sábado, 25 de fevereiro de 2017

SÁTIRA...

O Regresso da Múmia
Sátira...

O REGRESSO DA MÚMIA

A Múmia regressou
Ao ecrã da TV…
Ninguém sabe porquê,
Quinta-feira ressuscitou.
Não foi desta que falou…
Faltam os outros dias,
Se não houver anomalias
Entra muda e sai calada…
Tem a cabeça bloqueada
Com graves avarias!

POETA

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

SÁTIRA...

A Queixinhas
Sátira...

«A QUEIXINHAS»

- Você não é pra todos igual…
Vou queixar-me ao Martelo!
- Queixe-se ao Velho do Restelo,
Eu sou integralmente parcial!
- Eu afirmo que você é imparcial…
Como explica a indumentária?
- Não seja dromedária,
Sua queixinhas birrenta!
- Eu sou uma mulher isenta,
Totalmente apartidária… (?)

POETA

OUTROS CONTOS

«Restos do Carnaval», por Clarice Lispector.

«Restos do Carnaval»
Conto de Clarice Lispector

983- «RESTOS DO CARNAVAL»

Não, não deste último carnaval. Mas não sei por que este me transportou para a minha infância e para as quartas-feiras de cinzas nas ruas mortas onde esvoaçavam despojos de serpentina e confete. Uma ou outra beata com um véu cobrindo a cabeça ia à igreja, atravessando a rua tão extremamente vazia que se segue ao carnaval. Até que viesse o outro ano. E quando a festa ia se aproximando, como explicar a agitação íntima que me tomava? Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate. Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas. Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim. Carnaval era meu, meu.

No entanto, na realidade, eu dele pouco participava. Nunca tinha ido a um baile infantil, nunca me haviam fantasiado. Em compensação deixavam-me ficar até umas 11 horas da noite à porta do pé de escada do sobrado onde morávamos, olhando ávida os outros se divertirem. Duas coisas preciosas eu ganhava então e economizava-as com avareza para durarem os três dias: um lança perfume e um saco de confete. Ah, está se tornando difícil escrever. Porque sinto como ficarei de coração escuro ao constatar que, mesmo agregando tão pouco à alegria, eu era de tal modo sedenta que um quase nada já me tornava uma menina feliz.

E as máscaras? Eu tinha medo mas era um medo vital e necessário porque vinha de encontro à minha mais profunda suspeita de que o rosto humano também fosse uma espécie de máscara. À porta do meu pé de escada, se um mascarado falava comigo, eu de súbito entrava no contato indispensável com o meu mundo interior, que não era feito só de duendes e príncipes encantados, mas de pessoas com o seu mistério. Até meu susto com os mascarados, pois, era essencial para mim.

Não me fantasiavam: no meio das preocupações com minha mãe doente, ninguém em casa tinha cabeça para carnaval de criança. Mas eu pedia a uma de minhas irmãs para enrolar aqueles meus cabelos lisos que me causavam tanto desgosto e tinha então a vaidade de possuir cabelos frisados pelo menos durante três dias por ano. Nesses três dias, ainda, minha irmã acedia ao meu sonho intenso de ser uma moça – eu mal podia esperar pela saída de uma infância vulnerável – e pintava minha boca de batom bem forte, passando também ruge nas minhas faces. Então eu me sentia bonita e feminina, eu escapava da meninice.

Mas houve um carnaval diferente dos outros. Tão milagroso que eu não conseguia acreditar que tanto me fosse dado, eu, que já aprendera a pedir pouco. É que a mãe de uma amiga minha resolvera fantasiar a filha e o nome da fantasia era no figurino Rosa. Para isso comprara folhas e folhas de papel crepom cor-de-rosa, com as quais, suponho, pretendia imitar as pétalas de uma flor. Boquiaberta, eu assistia pouco a pouco à fantasia tomando forma e se criando. Embora de pétalas o papel crepom nem de longe lembrasse, eu pensava seriamente que era uma das fantasias mais belas que jamais vira.

Foi quando aconteceu, por simples acaso, o inesperado: sobrou papel crepom, e muito. E a mãe de minha amiga – talvez atendendo a meu apelo mudo, ao meu mudo desespero de inveja, ou talvez por pura bondade, já que sobrara papel – resolveu fazer para mim também uma fantasia de rosa com o que restara de material. Naquele carnaval, pois, pela primeira vez na vida eu teria o que sempre quisera: ia ser outra que não eu mesma.

Até os preparativos já me deixavam tonta de felicidade. Nunca me sentira tão ocupada: minuciosamente, minha amiga e eu calculávamos tudo, embaixo da fantasia usaríamos combinação, pois se chovesse e a fantasia se derretesse pelo menos estaríamos de algum modo vestidas – à ideia de uma chuva que de repente nos deixasse, nos nossos pudores femininos de oito anos, de combinação na rua, morreríamos previamente de vergonha – mas ah! Deus nos ajudaria! Não choveria! Quanto ao fato de minha fantasia só existir por causa das sobras de outra, engoli com alguma dor meu orgulho que sempre fora feroz, e aceitei humilde o que o destino me dava de esmola.

Mas por que exatamente aquele carnaval, o único de fantasia, teve que ser tão melancólico? De manhã cedo no domingo, eu já estava de cabelos enrolados para que até de tarde o frisado pegasse bem. Mas os minutos não passavam, de tanta ansiedade. Enfim, enfim! Chegaram três horas da tarde: com cuidado para não rasgar o papel, eu me vesti de rosa.

Muitas coisas que me aconteceram tão piores que estas, eu já perdoei. No entanto essa não posso sequer entender agora: o jogo de dados de um destino é irracional? É impiedoso. Quando eu estava vestida de papel crepom todo armado, ainda com os cabelos enrolados e ainda sem batom e ruge – minha mãe de súbito piorou muito de saúde, um alvoroço repentino se criou em casa e mandaram-me comprar depressa um remédio na farmácia. Fui correndo vestida de rosa – mas o rosto ainda nu não tinha a máscara de moça que cobriria minha tão exposta vida infantil – fui correndo, correndo, perplexa, atônita, entre serpentinas, confetes e gritos de carnaval. A alegria dos outros me espantava.

Quando horas depois a atmosfera em casa acalmou-se, minha irmã me penteou e pintou-me. Mas alguma coisa tinha morrido em mim. E, como nas histórias que eu havia lido sobre fadas que encantavam e desencantavam pessoas eu fora desencantada; não era mais uma rosa, era de novo uma simples menina. Desci até a rua e ali de pé eu não era uma flor, era um palhaço pensativo de lábios encarnados. Na minha fome de sentir êxtase, às vezes começava a ficar alegre mas com remorso lembrava-me do estado grave de minha mãe e de novo eu morria.

Só horas depois é que veio a salvação. E se depressa agarrei-me a ela é porque tanto precisava me salvar. Um menino de uns 12 anos, o que para mim significava um rapaz, esse menino muito bonito parou diante de mim e, numa mistura de carinho, grossura, brincadeira e sensualidade, cobriu meus cabelos já lisos, de confete: por um instante ficamos nos defrontando, sorrindo, sem falar. E eu então, mulherzinha de 8 anos, considerei pelo resto da noite que enfim alguém me havia reconhecido: eu era, sim, uma rosa.

Clarice Lispector

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

JOSÉ AFONSO - «Ao Vivo no Coliseu»

Poet'anarquista

José Afonso
Músico, Poeta, Cantor e Compositor Português

SÁTIRA...

A Grande Descoberta
Sátira...

«A GRANDE DESCOBERTA»

Alô?... senhor presidente??
A NASA descobriu sete planetas,
E pelas silhuetas
Iguais à terra seguramente!
Agora a notícia deprimente:
Como primeira estampa
Seis têm um Donald Trampa,
Esse personagem execrável…
Só um deles é habitável,
Aos restantes já dei tampa!!

POETA

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

OUTROS CONTOS

«Episódio no Lago de Genebra», por Stefan Zweig.

«Episódio no Lago de Genebra»
Lago de Genebra/ Suíça

982- «EPISÓDIO NO LAGO DE GENEBRA»

Às margens do lago de Genebra, perto da pequena cidade Suíça de Villeneuve, numa noite de verão do ano de 1918, um pescador, que, remando, se adiantara pelo lago, avistou um objeto estranho a boiar no meio das águas, e, chegando mais perto, reconheceu uma embarcação feita de caibros ligados ligeiramente, que um homem nu, com gestos desajeitados, impelia com uma tabua a guisa de remo. Surpreso, o pescador aproximou-se, auxiliou o homem a passar para o seu bote, cobriu-lhe a nudez provisoriamente com redes e procurou falar com o infeliz, trêmulo de frio, que, tímido e esquivo, se agasalhava num canto da embarcação. Ele respondia num idioma estranho, do qual nenhuma palavra se assemelhava às do pescador . Este desistiu então de novos esforços, recolheu as redes e seguiu, com fortes golpes de remo, para a margem.

À medida que na luz difusa se divisava a margem, começou a clarear-se o rosto do homem nu, uma risada infantil desabrochou na curva barbada de sua boca larga, a mão se ergueu num gesto e o desgraçado balbuciou uma palavra, que soava como Rossiya, com entonação cada vez mais jubilosa, quanto mais perto a proa se acercava da margem. Finalmente o bote rangeu na areia da praia; os parentes femininos do pescador, que esperavam a presa molhada, se espalharam aos gritos, como outrora as criadas de Nausikaa, ao verem o homem nu na rede de peixe; aos poucos, atraídos pela estranha nova, reuniram-se os diversos homens da aldeia, aos quais se ajuntou breve, cheio de si, em plena atividade de sua função, o prefeito. Tinha como certo, deduzido de sua experiência do tempo de guerra e das varias horas de instrução, que devia ser um desertor, vindo a nado da margem francesa, e já se preparava para um interrogatório. Mas essa tentativa circunstancial perdeu breve em valor e dignidade, pelo fato de que o homem nu (a quem um dos moradores havia atirado um paletó e uma calça de brim) repetia cada vez mais medroso e inseguro a exclamação interrogativa “Rossiya?” “Rossiya?” Um pouco aborrecido pelo insucesso, o prefeito ordenou-lhe com gestos que não permitiam dúvida, que o seguisse. Cercado, aos gritos, pela entrementes desperta garotada, levaram o homem molhado de pés descalços, que tremia dentro do paletó e das calças, para, a casa de banho e lá o detiveram. Ele não se opunha, não dizia palavra; apenas os seus olhos claros escureceram com a decepção e os seus ombros altos encolheram-se como sob um golpe receado.

A nova da pescaria humana, entretanto, se espalhara até aos hotéis mais próximos, e atraídos pelo aprazível episódio, que interrompia a monotonia do dia, algumas senhoras e cavalheiros, vieram admirar a criatura selvagem. Uma dama presenteou-o com confeitos, que ele deixou de lado, desconfiado como um macaco; um senhor tirou um instantâneo fotográfico; todos tagarelavam e conversavam alegres em redor dele, até que, finalmente, o gerente de um dos grandes hotéis, que vivera muito tempo no estrangeiro, conhecendo vários idiomas, dirigiu ao atemorizado palavras em alemão, italiano, inglês, e finalmente, em russo. Mal ouviu os primeiros sons do seu idioma materno, o pobre homem ergueu-se de um pulo e um sorriso largo rasgou-lhe o rosto bondoso de uma orelha a outra e, repentinamente, seguro e franco, relatou toda a sua história. Era muito comprida e embrulhada nos seus detalhes, nem sempre compreensíveis ao seu intérprete casual, mas em linhas gerais o destino desse homem fora o seguinte:

Lutara na Rússia e fora, um belo dia, com milhares de outros, embarcado em comboios, viajando para muito longe; depois embarcado em navios, seguindo por mais tempo através de países onde fazia tanto calor, que, como ele se expressava, os ossos eram assados até amolecer a carne. Finalmente atracaram em um porto e foram, novamente, embarcados em comboios, e tiveram repentinamente que tomar uma colina, sobre a qual nada sabia, pois, logo ao princípio, fora atingido por um balaço na perna. Aos ouvintes, a quem o intérprete traduzia as perguntas e as respostas, era claro que este fugitivo pertencia àquela divisão russa na França, que foi mandada através de meio mundo, pela Sibéria e Vladivostok, até a frente francesa. Além de uma espécie de compaixão, ele provocou, ao mesmo tempo, a curiosidade de saber o que o teria conduzido a tentar esta fuga estranha. Com um sorriso meio ingênuo e meio astuto, o russo contou solicito que, recém-curado, havia perguntado aos enfermeiros onde ficava a Rússia, e eles lhe haviam indicado a direção, que ele pouco mais ou menos guardara pela posição do sol e das estrelas, e assim fugira secretamente, caminhando de noite e de dia, escondendo-se das patrulhas nas medas de feno. Durante dez dias alimentara-se de frutas e de pão esmolado, até que, finalmente, chegara a este lago. Agora suas declarações se tornavam menos compreensíveis; parecia evidente que ele, originário das proximidades do lago Baikal, imaginara que na margem oposta, cujas linhas movimentadas vira na luz do entardecer, deveria situar-se a Rússia. Em todo caso, havia roubado de uma choupana dois caibros, e sobre eles, deitado de barriga, com a ajuda de uma tábua à guisa de remo, atravessara o lago, onde o achara o pescador. A pergunta tímida com que terminara a sua exposição pouco clara, era se amanha já poderia estar em casa. Isso provocou, pela sua ingenuidade, forte gargalhada, que logo cedeu lugar a uma comovida compaixão. E cada um meteu entre as mãos do pobre, que olhava em torno, indeciso e desconsolado, algumas moedas, ou notas de banco.

Entretanto, chegava, após um entendimento telefônico com Montreux, um alto oficial da polícia, que, não com pouco esforço, anotou em protocolo o ocorrido. Não só o intérprete casual se revelara incompetente, mas tornava-se também evidente (e para um ocidental, incompreensível) a ignorância desse homem, cujo conhecimento de si próprio mal ultrapassava o do seu primeiro nome, Boris, e que de sua aldeia natal apenas tinha uma noção confusa: fora, com outros, servo do Duque de Hetschersky (ele dizia servo, se bem que há uma geração a casta tivesse sido abolida) e vivia distante cinquenta verstas do grande lago, com a mulher e três filhos. Então, começou a deliberação sobre o seu destino, enquanto ele, com o olhar apático e humilde, permanecia no meio dos contendores: uns opinavam que se devia envia-lo a legação russa, em Berna, mas outros receavam, dessa medida, um reenvio para a França; o oficial de polícia explicava todas as dificuldades da questão, se devia ser tratado como desertor ou como estrangeiro sem documentos; o escrivão do lugar afastou desde logo a possibilidade de eles poderem sustentar ou abrigar o estrangeiro. Um francês gritou, agitado, que não se fizesse tantas cerimônias com esse miserável desertor: que trabalhasse ou então fosse reenviado; duas mulheres objetaram violentamente que ele não era culpado de sua infelicidade e que era um crime tirarem as criaturas de suas terras e dos seus lares para enviá-las a países estrangeiros. Já ameaçava surgir desse motivo casual uma disputa política, quando, repentinamente, um senhor de idade, dinamarquês, intrometeu-se declarando com energia que pagaria o sustento do desconhecido por oito dias e que, entretanto, as autoridades a justassem com a legação uma solução qualquer que tanto satisfizesse aos desígnios oficiais como aos particulares.

Durante a discussão, cada vez mais agitada, o olhar esquivo se erguia, cada vez mais inquieto, e permanecia preso aos lábios do gerente, o único neste tumulto, a quem ele podia, tornar compreensível o seu destino. Parecia sentir vagamente o redemoinho que sua presença provocava, e ainda inconsciente quando diminuiu o barulho, ergueu implorante, nesse silêncio, as duas mãos para ele como as mulheres diante de um santo. O comovente desse gesto atingiu irresistivelmente a todos. O gerente adiantou-se cordialmente para ele e sossegou-o, dizendo não tivesse medo, pois poderia permanecer ali sem ser importunado, e pelos primeiros tempos, as suas despesas de hospedagem seriam custeadas.

O russo queria beijar-lhe a mão, ao que, porém, o outro se subtraiu, dando um passo para trás. Depois indicou-lhe a casa de um vizinho, uma pequena estalagem de aldeia, onde teria cama e alimento, e dizendo-lhe amavelmente mais algumas palavras carinhosas e tranquilizadoras, subiu outra vez à rua que levava ao hotel.

Imóvel, o fugitivo fitava-o fixamente e a medida que o único entendedor do seu idioma se afastava, escurecia-se-lhe o rosto, já desanuviado. Com olhares devoradores seguiu o que se afastava até lá em cima, no hotel, situado no alto, sem fazer caso das outras pessoas, que o observavam, admiradas ou a rir dos seus modos estranhos. Quando um deles o tocou compadecido, apontando para a estalagem, os seus pesados ombros como que se agacharam e de cabeça inclinada entrou pela porta. Abriram-lhe a sala comum. Ele encostou-se a mesa, sob a qual a criada depusera um copo de aguardente, como saudação, e ficou sentado aí toda a manha, imóvel e com os olhos turvos.

Incessantemente os garotos da aldeia espiavam pela janela e gritavam-lhe qualquer coisa — ele não erguia a cabeça. Os que entravam, olhavam curiosos; mas ele ficava imóvel, o olhar fixo na mesa, de costas vergadas, envergonhado e tímido. E quando, ao meio dia, na hora da refeição, uma turma de gente alegrava o compartimento com risadas, quando centenas de palavras, que o desconhecido não compreendia, esvoaçavam-lhe em torno, ele reconhecendo o horror de ser estranho, sentado surdo e mudo no meio do movimento geral, sentia as mãos lhe tremerem tanto que mal podia erguer a colher com a sopa. Subitamente uma grossa lagrima correu-lhe pela face, caindo na mesa. Acanhado, olhou em redor. Os outros o notaram, calaram abruptamente. Ele sentia vergonha: cada vez mais inclinava a cabeça pesada e desgrenhada sobre a madeira negra. Até ao anoitecer ficou sentado assim, as mãos pesadamente pousadas sobre a mesa. Gente ia e vinha mas ele não a sentia como os estranhos também não o sentiam, Todos o esqueciam e ninguém reparou que, ao escurecer, se ergueu repentinamente e, bronco como um animal, subiu o caminho para o hotel. Uma hora ou duas esteve parado a porta, com o gorro respeitosamente na mão, sem tocar pessoa com o olhar: finalmente, um dos moços de recado reparou nessa figura rara, que enraizara como um tronco de árvore, estarrecida e negra, diante da entrada cintilante de luzes do hotel, e chamou o gerente. Novamente um pequeno clarão nasceu no seu rosto sombrio, quando em seu idioma o saudaram.

– Que queres, Boris?, perguntou o bondoso gerente.

– Perdoa-me… balbuciou o fugitivo. Eu só queria saber… se posso ir para casa.

– Decerto, Boris, podes ir para casa, sorriu o interpelado.

– Já, amanhã?

Agora, o outro também se tornou sério, o sorriso desvaneceu-se no seu rosto, tão vivamente foram ditas estas palavras.

– Não, Boris... ainda não. Quando acabar a guerra..

– E quando? Quando acaba a guerra?

– Deus o sabe. Nós homens não o sabemos.

– E, então? Não posso ir antes?

– Não, Boris.

– É tão longe?

– Sim.

– Muitos dias ainda?

– Muitos dias.

– Irei mesmo assim, senhor! Sou forte. Eu não me canso.

– Mas tu não podes, Boris. Há mais uma fronteira no meio.

– Uma fronteira?

Ele olhou torvamente. A palavra lhe era estranha.

Depois disso, novamente, com rara tenacidade:

– Eu irei a nado.

– Não, Boris, isso não pode ser. Uma fronteira é um pais estranho. Os homens não te deixam passar.

– Mas eu não lhes faço nada! Joguei fora a minha carabina. Por que não me deixam ir para junto de minha mulher, se lhes peço pelo amor de Cristo?

O gerente tornou-se cada vez mais sério. Sentiu-se amargurado.

– Não, disse ele, não te deixarão passar, Boris. Os homens agora não atendem mais a palavra de Cristo.

– Mas que devo fazer, senhor? Não posso ficar aqui! Os homens aqui não me entendem e eu não os entendo também.

– Tu o aprenderás, Boris.

– Não, senhor — o russo inclinou a cabeça. — Eu não posso aprender nada. Só sei trabalhar no campo, fora isso não faço nada. Que devo fazer aqui? Eu quero ir para casa! Mostre-me o caminho.

– Agora não há caminho, Boris.

– Mas senhor, eles não me podem proibir de voltar para junto de minha mulher e meus filhos! Já não sou mais soldado!

– Eles te prendem, Boris.

– E o Czar ? perguntou repentinamente, tremulo de expectativa e respeito.

– O Czar não existe mais, Boris. Os homens o depuseram.

– O Czar não existe mais? E olhou para o outro estupefato. Um último clarão se apagou no seu olhar, depois disse abatido

– Não posso, pois, ir para casa?

– Ainda não. Temos que esperar, Boris.

– Muito?

– Não sei.

Cada vez mais sombrio tornou-se o rosto no escuro.

– Já esperei tanto tempo! Não posso esperar mais. Mostre-me o caminho. Quero tentá-lo.

– Não há caminho, Boris. Na fronteira te prendem. Fica aqui, pois encontraremos trabalho para ti.

– Os homens não me compreendem aqui, e eu não os compreendo — repetiu teimoso. Não posso viver aqui! Ajude-me senhor.

– Eu não posso, Boris.

– Ajude-me pelo amor de Cristo, senhor. Ajude-me, não o suporto mais.

– Não posso, Boris. Ninguém te pode ajudar agora.

Pararam mudos, um em frente do outro. Boris girava o gorro nas mãos.

– Por que me tiraram de casa? Disseram que eu tinha que defender a Rússia e o Czar. Mas a Rússia está longe daqui, e tu dizes o que fizeram ao Czar… como dizes ?

– Depuseram-no.

– Depuseram-no. (Sem compreender repetiu a palavra). Que devo fazer agora, senhor? Tenho que ir para casa. Meus filhos gritam por mim. Não posso viver aqui! Ajude-me, senhor! Ajude-me!

– Eu não posso, Boris.

– E ninguém pode ajudar-me?

– Agora, ninguém.

O russo abaixou ainda mais a cabeça, depois disse bruscamente com voz abafada: — Agradecido, senhor, e voltou-se.

Devagar, desceu pelo caminho. O gerente seguiu-o longo tempo com os olhos e admirou-se de que ele não fosse em direção da estalagem, mas sim dos degraus que dão para o lago. Soltou um profundo suspiro e entrou para cuidar do seu trabalho no hotel.

O acaso quis que o mesmo pescador encontrasse na manhã seguinte o cadáver nu do afogado. Ele tinha deposto cuidadosamente a calça, o gorro e o paletó presenteados na margem e entrara na água tal como dela saíra. Registou-se o acontecimento e como não se sabia o nome do desconhecido, foi colocada uma pequena e barata cruz de madeira na sua sepultura, uma dessas pequenas cruzes de destinos sem nome, de que a nossa Europa esta coberta de um lado a outro da superfície

Stefan Zweig

SÁTIRA...

Tiro ao Lado
Sátira...

«TIRO AO LADO»

- Porra!... matei uma codorniz!!
- E esperavas matar o quê?
- Então o amigo não lê
O que a imprensa diz?...
Mas afinal, vive em que país??...
Eu esperava caçar os passarões
Que roubaram dez mil milhões,
Para offshores no estrangeiro…
Gamaram todo o dinheiro
Esses grandes ladrões!!!

POETA

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

SÁTIRA...

O Imparcial
Sátira...

«O IMPARCIAL»

- Porque acha absurda
Uma nova comissão,
E à Caixa pôr questão?...
Que saiba, não é muda!
- A Assembleia está surda
Na quadra de Carnaval…
- Não creio ser imparcial,
Como acabo de constatar.
- Em SMS a confirmar...
A Geringonça de Portugal!

POETA

OUTROS CONTOS

«O Don Silencioso», por Mikhail Sholokhov.

«O Don Silencioso»
Romance de Mikhail Sholokhov

981- «O DON SILENCIOSO»

[Excertos]

- Cale-se, mujique!

- E os mujiques não são homens, como você?

- São mujiques, feitos de casca de árvore e recheados de mato.

Cerca de quatro dias mais tarde, os vagões vermelhos dos trens carregados de tropas levavam os regimentos de cossacos e suas baterias para a fronteira russo-austríaca.

"Guerra"…

Os vagões zumbiam de conversas e canções. Olhares inquisitivos e benevolentes saudavam os cossacos nas estações, e o povo contemplava as listras das calças dos soldados.

"Guerra…"

Mulheres acenavam com lenços, sorriam e atiravam cigarros e doces para os soldados. Uma vez, pouco antes que o trem chegasse a Voronej, um velho ferroviário enfiou a cabeça no vagão, onde estava Piotr Melekhov com mais vinte e nove camaradas e perguntou:

- Estão indo?

- Sim. Entre e venha connosco, avozinho - respondeu um dos cossacos.

- Meu rapaz... bois para o matadouro! - disse o velho, sacudindo a cabeça em tom de reprovação.

- Então você é um bolchevista? - perguntou.

- O nome não importa - respondeu Lagutin. - Não é uma questão de nomes, mas do que está certo. O povo quer os seus direitos, mas estes lhe são sempre negados.

- É óbvio que os bolchevistas estão ensinando você! Não perdeu tempo na companhia.

- Ah, capitão, é a própria vida que tem ensinado às pessoas pacientes, os bolchevistas apenas puseram fogo no pavio.

Estava completamente exausto devido à guerra. Queria virar as costas ao mundo incompreensível, tempestuoso, hostil, cheio de ódio. 

(Narração sobre Grigóri Melekhov ao voltar pra casa)

É uma vida estranha, Aleksei! Os homens caminham às apalpadelas, como se fossem cegos; juntam-se e se separam de novo, às vezes se espezinhando uns aos outros… Aqui estamos, vivendo à beira da morte, e só podemos nos perguntar selvaticamente por que tudo isso? Acho que não há nada mais terrível no mundo do que os seres humanos. Faça o que fizer, você não chegará ao fundo deles… 

Aqui estou eu a seu lado e não sei o que você está pensando e nunca soube, e também não sei que tipo de vida você leva. Você tampouco sabe sobre a minha vida… Talvez eu esteja querendo matá-lo agora, e aí está você me dando um biscoito, sem qualquer ideia do que estou pensando… As pessoas sabem pouco sobre si mesmas. 

(Micha Kochevoi)

 Não. Sou forte. Não pense que haja homens feitos de aço. Somos forjados de um só material. Na vida real não há um homem que não tema a batalha, assim como não há nenhum que possa matar pessoas sem carregar… sem se sentir moralmente arranhado. 

(Iliá Buntchuk para sua namorada Ana Pogudko)

Mikhail Sholokhov

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

MEIO-TERMO

Meio-Termo
[No comment]

MEIO-TERMO

A poesia é o que sobeja...
Falta o que a alma deseja.

Manel d' Sousa

OUTROS CONTOS

«Código Morse», conto poético por Manel d' Sousa.

«Código Morse»
Décima

980- «CÓDIGO MORSE»

Entrei eu sossegadinho
Numa casa de alterne…
Não sei se me governe
Com uma taça de vinho.
Encontrei lá o vizinho
Que se estava a babar,
Arripou-me ao chegar
E eu sem saber que fazer…
O melhor é esquecer,
A saliva há de parar!

Manel d' Sousa

SÁTIRA...

«O Defunto»
Sátira...

«O DEFUNTO»

- Centeio, amigo da onça…
(O homem parece que está
Politicamente numa má…)
Ainda o crânio desengonça!
- E gasosa para a geringonça?
- Mal ele pensa…
Telemóvel prá dispensa
E ele direito na vertical…
- Sorriso nos lábios angelical,
O povo nem nota a diferença!

POETA

OUTROS CONTOS

«Os Três Astronautas», por Umberto Eco.

«Os Três Astronautas»
Conto de Umberto Eco

979- «OS TRÊS ASTRONAUTAS»

Era uma vez a Terra.

E era uma vez Marte.

Estavam muito longe um do outro, no meio do céu, e ao redor havia milhões de planetas e galáxias.

Os homens que habitavam a Terra queriam chegar a Marte e aos outros planetas, mas eles estavam muito longe!

De qualquer maneira, começaram a trabalhar. Primeiro lançaram satélites que giravam dois dias ao redor da Terra e logo regressavam.

Depois lançaram foguetes que davam voltas ao redor da Terra, mas, ao invés de regressar, ao final fugiam da atracção terrestre e partiam para o espaço infinito.

No começo, nos foguetes, colocaram cachorros, mas os cachorros não sabiam falar, e através do rádio transmitiam só "au-au" . E os homens não podiam entender o que tinham visto nem onde tinham chegado.

Ao final encontraram homens valentes que quiseram ser astronautas. O astronauta era assim denominado porque partia para explorar os astros no cosmos, que dizer, o espaço infinito, com os planetas, as galáxias e tudo o que nos rodeia.

Os astronautas, ao partirem, ignoravam se poderiam regressar. Queriam conquistar as estrelas para que um dia todos pudessem viajar de um planeta a outro, porque a Terra havia-se tornado muito pequena e os homens cresciam diariamente.

Um belo dia partiram da Terra, saindo de três pontos diferentes, três foguetes.

No primeiro ia um americano, que assobiava muito alegre um trecho de jazz.

No segundo ia um russo, que cantava com uma voz grave: 'Volga, Volga' .

No terceiro ia um negro que sorria feliz, com os dentes muito brancos em sua cara negra. De facto, naqueles tempos, os habitantes da África, que finalmente eram livres, tinham-se demonstrado tão hábeis quanto os brancos para construir cidades, máquinas e, naturalmente, para ser cosmonautas.

Os três queriam chegar primeiro a Marte para demonstrar quem era o mais valente. O americano, com efeito, não gostava do russo e o russo não gostava do americano. E tudo porque o americano para dizer bom dia dizia "how do you do" e o russo dizia "zgpabctbyutge".

Por isso não se compreendiam e se achavam diferentes.

Os dois, além do mais, não queriam saber do negro porque ele tinha uma cor diferente.

Por isso não se compreendiam.

Como os três astronautas eram muito valentes, chegaram a Marte quase ao mesmo tempo.

Chegou a noite. Havia em torno deles um silêncio esquisito, e a Terra brilhava no céu como se fosse uma estrela longínqua.

Os astronautas se sentiam tristes e perdidos e o americano, no escuro, chamou a mãe dele.

Disse: "Mamie".

E o russo disse: "Mama".

E o negro disse: "Mbamba".

Mas logo compreenderam que estavam dizendo a mesma coisa e que tinham os mesmos sentimentos. Foi assim que sorriram entre si, aproximaram-se, juntos acenderam um bom foguinho, e cada um cantou canções de seu país. Então armaram-se de coragem e, enquanto esperavam o amanhecer, aprenderam a conhecer-se.

Por fim, fez-se o dia. Fazia muito frio. De repente, de um grupinho de árvores saiu um marciano. Era realmente horrível vê-lo! Era todo verde, tinha duas antenas no lugar das orelhas, uma tromba e seis braços.

Olhou para eles e disse: "Grrrr!"

Em seu idioma queria dizer: "Mãezinha querida! Quem são esses seres tão horríveis?"

Mas os terráqueos não o compreenderam e pensaram que seu grito era um rugido de guerra.

Foi assim que decidiram matá-lo com seus desintegradores atómicos.

Mas de repente, no meio do enorme frio do amanhecer, um passarinho marciano, que evidentemente tinha fugido do ninho, caiu no chão tremendo de frio e medo. Piava desesperado, mais ou menos como um passarinho terráqueo. Dava muita pena. O americano, o russo e o negro olharam para ele e não puderam conter uma lágrima de compaixão.

Nesse momento, aconteceu algo muito esquisito. Também o marciano aproximou-se do passarinho, olhou para ele e deixou escapar dois fios de fumaça da tromba. E os terráqueos, naquele instante, compreenderam que o marcianinho estava chorando, a sua maneira, como choram os marcianos..

Depois viram que se inclinava sobre o passarinho e o carregava entre seus seis braços tratando de aquecê-lo.

O negro, que em outros tempos tinha sido perseguido porque tinha pele negra e por isso mesmo sabia como são as coisas, disse a seus dois amigos terráqueos:

"Vocês viram? Pensávamos que este monstro era diferente de nós, mas ele também ama os animais, sabe comover-se, tem um coração e sem dúvida um cérebro! Vocês ainda pensam que temos que matá-lo?"

Não era necessário fazer tal pergunta.

Os terráqueos já haviam aprendido a lição. Duas pessoas serem diferentes não significa que elas devam ser inimigas.

Portanto, aproximaram-se do marciano e estenderam a mão. E ele, que tinha seis, deu a mão aos três ao mesmo tempo, enquanto fazia gestos de cumprimentos com as mãos que ficavam livres.

E apontando para a Terra, distante no céu, fez entender que desejava viajar até lá, para conhecer outros habitantes e estudar junto com eles a forma de fundar uma grande república espacial na qual todos se amassem e estivessem de acordo. Os terráqueos disseram que sim entusiasmados.

Haviam compreendido que, tanto na Terra como em outros planetas, cada um tem seus próprios costumes, sendo necessário somente compreender-se mutuamente.

Umberto Eco

domingo, 19 de fevereiro de 2017

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

LUIGI BOCCHERINI - «III. Fandango»

Poet'anarquista

Luigi Boccherini
Compositor e Violoncelista Italiano

OUTROS CONTOS

«Os Frutos da Terra», por André Gide.

«Os Frutos da Terra»
Pequeno excerto

978- «OS FRUTOS DA TERRA»

[Excerto]

Nathanael, que cada espera em ti não seja sequer um desejo mas simplesmente uma disposição para a acolhida. Espera tudo que vem a ti, mas não desejes senão o que vem a ti. Não desejes senão o que tens. Compreende que em cada momento do dia podes possuir Deus em sua totalidade. Que teu desejo seja amor, e que tua posse seja amorosa. Pois, o que é um desejo que não é eficaz?

Como! Nathanael, tu possuis Deus e não te aperceberas! Possuir Deus é vê-lo; mas não o olham. Em que volta de atalho viste Deus, Balaão, diante de quem se detinha o teu asno? É que o imaginavas diferente.

Nathanael, somente Deus não há como esperar. Esperar Deus, Nathanael, é não compreender que já o possuis. Não distingas Deus da felicidade e põe toda a tua felicidade no instante.

Toda a tua fadiga cerebral, ó Nathanael, vem da diversidade de teus bens. Não sabes sequer qual deles preferes e não compreendes que o único bem é a vida. O menor instante da vida é mais forte do que a morte, e a nega. A morte não é senão a permissão de outras vidas para que tudo sem cessar se renove; a fim de que nenhuma forma de vida detenha isso mais tempo do que lhe é necessário para se dizer. Feliz é o instante em que tua palavra retine. Durante o resto do tempo escuta; mas quando falares, não escutes mais.

André Gide

SÁTIRA...

Cavaco em Água Benta (II)
Sátira...

«CAVACO EM ÁGUA BENTA»

(II)

Já estou mais aliviado
Limpei a tripa cagueira,
Esta merda da caganeira
Deixa o cérebro esgotado!
Ainda não estou Acabado…
Falta a segunda edição,
Resmas de papel à mão
Pra poder limpar o cu…
Sobre matéria tabu,
Água benta e presunção!!

POETA

sábado, 18 de fevereiro de 2017

SÁTIRA...

Cavaco em Água Benta
Sátira...

«CAVACO EM ÁGUA BENTA»

Sou Animal Acabado
Nas quintas e outros dias,
Padeço de anomalias
Do rés-de-chão ao telhado!
Deixo-vos este recado:
Presunção e água benta
A mim bem que assenta,
Cada um toma a que quer…
Eu vou tomar um clister,
Senão a tripa arrebenta!

POETA

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

OUTROS CONTOS

«Sebastião, o Dócil», conto poético por Manel d' Sousa.

«Sebastião, o Dócil»
Sebastião/ l'épagneul breton

977- «SEBASTIÃO, O DÓCIL»

No concelho de Mourão,
Em Porto das Carretas…
Fugido das escopetas
Apareceu o Sebastião.
Baptizado foi o cão
Nesse mesmo lugar,
Cá a casa veio parar
E dezoito anos viveu…
À dois anos que morreu
Este dócil exemplar!

Manel d’ Sousa

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

CAREY BELL - «Sleeping with the Devil»

Poet'anarquista

Carey Bell
Músico e Cantor de Blues Norte-Americano

OUTROS CONTOS

«O Ventre Seco», por Ruduan Nassar.

«O Ventre Seco»
Conto de Ruduan Nassar
976- «O VENTRE SECO»

1. Começo te dizendo que não tenho nada contra manipular, assim como não tenho nada contra ser manipulado; ser instrumento da vontade de terceiros é condição da existência, ninguém escapa a isso, e acho que as coisas, quando se passam desse jeito, se passam como não poderiam deixar de passar (a falta de recato não é minha, é da vida). Mas te advirto, Paula: a partir de agora, não conte mais comigo como tua ferramenta.

2. Você me deu muitas coisas, me cumulou de atenções (excedendo-se, por sinal), me ofereceu presentes, me entregou perdulariamente o teu corpo, tentou me arrastar pra lugares a que acabei não indo, e, não fosse minha feroz resistência, até pessoas das tuas relações você teria dividido comigo. Não quero discutir os motivos da tua generosidade, me limito a um formal agradecimento, recusando contudo, a todo risco, te fazer a credora que pode ainda chegar e me cobrar: "você não tem o direito de fazer isso". Fazer isso ou aquilo é problema meu, e não te devo explicações.

3. Nem foi preciso fazer um voto de pobreza, mas fiz há muito o voto de ignorância, e hoje, beirando os quarenta, estou fazendo também o meu voto de castidade. Você tem razão, Paula: não chego sequer a conservador, sou simplesmente um obscurantista. Mas deixe este obscurantista em paz, afinal, ele nunca se preocupou em fazer proselitismo.

4. E já que falo em proselitismo, devo te dizer também que não tenho nada contra esse feixe de reivindicações que você carrega, a tua questão feminista, essa outra do divórcio, e mais aquela do aborto, essas questões todas que "estão varrendo as bestas do caminho". E quando digo que não tenho nada contra, entenda bem, Paula, quero dizer simplesmente que não tenho nada a ver com tudo isso. Quer saber mais? Acho graça no ruído de jovens como você. Que tanto falam em liberdade? É preciso saber ouvir os gemidos da juventude: em geral, vocês reclamam é pela ausência de uma autoridade forte, mas eu, que nada tenho a impor, entenda isso, Paula, decididamente não quero te governar.

5. Sem suspeitar da tua precária superioridade, mais de uma vez você me atirou um desdenhoso "velho" na cara. Nunca te disse, te digo porém agora: me causa enjôo a juventude, me causa muito enjôo a tua juventude, será que preciso fazer um trejeito com a boca pra te dar a ideia clara do que estou dizendo? É bastante tranquilo este depoimento, é sossegado, ao fazê-lo, me acredite, Paula, não me doem os cotovelos. Está muito certa aquela tua amiga frenética quando te diz que sou "incapaz de curtir gentes maravilhosas". Sou incapaz mesmo, não gosto de "gentes maravilhosas", não gosto de gente, para abreviar minhas preferências.

6. Você me levava a supor às vezes que o amor em nossos dias, a exemplo do bom senso em outros tempos, é a coisa mais bem dividida deste mundo. Aliás, só mesmo uma perfeita distribuição de afeto poderia explicar o arroubo corriqueiro a que todos se entregam com a simples menção deste sentimento. Um tanto constrangido por turvar a transparência dessa água, há muito que queria te dizer: vá que seja inquestionável, mas tenho todas as medidas cheias dos teus frívolos elogios do amor.

7. Farto também estou das tuas ideias claras e distintas a respeito de muitas outras coisas, e é só pra contrabalançar tua lucidez que confesso aqui minha confusão, mas não conclua daí qualquer sugestão de equilíbrio, menos ainda que eu esteja traindo uma suposta fé na "ordem", afinal, vai longe o tempo em que eu mesmo acreditava no propalado arranjo universal (que uns colocam no começo da história, e outros, como você, colocam no fim dela), e hoje, se ponho o olho fora da janela, além do incontido arroto, ainda fico espantado com este mundo simulado que não perde essa mania de fingir que está de pé.

8. Você pode continuar falando em nome da razão, Paula, embora até o obscurantista, que arranja (ironia!) essas ideias, saiba que a razão é muito mais humilde que certos racionalistas; você pode continuar carreando areia, pedra e tantas barras de ferro, Paula, embora qualquer criança também saiba que é sobre um chão movediço que você há de erguer teu edifício.

9. Pense uma vez sequer, Paula, na tua estranha atração por este "velho obscurantista", nos frêmitos roxos da tua carne, nessa tua obsessão pelo meu corpo, e, depois, nas prateleiras onde você arrumou com criterioso zelo todos os teus conceitos, encontre um lugar também para esta tua paixão, rejeitada na vida.

10. Sabe, Paula, ainda que sempre atenta à dobra mínima da minha língua, assim como ao movimento mais ínfimo do meu polegar, fazendo deste meu canto o ateliê do desenhista que ia no dia-a-dia emendando traço com traço, compondo, sem ser solicitada, o meu contorno, me mostrando no final o perfil de um moralista (que eu nunca soube se era agravo ou elogio), você deixou escapar a linha mestra que daria caráter ao teu rabisco. Estou falando de um risco tosco feito uma corda e que, embora invisível, é facilmente apreensível pelo lápis de alguns raros retratistas; estou falando da cicatriz sempre presente como estigma no rosto dos grandes indiferentes.

11. Não tente mais me contaminar com a tua febre, me inserir no teu contexto, me pregar tuas certezas, tuas convicções e outros remoinhos virulentos que te agitam a cabeça. Pouco se me dá, Paula, se mudam a mão de trânsito, as pedras do calçamento ou o nome da minha rua, afinal, já cheguei a um acordo perfeito com o mundo: em troca do seu barulho, dou-lhe o meu silêncio.

12. No pardieiro que é este mundo, onde a sensibilidade, como de resto a consciência, não passa de uma insuspeitada degenerescência, certos espíritos só podiam mesmo se dar muito mal na vida; mas encontrei, Paula, esquivo, o meu abrigo: coração duro, homem maduro.

13. Não me telefone, não estacione mais o carro na porta do meu prédio, não mande terceiros me revelarem que você ainda existe, e nem tudo o mais que você faz de costume, pois recorrendo a esses expedientes você só consegue me aporrinhar. Versátil como você é, desempenhe mais este papel: o de mulher resignada que sai de vez do meu caminho.

14.. Entenda, Paula: estou cansado, estou muito cansado, Paula, estou muito, mas muito, mas muito cansado, Paula. (Teu baby-doll, teus chinelos, tua escova de dentes, e outros apetrechos da tua toalete, deixei tudo numa sacola lá em baixo, é só mandar alguém pegar na portaria com o zelador.)

15. Ainda: "a velha aí do lado", a quem você se referia também como "a carcaça ressabiada", "o pacote de ossos", "a semente senil" e outras expressões exuberantes que o teu talento verbal sempre é capaz de forjar mesmo para falar das coisas mirradas da vida, nunca te revelei, Paula, te revelo agora: "aquele ventre seco" é minha mãe, faz anos que vivemos em kitchenettes separadas, ainda que ao lado uma da outra. Não seja tola, Paula, não estou te recriminando nada, sempre assisti com indiferença aos arremedos que você fazia da "bruxa velha, preparando a poção pra envenenar nossas relações". Te digo mais: você talvez tivesse razão, é provável que ela vivesse a espreitar minha porta das sombras da escadaria, é provável que ela do fundo dos corredores te olhasse "de um jeito maligno", é provável ainda que ela, matreira dentro do seu cubículo, te alcançasse todas as vezes que você saía através do olho mágico da sua porta. Mas contenha, Paula, a tua gula: você que, além de liberada e praticada, é também versada nas ciências ocultas dos tempos modernos, não vá lambuzar apressadamente o dedo na consciência das coisas; não fiz a revelação como quem te serve à mesa, não é um convite fecundo a interpretações que te faço, nem minha vida está pedindo esse desperdício. Quero antes lembrar o que minha mãe te dizia quando você, ao cruzar com ela, e "só pra tirar um sarro", perguntava maliciosamente por mim, te sugerindo eu agora a mesma prudência, se acaso amanhã teus amigos quiserem saber a meu respeito. Você pode dispensar "a ridícula solenidade da velha", mas não dispense o seu irrepreensível comedimento, responda como ela invariavelmente te respondia: "não conheço esse senhor".

Raduan Nassar

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

SÁTIRA...

Pergunta Idiota
Sátira...

«PERGUNTA IDIOTA»

- Senhor Presidente, pode informar
Os solteiros mais descuidados
Com quem passou o dia dos namorados?
- Não tem mais nada pra perguntar?...
É evidente ser costume passar
Com quem a gente mais gosta!
- Presidente, vale uma aposta?...
Aposto que foi com a namorada!?
- Pergunta idiota já era esperada…
Não, passei com o António Bosta!!

POETA

OUTROS CONTOS

«Fala do Homem Nascido», conto poético por António Gedeão.

«Fala do Homem Nascido»
Nascimento/ Marc Chagall

975- «FALA DO HOMEM NASCIDO»

"Venho da terra assombrada,
do ventre da minha mãe;
não pretendo roubar nada
nem fazer mal a ninguém.
Só quero o que me é devido
por me trazerem aqui,
que eu nem sequer fui ouvido
no acto de que nasci.

Trago boca para comer
e olhos para desejar.
Com licença, quero passar,
tenho pressa de viver.
Com licença! Com licença!
Que a vida é água a correr.
Venho do fundo do tempo;
não tenho tempo a perder.

Minha barca aparelhada
solta o pano rumo ao norte;
meu desejo é passaporte
para a fronteira fechada.
Não há ventos que não prestem
nem marés que não convenham,
nem forças que me molestem,
correntes que me detenham.

Quero eu e a Natureza,
que a Natureza sou eu,
e as forças da Natureza
nunca ninguém as venceu.

Com licença! Com licença!
Que a barca se faz ao mar.
Não há poder que me vença.
Mesmo morto hei de passar.
Com licença! Com licença!
Com rumo à estrela polar."

António Gedeão

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

OUTROS CONTOS

«Five O'Clock Tear», conto poético por Emanuel Félix.

«Five O'Clock Tear»
Poema de Emanuel Félix

974- «FIVE O’CLOCK TEAR»

Coisa tão triste aqui esta mulher
com seus dedos parados no deserto dos joelhos
com seus olhos voando devagar sobre a mesa
para pousar no talher

Coisa mais triste o seu vaivém macio
p’ra não amachucar uma invisível flora
que cresce na penumbra
dos velhos corredores desta casa onde mora

Que triste o seu entrar de novo nesta sala
que triste a sua chávena
e o gesto de pegá-la

E que triste e que triste a cadeira amarela
de onde se ergue um sossego um sossego infinito
que é apenas de vê-la
e por isso esquisito

E que tristes de súbito os seus pés nos sapatos
seus seios seus cabelos o seu corpo inclinado
o álbum a mesinha as manchas dos retratos

E que infinitamente triste triste
o selo do silêncio do silêncio
colado ao papel das paredes
da sala digo cela
em que comigo a vedes

Mas que infinitamente ainda mais triste triste
a chávena pousada
e o olhar confortando uma flor já esquecida
do sol
do ar
lá de fora
(da vida)
numa jarra parada

Emanuel Félix