terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

SÁTIRA POLÍTICA

«O Embuste»
Sátira Política

O EMBUSTE

O querer reformar
Tem muito que se lhe diga,
Reformas à moda antiga
Acabam por não resultar.
Conselho que posso dar:
Não votem em camaleão
Que já foi falso à Nação,
Ou em monhé  palrador
Com ar d'anjinho salvador…
Mais do mesmo é que não!

POETA

OUTROS CONTOS

«A Lua», conto de Jacob e Wilhelm Grimm.

«A Lua»
O Luar na Anta/ JPGalhardas

427- «A LUA»

Em tempos que já lá vão havia uma terra onde a noite era sempre escura e o céu estendia-se sobre ela como um lenço negro, pois ali a Lua nunca subia e nenhuma estrela piscava na escuridão. Na altura da criação do mundo, a luz da noite era suficiente. Uma vez, saíram desta terra em peregrinação quatro rapazes e chegaram a um outro reino onde, quando à noite o Sol desaparecia atrás dos montes, havia uma esfera brilhante pendurada num carvalho, que deitava uma luz suave em todas as direções. Devido a ela, era possível ver e distinguir tudo muito bem, embora não fosse uma luz tão forte como a do Sol. Os rapazes pararam e perguntaram a um lavrador, que passava por ali com o seu carro, que luz era aquela. “Aquilo é a Lua”, respondeu ele, “o nosso prefeito comprou-a por três moedas e pendurou-a no carvalho. Tem de lhe deitar óleo todos os dias e mantê-la limpa, para que ela não deixe de brilhar. Por isso, pagamos-lhe uma moeda por semana.”

Assim que o lavrador partiu, disse um deles: “Esta lanterna fazia-nos jeito, também lá temos um carvalho, tão alto como este, onde a podemos pendurar. Que grande alegria deixar de tropeçar na escuridão!” “Sabem que mais?”, disse o segundo, “precisamos de arranjar um carro e um cavalo e levar a Lua embora. As pessoas daqui bem podem comprar uma outra.” “Eu trepo com muita facilidade”, disse o terceiro, “trago-a já para baixo!” O quarto trouxe um carro e um cavalo e o terceiro trepou pela árvore acima, fez um buraco na Lua, passou-lhe um fio e fê-la descer. Assim que a Lua brilhante ficou dentro do carro, deitaram-lhe um lenço por cima, para que ninguém se apercebesse do roubo. Levaram-na sem problemas para a sua terra e penduraram-na num carvalho. Velhos e novos alegraram-se, quando a nova lanterna começou a estender a sua luz sobre os campos e os quartos e salas se encheram dela. Os anões saíram dos seus buracos nas rochas e os pequenos elfos, com os seus casacos vermelhos, faziam rodas nos prados.

Os quatro rapazes tratavam da Lua com óleo, limpavam a mecha e recebiam a sua moeda semanal. No entanto, envelheceram e quando um deles adoeceu e se apercebeu de que a morte estava próxima, ordenou que o quarto de lua que lhe pertencia fosse levado com ele para a sepultura. Quando morreu, o prefeito trepou à árvore e, com a tesoura da poda, cortou um quarto da Lua que meteu no caixão. A luz da Lua diminuiu, mas não muito. Quando morreu o segundo, foi-lhe dado o segundo quarto e a luz minguou. Mais fraca ficou ainda quando morreu o terceiro, que também levou o seu quarto e, quando o quarto homem foi sepultado, instalou-se de novo a velha escuridão. Sempre que as pessoas saíam à noite sem lanterna, batiam com as cabeças umas nas outras.

Porém, assim que os quartos da Lua se juntaram no inferno, os mortos, habituados à escuridão, agitaram-se e acordaram do seu sono. Ficaram espantados por poderem ver de novo: a luz da Lua chegava-lhes bem, pois os seus olhos estavam tão fracos que não teriam podido suportar a luz dos Sol. Ergueram-se, alegraram-se e retomaram os seus hábitos de vida. Alguns deles dedicaram-se ao jogo e à dança, outros foram para as tabernas onde pediram vinho, embriagaram-se, vociferaram e lutaram e, por fim, pegaram em cacetes e bateram uns nos outros. O barulho era cada vez maior até que, por fim, chegou ao céu.

São Pedro, que guarda as portas do céu, calculou que o inferno se tinha revoltado e chamou as hostes celestes, que lutavam contra o maligno, porque este e os seus associados pretendiam assolar a morada dos abençoados. Como, porém, elas não vinham, São Pedro montou no seu cavalo, atravessou as portas do céu e foi ao inferno. Aí sossegou os mortos, fê-los voltar de novo à sepultura e levou com ele a Lua, pendurando-a no céu.

Jacob e Wilhelm Grimm

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

Thunder
One Bullet

THUNDER - «One Bullet»
One Bullet by Thunder on Grooveshark
Poet'anarquista

UMA BALA

Uma bala, uma arma
Um morto, mas todos nós sangramos filho
E você sabe que é uma vergonha

Uma vida, mais lágrimas
Eu não posso acreditar que isso está acontecendo aqui
Deus sabe o que é uma vergonha

Dê uma olhada na América
Porque é tarde demais
Uma vez que o cavalo foi executado
Você não pode voltar atrás e fechar o portão

Se alguma vez olhar o dia
Quando toda a inocência se foi
Diga-me, o que nos tornamos?

Uma criança no caminho
Hora errada no lugar errado
E você sabe que é uma vergonha

Jovem demais para viver com medo
Mas você não tem o tempo
Para ser uma criança por aqui
O Senhor sabe que é uma vergonha

Você não deveria ter que se preocupar agora
Quando você mal chegar a quinze
Você tem o suficiente para lidar de qualquer maneira

Se não podemos proteger os jovens
De si que parece
Estamos vendo como nosso futuro desliza

Porque neste enlouquecido novo milénio
Ainda temos muito a aprender?
Diga-me por favor
Quando fica claro no passado cada criança assustada correria
Agora ele está envolvendo o punho em volta de uma arma
E alguém morre

Uma bala, uma arma
Um morto e todos nós sangramos filho
E você sabe que é uma vergonha

Uma vida, mais lágrimas
Eu não posso acreditar que isso está acontecendo aqui
E você sabe que é uma vergonha

Você sabe que é uma vergonha

Thunder

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

DÉCIMA CARNAVALESCA

Décima Carnavalesca
Carnaval 2015/ Alandroal

DANÇA MEXICANA

Bombas, e «la mexicana»*
Para a foto de Carnaval,
A Presidente do Alandroal
De mondadeira alentejana.
Terça-feira da semana
Que brincadeira estupenda,
Na foto também a Ausenda
Mais a minha colega Edite…
Três mondadeiras de elite,
E um mexicano de prenda!

POETA
*«la mexicana» - dança mexicana

GAIOLA ABERTA

Rebobinando...
«O Prepotente»
José Vilhena

O PREPOTENTE

O 25 de Abril?
Ó minha senhora!...
Matei-o na hora
Com tiro de fuzil.
Explicação subtil...
Tinha de me governar!
Pra isso tive d’ enganar
Quem em mim confiou…
Fui eu que o atraiçoou,
E depois mandei fuzilar!!

POETA

OUTROS CONTOS

«Anos Quarenta, os Meus», conto poético de Luiza Neto Jorge.

«Anos Quarenta, os Meus»
Cinco Moças de Guaratinguetá/ Di Cavalcanti

426- «ANOS QUARENTA, OS MEUS»

De eléctrico andava a correr meio mundo
subia a colina ao castelo-fantasma
onde um pavão alto me aflorava muito
em sonhos à noite. E sofria de asma

alma e ar reféns dentro do pulmão
( como um chimpanzé que à boca da jaula
respirava ainda pela estendida mão ).
Salazar três vezes, no eco da aula.

As verdiças tranças prontas a espigar
escondiam na auréola os mais duros ganchos.
E o meu coito quando jogava a apanhar
era nesse tronco do jardim dos anjos

que hoje inda esbraceja numa árvore passiva.
Níqueis e organdis, espelhos e torpedos
acabou a guerra meu pai grita "Viva".
Deflagram no rio golfinhos brinquedos.

Já bate no cais das colunas uma
onda ultramarina onde singra um barco
pra cacilhas e, no céu que ressuma
névoas águas mil, um fictício arco-
-irís como é, no seu cor-a-cor,
uma dor que ao pé doutra se indefine.
No cinema lis luz o projector
e o FIM através do tempo retine.

Luiza Neto Jorge

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(23 de Fevereiro de 1685, nasce o compositor alemão, autor de «Messias», 
Georg Friedrich Handel)

George Friedrich Handel
Compositor Alemão

HANDEL - «Water Music»
Poet'anarquista

domingo, 22 de fevereiro de 2015

OUTROS CONTOS

«A Meio do Atlântico», conto poético por Stefan Zweig.

«A Meio do Atlântico»
Conto Poético de Stefan Zweig 

 425- «A MEIO DO ATLÂNTICO»

a língua arde. queima
o coração, as veias, as células.
entre duas árvores, a corda
aperta a garganta. dissolve o anel e a saliva –
essa melodia
no interior do dragoeiro.

o incêndio alastra, sempre de negro.
sobe a escada, coloca sobre os olhos essa espada.
a língua arde. deixa entre as cinzas
vestígios de sombra. nada mais encontro
entre os escombros. antes da derrocada
levo para longe a última gota de sangue.
a saliva preenche o desespero,
o sopro do oceano.

fico deste lado, junto do medo.
tento salvar a última fronteira.
deixei este livro no sopé da montanha.
consigo ler. os símbolos
contudo têm pouca nitidez – 
mesmo quando os entendo.

a língua arde. a flama acompanha-nos
neste forno. a chama desfaz
os ossos e o cabelo, o anel
e a melodia onde tento navegar.

de que vale cruzar o horizonte
quando a cinza guarda rebentos e palavras?
o incêndio alastra
deste lado do oceano. o sal lava o corpo
e a linguagem. o fogo devora a distância.
este fogo

encontra no coração
(na terra?)
essa ave nascida no início.

Stefan Zweig

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

Black Sabbath
Master of Insanity

BLACK SABBATH - «Rusty Angels»
Rusty Angels by Black Sabbath on Grooveshark
Poet'anarquista

ANJOS RUSTY

Elas dizem que você veio do céu, mas eu sei que essa não é a verdade 
Porque eu não acho que um anjo poderia se parecer em nada com você
Seus olhos são feitos de safira e seu coração é feito de pedra
Você só pode ser a coisa mais próxima do ódio que eu já conheci
E se eu não soubesse bem, eu diria que você veio sozinha...para a festa. Oh, yeah...
A luz está sempre brilhando, mas você jura que ela ficou escura
A maré está sempre mudando, mas você nunca olha pra trás

Se eu não soubesse bem eu diria que tempos foram muito ruins
Porque anjos enferrujados não podem voar
Anjos enferrujados vão morrer...yeah!
Porque anjos enferrujados não podem voar
Anjos enferrujados vão morrer...vão morrer
Os presentes que você traz são de fogo e os seus sonhos viraram pó
Seus dias de voar estão terminados e suas asas viraram ferrugem

Se eu não soubesse bem eu diria que tudo o que você tem está perdido
Porque anjos enferrujados não podem voar
Anjos enferrujados vão morrer
Porque anjos enferrujados não podem voar
Anjos enferrujados vão morrer...vão morrer
Se você engolir só um pouco de orgulho, 
pode ser que você encontre um pouco de amor aí dentro
Abra-se e deixe que alguém entre porque se você precisa de alguém, 
você sabe que isso não é pecado

Oh, yeah...

Porque anjos enferrujados não podem voar
Anjos enferrujados vão morrer...yeah!
Porque anjos enferrujados não podem voar...não...
Anjos enferrujados vão morrer...vão morrer

Yeah, yeah... Você não pode voar...
Vai morrer...Oh, yeah...
Você não pode voar...Oh, não...

Black Sabbath

sábado, 21 de fevereiro de 2015

OUTROS CONTOS

«Nenhum Caminho para o Paraíso», por Charles Bukowski.

«Nenhum Caminho para o Paraíso»
Conto de Charles Bukowski

424- «NENHUM CAMINHO PARA O PARAÍSO»

Eu estava sentado em um bar na avenida Western. Era perto da meia-noite e estava metido em uma das minhas habituais confusões. Quero dizer, você sabe, nada dá certo: as mulheres, os trabalhos, a falta de trabalhos, o tempo, os cães. Por fim, você simplesmente senta em uma espécie de estado de transe e espera como se estivesse no banco da parada de ônibus aguardando a morte.

Bem, estava sentado lá e então chega essa mulher com cabelo preto e longo, bom corpo, olhos castanhos e tristes. Não me virei para olhá-la. Ignorei-a, mesmo ela tendo sentado no banco ao lado do meu, quando havia uma duzia de outros lugares vagos. Na verdade, éramos os únicos no bar, exceto pelo balconista. Ela pediu um vinho seco. Depois me perguntou o que eu estava bebendo.

-  Scotch com água.

- Dê-lhe um scotch com água - ela disse ao balconista.

Bem, isso era incomum.

Abriu a bolsa, removeu uma pequena gaiola de arame e tirou algumas pessoas pequenas e as colocou no balcão. Tinham todos aproximadamente dez centímetros de altura e estavam vivos e bem vestidos.

Havia quatro deles, dois homens e duas mulheres.

- Fazem desses agora - ela disse. - São muito caros. Custaram quase dois mil dolores cada um quando comprei. Agora estão chegando aos 2.400 dólares. Não sei como são feitos, mas provavelmente é coisa fora da lei.

As pessoas em miniatura estavam caminhando por cima do balcão. Repentinamente um dos pequenos homens deu um tapa na cara de uma das mulheres. 

- Sua vagabunda - ele disse - , já chega!!

- Não George, você não pode - ela gritou -, eu te amo! Vou me matar! Tenho que ter você!

- Não me importo! - disse o pequeno sujeito e puxou um cigarrinho e o acendeu. - Tenho direito de viver.

- Se você não a quer - disse outro sujeitinho -, fico com ela, eu a amo.

- Mas eu não quero você, Marty. Estou apaixonada pelo George.

- Mas ele é um idiota, Anna, um idiota completo!

- Eu sei, mas o amo de qualquer forma.

O idiotinha caminhou pelo balcão e beijou a outra mulherzinha.
- Estou com um triângulo amoroso em andamento - disse a mulher que havia me pagado uma bebida. - Esses são Marty e George e Anna e Ruthie. George vai se dar mal, muito mal. Marty é meio quadrado.

- Não é triste ver tudo isso? Errr, qual o seu nome?

- Dawn. É um nome terrivel. Mas é o que as mães fazem com suas crianças às vezes.

- O meu é Hank. Mas não é triste...

- Não, não é triste observar isso tudo. Não tive muita sorte com os meus próprios amores, péssima sorte, aliás...

- Passa o mesmo com todos nós.

- Parece que sim. De qualquer forma, comprei essas pessoinhas e agora fico olhando elas. E é como ter e não ter esses problemas. Mas fico muito excitada quando começam a fazer amor. É aí que fica dificil.

- São excitantes?

- Muito, muito excitantes. Meu Deus, me deixam louca!

- Por que você não os obriga a fazer sexo? Quero dizer agora. Ficaremos olhando juntos.

- Não se pode forçá-los. Têm de fazer por conta própria.

- Com que frequencia acontece?

- Oh, eles são bem bons. Quatro ou cinco vezes por semana.

Estavam caminhando pelo balcão.

- Escute - disse Marty -, me dê uma chance. Apenas uma chance,  Anna.

- Não - disse Anna. - Meu coração pertence ao George. Não pode ser de nenhuma outra maneira.

George estava beijando Ruthie, apalpando seus peitos. Ruthie estava ficando excitada.

- Ruthie está ficando excitada - Eu disse a Dawn.

-  Está, está mesmo.

Eu também estava ficando. Agarrei Dawn e a beijei.

- Escute - ela disse. - não gosto que eles façam sexo em público. Vou levá-los para casa e colocá-los para transar.

- Mas aí não poderei olhar.

- Bem, terá que vir comigo.

- Tudo bem - respondi. - Vamos lá.

Acabei minha bebida e saímos juntos. Ela carregava as criaturas em uma pequena gaiola de arame. Entramos no carro dela e colocamos o pessoal entre nós, no banco da frente. Olhei para Dawn. Era realmente jovem e bonita. Parecia ser boa também por dentro. Como podia ter fracassado com os homens? Há tantas maneiras de as coisas saírem erradas. Os quatro pequenos custaram-na oito mil. Tudo isso para se afastar de relacionamentos e na verdade não se afastar de relacionamentos.

A casa era perto dos morros, um lugar com uma aparência agradável. Descemos do carro e caminhamos até a porta. Segurei a gaiola com os pequenos enquanto ela abria a porta.

- Ouvi Randy Newman semana passada no The Troubador. - Ele não está ótimo? - perguntou.

- Sim, é ótimo.

Entramos na sala, e Dawn tirou os pequenos da gaiola e os colocou em uma mesinha. Então caminhou até a cozinha, abriu o refrigerador e pegou uma garrafa de vinho. Trouxe dois copos.

- Perdão - ela disse. - Mas você parece um pouco louco. O que você faz?

- Sou escritor.

- E irá escrever sobre isso?

- Ninguém jamais acreditará, mas vou.

- Olha - disse dawn. - George tirou as calcinhas de Ruthie. Ele está enfiando os dedos nela. Gelo?

- Sim, está fazendo isso. Não, sem gelo. Puro está ótimo

- Não sei o que acontece - disse Dawn -, mas fico realmente excitada quando os observo. Talvez seja porque são tão pequenos. Realmente me excita.

- Entendo o que quer dizer.

- Olhe, o George está chupando ela.

- É mesmo.

- Olhe pra eles!

- Deus do céu!

Agarrei Dawn. Ficamos ali em pé nos beijando. Enquanto isso, seus olhos iam dos meus para eles e novamente para os meus.

O pequeno Marty e a pequena Anna também estavam olhando.

- Olhe - disse Marty -, eles vão trepar. Nós bem que podíamos trepar também. Até os grandes vão transar. Olhe pra eles!

- Você ouviu isso? - perguntei a Dawn. - Eles disseram que nós vamos trepar. É verdade?

- Espero que sim - disse Dawn.

Levei-a para o sofá e levantei o vestido acima da cintura. Beijei seu pescoço.

- Eu te amo - eu disse.

- Mesmo? Ama?

- Sim, de alguma forma, sim...

- Tudo bem - disse a pequena Anna ao pequeno Marty. - Também podemos trepar, mesmo que eu não ame você.

Eles se abraçaram no meio da mesinha. Eu já tinha tirado a calcinha de Dawn. Ela gemia. Ruthie gemia. Marty se aproximava de Anna. Estava acontecendo por toda parte. Tive a ideia de que todas as pessoas do mundo estavam trepando. Então esqueci do resto do mundo. De alguma forma fomos para o quarto. Então penetrei Dawn para a longa e lenta cavalgada.

Quando ela saiu do banheiro, eu estava lendo uma história muito idiota na Playboy.

- Foi tão bom. - ela disse.

- O prazer foi meu - respondi.

Ela voltou para a cama. Pus a revista de lado.

- Acha que daremos certo juntos? perguntou

- O que quer dizer?

- Acha que vamos conseguir ficar juntos por algum tempo?

 Não sei. Coisas acontecem. O começo é sempre mais fácil.

Então ouvimos um grito vindo da sala.

- Ai, ai - ela disse.

Saltou da cama e correu para a sala. Segui logo atrás. Quando cheguei lá, ela estava segurando George nas mãos.

- Oh, meu Deus!

- O que aconteceu?

- Foi a Anna!

- O que tem a Anna?

- Cortou fora as bolas dele! George é um Eunuco!

- Uau!

- Pegue papel higiénico, rápido! Ele pode sangrar até morrer!

- Esse filho da puta - disse Anna da mesinha -, se não posso ter George, ninguém terá.

- Agora vocês duas são minhas! - disse Marty.

Não, agora você tem que escolher uma de nós - disse Anna.

- Então, com qual vai ficar? - perguntou Ruthie.

- Amo as duas - disse Marty.

- Parou de sangrar - disse Dawn. - Ele está frio.

Ela embrulhou George em um lenço e colocou sobre a borda da lareira.

- Quero dizer - seguiu Dawn - que se você acha que não daremos certo, não vou insistir.

- Acho que amo você, Dawn.

- Olhe, - ela disse. - Marty está abraçando Ruthie!

- Vão trepar?

- Não sei. Parecem excitados.

Dawn pegou Anna e a colocou na gaiola de arame.

- Deixe-me sair daqui! Vou matar os dois! Deixe-me sair daqui! 

George tremeu de dentro do lenço sobre a borda. Marty ja tirara a calcinha de Ruthie. Puxei Dawn para perto de mim. Era bonita e jovem e boa por dentro. Eu podia estar apaixonado novamente. Era possível, nos beijamos. Mergulhei fundo em seus olhos. Então emergi e comecei a correr. Eu sabia onde estava. Uma barata e uma águia faziam amor. O tempo era um idiota com um banjo na mão. Continuei correndo. Seu cabelo longo caía sobre meu rosto.

- Vou matar todo mundo! gritava a pequena Anna.

Agitava-se na gaiola de arame às três horas da manhã.

Charles Bukowski

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

Otis Redding
Live in Europe

OTIS REDDING - «Gettin' Hip»

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

CARTOON versus DÉCIMA

O Preço da Dignidade
HenriCartoon

O PREÇO DA DIGNIDADE

A Troika fez o que quis
Contra os portugueses...
E a declaração é infeliz?
Não digas estupidezes!
 Mandas bafio a fezes,
Tresanda o mau odor,
De cócoras é um horror
Esse cheiro pestilento…
Eu cá já não aguento
Dignidade de impostor!

POETA

DÉCIMA ÀS DESTINATÁRIAS

Uma mata:
- Foi o teu colega Cabé que te pegou o mal... amanhã castiga-o! 

Outra esfola:
- Ah pois, foi de certeza!

«Judith e Cúmplice Massacrando Holofernes»
Artemísia Gentileschi

AO CUIDADO DAS DESTINATÁRIAS…

Uma diz que peguei o mal
E dá por conselho castigo,
A outra apunhala o amigo
Com sarcasmo intencional!
Camaradagem muito leal
Que me culpa do contágio,
Já vem sendo apanágio
Castigar o pobre inocente…
Contra duas não é decente,
Só pode ser mau presságio!

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

Def Leppard
«Criança de Guerra»

DEF LEPPARD
«Cause We Ended as Lovers»

OUTROS CONTOS

«Os Reis Magos», por Vitorino Nemésio.

«Os Reis Magos»
A Adoração dos Magos/ El Greco

423- «OS REIS MAGOS»

[...]

Pois se comeres as sopas, conto-te... Foi o que disse a Avó. E, porque as comi todas, até chorar por mais, e não deixei nada na tigela, e fui muito bonito para ser ainda mais gordo, sempre contou.

Contou que, noutros tempos (ainda os burros falavam!), lá por uma estrada fora iam andando três senhores. 

Cada qual o de mais teres, logo os vereis! — não eram pimpões nem soberbões. Trajavam de imperadores, com grandes mantos de pelúcia, cheios de anéis de pedras finas e de coroas à cabeça. Tinha cada um seu ceptro com que espertava a mula (pois iam escanchados), e na ponta de cada um daqueles pauzinhos de prata uma pomba poisava o pé leve, cortado no puro oiro.

Só te digo que em riqueza ninguém lhes passava a perna — pois só visto aquele asseio e tenteado ao pé pelo Sr. Matos (que é um ourives dos primeiros) se podia dizer quanto valiam. Mas nem por terem tantos cabedais e aquelas honras todas (o seu dá-se a seu dono) aqueles grandes figuros eram toleirões. Não! Eles, que tanto podiam, e tinham baraço e cutelo, e às portas de palácio árvores de galho rijo para enforcar os salteadores; eles, que eram abaixo de Deus, e, assim, podiam matar e ferir sem apelação nem agravo, e intimarem os pobres a porem para ali o seu dinheiro, a novidade e a honra das virgens (hein?!...), pelo contrário, eram mansos, e tinham falas de mansos.

Nas noites frias de gelo em que os telhados voavam, se punham pingando as borralheiras e um vento forte sacudia as arcas do pão sem migalha, desciam os três Reis de seus tronos, talhados na pedra-mármore, e lá iam de rota batida... A lama enlameava os seus saiotes guarnecidos. A chuva, basta e impertinente, dava-lhes bofetadas na cara. Atrás, pingando, iam os serventes carregados. E então, parando às portas dos cegui-nhos, dos rotos, dos que tiravam uma esmola, e dos cavadores que tinham a enxada e o alvião desencavados, faziam as reais mesuras dando boa-noite a todos:

— Deus esteja e Deus venha!

— Deus esteja nesta casa!

Um dia, um aleijado atrevido, uma espécie de Tintaleis, respondeu com uma graçola:

— ... E o Diabo em casa dos frades! (pois já nesse tempo havia frades).

Então os criados, que marchavam à cernelha das mulas, aliviavam-se dos presentes e enxugavam o suor debaixo dos barretes. Tiravam as colchas de seda de riba dos cestos e a verdura dos alguidares. E, por suas próprias mãos, os Reis davam bodo de brindeiras e repartiam cobertores à pobreza.

Isto enchia a casa ao prove como um pegão de vento enche o portal da Matriz. E era um regalo! Era como se, duma caixa fechada, muitas pombas juntas levantassem voo à uma e ficassem poisadas nos tirantes... Até parecia que os céus também gostavam daquilo! Ao longe fugiam as nuvens como latas de água às costas duma fiada de papões, e a armação do céu punha o seu toldo azul, todo pregado de estrelinhas.

Era debaixo deste pálio que os Reis tornavam a palácio, cansados da caminhada. Cada passada real atirava um respingo ao real manto. E em grande estadão, com uma procissão de velhinhas atrás, entravam por aqueles portões de ouro, que se abriam de par em par enquanto um criado ia acordar o sineiro da capela para repicar dobrado.

Estas coisas sucediam em Oriente, que era o reino dos Reis. Ora um dia (por tal sinal, uma noite em que chovia a potes), os três Reis encontraram-se num grande salão com paredes que nem muralhas. De roda havia tamboretes de coiro e de pregaria amarela, como o cadeirão carunchoso em que o mestre Francisco da Cadeia bate sola e põe tacões. Somente os do palácio real eram tão lindos, tão lindos, que pareciam pregados para os assentos celestes das Potestades e dos Anjos!

Nestes bancos se assentavam os Reis e a corte de seus senhores. Os Reis tinham artes e mandingas, por isso lhes chamavam Magos. Senhoras lindas como o sol bordavam-lhes os xairéis das muares. Tocadores de muita fama repenicavam--Ihes nas violas. Cantadores, de garganta tratada a gema de ovo, cantavam-lhes trovas ao despique. E uns afilhados que eles tinham, filhos de gente pobre mas vestidos de «infantes suavíssimos», brincavam com piões de marfim, atados com fieiras de seda. (Podiam jogar à vontade, que o chão era de pedra: não lhe faziam furos).

A parede-mestra da sala tinha uma parte em falso, defumada das cozeduras, onde os clarões das lavaredas dançavam a chamarrita acompanhados de estalinhos. Aquilo dava ali um santo sabor, minado de cepos e de achas cobertos de flocos de resina como tetas de cabra ordenhada. Todos gostavam muito daquele borralho brando e estavam para ali quietinhos, a esfregar as mãos de contentes.

Eis senão quando, começam a repenicar as toeiras das violas e um dos reis põe-se a pé e vai espairecer à janela. Era um janelão cortado na parede, funda de um metro e meio, com duas copeiras enfeitadas de rosmaninho e de alfazema. Um grande alegra-campos arregalava o olho vermelho como besu-go. E o Rei, arredando os cortinados e abrindo uma gretinha, meteu a cabeça coroada da sua coroa de bicos como a de São Luís, Rei de França. Era o próprio Melchior. Outro chamava-se Gaspar, dono duma ladeira... O outro, negrmho de todo, assinava-se — Baltasar.

Então, abrindo muito os olhos, vivos e azuis como o céu, parando um pouco, depois recuando um bocado como se achasse uma prenda ou visse, chinchinho, um brinquedo, El--Rei Melchior pôs as mãos, abriu-as devagar e ficou como o padre a meio da missa, com os olhos muito abertos.
Lá dentro, as violas repicavam. Cá fora, estiara um poucochinho. Da tapada, toda coberta de arvoredo, começaram a sair e a cantarolar os tentilhões namoradeiros, os canarinhos afitados, mais «o ladrão do melro preto onde foi fazer o ninho»... Um quarto de lua, doce, como uma foice de roçar, estava estampado a primor na página azul do firmamento. E, no sobredito, a tremer, a luzir e a arrefiar como um olho, uma estrela pingava, qual brinco numa orelha de menina.

El-Rei Melchior ficou o que se chama palrísto! Pois que logo, estendendo de lá seu braço de oiro, a estrela escreveu, mesmo sem pauta, as seis palavras seguintes nos vidros suados da janela:

Eu sou a estrela de Deus.

Melchior curvou a cabeça e entendeu o resto, que era simples: 

Segue-me como um cão!

Gaspar acompanhou-o, e o outro também. Partiram os três em três mulas, levando três cofres e três pajens, direitinhos por aí fora. E então, até que chegassem a um sítio chamado Jerusalém, apanharam, coitados, a geada e o frio todo deste mundo!

A pé e calados, os pajens carregavam com os cofres onde iam as prendas de valia. Como naquele tempo não havia estradas — nem sequer para reis! — os caminhos eram regos abertos e acalcados entre as terras. A beira deles debruçavam--se as árvores chocalheiras. Como as canadas de Santo António, os atalhos tinham relheiras onde as mulinhas entalavam as suas fracas ferraduras. Mas, mesmo assim, no meio de tantos tormentos e trabalhos, Suas Majestades caridosas escorregavam dos albardões para escancharem caminhantes. Uns eram velhos sem poderem; outros, capengas, como o Francisco Cambadinho. Uma tia torta, outra cambada, outra cega, sem orelhas, abalaram a trote, repimpadas, nem que fossem rainhas!

Até que Jerusalém, lá longe, se avistou. Aí, os Reis disseram a Herodes — que era da igualha deles, Rei de Espadas e de Oiros! — queriam saber onde estava o Rei dos judeus que era nascido. E, como Herodes não sabia de nada, chamou a si os escreventes do seu povo e os príncipes dos seus sacerdotes. Esta gente usava a barba toda (uns mais rala, outros mais basta), e guardavam, em arcas encoiradas, medas e medas de livros cheios de traça e de sabença. Molhando o dedinho, os escribas iam virando aquelas folhas amareladas — quando um deles, lá do canto, muito invernizadinho e de óculos quadrados, levantou o dedo ao ar, feito bicho saltão. Parecia mesmo empregado na Conservatória! Um pândego!

Enfim, tinha achado! Ele cá estava! Um profeta escrevera a folhas tantas, verso, do Livro da Nova e do Destino, que em Belém de Judá viria ao mundo o Cristo Nosso Senhor. Ora, isto foi tal qual como deitar o bando para se achar um tesoiro... Os Reis Magos então disseram adeus a Herodes, que lhes pediu que mandassem a direcção do Deus Menino. E, nas três mulas, que já suavam em bica amarradas às argolas e estraçoando farelada e luzerna, alçaram as pernas e partiram.

Então a estrela dependurou-se-lhes na dianteira como um pobre lampião, e guiou-os. Pôs-se a chover outra vez. Seguiam por valados e por hortas, encharcados até às virilhas. De vez em quando encontravam peregrinos enregelados que diziam mal da vida; e Gaspar, que era velhote e gebo, gemia do alto do albardão para Baltasar ou o outro:

— Faltará muito, seu Meíchior?!...

El-Rei Meíchior olhava, coitado, para a estrela, que luzia sempre e ia baixando pouco a pouco, como o ponteiro dum relógio todo cravejado a safiras. Mas vinha um dos pajens, forte moço, com um alento de gigante, e dava uma arroxadinha nas ancas da mula de Gaspar com o seu pingalim de espadana. Eles, tontos de sono, despertavam. E assim calados, tuca, tuca, foram indo...

Mas já as bocas do céu ao pé da terra, a que alguns chamam horizontes, se iam abrindo devagar para engolir a noite e se tornavam cor-de-rosa. Devagar, sobre silvados em flor, passarinhos sem medo daqueles piques punham seus pés mimosos. As poças de chuva espalhadas, que tinham espelhado as estrelas, agora clareavam, clareavam como quem vai acender-se. Urzes, giestas e roseiras esgalhavam os seus ramos cheios de flores pelas pontas. Rompia a madrugada.

O pajem de Meíchior (que ou eu estou enganada ou era o da naveta de incenso) ia a fumar o seu cigarro quando empeçou numa cancela de pinho, ao pé dum molho de palha. A tampa da naveta abriu-se, caiu-lhe uma brasa dentro, e foi preciso borrifar o incenso com água, senão ardia tudo. (Como vês, meu menino, iam todos seis cheirosos). Depois, com o subir da manhã, começaram a topar muita gente.

— Gaspar! Vês aquilo acolá, aqueles pontinhos, ali? — A Gaspar pareciam mexer. Meíchior tornava:

— Será gente que ali vai, Gaspar?

O velho encolhia os ombros, fartinho de cavalgar. Mas era. Foram-se aproximando e viram que era verdade. Eram pastores com cordeiros escarranchados ao pescoço; velhas, como a Jaleca, com cestas de ovos grossos, de pata marreca e de galinha; raparigas frescas moças com rosquilhas enfiadas nos braços. Um homem calvo e negrinho, que nem o Manuel de Borba, tocava um gueixo lavrado que revirava o focinho e berrava como quem se despede deste mundo. Tinham-no tirado da tetinha da mãe, coitadinho! Agora, em lugar de leite, tinha que mamar num molho de erva da casta que o velho levava de braçado!

Mais adiante, um pescador, que parecia o Manuel Vesgante, ia todo prezado com duas ricas bocas-negras enfiadinhas num junco. E, numa bandeja forrada de rendas e de mimo-de-estudante, um pequeno que nem o da Segunda levava um serviço de alfenim, todo de pombas de açúcar com olhos de grão de ervilhaca.

Todo aquele povaredo ia saltando de contente pelos caminhos fora. E, topando-os, a passo, El-Rei Meíchior, mais traseiro que os outros, perguntou a um cabreiro:

— Sempre quero que me digais aonde ides com essa pressa e com tanta recolaria...

— A Belém! A Belém de Judá! Ver o Infante!

— Eia pois, que é nascido?

— Entre as bestas, vós o dizeis! — respondeu o criador do bezerro.

E gritaram em coro:

— A Belém! Ao Deus Menino!

Então um cego como o Pacheco tirou a rabeca do sovaco; Jé António enroscou o clarinete; Jé Cardoso Patinho escorreu o cuspo dos pistons, e, levando o bocal do cornetim ao bigode, armaram ali logo um Pezinho que nem o do bodo das Tronqueiras. Uma rapariga, que levava um açafate de pão alvo e tinha uma garganta de prata, botou a sua cantiga:

— Ó meu Menino Jesus, 
Que é da vossa camisinha?
— Ficou-me lá em Belém 
No colo duma freirinha.

Melchior, Gaspar e o outro rei puxaram das suas patronas e atiraram punhados de dinheirama em prata e em cobre ao povo. Os pastores bradaram, à uma:

— Vivam Suas Majestades! A Belém! A Belém!

Estavam já todos no presépio. Ali parou a estrela e derreteu--se no céu azul, azul que eu sei cá!... Da banda de fora do portão as três mulas roíam erva, com os estribos encruzados nos albardões, dando ao rabo. Quando, muito contentinhos, os Reis começaram a bailar como quem se despede deste mundo. Já tinham dado os presentes: o oiro, o incenso e a mirra. Os pastores já tinham entregado as suas ofertas. E todos, de joelhos, tinham adorado o Menino com tanto fervor, tão de dentro, cheios de tanta alegria, que a vaca e a burrinha em tabernáculo largaram-se a berrar e a zurrar de puro contentamento.

Os velhos Reis dançavam, dançavam!... Era um bater de sapatilhas — taquetã! taquetã — que... ai! ricas solas da minha alma! iam-se os pontos e as palmilhas... Os mantos régios caíam para trás das costas, rasgados. As coroas ficaram de banda; e mesmo uma delas, a do velho Gaspar da Ladeira, rolou para o pé da bezerra, que a enfiou nos galhinhos, a inocente!

Desempenados e altos, de trunfas nas traves do tecto, os Reis manobravam de ceptro com toda a delicadeza.

(Eu: — E depois? E depois?!

A Avó: — Espera, homem! Lá vamos...)

Tangia cada um no seu tacho (coisa, talvez, da vizinhança...) com um rebate de gozo que zoava muito longe e se sumia como o eco que tu tiras a gritar à porta da cisterna. E assim estiveram os três reis dançando e fazendo matinada, sem maldade nem sacrilégio, que nem os foliões da Serra em dia de coroação.

Nisto, o homem que levava a cambada de peixe ao Menino, e que parecia ali o nosso Vesgante, vai, atreve-se e diz:

— Saberão Vossas Reais Majestades que uma coisa assim, nunca eu vi! Em panelas velhas tocarem os Reis!... O quê...!?

Melchior, Baltasar e o nosso Gaspar da Ladeira fizeram-se muito vermelhos, todos de pé no ar. Então, por milagre de Jesus Infante, cada tatarino daqueles se tornou numa campainha de oiro, a badalar, a badalar... E os Reis voltaram de rota batida a suas terras e palácios, furtando a volta a Herodes Antipas, o grandessíssimo carrasco, que queria degolar o Menino Jesus para nos não salvar!

Quando a Avó se calou, fiquei escoroçoado:

— E o resto, Avó? E o resto?...

— Acabou-se o que era doce e o que era mel derramou-se... — disse ela apanhando a tigela das sopas vazia. Saltei-lhe do colo e fui para a rua. Os meus amigalhaços jogavam o eixo-rebaldeixo. Iam nas cinco» («— Na rua da Palha perdi um brinco»}.

— Ala às seis! — gritou Tiazé saltando o costado a... Alo Branco.

Aproveitei a deixa e lá me estanhei também, glosando:

— Panelas velhas não tocam os Reis!

[...]

Vitorino Nemésio

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

OUTROS CONTOS

«Bárbara Ruiva», por Rómulo de Carvalho.

«Bárbara Ruiva»
O Encontro com Bárbara

422- «BÁRBARA RUIVA»

[Excerto]

«Ela tinha os cabelos ruivos, ondulados com suavidade, soltos e sedosos. As poeiras, intensamente iluminadas, bailavam-lhe em torno e ganhavam a dulcíssima tonalidade ruiva. Na concavidade das ondulações breves, o Sol escorria e parecia acomodar-se em nichos de luz mais discreta. Um halo vaporoso espiritualizava-lhe os contornos e fazia perceber suavíssima penugem que faiscava com tons metálicos de cobre.

Ela falava, de costas para mim, e, de vez em quando, movia a cabeça ao sabor da conversa. Cada movimento daquela cabeça sobrenatural enchia de confusão o mundo luminoso das poeiras. Os grãozinhos projectavam-se à distância, salpicavam a luz, revoluteavam em turbilhões doidos, atropelavam-se, chocavam-se e, pouco a pouco, procuravam o equilíbrio perdido, aquietavam-se, refluíam para os fios ruivos do cabelo.

(...)

Decerto um feixe de cabelos lhe caiu sobre os olhos, pois vi, na faísca fulgurante de luz, uma pequena mão que se levantou à altura da testa e afastou a fiada ruiva. Foi tão grande o alvoroço de poeiras que as vi disparar, vertiginosamente, em linhas rectas, como saltam as partículas incandescentes duma fogueira que se espalha com os pés. Deve ser assim o deflagrar dos sóis que enxameiam o universo. Aquele, era um sol de cobre. A minha cara, quase na obscuridade, devia ter a tonalidade ruiva. Sentia-a nos olhos, nas faces, nas mãos e em tudo o que me rodeava. A cabeça dela cortava totalmente o feixe de luz que incidia naquele mar de fogo e se reflectia abertamente sobre mim, me aquecia e me narcotizava».

Rómulo de Carvalho

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(19 de Fevereiro de 1743, nasce o compositor e violoncelista italiano Luigi Boccherini)

Luigi Boccherini
Luigi Boccherini Rodolfo

LUIGI BOCCHERINI
«Minuet»

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

CARTOON versus QUADRA

Antiaderente

HenriCartoon

«ANTIADERENTE»

Quem pôs Bosta no barómetro
Anti-aderente que faz derrapar?...
O PS faz descer o termómetro,
E maioria absoluta a congelar!

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

John Cale
Guts

JOHN CALE - «Guts»
Guts by John Cale on Grooveshark
Poet'anarquista

ENTRANHAS

O Demónio nas mangas curtas, fodido minha esposa
Será que isso é rápido e divisão
Em casa, fresca como uma margarida para Maisy, oh Maisy

E o 12-suportou estava no canto
Muito operístico em seu desgosto auto
Ele soprou-lhe todo o chão da sala
Uma merda papagaio, papagaio cospe, merda papagaio foi baleado

Agora, suponha que era alguém familiar
Alguém que todos nós sabemos
Desfecho constrangedor, não é?
Hipérbole Familiar

E lá ia a trama secreta
O mijo tinha perdido o furo no pote
Como aquele antigo sonho de adolescente
De alma para envenenar alma para alma veneno

Entranhas, coragem, não tenho coragem
E pontos não ajuda em nada
Entranhas, coragem, não tenho coragem
Furos no corpo, buracos nas pernas
Buracos na testa, buracos na cabeça
Furos no corpo, buracos nas pernas
Não deve nunca ser buracos em tudo
Não deve nunca ser buracos em tudo

Então: matar tudo o que você quer ou mais
Certifique-se, faça direito
Morto é morto e unhas a porta esquecer
E então você vai notar
Como o assolador, e desperdiçado
Começa a olhar como uma outra
No final, no final
No final, no final
No final, no final

No final, no final

John Cale