quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

OUTROS CONTOS

«O Quarto Anjo», por José Eduardo Agualusa.

«O Quarto Anjo»
Fragmento de Jacó e o Anjo/ Paul Gauguin

1204- «O QUARTO ANJO»

Após criar o primeiro anjo, Deus ofereceu-lhe um poderoso par de asas. Explicou-lhe que aquilo era mais um aparato de fé do que de voo.

– Os pássaros – assegurou-lhe – voam por convicção.

O anjo viu como voavam os pássaros, batendo as asas e recolhendo as pernas, e imitou-os. Ao fim de cinco meses tinha ganho uma certa prática e até já conseguia fazer algumas piruetas, incluindo voo picado seguido de um duplo mortal invertido. Não era ainda uma águia, mas também não poderia ser confundido com uma galinha. Enfim, voava.

– Agora tira-as. – Disse-lhe então Deus, que o observara, em silêncio, a uma distância discreta, durante todos aqueles dias. – Tira as asas e voa.

O anjo olhou para Ele incrédulo. Protestou:

– E eu lá sou doido, ó Deus?! Tiro porra nenhuma!

Deus, o qual, como se sabe, é brasileiro, não estranhou nem que o anjo falasse português, nem sequer o forte sotaque carioca. A língua e o sotaque, aprendera-as com Ele. Compreendeu, todavia, que lhe faltava o essencial, a fé, além de uma educação um pouco mais esmerada, pois, bem vistas as coisas, tratava-se de um anjo, ainda que numa fase de iniciação, e num rápido gesto de enfado, descriou-o.

O segundo anjo era, sem dúvida, um sujeito mais cordato e delicado. Muito loiro e frágil. Muitíssimo anjo. Tinha uma cabeleira comprida, que gostava de trazer sempre limpa e entrançada, num gracioso rabo-de-cavalo. Aprendeu a voar mais depressa do que o primeiro, com uma técnica original, que deixava os pássaros envergonhados. Porém, quando Deus lhe pediu que tirasse as asas e se lançasse assim, inteiramente nu, de um penhasco altíssimo, também ele recusou.

– Ai Deus! Saiba o Senhor que isso eu não faço. Com o seu perdão, faço qualquer coisa, qualquer coisa, entende?, faço qualquer coisa, mas isso não faço, não.

Disse aquilo com voz trémula e humilde, sem sombra de arrogância, de forma que o Criador se apiedou dele e o deixou ir. O anjo pintou as asas de cor-de-rosa choque e juntou-se a um bando de flamingos. Dizem que ainda hoje é possível ver, em certos crepúsculos inflamados, nalgum palude perdido de África, um anjo voando, com singular elegância, entre uma nuvem de flamingos. Voando e rindo. Eu nunca o vi, mas pode ser.

O terceiro anjo fê-lo Deus mais prático e destemido. Usava um bigode curvo e era respeitoso e de poucas palavras. Voava sem esforço, mas também sem agrado. Pousava nos ramos das mangueiras, ou de outras árvores igualmente altas e frondosas, e era capaz de ficar por ali, sentado, tardes inteiras, a cofiar o forte bigode, a comer mangas e a fruir a sombra fresca e o canto das aves. Quando Deus lhe pediu que subisse ao penhasco e que tirasse as asas e saltasse, não o contestou. Não disse nada. Voou até ao penhasco, tirou as asas e saltou. Ficou claro, naquele trágico instante, que o que lhe sobrava em disciplina faltava-lhe em fé. Ou melhor, como Deus lhe tentou explicar enquanto ele caía, vertiginosamente, de encontro ao gume feroz das rochas, lá muito em baixo, o problema é que colocara toda a sua fé no instrumento ao invés de a colocar no objectivo. O impacto foi devastador.

O Senhor Deus ficou desgostoso com o novo desaire. Levou muito tempo a recuperar-se. Por fim tentou de novo. Saiu-lhe, à quarta tentativa, um anjo alegre, até um pouco simplório, que gostava sobretudo de cantar e de dançar, artes, aliás, que ele próprio havia inventado. Para voar não parecia possuir grande talento. Todavia, quando Deus lhe sugeriu que tirasse as asas e tentasse voar sem elas, usando o esforço da fé, ele apenas perguntou, atordoado:

– E é possível?

Depois largou as asas, espreitou o fundo abismo, fechou os olhos, e imaginou que por dentro do seu corpo outras asas se desenrolavam e batiam. Foi com essas, um tanto torto, um outro tanto tonto, que se ergueu no céu.

Deus alegrou-se. Depois dele fez muitos outros anjos, legiões e legiões, mas poucos, muito poucos foram capazes de imitar o número quatro. Diz-se que esse anjo sem asas se passeia entre nós, como uma espécie de agente secreto. Um observador num campo de batalha. Uma testemunha incógnita.

Provavelmente o anjo número dois é mais feliz.

José Eduardo Agualusa

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

STEVE HACKETT - «Nomads»

Poet'anarquista

Steve Hackett
Guitarrista e Compositor Britânico

OUTROS CONTOS

«Sobre a Escrita», por Clarice Lispector.

«Sobre a Escrita»
98º. Aniversário de Clarice Lispector

1203- «SOBRE A ESCRITA…»

Meu Deus do céu, não tenho nada a dizer. O som de minha máquina é macio.

Que é que eu posso escrever? Como recomeçar a anotar frases? A palavra é o meu meio de comunicação. Eu só poderia amá-la. Eu jogo com elas como se lançam dados: acaso e fatalidade. A palavra é tão forte que atravessa a barreira do som. Cada palavra é uma ideia. Cada palavra materializa o espírito. Quanto mais palavras eu conheço, mais sou capaz de pensar o meu sentimento.

Devemos modelar nossas palavras até se tornarem o mais fino invólucro dos nossos pensamentos. Sempre achei que o traço de um escultor é identificável por um extrema simplicidade de linhas. Todas as palavras que digo – é por esconderem outras palavras.

Qual é mesmo a palavra secreta? Não sei é porque a ouso? Não sei porque não ouso dizê-la? Sinto que existe uma palavra, talvez unicamente uma, que não pode e não deve ser pronunciada. Parece-me que todo o resto não é proibido. Mas acontece que eu quero é exactamente me unir a essa palavra proibida. Ou será? Se eu encontrar essa palavra, só a direi em boca fechada, para mim mesma, senão corro o risco de virar alma perdida por toda a eternidade. Os que inventaram o Velho Testamento sabiam que existia uma fruta proibida. As palavras é que me impedem de dizer a verdade.

Simplesmente não há palavras.

O que não sei dizer é mais importante do que o que eu digo. Acho que o som da música é imprescindível para o ser humano e que o uso da palavra falada e escrita são como a música, duas coisas das mais altas que nos elevam do reino dos macacos, do reino animal, e mineral e vegetal também. Sim, mas é a sorte às vezes.

Sempre quis atingir através da palavra alguma coisa que fosse ao mesmo tempo sem moeda e que fosse e transmitisse tranquilidade ou simplesmente a verdade mais profunda existente no ser humano e nas coisas. Cada vez mais eu escrevo com menos palavras. Meu livro melhor acontecerá quando eu de todo não escrever. Eu tenho uma falta de assunto essencial. Todo homem tem sina obscura de pensamento que pode ser o de um crepúsculo e pode ser uma aurora.

Simplesmente as palavras do homem.

Clarice Lispector

OUTROS CONTOS

«António de Oliveira Salazar», por Fernando Pessoa.

«António de Oliveira Salazar»
Caricatura de Abel Manta

1202- «ANTÓNIO DE OLIVEIRA SALAZAR»

António de Oliveira Salazar.
Três nomes em sequência regular...
António é António.
Oliveira é uma árvore.
Salazar é só apelido.
Até aí está bem.
O que não faz sentido
É o sentido que tudo isto tem.

Este senhor Salazar
É feito de sal e azar.
Se um dia chove,
A água dissolve
O sal,
E sob o céu
Pica só azar, é natural.
Oh, c'os diabos!
Parece que já choveu...

Coitadinho
do tiraninho!
Não bebe vinho.
Nem sequer sozinho...
Bebe a verdade
E a liberdade.
E com tal agrado
Que já começam
A escassear no mercado.
Coitadinho
Do tiraninho!
O meu vizinho
Está na Guiné
E o meu padrinho
No Limoeiro
Aqui ao pé.
Mas ninguém sabe porquê.
Mas enfim é
Certo e certeiro
Que isto consola
E nos dá fé.
Que o coitadinho
Do tiraninho
Não bebe vinho,
Nem até
Café.

Fernando Pessoa

domingo, 9 de dezembro de 2018

OUTROS CONTOS

«Ser Poeta», por Manuel Matias.

«Ser Poeta»
Poeta Pobre/ Carl Spitzweg

1201- «SER POETA»

Mote

Ser Poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

Florbela Espanca

Glosas

As palavras do poeta
Dizem muito do seu sentir…
Algumas fazem-no rir,
Outras tristeza p'la certa.
A alma então desperta
Já as sabe de cor,
Ouvi-las ainda é melhor
Reconforta o coração…
Com muita abnegação
Ser Poeta é ser mais alto, é ser maior.

Ninguém pode imaginar
O que sente quem escreve,
Nem o próprio se atreve
Dizer o que está a pensar.
Fica horas a magicar
Sem saber o que deseja,
O que resta ou sobeja
Só a ele diz respeito…
Bem maior, com efeito,
Do que os homens! Morder como quem beija!

Saúdo-vos pobre mendigos
Desprezados na minha beira,
Uma despedida verdadeira
Junto aos vossos abrigos.
A vida infligiu castigos...
Falar deles, talvez não deva,
Há porém quem se atreva
Mostrar o seu sofrimento…
Viver só, no isolamento,
É ser mendigo e dar como quem seja.

Foi traçado o seu destino
Pela malfadada sorte,
Não vejo quem se importe
Com ‘Aquele’ pobre ‘Menino’.
Pensar nisso um desatino
Que me causa pavor,
As palavras sem favor
O procuram descrever…
Senhor do seu próprio ser,
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

Manuel Matias

sábado, 8 de dezembro de 2018

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

JIM MORRISON/ THE DOORS
«Peace Frog»

Poet'anarquista


SAPO DA PAZ

Há sangue nas ruas, chegando aos meus tornozelos
Ela veio

Há sangue nas ruas, chegando ao meu joelho
Ela veio

Sangue nas ruas da cidade de Chicago
Ela veio

Sangue subindo, está me seguindo

Ela veio quando o dia nasceu
Ela veio e então se afugentou
Os raios de sol em seu cabelo

Ela veio
Sangue nas ruas correndo por um rio de tristeza

Ela veio
Sangue nas ruas, chegando à minha coxa

Ela veio
O rio corre vermelho por entre as pernas da cidade

Ela veio
As mulheres choram rios de lágrimas

Ela veio até a cidade e então se afugentou
Os raios de sol em seu cabelo
Índios espalhados na estrada do amanhecer
Espíritos sangrentos habitam
As mentes frágeis como casca de ovo das crianças

Sangue nas ruas da cidade de New Haven
Sangue mancha os telhados e as palmeiras de Venice
Sangue no meu amor no terrível verão
Sangrento o sol vermelho da fantástica L.A.
Sangue grita a dor enquanto decepam os dedos dela
Sangue nascerá no nascimento de uma nação
Sangue é a rosa de uma união misteriosa

Há sangue nas ruas, chegando aos meus tornozelos
Há sangue nas ruas, chegando ao meu joelho
Sangue nas ruas da cidade de Chicago
Sangue subindo, está me seguindo

Jim Morrison/ The Doors
Cantor e Compositor Estadunidense

OUTROS CONTOS

«Ser Poeta», por Florbela Espanca.

«Ser Poeta»
Princesa

1200- «SER POETA»

Ser Poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda gente!

Florbela Espanca

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

U2 - «Miysterious Ways»

Poet'anarquista

CAMINHOS MISTERIOSOS

Johnny dê um passeio com sua irmã à lua,
Deixe sua luz pálida entrar, para encher seu quarto.
Você tem vivido escondido, comendo de uma lata,
Você tem fugido, do que não entende...

Ela é escorregadia, você está deslizando,
Ela vai estar lá quando você atingir o chão.

Tudo bem, tudo bem, tudo bem,
Ela anda por caminhos misteriosos.
Tudo bem, tudo bem, tudo bem,
Ela anda por caminhos misteriosos

Johnny, dê um mergulho com sua irmã na chuva,
Deixe-a falar sobre as coisas que você não pode explicar.
Tocar é curar, machucar é roubar,
Se você quer beijar o céu, melhor aprender a se ajoelhar.
De joelhos, rapaz!

Ela é a onda, ela muda a maré,
Ela vê o homem dentro da criança.

Tudo bem, tudo bem, tudo bem,
Ela anda por caminhos misteriosos.
Tudo bem, tudo bem, tudo bem,
Ela anda por caminhos misteriosos.
Levanta meus dias, ilumina minhas noites.

Um dia você vai olhar pra trás, e você vai ver
Onde você estava preso por este amor
Enquanto você pôde estar lá
Você pôde se mover neste momento,
Siga este sentimento.

Tudo bem, tudo bem, tudo bem,
Ela anda por caminhos misteriosos.
Tudo bem, tudo bem, tudo bem,
Ela anda por caminhos misteriosos.

Movem você, espíritos movem você
Movem, espíritos isso está movendo você.
Isso move você?
Ela se move com isso
Levante meus dias, ilumine minhas noites

U2
Banda Irlandesa

OUTROS CONTOS

«Quando Lhe Disseram», por Reinaldo Arenas.

«Quando Lhe Disseram»
Ver Nada, Escutar Nada, Dizer Nada/
HC. Frank

1199- «QUANDO LHE DISSERAM»

Quando lhe disseram que estava vigiado
que à noite quando ele saía
alguém com uma chave-mestra entrava na habitação
e remexia nos frascos de aspirina
e nos consabidos, indiferentes, livros;

quando lhe disseram que dezenas de polícias
em sua honra se afadigavam,
que tinham conseguido subornar os seus familiares mais chegados,
que os seus amigos íntimos
ocultavam atrás dos testículos pequenos livretes
onde anotavam os seus silêncios e vírgulas,

não sentiu medo,
mas sim uma certa sensação de enfado
que instantaneamente soube controlar:

Não vão conseguir, prometeu a si mesmo, que me considere 
importante.

Reinaldo Arenas

PENSAMENTO...

Almeida Garret
Escritor e político português

PENSAMENTO...

Já deve andar orçado o número de almas que é preciso vender ao diabo, 
o número de corpos que se tem de entregar, antes do tempo, ao cemitério, 
para fazer um banqueiro.

Almeida Garrett

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

WATERBOYS - «A Man Is In Love»

Poet'anarquista

UM HOMEM ESTÁ APAIXONADO

Um homem está apaixonado, como eu sei?
Ele veio e caminhou comigo, e me disse tanto
Numa canção que ele cantou, e então eu soube
Que ele estava apaixonado por você.

Um homem está apaixonado, como eu ouvi?
E o ouvi dizendo muito que não importa se você está perto
Ele sussurrou seu nome quando seus olhos fecharam
Ele está apaixonado e sabe disso.

Um homem está apaixonado, como eu adivinhei?
Eu calculei isso enquanto ele observava seu vestido
Ele poderia te dar tudo, se você apenas aceitasse...
Um homem está apaixonado, ele sou eu.

Waterboys
Banda Escocesa

OUTROS CONTOS

«Questão», por Duarte Galvão.

«Questão»
Pertinente...

1198- «QUESTÃO»

Mas qual o poeta que não tem,
incestuosa
uma relação com a língua
qual a língua que não devora
o poeta?

Duarte Galvão 

(Heterónimo do poeta Virgílio de Lemos)

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

MOZART
«Symphony No. 40 In G Minor K. 550
Molto Allegro» 

Poet'anarquista

Mozart
Compositor Austríaco do Período Clássico

OUTROS CONTOS

«Canção», por Papiniano Carlos.

«Canção»
Poema de Papiniano Carlos

1197- «CANÇÃO»

Na fome verde das searas roxas
passeava sorrindo Catarina.
Na fome verde das searas roxas
ai a papoula cresce na campina!

Na fome roxa das searas negras
que levas, Catarina, em tua fronte?
Na fome roxa das searas negras
ai devoravam os corvos o horizonte!

Na fome negra das searas rubras
ai da papoula, ai de Catarina!
Na fome negra das searas rubras
trinta balas gritaram na campina.

Trinta balas
te mataram a fome, Catarina.

Papiniano Carlos

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

FRANK ZAPPA- «Cosmik Debris»

Poet'anarquista

LIXO CÓSMICO

O homem misterioso passou lá em casa
E me disse: "Sou fora de série!"
Ele disse, por uma tarifa de serviços nominais
Eu poderia atingir o Nirvana esta noite
Se eu estivesse pronto, a fim e apto
A pagar sua taxa regular
Ele largaria todas as suas outras obrigações
E dedicaria sua atenção a mim
Mas eu disse...
Olha aqui irmão
Quem você está enganando com esse lixo cósmico?
(Escuta, quem você está enganando com esse lixo cósmico?)
Olha aqui irmão,
Não perca o seu tempo comigo

O homem misterioso ficou nervoso
E ficou inquieto por um tempo
Ele buscou no bolso de seu robe misterioso
E apareceu com um kit de barbear
Agora, eu pensava que era uma lamina de barbear
E uma lata de gosma espumosa
Mas ele me disse bem ali
Quando a tampa abriu
Que não havia nada que aquela caixa não pudesse fazer
Com o óleo de afro-dite
E o pó do grande wazoo
Ele disse:
"Você pode não acreditar nisso, rapazinho
Mas isso cura sua asma também!"
E eu disse...
Olha aqui irmão
Quem você está enganando com esse lixo cósmico?
(Agora, que espécie de guru você é mesmo?)
Olha aqui irmão
Não perca o seu tempo comigo
Não perca o seu tempo...

Já tenho os meus próprios problemas, eu disse
E você não pode me ajudar
Então leve suas meditações e suas preparações
E atocha focinho acima
"Mas eu tenho uma bola de cristal!" ele disse
E a levantou na luz
Então arranquei aquilo
Afastando tudo dele
E então lhe mostrei como usá-la corretamente
Eu embrulhei um jornal ao redor da minha cabeça
Para que eu tivesse um ar de profundo
Eu disse uns "abracadabras" e então
Eu lhe contei que ele ia dormir
Eu roubei seus anéis
E seu relógio de bolso
E tudo mais que eu pudesse encontrar
Eu tinha aquele otário hipnotizado
Ele nem conseguia fazer um som
Eu continuei a lhe contar o seu futuro então
Já que ele estava ali
Eu disse
"O preço da carne acaba de subir
E sua mulher acabou de cair dentro..."
Olha aqui irmão
Quem você está enganando com esse lixo cósmico?
(Agora, isto é um poncho de verdade ou um poncho da sears?)
Olha aqui irmão
Você faria mais dinheiro como açougueiro
Então não gaste seu tempo comigo
(Não gaste, não gaste seu tempo comigo...)

Frank Zappa
Músico Norte-Americano 

OUTROS CONTOS

«Aforismo», por Noémia de Sousa.

«Aforismo»
Aforismo/ Ilustração de Manoel Ferreira Neto

1196- «AFORISMO»

Havia uma formiga
compartilhando comigo o isolamento
e comendo juntos.

Estávamos iguais
com duas diferenças:

Não era interrogada
e por descuido podiam pisá-la.

Mas aos dois intencionalmente
podiam pôr-nos de rastos
mas não podiam
ajoelhar-nos.

Noémia de Sousa

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

SÁTIRA...

Golo & Olé
Sátira...

GOLO & OLÉ

O futebol imita bem
A arte tauromáquica,
Vou pôr em prática
Tourada como convém!
Melhor que ninguém
O Conceição sabe pegar,
De caras põe-se a citar
O bicho adversário…
Quem disser o contrário,
No onze não tem lugar!!

ATEOP

SÁTIRA...

Que Delícia
Sátira...

«QUE DELÍCIA»

- Produtiva segunda parte
Saio daqui ajoelhado…
Palmas ao mau olhado,
Joga-se com muita arte.
- Ainda tens um enfarte
Por seres tão submisso,
Não quebrar o enguiço
É o que te pode tramar…
Vou de novo hibernar
E ninguém dá por isso!

ATEOP

SÁTIRA...

Os Primos de Sócrates
Sátira...

OS PRIMOS DE SÓCRATES

Tantos primos tenho
Já lhe perdi o conto,
Estou sempre pronto
Não preciso desenho.
Muito me empenho
Em aumentar família,
Para mim mais valia
Ser assim numerosa…
Foi tudo cor de rosa
Enquanto durou a folia!

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

OZZY OSBOURNE - «Dreamer»

Poet'anarquista

SONHADOR

Contemplando pela janela o mundo lá fora
Desejando saber se a mãe Terra sobreviverá
Esperando que a humanidade parasse de abusar dela alguma vez

Afinal só existem dois de nós
E aqui estamos, ainda lutando por nossas vidas
Vendo toda a história se repetir, vez por vez

Sou apenas um sonhador
Eu sonho minha vida
Sou apenas um sonhador
Que sonha com dias melhores

Vejo o sol descer como todos nós
Estou aguardando que o amanhã traga bons sinais
Dessa vez, um lugar melhor para aqueles que virão depois de nós

Sou apenas um sonhador
Eu sonho minha vida
Sou apenas um sonhador
Que sonha com dias melhores

Sua força maior talvez seja Deus ou Jesus Cristo
Isso não tem muita importância para mim mesmo
Sem ajudar uns aos outros não haverá esperança para nós
Vivo num sonho de fantasia

Se ao menos pudéssemos encontrar serenidade
Seria óptimo se pudéssemos viver como um só
Quando acabará toda essa raiva e fanatismo?

Sou apenas um sonhador
Eu sonho minha vida
Sou apenas um sonhador
Que sonha com dias melhores

Sou apenas um sonhador
Que hoje está procurando o caminho
Sou apenas um sonhador
Sonhando minha vida

Ozzy Osbourne
Músico, Compositor e Vocalista Britânico
(Membro da Banda Black Sabbath)

OUTROS CONTOS

«Era o Último Amor», por Luís Filipe Castro Mendes.

«Era o Último Amor»
O Último Amor/ Enrique Ochoa

1195- «ERA O ÚLTIMO AMOR»

Era o último amor. A casa fria, 
os pés molhados no escuro chão. 
Era o último amor e não sabia 
esconder o rosto em tanta solidão. 

Era o último amor. Quem advinha 
o sabor pela escuridão? 
Quem oferece frutos nessa neve? 
Quem rasga com ternura o que foi verão? 

Era o último amor, o mais perfeito 
fulgor do que viveu sem as palavras. 
Era o último amor, perfil desfeito 
entre lumes e vozes passadas. 

Era o último amor e não sabia
que os pés à terra nua oferecia.

Luís Filipe Castro Mendes

domingo, 2 de dezembro de 2018

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

BLUE OYSTER CULT - «True Confessions»

Poet'anarquista

VERDADEIRAS CONFISSÕES

Verdade, verdadeiras confissões, eu menti
Verdade, verdadeiras confissões, eu menti
Irradiando doce a noite toda com os olhos
Arrastou sozinho atravessando cego a lateral quente
Irradiando doce a noite toda com os olhos
Arrastou sozinho atravessando cego a lateral quente

Verdade, verdadeiras confissões, ela chorou
Verdade, verdadeiras confissões, ela chorou
Parado na porta com uma raiva ciumenta
Arrasta sua própria cruz pelo terreno selvagem
Parado na porta com uma raiva ciumenta
Arraste sua própria cruz pelo terreno selvagem

Verdade, verdadeiras confissões, tentamos
Verdade, verdadeiras confissões, tentamos
Nua, exposta como um bom Rock n' Roll
Perfeito como estranhos, como amor imperfeito
Nua, exposta como um bom Rock n’ Roll
Perfeito como estranhos, como amor imperfeito
Nós nunca sentiremos, nunca estamos tristes
Somos apaixonados modernos, estamos nos divertido

Blue Oyster Cult
Banda Norte-Americana

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

BILLY IDOL - «Don't Need a Gun»

Poet'anarquista

NÃO PRECISA DE UMA ARMA

Um coração humano vai sair hoje à noite
Sim, um amor quente vermelho num semáforo vermelho

Eu vejo uma cena tão fria que ecoa no azul
Oh aquelas línguas torcidas elas estão atrás de você

Filho, você tem que se mover para cima
Senhorita Clawdy
História e sonhos para comprar
Não preciso de uma faca para violar minha vida
É tudo tão louco

Quando o outro homem não tem nenhuma
Você não precisa de uma arma
Sim uma roleta russa não é divertido
Eu não preciso de uma arma
Eu só preciso de alguém
Eu não preciso de uma arma

Sangue vermelho acende sim na rua
Só preciso do seu amor e eu sim sinto que o calor
Pode dirigir-me e passar
Isso semáforo vermelho
Com uma chicotada e sorriso

Você vai a chorar sim sempre
Oh, você sempre estará morrendo
Oh, você sempre estará morrendo

Elvis a lutar contra a luz e a morrer
Johnny Ray ele está sempre chorando
Gene Vincent gritou que bateu no John, no John, no John

Sim e eu, eu estou mexendo, mexendo, mexendo,
Sim, para ser alguém
Eu não preciso de uma arma

Billy Idol

Cantor e Compositor Britânico

OUTROS CONTOS

«Presságio», por Fernando Pessoa.

«Presságio»
Poema de Pessoa

1194- «PRESSÁGIO»

O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar pra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente…
Cala: parece esquecer…

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar…

Fernando Pessoa

SÁTIRA...

A Lei do Bom Senso
Sátira...

«A LEI DO BOM SENSO»

- Ó Rui cabeça d’alho...
Desaparece, estou farto!
Acredita, ainda te mato
Grandessíssimo paspalho!!...
Só me dás trabalho!!!
- Certo, chefe arruaceiro...
Quero todo o meu dinheiro
Aqui de mão beijada
Nesta última jogada…
- Fosga-se!.. ganda paneleiro!!!

ATEOP

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

GIACOMO PUCCINI - «One Fine Day»

Poet'anarquista

Puccini
Caricatura de Leonetto Cappiello

OUTROS CONTOS

«Os Postes Telegráficos», por G.K. Chesterton.

«Os Postes Telegráficos»
Conto de G.K. Chesterton

1193- «OS POSTES TELEGRÁFICOS»

Certo dia, um amigo e eu estávamos passeando numa daquelas florestas típicas de toda a Europa ocidental, que podem tornar-se tão traiçoeiras, quanto um verdadeiro deserto, de tão uniforme que é a paisagem, a ponto de qualquer um ser capaz de perder-se nelas. Fortes, altos e todos iguais, lá estavam os troncos de madeira dos pinheiros, rodeando-nos de todos os lados, apontando-nos as suas afiadas agulhas, numa silenciosa insurreição. Sempre que falamos em “biodiversidade”, estamos nos referindo, sem dúvida, a uma verdade, no entanto, penso que muitas vezes a natureza manifesta a sua diversidade precisamente na sua mesmice. Pode-se observar uma cadência extremamente diversificada nesta unidade; é como se o mundo todo decidisse seguir o mesmo itinerário, sempre de novo, até que este preciso itinerário comece a nos parecer até estranho.

Você já experimentou ficar repetindo umas trinta vezes uma mesma palavra tão comum quanto “cachorro”, por exemplo? Na trigésima vez a palavra já se terá transformado em “vira-lata” ou “pulguento”. A simples repetição certamente não tornará o cachorro mais simpático, antes, bem pelo contrário, ele se tornará bem mais selvagem. No final o cãozinho acaba virando algo tão obscuro e tenebroso quanto um Godzila ou alguma serpente marinha. É possível que seja esta precisamente a razão de ser de tantas repetições na natureza; que este seja precisamente o motivo que justifica a existência de tantas milhões de folhas e pedras bem parecidas nesse mundo. Quem sabe elas não sejam tão repetitivas, precisamente, para se evitar que sejam consideradas triviais. Talvez elas se repitam só na esperança de que possam, no final, tornar-se cada vez menos triviais. É provável que nenhum ser humano ficasse surpreso com o primeiro gato que visse pela frente, mas certamente ele daria um pulo de surpresa ao por os olhos no septuagésimo nono. Às vezes é preciso que ele tenha que passar diante de milhares de pinheiros, até se deparar enfim com o pinheiro, aquele que reconheça como sendo pinheiro de verdade. Em todos os casos, há algo de excitante ou único, e eu diria até mesmo de premente e radical nas eternas ladainhas da floresta; algo que nos remete à loucura, nessa harmonia tão monótona dos pinheiros.

Quando fiz um comentário deste tipo com o meu amigo, ele respondeu em tom sarcástico, “Caro amigo, espere só até dar de frente com um daqueles postes telegráficos…” E, não é que o meu amigo estava certo? Coisa que ocorre raríssimas vezes nas nossas conversas, principalmente quando estamos tratando de fatos.

Tínhamos acabado de atravessar a floresta, por uma de suas principais trilhas, que, por acaso, seguia a linha telegráfica daquela cidadezinha. E, ainda que os postes só surgissem uma vez ou outra, eles faziam uma imensa diferença. Toda vez que atingíamos uma daquelas clareiras, onde havia um poste, nós nos dávamos conta nítida de que, afinal, os pinheiros não estavam tão rectos assim. Era como se algum dia vislumbrássemos entre um monte de riscos rabiscados por colegiais, uma linha traçada com uma régua.

Aquelas linhas todas de marinheiro de primeira viagem nos pareceriam uma tortura, que pendiam ora para a esquerda, ora para a direita. Poucos instantes antes poderíamos jurar que elas estavam rectas, e agora nos damos conta de que elas estavam tortas, balançando de lá para cá, feito gangorras. Comparados aos postes telegráficos, os pinheiros passavam a nos parecer tortos, ao mesmo tempo em que também pareciam mais vivos. Uma única linha vertical basta para imediatamente deformar tudo, deformar e libertar. Embora tudo parecia estar saindo fora do prumo, isso era libertador, como quando, no meio da floresta, avistamos um burlesco carvalho ou um pequeno resto de mata virgem.

Tínhamos já caminhado muito mais longe do que pretendíamos, guiados pela nossa linha imaginária; quando vimos anunciar-se o cair do dia, que ia se transformando em um belo crepúsculo. Até que nos demos conta de ter deixado a floresta para trás, e já nos encontrávamos no alto das montanhas que se elevavam em torno da cidadezinha ou vilarejo desconhecido, cujas luzes já começavam a piscar na crescente penumbra do vale.

Aquela peculiar transformação, que era típica do anoitecer, já estava se processando. Enquanto o sol persistia brilhando, o mundo todo ia escurecendo, dando seu adeus, a começar dos seus pontos mais extremos, as montanhas e a copa dos pinheiros. Com isto era nos revelado o mistério secreto dos pinheiros; e, lançando um fugaz e triste olhar sobre eles, meu amigo deu as costas para a floresta, colocando-se sob o imenso céu estrelado. E então olhou para os postes telegráficos diante dele, debaixo do último raio de luz do sol. Agora eles já não tinham mais aquele aspecto erecto, alongado e amenizado pelos traços delicados da madeira do pinheiro; eles se erguiam diante dele com toda a sua trivialidade, arbitrariedade rústica, típica de toda figura geométrica natural. O meu amigo ficou ali parado e, apontando para o poste, deu vazão a toda a sua filosofia anárquica: “Você é o diabo” disse ele com toda simplicidade, “mas vá em frente. O espaço das majestosas árvores, que para trás ficou é o mundo como era antes de vocês, seres humanos civilizados, cristãos, democratas ou quaisquer outros terem chegado e o feito ficar tão maçante, com suas sombrias réguas de moral e da igualdade. Nesta luta silenciosa, cada uma dessas árvores mudas encara outra árvore, cada folha, outra folha.. E toda essa silenciosa batalha acaba nesta belíssima desigualdade. Levante os seus olhos e olhe agora para toda essa medíocre homogeneidade. Observe bem, com que regularidade precisa foram dispostos os nódulos brancos nessa madeira e ouse continuar sustentando esta sua ideologia dogmática.”

“Será este poste telegráfico símbolo assim tão fiel e contundente da democracia?” –perguntei-lhe.

“Vamos supor que, para construir esta rede de telégrafos, geradores de dividendos tivessem sido necessários aproximadamente três mil homens, e talvez outros tantos mil tivessem sido necessários para preservar a floresta, que fornece a madeira. Mas, se este poste telegráfico é rústico (e admito que é), isso não se deve a uma ideologia qualquer, mas antes à anarquia reinante no mercado. Se alguém estivesse defendendo alguma ideologia acerca de postes telegráficos, porque não os confeccionou logo em marfim, recobrindo-os de ouro? Os produtos da modernidade são considerados de mau gosto, não devido ao excesso de ‘dedos” dos homens modernos, mas precisamente devido à falta deles.

“Não vem, não, “respondeu o meu amigo com os olhos fixos no limiar de um pôr do sol magnífico e verdadeiramente exuberante, “há algo de mórbido na própria noção de ideologia. Uma linha reta jamais será bela. A própria beleza será sempre um tanto torta. Estes postes rígidos, dispostos em intervalos assim tão regulares, são feios porque estão transmitindo uma mensagem verdadeiramente democrática ao mundo.”

“Que neste exacto momento,” retruquei, ” deve estar clamando ‘comprem postes búlgaros’ por todos os lados. E provavelmente este será o meio de comunicação mais usado por dois dos mais ricos e fracos dos seus filhos, com quem Deus sempre teve que ter tanta paciência. Estes postes telegráficos não são nada belos, de fato, na verdade eles são detestáveis, desumanos e indecentes. Acontece que o seu maior defeito de fundação encontra-se na sua particularidade e não, na sua universalidade. O fato é que este poste preto com nódulos brancos não é produto da criação de uma alma universal. Trata-se de uma invenção que adveio da alma de dois milionários malucos.”

“Mas se é assim, quero que você me faça o favor de explicar ao menos uma coisa “, replicou o meu amigo em tom grave, “diga-me como é que esta ideologia democrática tão rígida pode ter sido transmitida por estes postes telegráficos de formas tão grotescas? Ora, mas Santo Deus, já está na hora de ir para casa. Eu não fazia ideia de que já está assim tão tarde. Deixe-me ver, acho que acabamos saindo fora da floresta. Venha, sigamos a linha dos postes telegráficos, e isso, por um motivo bem mais razoável: chegar em casa, antes que fique escuro.”

Não tinha como chegarmos em casa, antes de escurecer. Por alguma razão nós havíamos subestimado a rapidez do cair da tarde e a súbita invasão da escuridão da noite, supondo que nos encontrávamos às margens da densa floresta. Foi só depois que o meu amigo, tropeçou em um dos fios logo nos primeiros cinco minutos de caminhada, e o mesmo me aconteceu dez minutos depois, sendo que eu já tinha arranhando os meus tornozelos no atoleiro, é que começamos a ter uma vaga noção do nosso rumo. Finalmente, o meu amigo disse em voz baixa e rouca: “receio que nós tenhamos entrado na trilha errada. Está escuro feito breu aqui.”

“Acho que não, algo me diz que ainda estamos no caminho certo,” arrisquei.

“Bem, ” disse ele, e depois de uma longa pausa, continuou” não consigo enxergar nem os postes telegráfico. E olha que fiquei todo o tempo de olhos bem abertos.”

“O mesmo digo eu,” disse. “eles estão alinhados demais.”

Ficamos por aproximadamente duas horas andando em círculos, procurando o caminho certo ao longo das margens escuras da densa floresta, cujas árvores pareciam dançar de forma debochada ao nosso redor. Todavia já era possível vislumbrar no horizonte ao longe os contornos de algo bastante recto e rígido demais para ser um pinheiro. E então finalmente percebemos que estávamos chegando em casa, no frescor do verde crepúsculo, o eterno arauto de mais um novo alvorecer.

G.K. Chesterton

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

SIMPLE MINDS - «Waterfront»

Poet'anarquista

ORLA    

Entre, saia da chuva
Eu vou seguir em frente até a orla
Pise dentro, pise fora da chuva
Eu estou indo andar até a orla
Disse, um milhão de anos a partir de hoje
Eu vou seguir em frente até a orla
Entre, saia da chuva
Venha, saia da chuva

Tão longe, tão bom, tão perto, mas ainda tão longe
Tão longe, tão bom, tão perto, mas ainda assim
Tão longe, tão longe, tão longe

A chuva, eu vou seguir em frente até a orla
Entrar, sair da chuva
Eu estou indo a pé, até a orla
Disse, um milhão de anos a partir de hoje
Pise até a orla
Disse, entrar, sair da chuva
Disse, entrar, sair da chuva
Disse, entrar, sair da chuva
Eu vou seguir em frente até a frente
Eu vou andar em cima para a frente
Eu estou indo para viver pela frente
Eu vou andar em cima para a frente
Entra, sai da chuva
Entra, sai da chuva
Disse, entrar, sair da chuva
Entra, sai da chuva

Mova-se para cima, depressa
Andar pra cima, viver pra cima
Longe, muito longe, muito longe
Assim, a pé, tão longe, eu vou embora
Então, então, a pé, até a orla
Até a orla
Tão longe, Tão longe

Simple Minds
Banda Britânica