quinta-feira, 19 de outubro de 2017

SÁTIRA...

Queda Livre
Sátira...

«QUEDA LIVRE»

Sem pedalada
Prós tubarões…
É só desilusões,
Não ganhamos nada.
A porta está fechada
Aos que têm menos,
Somos os somenos
Europeus endinheirados…
Grandes bem calçados,
Comem os pequenos!

ATEOP

OUTROS CONTOS

«O Espelho de Lida Sal», por Miguel Angel Asturias.

«O Espelho de Lida Sal»
O Sentido da Visão/ Juan Dò

1112- «O ESPELHO DE LIDA SAL»

I

Quando o inverno declina os rios vão ficando sem fôlego. Ao brando deslizar das correntes sucede o silêncio seco, o silêncio da sede, o silêncio das secas, o silêncio das lâminas de água imobilizada entre os bancos de areia, o silêncio das árvores que o calor e o vento tostado do verão quente fazem suar folhas, o silêncio dos campos onde os rústicos se amodorram nus e sem sono. Nem moscas. Atmosfera irrespirável. O sol cortante, a terra como um forno de olaria aceso. Os gados extenuados espantam o calor com o rabo enquanto buscam a sombra dos abacateiros. Através da erva seca e escassa, coelhos sedentos, serpentes surdas a procura de água e aves que mal erguem o voo.

Inútil dizer quanto os olhos se matam diante de tanta terra rasa. Para as quatro bandas da distância a vista perde-se no horizonte. Só olhando muito bem se divisam pequenos grupos de árvores, campos de terras revolvidas e caminhos desses que se formam de tanto e tanto trilhados de passos e que vão por ali adiante, até ranchos onde o homem encontra o contento do lume, a mulher, os filhos, currais onde a vida procura o alimento, como galinha insaciável, o prazer dos dias.

Por uma dessas desesperadas horas de calor e sufocação, D. Petronila voltou para casa. D. Petronila Ângela, a quem alguns nomeavam assim, ao passo que outros lhe chamavam Petrángela, mulher de D. Filipe Alvizures, mãe dum rapaz e grávida de há meses. D. Petronila Ângela finge que não faz nada, para que seu marido não a repreenda por fazer coisas no estado em que está, e com esse ar de nada fazer mantém a casa em ordem, tudo como deve ser: roupa limpa nas camas, asseio nos quartos, pátios e corredores, olho na cozinha, mãos na costura e ao forno, idas e vindas aqui e ali: ao galinheiro, à quadra onde se mói o milho ou o cacau, a arrecadação das coisas velhas, ao curral, à horta, à rouparia, à despensa, à toda a parte.

Seu senhor marido ralha quando a vê ocupada; quer que esteja sentada ou deitada sempre sem mexer uma palha; mas isso é mau, pois os filhos saem preguiçosos. Seu senhor marido, Filipe Alvizures, é um homem interiormente imenso — o que o torna lento de movimentos —, e por fora sempre metido em espaçosas roupas de cetim. Ignora a aritmética, mas sabe somar rapidamente servindo-se de grãos de milho, e ainda sabe menos de letras, mas e inútil saber ler, como bem sabem todos esses que nunca lêem. De resto, se D. Pe­tronila diz que ele é imenso por dentro é porque lhe custa juntar duas palavras. Dir-se-ia que as vai buscar uma a um ponto a outro muito mais além. Dentro e fora de si, o senhor Filipe tem onde se mover muito à sua vontade, sem ter que fazer nada de afogadilho, reflectindo com toda calma. E quando chegue a sua hora — «Queira Deus que daqui a muitos e bons!», diz lá consigo Petrángela—, se a morte lhe não colhe o passo não poderá levá-lo.

 A força do sol reparte-se pela casa toda. Um sol com fome, que sabe que são horas de almoço. Mas sob os tectos de telha de barro está mais fresco. Contra seu costume, Filipinho, o filho mais velho, chegou primeiro que seu pai, saltou a cavalo por cima do portão de trancas —só duas estavam atravessadas: as mais altas, as mais perigosas — e, entre o alvoroço das galinhas, o latir dos cães e o esvoaçar dos pombos, depois dum ir e vir a velocidade de relâmpago, imobilizou o cavalo, cujas ferraduras arrancavam faíscas à calçada do pátio, e soltou uma gargalhada.

— Que coisa sem graça nenhuma, Filipinho... já sabia que eras tu!

À mãe não agradavam nada semelhantes Áfricas. Os olhos do cavalo brilhavam, espumava-lhe a boca. Filipinho desmontou e foi abraçar e acarinhar D. Petronila.

Daí a pouco chegava o pai, montado no Samaritano, um macho negro assim chamado devido a sua mansidão. Arreou-se da montada com mil e um vagares, para afastar as trancas do portal que Filipinho vencera de salto, pô-las de novo e entrou sem fazer bulha que não a do toque-toque dos cascos do Samaritano no empedrado fronteiro ao apeadeiro.

Almoçaram de boca calada, vendo-se como se não se vissem. O senhor Filipe via sua mulher, esta seu filho, e o filho seus pais, que devoravam tortilhas rasgavam a carne duma perna de frango com os dentes afiados, bebiam água a grandes sorvos, para que lhes passasse da garganta a massa duma saborosa papa de mandioca vermelha.

– Deus lhe pague, senhor pai...

O almoço findou, como sempre, sem muitas palavras, entre o silêncio de todos e as olhadelas de Petrángela à cara e ao movimento das mãos de seu marido, para saber quando ele terminara um prato e pedir a criada que trouxesse o seguinte.

Filipinho, depois de dar graças a seu pai, aproximou-se da mãe, os braços cruzados sobre o peito, a cabeça baixa, e repetiu:

— Deus lhe pague, senhora mãe...

E tudo terminou na forma do costume: D. Filipe na sua rede, a mulher numa cadeira de balanço, Filipinho escarranchado num banco, como se continuasse a cavalo. Cada qual com seus pensamentos. O senhor Filipe fuma. Filipinho não se atreve a fumar diante de seu pai, mas vão-se-lhe os olhos atrás do fumo, enquanto Petrángela se balança apoiando-se agora e logo no chão com um e outro dos seus pés pequeninos.

II

Lida Sal, uma mulata mais torneada que um pião, era toda ouvidos, não para o que estava fazendo, mas para a conversa do cego Benito Jojón com um tal Falutério, mordomo da festa de Nossa Senhora do Carmo. O cego e Falu­tério tinham acabado de comer e estavam para abalar. Isto ajudava a que Lida Sal pudesse escutar o que diziam. Os lavadouros de pratos e outros utensílios sujos ficavam quase ao pé da porta que a casa de pasto tinha sobre a rua.

– Os Perfectantes — dizia o cego, ensaiando gestos como se arrancasse das rugas do rosto incomodas teias de aranha— são os mágicos... Então, como explicar que não se encontrem candidatas, tanto mais que agora os homens andam tão ariscos? Sim, amigo Falutério, há poucas bodas e muitos baptismos, o que não está bem. Muito solteirão com cria, muito solteirão com cria...

– Que quer você? Desculpe-me a franqueza... mas se peço a sua opinião é para estar seguro, quando falar com os outros membros da Confraria da Santíssima Virgem. A festa não tarda, e se não há mulheres que se encarreguem das fardas dos Perfectantes então vai ser como o ano passado: sem mágicos...

– Falar não custa, Falutério, fazer é que dá trabalho. Se me fazem a caridade de deixar que eu me ocupe de vestir os Perfectantes, bem pode ser que eu encontre candidatas. Há por ai muita mulher casadoira, Falutério, e mulher em idade de arranjar marido.

– É difícil, Benito, é difícil. Ideias de outros tempos. Hoje em dia, com o que se sabe, quem vai lá acreditar em semelhantes bobagens?! Da minha parte, e da parte todos os da comissão dos festejos da padroeira, creio não haver nenhum inconveniente em lhe dar, já que é necessitado e não pode trabalhar por ser cego, o encargo de enfeitar os Perfectantes.

– Sim, sim, deixem-me fazê-lo e assim não se acabarão as coisas de outros tempos.

– Vou-me embora, deixo-o agora. E tenha como certo o oferecido.

– Tomo-lhe a palavra, sim senhor, tomo-lhe a palavra... E cá me vou também, a tratar disso, com a ajuda de Deus

A mão fria e ensaboada de Lida Sal abandonou o prato que estava lavando e pousou no braço do cego, na manga do seu casaco, que de tão remendado era todo ele um remendo. Benito Jojón cedeu ao gesto afectuoso, deteve o passo, pois se dirigia para sua casa, ou seja para a praça do povoado, e perguntou quem o retinha.

– Sou eu, Lida Sal, a rapariga que lava os pratos aqui na casa de pasto.

– Sim, filha. Mas que queres de mim ?

– Que me dê um conselho novo...

– Ah!, ah! És então das que acreditam que ha conselhos velhos...

– E é mesmo por isso que o quero novo. Um conselho que invente só para mim, que não tenha dado a nenhuma outra, que nem sequer o tenha pensado. Novo...

– Vejamos, vejamos se posso...

– Trata-se, como vossemecê já sabe...

– Não, não sei nada...

– É que eu estou. como devo dizer ?, que eu estou,.. um bocado embeiçada por um homem, e ele nem sequer olha para mim...

– É solteiro?

– Sim, solteiro, bem jeitoso, rico... —suspirou Lida Sal. — Mas como é que vai reparar em mim, que apenas lavo louça, se ele é uma grande coisa?...

– Não digas mais nada. Sei o que queres, mas como me disseste que não passas duma criada que lava louça, não vejo como te arranjarás para pagar a esmola duma das fardas dos Perfectantes. São coisas muito caras...

– Por ai não se aflija. Tenho algum dinheirinho, se não é assim muitíssimo o que se tem que dar de esmola. O que eu quero saber e se vossemecê se compromete a dar-me uma dessas vestes mágicas e a ir ter com aquele ingrato, para que ele a use no dia da padroeira. Que ele se vista de Perfectante com o traje que eu lhe mande é o principal. O resto corre por conta da magia.

– Mas, filha, s além de não ver não sei onde encontrar esse tal senhor a quem tu queres e por quem te derretes? Quanto a este teu caso, sou duas vezes cego...

Lida Sal inclinou-se até uma das grandes orelhas rugosas. peludas e emporcalhadas do cego e disse-lhe:

– Em casa dos Alvizures.

– Ah!... Ah!...

– Filipinho Alvizures...

– Entendo, entendo... queres fazer um bom casamento...

– Não, por Deus! Lembre-se de que é cego e não pode ver claro, se o que vê no meu amor e apenas o interesse!

– Então, se não é por interesse é porque o corpo te pede...

– Não seja bruto! Me pede a alma, porque se me pedisse o corpo eu suaria quando o vejo, mas não suo, pelo contrario, fico como se não fosse eu, a suspirar,

– Esta bem! Quantos anos tens?

– Vou fazer dezenove, mas não sei bem, talvez vinte. Eh!, tire a mão dai... Cego, e mesmo assim, a botar a pata!

– É para me certificar, filhinha, para me certificar de como estas de carnes...

– Vai a casa dos Alvizures?... Isso é o que me interessa!

– Hoje mesmo... Mas que é isto que me enfiaste no dedo? É um anel?

– Um anel de ouro. Vale o que pesa...

– Que bom... que bom...

– Dou adiantado pelo do que tiver de pagar de esmola pela farda de Perfectante.

 – És pratica, menina. Mas olha que não posso, ir a casa dos Alvizures sem saber sequer como te chamas...

– Lida Sal...

– Bonito nome, mas não é cristão. Vou lá onde me manda o teu coração. Experimentaremos a magia. Como a estas horas as carroças do senhor Filipe estão no mercado carregando e descarregando lenha, meto-me numa delas, como já tenho feito outras vezes, e lá me terão de visita a em busca do Filipinho

III

O cego quis beijar a mão a D. Petronila Ângela, mas esta retirou a tempo e o estalido dos lábios perdeu-se no vazio. Não era de beijoquices, pela mesma razão que detestava os cães.

– A boca se fez para comer, para falar, para rezar, Jojón, e não para lamber as pessoas. Veio à procura dos homens? Estão por ai, estendidos nas redes. Me dê sua mão, que eu o levo, cuidado para não tropeçar. Mas que é que o traz tão apressado? Felizmente, bem sabe, as carroças estão à sua disposição e esta casa sempre aberta para você.

– Sim, Deus lhe pague, minha senhora, e se vem sem antes avisar é porque o tempo corre e temos de nos adiantar para preparar bem a festa de Nossa Senhora.

– Tem razão, já estamos quase em vésperas do grande dia... Mas quem diria que a outra festa foi já há um ano.

– E agora estão fazendo preparativos que deixam a perder de vista os do ano passado. A Senhora vai ver...

O senhor Filipe numa rede e Filipinho noutra, embalavam-se enquanto o Sol ia declinando. O senhor Filipe fumava um tabaco que cheirava a figos, e Filipinho, por respeito, resignava-se a ver formarem-se e desfazerem-se as nuvens do fumo perfumado no ar tépido.

Petrángela aproximou-se deles conduzido Jojón pela mão e, já quase ao pé das redes, anunciou-lhes que tinham visita.

– Não é uma visita —corrigiu o cego—, e um maçador...

– Os amigos nunca maçam — adiantou-se a dizer o senhor Filipe enquanto botava fora da rede uma das pernas, curtas, para se sentar.

– Veio com os carreiros, Jojón? — perguntou Filipinho.

– Sim, menino, sim. Mas agora, se arranjei modo de vir, como hei de ir e que não sei.

– Selo um cavalo e vou levá-lo — respondeu Filipinho, — Por isso não esteja em cuidados...

– Senão, fica connosco...

– Ai, minha senhora, se eu fosse uma simples coisa ficava, mas tenho boca, já sabe que uma boca a mais é sempre um incómodo!

O senhor Filipe entretanto apertou a mão do cego, tão cheia de sombras duvidosas, e conduziu-o a uma cadeira que Filipinho trouxera.

– Vou lhe por um charuto na boca — disse o senhor Filipe.

– Não me peça licença, senhor; para dar um gosto não se pede licença...

E já fumando a plenos pulmões Jojón continuou:

– Dizia-lhes eu que isto não era uma visita, mas uma maçada. Assim mesmo, pura maçada. Venho com o encargo de saber se Filipinho quer ser este ano o chefe dos Perfectantes.

– Isso é lá com ele— disse o senhor Filipe Alvizures, fazendo sinais a Petrángela que se aproximasse, e, chegando-se ela, prendeu-a pela cintura inabarcável só com um braço, para estarem juntos, atentos ao falar do cego.

– Isso traz agua no bico... — reagiu Filipinho, expelindo um jato de saliva que ficou a brilhar no chão.

Sempre que ficava nervoso cuspia assim.

– Não lhe ponho a faca aos peitos —aduziu Jojón. — Há tempo para pensar bem no caso e resolver sem precipitação, desde que não demore muitos dias, porque a festa esta à porta. E note, menino, que no caso de aceitar tem de experimentar o traje, a ver se lhe cai bem e para que se lhe cosam nas mangas os galões de Príncipe dos Perfectantes.

– Não me parece que ele tenha de estar com grandes pensamentos — decidiu a executiva Petrángela. — Filipinho e afilhado de Nossa Senhora do Carmo, e não vejo melhor maneira de lhe mostrar a sua devoção do que participar na sua santa festa.

– Isso sim... — articulou Filipe filho.

– Então —interveio o pai procurando as palavras—, não tem muito que pensar nem mais que falar. — E sempre sem encontrar como dizer as coisas: — Viu que não deu passos em vão, senhor Benito ? E se agora, como disseste, o vais levar a cavalo, na aldeia poderás experimentar os trajes, a ver qual te fica melhor, se são precisos alguns arranjos.

– Agora trataremos dos galões de Príncipe — disse Jojón. —Quanto ao traje, trago-o eu cá depois para que o prove, porque não o tenho ainda.

– Seja...— aceitou Filipinho. —Para não perdermos tempo vou ver se escolho um macho manso, antes que caia a noite.

– Espere ai, senhor apressado! —deteve-o a mãe.— Primeiro que tudo, Jojón tem de tomar o seu chocolatezinho...

– Sim, sim, mãe, já sei, mas enquanto ele toma o seu chocolate eu escolho o macho e aparelho-o. Faz-se tarde... — e foi saindo na direção dos currais. — Faz-se tarde e escurece, se bem que para um cego seja o mesmo andar de dia ou de noite... — continuou ele de si para consigo.

IV

A casa de pasto estava sem luz e silenciosa. À noite os clientes eram escassos. A grande animação era ao meio-dia. Havia pois espaço e desafogo mais que suficientes para que o cego, muito agarrado ao braço de Filipinho Alvizures, entrasse e fosse sentar-se a uma das mesas, enquanto um par de olhos fixava no moço as suas pupilas negras, cheias. duma luz de esperança.

– Tomam alguma coisa? — perguntou Lida Sal aproximando-se, enquanto passava um pano sobre a velha mesa de madeira, gasta dos anos e das intempéries.

– Duas cervejas — respondeu Filipinho — e, se há, dois pães com carne.

A mulata sentia momentaneamente que o chão, única coisa estável sob os seus pés, a não segurava. A custo dissimulava a sufocação. Cada vez que lhe era possível roçava os braços nus e os seios firmes, trementes sob a blusa, pelos ombros de Filipe. Pretextos para se aproximar não lhe faltavam: os copos, a espuma que extravasava do copo do cego, os pratos com os pães com carne.

E vossemecê — perguntou Alvizures ao cego —, onde dorme? Tenho de ir embora e queria deixá-lo lá...

– Por aqui. Aqui mesmo na casa de pasto dão-me as vezes pousada, não é, Lida Sal?

– Sim, sim... — foi tudo o que esta pôde dizer, e mais custoso lhe foi ainda articular o preço das cervejas e dos sanduiches.

No oco da sua mão em concha, em que sentia o seu coração, apertou as moedinhas quentes que lhe entregou Alvizures, quentes de terem estado na algibeira dele, em contacto com a sua pessoa, e sem poder resistir mais levou-as aos lábios e beijou-as. Depois de as beijar passou-as pelo rosto e deixou-as cair por entre os seios.

Pela escuridão sem olhos, uma dessas escuridões das noites que começam e acabam negras, cor de ardósia, trotava o cavalo de Filipinho Alvizures, que se afastava seguido do macho, mais molengo no passo, em que viera montado o cego.

Ah!, como era difícil falar em meio de tantas coisas tão caladas!

– Quieto, ó cego —murmurou Lida Sal, de maneira nenhuma zangada, tal a festa que lhe ia na alma. — Aí não se mexe...

– A mão quer apertar-te, cabeça oca, para que sintas o anel que hoje me deste, aqui no meu dedo, já como coisa minha, que bastante trabalho me custou a ganhá-lo: trabalho e manhã. Amanhã terás cá a farda de Perfectante que o Filipinho usará na festa.

– E que vou eu fazer?...

– Tu, filha, tens de dormir com ela vestida bastantes noites, para que a deixes impregnada da tua magia. Durante o sono tornamo-nos mágicos. Assim, logo que ele a vista, para tomar parte na festa, há-de sentir o encantamento e procurar-te, já não poderá viver sem te ver.

Lida Sal sentiu-se vacilar. A cabeça andava-lhe a roda. Com uma mão firmou-se as costas duma cadeira, com a outra apoiou-se a mesa, e um soluço teimoso de soltar-se chegou-lhe aos lábios.

– Choras?

– Não! Não!... Sim! Sim!

– Choras ou não choras?

– Sim, de felicidade...

– Mas, és mesmo muito feliz?...

– Quieto, ó cego, quieto!

A teta quente da mulata saltou de sob a blusa ao tactear do velho, enquanto ela sentia que as moedas com que lhe pagara Filipinho Alvizures escorregavam dos seios para o ventre, tal como se o seu coração estivesse já a soltar pedaços de metal fundido de que seriam feitas as moedas com que pagar a Jojón o restante da esmola da farda mágica.

V

Não havia fantasia mais vistosa que o do Perfectante. Calção de guarda suíço, couraça de arcanjo, jaqueta toureira. Botas, galões, franjas, tudo dourado, abotoaduras e cordões de ouro, cores vivas e furta-cores, lantejoulas, avelórios, penduricalhos de cristal com fulgores de pedras preciosas. Os Perfectantes brilhavam como sois entre a mascarada que acompanhava a Senhora do Carmo, durante a procissão que percorria todas as ruas da povoação, as principais e as humildes, pois ninguém admitiria que a Grande Senhora não passasse à sua porta.

O senhor Filipe moveu a cabeça dum lado ao outro. Pensando bem, não lhe agradava por aí além que seu filho vestisse aqueles ouropéis, porém como opor-se teria sido ferir os sentimentos religiosos de Petrángela, mais espevitados agora que estava grávida, dissimulou o desagrado com uma piada que a consorte achou de mau gosto.

– Tao embeiçado estava eu pela tua senhora mãe quando nos casamos, Filipinho, que diziam por ai que ela tinha dormido sete noites seguidas com o traje o fato que eu sai de Perfectante, haverá isso uns vinte e sete, trinta anos talvez...

- Teu pai nunca saiu de Perfectante, filho, não o acredites!... -contradisse-o ela, temerosa e contristada.

– Pois , se é assim, não te serviu de nada dormires com  o traje...

Alvizures pôs-se a rir, ele que era homem de poucos risos, não porque não gostasse de rir, mas porque desde que e casou dizia: “O riso deve ficar à porta da igreja, onde um homem se casa, onde começa o seu calvário..”

– Essa das artes de magia para. que te casasses comigo é pura invenção tua... Se saíste de Perfectante foi por causa de qualquer outra...

– Outra?... Nem em vinte léguas de roda... – e riu, riu muito bem disposto, convidou Filipinho a rir também: -" Ria, filho, ria, que ainda és solteiro. O riso é um privilégio dos solteiros. Quando te casares, quando uma rapariga dormir com a farda de Perfectante que te caiba usar na festa, adeus riso para sempre! Nós, os casados, não rimos, fazemos que rimos, o que não é o mesmo... O riso é atributo dos solteiros... dos solteiros novos, porque os  solteirões mais velhos, também não riem, arreganham os dentes...

– Teu pai confunde tudo, filho... -reagiu Petrángela. – O riso é dos novos, sejam casados ou solteiros, e não dos velhos. Mas ele está velho, que queres?, a velhice entrou com ele...

Petrángela não pregou olho nessa noite. Assomavam-lhe à consciência aquelas noites em que na verdade dormiu com traje de Perfectante que o senhor Filipe Alvizures vestiu na festa de trinta anos atrás. Tivera que contradizê-lo diante do filho, porque há segredos que nem aos filhos se revelam. Não segredos: intimidades, pequenas intimidades. Não amanhecia. Sentiu frio. Aconchegou os pés. Fechou as pálpebras. Impossível tornar a adormecer. O sono andava ausente dos seus olhos, temia que àquela hora, em vésperas da festa de Nossa Senhora do Carmo, alguma moça estivesse a dormir com o traje de Perfectante destinado a Filipinho, para, o impregnar do seu suor mágico e de tal arte o seduzir.

– Ai, Senhora do Céu, Virgem Santíssima!... -balbuciava. - Perdoai os meus temores, as minhas superstições, sei que é uma tolice... que tudo isto são crendices, crendices sem fundamento... mas é meu filho... meu filho!

O certo seria evitar que ele saísse de Perfectante. Mas como evitá-lo, se tinha aceitado e ia figurar de príncipe dos Perfectantes? Seria desarranjar tudo, e depois não tinha sido ela, diante do marido, quem dispusera que Filipinho aceitasse?

Não amanhecia. Não cantavam os galos. Tinha a boca seca. A cabeleira, de tanto buscar o sono às voltas no travesseiro, emaranhara-se-lhe sobre o rosto.
– Que mulher, Deus meu!, que mulher estará a dormir com o traje de Perfectante que levaria o meu Filipinho?

VI

Lida Sal, mais pómulos que olhos de dia, mas de noite mais olhos que pómulos, divagava as pupilas dum lado ao outro do quarto em que dormia, e ao afirmar-se de que estava só, que só a grande escuridão era sua companheira, a porta bem trancada, a porta e um janelo que dava para a dispensa ainda mais em cegueira, desnudava-se toda, passava as mãos ásperas da esfrega ao longo do corpo esbelto e, seca a garganta peia angústia, húmidos os olhos, as coxas trementes, enfiava o traje de Perfectante e deitava-se. Mas, mais que o sono, era uma sonolência que lhe ia paralisando o corpo, sonolência e cansaço que a não impediam de em voz baixa, meio adormecida, conversar com o tecido, confidenciando a cada um dos fios coloridos, das lantejoulas, aos avelórios, aos ouros, os seus sentimentos amorosos.

Uma noite, porém, não o vestiu. Deixou-o enrodilhado debaixo do travesseiro, triste porque não tinha um espelho de corpo inteiro onde se ver com ele vestido. Não era porque lhe importasse saber como lhe ficava, se curto, se comprido, largo ou apertado, mas porque era um dos primeiros rituais mágicos vesti-lo e vê-lo vestido diante dum grande espelho. Pouco a pouco foi-o tirando de sob o travesseiro, mangas, pernas, costas, peito, para o acariciar contra o rosto, pousar-lhe em cima a fronte com seus pensamentos, cobri-lo de miúdos beijos...

Manhãzinha cedo chegou Jojón em cata do seu desjejum. Desde que andava em conluios com ela comia quanto lhe apetecia, sempre as escondidas da patroa, que nesses dias pouco parava na casa de pasto, pois a azafamavam os preparativos para poder dar despacho à clientela habitual e à gente de fora durante os dias da festa.

– Coitado de quem é pobre! – queixou-se a mulata' – Não tenho um espelho grande em que me veja...

– E isso é de toda a urgência - respondeu o cego – porque por ai pode falhar-te a magia...

– Mas que fazer? Só se eu me for meter, como uma ladra, numa casa rica, à meia-noite, vestida de Perfectante. Estou desesperada. Desde ontem à noite estou que não sei que hei de fazer. Aconselhe-me...

– É o que não sei... A magia tem as suas consistências...

– Não entendo o que quer dizer...

– Sim, porque a magia consiste nisto ou consiste naquilo, mas sempre consiste em alguma coisa, e, neste caso, consiste em que uma mulher se deve vestir de Perfectante e ver-se a um espelho de corpo inteiro.

– Mas vossemecê, sendo cego, como sabe de espelhos?...

– Não sou cego de nascença, pequena. Já tinha os meus anos quando perdi a vista, por causa dum mal purulento que primeiro me comeu as pálpebras e depois se me meteu nos olhos.

– Sim nas casas grandes... como a dos Alvizures... há espelhos desses...

– Diz-se que há um muito bom lá em casa deles e até se conta... Não, não é brincadeira... Bem, talvez com isto te possa dar uma esperança. Então vou te contar a coisa, não por mexeriquice. Sirva-me isto de desculpa para quando fores sua nora... Conta-se que como a mãe do Filipinho, D. Petrángela, não teve espelho onde se visse quando enfeitiçou o marido, no dia em que se casou levava o traje de Perfectante por baixo do vestido de noiva e que, ao dizer- lhe o senhor Filipe que se despisse, tirou o vestido branco e, em vez de aparecer nua, mostrou-se em traje de Perfectante, só para cumprir o ritual, para dar satisfação à magia...

– Os casados põem-se assim nus?

– Sim pequena...

– Então vossemecê foi casado?

– Sim, e como o mal ainda não me tinha dado cabo dos olhos pude ver minha mulher...

– Vestida de Perfectante...

– Não, filhinha: como Eva, em couro...

Lida Sal retirava a tigela em que o cego acabara de tomar café com leite e sacudia as migalhas de pão de cima da mesa. Não aparecesse por ali a patroa.

– Não sei onde, mas tens de encontrar um espelho para te veres da cabeça aos pés vestida de Perfectante... – foram as últimas palavras do cego.

E desta vez esqueceu-se de a prevenir que o prazo para devolver o fato se ia aproximando; a festa estava à porta e ele tinha de o levar a casa dos Alvizures.

VII

Estrelas quase afogadas na claridade da Lua, árvores dum verde sombrio, currais cheirosos a leite e orvalho, montões de feno em medas pelos campos, que à lua-cheia mais amarelos pareciam. A tarde tardara em dar lugar à noite. Fora-se afilando até não ser senão um reflexo cortante no ponto onde o céu já se pintava de estrelas. E nesse fio cortante azulado, avermelhado, rosa, verde e violeta da tarde fixava  Lida Sal os olhos, pensando que era chegado o prazo para devolver a farda.

– Amanhã é o último dia que te deixo – preveniu-a Jojón – Se não a entrego à tempo está tudo estragado...

– Sim, sim, não fique preocupado, amanhã a entrego é que hoje vou ver-me ao espelho...

– Ao espelho dos teus sonhos, pequena, porque não vejo onde...

O fio luminoso da tarde ficou nas pupilas de Lida Sal como a frincha dum impossível, como urna frincha por onde pudesse abarcar o céu.

– Sevandija maldita:... -berrou ao seu alheamento a dona da locanda. - Não tens vergonha, com uma data de louça por lavar! Desde há dias que me andas para aqui e para ali como uma doida, e o trabalho por fazer.

A mulata deixou que lhe arrepelasse a grenha e beliscasse os braços, sem responder. Passado um instante, como por encanto, a tormenta amainou. Mas era pior. Porque ao palavrório dos insultos seguiram-se as mil e uma lamentações e recomendações do costume.

– Temos a festa à porta e a menina nem sequer me pediu que lhe mandasse fazer roupa nova. Do que tenho de teu devias comprar um vestido, uns sapatos, umas meias. Não vais atrever-te a aparecer na igreja e na procissão como uma maria-ninguém. É uma vergonha! Que vão pensar de mim, tua patroa? Que te mato à fome ou que fico com o teu ordenado!

– Pois, se lhe parece, amanhã dá-me dinheiro e eu vou comprar qualquer coisa.

– Está visto, menina, temos de agradar uns aos outros' Tu agradas-me fazendo as coisas como deve ser, eu agrado-te comprando-te o que te faz falta. E ainda mais que és nova e não és feia. Quem te diz que entre os que vêm vender gado à feira não te aparece um bom partido?

Lida Sal ouvia-a, mas não entendia nada. Esfregava os trastes, pensando, matutando, no que imaginara ante a última réstia da tarde. O que mais custava era esfregar as frigideiras e os tachos. Que maçada! Tinha de raspá-los à força de pedra-pomes, até lhes safar as gorduras do fundo, e em seguida, por fora, era outra pura guerra com a fuligem também gordurosa.

O esplendor da Lua não permitia pensar que era de noite. Dir-se-ia que somente o dia esfriara, mas que continuava na mesma.

– Não fica longe - disse para si mesmo, dando forma verbal ao que pensava – e é um bocadão de água, quase uma lagoazinha.


Não demorou muito no quarto. Tinha de estar de volta ao amanhecer e entregar o traje de Perfectante ao cego, para que o levasse a casa dos Alvizures... Ah!, mas antes tinha de o ver ela no seu corpo, a um grande espelho, pois a magia tem as suas consistências...

Ao princípio, o encontrar-se em pleno campo intimidou-a. Mas logo foi familiarizando os olhos com os arvoredos, as pedras, as sombras. Via tudo tão claramente por onde ia que lhe pareceu caminhar à luz dum dia submerso. Ninguém a encontrou com aquele estranho traje, caso contrário, quem quer que fosse, teria largado a correr, como ante uma visão diabólica. Teve medo, medo de ser uma visão de fogo, uma tocha de lantejoulas em chamas, um rasto de avelórios, de chispas de água cristalizadas numa só pedra preciosa com forma humana, quando chegou à beira do lago para se debruçar sobre ele vestida com a farda que Filipinho Alvizures usaria na festa.

Da beira boscosa dum barranco que cheirava a desabamentos por entre raízes desenterradas e pedras removidas contemplou o vasto espelho verde, azul e fundo, com seu rendilhado de nuvens baixas, raios de Lua e sonhadoras obscuridades. Pareceu-lhe outra. Seria mesmo ela? Era Lida Sal ? A mulata que esfregava os tachos na casa de pasto seria a rapariga que descia por aquele caminho naquela noite, àquele luar, com aqueles trajes de lume e orvalho?

De um e de outro lado roçavam-lhe os ombros as pestanas dos pinheiros, flores sonâmbulas de perfume adormecido molhavam lhe o cabelo e o rosto com doces beijos húmidos.

– Deixem-me passar! Deixem-me passar! ... – dizia avançando por entre moitas de gengibres, perfumados, enlouquecedores.

– Deixem-me passar! Deixem-me passar !... - repetia ao deixar atrás rochas e pedras gigantescas tombadas do céu, se aerólitos eram, ou da boca dum vulcão num recente cataclismo, se da terra eram.

– Deixem-me passar! Deixem-me passar!... -dizia à cascatas...

– Afastem-se, deixem passar a formosura! -dizia aos regatos e arroios que também iam como ela ver-se ao grande espelho...

– Ah! Ah! Ele bebe-vos –dizia lhes-, mas a mim não me beberá, só me vai ver, vai ver-me vestida de Perfectante, para que se cumpram todas as consistências da magia.

Não corria vento. Luar e água. Lida Sal arrimou-se a uma árvore que dormia chorando, mas logo se afastou horrorizada, que talvez fosse de mau agoiro debruçar-se para o espelho juntamente com uma árvore que chorava adormecida.

Duma ponta a outra da margem foi procurando sítio onde pudesse ver-se em corpo inteiro. Não conseguia a sua imagem completa. Em corpo inteiro. Só se subisse a uma das altas pedras da outra margem.

– Se o cego me visse.. . - mas, que tolice !, como poderia vê-la um cego...

Sim, tinha dito uma tolice, quem tinha de ver-se ao espelho era ela, ver-se dos pés à cabeça.

Trepou. Estava agora em cima dum rochedo de basalto contemplando-se na água.

Onde encontrar um espelho melhor?

Avançou um pé para a extremidade do pedregulho, a admirar o seu belo traje - lantejoulas, avelórios, pedras luminosas, galões, franjas e cordões de ouro -, e em seguida o outro pé, para se ver ainda melhor; e já não pôde deter-se, o seu corpo baqueou contra a própria imagem, um choque de que n5o ficou nem a imagem nem o corpo.

Mas voltou à superfície. Procurava salvar-se... as mãos... as bolhas... o afogamento... voltara a ser a mulata que lutava pelo inalcançável... a margem... agora o inalcançável era a margem...

Duas imensas angústias...E foi o que fechou por último, as imensas angústias dos seus olhos a verem cada vez mais longe a margem do pequeno lago, desde então chamado o “Espelho de Lida Sal”.

Quando chove e há luar, o seu cadáver flutua. Viram-no as rochas. Viram-no os salgueiros que choram folhas e reflexos. Os veados e os coelhos viram-no. As toupeiras telegrafam a noticia de que a viram, com a palpitação dos seus coraçõezinhos de terra, antes de volverem às suas escuridões.

Redes de chuva de prata pestanejante arrancam a sua imagem do espelho e passeiam-na vestido de Perfectante pela superfície da água, que a sonha, luminosa e ausente.

Miguel Angel Asturias

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

SÁTIRA...

Fumo sem Fogo
Sátira...

«FUMO SEM FOGO»

- Na Red Bull Arena
Fiquei sem folgo…
Esgotou-se o fogo,
A máquina não engrena.
- O Leipzig empena
As asas do Dragão,
De fraca combustão
Só deitava fumo…
Impróprio pra consumo,
Levou grande lição!

ATEOP

SÁTIRA...

Crise na Relação
Sátira...

«CRISE NA RELAÇÃO»

- Aqui sozinho deitado
Até fico sem jeito…
- Eu a ti não te enjeito,
Mas também és culpado!...
O país mal governado
É culpa de nós todos,
São asneiras a rodos
Repetidas à exaustão…
- Consumada a demissão,
Voltarei de bons modos! (?)

POETA 

terça-feira, 17 de outubro de 2017

SÁTIRA...

Portugal a Arder
Sátira...

«PORTUGAL A ARDER»

Afirma Tonho Bosta…
- ‘Nada será como antes!’
Palavras sonantes…
Quem ganha a aposta?
Nunca houve resposta…
Continua a não haver,
Muita gente a morrer
Devorada pelo fogo…
Ouve-se a voz do povo:
- ‘Não nos deixem arder!’

POETA

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

ZIGGY MARLEY - «Reggae in my Head»

Poet'anarquista

REGGAE NA MINHA CABEÇA

Sim reggae na minha cabeça, na minha cabeça, reggae, reggae na minha cabeça

Sentado à beira do rio ouvindo suas músicas
Ela tocou a noite toda
Ela me trouxe a derrota hipnotizado pela batida
Nas pedras eu fiz a minha cama
Ela era reggae na minha cabeça

Reggae na minha cabeça, na minha cabeça, reggae, reggae na minha cabeça

Cidades de opressão não há, oh imaginação para ser selvagem e livre de novo
Um mundo sem sonhos parece perdido
Na prisão de realidades conhecidas por isso eu digo

Eu tenho na minha cabeça reggae, reggae na minha cabeça,
Eu coloquei na minha cabeça reggae
Oh que mundo maravilhoso poderia ser este apenas vivendo em paz
Dançando a esta vibração esta é a minha emoção

Sentado à beira do rio ouvindo suas músicas
Ela tocou a noite toda
Ela me trouxe a derrota hipnotizado pela batida
Nas pedras eu fiz a minha cama
Ela era reggae na minha cabeça

Reggae na minha cabeça, na minha cabeça, reggae, reggae na minha cabeça
Eu tenho na minha cabeça reggae, reggae na minha cabeça, eu quero reggae na minha cabeça
Eu tenho reggae na minha cabeça, eu preciso de reggae na minha cabeça,
Na minha cabeça reggae

Ziggy Marley
Guitarrista, Cantor e Compositor Jamaicano

SÁTIRA...

A Santa Despistagem
Sátira...

«A SANTA DESPISTAGEM»

- A Santa Igreja Evangelista
Faz saber de sua sentença,
Despistar qualquer doença
Só faz bem ao seminarista.

- Senhor Padre, pode despistar,
Dou permissão absoluta!…
Garanto que a minha conduta
É deveras a mais exemplar.

- Primeiro a homossexualidade,
Em segundo plano a pedofilia…
Pode responder com verdade?

- Senhor padre, eu até juraria…
- Sente alguma impulsividade,
Ou vê nestas imagens anomalia?

POETA

SÁTIRA...

A Melhor Tática
Sátira...

«A MELHOR TÁTICA»

- E o United… qual a ciência
Pra derrotar o Poucachinho?
- Contra esse treinadorzinho
Marco falta de comparência!...
Por uma questão de prudência
Só perdemos por seis a zero,
Pior resultado já não espero
Sou o melhor táticamente…
O que lhe parece, Presidente?
- Que brevemente te exonero!

ATEOP

domingo, 15 de outubro de 2017

OUTROS CONTOS

«Sobre Meus Pensamentos», conto poético por Manel d' Sousa.

«Sobre Meus Pensamentos»
Pintura de Sambonet

(Sobre meus pensamentos…)

Manel d’ Sousa

EU TENHO IDEIAS E RAZÕES

‘Eu tenho ideias e razões, 
Conheço a cor dos argumentos
E nunca chego aos corações.’

Fernando Pessoa

 1111- «SOBRE MEUS PENSAMENTOS»

Enleio-me facilmente
Nas palavras que escrevo,
O meu maior desejo
Era ler a minha mente.
Fico por certo contente
Com nobres sentimentos,
Eles são ensinamentos
Que me deixam feliz…
Mas a alma é quem diz
Sobre meus pensamentos.

Questiono com frequência
E não obtenho resposta…
O coração até que gosta,
Mas a alma sem paciência!
Complicada esta ciência
Onde emprego palavrões,
Não passam de chavões
Que ninguém quer entender…
Dou comigo a dizer:
Eu tenho ideias e razões.

Fico às vezes sem jeito
Perante uma afirmação,
Ouço a voz do coração
Dizer que nada é perfeito.
Há dias em que rejeito
Todos esses momentos,
Os dias mais cinzentos
A mim não me seduzem…
As palavras então luzem,
Conheço a cor dos argumentos.

Por mais voltas que dê
Nesta roda-viva da vida…
Uma nova ideia perdida,
O pensamento ainda lê!
Louco é quem não crê
Num mundo d’ ilusões,
Assim passo os serões
A cabeça não se cansa…
Vivo com esta esperança,
E nunca chego aos corações.

Manel d’ Sousa

SÁTIRA...

O Inalcançável
Sátira...

«O INALCANÇÁVEL»

E eu a ver passar
O maldito relatório…
Já dei pró peditório,
É favor não chatear!
Não penso exonerar
A senhora ministra,
A tragédia sinistra
Não volta a suceder…
Quero até agradecer
A esta superministra!!

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

FRÉDÉRIC CHOPIN - «Nocturne for Piano»

Poet'anarquista

Frédéric Chopin
Pianista e Compositor Polaco/Francês

OUTROS CONTOS

«Ver para Crer», por John Reed.

«Ver para Crer»
Conto de John Reed

1110- «VER PARA CRER»

Se a rapariga era honrada ou não, é coisa que Jorge ignora, mas que qualquer um geralmente descobre - ou pelo menos Jorge - após cinco minutos de conversa. E isto é importante, porque Jorge tem ideias fixas sobre este assunto. É um homem simpático, de uma bondade fora do normal, famoso pela forma como cede à fraqueza que todos temos pelas mulheres e que, no entanto, tem ideias muito claras sobre a posição destas criaturas na escala social. Convém acrescentar que é extraordinariamente sensível aos ataques dirigidos contra o seu dinheiro e contra a sua simpatia, e conhece todos os estratagemas.

Parece que saía do seu clube, na Rua Quarenta e Quatro, quando a rapariga passava por acaso. Era uma jovem miudinha, de cabelo sedoso, com um fato barato, azul, de confecção, e um chapelito redondo com uma pluma espetada. Ora bem, é muito natural passarem mulheres pela Rua Quarenta e Quatro; mas, entenda-se, não é este o passeio adequado para raparigas novinhas, mal vestidas. Estranho que a polícia não tivesse detido.

Seja como for, passou por ali e, quando. Jorge saiu a porta afrouxou o passo, propositadamente, e fez um sinal. E aqui está a parte mais surpreendente da história: Jorge acertou o passo e começou-a andar a seu lado. É possível que isto não lhes pareça nada de extraordinário; porque não pertencem ao clube da Rua Quarenta e Quatro. Ficam a saber que nós nunca acompanhamos uma mulher em frente do clube. Era a primeira/vez que Jorge fazia aquilo, e hoje, ao lembrar-se, diz que a rapariga o hipnotizou desde logo.

- Vai a algum sítio em especial? - perguntou, como é da praxe.

Ela levantou a cabeça, olhou-o com franqueza e Jorge observou de repente a extraordinária inocência que se espelhava nos seus olhos.

- Sim - respondeu com um risinho. -- Vou consigo.

A rapariga conteve a respiração e Jorge interrogou-se se algum dos seus amigos o estaria a ver.

- Andei a pé quase toda a noite ~ acrescentou a rapariga -, ainda me enfiei 'na retrete das senhoras da Casa Macy e dormi duas horas, mas descobriram-me.

- Quanto quer? - perguntou Jorge, enfiando a mão no bolso e já um pouco envergonhado de andar na rua com  ela.

A rapariga não lhe respondeu- e ao levantar os olhos ele viu que estavam cheios de lágrimas. A moça parou a meio do passeio e voltou-se para o olhar na cara, sacudindo solenemente a cabecita.

- Não - disse. - Não! Não quero que me pague por o acompanhar. Quero falar consigo.      

Ora bem, se Jorge se tivesse comportado como sempre, ou a tinha afastado indignado ou a tinha levado a um muitos hotéis do bairro. Estavam a uns passos da Sexta Avenida. Mas um sentimento totalmente novo fê-lo envergonhar-se (envergonhar-se, Jorge! ) e lembrou-se:

- Vamos para a sala de espera da Estação Central. Ali podemos falar.

Assim, deram meia volta e voltaram a passar pelo clube em direcção à Quinta Avenida. Para passar o tempo, não?

Estou a vê-los a caminhar quase em silêncio: Jorge incomodado, a pensar que poderia ser visto com ela, indescritivelmente enfurecido por assim ser e interrogando-se o que é que ela seria; e ela, de queixo levantado, como se quisesse sorver o ar e o barulho que a rodeava, com os olhos fixos no cimo dos prédios. Estava um daqueles dias de um azul agressivo dos princípios do Inverno.

Jorge não parava um segundo de a observar pelo rabo do olho. Estava cheio de curiosidade e afinal eram bem poucas as coisas que podia perguntar àquela rapariga.

- Vive em Nova Iorque? - perguntou: saltava à vista que assim não era.

- Oh, homem! - titubeou ela. -Não ... vim de Chillicothe (Ohio ). Mas isto agrada-me muito. Os arranha-céus fazem cócegas, não fazem?

- Cócegas?

- Oh, veja! - explicou ela. - Quando alguém se inclina para trás a admirá-los, com as suas altas torres avermelhadas, tão altas que os pássaros não as conseguem atingir, há qualquer coisa que estremece e mexe dentro de nós e dá vontade de rir.

Dizendo isto, deu uma espécie de trinado, encantada.

- Agora compreendo - murmurou ele totalmente desconcertado.

- Sabe, é por isso que vim - continuou ela - por isso e pelas multidões.

- Quer dizer que veio a Nova lorque para ver os arranha-céus e a multidão? - perguntou Jorge sarcástico: como devem compreender, Jorge era demasiado sabido para engolir certas coisas.

- Ela confirmou com a cabeça.

- Creio que em toda a minha vida não ouvi falar de mais nada a não ser de Nova lorque. Cada vez que chegava um viajante à Casa Simond (era a casa onde trabalhava, sabe?), ou quando o senhor Petty ia ao Leste, nesta altura do Outono, falavam do metro aéreo, dos arranha-céus, da Broadway, e falavam de tal modo que não conseguia dormir, a pensar nas torres, no barulho, nas luzes. Por isso resolvi vir ...

- Mas, como ... ?

- Oh! Já sei que lhe parece estranho que uma rapariga como eu tenha arranjado dinheiro para vir. Mas sabe? Tenho agora dezassete anos e comecei a poupar aos onze. Poupei cinquenta dólares.

Naquele momento fechavam a porta leste da estação.

Jorge perguntou bruscamente:

- Quanto tem você agora?

- Nada - respondeu.

A moça descobriu então o terraço de mármore, a curiosa escadaria, e o tecto sumptuoso, decorado de estrelas e sulcado pela mística e dourada faixa de Zodíaco.

Oh! - exclamou agarrando-se ao parapeito de mármore, com uns dedos rechonchudos. - Nunca vi coisa tão bonita na minha vida!

- Deixe-se disso! - disse Jorge agarrando-lhe o braço. - Venha. Temos de conversar.

Foi-lhe difícil arrancar a moça do terraço. Parecia ter esquecido tudo, extasiada com aquilo. Queria saber o que era. Que é que estava a fazer toda aquela gente? Aonde ia? Porque andavam todas aquelas pessoas de um lado para o outro, tropeçando umas nas outras, sem se falar? Se era uma estação de caminho-de-ferro, onde estavam os comboios, e porque era tão bonita? Que era Zodíaco e porque não se via no céu, lá fora? De repente Jorge descobriu que era muito estranho que uma rapariga que pretendia vir de Chillicothe (Ohio) não conhecesse a Estação Central.

- A propósito - disse-lhe -, não desembarcou de Ohio nesta estação?

- Oh! Não, querido! - respondeu despreocupadamente. - Atravessei o rio num vaporzito.

A rapariga tinha aparado o golpe. Jorge levou-a, o mais depressa possível, até à sala de espera. Estava desgostosíssimo . Pensava que nunca tinha sido vítima de um engano tão flagrante.

- Escute! - disse quando se sentaram. - Há quanto tempo está você em Nova lorque?

- Há duas semanas; mas não conheci nem metade ...

- Creio que terá tratado de arranjar emprego por todo o lado - disse Jorge a gozar - mas não conseguiu. E agora puseram-na na rua e ficaram-lhe com a bagagem ...

- Precisamente - disse a moça um pouco atrapalhada. - Fizeram-me isso. Mas você engana-se. Não é que não tenha encontrado emprego; não procurei, simplesmente. Sabe? Passei os dias todos a percorrer Nova lorque em carros de turismo - e isso custa um dólar por viagem, além de não irem a todos os sítios.

Jorge enfureceu-se.      

- Vamos! - exclamou. - Julga que acredito nisso? Fique sabendo que sou daqui. - (Jorge orgulha-se de ser de. Nova Iorque.) - Se você me disser a verdade, farei o possível por ajudá-la.

A moça deu uma risadinha de espanto e olhou-o com uns olhos muito abertos.

- Ah! A minha mãe sempre me disse que eu era uma mentirosa terrível. Talvez tenha contado algumas coisas piores do que são na realidade. Mas imagino o que 'Você quer dizer - acrescentou docemente--. Você julga que eu ... que 'eu. .. Mas não, não, não - e abanou a cabeça. -' Estou a ver tudo'; mas sou uma 'rapariga séria.

Jorge sentiu uma dor profunda: tinha-se ferido a si mesmo. Quanto à rapariga, pareceu esquecer por completo o incidente. Houve uma pausa.

 - Que vai fazer? - perguntou por fim, com voz dura,

- É precisamente sobre isso que lhe quero falar - disse ela voltando-se para ele, agitada. - Sabe? Ontem à, noite quando regressei ao quarto, a mulher não me quis deixar entrar e disse-me através de uma fresta da porta que não me dava a roupa. Pus-me a passear e a pensar no que haveria de fazer. Mas achei tão engraçado andar pelas ruas silenciosas, à noite e ao amanhecer, que me esqueci de pensar no que havia de fazer. Dormi então um pedaço na Casa Macy ... e ... e .. ,enfim, estava quase a  decidir-me quando o vi.

- Bom, e que mais? - perguntou ele impaciente.

- Bem, tenho de ver o que falta de Nova lorque. Só que me vai custar dinheiro, sabe? Tenho de comer e dormir. Pelo menos comer, - franziu o sobrolho de uma forma deliciosa. - E sobre isto queria pedir-lhe um conselho.

A simplicidade e o atrevimento da rapariga fizeram Jorge resmungar. Isto sem falar na história, que poderia ser uma deliberada mentira. Santo Deus, como desejaria duvidar daquela história!

- Escute! - exclamou. - Volte para Chillicothe. É um conselho. Vá para casa. Ah! você não sabe os perigos que corre nesta cidade terrível! - (Os Nova-lorquinos gostam da sua Sodoma e Gomorra.) - Corre o risco de morrer de fome. Além disso, enfim, é uma sorte que você não, tenha deparado com alguns homens que vivem nesta cidade. Uff. - (Jorge tremeu ao pensar nalguns dos monstros que infestam Babilónia.) - Imagine que não me tinha encontrado. Sabe o que teria pensado qualquer outro homem?     .

- Sim - disse a sorrir. - Exactamente o mesmo que você pensou. E tinha feito mais ou menos o mesmo que fez. Não tenho medo dos homens. Sempre confiei em toda a gente e nunca me fizeram mal. Oh, já vivi muito e a fome não me assusta. Encontro sempre alguém que me ajuda e por isso  tenho fé.

 -Vá para casa! -disse Jorge rudemente. -Você não sabe o que diz! Compro-lhe o bilhete e dou-lhe dinheiro para comer: Vá já ter com a sua mãe, antes que seja engolida por algum turbilhão. - (Jorge orgulha-se muito das suas metáforas.) - Sei que não se quer ir embora e que é valente; mas se não o faz, juro-lhe que ...

Estava quase a ameaçá-la com a Sociedade Jerry, quando reparou de repente que a moça tinha a cara enterrada nas mãos e que os ombros tremiam. Estaria a rir-se dele? Jorge afastou-lhe bruscamente as mãos da cara. Parecia sacudida por soluços, embora não tivesse lágrimas. O pobre Jorge não sabia que pensar.

- Oh! - exclamou ela com a voz embargada. - Tem razão. Irei para casa. Não posso resistir mais. Oh, mande-me para casa!

Jorge perguntou-lhe quanto custava a viagem e, por fim, ficou-se pelos vinte dólares. Dentro de cinco minutos saía um comboio que a podia levar.

- Vamos! - disse Jorge. - Venha! Vamos tirar o bilhete!

A rapariga tinha parado de soluçar com uma brusquidão pouco natural, na opinião de Jorge, e sem que se lhe descobrisse qualquer sinal de choro. Ao ouvir as suas palavras, a rapariga ficou parada e segurou-lhe o braço com a mão miúda.

- Não - disse-lhe. - Dê-me o dinheiro, que eu tiro.

Jorge olhou-a ensonado.

- Não acredita, mas deve acreditar. De outro modo, terei de pedir a outro. Vamo-nos despedir aqui.

Jorge hesitou por momentos. A seguir pensou: «Bem, quer-me enganar! Assim que se apanhar com o dinheiro, sai pela porta da Rua Quarenta e Dois. De qualquer maneira, já fiz figura de parvo.»

Seguidamente, deu o dinheiro à moça. Esta devia ter adivinhado os seus pensamentos, pois olhou-o fixamente, sacudindo a cabeça da forma estranha que lhe era peculiar.

- Você não tem fé - disse-lhe -; mas não importa. Como foi bom para mim, dir-lhe-ei onde vivi em Nova Iorque. Você pode lá ir ...

Quando a rapariga desapareceu, deixando-o na sala de espera, Jorge voltou para casa e cometeu a indiscrição de nos contar tudo isto. É claro que o gozámos até mais não, por ter sido tão inocente, e ele envergonhou-se um pouco da sua quixotada. Tanto mais que não tinha nada de inocente.

Durante o jantar, Burgess falou do assunto com ele.

- Conheço-as - disse Burgess altivamente, - Aposto que lhe deu um beijo pouco entes de partir.

- Não - respondeu Jorge. - O que é mais engraçado é que teria gostado. Qualquer um diria que por gratidão ...

- Bom, nesse caso, ficou com o seu nome e endereço, prometendo-lhe devolver o dinheiro um dia.

- Totalmente ao contrário. Foi ela quem me deu um endereço, onde disse que estava retida a bagagem. E eu, quando reagi, fui lá, convencido de que não ia encontrar nada.

- E não encontrou?

Jorge encolheu os ombros.

-Estava lá tudo no vestíbulo. É essa mala. Corresponde ao que ela disse.

- Confesso francamente - disse Burgess - que nunca ouvi nada semelhante. Mas não há uma mulher, nem tão-pouco um homem, que possa deixar a cidade com vinte dólares. De modo nenhum. A explicação é que a rapariga deixou o bairro. Agora que arranjou quarto, regressou. Aposto que, se estiver atento, acabará por encontrá-la, quase todas as noites, na Sexta Avenida, junto à Rua Trinta e Três.

E apostaram cinco dólares, o que achei disparate.

Passadas três semanas, Jorge chega uma noite e dirige-se imediatamente a Burgess, dizendo:

- Tome os cinco dólares!

- Porquê? - disse Burgess, que se, esquecera completamente do assunto, tal como nós.

- Vi a rapariga - murmurou Jorge sem olhar para ninguém. - Na Sexta Avenida e na Rua Trinta e Três.

- Conte-nos, pediu Burgess, que, para além do mais,    estava interessado.

E deste modo; soubemos a continuação da história.

Jorge passara o feriado em Long Island, com os Winslows, e tomara o comboio das oito e dez. Chegou à Estação da Pensilvânia cerca das nove e um quarto e lembrou-se de ir a pé. E na esquina da Rua Trinta e Três com a Sexta Avenida, ninguém diria, acabou por encontrar a rapariga. Jorge disse que ia distraído quando alguém gritou:

- Vai a algum sítio em especial?

Jorge olhou e, subitamente, reconheceu-a. A rapariga avançou e, dando meia volta, encarou com ele a meio do passeio, pondo as mãos nas ancas com descaramento. Jorge sentiu-se furioso; mas já tinha passado tanto tempo desde o ocorrido que decidiu mostrar-se cinicamente divertido.

- Vou consigo - disse, tranquilamente, imitando-a, e aproximou-se dela. - Aonde quer ir?

Corno resposta, ela avançou, agarrou-o pelos ombros e olhou-o nos olhos, abanando lentamente a cabeça.

- Quero comer qualquer coisa - disse apenas.

Jorge encolheu os ombros e apontou o Restaurante Baber. A perspicaz observação da rapariga desanimou-o e, enquanto caminhavam, olhou-a de soslaio. Achou-a mais magra, mais pobre, mais pequena e mais mal vestida, mas com o mesmo ar de inocência. Isto era outra prova dá sua culpabilidade. Porque não era possível que tivesse andado pela rua durante cinco semanas e continuasse honrada. Tinha de estar marcada. E a sua expressão cândida e imperturbável, enquanto caminhava ao seu lado, quando qualquer outra teria começado imediatamente a justificar-se? (Jorge é um raro conhecedor da natureza humana.)

- É uma sorte tê-lo encontrado, sabe? - disse ela.- Nâo comi nada em todo o dia.

- Porque se alegra de me encontrar a mim em especial? - disse Jorge com malícia. - Os outros não lhe ligam?

- Oh, sim! - respondeu ela ponderadamente. - Encontro sempre quem me dê comer ou outras coisas, Mas não senti apetite durante o dia. Estive na doca a ver os barcos. Aquilo parece uma imagem do mundo. Todos os barcos trazem a marca de um sítio diferente.

Jorge decidiu vingar-se dela não fazendo alusões ao motivo do anterior encontro: se a rapariga tivesse consciência, isto servir-lhe-ia de castigo.

- A propósito - disse ela, recordando-se de repente-, você é meu amigo e não me importo de pedir: preciso de dez dólares para pagar um vestido que encomendei. Como vê, trago a roupa velha, que já não me cobre o suficiente.

- Caramba! - exclamou Jorge atónito. - Viva o atrevimento!

- Sim; talvez tenha sido descaramento encomendá-lo - concordou a rapariga.

Foi uma das boas resoluções de Jorge! Quando o desconfiado mordomo do Baber se tranquilizou ao ver a brancura do colarinho de Jorge, este sentiu-se totalmente devorado por  uma impaciente curiosidade. Que diria a rapariga? Como se explicaria? Ou confessaria simplesmente o engano? Ou viria com outra história, tão impressionante e incrível como a anterior? O objectivo das suas conjecturas estava a observar tranquilamente a sala, satisfeita, serena e distante. Jorge não conseguiu aguentar mais.

- Julguei que tinha regressado a Chillicothe ... - disse-lhe ironicamente.

Ela observou-o e ele achou nos seus olhos um ténue brilho de satisfação e uma leve sombra de tristeza.

- Tinha-me esquecido que você queria informar-se disso primeiro. Bem, quando o deixei tomei o comboio ...

A rapariga fez uma pausa, olhando-o nos olhos, e repetiu:

- Apanhei o comboio e fui até Albany. A seguir encontrei um homem muito simpático que se sentou ao meu lado e começámos a conversar. Era alto e ruivo, de bigode louro, muitíssimo mais velho que você; chamava-se Tom, segundo disse. Ora bem, ia pensando comigo: «Vê lá tu, regressares a casa só com a roupa que trazes em cima, depois de a tua mãe trabalhar todo o Inverno para te vestir bem. Não devias ter saído de Nova lorque sem levares as tuas coisas da pensão.» E como me preocupava voltar a Chillicothe sem elas, disse-o a Tom. O homem respondeu-me: «Vamos descer em Utica e levo-a para Nova lorque para lhe tirar a roupa da pensão.»

- Esta história ultrapassa. a outra - disse Jorge.

- Vê? - exclamou radiante. - Disse-lhe que tinha de ver o que me faltava em Nova lorque. E repare que Tom apareceu quando precisava. Bem, voltámos os dois para cá e ele fez tudo o que prometeu. Mas quando chegámos à pensão, a roupa tinha desaparecido. Disseram-me que um jovem a fora buscar, e pensei logo em si. Mas não sabia, onde encontrá-lo - acrescentou, sorrindo -, a não ser que fosse passear para diante daquela casa onde o vi pela primeira vez. E Tom não queria que o fizesse. Sabe? Tom portou-se muito bem comigo. Arranjou-me uma casa e pagou-me duas semanas de aluguer antecipado. Comprou-me também alguns bonitos vestidos. Costumávamos jantar juntos todas as noites.

- Que é que aconteceu a Tom? - perguntou Jorge com um certo tom cínico.

Mas a rapariga não se deu por achada e continuou, com a voz mais doce:

- Pobre Tom! O homem não compreendia. Não sei porquê, mas parece-me que era impossível que ele compreendesse. Creio que devia andar mal ou qualquer coisa no estilo. Porque, depois de ter sido tão bom para mim durante todo este tempo, começou a ... bom, calcula o que ele queria. Pobre Tom!

Oh! Essa tem muita piada! -  , exclamou Jorge, rindo-se.

A rapariga ficou a olhá-lo; pensativamente. .

- Não sei se você compreenderá também - disse. -. - Mas não é culpa sua, acredito. Tinha sido tão bom para mim e eu fui tão ruim. Simplesmente, não compreendia. Mas, como é natural não podia continuar ali nem podia continuar  a usar os vestidos que me comprou. Por isso, faz uma semana, uma noite fui-me embora.

- Onde é que você vive agora?

- Olhe neste momento não tenho casa...,

-  Como! - exclamou Jorge sem querer. - Uma semana inteira? Mas ...  

A rapariga sorriu-se misteriosamente (ou, se calhar, com malícia) . Quando anoitece - disse calmamente - escolho uma casa de bom aspecto e toco. Quando abrem, digo que estou cansada, que não tenho para onde ir e que procuro dormir ali.

- E ... ? - disse Jorge, sem se dar por achado..

- Bem vê, só de longe em longe não compreendem. Então, tenho de bater a outra porta.

Jorge ameaçou-a com o dedo espetado sobre a mesa.

- Não sei porque ouço as suas histórias - disse severamente _; parece que acredito que você, no fundo tem de ser boa. Vamos diga-me a verdade. Sei que e difícil a uma rapariga encontrar emprego; mas já experimentou?

- Se experimentei arranjar- emprego? Eu? O quê? Não! _ respondeu admirada. - Não quero trabalhar aqui. O que quero é conhecer coisas. E há tantos milhares de coisas para se ver e sentir. Ontem fartei-me de andar, desde manhãzinha cedo até perto do meio-dia. Subi por uma rua larga que escalava os telhados das casas, entre enormes e oscilantes teias de aranha de aço, e, por fim, consegui contemplar uma grande extensão da cidade, coberta de fumo, e que em todas as ruas brincavam crianças. Veja! Tudo isto para conhecer, e eu não sabia!

Jorge diz que sentiu uma sensação estranha e irracional: por momentos, acreditou, efectivamente, na rapariga. Pareceu-Jhe descobrir um mundo que nunca tinha imaginado, um mundo do qual se tinha excluído, sempre; porque sabia de mais.

A impressão era de mágoa. A rapariga era como uma chamazinha branca que o queimava. E, na sua dor, viu-se obrigado a confessar-lhe tudo isto; e ela não fez mais do que abanar a cabeça solenemente:

- Não - respondeu-lhe. - Isso é porque você conhece muito pouco.

Mas este estado de espírito durou pouco tempo. Imediatamente, Jorge recobrou o ar normal e, depois de dizer à rapariga tudo o que pensava dela, deixou-a.

Contudo, uma das coisas mais raras da história foi a despedida dela. Jorge disse que a rapariga escutou tudo o que lhe disse com a cabeça de lado, e quando terminou inclinou-se para a frente, segurou as suas mãos entre as dela e apertou-as contra o peito. Os olhos encheram-se de lágrimas, e no preciso instante em que julgava que ela ia começar a chorar desatou a rir.

- Voltaremos a ver-nos - disse-lhe com a sua voz aguda. -Vê-lo-ei quando precisar, ..

E então, indignado, Jorge voltou para casa.

- Bom - disse Burgess, dando voltas à nota de cinco dólares, uma vez terminada a história. - Bom, gosto tanto da história que estou disposto a pagar por tê-la ouvido. Quero pagar cinco dólares desses dez ...

- Que dez? - perguntou Jorge.

- Os dez que você lhe deu para comprar o vestido. - E Burgess estendeu-lhe a nota.

Jorge ficou imóvel, cada vez mais corado, e olhando para nós para ver se nos ríamos dele. Então, com a voz presa, disse:

«Obrigado! », e guardou o dinheiro.

John Reed