quarta-feira, 31 de maio de 2017

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

MÍSIA - «Xaile de Silêncio»

Poet'anarquista

Letra do Fado em: OUTROS CONTOS

Mísia
Fadista Portuguesa

OUTROS CONTOS

«Xaile de Silêncio», conto poético por Mário Cláudio.

«Xaile de Silêncio»
Diva do Fado, Amália Rodrigues

1031- «XAILE DE SILÊNCIO»

Que xaile de silêncio nos deixaste 
Que forma tão estranha de viver 
Ó voz que ardes na sombra, espinho e haste 
Lenço acenando em cada entardecer

Ao anjo português, branca tormenta 
Que os Fados te embalou, rezaste o terço 
E os barcos carregados de pimenta 
Por ti se tornariam nosso berço

As mães em ti cantavam docemente 
Doridas pela chama da amargura 
E a urze dos pinhais nascia rente 
À terra que lhes fora sepultura

Soubeste a cama estreita das varinas 
A malga, o beijo, o sono da colheita
O vulto dos amantes nas esquinas 
O voo da gaivota mais perfeita

Que xaile de silêncio nos deixaste 
Que forma tão estranha de viver 
Ó voz que ardes na sombra, espinho e haste 
Lenço acenando em cada entardecer

Mário Cláudio

terça-feira, 30 de maio de 2017

OUTROS CONTOS

«Vê-se Dentro do Céu Prodigamente», conto poético por Dante Alighieri.

«Vê-se Dentro do Céu Prodigamente»
Dante and Beatrice/ Marie Spartali Stillman

1030- «VÊ-SE DENTRO DO CÉU PRODIGAMENTE»

Vê-se dentro do céu prodigamente
quem minha amada entre outras damas veja.
E toda aquela que a seu lado esteja
rende graças a Deus por ser clemente.

Tanta virtude tem sua beleza
que inveja acaso às outras não consente,
por isso as tem vestida simplesmente
de confiança, de amor, de gentileza.

Tudo se faz humilde em torno dela;
por ser sua visão assim tão bela
às que a cercam também chega o louvor.

Pela atitude mostra-se tão mansa
que ninguém pode tê-la na lembrança
que não suspire, no íntimo, de amor.

Dante Alighieri

SÁTIRA...

Vem aí o Verão
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Sátira...

«VEM AÍ O VERÃO»

Está a chegar o Verão
Vou ter que adelgaçar…
Pró bikini poder usar,
Uma dieta é solução (?)
No Inverno absorção
De tudo que se come,
No Verão passo fome
Fico sem ter apetite…
A cabeça não admite
Este corpo disforme!

POETA

OUTROS CONTOS

«O Menino e a Fonte», por Juan Ramón Jiménez.

                                                                              «O Menino e a Fonte»
 Juan Ramón Jiménez – Platero e Eu, Cap. XLII

1029- «O MENINO E A FONTE

[Excerto]

«Na aridez abrasada de sol do grande lago poeirento que, por mais leve que se pise, cobre a gente, até os olhos, de branca poeira peneirada, o menino e a fonte formam um grupo risonho e esplêndido, cada qual com a sua alma. Embora ali não haja uma única árvore, o coração, em chegando, se enche de uma palavra que os olhos fixam, gravada no céu azul da Prússia, com grandes letras de luz: OÁSIS.

A manhã já tem um calor de sesta e a cigarra chia nas oliveiras, para as bandas do cercado de San Francisco. O sol bate em cheio na cabeça do menino. Ele, porém, distraído com a água, não sente.

Estendido no chão, está com a mão sob o jorro vivo, e a água lhe põe na palma um borbotante tesouro de frescura e de graça que seus negros olhos comtemplam em êxtase. Fala sozinho, respira fundo, coça-se aqui e ali, com a outra mão. O tesouro, sempre igual e diferente sempre, desfaz-se às vezes.

O menino, então, se retrai, apruma-se, concentra-se para que nem essa pulsação do sangue que, como um espelho que se movesse sozinho, muda a sensível imagem do calendoscópio, roube à água a primitiva forma surpreendida.

Platero, não sei se entenderás ou não o que te digo: mas esse menino tem a minha alma em sua mão».

Juan Ramón Jiménez 

segunda-feira, 29 de maio de 2017

SÁTIRA...

O Amor é...
Sátira...

«O AMOR É…»

- Que queres prá janta, ‘mor?
- Qualquer coisa cozinhada…
- Queres que te faça dobrada?
- Dobradinha tem outro sabor…
Prá ementa se compôr,
Vou dar uma dica:
A dobradinha fortifica,
E é óptimo pra festejar...
- Não quero ouvir falar
Do papa taças Benfica!!!

POETA

domingo, 28 de maio de 2017

SÁTIRA...

O Estrondo
Sátira...

«O ESTRONDO»

- De noite até madrugada,
Estrondo em meus sonhos…
- Sim, barulhos medonhos,
Mas foi só uma trovoada.
- Pois eu fiquei atordoada!...
Esta pobre cabecinha
Pensou que havia festinha,
Do Tetra lá no Marquês…
- A festejar, mas desta vez,
No Jamor a dobradinha!

POETA

SÁTIRA...

Os Estagiários
Sátira...

«OS ESTAGIÁRIOS»

- Diz que tem estagiários
Não pagos no governo…
- Hoje é muito moderno
Trabalhar sem salários…
- Quem são os ordinários
De que fala vossemecê?
- Atão o compadre não lê?...
São os da Geringonça,
Grandes amigos da onça…
Os do Bloco e do PCP!!

POETA

sexta-feira, 26 de maio de 2017

OUTROS CONTOS

«Dia do Abraço», por Manel d' Sousa.

«Dia do Abraço»
Mote de José Chilra

1028- «Dia do Abraço»

Necessito dum abraço,
Dum carinho e pouco mais…
Ando à procura e não acho,
O remédio prós meus ais.

José Chilra

Nervoso por natureza
A roçar a inquietação,
Vive assim em aflição
Esta alma portuguesa.
Age com delicadeza
Se um afago lhe faço,
O retrato que hoje traço
Só a mim diz respeito…
Abro então o meu peito,
Necessito dum abraço!

Pouco peço para mim…
Feliz com coisa pouca,
A escrita parece louca
Quando dela estou afim.
O coração diz que sim
E envia-me os sinais,
O amor nunca é demais
Eu recebo seu sorriso…
Hoje mesmo preciso
Dum carinho e pouco mais.

Um assomo de janela
E não vejo o teu olhar…
Fico perdido a pensar,
Onde será que está ela?
E era aquela, era aquela
Que sumiu num fogacho,
Como a água do riacho
Que não para de correr…
Os meus olhos querem ver,
Ando à procura e não acho.

Chega a ser doloroso
Esse tempo de procura,
A vida por vezes é dura
E o caminho sinuoso.
Se me encontro ansioso
Os dias passam iguais,
As rotinas habituais
São um quebra-cabeças…
À espera que me ofereças
O remédio prós meus ais!

Manel d’ Sousa

quinta-feira, 25 de maio de 2017

SÁTIRA...

O Ronaldo do Ecofin
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Sátira...

«O RONALDO DO ECOFIN»

Sou Ronaldo no Conselho
Para assuntos económicos,
Os resultados astronómicos
São ganhos financeiros.
Até já os meus parceiros
Me pretendem nomear,
Ainda penso lá chegar
Não me chame eu Centeio…
Marco sempre golo e meio,
No Eurogrupo a facturar!

POETA

quarta-feira, 24 de maio de 2017

OUTROS CONTOS

«Crimes Exemplares», por Max Aub.

«Crimes Exemplares»
Pequeno Conto de Max Aub

1027- «CRIMES EXEMPLARES»

«Penso, logo existo, disse o tal homem famoso. As árvores do meu jardim existem, mas não creio que pensem, pelo que fica demonstrado que o senhor René não estava bom do juízo e que o mesmo acontece com outros seres: o meu sogro, por exemplo – existe, mas não pensa. Ou o meu editor, que pensa, mas não existe. E se pomos isto ao contrário, também não fica certo. Não existo porque penso ou penso porque existo. Pensar, pensa-se, existir é um mito.

Eu não existo, sobrevivo, porque viver – aquilo a que se chama viver – só os que não pensam. Os que se metem a pensar, não vivem. A injustiça é por demais evidente. Bastaria que pensássemos para nos suicidarmos.

Não; senhor Descartes: vivo, logo não penso, se pensasse não vivia, se vivesse não pensava, senhor… etc., etc. Se para viver fosse necessário pensar, estaríamos lúcidos. Mas, enfim, se os senhores estão convencidos de que assim é, estou inocente, completamente inocente, pois não penso nem quero pensar.

Logo, se não penso não existo e, se não existo, como diabo posso ser responsável por essa morte?»

Max Aub

OUTROS CONTOS

«Excertos», por Ferreira de Castro.

«Excertos»
Sepultura de Ferreira de Castro

1026- «EXCERTOS»

I
«Eu nasci a 24 de Maio de 1898. Mas, quando penso na minha idade, sinto-me sempre mais novo, sinto-me sempre beneficiado por quatro anos a menos. São quatro anos iguais a um noite escuríssima, onde não é possível acender luz alguma. Não os viveu o meu espírito. Não estão na minha memória. Não me pertencem. Para a minha realidade espiritual eu tenho 28 anos. É que em 1902 que começo a povoar o museu da minha vida, a decorar a galeria das minhas recordações. Foi numa tarde de sol – tarde de luz forte que eu vejo ainda – que dei início ao longo da casa onde nasci. A diabrura que pratiquei, desvaneceu-se no esquecimento, mas lembro-me, sim, que minha mãe, saindo do quinteiro e agarrando-me por um braço, castigou-me. Passava na estrada, enxada ao ombro, um homem alto, bigodes retorcidos festonando as faces trigueiras. Deteve-se, sorriu e disse:

- “Assim é que é, senhora Mariquinhas! Nessa idade é que eles se ensinam”.

Odiei aquele homem. Por que, em vez de me proteger com a sua força, ele estimulava minha mãe a castigar-me ainda mais? Por que era ele tão mau e por que sorria vendo-me sofrer, se eu não nunca lhe tinha feitio mal?

É esta a minha recordação. E foram de ódio e de sofrimento as primeiras sensações que a vida me deu. Eu tinha quatro anos e meio.»

II
«Quando vinha com minha mãe ao mercado de Oliveira de Azeméis, passava por uma meia porta e via lá uma máquina a trabalhar, a tirar o jornal; aquilo parecia-me uma obra de Deus e o meu sonho todo, tinha 9 anos, seria escrever umas coisas para aquele jornal, para a «Opinião». Se alguém podia ter feito a felicidade de uma criança, seria aquele jornal.»

III
« ...Na minha aldeia fiz a instrução primária; no seringal, lia todos os livros que conseguia encontrar, o que estava muito longe de ser suficiente. Eu sou autodidacta. Não posso mesmo dizer que estudei no que isto significa de disciplina, pois tudo o que aprendi, desde as línguas que me permitissem conhecer o espírito dos outros povos, até à Sociologia e a Filosofia, que tanto me interessavam, o fiz sem esforço... e graças a isso, todas as minhas incursões no mundo do conhecimento humano foram agradáveis em vez de penosas.»

Ferreira de Castro

terça-feira, 23 de maio de 2017

SÁTIRA...

A Onda
Sátira...

«A ONDA»

- Alcançado o objectivo:
Saída do procedimento,
Depois do aprisionamento
Por défice excessivo…
Deixei de estar cativo!
- Zé, podes esclarecer
O que isso quer dizer?
- Não faço ideia, Maria…
Mas uma onda d’alegria
Mal não deve fazer!?...

POETA

segunda-feira, 22 de maio de 2017

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

RICHARD WAGNER - «The Valkyrie»

Poet'anarquista

Richard Wagner
Compositor Alemão

OUTROS CONTOS

«Os Primeiros Encontros», por Gonçalo M. Tavares.

«Os Primeiros Encontros»
Conto de Gonçalo M. Tavares

1025- «OS PRIMEIROS ENCONTROS»

Relato do primeiro encontro da senhora Gertrude com o senhor John

O senhor John perguntou:

- Como é mesmo o seu nome?

A senhora Gertrude respondeu:

- Gertrude. Com um único T e saia travada.

O senhor John disse:

- É uma saia travada mas anda.

A senhora Gertrude respondeu:

- É saia travada porque está muito apertada. Estas saias já não se usam, mas eu uso-as. Gosto de estar sempre atrasada, tanto para os encontros inadiáveis que eu adio, como em relação à moda. A senhora Gertude, eu própria aqui presente, está sempre atrasada.

O senhor John disse:

- Não é grave.

A senhora Gertrude respondeu:

- Uso saia travada e, por isso, com semelhante tecnologia de vestuário o ser humano que vai aqui dentro tem de andar mais devagar que os seres humanos normais. Mas eu sou assim.

O senhor John disse:

- Com essa saia travada já é um milagre que a senhora Gertrude consiga pôr um pé a seguir o outro. Com essa saia travada o mais natural era um pé estar sempre ao lado do outro, como nas estátuas.

A senhora Gertrude disse:

- O senhor John tem humor, mas diga-me lá: esse seu chapéu, é mesmo seu, ou veio com a chuva de ontem?

O senhor John respondeu:

- A senhora Gertrude tem humor, mas os chapéus não vêm do céu com a chuva. Se quer saber, uso chapéu porque sou um homem elegante. É uma informação que lhe dou.

A senhora Gertrude respondeu:

- Agradeço a informação. É bom estarmos informados. Se não me tivesse dito eu nunca saberia que o senhor era um homem elegante. Agradeço a informação.

O senhor John sorriu e nada disse: levantou o dito chapéu, e fez uma vénia.

A senhora Gertrude corou, ajeitou a sua eterna saia travada, fez um beicinho, leve, para não parecer despropositado, e despedindo-se com rapidez para ser a primeira a despedir-se, disse:

- Tenho de ir. Deixei a porta do armário dos copos aberta. Não quero que eles se partam sem eu estar presente. Adeus.

Já afastada uns metros a senhora Gertrude ainda gritou para o senhor John:

- É que tenho um gato! Um gato!

O segundo encontro da senhora Gertrude com o senhor John

O segundo encontro da senhora Gertrude com o senhor John ocorreu quando o senhor John ia a caminhar pelo passeio e a senhora Gertrude gritou, do outro lado da rua:

- Olá, senhor John, como vão as coisas?

- Tudo a andar, senhora Gertrude, as coisas estão a andar  como as duas pernas – respondeu o senhor John. - Os braços, a cabeça, o coração e os olhos: tudo a andar como as pernas. E a senhora Gertude?

- Sempre com pressa!

- Para si vai tudo a correr, não é verdade?

- Exactamente, senhor John.

- Cumprimentos ao gato!

- Muito obrigado. Um destes dias tem de conhecer o meu gato, disse ainda a senhora Gertrude, que logo se arrependeu de ter dito tal frase.

Vai pensar que foi um convite, dizia para si própria, já em casa, a senhora Gertrude. E vai pensar que eu sou uma atrevida.

E parecia verdade: a senhor Gertrude estava a apaixonar-se.

Gonçalo M. Tavares

sábado, 20 de maio de 2017

SÁTIRA...

Alô, Rússia?
Sátira...

«ALÔ, RÚSSIA?»

- Alô?... és tu Vladimir??
Daqui fala o Donald…
Em nome da amizade
A Rússia penso servir (…?...)
- Só tens é que mentir…
Eu dou consentimento,
Não há impedimento
Comigo podes contar…
- Segredos por revelar
Tenho mais de um cento!

POETA

sexta-feira, 19 de maio de 2017

OUTROS CONTOS

«Cumpridos Dez Anos de Prisão», por Mário de Sá-Carneiro.

«Cumpridos Dez Anos de Prisão»
Conto de Mário de Sá-Carneiro

1024- «CUMPRIDOS DEZ ANOS DE PRISÃO»

Cumpridos dez anos de prisão por um crime que não pratiquei e do qual, entanto, nunca me defendi, morto para a vida e para os sonhos... nada podendo já esperar e coisa alguma desejando - eu venho fazer enfim a minha confissão: isto é, demonstrar a minha inocência.

Talvez não me acreditem. Decerto que não me acreditam. Mas pouco importa. O meu interesse hoje em gritar que não assassinei Ricardo de Loureiro é nulo. Não tenho família; não preciso que me reabilitem. Mesmo, quem esteve dez anos preso, nunca se reabilita. A verdade simples é esta. Ricardo de Loureiro, o poeta das Brasas...

Fui pouco a pouco distinguindo os objetos... e, de súbito, sem saber como, num rodopio nevoento, encontrei-me sentado em um sofá, conversando com o poeta e a sua companheira.

Sim. Ainda hoje me é impossível dizer se, quando entrei no salão, já lá estava alguém, ou se foi só após instantes que os dois apareceram. Da mesma forma, nunca pude lembrar-me das primeiras palavras que troquei com Marta - era este o nome da esposa de Ricardo. Enfim, eu entrara naquela sala tal como se, ao transpor o seu limiar, tivesse regressado a um mundo de sonhos. Eis pelo que as minhas reminiscências de toda essa noite são as mais ténues.

Entretanto, durante ela, creio que nada de singular aconteceu. Jantou-se; conversou-se largamente, por certo... à meia-noite despedi-me. Mal cheguei ao meu quarto, deitei-me, adormeci... e foi só então que me tornaram os sentidos. Efectivamente, ao adormecer, tive a sensação estonteante de acordar de um longo desmaio, regressando agora à vida... não posso descrever melhor esta incoerência, mas foi assim. (E, entre parênteses, convém-me acentuar que meço muito bem a estranheza de quanto deixo escrito. Logo no princípio referi que a minha coragem seria a de dizer toda a verdade, ainda quando ela não fosse verossímil.)

Raros dias se passavam em que não estivesse com Ricardo e Marta. Quase todas as noites nos reuníamos em sua casa, um pequeno grupo de artistas: eu, Luís de Monforte, o dramaturgo da Glória; Aniceto Sarzedas, o verrinoso crítico; dois poetas de vinte anos cujos nomes olvidei e - sobretudo - o conde Sérgio Warginsky, adido da legação da Rússia, que nós conhecêramos vagamente em Paris e que eu me admirava de encontrar agora assíduo frequentador da casa do poeta.

Ricardo empurrou a porta brutalmente... em pé, ao fundo da casa, diante de uma janela, Marta folheava um livro... a desventurada mal teve tempo para se voltar... Ricardo puxou de um revólver que trazia escondido no bolso do casaco e, antes que eu pudesse esboçar um gesto, fazer um movimento, desfechou-lho à queima-roupa. Marta tombou inanimada no solo... eu não arredara pé do limiar... e então foi o mistério... o fantástico mistério da minha vida... ó assombro! ó quebranto! Quem jazia estiraçado junto da janela, não era Marta - não! -, era o meu amigo, era Ricardo... e aos meus pés - sim, aos meus pés! - caíra o seu revólver ainda fumegante!...

Marta, essa desaparecera, evolara-se em silêncio, como se extingue uma chama.

Aterrado, soltei um grande grito - um grito estridente, despedaçador - e, possesso de medo, de olhos fora das órbitas e cabelos erguidos, precipitei-me numa carreira louca... por entre corredores e salões... por escadarias...

Mário de Sá-Carneiro

SÁTIRA...

Ordem de Mérito
Sátira...

«ORDEM DE MÉRITO»

Crescimento económico:
- Os louros não são teus!
- São meus, muito meus!!
- Isto ultrapassa o anedótico,
Mas eu vou dar o tónico:
Do alto do meu castelo
Sou eu quem tutelo…
Aqui este nosso emérito
Fez por merecer o mérito,
Agradeçam ao Martelo!

POETA

quinta-feira, 18 de maio de 2017

SÁTIRA...

O Positivista
Sátira...

«O POSITIVISTA»

- O que é que laranja do chão
Pensa da boa economia?
- Trata-se de uma anomalia,
Fruto da vossa imaginação.
- Não acha a sua opinião
Desajustada e negativa?
- Sobre tal prerrogativa…
Só eu sei como lamento
Esta fase de crescimento,
Infelizmente ser positiva!

POETA

quarta-feira, 17 de maio de 2017

OUTROS CONTOS

«A Visita», por Zélia Gattai.

«A Visita»
Conto de Zélia Gattai

1023- «A VISITA»

Graças a uma das visitas de Vinicius à nossa casa, salvou-se a série de canções para crianças, de sua autoria:

À beira da piscina, o inseparável copo de uísque ao lado, violão em punho, Vinicius cantava.

Faço um parênteses para me desculpar. Na afobação de querer contar logo a história que me veio à memória — como já devem ter percebido, não tenho anotações, tiro tudo da cachola à medida que as lembranças chegam — esqueci-me de pedir licença para, ainda uma vez, avançar no tempo. Peço agora, pois devo explicar como foi que as músicas infantis de Vinicius de Moraes se salvaram. Avanço tanto, tanto, que falo até de meus netos, os três que existiam na época: Mariana, Bruno e Maria João.

Nessa ocasião, o amor de Vinicius, sua mulher, era uma baiana, Gessy Gesse, a quem devemos a vinda do poeta à Bahia, onde até uma casa ele construiu, disposto a ancorar entre o mar e os coqueiros de Itapuã.

Estávamos à beira da piscina e Vinicius cantava — como foi dito — quando chegaram meus três netos.

Eu agora vou cantar umas musiquinhas para vocês, disse Vinicius às crianças, e começou: Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada… Espera aí, interrompi, vou buscar um gravador. Assim dizendo saí ligeiro. Voltei em seguida, gravadorzinho ligado e ele recomeçou: Lá vem o pato, pato aqui, pato acolá… Cantou todas as canções, intercalando entre elas uma chama, da: Esta é para Marianinha!… Esta é para Bruninho!… Esta é para Maria João!… Encantadas, as crianças ouviam as músicas pela primeira vez, pois elas ainda não haviam sido gravadas naquela ocasião. Ao saber que não restara nenhuma gravação delas após a morte de Vinicius, entreguei meu cassete à Gilda Queiroz Matoso, última e amada companheira do poeta até seus derradeiros momentos. Gravação precária, porém a única que restou e é a que se ouve até hoje.

Vinicius tornou-se íntimo de Calasans Neto e Auta Rosa, adorava o casal, alugou casa em Itapuã antes de construir a própria, queria ficar perto deles.

A rua da Amoreira, onde moravam — e moram até hoje — Calasans e Auta Rosa, era um horror: lama, buraqueira e, como se isso não bastasse, havia esgoto a céu aberto.

Frequentador assíduo da casa, inconformado com a situação dessa rua, Vinicius não teve dúvida, redigiu uma petição em versos ao prefeito de Salvador. No poema, verdadeiro primor, pedia-lhe atenção e carinho para a rua.

Combinou com Jorge, que conseguiu a publicação do poema-petição na primeira página do jornal A Tarde.

Petição ao Prefeito

Prefeito Clériston Andrade
A quem ainda não conheço:
Quero tomar a liberdade
Que eu nem sequer sei se mereço
De vir pedir, lhe, em causa justa
Um obséquio que, sem favor
Muito honraria (e pouco custa!)
Ao Prefeito de Salvador.
Existe ali no Principado
Livre e Autónomo de Itapuã
Uma ruazinha que, sem embargo
Pertence à sua jurisdição
Uma rua não sem poesia
E cujo título é dar teto
A uma das glórias da Bahia:
O gravador Calasans Neto.
Dizer do estado dessa ruela
(Da Amoreira) eu não arrisco
Porque sem esgotos, correm nela
Rios de … — Valha-me o asterisco!
E isso é uma pena, Senhor Prefeito
Pois Calasans e sua gravura
Têm cada dia mais procura
De fato como de direito:
O que constrange os visitantes
Com boa margem de estrangeiros
A, entre gravuras fascinantes
Ver quadros nada lisonjeiros.
Calce essa rua, Senhor Alcaide
E eu lhe garanto que algum dia
Pro domo sua, esta Cidade
O há de lembrar com mais valia.
Na expectativa de que acorde
Um novo “Cumpra, se” , sem mais
Aqui se assina, muito ex-corde
O seu, Vinicius de Moraes.

Tiro e queda, a resposta do prefeito foi imediata, em pouco tempo a rua de Auta e Calá foi consertada e asfaltada e, diga-se de passagem, ela foi, por algum tempo, a única rua asfaltada das imediações.

Naqueles tempos, a decantada beleza de Itapuã se resumia no mar, nas praias, nos coqueirais e nas canções de Dorival Caymmi.

Para festejar o acontecimento, Jenner Augusto e Luísa ofereceram um almoço ao qual Vinicius compareceu vestido de gari da limpeza pública, levando para Calá e Auta a petição, enquadrada.

Zélia Gattai

terça-feira, 16 de maio de 2017

SÁTIRA...

Graça Papal
Sátira...

«GRAÇA PAPAL»

- Eminência, fico feliz
Por aceitar o convite,
O 13 de Maio insiste
Na visita ao meu país.
- Está por um triz
O ‘Inferno’ pegar fogo,
Eu não sou demagogo
Nem doente da bola...
O tetra já não descola,
A que horas é o jogo?

POETA

SÁTIRA...

Os Três F
Sátira...

«OS TRÊS F»

Acabou de acontecer
A profecia dos três efes…
Ainda há mais benesses,
O quarto está pra suceder.
Por ordem vou descrever:
Fátima, futebol e fado,
Falta o menos falado
Mas não foi esquecido…
O quarto efe é ‘fodido’,
Não pode ser revelado!

POETA

SÁTIRA...

O Salvador
Sátira...

«O SALVADOR»

- Senhor, salva-nos da borrasca,
Desta miséria ultrajante…
Daqui pra diante
Não quero andar à rasca!
Tem sido ao desenrasca
Que como naco de pão,
Agradeço a tua aparição
Nessa velha oliveira…
- Não, não é brincadeira,
Ganhámos a Eurovisão!!

POETA

SÁTIRA...

De Vento em Popa
Sátira...

«DE VENTO EM POPA»

- Tonho, o vento sopra a favor
Ninguém pára a Geringonça,
Aos três amigos da onça
Há que prestar justo louvor!
- Já chegou o tempo do calor,
Foi-se embora a tormenta…
Não sei se a malta aguenta
Até alcançar o que é preciso…
- Tonho, podes ser mais conciso?
- Ainda falta ganhar o penta!

POETA

sexta-feira, 12 de maio de 2017

OUTROS CONTOS

«Um Natal com Morangos», por Baptista-Bastos.

«Um Natal com Morangos»
O pedido que atravessou os céus

1022- «UM NATAL COM MORANGOS»

(A pequena grande história que atravessou os céus)

“Houve um bom Natal na minha vida. Um bom Natal inesquecível. Um Bom Natal em que este metro e oitenta e quatro de português, que redige um português inútil, inútil português de metro e oitenta e quatro presumiu ser útil escrevendo num português inçado de erros, coxo, desmantelado - mas feliz.

Foi assim: pelas onze e meia da noite de um 24 de Dezembro eu estava na redacção do jornal onde trabalhava. Veio um telegrama de Londres que dizia mais ou menos isto: Um menino que está a morrer pediu à mãe morangos. Não há morangos em Inglaterra, por esta época do ano.

A mãe foi à BBC e a BBC fez um apelo. Um avião em voo escutou-o. Transmitiram o apelo a todos os aviões do mundo. E alguns aviões do mundo atrasaram as suas partidas, transferiram de bojo para bojo um cesto de morangos que fora adquirido na Cidade do México. Os morangos chegaram a Londres.

Não havia mais no telegrama; mas era uma grande história de Natal e de amor, numa suave noite de Natal, em que seria radioso relembrar às pessoas que, por vezes, as pessoas conseguem coisas formidáveis.” 

(Baptista-Bastos in “Cidade Diária”)

SÁTIRA...

Onde Estás, Baptista?
Sátira...

«ONDE ESTÁS, BAPTISTA?»

- Ó São Pedro, no Paraíso
Também há politiqueiros?
- Não tem pantomineiros,
Politiquices aqui não preciso!…
Mas podes ser mais conciso,
Meu caro Baptista-Bastos?
- Esclarece tu os incautos…
Verdade que estavas febril
Quando foi o 25 de Abril?
- Na altura andei de rastos!

POETA

quinta-feira, 11 de maio de 2017

OUTROS CONTOS

«Esplanada», conto poético por Fernanda Botelho.

«Esplanada»
Esplanada/ JPGalhardas

1021- «ESPLANADA»

É o processo da forma seca e pobre
na calma aceitação de mais torpor:
nada que persista ou que demore
mais que o minuto calmo em que descobre
que, se o cenário mudou, a forma
continua.
E não transtorna,
nem ousa (ronceirosa)
mudar a cor da lua
ou por ordem no caos.

Esta é a fábula da lesma preguiçosa
à temperatura de 35 graus.

Fernanda Botelho

domingo, 7 de maio de 2017

OUTROS CONTOS

«Mãe!...», conto poético por Matias José.

«Mãe!...»
Joana, mãe de criação e Francisca, mãe do ser

Poema escrito para a mãe de criação, onde também cabe a mãe do ser. Obrigado, mães!

(Duas mães é sempre melhor)

1020- «MÃE!...»

Mãe!... Esse terno rosto, lindo sorriso
Quando na casa humilde me acolhias...
Oh!... Como tudo parecia caloroso,
Do jeito manso que sempre sorrias!

Mãe!... A casa tão pequenina acolhedora
De uma estranha paz no seu aconchego,
E as imagens da Virgem Nossa Senhora
Reconfortando a alma em desassossego!

Mãe!... Com as tuas mãos entrelaçavas
As minhas que dormir quase pareciam,
Ouvindo a tua voz enquanto rezavas 
 Pedir à Virgem pelos que mais sofriam!

Mãe!... Quanta saudade do teu regaço,
Desses ternos carinhos que fazias...
Dos teus beijos, do suave abraço,
E das palavras doces que me dizias!

Matias José

sexta-feira, 5 de maio de 2017

SÁTIRA...

O Pântano
Sátira...

«O PÂNTANO»

- Tonho, como aconteceu
Caires nesse pântano?
- Obra d’amigo “cigano”,
Empurrou e desapareceu!
- E agora… que faço eu?
- Políticas pantanosas
São as mais vantajosas…
Podes dar seguimento
Ao pântano pestilento,
Que se cozam as rosas!!

POETA

quarta-feira, 3 de maio de 2017

SÁTIRA...

O Choque
Sátira...

«O CHOQUE»

- Tonho, estou chocado!...
Em Portugal os gestores
Ganham aos trabalhadores,
100 vezes no ordenado…
Isso tem que ser alterado!
- Só 100 vezes é pouco…
O gestor anda louco
Pra ter uma vida digna…
Assim ninguém se resigna,
100 vezes sabe apouco!!

POETA

SÁTIRA...

A Lei da Rolha
Sátira...

«A LEI DA ROLHA»

- Quando trouxe miséria
Não metíamos a rolha,
Na boca de qualquer trolha…
Era tudo gente séria!
- Sobre essa matéria
Nem sei o que pensar,
Mas sempre podes usar
A dita na retaguarda…
- Matraca bem rolhada,
E acabou-se o piar!

POETA