sábado, 9 de novembro de 2013

OUTROS CONTOS

«O Fogo de Santelmo e a Tromba Marítima», por Luís Vaz de Camões.

A obra épica de Os Lusíadas, escrita por Luís de Camões e publicada em 1572, exalta o povo português pela sua força e coragem de vencer grandes obstáculos ao longo da sua História. Nos dez Cantos, o poeta narra várias proezas, destacando a viagem marítima à Índia por Vasco da Gama realizada no final do século XV.

Vasco da Gama conta ao Rei de Melinde os fenómenos da natureza que os navegadores viram durante a viagem. A descrição no Canto V  - estâncias 18-19-20 - mostra como os segredos da natureza eram vividos de uma forma intensa pelos navegadores. Pela primeira vez, sabiam que não estavam a imaginar aquilo que realmente viam.
Fonte: cvc.instituto-camoes.pt/
Luís Vaz de Camões
Poeta Português

19 - «O FOGO DE SANTELMO E A TROMBA MARÍTIMA» 

Canto V dos Lusíadas (estâncias 18, 19 e 20)

(...)
18 «Vi, claramente visto, o lume vivo
Que a marítima gente tem por santo,
Em tempo de tormenta e vento esquivo,
De tempestade escura e triste pranto.
Não menos foi a todos excessivo
Milagre, e cousa, certo, de alto espanto,
Ver as nuvens, do mar com largo cano,
Sorver as altas águas do Oceano.

19 «Eu o vi certamente (e não presumo
Que a vista me enganava): levantar-se
No ar um vaporzinho e sutil fumo
E, do vento trazido, rodear-se;
De aqui levado um cano ao Pólo sumo
Se via, tão delgado, que enxergar-se
Dos olhos facilmente não podia;
Da matéria das nuvens parecia.

20 «Ia-se pouco e pouco acrecentando
E mais que um largo masto se engrossava;
Aqui se estreita, aqui se alarga, quando
Os golpes grandes de água em si chupava;
Estava-se co as ondas ondeando;
Em cima dele ũa nuvem se espessava,
Fazendo-se maior, mais carregada,
Co cargo grande d' água em si tomada.
(...)

Luís Vaz de Camões

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(9 de Novembro de 1967, morre o cantor lírico português Tomaz Alcaide)

TOMAZ ALCAIDE - «Mi par d'udire ancor» (Bizet, Il Pescatori di Perle)

Poet'anarquista

PARECE-ME OUVIR MAIS
(Bizet/ Pescador de Pérolas)

Parece-me ouvir novamente
ou viscose em meio a flores,
em sua voz, às vezes,
causa do suspiro!

Ou carícias na noite
alegrar que não tem fim,
ou lembrar divina!

Louco êxtase do sonho, o sonho de amor
das estrelas no céu
outro Menara que a partir dela
eu vejo de cada véu. Tome-se a servi-los!

Ou carícias na noite
alegrar que não tem fim,
ou lembrar divina!

Louco êxtase do sonho, o sonho de amor
lembrar divino, lembro divina!

Tomaz Alcaide

POESIA - GUILLAUME APOLLINAIRE

O escritor e crítico de arte francês Guillaume Apollinaire, nasceu em Roma, a 26 de Agosto de 1880. Um dos mais importantes activistas culturais de vanguarda do início do séc. XX, conhecido pela particularidade da sua poesia sem pontuação e gráfica. Escreveu importantes manifestos de vanguarda em França, um dos quais o Cubismo e foi ele o criador da palavra Surrealismo. Guillaume Apollinaire faleceu em Paris, a 9 de Novembro de 1918.
Poet’anarquista
Guillaume Apollinaire
Poeta Francês
SOBRE O AUTOR…

Guillaume Apollinaire nasceu em 26 de agosto de 1880 e morreu em 9 de novembro de 1918, em Paris, próximo ao fim da primeira Grande Guerra, da qual participou e onde foi ferido gravemente em março de 1916.

Participou ativamente e influenciou os movimentos de vanguarda que sacudiram Paris no princípio do século XX e acabaram por transformar definitivamente todas as artes.

A sua obra é vasta e fragmentada, tendo sido publicada durante quase duas décadas em jornais, revistas, panfletos e livros. Percorreu todos os géneros: poesia, prosa, prosa poética, teatro, ensaio e crítica.  

Entre muitas das suas obras, podemos destacar: «L'Hérésiarque e Cie» (1910), «Álcoois»(1913), «Le poète Assassiné» (1916), «Os pintores cubistas» (1913; no Brasil, L&PM POCKET, vol. 15, 1997).
Fonte: L&PM EDITORES

LAÇOS

Cordas feitas de gritos

Sons de sinos através da Europa
Séculos enforcados
Carris que amarrais nações
Não somos mais que dois ou três homens
Livres de todas as peias
Vamos dar-nos as mãos

Violenta chuva que penteia os fumos
Cordas
Cordas tecidas
Cabos submarinos
Torres de Babel transformadas em pontes

Aranhas-Pontífices
Todos os apaixonados que um só laço enlaçou

Outros laços mais firmes
Brancas estrias de luz
Cordas e Concórdia

Escrevo apenas para vos celebrar
Ó sentido ó sentidos caros
Inimigos do recordar
Inimigos do desejar

Inimigos da saudade
Inimigos das lágrimas
Inimigos de tudo o que eu amo ainda

Guillaume Apollinaire

TROMPAS DE CAÇA

A nossa história nobre e trágica
como máscara de tirano
não drama de acaso ou mágica
nenhum detalhe de engano
faz patético o amor

E Thomas De Quincey emborcando
ópio veneno doce e casto
de sua Ana triste sonhando
passemos pois tudo passa
para trás me irei voltando

Lembranças trompas de caça
ecos no vento acabando

Guillaume Apollinaire

O GATO

Eu quero na minha casa:
Uma mulher com a sua razão,
Um gato entre os livros,
Amigos em qualquer época do ano
Sem os quais não posso viver.

Guillaume Apollinaire

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

CARTOON versus OITAVA

Os Juízes Decidem
HenriCartoon

«OS JUÍZES DECIDEM»

-Compinchas, que fazer com este orçamento?
-Se não fosse o governo, diria poder chumbar…
-Depois a União Europeia mais o seu jumento…
-Vá…coragem, não nos deixemos influenciar…
-Isso mesmo, o Constitucional deve ser isento!
-Em que ficamos…chumba-se, ou vai passar?
(Como Pilatos: lavam as mãos no julgamento,
E resolvem a questão atirando moeda ao ar!) 

POETA

CARTOON versus QUADRA

Crise Agridoce
HenriCartoon

«CRISE AGRIDOCE»

A crise aos olhos dos otários:
Os mais ricos são muito pobres,
E os pobres, multimilionários...
(Diferenças, não as descobres?)

POETA

GRANDE ADESÃO À GREVE

8 de Novembro de 2013, «Greve Geral da Função Pública». Às 14:30 horas a greve está com uma adesão entre os 70 e 80%. O descontentamento é geral, exige-se uma política de verdade em que os direitos e garantias dos trabalhadores da Administração Pública sejam respeitados. Se este governo não honra princípios sagrados da Constituição da República Portuguesa, que vá pra lá outro! Só há um caminho a seguir: dar voz ao povo através de eleições antecipadas. A democracia não pode estar refém dos mesmos de sempre, daqueles que consecutivamente pedem sacrifícios aos mais pobres para continuarem a encher os bolsos dos mais ricos. A TROIKA e o FMI são o embuste, juntamente com os partidos da direita e um PS que não é peixe nem carne. Viva a liberdade, viva Abril!
Poet'anarquista
Jornada de Luta...
Greve com 70 a 80% de Adesão!

ESPECIAL MÚSICAS DO MUNDO

E a música especial de hoje é...

SÉRGIO GODINHO
«Que Força é essa Amigo»
Que força é essa by SÉRGIO GODINHO on Grooveshark
Poet'anarquista

QUE FORÇA É ESSA AMIGO

Vi-te a trabalhar o dia inteiro
construir as cidades pr'ós outros
carregar pedras, desperdiçar
muita força p'ra pouco dinheiro
Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Muita força p´ra pouco dinheiro

Que força é essa
que força é essa
que trazes nos braços
que só te serve para obedecer
que só te manda obedecer
Que força é essa, amigo
que força é essa, amigo
que te põe de bem com outros
e de mal contigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo

Não me digas que não me compr´endes
quando os dias se tornam azedos
não me digas que nunca sentiste
uma força a crescer-te nos dedos
e uma raiva a nascer-te nos dentes
Não me digas que não me compr´endes

(Que força...)

(Vi-te a trabalhar...)

Que força é essa
que força é essa
que trazes nos braços
que só te serve para obedecer
que só te manda obedecer
Que força é essa, amigo
que força é essa, amigo
que te põe de bem com outros
e de mal contigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo

Sérgio Godinho

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

8 DE NOVEMBRO - GREVE DA FUNÇÃO PÚBLICA

Mas Lutem, Porra!...
Tão com medo de quê?

OUTROS CONTOS

«Uma simples flor nos teus cabelos claros», por José Cardoso Pires

«Uma simples flor nos teus cabelos claros»
Mulher com flor no cabelo/ Cynthia Castejón

18- UMA SIMPLES FLOR NOS TEUS CABELOS CLAROS

«Mas a meio caminho voltou para trás, direita ao mar. Paulo ficou de pé no areal, a vê-la correr: primeiro chapinhando na escuma rasa e depois contra as ondas, às arrancadas, saltando e sacu­dindo os braços, como se o corpo, toda ela, risse.
Uma vaga mais forte desfez-se ao correr da praia, cobriu na areia os sinais das aves marinhas, arrastou alforrecas abandonadas pela maré. Eram muitas, tantas como Paulo não vira até então, espapaçadas e sem vida ao longo do areal. O vento áspero curtira-lhes os corpos, passara sobre elas, carregado de areia e de salitre, varrendo a costa contra as dunas, sem deixar por ali vestígios de pegada ou restos de alga seca que lhe resistissem.»

«Marcaste o despertador»
«Hã?»
«O despertador, Quim. Para que horas o puseste?»

«...E tudo à volta era névoa, fumo do mar rolando ao lume das águas e depois invadindo mansamente a costa deserta. Havia esse sudário fresco, quase matinal, embora, cravado no céu verde-ácido, despontasse já o brilho frio da primeira estrela do anoitecer...»

«Desculpa, mas não estou descansada. Importas-te de me passar o despertador?»
«O despertador?»
«Sim, o despertador. Com certeza que não queres que eu me levante para o ir buscar. És de força, caramba.»
«Pronto. Estás satisfeita?»
«Obrigada. Agora lê à vontade, que não te torno a incomodar. Eu não dizia? Afinal não lhe tinhas dado corda... Que horas são no teu relógio? Deixa, não faz mal. Eu regulo-o pelo meu.»

«- Mais um mergulho - pedia a rapariga.
A dois passos dele sorria-lhe e puxava-o pelo braço;
- Só mais um, Paulo. Não imaginas como a água está estupenda. Palavra, amor. Estupenda, estupenda, estupenda.
Uma alegria tranquila iluminava-lhe o corpo. A neblina bailava em torno dela, mas era como se a não tocasse. Bem ao contrário: era como se, com a sua frescura velada, apenas despertasse a morna suavidade que se libertava da pele da rapariga.
- Não, agora já começa a arrefecer - disse Paulo. - Vamo-nos vestir?
Estavam de mãos dadas, vizinhos do mar e, na verdade, quase sem o verem. Havia a memória das águas na pele cintilante da jovem ou no eco discreto das ondas através da névoa; ou ainda no rastro de uma vaga mais forte que se prolongava, terra adentro, e vinha morrer aos pés deles num distante fio de espuma. E isso era o mar, todo o oceano. Mar só presença. Traço de água a brilhar por instantes num rasgão do nevoeiro.
Paulo apertou mansamente a mão da companheira;
- Embora?
- Embora - respondeu ela.
E os dois, numa arrancada, correram pelo areal, saltando poças de água, alforrecas mortas e tudo o mais, até tombarem de cansaço.»

«Quim... »
«Outra vez?»
«Desculpa, era só para baixares o candeeiro. Que maçada, estou a ver que tenho de tomar outro comprimido.»
«Lê um bocado, experimenta.»
«Não vale de nada, filho. Tenho a impressão de que estes comprimidos já não fazem efeito. Talvez mudando de droga... É isso, preciso de mudar de droga.»

«- Tão bom, Paulo. Não está tão bom?
- Está óptimo. Está um tempo espantoso.
Maria continuava sentada na areia. Com os braços envolvendo as pernas e apertando as faces contra os joelhos, fitava o nada, a brancura que havia entre ela e o mar, e os olhos iam-se-lhe carregando de brilho.
- Tão bom - repetia.
 - Sim, mas temos que ir.
Com o cair da tarde a névoa desmanchava-se pouco a pouco. Ficava unicamente a cobrir o mar, a separá-lo de terra como uma muralha apagada, e, de surpresa, as dunas e o pinhal da costa surgiam numa claridade humilde e entristecida. Já de pé, Paulo avistava ao longe a janela iluminada do restaurante.
- O homem deve estar à nossa espera - disse ele. - Ainda não tens apetite?
- E tu, tens?
- Uma fome de tubarão.
- Então também eu tenho, Paulo.
- Ora essa?
- Tenho, pois. Hoje sinto tudo o que tu sentes. Palavra.

«Se isto tem algum jeito. Qualquer dia já não há comprimidos que me cheguem, meu Deus.»
«Faço ideia, com essa mania de emagrecer... »
«Não, filho. O emagrecer não é para aqui chamado. Se não consigo dormir, é por outras razões. Olha, talvez seja por andar para aqui sozinha a moer arrelias, sem ter com quem desabafar. Isso, agora viras-me as costas. Nem calculas a inveja que me fazes.»
«Pois.»
«Mas sim, fazes-me uma inveja danada. Contigo não há complicações que te toquem. Voltas as costas e ficas positivamente nas calmas. Invejo-te, Quim. Não calculas como eu te invejo. Não acreditas?»
«Acredito, que remédio tenho eu?»
«Que remédio tenho eu... É espantoso. No fim de contas ainda ficas por mártir. E eu? Qual é o meu remédio, já pensaste? Envelhecer estupidamente. Aí tens o meu remédio.»

«Partiram às gargalhadas. À medida que se afastavam do mar, a areia, sempre mais seca e solta, retardava-lhes o passo e, é curioso, sentiam as noite abater-se sobre eles. Sentiam-na vir, muito rápida, e entretanto distinguiam cada vez melhor, as piteiras encravadas nas dunas, a princípio pequenas como galhos secos e logo depois maiores do que lhes tinham parecido à chegada. E ainda as manchas esfarrapadas dos chorões rastejando pelas ribas arenosas, o restaurante ermo, as traves; de madeira roídas pela maresia e, cá fora, as cadeiras de verga, que o vento tombara, soterradas  na areia.
- O mar nunca aqui chega - tinha dito o dono da casa. - Quando é das águas vivas, berra lá fora como um danado. Mas aqui, não senhor. Aqui não tem ele licença de chegar.»

«A verdade é que são quase duas horas e amanhã não sei como vai ser para me levantar. Escuta...»
«Que é?»         
«Não estás a ouvir passos?»
«Passos?»
«Sim. Parecia mesmo gente lá dentro, na sala. Se soubesses os sustos que apanho quando estou com insónias. A Nanda lá nisso é que tem razão. Noite em que não adormeça veste-se e vai dar uma volta com o marido, a qualquer lado. Acho um exagero, eu nunca seria capaz de te acordar... mas, enfim, ela lá sabe. O que é certo é que se entendem à maravilha um com o outro. E isso, Quim, apesar de ser a tal tipa, que tu dizes. Também, ainda estou para ter uma amiga que na tua boca não seja uma tipa ou uma galinha.»

José Cardoso Pires

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

STEEL PULSE - «Blues Dance Raid»

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(6 de Novembro de 1893, morre em São Petersburgo o compositor russo Tchaikovsky)

TCHAIKOVSKY - «O Lago dos Cisnes»

«REFEIÇÃO INTERROMPIDA», POR COLUMBANO BORDALO PINHEIRO

6 de Novembro de 1929, morre o pintor português Columbano Bordalo Pinheiro. Pode apreciar por aqui- «COLUMBANO BORDALO PINHEIRO», sobre vida e obra deste famoso pintor nascido no séc. XIX. 

«Refeição interrompida», por Columbano Bordalo Pinheiro.

«Refeição Interrompida»
Óleo de Columbano Bordalo Pinheiro (1883)

Ao admirar este quadro a óleo do pintor português Columbano Bordalo Pinheiro (Refeição Interrompida de 1883), tive um 'flash' instantâneo de um desenho a carvão, em que JMGalhardas (Belé) retratou JPGalhardas (Palera), sentado na cadeira alta de madeira a comer à mesa com os mais crescidos. Aquela cadeira, não que alguém me tenha dito, meti na cabeça que foi o avô do João Regatão (carpinteiro de profissão), quem a imaginou e depois construiu. Mas não vem agora ao caso. O que pretendo aqui testemunhar é a grande qualidade de traço, quase sempre à primeira, de JMGalhardas. O retrato tinha ficado excepcional a meus olhos, mas JMGalhardas encontrou-lhe um defeito na boca. Depressa acabou por amarfanhar a folha de papel e jogá-la no lixo... 

Da minha memória nunca mais se varreu aquele retrato de JPGalhardas!
Poet'anarquista

terça-feira, 5 de novembro de 2013

CARTOON versus QUADRA

O Sonho de Jesus
HenriCartoon

«O SONHO DE JESUS»

-Mister Jesus: verdade que acalenta o sonho
De poder jogar a final dos Campeões na Luz?
*
-Sonhei com esse jogo... um pesadelo medonho!...
Estava no inferno a arder pregado na cruz!!

POETA

OUTROS CONTOS

«A Moura Cassima», um outro conto tradicional português.

«A Moura Cassima»
Ilustração de Maria Keil

17- «A MOURA CASSIMA»

Há muitos, muitos anos, no tempo dos mouros, os soldados de D. Paio conquistaram o castelo de Loulé.
D. Paio não sabia que o governador tinha poderes mágicos...

«Conquista do Castelo de Loulé»
Ilustração de Maria Keil

Quando os soldados invadiram o castelo, o governador  disse às suas  três lindas filhas:
- Filhas, vou ter de fugir para Tânger porque os cristãos venceram! Infelizmente, não podem vir comigo. Mas, um dia, eu prometo que volto!

Então,  o governador levou as suas três filhas a um campo onde havia uma fonte  e, nesse momento, começou a  cantar  uma melodia muito triste!
De repente, as três filhas desapareceram.
Entretanto, o governador, nessa noite, conseguiu arranjar  um barco (lá para os lados da Quarteira) que o levou até à costa africana.

«Governador a caminho da Costa Africana»
Ilustração de Maria Keil

Os mouros que ficaram no Algarve a combater os cristãos acabaram por fugir para Tânger, levando alguns cristãos presos para serem vendidos na praça pública.
Passado algum tempo, o antigo governador ia a passear e viu o carpinteiro de Loulé na praça pública de Tânger.

«O Carpinteiro»
Ilustração de Maria Keil

Aproximou-se do carpinteiro e os dois começaram a conversar. A certa altura o carpinteiro disse:
-Quando saí de Loulé falava-se muito das três mouras encantadas! As filhas do governador.
Com esta resposta, o governador tomou uma decisão e pediu ao carpinteiro para ir salvar as filhas a Loulé. Prometeu-lhe que seria recompensado com muitas jóias e riquezas. O carpinteiro disse que sim e jurou cumprir as ordens do governador.
Então, o governador disse:
- Cada um dos  pães  tem um sinal diferente que representa o nome das minhas três filhas. À meia noite, com a Lua Cheia,  vais à fonte e lanças um pão de cada vez, chamando por: Zara, Lídia e Cassima.
- Mas o Algarve é muito longe. Como é que eu chego lá? - perguntou o carpinteiro.

Mais uma vez o mouro usou a sua magia...
- Vês aquele alguidar cheio de água? Põe-te ao lado do alguidar e dá um salto para trás.
O carpinteiro pôs-se ao lado do alguidar.
- Presta atenção: tens de saltar por cima e sem cair!
-E se cair?
-Morrerás afogado no mar!

«Chegada do Carpinteiro a Loulé»
Ilustração Maria Keil

O carpinteiro conseguiu saltar e chegou a Loulé.
Os dias e os meses iam passando e o carpinteiro visitava a fonte todos os domingos. Olhava e chamava pelas belas mouras encantadas. Chegava a casa e ia sempre à arca. Não acontecia nada!

Até que um dia a mulher, que estava muito curiosa,  resolveu perguntar ao marido o que se passava. O carpinteiro disse-lhe:
-Não vás àquela arca!
Mas a mulher era curiosa. Quando o carpinteiro estava na fonte, a mulher abriu a arca e viu os pães. Com uma faca cortou um deles. Nesse mesmo momento o marido ouviu um grito tremendo vindo do fundo da fonte. Ficou sem compreender o que é que tinha acontecido.

«As Mouras Zara, Lídia e Cassima»
Ilustração de Maria Keil

No dia seguinte, à meia-noite, o carpinteiro atirou o primeiro pão e chamou «Zara». Depois, o segundo, e chamou «Lídia» e  finalmente o terceiro e disse: «Cassima»! Nesse instante ouviu o mesmo grito! Cassima então disse: 
- A culpa é da tua mulher. Cortou-me a perna com uma faca. Nunca mais vou sair daqui.

O governador ficou muito triste mas tinha feito uma promessa ao carpinteiro. Por isso recompensou-o com muitas jóias. Ainda hoje, a moura encantada, chamada Cassima, se encontra naquela fonte.

Conto Tradicional Português

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(5 de Novembro de 1989, morre o pianista russo Vladimir Horowitz)

VLADIMIR HOROWITZ
«Dança Macabra, de Franz Liszt»

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

CARTOON versus QUADRA

Contra Passos não há Argumentos
HenriCartoon

«CONTRA PASSOS NÃO HÁ ARGUMENTOS»

Aprende como se faz: (Cabum!)
Num país em estado moribundo...
Gasto menos dinamite que tu,
Mas arrebento com tudo!!

POETA

CURIOSIDADE

A 4 de Novembro de 1922, é descoberta a entrada para o túmulo de Tutankamon, um dos faraós mais famosos do Antigo Egipto. O achado pertenceu ao arqueólogo britânico Howard Carter. Só a 4 de Novembro de 2007 a múmia é retirada do seu túmulo, em Luxor, e o seu rosto levado e exibido pela primeira vez na história, com o aval do «Concelho Supremo das Antiguidades Egípcio». 
Poet'anarquista
Vale dos Reis, perto de Luxor
Entrada para o túmulo de Tutankamon

Múmia de Tutankamon 
Faraó Egípcio (nasceu em 1346 a.C./ morreu em 1327 a.C.)
Introdução

Tutankamon, também conhecido como o “Faraó Menino”, nasceu em 1346 a.C e morreu, aos 19 anos de idade, em 1327 a.C. Foi faraó do Egito Antigo entre os anos de 1336 e 1327 a.C. Era filho do faraó Akhenaton. 

Vida e morte 

Ainda existem muitas dúvidas sobre a vida de Tutankamon. Foi o último faraó da 18ª dinastia. Durante seu curto período de governo, levou a capital do Egito para Memphis e retomou o politeísmo, que havia sido abandonado pelo pai Akhenaton.  

Sabe-se que morreu de forma traumática ainda na adolescência. Alguns pesquisadores acreditam que ele tenha sido vítima de uma conspiração na corte e, possivelmente, tenha sido assassinado com um golpe na cabeça. Esta hipótese é sustentava, pois o crânio da múmia do faraó apresenta uma perfuração.

Porém, estudos mais recentes e avançados (inclusive de DNA) efetuados na múmia do faraó menino revelaram que a causa mais provável de sua morte tenha sido a malária. Estes estudos mostraram também que Tutankamon era portador de uma doença conhecida como Köhler-Freiberg, que provoca inflamação em cartilagens e ossos dos pés. Um dos pés da múmia do faráo apresenta necrose, provavelmente causada pela má circulação sanguínea provocada pela doença. Logo, essa conjugação de doenças pode ter levado o faraó a morte.

Máscara Mortuária de Tutankamon
Tesouro no interior do Sarcófago
Tesouros de Tutankamon 

A importância atribuída para este faraó está relacionada ao facto de sua tumba, situada no Vale dos Reis, ter sido encontrada intacta. Nela, o arqueólogo inglês Howard Carter encontrou, em 1922, uma grande quantidade de tesouros. O corpo mumificado de Tutankamon também estava na tumba, dentro de um sarcófago, coberto com uma máscara mortuária de ouro. O caixão onde estava a múmia do faraó também é de ouro maciço. 

Na tumba de Tutankamon foram encontradas mais de cinco mil peças (tesouros). Entre os objetos estavam jóias, objetos pessoais, ornamentos, vasos, esculturas, armas, etc.

A maldição de Tutankamon

Durante a escavação da tumba de Tutankamon, alguns trabalhadores da equipa morreram de forma inesperada. Criou-se então a lenda da Maldição do Faraó. Na parede da pirâmide foi encontrada uma inscrição que dizia que morreria aquele que perturbasse o sono eterno do faraó. Porém, verificou-se depois que algumas pessoas haviam morrido após ter respirado fungos mortais que estavam concentrados dentro da pirâmide.
Fonte: www.suapesquisa.com/

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(4 de Novembro de 1809, morre o compositor alemão do romantismo, Felix Mendelssohn)

FELIX MENDELSSOHN
«On Wings of Song»

domingo, 3 de novembro de 2013

CARTOON versus QUADRAS

O Sorteio
HenriCartoon

«O SORTEIO»

(Será que a nossa paixão ainda perdura?)

-Traz-me um copo de água, se faz favor,
E não te esqueças da respectiva factura…
A outra, entregas depois de fazer amor!

-E rabinho lavado com água da ETAR…
Também pedes factura por esse asseio?

-Vou ganhar um carrinho no sorteio
E sobre rodas, começar a facturar!!

POETA

PINTURA versus POESIA

«Alameda no Outono»
Van Gogh (1884)

«ALAMEDA NO OUTONO»

Alameda no Outono, de Van Gogh,
As árvores pintam-se de cores mortas,
O vento frio vindo do lado da morgue
Anuncia que estão fechadas as portas;

Mas, com a brisa outro tempo surgirá
Em que as cores pintarão outras vidas,
E uma nova mudança por aqui passará
Abrindo janelas há muito esquecidas (!)

Pode, a tristeza trazer de volta alegria
E fazer-nos sorrir como quem chora?
Uma luz forte anuncia o nascer do dia;

No entanto, encontro do lado de fora
Cor da esperança que o olhar não via…
Caminho na alameda... chegou a hora!

Matias José

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(3 de Novembro de 1801, nasce o compositor italiano Vicenzo Bellini)

VICENZO BELLINI - «Norma - Casta Diva»
Voz da cantora lírica Maria Callas
Vincenzo Bellini - Norma (Romani) - Casta Diva (Act I) by Maria Callas on Grooveshark
Poet'anarquista

NORMA - CASTA DEUSA

Casta Deusa,
Casta Deusa, que prateias
Estes sagrados, estes sagrados, antigos
Ramos
A nós volta o belo semblante
A nós volta o belo semblante
Sem névoa e sem véu

(coro)

Casta Deusa
Que prateias
Estes antigos ramos sagrados
A nós volta o belo semblante e sem

Acalma oh Deusa
Acalma tu, dos corações ardentes
Acalma também
Acalma também, acalma também o zelo audaz
Espalha sobre a Terra
Aquela paz
Espalha sobre a Terra
Espalha sobre a Terra
Aquela paz, que reinar tu fazes
Tu fazes no céu

Voz: Maria Callas
Música: Vicenzo Bellini

«SE TE AMO, NÃO SEI!», POR GONÇALVES DIAS

3 de Novembro de 1864, falecia o poeta brasileiro da primeira geração do romantismo, Gonçalves Dias. «Se te amo, não sei!», poema que hoje se publica prestando homenagem ao autor. Pode ainda ler por aqui- «POESIA - GONÇALVES DIAS», biografia e obra do escritor nascido em Caxias, no Maranhão.
Poet'anarquista
Poeta Brasileiro Gonçalves Dias
Caricatura por José Nilton

 SE TE AMO, NÃO SEI!

Amar! se te amo, não sei.
Oiço aí pronunciar
Essa palavra de modo
Que não sei o que é amar.

Se amar é sonhar contigo,
Se é pensar, velando, em ti,
Se é ter-te n'alma presente 
Todo esquecido de mim!

Se é cobiçar-te, querer-te
Como uma bênção dos céus
A ti somente na terra
Como lá em cima a Deus;

Se é dar a vida, o futuro,
Para dizer que te amei:
Amo; porém se te amo
Como oiço dizer, — não sei.

————

Sei que se um génio bom me aparecesse
E tronos, glórias, ilusões floridas,
E os tesouros da terra me oferecesse
E as riquezas que o mar tem escondidas;

E do outro lado — a ti somente, — e o gozo
Efêmero e precário — e após a morte;
E me dissesse: "Escolhe" — oh! jubiloso,
Exclamara, senhor da minha sorte! —

"Que tesouro na terra há i que a iguale?
Quero-a mil vezes, de joelhos — sim!
Bendita a vida que tal preço vale,
E que merece de acabar assim!"

Gonçalves Dias

sábado, 2 de novembro de 2013

CARTOON versus QUADRAS

Adesão Total
HenriCartoon

«ADESÃO TOTAL»

- Bingo! No metro não se trabalhou!!...
Uma adesão cem por cento à greve,
Os trabalhadores unidos, como deve,
E finalmente toda a gente parou!!!

- Acho bem, e digo mais: a luta continua!
Devia ir ter com eles e dar o meu apoio
E a minha solidariedade neste comboio…
Mas está de greve? Governo pra rua!!

POETA

CARTOON versus QUADRA

O Engraçado que Caiu em Desgraça
HenriCartoon

O ENGRAÇADO QUE CAIU EM DESGRAÇA

Conselho de Carlo Ancelotti
Para a piada poder resultar:
- Senhor Blatter, peço que anote...
Contar até dez antes de falar!

POETA

OUTROS CONTOS

«A Viagem, Enfim», por Mário Henrique Leiria.

«A Viagem, Enfim»
Conto de Mário Henrique Leiria

16- «A VIAGEM, ENFIM»

Isto de ter sempre o mesmo sonho todas as noites torna-se aborrecido.
Era assim: saía de casa, ia até ao carro e dizia à família «vamos lá fazer essa viagem». Primeiro entravam a mulher e as duas crianças, depois os pais, ele instalava-se ao volante e pronto, não havia lugar para os sogros! Era sempre a mesma coisa. Por mais que empurrassem, não conseguiam metê-los lá dentro.
Acordava a suar, empurrando ainda qualquer coisa que não estava lá.
A mulher aconselhou-lhe uns calmantes, para ver se o sonho se ia.
Mas nada. Lá vinha sempre, todas as noites. É verdade que empurrava menos, talvez os calmantes, mas continuava naquele desespero de não conseguir enfiar os sogros no carro alucinante.
Os sogros disseram-lhe que não se interessavam em ir, não faziam questão, já estavam velhos para viagens.
Os pais prontificaram-se a ceder os lugares deles.
Toda a família colaborava, mas o sonho continuava.
Chegou a fazer experiências, a meter a família completa no velho Citroen arrastadeira. E conseguia, lá se metiam todos, mais ou menos apertados mas entravam. Mas no sonho não.
A coisa tornava-se desesperante.

- Porque é que não vais ao Mora? Ele é psicanalista, explica-te, tira-te isso – insistia a mulher, já arreliada, e preocupada também, com aquelas viagens nocturnas e frustradas em que ele se envolvia sem culpa.
O Mora era amigo de infância, nem sequer permitia que ele pagasse, era extraordinário! Às vezes até ia lá jantar. E respondeu à mulher:

- Tens razão, Xuxa, vou mesmo, que isto assim não pode ser. Tens sempre razão menina.
Contou tudo. O Mora mandou-lhe contar mais, o passado continua sempre oculto, ao que disse. Deitado, contou-lhe o que ele precisava era de derivar, sabem, encontrar qualquer coisa além do carro e da viagem que não fazia em sonhos. Derivar. Substituir o carro. Agradeceu e convidou o Mora para jantar no sábado. O Mora não podia e deu-lhe uma palmada nas costas.
Chegou a casa aliviado e esclareceu a Xuxa:
- Vou derivar, menina.
- Derivar?
- Sim, substituir o carro e tudo o mais, excepto tu, as crianças, os velhos e a casa.

(...)

À noite não sonhou. No dia seguinte a Xuxa disse-lhe que até parecia dez anos antes.
Tudo voltou à normalidade, os sogros deixaram de se preocupar com a viagem, as crianças entusiasmaram-se com os estoiros da moto. E o carro na garagem.
E, de repente, tornou a sonhar. O sonho.

Assim: saiu de casa, foi até ao carro e disse à família «vamos lá fazer essa viagem». A mulher e as crianças entraram, depois os pais, e ele instalou-se ao volante. E não havia lugar  para os sogros! Começaram a empurrar para os meter lá dentro, e nada. Então virou-se para a garagem. Estava um pouco diferente mas a moto continuava lá dentro. Deixou tudo, montou a moto, pôs o chapéu de palha e avançou pela estrada. Uma estrada larga, muito aberta a tudo. Pareceu-lhe já a ter visto alguma vez. Olhou para  trás e lá ao longe, à porta da casa, continuavam a empurrar-lhe os sogros. Acenou uma despedida, acelerou e continuou, olhando árvores e nuvens. Ainda não voltou.

Mário Henrique Leiria, Contos do Gin-Tonic, pp. 117-119

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

CHINMAYA DUNSTER
«Khajurajho»

«CALMA E VOLÚPIA», POR MATISSE

2 de Novembro de 1954, morre o mestre da cor e pintor francês, Henri Matisse. Pode ficar a conhecer por aqui- «PINTURA - HENRI MATISSE», ou ainda por aqui- «HENRI MATISSE», sobre vida e obra deste grande artista do fauvismo. A pintura que hoje se publica tem por título, «Calma e Volúpia».
Poet'anarquista
«Calma e Volúpia»
Henri Matisse
  

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

CARTOON versus QUADRAS

O Alfaiate
HenriCartoon

«O ALFAIATE»

- A reforma do estado é urgente
Precisamos esconder a gordura,
Veste este casaco adelgaçante
Assim poderás fazer boa figura!

- Tiraste muito mal as medidas
Esse casaco está-me apertado,
Com as gorduras mal vestidas
Não vou ficar bem disfarçado!

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

THE CHOCOLATE WATCH BAND
«Gone a Passes By»

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

OUTROS CONTOS

«Regresso à Cúpula da Pena», por José Rodrigues Miguéis.

«Regresso à Cúpula da Pena»
Cúpula Mourisca de uma Guarita
Sintra - Palácio da Pena

15- «REGRESSO À CÚPULA DA PENA» 
[excerto]

Nisto, uma tropa de viajantes apressados, ajoujados de malas e sacos, atravessou o largo de corrida, a caminho da estação. Olhei o relógio lá em cima, e conferi as horas no pulso: «À 1.50 sai o rápido de Sintra», comentei. E dei um pulo. O cavalheiro que, na mesa ao lado, se esforçava por ler nas entrelinhas do jornal, sobressaltou de medo, receando talvez uma agressão. Paguei a despesa, e, atrás do grupo, que já subia os degraus da entrada, deitei a correr através do largo cheio de sol e de estrépito.

Fui direito à bilheteira:
― Sintra, ida e volta. Ainda apanho o rápido?
O empregado olhou o relógio e respondeu com placidez: 
― Tem cinco minutos.

Era então certo! Surpreendido e feliz, impaciente como há vinte anos com a lentidão dos ascensores, subi a dois e dois a escadaria. Era como se tivesse acertado com o número da sorte grande, um júbilo estranho, esta certeza tão minha de que alguma coisa continuava, um segredo só entre mim e o mundo do meu regresso... Daí a momentos, encaixado por milagre na carruagem de segunda, com este grato sabor de fumarada na língua, tornei a ouvir o apito nostálgico da locomotiva, o mesmo de há... «Mas que seca!», pensei. «Deixe o que lá vai! Hoje é hoje!»

Aqueles passeios a Sintra tinham sido sempre o meu regalo. Amava as hortas, as praias, os toiros, o futebol: mas sempre que me apetecia fugir deste simulacro de Inferno aberto em Céu ― Sintra comigo. Por lá andava todo o santo dia, de chapéu na mão, assobio na boca, a boa sombra, Seteais, as fontes, almoço no Lawrence (ou no Pombinha, conforme o orçamento), depois os Capuchos, as ruínas, a Pena... Cheguei mesmo a dormir uma noite, sozinho, nas ameias do Castelo dos Mouros. Foi no Verão, não há memória dum Agosto assim tão quente. A coisa mais extraordinária, nunca o hei-de esquecer, foi que o Sol se pôs no mesmo instante em que a Lua rompeu, e vinha cheia! Um espectáculo como nunca vi outro, nem sol da meia-noite, nem auroras boreais. Eram dois sóis, qual deles o maior, qual o mais vermelho, suspensos no horizonte, em lados opostos do mundo. Parecia uma alucinação ou um caso de espelhismo natural. Durante instantes tive a ilusão dum «fenómeno» ou cataclismo: o universo parava, e ficava retido entre aqueles dois bugalhos enormes de luz vermelha e baça... Depois o Sol afundou-se, e a Lua subiu, empalideceu, esfriou, fez-se uma lua de balada à Soares de Passos. Enfim, lá fiquei essa noite, e por sinal que me fartei de bater os queixos com frio, sem sobretudo, no Agosto mais quente de que rezam lendas encantadas.
E aqui vou eu agora a caminho de Sintra, sem mais nem menos, só porque uma tropa fandanga se lembrou de atravessar o largo, à hora a que dantes havia um rápido, e eu ali sentado a remoer problemas na esplanada do Suisso! Olhando a paisagem dura do Cacém, ocorreu-me esta pergunta estúpida: «Se ainda haverá cisnes pretos no lago?»

Chegado a Sintra, desentorpeci as pernas andando até à vila. O que sempre me atraía ali eram sobretudo as verduras, as sombras, as fontes, a paisagem, a altitude. Postado agora na arcaria ogival do Palácio Real, olhei o alto da Pena, e quis ter asas para galgar os penhascos, roçar os cimos do arvoredo, ir poisar naquelas torres e ameias dignas do Walt Disney. Mas, com franqueza, nem asas, nem pernas. Vista cá de baixo, da vila, a Pena pareceu-me um caso de respeito, ninho de águias, rochedo mitológico, amontoado de ciclopes exasperados, de garras crispadas, a agatanhar o céu. Como é que eu pude outrora trepar aquilo a pé, depois da caminhada desde Lisboa, como cheguei a fazer? E o que é que me atraía agora lá acima, que memória, que enamorado pensamento, que secreto desejo, anseio de galgar o hiato do tempo, desgarradora saudade ou largueza de vistas? Porque era ali que a vontade me estava chamando.

Corri a tomar uma tipóia que envelhecia no largo, agarrada às pilecas, e mandei bater para a Pena. Não, nem Seteais, nem Capuchinhos, nem sequer a Cruz Alta: a Pena! Daí a pouco, perna cruzada, chapéu no regaço, assobio na boca, a alma à larga, a brisa fresca no suor da calva ― por entre o gemer das molas e o bufar das bestas gastas, eu trepava a serra das serras. Mandei parar nas fontes e bebi, repetindo os gestos consabidos de quem refaz um velho conhecimento ou pratica um ritual.

José Rodrigues Miguéis