nada. Tinham sido experimentadas todas as cautelas e os recursos naturais de que um homem dispõe até ao comprimento do braço e nada.

Então foi buscar auxílio a uma vara compridíssima, que nem é habitual em varas haver assim tão compridas, enfiou-a pelo buraco abaixo, mas o cágado morava ainda muito mais lá para o fundo. Quando largou a vara, ela foi por ali abaixo, exactamente como uma vara perdida.

Depois de estudar novas maneiras, a ofensiva ficou de fato submetida a nova orientação. Havia um grande tanque de lavadeiras a dois passos e ao lado do tanque estava um bom balde dos maiores que há. Mergulhou o balde no tanque e, cheio até mais não, despejou-o inteiro para dentro do buraco do cágado. Um balde só já ele sabia que não bastava, nem dez, mas quando chegou a noventa e oito baldes e que já faltavam só dois para cem e que a água não havia meio de vir ao de cima, o homem que era muito senhor da sua vontade pôs-se a pensar em todas as espécies de buracos que possa haver.

— E se eu dissesse à minha família que tinha visto o cágado? - pensava para si o homem que era muito senhor da sua vontade. Mas não! Toda a gente pode pensar assim menos eu, que sou muito senhor da minha vontade.

O maldito sol também não ajudava nada. Talvez que fosse melhor não dizer nada do cágado ao almoço. A pensar se sim ou não, os passos dirigiam-se involuntariamente para as horas de almoçar.

— Já não se trata de eu ser um incompreendido com a história do cágado, não; agora trata-se apenas da minha força de vontade. É a minha força de vontade que está em prova, esta é a ocasião propícia, não percamos tempo! Nada de fraquezas!

Ao lado do buraco havia uma pá de ferro, destas dos trabalhadores rurais. Pegou na pá e pôs-se a desfazer o buraco. A primeira pazada de terra, a segunda, a terceira, e era uma maravilha contemplar aquela majestosa visibilidade que punha os nossos olhos em presença do mais eficaz testemunho da tenacidade, depois dos antigos. Na verdade, de cada vez que enfiava a pá na terra, com fé, com robustez, e sem outras intenções a mais, via-se perfeitamente que estava ali uma vontade inteira; e ainda que seja cientificamente impossível que a terra rachasse de cada vez que ele lhe metia a pá, contudo era indiscutivelmente esta a impressão que lhe dava. Ah, não! Não era um vulgar trabalhador rural. Via-se perfeitamente que era alguém muito senhor da sua vontade e que estava por ali por acaso, por imposição própria, contrafeito, por necessidade do espírito, por outras razões diferentes das dos trabalhadores rurais, no cumprimento de um dever, um dever importante, uma questão de vida ou de morte — a vontade.

Já estava na nonagésima pazada de terra; sem afrouxar, com o mesmo ímpeto da inicial, foi completamente indiferente por um almoço a menos. Fosse ou não por um cágado, a humanidade iria ver solidificada a vontade de um homem.

A mil metros de profundidade a pino, o homem que era muito senhor da sua vontade foi surpreendido por dolorosa dúvida — já não tinha nem a certeza se era a quinquagésima milionésima octogésima quarta. Era impossível recomeçar, mais valia perder uma pazada.

Até ali não havia indícios nem da passagem da vara, da água ou do cágado. Tudo fazia crer que se tratava de um buraco supérfluo; contudo, o homem era muito senhor da sua vontade, sabia que tinha de haver-se de frente com todas as más impressões. De fato, se aquela tarefa não houvesse de ser árdua e difícil, também a vontade não podia resultar superlativamente dura e preciosa.

Todas as noções de tempo e de espaço, e as outras noções pelas quais um homem constata o quotidiano, foram todas uma por uma dispensadas de participar no esburacamento. Agora, que os músculos disciplinados num ritmo único estavam feitos ao que se quer pedir, eram desnecessários todos os raciocínios e outros arabescos cerebrais, não havia outra necessidade além da dos próprios músculos.

Umas vezes a terra era mais capaz de se deixar furar por causa das grandes camadas de areia e de lama; todavia, estas facilidades ficavam bem subtraídas quando acontecia ser a altura de atravessar uma dessas rochas gigantescas que há no subsolo. Sem incitamento nem estímulo possível por aquelas paragens, é absolutamente indispensável recordar a decisão com que o homem muito senhor da sua vontade pegou ao princípio na pá do trabalhador rural para justificarmos a intensidade e a duração desta perseverança. Inclusive, a própria descoberta do centro da Terra, que tão bem podia servir de regozijo ao que se aventura pelas entranhas do nosso planeta, passou infelizmente desapercebida ao homem que era muito senhor da sua vontade. O buraco do cágado era efectivamente interminável. Por mais que se avançasse, o buraco continuava ainda e sempre. Só assim se explica ser tão rara a presença de cágados à superfície devido à extensão dos corredores desde a porta da rua até aos aposentos propriamente ditos.

Entretanto, cá em cima na terra, a família do homem que era muito senhor da sua vontade, tendo começado por o ter dado por desaparecido, optara, por último, pelo luto carregado, não consentindo a entrada no quarto onde ele costumava dormir todas as noites.

Até que uma vez, quando ele já não acreditava no fim das covas, já não havia, de fato, mais continuação daquele buraco, parava exactamente ali, sem apoteose, sem comemoração, sem vitória, beatamente como um simples buraco de estrada onde se vê o fundo ao sol. Enfim, naquele sítio nem a revolta servia para nada.

Caindo em si, o homem que era muito senhor da sua vontade pediu-lhe decisões, novas decisões, outras; mas ali não havia nada a fazer, tinha esquecido tudo, estava despejado de todas as coisas, só lhe restava saber cavar com uma pá. Tinha, sobretudo, muito sono, lembrou-se da cama com lençóis, travesseiro e almofada fofa, tão longe! Maldita pá! 0 cágado! E deu com a pá com força no fundo da cova. Mas a pá safou-se-lhe das mãos e foi mais fundo do que ele supunha, deixando uma greta aberta por onde entrava uma coisa de que ele já se tinha esquecido há muito - a luz do sol. A primeira sensação foi de alegria, mas durou apenas três segundos, a segunda foi de assombro: teria na verdade furado a Terra de lado a lado?

Para se certificar alargou a greta com as unhas e espreitou para fora. Era um país estrangeiro; homens, mulheres, árvores, montes e casas tinham outras proporções diferentes das que ele tinha na memória. 0 sol também não era o mesmo, não era amarelo, era de cobre cheio de azebre e fazia barulho nos reflexos. Mas a sensação mais estranha ainda estava para vir: foi que, quando quis sair da cova, julgava que ficava em pé em cima do chão como os habitantes daquele país estrangeiro, mas a verdade é que a única maneira de poder ver as coisas naturalmente era pondo-se de pernas para o ar...

Como tinha muita sede, resolveu ir beber água ali ao pé e teve de ir de mãos no chão e o corpo a fazer o pino, porque de pé subia-lhe o sangue à cabeça. Então, começou a ver que não tinha nada a esperar daquele país onde nem sequer se falava com a boca, falava-se com o nariz.

Vieram-lhe de uma vez todas as saudades da casa, da família e do quarto de dormir. Felizmente estava aberto o caminho até casa, fora ele próprio quem o abrira com uma pá de ferro. Resolveu-se. Começou a andar o buraco todo ao contrário. Andou, andou, andou; subiu, subiu, subiu...

Quando chegou cá acima, ao lado do buraco estava uma coisa que não havia antigamente — o maior monte da Europa, feito por ele, aos poucochinhos, às pazadas de terra, uma por uma, até ficar enorme, colossal, sem querer, o maior monte da Europa.

Este monte não deixava ver nem a cidade onde estava a casa da família, nem a estrada que dava para a cidade, nem os arredores da cidade que faziam um belo panorama. O monte estava por cima disto tudo e de muito mais.

O homem que era muito senhor da sua vontade estava cansadíssimo por ter feito duas vezes o diâmetro da Terra. Apetecia-lhe dormir na sua querida cama, mas para isso era necessário tirar aquele monte maior da Europa, de cima da cidade, onde estava a casa da sua família. Então, foi buscar outra pá dos trabalhadores rurais e começou logo a desfazer o monte maior da Europa. Foi restituindo à Terra, uma por uma, todas as pazadas com que a tinha esburacado de lado a lado. Começavam já a aparecer as cruzes das torres, os telhados das casas, os cumes dos montes naturais, a casa da sua família, muita gente suja de terra, por ter estado soterrada, outros que ficaram aleijados, e o resto como dantes.

O homem que era muito senhor da sua vontade já podia entrar em casa para descansar, mas quis mais, quis restituir à Terra todas as pazadas, todas. Faltavam poucas, algumas dúzias apenas. Já agora valia a pena fazer tudo bem até ao fim. Quando já era a última pazada de terra que ele ia meter no buraco, portanto a primeira que ele tinha tirado ao princípio, reparou que o torrão estava a mexer por si, sem ninguém lhe tocar; curioso, quis ver porque era — era o cágado.

Almada Negreiros

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

JOSÉ AFONSO
«Como se Faz um Canalha»
Como Se Faz Um Canalha by José Afonso on Grooveshark
Poet'anarquista

COMO SE FAZ UM CANALHA

Conheci-te ainda moço
Ou como tal eu te via
Habitavas o Procópio
Ias ao Napoleão

Mas ninguém sabia ao certo
Como se faz um canalha
Se a memória me não falha
Tinhas o mundo na mão

Alguma gente enganaste
(A fé da muita amizade
Tem também as suas falhas
Hoje fazes alianças

A bem da Santa União
Em abono da verdade
A tua Universidade
Tem mesmo um nome: Traição

Um social-democrata
Não foge ao Grão-Timoneiro
Basta citar o paleio
O major psicopata

Já são tantos namorados
Só falta o Holden Roberto
Devagar se vai ao longe
Nunca te vimos tão perto

Nunca te vimos tão longe
Daquilo que tens pregado
Nunca te vimos tão fora
Da vida do Zé Soldado

Ninguém mais te peça meças
No folgor dos gabinetes
Hás-de acabar às avessas
Barricado até aos dentes

És um produto de sala
Rasputim cá dos Cabrais
Estas sempre em traje de gala
A brincar aos carnavais

Nos anais do mundanismo
A nossa história recente
Falará com saudosismo
Dum grande Lugar-Tenente

São tudo favas-contadas
No país da verborreia
Uma brilhante carreira
Dá produto todo o ano

Digamos pra ser exacto
Assim se faz um canalha
Se a memória não me falha
Já te mandei prò Caetano

José Afonso

PENSAMENTO DO DIA...

6 de Maio de 1856: nasce o psicanalista austríaco, Sigmund Freud. 

Por aqui- «BIOGRAFIA» do psicanalista austríaco.

«Retrato de Sigmund Freud»
Por Ferdinand Schmutzer

Pensamento do dia...

«Os poetas e os romancistas são aliados preciosos, e o seu testemunho merece a mais alta consideração, porque eles conhecem, entre o céu e a terra, muitas coisas que a nossa sabedoria escolar nem sequer sonha ainda. São, no conhecimento da alma, nossos mestres, que somos homens vulgares, pois bebem de fontes que não se tornaram ainda acessíveis à ciência.»

Sigmund Freud

segunda-feira, 5 de maio de 2014

CARTOON versus QUADRA

Saída Limpinha, Limpinha, Limpinha
HenriCartoon

SAÍDA LIMPINHA, LIMPINHA, LIMPINHA

Tudo aqui mais que limpinho!...
Só falta varrer este resto de lixo
E incinerar de vez o Zé Povinho…
Sou um Fedelho com capricho!!

POETA

OUTROS CONTOS

«O Caixão do Molhado», por Pepetela.

«O Caixão do Molhado»
Conto por Pepetela

138- «O CAIXÃO DO MOLHADO»

SÔ BELARMINO MOREIRA nasceu na cidade do Porto, cidade que ele nunca nomeava pela designação oficial, mas pela carinhosa de «Invicta». O feliz acontecimento que o trouxe ao mundo aconteceu em 1918, num dia que culminava uma semana inteira de chuva ininterrupta na Península Ibérica e arredores. Por isso o rio ameaçava galgar todos os muros e obstáculos que ao longo da Ribeira as pessoas tinham acumulado à força de braços e também dos músculos dos mulos, para evitar a inundação. Trabalho insano e praticamente inútil, pois no momento em que a mãe o empurrou para a vida ao ar livre, Belarmino escapou às mãos cansadas da parteira e mergulhou pela primeira vez na água do Douro, que por essa altura já subia a vinte centímetros no chão da casa. Por isso o seu primeiro nome não foi Belarmino, como o conheceremos mais tarde, mas «Molhado», como lhe chamaram sempre na cidade natal. O pai, vagamente adepto da Maçonaria e declaradamente anticlerical, arranjou no facto pretexto para não permitir que fosse baptizado, já lhe chegava de águas, coitadinho, que mal saiu do calorzinho aconchegante do ventre materno logo mergulhou no Douro castanho e gelado.

Muito mais tarde falaria sempre a brincar do seu primeiro nome de Molhado. Mas descrevia com supersticiosa reserva, já muito a sério, a primeira visão que teve de uma outra cheia do Douro, aos quatro anos de idade. A visão que para sempre o marcou foi a do cadáver de um homem a passar no rio que corria, inchado, à frente da sua casa. Sempre associou as cheias do Douro a esse instante de mudo terror. E registou, com notável precisão, o infortúnio desmedido de se passar silenciosamente à frente de uma cidade, sem um caixão que resguardasse a face morta e pálida dos curiosos olhares dos outros.

Quando o Molhado tinha cinco anos, o pai partiu para Angola, tentar a sorte. E quatro depois, seguiu a família, ele, a mãe, e três irmãos. Para trás ficou definitivamente o Douro e suas cheias. E quando lhe perguntavam na escola de Luanda de onde tinha vindo ele respondia sempre da Invicta, pois claro. Viveu no alto da Boavista, num sítio onde havia poucas casas e piores estradas, sobretudo quando chovia. Deste sítio do outro lado do mundo também via água ao sair de casa. Só que esta era do mar e contida numa calma e belíssima baía azul com coqueiros e palmeiras à volta. Se apaixonou pela diferença de cores e nunca mais quis mudar de sítio. E, por morar na Boavista de Luanda, se tornou adepto ferrenho do clube de futebol Boavista, do mesmo nome mas do Porto.

Casou, teve filhos, duas meninas, e um bom negócio de vendas diversificadas, desde chouriço e roupa a materiais de construção. Ficou viúvo, casou as filhas, começou a preparar a retirada dos negócios. Mas veio a Independência e os genros pegaram nas famílias e abalaram para a África do Sul, os olhos cheios de estranhos medos provocados por vagos remorsos. Ele nada tinha a temer e gostava da vista da baía, por isso ficou. No entanto, nunca mais pensou em reforma, pois deixara de ter quem lhe continuasse os negócios. Só fechou a loja no dia da independência, não por medo mas porque era dia demasiado importante para não ser comemorado de alguma maneira. Aliás, tudo na cidade estava fechado, excepto os hospitais, que recebiam os feridos da guerra que troava ameaçadoramente ao lado. Mas no dia seguinte à independência abriu as portas da loja às oito horas, como durante trinta anos fizera.

Algum tempo depois da independência, atingiu os sessenta anos de idade. Era altura de pensar na vida. Ou melhor, na morte e suas inconveniências. Ouviu uma conversa na loja que o deixou a matutar. Se falava da dificuldade cada vez maior de arranjar madeira para qualquer coisa que fosse, sobretudo para as obras. Os clientes aliás se referiam a construções, pois vinham procurar os materiais no «Canto do Belarmino». Era assunto muito falado na época o facto de a indústria ter enorme dificuldade em providenciar os caixões para os funerais. Se chegou mesmo a um ponto de só certos privilegiados irem a enterrar dentro de caixões seus, pois a maior parte ia embrulhada em lençóis e alguns em caixões alugados, que em seguida eram desenterrados para servirem outros clientes. E foi isso que o preocupou mais. Entrava numa idade em que um acidente do coração acontece a qualquer momento. Ou se não for o coração é outra coisa qualquer. E se vivo já seria difícil arranjar, muito mais complicado seria procurar caixão depois de morto. Porque o aterrorizava a ideia de atravessar a cidade até ao cemitério de cara descoberta, escancarada a privacidade de defunto, como aquele afogado do Douro que para sempre o tinha marcado. Foi ali mesmo e naquele momento, ao ouvir as lamúrias dos clientes, que resolveu providenciar imediatamente o seu próprio caixão, para evitar futuras complicações.

Entrou em contacto com um conhecido de Cabinda que lhe enviou a madeira suficiente. E desencantou pano preto num canto do armazém. Pregos não foram problema, felizmente tinha havido uma importação recente e ainda lhe sobravam muitos na loja. Com todo o material necessário, encomendou um modesto caixão num marceneiro. Este lamentou que ele quisesse um tão simples e não um mais sofisticado, como tinham tempo poderia arranjar uns ornamentos e até uns baixos relevos que ficam sempre bem. Só Belarmino não queria luxos, nada disso, homem, o simples é sempre o melhor, se não vivi com luxos não será na morte que os vou levar. Pronto o caixão, carregou-o para casa. E ai se pôs o problema de onde o guardar. Resolveu rapidamente a questão. O mais prático era colocá-lo em baixo da cama. Se morresse na cama, seria mais fácil para quem se encarregasse de o enfiar dentro da urna, estaria mesmo ali à mão. Se não morresse na cama, de qualquer modo nela o deitariam para o velar. E portanto depois do velório despachariam facilmente o assunto, com o caixão prontinho para ser usado.

Durante duas noites, é preciso reconhecer, teve dificuldades em adormecer, sabendo o caixão em baixo dele. Mas depois se habituou à ideia e até o esqueceu. Quem não podia esquecer era D. Maria, a empregada que lhe limpava o quarto e que de vez em quando tinha de varrer em baixo da cama, para isso sendo obrigada a afastar o caixão. Supersticiosa como todos os vizinhos do bairro Sambizanga, se benzia sempre que tinha de fazer a operação para ela considerada macabra. E nunca ganhou hábito. Muitas vezes comentava com os familiares em casa, o raio do meu patrão não regula bem, essa mania de dormir em cima do caixão é de maluco. Provocava sempre discussão, pois o marido defendia a ideia de Só Belarmino, esse branco tem masé muito juízo, assim não dá trabalho a ninguém quando bater as botas. E vamos aproveitar depois o caixão para outros óbitos. O que provocava a revolta da esposa, isso é que eu não vou deixar, antes de enterrar vou partir o caixão dele, assim ninguém que lhe pode mais usar, coitado do meu patrão, lhe tiram a cama e lhe atiram no buraco só à toa para aproveitarem o caixão?, não vou deixar, não, ele tem essa ideia maluca mas é bom branco. A cunhada Deolinda defendia o irmão, aproveitamos sim o caixão, pelo menos a madeira que está cara, enquanto o filho mais velho apoiava a mãe, não se faz isso a Só Belarmino, ele sempre nos ajuda quando pode e a discussão generalizava naquela família do Sambizanga, conhecido centro de conspirações e murmúrios.

Os anos passaram e acabou tudo por entrar no cinzento dos hábitos. D. Maria ainda resmungava com essa ideia maluca quando limpava em baixo da cama, mas já nem comentava em casa. E só Belarmino acabou por esquecer mesmo o caixão, que ele nunca via, pois também já nem o penico usava, último pretexto que poderia levá-lo a martirizar a coluna para espreitar o sítio e deparar com o objecto.

Na vizinhança morreu entretanto o Armindo e tempos depois a viúva Mariana aligeirou o luto. Amigos antigos, só Belarmino apoiou muito a família do falecido, quer no funeral e correspondente komba, quer no que se seguiu. E um dia olhou para Mariana a entrar na sua loja e a viu não como a esposa de Armindo ou como a viúva recente de Armindo. A viu apenas como a mulher que era, uma senhora mulata de meia idade, farta de carnes e com um sorriso aberto, se queixando muitas vezes de dores nos peitos generosos. E ele pela primeira vez pensou com malícia que a dor no peito não era devida a qualquer doença mas sim a que os seios ficavam demasiado apertados nas blusas e soutiens que ela era forçada a usar e que os peitos deviam constituir um verdadeiro espectáculo quando se soltavam triunfantes de tantos espartilhos. A garganta do portuense até ficou seca e não atinou com a prateleira onde tinha o pano que ela desejava comprar.

Aquela secura na garganta foi coisa que não mais perdeu quando lembrava Mariana. E já perto dos setenta começou a fazer contas à vida. Sobretudo a achar que a solidão era o pior dos males e que nenhum homem tem o direito de se comprazer nela. O problema era como fazer para realizar o desejo tão cuidadosamente escondido. Um homem de setenta anos não faz a corte a uma viúva como um miúdo o faz a uma colega de escola. E como será afinal? Tinha muitos amigos ali no bairro, mas a vergonha era demais para abrir o coração e apontar as dúvidas a alguém, pedindo conselho. Nem nas noites de muitos copos e jogos de cartas, quando o último amigo ficava para beberem juntos a : cerveja da porta, hora própria para todas as confidências.

O que tinha de suceder acabou por acontecer da maneira mais natural. Mariana a entrar na loja e a brincar com ele, dizendo que estava cada vez mais jovem, mais rijo. E ele a replicar que ainda estava rijo, sim, mas já não como nos tempos passados em que parecia uma goiabeira, nem tinha muita razão para resistir ao tempo, pois se sentia cada vez mais sozinho, ao que ela respondeu isso é que está errado, o compadre tem de arranjar uma companhia, mulheres é o que não falta nesta terra despovoada de homens pela guerra e ele dizendo que também não era assim, difícil seria encontrar alguém que quisesse um velho caquéctico, mas caquéctico coisa nenhuma, compadre, está aí ainda para muitas curvas, o que era apenas bondade dela e na brincadeira, pois se ele lhe propusesse agora a sério que juntasse os bancos dela às cadeiras dele, aí é que a porca torcia o rabo e lhe dava uma valente berrida que ele até ia parar ao porto de Luanda, mas não deu berrida nenhuma, sorriu antes com os dentes todos e o farto peito inchou que parecia ia explodir, mas está a falar a sério, compadre, isso é mesmo uma proposta, que nunca tinha falado tão a sério, há muito tinha pensado nisso porém não arranjava coragem de lho dizer, provocando nela um imediato movimento de pura alegria. Assim foi dito, feita a proposta e imediatamente aceite, sem falsos pudores ou aiués que ainda tenho de pensar. Como eram gente de muita consideração e respeitadores dos bons costumes, decidiram no entanto que só juntariam os trapos a sério depois de casados. Primeiro tinham de avisar as respectivas famílias, as quais não deviam se importar muito aliás, sendo eles viúvos e com idade suficiente para decidirem sozinhos sobre como queimar os poucos anos de vida que lhes restavam.

O casamento foi preparado com todo o cuidado. Por essa altura já a Boavista estava cheia de casas e de barracos, juntando muitos refugiados de guerra e outra população expulsa das pequenas cidades. Só Belarmino era muito conhecido e D. Mariana também, moradores antigos da zona, de muito antes de ali aparecer um mercado mundialmente conhecido chamado Roque Santeiro, considerado, com razão ou sem ela, o maior de África a céu aberto. Isto para dizer que duas figuras destas não podiam casar quase clandestinamente, sem uma festa que juntasse centenas de pessoas comendo e bebendo do melhor, mesmo com todas as carências que a cidade vivia. Por isso os preparativos demoraram mais que o desejado. Fosse da excitação pelo dia se aproximando, fosse do muito trabalho que teve nos aviamentos, o certo é que Mariana se queixava todos os dias de forte dor no peito inchado. E só Belarmino, passada a timidez inicial, lhe segredava ao ouvido, vais ver que essas dores passam logo na noite de núpcias, vou desenterrar sabedorias antigas e quase esquecidas. E mais malandramente ainda, para a fazer ruborizar, finalizava, esses peitos doem porque estão a pedir para serem chupados, o que não acontece há muito tempo. Ai filho, que ordinário, se desfazia ela toda em melados requebros e não menos malandros olhares de promessas.
Ficou célebre na história da Boavista o casamento de Belarmino, alto e seco, de cor branca mas enferrujada pelo muito sol apanhado na pele, com a esplendorosa Mariana, mulata alegre e prazenteira que gostava de andar descalça na rua. Se comeu e bebeu o dia inteiro e toda a noite, num terreiro preparado nas traseiras da loja. E os noivos fugiram a meio da noite para casa dele, onde passariam a residir, ficando a casa dela para os filhos já casados e sempre com falta de espaço, pois não paravam de provocar barrigas a inchar.

Com a sua gentileza habitual, Belarmino deixou o quarto para a noiva se preparar e deitar, ficando ele na varanda a fumar o último cigarro e ouvindo os rumores da festa que acontecia ali perto. Se preparava para entrar no quarto e enfrentar os deveres da noite de núpcias quando um grito lancinante feriu a noite. Correu para saber o que sucedia e encontrou a noiva deitada no chão do quarto, um braço por cima do caixão que aparecia debaixo da cama. Aparentemente, ela deu com a existência da coisa e puxou um pouco para fora para saber de que se tratava. O susto pela descoberta macabra acabou com o seu coração enfraquecido. Quando Belarmino chegou até ela, já a vida se tinha irremediavelmente esfumado pelos olhos abertos.

Mariana foi a enterrar no caixão que o desconsolado marido encomendara dez anos antes para si próprio.

Vale a pena acrescentar que, depois de enterrar duas esposas, e uma delas com menos de um dia de casamento, só Belarmino ultrapassou definitivamente o trauma de criança e disse para si próprio, que se lixe se passar pela cidade de cara descoberta mas outro caixão é que não arranjo, pois tanta previdência pode não ser prudência.

Pepetela

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

THE AVETT BROTHERS
«Hand-Me-Down Tune»
Hand-Me-Down Tune by The Avett Brothers on Grooveshark
Poet'anarquista

ENTREGAR-ME NO CHÃO EM SINTONIA

Eu sonhei com um terno de um terno tão bem
Vesti as minhas palavras costuradas e feitas sob medida
Com uma canção em mente feita de melodia
Costurada por fios de notas com afinação perfeita, perfeitamente composto
Som em sintonia e chave, um código de ritmo e harmonia
Mas quando acordei o meu casaco foi desgastado e as minhas palavras eram simples
Cada canção que eu cantei todas as notas estavam erradas e eu mal jogado
Ambas as mangas tinha buracos, meus joelhos foram corrigidos, meus sapatos as solas necessárias
Inteligente não disfarça nenhuma maneira de esconder o meu tom ofensivo

Mas eu, eu desejo para você mais do que posso dar, do que eu posso fazer
Sim, você, você merece o melhor um hino a minha mão para baixo em sintonia
Sim, você, você merece o melhor um hino a minha mão para baixo em sintonia

The Avett Brothers

domingo, 4 de maio de 2014

OUTROS CONTOS

«Um Conto 'Hitchcokiano' de Extracção Raiana», por Eveline Sambraz.

137 - «UM CONTO “HITCHCOKIANO” DE EXTRACÇÃO RAIANA

Os preparos para a boda da irmã mais nova estavam na recta final. O casamento iria realizar-se na Ermida do Senhor São Brás no próximo domingo. E o banquete seria no monte da família. Tinham sido duas semanas de trabalho árduo.

«Ermida de São Brás dos Matos»
Mina do Bugalho

Durante o último mês não conseguira encontrar-se com Juan António. Juan António, o seu marido. Marido que vivia em Badajoz temporariamente. Pelo menos ela assim desejava que fosse. Na manhã daquela quinta-feira, a meio do outono de 1942, o caos estava instalado no monte. Avisara a mãe que só voltaria no sábado à noite. A tempo de assistir ao enlace da irmã. Ao pai já há muito tempo que não dava explicações. Aliás, nem se falavam, embora vivessem na mesma casa. Mandara preparar a charrette com o cavalo baio nos varais. Entregara os dois filhos à guarda de Violante, a sua criada de confiança, e agora circundava pela direita o Monte da Várzea. Mais à frente evitaria o Posto Fiscal de São Brás dos Matos e entraria na estrada velha que corria paralela com a Ribeira da Asseca. Dali até à Azenha da Palmeira seria um pulo. Era nessa azenha, propriedade da família, mas abandonada desde 1936, desde que a Guerra Civil Espanhola por ali passara, já lá iam seis anos, que sempre se encontrava com o marido.

«Juan António»
Francisco Franco, por Crispín Martínez

Casados desde 1930, com dois filhos, nascidos em 31 e 32, mas separados devido ás vicissitudes da guerra. O marido, nascido no seio de uma família espanhola, monárquico, ferozmente anti-republicano, assim que se dera o alzamiento do general Franco, abandonara a casa e correra a alistar-se nas fileiras do general. Tinham sido tempos muito difíceis de ultrapassar, não só devido à incompreensão da sua família, a quem não passava pela cabeça que se deixasse mulher e filhos para se ir meter numa guerra daquelas, cujas atrocidades eram diariamente relatadas pelos jornais e pelas telefonias, assim como pela falta física que o marido lhe fazia. Sempre fora muito dependente dele. Biblicamente, apenas o conhecera a ele. E como ele a fazia vibrar! Tinha sido feita mulher por ele e para ele. Nos seus sonhos mais ardentes, era sempre ele que desempenhava o principal papel. Hoje tudo estava bem. Dentro de algumas horas estaria nos seus braços e tiraria a desforra de tanto tempo de abstinência.

«O Encontro do Casal»
Atracção Fatal, por JPGalhardas

 Quando chegou ao local de encontro, cerca do meio-dia, ainda não havia sinais do marido. Por vezes, assim acontecia. Quando ele apareceu, algumas horas mais tarde, sentiu que ele estava preocupado. Mais preocupado do que habitualmente. Tinha passado o rio junto à foz da Ribeira da Asseca. A guarda fronteiriça portuguesa fechava os olhos a estas passagens, agora que ele desempenhava funções de alta responsabilidade na administração da província da Extremadura. Era o prémio que o “movimiento” lhe outorgara pela sua conduta durante a guerra civil. Conduta que, no dizer do sogro, tinha sido de grande crueldade e de inúmeros crimes. Foram essas opiniões que provocaram o corte de relações entre pai e filha. 

Depois do encontro físico, depois de satisfeitos os sentidos, na cama do antigo moleiro, num quarto que ela, ao longo dos anos, se tinha preocupado em tornar confortável, colocando mantas regionais nas paredes rústicas e tapetes no chão. Depois de comerem das empadas e outros mimos que ela preparara antecipadamente, depois de beberem do vinho, sempre de qualidade, de que a adega da família estava bem abastecida, ele adormeceu. Antes, pediu desculpa, mas estava muito cansado. Foi então que ela, contente que nem um pardal à solta, vendo que a mochila que ele trouxera, estava muito suja, decidiu lavá-la na água do açude da azenha. Enquanto lavou a mochila, cantarolou, alegre por estar com o seu homem.

De regresso ao quarto, verificando que ele ainda dormia, examinou o conteúdo da mochila que tinha ficado na mesa junto à pequena chaminé. Despertou-lhe a atenção uma carta, já amarrotada, que tinha sido enviada de Madrid para o seu marido. Não resistiu e leu. Espantada, verificou que era uma carta de amor. Uma tal Maria Dolores, de Madrid, dizia que as saudades eram infinitas e que iria ter com ele a Badajoz num dos dias seguintes. Foi como se levasse um murro no estômago, ficando sem respiração. Teve que sair do quarto para se recompor.

«Maria Dolores, a Amante de Juan António»
O Roubo da Jóia, por JPGalhardas

Ela tinha tudo o que um homem pode desejar numa mulher: Era dedicada, paciente, boa cozinheira, em suma, sabia tratar da sua casa. Era boa mãe, sempre atenta ao crescimento dos filhos e às suas necessidades. Compreendia que o marido, para realizar aspirações e anseios pessoais, politicamente muito enraizados, tinha que permanecer fora de casa, já que assumira responsabilidades durante o conflito que assolara o seu país de origem nos últimos anos. Não admitira, nem sequer ao pai, que duvidasse do altruísmo com que ele partira para a guerra. Encontrava-se com ele quase clandestinamente, por vezes com um intervalo de meses, sempre com a esperança profunda de um dia a vida de ambos se normalizasse. Em companhia dos filhos, naturalmente. E era rica e bonita. Tinha uma pele clara, uma cintura estreita e peito firme. Era alta e vistosa. E, sobretudo, amava o seu marido. Nunca se permitiria dividi-lo com outra mulher.

«Ciúme e Vingança»
O Roubo da Jóia, por JPGalhardas

Voltou a entrar no quarto e pegou na caçadeira carregada com dois cartuchos de chumbo grosso. Colocou uma almofada sobre a têmpora do marido, encostou os canos da espingarda, fez pressão, e disparou.

Deitou o corpo do marido ao rio e regressou ao monte da família, segurando as rédeas com a mesma galhardia com que horas antes tinha feito o percurso inverso.

Uns dias depois, logo após o casamento da irmã, os carabineiros encontraram o corpo do marido, encalhado no lado espanhol  do rio. A sua morte foi atribuída a um ajuste de contas, devido ao comportamento que tinha tido durante a Guerra Civil Espanhola.

 Eveline Sambraz – Mina do Bugalho

DIA DAS MÃES

Obrigado, Mães!!... Do Ser, e da Criação!!

Francisca
Mãe do Ser

Flor de Esteva
Alcalate

Joana
Mãe de Criação

Obrigado por tudo o que fizeram por mim!

Cabé

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

STEVE HACKETT - «Born in Chicago»
Born in Chicago by Steve Hackett on Grooveshark
Poet'anarquista

NASCER EM CHICAGO

Bem, eu nasci em Chicago em 19 e 41
Eu nasci em Chicago em 19 e 41
Bem, meu pai me disse.
Filho, tens uma arma!

Bem, foi minha primeira amiga quando eu tinha 17 anos
Bem, foi minha primeira amiga quando eu tinha 17 anos
Bem, há uma coisa que você pode dizer 'ataque', rapaz
Ele tem ouro

Segundo meu amigo desceu quando eu tinha 21 anos.
Bem, segundo meu amigo desceu quando eu tinha 21 anos.
Há uma coisa que você pode dizer 'ataque', rapaz
Ele tem pão

Bem, o blues é certo quando há alguém à esquerda para jogar o jogo
Bem, o blues é certo quando há alguém à esquerda para jogar o jogo
Todos os meus amigos vão
E as coisas só não parecem o mesmo

Não, as coisas só não parecem o mesmo, querida

Steve Hackett

OUTROS CONTOS

«A Prova de Força», por António Branquinho da Fonseca.

«A Prova de Força»
Navio, por William Turner

136- «A PROVA DE FORÇA»

 – O senhor também gosta de ver os navios?…

Era um velho de cabelos brancos e olhos azuis, com as mãos enfiadas nos bolsos dum casaco de boa fazenda escocesa, onde uns traços mais escuros formavam grandes quadrados. Mas as calças desbotadas esfiampavam-se de velhas. Também o casaco.

Ao sorriso amargo da sua interrogação respondi com a contrariedade de quem vai ouvir um pedido de esmola justificado numa história vulgar.

- Trabalha-se a valer… — respondi, numa evasiva à pergunta, como se não quisesse confidenciar gostos a um desconhecido.

Meti a mão no bolso das calças, para tirar o porta-moedas, mas hesitei, reparando melhor naquele homem que me fitava com um olhar vago, como se já não estivesse a ver-me. Agora o seu sorriso era longínquo e irónico, talvez reflectido duma memória antiga, onde estava verdadeira essa expressão de superioridade. E acrescentei:

- Isto é interessante. Tem cor e movimento…

Achei-me ridículo ao dizer esta frase que não significava nada para aquele homem. Para mim também não eram só isso, aqueles navios e comboios, as docas, os guindastes, o formigar de gente, que se via daquele jardim como um terraço sobre o rio.

- Já andei naqueles barcos… Naqueles, não; noutros como aqueles… Fez bem em não falar de aventuras… (Esta expressão «Fez bem» colocou-o de repente numa posição de superioridade em relação a mim.) Em não falar de sonhos de países desconhecidos, dessas coisas que são mentiras… Vamos lá para ganhar dinheiro, roubar, jogar dobrado contra singelo, fugir às leis… E às vezes até parecemos uns homens fortes… No fim de contas é só o dinheiro e o amor.

Fez uma pausa. E eu olhei em volta, a procurar nas caras das pessoas que estavam por ali perto uma informação a respeito deste “filósofo” que falava comigo. Talvez estivessem a rir-se dele, ou de mim, que o ouvia com atenção. Era, com certeza, um maníaco já bem conhecido dos frequentadores daquele jardim público onde eu tinha parado por acaso, nessa tarde em que passeava sem destino. Mas os três ou quatro homens que estavam encostados às grades, olhavam também lá para baixo, para os navios atracados às muralhas, ao longo do rio, ou amontoados nas docas. Vinha um martelar estridente e com­passado, dum velho cargueiro onde faziam reparações e pinturas; ao lado de um outro, de porões abertos, dois guindastes descarregavam lingadas de sacos. Ao longe, pequenos barcos pintados de branco atra­vessavam o rio cinzento. E as gaivotas, em voos serenos, pairavam, atentas, sobre os lugares onde descarregavam peixe ou desaguavam os canos de esgoto. Nos topos dos mastros, bandeiras de várias cores caíam sem vento. E um grande paquete estrangeiro dormia encostado ao cais, abandonado.

Um grupo de rapazes invadiu o jardim e numa das ruas bran­cas de saibro começou a jogar a bola.

Eu não me tinha esquecido do velho, mas julgava que ele não tivesse mais nada para me dizer. E seguia as primeiras fases da luta desportiva, quando lhe ouvi a voz, que continuava:

- …Ou tudo ou nada: de cada coisa que temos na mão. Ou tudo ou nada. Puxar de um lado, não. Os outros têm de largar. Por exemplo: as mulheres…

Olhei-o com desconfiança. Era um louco. Não porque falar de mulheres seja uma loucura. Mas é uma fraqueza ou uma vaidade… E um velho não tem essas fraquezas nem essas vaidades. Ou então era um poeta.

Compreendi que para o seu monólogo íntimo precisava de ter na frente outra pessoa. Por isso falava diante de mim, que lhe tinha calhado na hora própria. E percebi na sua voz serena um tom de fina ironia para consigo mesmo.

- As mulheres não são como uma maçã que se pode comer toda. As mulheres pensam… E o pensamento foge. É preciso descobrir-lhe a direcção e fazê-lo esbarrar. E a nossa prova de força… Filósofo, filósofo, diz bem…

Com um sorriso de condescendência deixei-o imaginar o que eu não dizia nem pensava. De repente mudou de tom e perguntou-me com uma voz tranquila de indiferença:

- O senhor é casado?

- Não.

- Eu sou. – Tinha tirado o cachimbo e carregava-o devagar, com o dedo curto e largo como uma barbatana, lentamente, como se praticasse um acto de ritual que deve demorar certo tempo. - Sou…legalmente. Quer dizer: separei-me. Era escriturário na Alfândega e conheci-a no Jardim Zoológico, num domingo no Verão, quando estávamos a ver um hipopotamozinho que tinha lá nascido. Não gosto dos hipopótamos. Têm um ar estúpido. Compare com os ursos: esses, sim, são inteligentes e têm graça. Eu vou ao Jardim Zoológico só pelos ursos. E pelos pássaros… Também tenho pássaros. Andam pela casa toda. Sempre é uma gaiola maior. Pus redes nas janelas.

- Sujam tudo.

Olhou-me com desconfiança.

- O senhor também tem a mania das limpezas?

- A mania, não. Mas há coisas que têm de estar limpas.

- Sim. Há coisas que têm de estar limpas. E estão. É fácil. Bem vê, é como se vivesse na gaiola dos pássaros. – E riu-se com bom humor. – Tenho as minhas coisas guardadas nuns armários. E o resto é todos os dias limpo como uma boa gaiola. Das coisas que gostamos de fazer porque não havemos de fazer, ao menos, as que podemos? Eu não defendo os exageros de liberdade. Só para certas pessoas, para haver progresso…Mas o hipopotamozinho era feio. E eu disse em voz alta: «Irra, que é feio!» Como uma opinião pode modificar a nossa vida! Ela olhou para mim e vi que era bonita. Casámos e as minhas teorias começaram a bater certas: domínio e mitologia. Na Grécia os deuses estavam no Olimpo. Quando desciam, eram homens. Nas outras religiões são invisíveis. A distância engrandece tudo, porque deixa o espaço para a imaginação. O espaço e o tempo. Eu era escriturário da Alfândega: não dá prestígio para muito tempo: um conto e duzentos. E tudo sempre mais caro… De tal maneira que um dia começou a falar de navios e das fardas dos oficiais. Quando uma mulher começa a falar de navios, não tenha dúvidas, está tudo perdido. Então todos os nossos passeios passaram a ser aqui pelas docas, pelos cais, visitávamos os navios, gran­des e pequenos, tudo… Era infalível. Pó de carvão, berros, obsceni­dades. Desiludiu-se. E eu deixei a Alfândega e arranjei um lugar de convés, no «Zoavo», um petroleiro que andava na carreira da Vene­zuela. Tinha uma farda e fiz os meus negócios… Atirei-a para o luxo. Evitar as distâncias… Bem sabia o perigo, bem sabia… E contava-lhe histórias. Histórias com moral…

Eu observava-o com atenção, com a curiosidade que pode des­pertar uma figura estranha, que nos vem contar uma história extrava­gante. Puxou-me pelo braço e indicou, ao longe, um ponto no meio do rio:

- O passeio de barco. Era um simples passeio por causa do calor. Agradável… «Aqui sou eu o “capitão!”», berrei. E pus-me em pé no barco. Deu um grande balanço e ela começou a gritar. É negra, a água do rio… Se eu não tivesse caído de costas no meio do barco, tal­vez não tivesse acontecido mais nada. Mas levantei-me, furioso. Quer dizer, fiquei de joelhos, a bater no peito com o punho fechado e a gri­tar «O “capitão” sou eu! Aqui sou eu!»…

Vi-lhe os olhos vidrados de lágrimas. E batia no peito, com murros que soavam a oco. De repente passou-lhe aquele ataque de fúria e, olhando para mim, com uma expressão de humildade, disse numa voz doce:

- Choro com facilidade… Não quer dizer nada… Porque é que fiquei ali de joelhos, diante dela, a chorar? Para lhe provar a minha autoridade e a minha força, meti-lhe medo e fiz-me ridículo… Nem tinha provas de que ela fosse amante do tal capitão… Mas nun­ca mais podia ser o mesmo homem que tinha sido até ali. E quando me pus em pé o barquito virou-se…

Com as duas mãos enclavinhadas na grade do jardim, olhava lá para baixo como se estivesse agarrado à borda do barco que se virava. Depois de um longo silêncio, apontou para o cais onde formigavam homens que deixavam o trabalho, camiões e bicicletas, e com o dedo, numa voz natural, como se eu dali pudesse distingui-lo:

- O Rola… Anda no «Guiné»…

E piscou-me o olho, como quem sabe coisas. Ainda tinha na mão o cachimbo apagado. Meteu-o entre os dentes e rosnou:

- Tem um fósforo?

Dei-lhe a caixa e enquanto, com a mão, protegia a chama e puxava as primeiras fumaças, ia resmungando:

- Então o senhor também gosta de navios… (Lá vem o Rola… Já traz a «coca»…) Também gosta de navios… Faz bem à alma… faz bem…

António Branquinho da Fonseca

sexta-feira, 2 de maio de 2014

CARTOON versus QUADRA

A Última Avaliação
HenriCartoon

«A ÚLTIMA AVALIAÇÃO»

Sinto muito orgulho em ti, Zé…
Volta sempre!… és bem vindo
Pra seres corrido ao pontapé…
Mas quem te está agredindo??

POETA

«O DESTINO», POR MATIAS JOSÉ

«Senhora Rosa»
À Janela do Monte Paraís

O DESTINO

O mar provocava-lhe ansiedade, arrepios…
Sempre que o filho, pescador de profissão,
P’la noite adentro procurava ganhar o pão.
As horas passavam, e o sono em rodopios;

Até que… surge a tão esperada mudança.
Compram terreno fértil onde irão cultivar,
E um tractor para a terra poderem lavrar…
Seu filho por perto, renovada esperança!

Esquecera esse mar de tantas aflições
Olhando o campo que traria o sustento…
Em terra, a vida corria às mil feições!?...

Num ápice, o campo fértil escureceu…
Esmagado p’lo tractor jaz ao relento,
E o mar, sobre terra firme se abateu!

Matias José

GRUPO DE AMIGOS

Eram assim as noites no Largo de São Bento, nº 7.
Poet'anarquista

REBOBINANDO...

Fotos: Espeta Figos.

Grupo de Amigos: Kaga na Faia, Palera, Bufo, Praia, Guita, Fagulho e Fol.

Rebobinando...
Grupo de Amigos
Poet'anarquista

OUTROS CONTOS

«Abuso de Poder», por Matias José.

«Abuso de Poder»
A Selva, e outros Perigos...

135- «ABUSO DE PODER»

Hoje, sinceramente, estou num daqueles dias
em que o melhor era nem ter despertado.
Ninguém dava pela minha falta… nem sequer eu próprio.
Estou assim nesta inquietude, esperando que os próximos tempos
passem o mais rápido possível, e eu possa finalmente respirar de novo.

Resolvi escrever para o blogue este desabafo contido para me proteger dos espíritos maus.
Este amigo, embora não me responda, é de todo fiável.
Quem entrar no blogue saberá apenas uma pequena parte… nada mais!

Faz tempo que as coisas não andam bem. Tudo começou há cerca de dois anos atrás
e, como não podia deixar de ser, com reflexos negativos nas relações familiares e de amigos.

Fico muitas vezes sem paciência para aqueles que mais gosto, 
e que habitualmente me dão alguma da sua atenção.

Comecei também a ter dificuldade de concentração e, por conseguinte... 
a poesia que me serve de alimento e companhia, não flui. 

Para esquecer um pouco toda esta situação, saio à rua para ir ao café e encontrar os amigos.
Puro engano… os amigos estão lá, mas eu não!

De seguida volto para casa…

E assim se têm passado um pouco os últimos dias,
Neste vai-vem entre me encontrar fugindo, e fugindo de me encontrar.

Tudo isto é passageiro, como passageira é a existência de uma vida.

Deus levou João Paulo apenas com trinta anos de idade… eu já tenho cinquenta!
Sou um felizardo, já vivi mais vinte anos, e no entanto tudo parece tão recente…

Olho em redor, uma casa vazia e em silêncio.

No quintal, refugiados da esturrinha do sol, os cães permanecem no telheiro dos fundos
esperando que a noite traga temperaturas mais agradáveis.

Dentro de casa o mesmo silêncio,
só interrompido pelo bater das teclas do computador. 

Dou por mim escrevendo uma prosa desalinhada, e sem sentido... quem ler 
pensará que tudo não passa de uma mistura de palavras
para esconder o que realmente vai na alma.

Matias José
(Texto escrito em 2010)

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

ROY BUCHANAN
«The Messiah Will Come Again»

quinta-feira, 1 de maio de 2014

CARTOON versus QUADRAS

Os Ministros não Mentem
HenriCartoon

«OS MINISTROS NÃO MENTEM»

-Srª ministra, não acha abusiva
Mais esta subida d’ imposto,
Aumentando outra vez o IVA
Quando tinha dito o oposto??

-Eu? Não disse tal coisa, foi ela!...
Quem… eu? Deve ter sido esta!…
Eu não fui… juro que foi aquela!...
Vêm algo escrito na minha testa?...

POETA

OUTROS CONTOS

«As Quatro Estações», por António Torrado.

«As Quatro Estações»
As Quatro Estações, por Arcimboldo

134- «AS QUATRO ESTAÇÕES»

Era uma vez um rei chamado Sol. Todos o conhecem. Todos o estimam.

Poderoso, os seus raios são espadas. Majestoso, os seus raios são de ouro e mais do que todo o ouro valem. Generoso, os seus raios são fios de vida.

Poderoso, majestoso e generoso era este rei, mas tinha um grande desgosto – os seus quatro filhos davam-se muito mal uns com os outros.

Chamavam-se os quatro irmãos, por ordem de idade, a começar pelo mais novo: Primavera, Verão, Outono e Inverno. Bulhavam constantemente, porque todos queriam, à uma, governar a Terra. Ora isto não podia ser.

Assim pensando, o rei Sol decidiu que cada um deles governasse por sua vez, durante um certo tempo. As ordens de um pai, para mais rei, e ainda por cima Sol, têm de se cumprir.

O Outono não gostava desta partilha. Queixava-se de que lhe não davam tempo... Ainda estava ele a arrumar e a alindar a casa, pintando tudo da cor púrpura, em tons e meios-tons amarelos doirados, e já o Inverno lhe batia à porta. Então o Outono tinha uma birra e arrancava as folhas das árvores, algumas ainda por pintar...

Saía o Outono com lágrimas nos olhos e entrava o Inverno.

— Em que desordem isto está — exclamava ele, irritado. E punha-se a varrer. Varria com tanta força que fazia vento. Depois lavava, em grandes bátegas, caídas do céu... As sementes e os grãozinhos, que o Outono deitara à terra, assustavam-se:

— Iremos nós também na cheia? — perguntavam uns para os outros.

O Inverno ouvia-os e dizia-lhes:

— Sosseguem! Durmam descansados. Vai tudo dormir um longo sono. Assim tem de ser.
E tão carinhoso ele era que cobria os lugares mais desprotegidos da terra com um manto branco de neve.

Lá fora, a Primavera impacientava-se. Não tinha feitio para suportar os vagares do irmão. Às vezes, não se continha que não perguntasse pela frincha da porta:

— Já posso?

Ainda era cedo, mas só de lhe ouvirem a voz, as primeiras flores rompiam a terra.
Então, quando ela chegava, era uma festa. Corria a Primavera de lés a lés e não havia ervinha, folha, haste, flor que não quisesse dançar com ela. Era uma enorme roda de alegria.

Mas a folgança não podia continuar sempre. Cansada do bailarico, a Primavera dava de bom grado o seu lugar ao Verão.

— Vamos trabalhar — dizia ele, assim que chegava.

E trabalhava-se, pois então! Os grãos e os frutos amadureciam. As flores arrecadavam tesouros. Nas tocas, nos ninhos, nos cortiços e por toda a parte, as palavras de ordem eram: trabalhar, colher, guardar.

Enquanto, nas praias, uns gozavam as férias, outros, no campo, não tinham descanso.

— O essencial fica feito. Deixo os retoques ao cuidado do meu irmão Outono — dizia o Verão, à despedida.

Lá vinha o Outono, com pincel e tintas apurar as cores. Achava sempre que merecia mais tempo. São tantas as tonalidades, do verde-escuro ao castanho, do laranja ao vermelho... Não se pode fazer obra asseada quando se sente os passos do Inverno a aproximarem-se. Que nervos!

Sorrindo no seu trono, o Sol acompanhava a obra dos seus quatro filhos. Descansa. Eles estão a dar muito boa conta de si.

E o Sol, risonho, ainda mais resplandece. 

António Torrado

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(1 de Maio de 1904, morre o compositor checo Antonín Dvorák)

ANTONÍN DVORÁK - «Melodia»