sexta-feira, 25 de abril de 2014

ESPECIAL MÚSICAS DO MUNDO

E a música especial de hoje é...

JOSÉ AFONSO - «Utopia»
Utopia by José Afonso on Grooveshark
Poet'anarquista

UTOPIA

Cidade
Sem muros nem ameias
Gente igual por dentro
Gente igual por fora
Onde a folha da palma
Afaga a cantaria
Cidade do homem
Não do lobo mas irmão
Capital da alegria
Braço que dormes
Nos braços do rio
Toma o fruto da terra
E teu a ti o deves
Lança o teu
Desafio

Homem que olhas nos olhos
Que não negas
O sorriso a palavra forte e justa
Homem para quem
O nada disto custa
Será que existe
Lá para os lados do oriente
Este rio este rumo esta gaivota
Que outro fumo deverei seguir
Na minha rota?

José Afonso

JOSÉ AFONSO - «Utopia»

OUTROS CONTOS

«25 de Abril quase como um conto de fadas», por Conceição Lopes.

«25 de Abril quase como um conto de fadas»
Ilustração I: Carlos Barradas

128- «25 DE ABRIL QUASE COMO UM CONTO DE FADAS»

Saímos da sombra e expusemo-nos ao sol, eu, meu pai, minha mãe, meu avô e meus irmãos. Ao sol no prado, junto ao muro, na erva nova, no silêncio que parece um pasmo. 
   
Pasmo de como crescem aqui estas flores de oiro, como abrem ali aquelas tão vermelhas e como os nossos corpos fazem desenhos no muro. Uma dança de roda sobre o muro. 
   
- Avô! És tão grande no muro, se o sol te estica um pouco mais na sombra, bates com a cabeça no céu. 

Brincámos toda a tarde, entrar e sair da sombra e expor o corpo ao sol no prado. Quando as nossas sombras se juntam no muro, ao fim da tarde, lembram-me um cravo vermelho. 
   
Quando a lua se vestiu com cristais de sol a noite ficou numa imensa manta de brilhantes retalhos, eu perguntei ao meu avô: 
   
- Porque é que há tantas estrelas no céu? Umas pequenas, outras grandes, agora que a noite avança são tantas, tantas, tantas...é uma para cada um de nós avô? 
   
- Deixa-me deitar a cabeça no teu colo e conta-me um conto dos teus. 
   
- Sorrindo e acariciando os meus cabelos, o meu avô pôs-se a recordar:

«25 de Abril quase como um conto de fadas»
Ilustração II: Carlos Barradas

-Era assim, numa noite em nada igual à de hoje. 

O teu avô aguardava estirado no meio da seara, num monte como aquele além, a chegada do mensageiro que transportava um tesouro dentro de uma caixinha de madeira. 
   
Grandes homens aqueles, durante anos a fio esconderam-se e aproveitavam a noite para nos ensinar a pensar a nossa vida. Um naco de pão, meia dúzia de azeitonas e as oliveiras carregadinhas. Era assim naquele tempo. Ainda me lembro! No dia anterior, a tua avó dera à luz o Joaquim! 

Meia hora antes do menino nascer, ainda estava no arroz atascada até à cintura. 
  
- "Vou ali e já venho!" 
 - Ainda a ouço, aqui nos meus ouvidos. Foi só o tempo de chegar a casa e o Joaquim, o teu pai, aí estava. 
  
 - E o teu amigo, a que horas chegou? 
   
- Nessa noite não veio. Soubemos que o António tinha sido preso pela PIDE, mas os mensageiros continuaram a chegar com a malinha cheia de jornais, traziam dizeres, notícias que  se a gente não as lera nunca houvera de saber o que se passava por esta terra ao abandona.

«25 de Abril quase como um conto de fadas»
Ilustração III: Carlos Barradas

O meu avô adormeceu e a história ficou a meio. 
   
- Pai, não gosto do Inverno, entristece o coração dos dias e o sol desaparece logo. 
  
 - Onde está agora o sol? Dentro do mar das montanhas? Em que país? Há lá meninos felizes como eu, como a Primavera, o dia, a praia, a liberdade? 
   
- Pai conta-me a história dos homens que pareciam cavalos que voavam no escuro, naquela madrugada em que eu nasci. 
   
Enrolei-me no corpo do meu pai como a noite se enrola, na terra, num xaile de erva sobre o prado, e o meu pai, comigo nos braços começou: 
   
- Ao romper do lindo sol, era uma vez um soldadinho. 
   
- Conta, pai, era uma vez, um, dois, três... 
   
- Há dez anos, era uma vez um menino soldado, muitos meninos soldados que quiseram acabar com a guerra e com o medo. 
   
- Pai, eu tenho dez anos como a história do soldadinho! 
   
- Os soldadinhos não queriam que os meninos como tu fossem à guerra daqui a dez anos.

«25 de Abril quase como um conto de fadas»
Ilustração IV: Carlos Barradas

 Na aldeia, toda a mocidade abalara para a guerra. 

Em navios partiam de Lisboa. O teu pai também por lá andou durante três anos. Desde o primeiro dia a tua mãe e a tua avó bordaram a colcha de renda com o pensamento em África, cada laçada uma lágrima e a colcha ficou cheia de soluços. 
   
- Então é por isso que a colcha está cheia de altinhos! Esperaste muitas noites avô? 
   
- Todos os meses no escuro, para me entreter falava com as formigas, as flores, as pedras. Quando havia lua cheia lia livros deitado sobre a terra de barriga para baixo, e brincava com um cágado que andava por ali à roda do sobreiro. O teu avô, punha-lhe uma bolota em cima e contava pontos até que o cágado a deixasse cair. O máximo que ele aguentou foi trinta e sete. 
   
- Assim, o tempo passava mais depressa e os sustos ficavam mais levezinhos. 
   
- Grandes homens! Eles bem diziam que um dia não haveríamos de precisar da noite para nos escondermos. 
  
 - Esperámos muito tempo, mas não perdemos a esperança, fizemos empenho em que tudo um dia mudasse.

«25 de Abril quase como um conto de fadas»
Ilustração V: Carlos Barradas

- Tu gostas de mim como o soldadinho gosta de nós no conto? 
   
- Como no conto, querido, como no conto. 
  
 O sol voltou ao céu, foi-se embora a noite. No muro, a sombra desenha um soldadinho com uma espingarda carregada de cravos e um menino como eu pela sua mão. 
   
Por um instante, o sol fez desaparecer o desenho, tenho frio, mas sei que o sol vai voltar. Por um instante, o sol desenha novamente os nossos corpos no muro, o meu, o de meu pai, da minha mãe, do meu avô e dos meus irmãos, uma dança de roda com cantigas de liberdade.

«25 de Abril quase como um conto de fadas»
Ilustração VI: Carlos Barradas

- Eu já não vou à guerra, pai? 
  
 - Não, meu filho, agora em África constróem fábricas e campos de trigo. E as pessoas cantam e dançam com as pombas brancas da Paz. 
   
- E onde estão agora os soldadinhos? 
   
- Os soldadinhos ficaram no coração da nossa memória. Foi com a força daqueles que pudemos tomar as terras e organizar a nossa cooperativa, transformámos o mato em lindas searas, abrimos a estrada que nos leva à vila, fizemos festas, contruímos a creche onde tu andaste e arranjámos a escola primária. Havia trabalho e comer para todos. 
   
- Vamos, pai. Vamos ter com o soldadinho! Vamos no cavalo da manhã, entre o trigo e o mar! 
   
- Tudo o que aconteceu durante estes dez anos é como um conto, pai? 
   
- Quase tudo, quase como um conto de fadas de princípio, mas nem tudo depois foi como um conto. 
   
- O soldadinho gostava de nós como tu gostas de mim? 
   
O pai sorri.

Conceição Lopes

quinta-feira, 24 de abril de 2014

CARTOON versus DÉCIMA

Político de Peso
HenriCartoon

«POLÍTICO DE PESO»

-Dr. Só Ares: que diz da sondagem
Que o elegeu político mais influente
Desde esse 25 de Abril intermitente?...
Na verdade, é preciso ter bagagem!
-Sr. Jornalista, depende da coragem
Pra sepultar o socialismo na gaveta,
E acabar com essa revolução de treta!
-Vejo que o doutor ainda manda peso,
Às vezes em acção, outras no defeso…
-Claro, sou maçónico da velha seita!

POETA

PORTUGAL 40 ANOS DEPOIS DO 25 DE ABRIL 74

João Andrade da Silva
Coronel Emérito do Exército, Militar de Abril e do PREC

PORTUGAL 40 ANOS DEPOIS DO 25 DE ABRIL 74
24-04-2014 - Andrade da Silva

Falar sobre Portugal, o nosso Portugal, 40 anos pós 25 de Abril 1974, para quem andou de alma e coração no processo do  25 de Abril por  um Portugal e Mundo  melhores é um exercício doloroso, mas anulará o facto  glorioso,  heróico e nobre do 25 de Abril 74?

Não. A conquista da liberdade, da democracia e dos direitos  fundamentais, como os da educação, da saúde, da contratação colectiva são ainda grandes vitórias do 25 de Abril, que embora feridos ainda sobrevivem, todavia, teriam de viver e desenvolverem-se, deveriam estar, no mínimo assegurados, sendo que o seu desenvolvimento é o esperado, normal e desejável, porém o que  acontece é que estão em regressão, e esta realidade é intolerável.

Todos ouvimos que tão desgraçada situação  se deve  à crise, direi, contudo, que o que há é a tomada do poder ao nível mundial por agiotas, especuladores cruéis, quase conluiados na construção de um reino universal de escravização, o que, sendo grave não desculpa os governantes portugueses, nem os lideres de opinião, e da cultura nacionais, porque são cúmplices e servidores coniventes destas trágicas politicas que, entre nós, são ampliadas,  com grave prejuízo para todos os portugueses, por milhares de milhões que escorrem pelos canais da corrupções e de transferências  financeiras excessivas, em prol de governantes e dos grandes  e velhos donos de Portugal, com um consentimento infame de uma faixa larga de portugueses que moral, intelectual e ao nível da cidadania deviam ser bem mais exigentes. É mesmo incompreensível tal  comportamento,   face  ao aumento  significativo da educação: que deveria ter libertado muito mais povo, mas não o fez, e,  aqui  Abril soçobrou, porquê?

A razão mais profunda estará nos alicerces de uma cultura castradora,  estreita, inquisitorial, de séculos em que cada  um só ouve os seus pares, reproduzindo indefinidamente o mesmo de sempre, facto que não estimula a participação,  nem a inovação. Como as pessoas se sentem inúteis quanto ao destino colectivo não aplicam nem energia, nem ligações sinápticas a produzirem opinião critica, e promovem  uma espécie de autofagia cerebral para estes temas. Deste modo morre na vida de  cada um, o espaço publico e politico. Consequentemente com uma maioria destes cidadãos, que é o nosso caso, pese embora, alguns movimentos mais activos de contestação centralizada em  temas com maior referência às necessidades primárias, o sistema politico e social  global mudará muito pouco, ao longo de muitos anos. Não havendo critica e inovação estabelece-se e restabelece-se sistematicamente a narrativa subjugadora de que somos um povo que - aguenta, aguenta.

AGUENTA, AGUENTA é um estado de  alma e comportamento social que pode sustentar, o caminho da destruição da democracia, através do total bloqueamento do estado de direito, isto é, há leis que são música para os nossos ouvidos, mas que feitas com alguma ou muita perversidade permitirão, no limite, que nenhum crime grave e  lesivo  dos bens públicos ou privados praticado pelos poderosos seja alguma vez julgado, e o mesmo em relação aos ligeiros, dizendo tudo, por inteiro: não há estado de direito entre nós, porque nem todos são iguais perante a lei.

Uma democracia está ferida de morte, quando não sabe, ou não quer, ou  às boas aceita o corrupto, como excelências dignitárias, sejam cardeais,  governantes, ou outros. Ferido este pilar todas as arbitrariedades são possíveis e a  democracia corre grave risco, é este o nosso caso - ALERTA CAROS CONCIDADÃOS!

AGUENTA, AGUENTA é também um estado de alma que mata a identidade e a dignidade do cidadão Nacional, e, assim, aguentamos  cordatamente este período em que um governo estrangeiro de tecnocratas está entre nós, numa afronta ao D, da descolonização,  de Abril.

Aí está a troika a impor-nos regras de uma potência colonial, tratando-nos como colónia, porque nos endividamos. Todavia, aqui, diferentemente do que acontece com uma família endividada que negoceia os juros e forma de pagamento com o banco , sem o banco entrar nas nossas casas, para dizer o que fazermos -tão só pedirão um fiador que só em caso de incumprimento dos contratos depois de re.re_re.. negociados intervém- porém no caso de Portugal, Grécia ,etc. os credores governam-nos. Mas não será possível arranjarmos um fiador e nos governarmos a nós próprios? Como é possível aguentarmos esta afronta à soberania nacional, agravada pelas privatizações que ferem as bases da nossa independência no capítulo da reserva estratégica nacional?

Com estes ferretes cheios de veneno letal: empobrecimento; estado  social residual; estado de direito preso ao objectivo de proteger os ricos e poderosos e as suas fortunas ganhas nos mercados da corrupção;   sem independência nacional, o que nos resta: aguentar, ou mudar mesmo tudo?

A resposta é só uma e uma só, é preciso mudar tudo, mesmo que comece por uma das pontas da Europa, só que mudar tudo é REVOLUÇÃO, e a REVOLUÇÃO precisa de uma grande parte do povo desperta, pronta, consciente e mobilizada, o que, está muito longe de acontecer, e se esta é a condição necessária, a eficaz  será uma liderança nacional que com base num projecto soberano conduza o povo a porto certo, sem rombos, mesmo que, com muita muita dor.

Resta a quem se identifica com este  paradigma - LUTAR, LUTAR, LUTAR, pela mobilização de todos nós, na procura de uma liderança,  do esclarecimento do povo e na sua motivação  para a mudança imperativa, considerando os riscos a acautelar com responsabilidade, mas sempre com determinação, coragem e,  porque, não dizê-lo - com heroísmo!

Fora do rumo de mudança fica o aguenta, aguenta:  letal, recto ao empobrecimento, à escravização. Todavia cabe ao povo português escolher, e aos que têm consciência  e conhecimento dos perigos alertarem, organizarem-se e lutarem pela soberania de Portugal, pela sua descolonização - lutamos em Abril pela descolonização das colónias africanas, agora, temos de lutar pelo nossa própria descolonização- e, ainda, é preciso continuar a luta por  uma democracia livre, honesta, cidadã que terá como natural consequência - o desenvolvimento.

Porém, e para desgraça de Portugal, as lideranças que vão surgindo  são velhas lideranças, com muito jogo escondido, sem a verdade e a honestidade como instrumentos e sem um conceito  democrático do exercício do poder,e muito pior  da sua  prática. Vivemos em quase todas as  instituições ao nível da incivilização  própria  das ditaduras abjectas de África, sem a prática do genocídio.

Nestes 40 anos de Abril e nos seguintes seria importante construir o Futuro com lideranças do Futuro, baseadas no amor a Portugal, à Humanidade/ao homem concreto, na recta intenção, na inteligência, no mérito. Será  pedir demais a 10 milhões de concidadãos?

Não, não é, mas é exigir que os acomodados cumpram com o imperativo categórico que Portugal e a Humanidade lhes exige, cumprirão?

Não tenho a certeza. Da minha parte vou-lhes recordando, se muitos o fizerem, talvez  algo mude, e esse algo, poderá ser o início do Futuro para este século e milénio, mas...

Coronel Emérito do Exército, Militar de Abril e do PREC,

Andrade da Silva

ESPECIALÍSSIMA MÚSICAS DO MUNDO

E a música especialíssima de hoje é...

JOSÉ MÁRIO BRANCO
«Alerta»

Poet'anarquista

ALERTA

Pelo pão e pela paz
E pela nossa terra
Pela independência
E pela liberdade
Alerta! alerta!
Às armas! às armas!
Alerta!

Pelo pão que nos rouba a burguesia
Que nos explora nos campos e nas fábricas
Operários, camponeses hão-de um dia
Arrebatar o poder à burguesia
Abaixo a exploração!
Pelo pão de cada dia!
Pois claro!

Só teremos a paz definitiva
Quando acabar a exploração capitalista
Camaradas soldados e marinheiros
Lutemos juntos pela paz no mundo inteiro
Soldados ao lado do povo!
Pela paz num mundo novo!
Pois claro!

(refrão)

Pela terra que nos rouba essa canalha
Dos monopólios e grandes proprietários
Camponeses, lutem p´la reforma agrária
P´ra dar a terra àquele que a trabalha
Reforma agrária faremos!
A terra a quem a trabalha!
Pois claro!

Pela independência nacional
Contra o domínio das grandes potências
Fora o imperialismo internacional
Que tem nas mãos metade de Portugal
Abaixo o imperialismo!
Independência nacional!
Pois claro!

(refrão)

Não há povo que tenha liberdade
Enquanto houver na sua terra exploração
Liberdade não se dá só se conquista
Não há reforma burguesa que resista
Democracia popular!
E ditadura proletária!
Pois claro!

José Mário Branco

CARTOON versus DÉCIMA

Luz ao Fundo da Crise
HenriCartoon

«LUZ AO FUNDO DA CRISE»

-Então o que se passa, marido?
-Espero a economia crescer
E de novo poder sobreviver…
-Mas tens um ar tão abatido!...
Já não acreditas no Bandido?
-Não, mulher… esta má política
Continua a mesma peste cínica!
-Nesse caso, no que meditas…
Alguém em quem acreditas?
-Acredito no título do Benfica!!

POETA

ESPECIAL MÚSICAS DO MUNDO

E a música especial de hoje é...
(24 de Abril de 1990, morre o compositor e músico de jazz norte-americano, Dexter Gordon)

DEXTER GORDON - «Blues Bossa»

OUTROS CONTOS

«Os Mortos não Voltam», por Florbela Espanca.

«Os Mortos não Voltam»
A Jovem Mártir Ophelia, por Paul Delaroche

127- «OS MORTOS NÃO VOLTAM»

— Tenho a certeza de que os mortos não voltam.

O velho e simpático Dr. X, quebrando o silêncio em que se tinha emparedado  toda a noite, fez esta estranha afirmação num tom tão perentório, com uma tal  firmeza de acentuação, com uma tão grande autoridade, que a sua frase, balde  de água gelada na exaltação do grupo, fechou a discussão como por encanto.

— Os mortos não voltam — repetiu.

Todos os olhares convergiram para ele. Impassível, eixo da curiosidade geral,  puxou mais a cadeira para o vão da janela aberta de par em par sobre a noite  cálida e estrelada de Agosto. Sacudiu a cinza do cigarro, aspirou uma lufada de  ar carregado dos -aromas dispersos do jardim e do mar, e continuou  tranquilamente:

— Eu explico a minha afirmação... e o tom em que a proferi —  acrescentou, com um dos seus belos sorrisos, de cujo encanto tinha o segredo  e que eram talvez a mais clara explicação dos seus repetidos triunfos na vida.  — Se a nossa discussão, meus senhores, não é uma discussão ociosa, o que é   muito provável, se semelhante coisa pode entrar tanto quanto possível no  domínio dos fatos experimentais, se tudo isto que acabámos de dizer não é  metafísica pura, a minha afirmação de há pouco tem valor, e eu vou dar-lhes a sua explicação. A minha certeza é o fruto de uma experiência que o acaso  preparou magistralmente, numa época em que estes problemas apaixonavam  os intelectuais, problemas que deram origem aos soberbos trabalhos de  Gurnay, primeiro, e, logo a seguir, de Crooks, Lodge, com o seu célebre  Raymond, trabalhos que suscitaram todas as curiosidades no mundo pensante.  Nessa época, já relativamente afastada e por assim dizer ainda de ontem, que a  época trepidante dos sem-fios e dos aviões destronou, não se falava noutra  coisa: alucinações telepáticas, visões, lucidez, pressentimentos, aparições  objetivas, etc., fenômenos ocultos, misteriosos, discutidos entre a zombaria e a  incredulidade de uns e a credulidade medrosa de outros — eis o assunto de  toda a conversação de uma ordem mais elevada ou com pretensões a tal. Eu  lia tudo quanto se publicava sobre o caso, e hesitante, balouçado entre a dúvida  e a certeza, intuitivamente crédulo e refletidamente descrente, preso deste  indefinido mal-estar que nos avassala perante os fatos desconhecidos, fora do  nosso conhecimento imediato, não conseguia firmar uma opinião, ver  esboçar-se o prelúdio de uma vaga certeza.

«Até que um dia, ou antes uma noite, o meu espírito sossegou, apoiado a uma  absoluta convicção que os fatos até hoje não vieram desmentir.

«Não, meus senhores, os mortos não voltam. Nada faltou à preparação da  magistral experiência que o acaso me fez presenciar: campo experimental,  cenário, ambiente particular, emoção elevadíssima, tudo! E, nessa noite,  depois das rápidas parcelas de segundo de um voo para além dos limites do  consciente, a alma pousou de novo no domínio da vida material sem ter visto,  sem ter sentido nada.

O Dr. X. fez uma pausa, olhou a noite recamadinha de estrelas, e pareceu  escutar a voz soturna das ondas, rezando o seu cantochão de eterna ansiedade.

— Foi em casa da Senhora L. — principiou ele.

— Você conhece, Veiga — disse, voltando-se para um rapaz alto e loiro,  de monóculo —, a deliciosa velhinha que possui, num cenário de maravilha, le  dernier salon ou l’on cause. Faz agora anos por estes dias. Festejava-se num  jantar íntimo a saída, do colégio, da neta, a endiabrada garota que hoje é mãe  não sei já de quantos taludos bebés. Estávamos todos no terraço, depois de  jantar, naquele lindo terraço todo em mármore cor-de-rosa, janela escancarada  sobre o mar, que parece ter sido idealizado por um paxá das Mil e Uma  Noites. Estava eu, a dona da casa, Madame V., os dois irmãos Grey, o Ravara  de Melo e aquela linda rapariga que o ano passado professou num convento  de  Segóvia e que você também conheceu muito bem, Lídia de Vasconcelos.  Lembro-me como se o caso se tivesse passado ontem. Não sei que poder  evocador se desprende desta noite, da melopeia destas ondas, que misteriosos  eflúvios traz consigo o ar que entra por esta janela aberta, o certo é que  preciso fazer um esforço para me convencer que isto não se passou ontem,  que tantos anos não dispersaram já toda esta gente que evoco. Influência do  cenário igual, da noite igual da discussão, talvez...
  
«Os Estoris enchiam-se de pontos luminosos; o céu, de estrelas miudinhas. O  Monte lembrava um presépio, como agora, sobre o mar a escurecer, a  preparar o mistério das suas bodas com a Lua que vai surgir toda de branco.

«Discutia-se um caso de telepatia narrado pelo mais novo dos Grey, aquele  místico Robert de uma psicologia tão curiosa. Tinha visto, segundo ele dizia, a  mãe entrar no seu quarto, depois de ter atravessado um comprido corredor  que levava diretamente à alcova onde meses antes expirara. O caso levantou,  como calculam, enorme celeuma. Na mesa ninguém se entendia; falavam  todos a um tempo, faziam-se comentários, cada um expunha a sua opinião,  contava um caso da sua vida. Houve risos, blagues, e, quando saímos para o  terraço, deixando os dançarinos no salão, o Robert continuava, impassível, a  garantir a autenticidade da sua história, e nós todos engalfinhados a discuti-la.

«Parece-me estar ouvindo o Ravara de Melo, o cético elegante, rir com os seus  espirituosíssimos paradoxos a escultural Madame V., aquela loira Madame V.  de quem a Lila dizia que trazia a arder na cabeça todas as fogueiras de S. João,  o tom de máscula impassibilidade do Robert afirmando, a voz já apagada e tão  doce da Senhora L.

O Dr. X. interrompeu o que estava a dizer para acender outro cigarro, rito  praticado sempre com um raro deleite de sibarita, precursor do raro prazer de  se intoxicar, operação que levava a cabo metodicamente, desde os Paxás da  sua adolescência até aos preciosos Abdulas de agora.

— Que linda noite! — murmurou, como se falasse consigo próprio, e, em  voz alta, continuando:

— Era uma noite assim; a pouco e pouco fomos adoçando as vozes para  não quebrar a harmonia da hora, daquela hora de uma sobrenatural e mágica  beleza que todos nós sentimos ser uma pausa na nossa vida brutal, um  momento digno de deuses na nossa feia vida de homens, uma hora feita de  envolventes bruxedos, tão pesada de perfumes, tão embebida de doçura que,  maquinalmente, as mãos quase esboçavam o gesto de se estender para agarrar  a hora maravilhosa que sentíamos fugidia e já perdida nos momentos que  passam. O riso de Madame V., num dado momento, quase nos chocou como  uma falta de tato, uma inconveniência, como se ela se lembrasse de aparecer  nua diante de nós todos. De repente, elevou-se no salão a voz da Lila  cantando a Balada do Rei de Tule-.

Houve outrora um rei em Tule...

«A voz profunda e pastosa entrava na noite como um punhal numa ferida:  dilacerava-a. A pungente melodia fez-me subir as lágrimas aos olhos, e ao  coração uma turba de recordações que eu julgava perdidas no mar da vida  como a taça lendária sobre as águas do mar.

«Calamo-nos todos, a ouvir. O ruído das ondas acompanhava em surdina a  voz maravilhosa que subia e se espalhava na noite, que parecia concentrar-se e  compreender como uma alma. Julguei naquele momento ouvir um soluço  abafado, como se uma onda se tivesse quebrado ali mais perto de nós; voltei-me negligentemente como para pousar o cigarro numa mesinha que estava  atrás de mim; não vi ninguém, a não ser a Lídia de Vasconcelos que  tranquilamente mordiscava um cravo branco. Quando a voz se calou no  arrastar dos últimos versos:

E a taça lá vai boiando

Por sobre as águas do mar...

fez-se um silêncio que nenhum de nós ousava ser o primeiro a quebrar.  Sobressaltou-nos, numa impressão desagradável, a voz roufenha, monótona,  do Robert, que num tom perentório, num tom todo britânico, teimosamente  preso à sua ideia, reatava o fio da discussão interrompida: “Os mortos  voltam.”

«A doce Senhora L. não pôde conter um sorriso. Aquele sorriso, naquela  ocasião, vinha sublinhar a sua opinião sobre os Ingleses, opinião que eu  conhecia e que achava de uma injustiça flagrante; mas vão lá convencer as  mulheres da injustiça de uma opinião que elas criaram sozinhas!

«A discussão acendeu-se outra vez. Ravara deitou novamente fogo às peças de  artifício do seu espírito brilhante. O riso de Madame V. ecoou mais cristalino  na noite pura...

«Foi então que, cie novo, chegou aos meus ouvidos o eco abafado de um  soluço. Não havia dúvida, tinha sido um soluço. Voltei-me rapidamente. A  Lila continuava a mordiscar o seu cravo branco, mas, olhando-lhe as mãos,  compreendi tudo num relance: tremiam como as asas de uma avezinha presa.

«O coração apertou-se-me cheio de uma imensa piedade por aquele tristíssimo  destino da rapariga. “Vocês sabem a história... talvez”, disse ele voltando-se  para o grupo que o escutava, e, a um sinal negativo do rapaz de monóculo:  “Não? A Lídia estava noiva de um seu camarada, Álvaro Bacelar”, disse ele a  um oficial da Armada que o ouvia, com uma grande atenção, de pé, encostado  ao peitoril da janela; “não, você não pode lembrar-se; isto passou-se há anos,  ainda você não tinha entrado sequer na Naval; de um seu camarada que  morreu, vítima de um desastre no mar, oito dias antes do marcado para o  casamento. O cadáver, apesar de incansáveis pesquisas, nunca mais apareceu.  Era um esplêndido rapaz, dotado das mais fortes e sérias qualidades, de uma  beleza viril que se impunha. Lembro-me muito bem da cara dele,  principalmente dos olhos; tinha um olhar duro, um estranho olhar que nos  penetrava como uma verruma, que afirmava, que insistia; mas, quando nos  pressentia o vago mal-estar de uma alma que se sente vasculhada, adivinhada  até aos seus mais recônditos esconderijos, o olhar mágico dulcificava-se,  aveludava-se, transformava-se na suavidade de um olhar quase feminino,  lânguido e caricioso. Era realmente um belo rapaz. Lembro-me muito bem  dele e da tragédia da sua morte. Nos primeiros dias houve sérios receios de  que a noiva enlouquecesse. Eu fui vê-la nessa ocasião; depois, esteve numa  casa de saúde na Alemanha, viajou pelo Oriente, foi a Jerusalém. Voltou,  passados dois ou três anos, curada, segundo parecia. Reatou os seus hábitos  interrompidos, viram-na de novo, mais linda do que nunca, os salões mais  chiques da capital, e começaram, é claro, a fazer-lhe a corte. Nova, bonita,  rica, porque não? O mundo é dos vivos, os mortos têm o seu à parte. Era  natural que a pobre rapariga esquecesse, fizesse por viver, tentasse de novo  fundar um lar, desejasse filhos, não é verdade? As mãos geladas de um cadáver  não têm o direito de prender eternamente o coração de uma rapariga de vinte  anos que crê na vida, mas as deceções, na turba cada vez mais numerosa dos  pretendentes, foram-se multiplicando; Lídia de Vasconcelos atendia  benevolamente todos, mas não se decidia a escolher nenhum. Vocês  compreendem, um morto é um temível rival, um competidor seriíssimo que  tem por si as mil vantagens que a ausência e a saudade lhe emprestam. A  morte é o Reutlinger das recordações; na objetiva do coração foca-as para  sempre em beleza imutável e única. Quando, naquela noite, lhe vi tremer as  mãos pequeninas que, num jeito cheio de ansiedade, seguravam o cravo  branco, quando a vi olhar num olhar de inexprimível desalento aquele mar,  mortalha imensa de um ente que para todos era há muito apenas uma  recordação diluída e que para ela era a única realidade existente, tive a  impressão nítida de que o seu único, o seu obcecante desejo, naquela ocasião,  seria o impossível prodígio de poder erguer, com as suas mãozinhas que  tremiam, a ponta daquela mortalha, a dobra daquele grande lençol, e  contemplar um minuto, um só minuto, os olhos estranhos, inolvidáveis, do  morto. Senti que aquelas mãos só tinham forças para pedir ao destino aquela  esmola. O seu vestido de rendas prateadas, na claridade leitosa da Lua, que se  elevava acima das ondas, vestia-a de espuma a faiscar. O grande diamante do  seu anel de noivado parecia grande e pesado de mais para o seu dedo  miudinho e frágil de bebê. Naquele terraço, quase às escuras, fez-me pensar  numa imaterial aparição; parecia mais uma onda que tivesse galgado o terraço  e que se imobilizasse na expectativa de um prodigioso e inefável milagre.” A  voz aguda e trocista de Madame V., respondendo à frase do Robert,  sobressaltou-me como uma pessoa que, no melhor do seu sono, é acordada  brutalmente para a realidade da vida. “Oh Robert, que candura a sua! Estes  Ingleses!. .. Você teve muito simplesmente uma má digestão, coisa que  acontece a muita gente. Será você sonâmbulo?”, acrescentou a rir. Robert  abanou gravemente a cabeça, o irmão sorriu com o seu frio, com o seu  cortante sorriso saxônio. Vocês não podem fazer uma ideia: nunca vi sorrir  um inglês, que não ficasse irritado. Aqueles sorrisos nus e ao mesmo tempo  complicados, onde parece não haver nada e onde se adivinha tanta coisa,  espicaçam-me como um aguilhão. Ia para responder; não tive tempo. A voz  da Senhora L., que naquele momento se elevou, foi um unguento, um  calmante no prurido da minha cólera absurda; serenou-me como por magia.  Ela dizia, abanando tristemente a cabeça branca, que parecia de prata ao luar:

“Não, Robert, os mortos não voltam e é melhor que assim seja... Que  vergonha se voltassem! Onde há por aí uma alma de vivo que se tivesse  mantido digna de semelhante prodígio?... Eles vão, e a gente fica e ri e canta e  deseja e continua a viver! Mutilados, amputados, às vezes do melhor de nós  mesmo, a gente é como estes vermes repugnantes que, cortados aos pedaços,  criam novas células, completam-se e continuam a rastejar e a viver! É uma  miséria, é, mas é assim!” «A voz da Senhora L. perdeu-se num murmúrio,  casada ao murmúrio surdo das ondas, lambendo os rochedos da praia. No  salão dançava-se animadamente um charleston em voga. Foi então que, na  noite pura, na noite silenciosa talhada em horas de imperecível beleza, estalou  o grito sobre-humano, o grito que, passados tantos anos, trago ainda nos  ouvidos, que foi como que o comentário à margem de todas as minhas  dúvidas e incertezas, que consubstanciou em si, no arrastar das suas notas  trágicas, a resposta às minhas interrogações em frente ao formidável mistério  da morte. Lídia de Vasconcelos tinha-se erguido na cadeira e, voltada para o  mar, lívida, irreconhecível, estendera os braços, e soltara num grito, como um  arranco, como um desgarrar de fibras, o nome querido: “João!”  

«Àquele brado de angústia, àquele chamamento, àquele apelo desesperado, a  própria noite se enrodilhou cheia de medo e de assombro e todos nos  entreolhamos à espera que das ondas surgisse o morto, novo Lázaro a um  novo Surge et ambula. Foi um segundo de emoção como nunca tinha vivido,  como nunca mais poderei viver. Foi um momento. Lídia tornou a cair na sua   cadeira como um triste farrapinho branco, numa crise de soluços que a  sufocava; todos se levantaram para a socorrer. Eu fiquei a olhar para o mar, o  mar impiedoso que guardava a sua presa, que se espreguiçava molemente
como uma fera que tem sono. Não, meus senhores, os mortos não voltam. Se  voltassem, haveria um que naquela noite teria voltado, quando o chamaram.

O Dr. X. calou-se. Atirou para o jardim o cigarro meio consumido, e ficou  pensativo, a olhar o mar, com os olhos rasos de água.

Florbela Espanca

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(24 de Abril de 2008, morre o músico de jazz norte-americano, Jimmy Giuffre)

JIMMY GIUFFRE - «Gotta Dance»

quarta-feira, 23 de abril de 2014

25 DE ABRIL - ABRIL DE NOVO

40 Anos a Festejar Abril!
25 de Abril - Abril de Novo!!!

ABRIL DOS CRAVOS

Abril dos vermelhos cravos libertado
Devolves-te a esperança quase perdida,
A um povo que jazia amordaçado
Numa pátria há muito já esquecida!

Abril das palavras que se soltaram
Nos corações que pareciam não bater,
Ao mundo inteiro bem alto gritaram
Tudo quanto era preciso não esquecer!  

Abril de revolução das nossas gentes
Enchendo as ruas com abraços fraternos!...
Muitos sorrisos… tantos olhares contentes,
Momentos que sempre nos serão eternos!

Abril! Pode ser outro mês qualquer
 De amor intenso e fraternidade...    
Abril será quando um homem quiser,
Amar em cada instante a liberdade!!

Matias José ( 25-04-2009 )

ESPECIAL MÚSICAS DO MUNDO

E a música especial de hoje é...

JOSÉ MÁRIO BRANCO
«Queixa das Almas Jovens Censuradas»
Queixa das almas jovens censuradas by Jose Mario Branco on Grooveshark
Poet'anarquista

QUEIXA DAS ALMAS JOVENS CENSURADAS
(Letra: Natália Correia)

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte

José Mário Branco

OUTROS CONTOS

«O Casamento Enganoso», por Miguel de Cervantes.

Por aqui- «LITERATURA» sobre Miguel de Cervantes.

«O Casamento Enganoso»
Conto de Miguel de Cervantes

126- «O CASAMENTO ENGANOSO»

Miguel de Saavedra Cervantes, o pai do gênero romance com Las Aventuras Del lngenioso Hidalgo Don Quijote de La Mancha, ou simplesmente D. Quixote, o livro mais famoso do mundo depois da Bíblia e até hoje a obra mais original e humorística criado pelo engenho humano, escreveu poemas, comédias e farsas, além de suas Novelas Exemplares. O Casamento Enganoso é um ótimo exemplo de comédia de costumes da época.

Saía do Hospital da Ressurreição, em Valladolid, além da Porta do Campo, um soldado que, por usar a espada como bordão e pela fraqueza das pernas e a palidez do semblante, revelava claramente - embora a temperatura não fosse tão quente - que ele deveria ter transpirado durante vinte dias toda a disposição que, com toda a certeza, adquirira numa só hora. Andava ziguezagueando, tropeçando toda hora, como um convalescente, e, ao transpor o portal da cidade, percebeu aproximar-se em sua direção um amigo a quem não via há mais de meio ano. O amigo, benzendo-se como se visse alguma assombração, aproximou-se e lhe disse:

- O que aconteceu, Senhor Alferes Campuzano? Como é possível que estejais por aqui? Imaginava-o em Flandres, de lança em riste, e não por estas bandas arrastando a espada. Que palidez, que fraqueza é essa?

Campuzano respondeu:

- Se estou ou não nesta terra, senhor Licenciado Peralta, a minha simples presença lhe responde. Quanto às outras perguntas, nada tenho a responder senão que estou saindo daquele hospital onde sofri quatorze suadouros por causa de uma mulher a quem escolhi como minha, quando jamais o deveria ter feito.

- Quer vossa mercê dizer que se casou? - perguntou Peralta.

- Sim - respondeu Campuzano.

- E teria sido por amor? - disse Peralta, acrescentando em seguida: - Tais casamentos sempre trazem arrependimento.

- Não saberei se foi por amor - respondeu o alferes -, embora possa garantir ter sido por amargor, pois do meu casamento, ou cansamento, carrego tais coisas no corpo e na alma que as do corpo, para curá-las, me custaram quarenta suadouros, mas para as da alma não encontro remédio sequer para aliviá-las. Mas você me perdoe; não posso manter longas conversas neste lugar. Qualquer outro dia, com comodidade, contar-lhe-ei minhas aventuras; são as mais novas e originais que vossa mercê terá ouvido em todos os seus longos dias de vida.

- Não será como dizeis - falou o Licenciado -, pois gostaria que viesse à minha pousada para ali desabafarmos nossas mágoas. Além disso, tenho lá uma comida muito própria para convalescentes. Embora tenha sido preparada para dois, meu criado contentará com um pastel. E se a sua convalescença o permitir, umas fatias de presunto servirão para nos abrir o apetite. A boa vontade com que lhe ofereço, não somente agora, mas todas às vezes que vossa mercê quiser, fica acima de qualquer dúvida.

Agradeceu-lhe Campuzano, aceitando o convite e as ofertas. Foram ambos a São Llorente, onde ouviram missa e depois Peralta levou o amigo para a sua casa dando-lhe o prometido e insistindo para que repetisse. Mal Campuzano concluíra pediu-lhe Peralta que narrasse os acontecimentos que tanto o haviam abalado. 

Campuzano não se fez de rogado e pôs-se logo a falar:

- Vossa Mercê bem se lembra senhor licenciado Peralta, como fui nesta cidade amigo do capitão Pedro de Herrera, que agora vive em Fiandres.

- Bem me lembro - respondeu Peralta.

- Pois um dia - prosseguiu Campuzano -, mal acabávamos a refeição na pousada da Solana onde vivíamos, quando entraram duas mulheres de belo porte, acompanhadas de dois criados. Uma delas pôs-se logo a falar com o capitão, encostados ambos a um canto da janela. A outra se sentou numa cadeira junto à minha, cobrindo-se com o xale até o pescoço, sem deixar ver o seu rosto mais do que a transparência do xale o permitia. Embora cortesmente lhe suplicasse que se descobrisse não me foi possível consegui-lo. E para completar a história, fosse de caso pensado ou por simples acaso, ela exibiu suas mãos muito brancas e cobertas de excelentes jóias. Da minha parte, eu estava importantíssimo com aquela grande corrente que vossa mercê terá talvez conhecido, o sombreiro com plumas e cordões, o traje colorido e a arrogância de um militar, tão imponente aos olhos da minha própria vaidade que me considerava a pairar no ar. Mesmo assim, roguei-lhe que descobrisse a face, ao que ela respondeu:

"Não sejas inoportuno. Tenho minha casa; fazei com que um pajem me siga, pois embora seja mais honrada do que esta resposta sugere, quero ver se vossa discrição corresponde à vossa galhardia. Só então folgarei que me vejais."

- Beijei-lhe as mãos pela grande mercê com que me contemplava, em troca da qual lhe prometi punhados de ouro. O capitão concluíra sua conversa. Elas se foram, com seus criados atrás. O capitão me disse que a dama lhe pedira para levar algumas cartas a outro capitão, em Flandres. Dizia serem para um primo, mas ele bem sabia que eram para o amante. Eu ficara abrasado pelas mãos de neve que havia visto e ansioso pelo rosto que desejava ver. E assim, no dia seguinte, guiado pelo meu criado, fui visitá-la Encontrei uma bela residência e uma mulher de quase trinta anos, a quem reconheci pelas mãos. Não era extremamente bela, mas era-o de modo a poder nos prender pelo tato, pois tinha um tom de voz tão suave e penetrante que ia até a alma. Mantivemos longos e amorosos colóquios. Adulei, garganteei, prometi, dei enfim todas as demonstrações que me pareciam necessárias para me tornar benquisto. Mas ela parecia feita para ouvir semelhantes ou maiores ofertas e discursos. Era toda ouvidos e nenhuma surpresa. Concluindo, nossos colóquios duraram quatro floridos dias. Continuei a visitá-la sem que chegasse, no entanto, a colher o fruto cobiçado.

- Nos momentos em que a visitei - prosseguiu ele -, encontrei sempre a casa livre; jamais percebi indícios de parentes, reais ou fingidos. Servia-lhe certa moça mais astuta do que simplória. Tratando de meus amores como a um soldado em vésperas de partir, apertei finalmente à senhora Dona Estefânia de Caicedo - é esse o nome de quem assim me deixou - que respondeu: "Tola seria eu, senhor alferes Campuzano, se quisesse me vender a vossa mercê por santa. Pecadora tenho sido e ainda sou, embora não tanto que os vizinhos cochichem e os empregados comentem. Nem de meus parentes herdei coisa alguma, mas apesar disso, o que tenho aqui em casa vale - bem contados - dois mil e quinhentos escudos. E isto em coisas que, vendidas, se converterão em bom dinheiro. Com essa fortuna procuro marido a quem entregar-me e a quem obedecer. A quem, juntamente com o arranjo da minha vida, entregarei uma incrível solicitude em agradar e servir. Príncipe algum terá cozinheira mais cuidadosa ou quem melhor saiba fazer um guisado no ponto. Tanto sei dirigir uma casa como orientar uma cozinha ou receber visitas. Na verdade, sei mandar e ser obedecida.

Nada desperdiço e muito economizo. O dinheiro não vale menos e sim mais quando gasto sob minha orientação. A roupa branca que é minha é muita e da melhor, mas não foi adquirida em lojas ou com vendedores ambulantes; estes dedos e os de minhas criadas fizeram-na, e se fosse possível tê-la tecido em casa, assim teríamos feito.

Digo isso sem modéstias, pois não há mal algum quando a necessidade nos obriga a dizê-las. Acrescento ainda que, procuro marido que me ampare, dirija e honre, e não amante que se aproveite e depois saia por aí falando... Se vossa mercê souber apreciar a prenda que nesse momento se lhe oferece, eis-me aqui a vossa disposição, sujeita a tudo quanto vossa mercê ordenar, e isso sem me pôr em leilão, que é a mesma coisa que andar em língua de casamenteiros. “Não há nada para consertar o conjunto, como as suas próprias partes.”

Eu, que estava com o juízo não na cabeça, mas nos calcanhares, julgando a felicidade ainda maior do que a imaginação me pintava e, oferecendo-se-me tão à mão tal quantidade de bens - já os convertera mentalmente em dinheiro! -, sem mais comentários do que aqueles a que dava lugar à ventura (que me embrulhava o raciocínio), respondi-lhe que me sentia muito alegre e afortunado por haver-me dado o céu, quase por milagre, companheira tal, para fazê-la senhora da minha vontade e dos meus haveres, que não eram tão poucos que não valessem, junto com aquela corrente que trazia no peito e outras joiazinhas que estavam em casa, além das minhas galas de soldados, mais de dois mil ducados, os quais, juntos aos mil e quinhentos dela, formavam quantia mais do que suficiente para vivermos na aldeia onde nasci e ainda possuía alguns bens. Tais haveres, convertidos em dinheiro, renderiam seus frutos com o tempo, permitindo-nos uma vida alegre e descansada. Em suma, naquelas noites acertamos o nosso casamento e esclarecemos nossa vida de solteiros. E nos próximos três dias de festas que vieram logo pela Páscoa fizeram-se as proclamas e no quarto dia nos casamos, encontrando-se presentes dois amigos meus e um rapaz que dizia ser primo dela. Tratei-o como se fosse um parente, com amabilidades, como as que até então ele dirigira à minha nova esposa. Falava, porém com intenção tão falsa e hipócrita que prefiro ficar calado. Embora esteja dizendo apenas verdades, não são verdades de confessionário, dessas que não podem deixar de ser ditas.

O criado conduziu meu baú da pousada para a casa da minha mulher. Enfiei nele, diante dela, minha esplêndida corrente, mostrando-lhe outras três ou quatro não do mesmo tamanho, porém na melhor qualidade possível, assim como três ou quatro cintos de diversos tipos. Mostrei-lhe também as roupas e os chapéus e entreguei-lhe os quatrocentos reais que possuía para as despesas da casa. Seis dias desfrutei calmamente a lua-de-mel, como genro pobre em casa de sogro rico.

Pisei caros tapetes, amassei colchas da Holanda, iluminei-me com candelabros de prata. Almoçava na cama, levantando-me às onze horas, comendo as doze e sesteando às duas. Dona Estefânia e a criada se excediam em agrados e cuidados. Meu criado, que até ali fora lerdo e preguiçoso, tornara-se num azougue. Os momentos que Dona Estefânia não passava ao meu lado era fácil encontrá-la na cozinha, toda solícita em ordenar guisados que me despertassem o gosto e avivassem o apetite. Minhas camisas, colarinhos e lenços, pelo perfume que exalavam, pareciam um novo Aranjuez de flores, banhados que eram em água de flor de laranjeira.

Dias que passaram voando como os anos sob o império do tempo. Por ver-me tão regalado e bem servido, transformara-se em boa a má reputação com que começara aquele negócio. Ao fim deles, certa manhã - quando ainda no leito de Dona Estefânia - ouviram-se grandes batidas na porta. Ouvi a criada dizer, assomando à janela:
-
 Ah! Seja bem-vinda! Vejam só, chegou antes do que dizia na sua carta...

- Quem é que chegou mulher? - perguntei.

- Quem? - respondeu ela. - Minha Senhora Dona Clementa Bueso. Acompanhada por Dom Lope Melendez de Armendárez, dois criados e Hortigosa, a ama. - Corra mulher, e vai abrir a porta, que eu já vou - disse Dona Estefânia à criada, que parara sem saber que atitude tomar. - E vós, senhor, pelo amor que me tendes não os assusteis nem respondais em meu nome à coisa alguma que contra mim ouvires.

- Mas quem vos ofenderá ainda mais em minha presença? Dizei: que gente é essa que tanto alarma vos causa?

- Não tenho tempo para vos responder - disse Dona Estefânia -, sabei somente que tudo o que aqui se passar será fingido e visa a certo desígnio, o qual o sabereis depois.

Quis replicar-lhe, mas a senhora Dona Clementa Bueso não permitiu, pois entrou no quarto arrastando a cauda do longo vestido verde todo enfeitado com cordões de ouro, capinha da mesma qualidade, chapéu de plumas verdes, brancas e vermelhas, e um rico cinto de ouro. Metade do rosto vinha oculto por um véu leve. Em sua companhia entrou o Senhor Dom Lope Melendez de Almendárez, não menos bizarro nem menos ricamente paramentado. Dona Hortigosa foi a primeira a falar, exclamando:

- Meu Deus! O que é isto? Ocupando o leito da Senhora Clementa, e, além disso, com um homem? Estou vendo milagres hoje nesta casa! Não há dúvida de que Dona Estefânia tomou o pé pela mão e abusou da amizade da minha senhora!

- Tendes razão Dona Hortigosa, mas a culpa é minha. Não devia me aborrecer arranjando amigas que só o sabem ser quando lhes interessam!

A tudo isso, Dona Estefânia respondeu:

- Não fique aborrecida, Dona Clementa Bueso, e acredite que não é sem mistério que a senhora vê estas coisas em sua casa. Quando ficar sabendo do que realmente aconteceu, tenho certeza que haverá de me desculpar e não haverá de sua parte nenhum motivo de queixa.

A esta altura eu já vestira as calças e a camisa e Dona Estefânia me tomou pelo braço e me levou para o outro quarto e ali me disse que aquela sua amiga pretendia enganar Dom Lope, com quem pretendia se casar. Que o engano era dar-lhe a entender que aquela casa e tudo quanto nela estava lhe pertencia e disso tudo ela faria seu dote. Assim que se realizasse o casamento, pouco se lhe dava que descobrissem o engano, confiada como estava no grande amor de Dom Lope.

- E logo ela me devolverá tudo. Não se pode levá-la a mal nem a nenhuma outra mulher que procure marido honrado, embora por meios escusos.

Respondi-lhe que era uma prova de grande amizade o que pretendia fazer, e que primeiro pensasse bem porque poderia, depois, sem ter necessidade, necessitar da justiça para readquirir seus bens. Mas ela respondeu com tanta e tais razões, mostrando quantas coisas obrigavam-na a servir Dona Clementa - coisas de pouca importância, era verdade - que, embora de má vontade e com remorso, concordei com a vontade de Dona Estefânia. Assegurou-me ela que o engano duraria oito dias, durante os quais ficaríamos em casa de outra amiga sua. Acabamos de nos vestir e logo, despedindo-se de Dona Clementa Bueso e do Senhor Lope Melendez de Almendárez, disse a meu criado que carregasse o baú e a seguisse. Também eu a segui, sem me despedir de ninguém.

Dona Estefânia parou em casa de uma amiga e, antes que entrássemos, esteve lá dentro um bom tempo, falando com ela. Depois apareceu uma criada mandando que entrássemos - eu e o criado. Levou-nos a um pequeno aposento, no qual havia duas camas tão juntas uma da outra que pareciam uma só. Não havia espaço para separá-las; as cobertas pareciam beijar-se. Ali permanecemos durante seis dias e em todos eles não passou uma hora em que não tivéssemos alguma discussão. Dizia-lhe da loucura que fizera em deixar sua casa e pertences, embora fosse para a própria mãe. Durante as discussões, ela ia e vinha pelo quarto, tanto que a dona da casa, um dia em que Dona Estefânia fora ver em que pé estavam às coisas, quis saber qual a causa que me levava a discutir tanto com ela e o que fizera que tanto a ofendesse, sobretudo insistindo em dizer que fora uma notável loucura e não uma perfeita amizade o que a levara a fazer o que fez. Contei-lhe toda a história, falei que me casara com Dona Estefânia e do dote que ela trouxera. Quando lhe disse da grande tolice que fizera em deixar a casa e pertences à Dona Clementa, embora com a boa intenção de conseguir um marido do quilate de Dom Lope, começou ela a benzer-se e a persignar-se com tanta agitação e com tantos ais! Jesus! Ai! Jesus!... Que não pude deixar de ficar perturbado. Ela então me disse: "Senhor Alferes: não sei se vou contra a minha consciência ao contar-lhe o que também nela pesaria se eu permanecesse calada.

Mas, por Deus e pelo destino, seja lá o que for, viva a verdade e morra a mentira! A verdade é que Dona Clementa Bueso é a verdadeira dona da casa e dos pertences que lhe deram como dote. Mentira foi tudo quanto lhe contou Dona Estefânia. Ela não possui casa nem bens, nem outro vestido a não ser aquele que trás no corpo. E, para tornar visível esse logro, foi que Dona Clementa andou visitando parentes seus em Placêncio e dali esteve fazendo uma novena para Nossa Senhora de Guadalupe.

Neste espaço de tempo deixou Dona Estefânia cuidando de sua casa, pois são realmente grandes amigas. “Claro que não se deve culpar a pobre mulher, pois soube arranjar para marido uma pessoa como o senhor Alferes.”

Aqui ela deu fim à conversa e dei princípio eu ao meu desespero, e sem dúvida o teria prolongado se o meu anjo da guarda não acudisse, dizendo ao meu coração para não esquecer que eu era cristão e que o maior pecado dos homens era o desespero por ser o pecado dos demônios. Esta consideração, ou boa inspiração, confortou-me um pouco, mas não tanto que deixasse de apanhar a capa e a espada e saísse à procura de Dona Estefânia, com a intenção de lhe dar um castigo exemplar À sorte, porém, que não saberei dizer se melhorava ou piorava as coisas, ordenou que em nenhum lugar onde pensasse encontrá-la, ela estivesse. Fui a São Llorente e encomendei-me a Nossa Senhora; sentei-me depois num banco e com o desgosto fui tomado por um sono tão pesado que não despertasse tão cedo se não me sacudissem. Fui cheio de pensamentos e de aflições à casa de Dona Clementa e encontrei-a tão à vontade como senhora que era dos seus próprios bens; não ousei dizer-lhe nada porque Dom Lope estava presente.

Voltei à casa da minha hospedeira que me disse haver contado a Dona Estefânia como eu já sabia de toda a sua hipocrisia e falsidade e que ela lhe havia perguntado que cara fizera eu com a notícia. Havia-lhe respondido que uma cara muito má e que, segundo o seu modo de ver, eu saíra a procurá-la com más intenções e piores determinações.

Finalmente disse que Dona Estefânia carregara com tudo que estivesse no baú, sem nele deixar uma só peça de roupa sequer.

Aqui foi que a coisa se deu! Aqui me teve Deus de novo em suas mãos. Fui ver o baú, encontrando-o aberto, como um túmulo à espera do cadáver. Com boas razões seria o meu, se tivesse calma para sentir e ponderar tamanha desgraça...

- Bem esperta ela foi - disse neste momento, o Licenciado Peralta - por haver Dona Estefânia levado tanta corrente e tanto cinto, pois, como se diz todos os enterros... etc. etc.

- Esta falta nenhuma pena me deu - respondeu o alferes -, pois também poderei dizer: "Pensou Dom Simueque que me enganava com sua filha caolha e por Deus, coxo sou eu de um lado..."

- Não sei a que propósito pode vossa mercê dizer isso - respondeu Peralta.

- O propósito - disse o alferes - é de que aquele embrulho e aparato de correntes, cintos e brincos poderiam valer quando muito dez ou doze escudos.

- Não é possível - disse o licenciado -, porque a corrente que o senhor trazia no pescoço parecia pesar mais de duzentos ducados.

- Assim seria - respondeu o alferes - se a verdade fosse o que a aparência mostrava; mas como nem tudo que reluz é ouro, as correntes, os cintos e as jóias e os brincos não passavam de imitações. Estavam tão bem feitas que somente o toque ou o fogo pudessem descobrir sua qualidade.

- Assim - disse o licenciado -, entre vossa mercê e a Senhora Dona Estefânia, o jogo ficou empatado?

- E tão empatado - respondeu o alferes - que poderíamos embaralhar as cartas de novo. Mas o estrago está em que ela poderá desfazer-se das minhas correntes e eu não do laço em que caí. Sim, porque embora muito me pese, ela é minha mulher.

- Dai graças a Deus, senhor Campuzano - disse Peralta -, que ela se foi e que não estais obrigado a ir buscá-la.

- Assim é - respondeu o alferes. - Porém, com isso tudo, embora não a procure, tenho-a sempre no pensamento, e onde quer que ela esteja está presente a desonra.

- Não sei o que responder - disse Peralta - a não ser lhe trazer à memória dois versos de Petrarca:

Chi chi prende diletto di far frode Non sidé lamentar saltri linganna
- o que significa em nossa língua: "Aquele que tem o costume e o gosto de enganar a outros, não deve queixar-se quando é enganado."

- Não me queixo - respondeu o alferes -, e sim lamento, pois o culpado, nem por reconhecer a culpa, deixa de sentir pena do castigo. Bem sei que tentei enganar e fui enganado, feriram-me com as minhas próprias armas, mas não posso permitir que tais sentimentos deixem de vir à tona. Finalmente o que mais importa no meu romance - que tal nome se pode dar à narrativa das minhas aventuras - é ter sabido que Estefânia se fora com o primo, o mesmo que se encontrava em nosso casamento e tempos atrás fora seu amigo para todas as coisas.

Não quis procurá-la para não encontrar o mal que me faltava. Mudei de pousada e de cabelo em poucos dias, começaram a cair-me os pêlos das sobrancelhas e dos cílios antes do tempo: arrumaram-me uma doença que chama calvície. Achei-me deveras limpo: não possuía nem cabelos para pentear nem dinheiro para gastar. A enfermidade caminhou ao mesmo passo da minha miséria, e como a pobreza atropela a honra e a uns leva à forca outros ao hospital e a outros ainda os faz bater nas portas dos seus inimigos com pedidos e súplicas, o que é uma das maiores desgraças que pode acontecer a qualquer infeliz, e por não ter podido cuidar das roupas que me protegeriam e assegurariam a saúde, ao chegar o tempo em que se dão os suadouros no Hospital da Ressurreição para ele me dirigi e nele tomei quarenta suadouros. Dizem que ficarei curado, se me tratar. Espada ainda possuo; o resto Deus irá de remediar.

Miguel de Cervantes