domingo, 7 de junho de 2015

OUTROS CONTOS

«Um Amor de Cão», por Maria Velho da Costa.

«Um Amor de Cão»
A Menina e o Cão/ Paula Rego

526- «UM AMOR DE CÃO»

Myra atravessou os carris desocupados em direcção ao mar. Cresciam ervas e tojo nas juntas e as traves e ferros estavam negros das marés vivas sujas de crude. O céu estava baixo e muito escuro. Havia estrias roxas e verdes na distância branca e pareciam, céu e mar, uma única onda a levantar-se para engolir a terra. Myra tirou os sapatos e as meias rotas e ficou parada a ver aquele assombro. Se corresse por ali adentro ninguém daria com ela nunca mais. Assoou-se à bainha da saia e limpou o resto da cara à manga do casaco de malha. Correu com os braços abertos, um sapato em cada mão, em direcção ao bando de gaivotas poisadas. Gritaram muito e revoaram iradas por cima da cabeça dela, mas não a atacaram. A mãe não teria razão, ou seria na terra dela. Outros mares, outros ares.

Começou a chover, primeiro gotas grossas, depois fios finos e cerrados. Tudo brilhava. Era como vapor de luz que se levantava daquele grande corpo de água a rugir. Myra começou a ficar cega de tanta chuva a bater-lhe na cara e a escorrer pelo pescoço. Era como chorar sem gritos. Correu para o barracão onde brincara de escondidas nesse primeiro Verão em que ainda só falava a língua de brincar com os outros, com os olhos, gestos e risos. Correu depressa, saltitando entre detritos, algas mortas que chiavam, baba de espuma amarela que se abatia na chuva.

Estava muito escuro e a água estalava com força atroadora nas chapas de zinco do tecto. Myra fechou a custo o tramelo enferrujado. Doíam-lhe as mãos e os braços de proteger a cabeça da última sova. Ficou na escuridão, até os olhos se habituarem às lâminas de luz das frinchas nas tábuas. Cheirava a salmoura, bafio, peixe estragado, cordame e óleo. Junto às paredes estavam ensarilhados ao alto os paus das barracas, panos de tela desbotada, redes com boias de vidro, bidons pretos, latas, contentores de plástico esventrados, lixo da praia e do mar, O chão pegava-se aos pés, uma areia imunda e húmida. Com o mundo a desabar por cima da cabeça, Myra sentou-se num molho de corda que lhe picava as nádegas e começou a chorar de aflição; nunca chegaria a casa a tempo de secar antes deles virem, pela noite. Ia apanhar de novo, da ira e do medo.

O latido uivado foi a primeira coisa que a alertou. Depois brados, berros e risos trazidos na ventania e abertas nas águas e rebentação, já muito perto. Myra escondeu-se atrás de um bidon, a cara inchada contra o alcatrão, os olhos arregalados de novo terror, a respirar o menos que podia, o coração a bater por todos os lados.

Dois rapazes grandes entraram com estrondo a arrastar numa corrente um cão que gania e ladrava rouco. Com meio olho, Myra viu o cão a sacudir-se com esforço. O pêlo espirrava água e sangue. Depois atirou-se para o chão e ali ficou. Puxaram-no para um canto com algum cuidado e incentivo, amarraram a corrente e taparam-no com uma manta que sacudiram da água. Disseram-lhe que era um grande cão, o melhor de todos, riram a lembrar a goela aberta do outro a espernear à morte e disseram ao cão que ficasse. Eles logo voltariam, que ele valia mais que o peso em ouro. Ele ficou. Riram-se mais e fecharam o tramelo de fora com toda a força. Ao longe ainda bradavam, rapidamente ao longe, corriam.

A chuva abrandou. Pingolejava agora em tampas, fundos de alguidar e latas de zinco. Myra saiu do esconderijo de rojo, devagar. O cão não era dos maiores, mas era grande. Tinha o peito muito ancho e encorpado, o pêlo curto e malhado de branco e camurça.

Os olhos eram preto-vivo, muito para cada lado da cabeça achatada e larga. Parou de lamber-se e ficou fito nela, todo quieto e inquieto nas narinas grandes e pretas. Myra reconheceu-lhe a traça, de há tantos anos e tão longe terra: eram os cães de matar cães, o pior cão do mundo. O mais valente, até à demência de morrer de raiva. Atarracado de força, nobre e tão mau.

Continuou a aproximar-se de gatas. O animal sem ruído, sem fazer menção de levantar-se, mostrou-lhe as presas. Myra, respeitosa, quebrou o intenso laço do olhar e acocorou-se, os braços entre as pernas, à distância da corrente. O bicho deitou a cabeça entre as patas, desceu as orelhas curtas, uma delas esfacelada, fechou o beiço, uma chaga aberta da orelha até à comissura da grande boca. A luz coada ia esmorecendo. Na meia penumbra

Myra deixou-se amolecer, gemeu. O cão voltou a olhá-la e ganiu um ganido de cachorro, um gemido. A omoplata ainda sangrava de outra ferida que brilhava no escuro, um coalho preto que escorria devagar até à ponta da manta. Myra, sem se aproximar deu-lhe o nome que lhe ouvira chamar e começou a falar-lhe de manso na sua língua materna. Desgraçado, desgraçado Rambo, pobrezinho de ti. O animal, sem se mover, esboçou um trejeito de cauda. Deixou de a fitar e recomeçou a lamber-se. 

Com mil cuidados lentos, Myra tirou do bolso o pão com a salsicha que roubara da lata da casa comum e pô-lo bem perto do nariz do cão, em cima da manta. Toma, come cão, depois arranjamos mais. O cão virou a cabeça de lado para abocanhar do beiço intacto, soergueu o tronco e começou a comer. Myra levantou-se e foi buscar uma tampa de lata com água da chuva.

Foi então que Myra pensou que se tinha urinado de medo. As pernas estavam pegajosas, molhadas por dentro. Apalpou-se e viu pela mancha escura nos dedos que era sangue vivo. Havia de ser hoje, a primeira vez, disse sem medo para o cão. Pousou-lhe a água diante. Ele levantou-se e deixou-a chegar-se. Bebeu, a cauda comprida claramente grata. O rabo estava a saber sorrir. Depois começou a lamber-lhe um dos pés nus, o artelho encardido, e Myra pousou-lhe a mão no grande cachaço com muita doçura e determinação. Fomos feitos um para outro, Rambo. Agora temos de fugir antes que eles venham.

Maria Velho da Costa

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

JOSÉ AFONSO - «Murinheira»
(Instrumental)

Poet'anarquista

Ao Vivo no Coliseu
José Afonso e Amigos

«RAZÃO DE SER», POR LEMINSKI

«Razão de Ser»
Retrato de Leminski
Juliana Cristina da Silva/ Arte de Rua

RAZÃO DE SER

Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
Preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?

Paulo Leminski

sábado, 6 de junho de 2015

OUTROS CONTOS

«A Morte», por Thomas Mann.
«A Morte»
A Morte em Veneza/ Thomas Mann

525- «A MORTE»

10 de Setembro

Agora o Outono está aí, e o Verão não voltará; jamais o verei novamente...

O mar está cinzento e calmo, e cai uma chuva fina, triste. Quando eu a vi hoje pela manhã, dei adeus ao verão e saudei o outono, meu quadragésimo outono, que agora realmente se aproxima, inexoravelmente. E inexoravelmente ele trará aquele dia cuja data às vezes digo baixo para mim mesmo com um sentimento de devoção e de espantosa tranquilidade...

12 de Setembro

Passeei um pouco com a pequena Assunção. Ela é uma boa companhia, que fica calada, e apenas às vezes ergue para mim seus os olhos grandes e carinhosos.

Fomos pela beira da praia até Kronshafen, e voltamos oportunamente antes de encontrarmos mais do que uma ou duas pessoas.

Enquanto caminhávamos, alegrei-me com a visão da minha casa. Como a escolhi bem! Simples e cinza, vista desde a colina, cuja grama ora murcha e húmida e cujo caminho ora encharcado estão para além do mar cinzento. Atrás passa a estrada, e atrás dela ficam os campos. Mas eu não reparo nisso; eu reparo apenas no mar.

15 de Setembro

Esta solitária casa sobre a colina em frente ao mar sob o céu cinza é como uma lenda lúgubre, misteriosa; e assim eu a quero em meu último outono. Hoje à tarde, quando eu olhava pela janela do meu escritório, havia uma carroça que trazia mantimentos, o velho Franz ajudava a descarregar, e havia barulho e diversas vozes. Eu não posso dizer como isso me incomodou. Estremeci diante da minha própria reprovação: ordenei que semelhante coisa apenas de manhã cedo devesse acontecer, quando eu dormisse. O velho Franz disse apenas: “Às ordens, senhor Conde.” Mas seus olhos estavam tomados de medo e de dúvida.

Como ele poderia me entender? Ele nada sabe. Eu não quero que alterem a trivialidade e o aborrecimento nos meus últimos dias. Antes, eu temo que a morte possa ter algo de burguês e de ordinário em si. Ela deve ser para mim há muito algo estranho e peculiar no grande, sério, enigmático dia – em doze de Outubro...

18 de Setembro

Durante os últimos dias, eu não passeie, mas fiquei a maior parte do tempo na chaise-longue. Eu tampouco podia ler muito, porque meus nervos me atormentavam. Eu simplesmente fiquei taciturno e olhei para a chuva incansável, vagarosa.

Assunção veio seguidamente, e uma vez me trouxe flores, algumas magras e húmidas plantas que ela encontrou na praia; quando beijei a criança para agradecer, ela chorou, porque eu estava “doente”. De quão doloroso e inefável modo tocou-me seu meigo e triste afecto!

21 de Setembro

Eu olhei por muito tempo pela janela do meu escritório, e Assunção estava sentada sobre meus joelhos. Nós olhamos o cinza e distante mar, e atrás de nós no grande aposento, com porta alta, branca e com rígidos móveis, reinava o profundo silêncio. E enquanto eu afagava lentamente o macio cabelo da criança, que preto e singelo caia sobre seus frágeis ombros, eu pensava em minha vida caótica, confusa; pensei em minha juventude, que foi tranquila e protegida, em minhas andanças pelo mundo, e nos períodos breves, luminosos de minha felicidade.

Tu te lembras da encantadora e ardente afectuosidade da criatura sob o aveludado céu de Lisboa? Foi há doze anos que ela lhe deu a criança e morreu tendo ainda o braço em torno do seu pescocinho.

Ela tem os olhos escuros da mãe, a pequena Assunção; eles são apenas mais cansados e mais pensativos. Acima de tudo, ela tem sua boca, esta maciez infinita e, no entanto, um pouco amarga, que é mais bonita quando silencia e apenas de modo totalmente vago sorri.

Minha pequena Assunção! Se tu soubesses que eu tenho de te abandonar. Choraste por que estava eu “doente”? Ah, o que se pode fazer! O que se pode fazer com o doze de Outubro!...

23 de Setembro

Dias, em que eu posso novamente pensar e me perder em lembranças, são raros. Há quantos anos eu era capaz apenas de pensar no futuro, apenas para esperar por esse grande e estremecedor dia, pelo doze de Outubro de meus quarenta anos de vida!

Como será, apenas como será! Eu não temo, mas me parece que ele se aproxima devagar e angustiante, este doze de Outubro.

27 de Setembro

O velho doutor Gudehus veio de Kronshafen, ele veio de carroça pelo caminho da estrada e almoçou com Assunção e comigo.

“É necessário”, ele disse e comeu meia galinha, “que o senhor se movimente, Senhor Conde, muito movimento ao ar livre. Não leia! Não pense! Não medite! Eu o tomo realmente por um filósofo, he, he!”

Eu lhe dei os ombros e agradeci gentilmente seu esforço. Também para a pequena Assunção havia conselhos, e ele contemplou-a com seu sorriso forçado e constrangido. Ele teve de aumentar minha dose de bromo; talvez para que eu agora possa dormir um pouco mais.

30 de Setembro

O último setembro! Agora não falta muito. São três horas da tarde, e eu calculei quantos minutos ainda faltam para o começo do doze de Outubro. São 8460.

Eu não consegui dormir à noite, pois o vento soprava e o mar e a chuva ressoavam. Eu fiquei deitado e deixei o tempo passar. Pensar e meditar? Ah, não! Doutor Gudehus me toma por um filósofo, mas minha cabeça está muito fraca, e eu posso apenas pensar: a morte, a morte!

2 de Outubro

Estou profundamente comovido, e em minha emoção mistura-se um sentimento de triunfo. Às vezes, eu pensava sobre isso e alguém me olhava com medo e desconfiança, eu notei que alguns me tomavam por demente, então eu mesmo me examinei com desconfiança. Ah, não! Eu não estou demente.

Hoje eu li a história daquele imperador Friedrich, que alguém profetizou: morrerá “sub flore”. Ele evitava as cidades de Florença e Florentium, mas outrora mesmo assim ele foi a Florentium: e ele morreu. – Por que ele morreu?

Uma profecia é em si não importante; interessa se ela exerce poder sobre outrem. Mas se o consegue, já está provada e será uma realização. – Como? E é uma profecia que em mim mesmo se abre e se fortalece não valiosa como algo que vem de fora? E é o inabalável conhecimento do momento em que se morrerá mais duvidoso do que o do lugar?

Oh, há uma permanente aliança entre o ser humano e a morte! Tu podes aspirar em sua esfera com teu desejo e com tua convicção, tu podes puxá-la para ti, que ela caminhará para ti, para a hora em que tu pensas...

3 de Outubro

Frequentemente, quando meus pensamentos emanam de mim como um corpo d’água cinza, que de mim resplandecem imensamente, porque eles estão velados pela névoa, eu vejo algo como o nexo das coisas e penso conhecer a futilidade dos conceitos.

O que é suicídio? A morte voluntária? Mas ninguém morre involuntariamente. O renunciar à vida e a dedicação à morte decorrem indistintamente de uma fraqueza, e esta fraqueza é o constante efeito de uma doença ou do corpo ou da alma, ou de ambos. Não se morre antes de se estar de acordo com a morte...

Estou de acordo? Devo estar perfeitamente de acordo, pois penso que poderia ficar demente se eu não morresse em doze de Outubro...

5 de Outubro

Eu penso constantemente sobre isso e isso me ocupa totalmente. – Eu reflicto sobre isso, quando e de onde vem meu conhecimento, eu não estou em condições de dizer! Eu sabia com dezanove ou vinte anos que eu deveria morrer com quarenta anos, e um dia, como eu insistentemente me perguntava em que dia isso aconteceria, então eu soube também o dia!

E agora isso ele se aproxima e está tão perto, tão perto, que eu penso sentir o frio hálito da morte.

7 de Outubro

O vento se intensificou, o mar troava e a chuva batia no telhado. Eu não dormi à noite, fui lá para baixo, na praia, com minha capa de chuva e sentei-me sobre uma pedra.

Atrás de mim estava, na escuridão e na chuva, a colina com a casa cinza, na qual a pequena Assunção dormia, minha pequena Assunção! E diante de mim, o mar rolava sua turva espuma até meus pés.

Durante toda noite eu olhei para fora e pensei: assim deve ser a morte ou o após a morte: lá, além e longe, um certo mistério infinito e sombrio troava. Sobreviverá e dará frutos um pensamento, uma intuição, algo de mim que será eternamente ouvido a partir do rugido incompreensível?

8 de Outubro

......Eu quero agradecer à morte, pois ela virá em breve me atender, como se eu ainda pudesse esperar. Ainda três curtos dias de outono e acontecerá. Como eu estou curioso pelo último momento, o último de todos! Não deve ser um momento de encanto e de indizível doçura? Um momento do mais intenso prazer?

Ainda três curtos dias de outono e a morte caminhará aqui, em meu quarto, para mim – como ela se comportará? Ela me tratará como um verme? Ela me agarrará pelo pescoço e me estrangulará? Ou ela apanhará meu espírito com sua mão? – Eu a imagino grande e bela e de uma selvagem majestade!

9 de Outubro

Eu disse para Assunção, que estava sentada sobre meus joelhos: “Se eu me fosse em breve de algum modo, tu ficarias muito triste?” Então, ela aconchegou sua cabecinha em meu peito e chorou amargamente. – Senti um nó na garganta.

Aliás, tenho febre. Minha cabeça está quente e eu tremo de frio.

10 de Outubro

Ela estava em minha casa, nesta noite ela estava em minha casa! Eu não a vi e não a ouvi, e mesmo assim conversei com ela. É cómico, mas ela se comporta como um dentista! – “Será melhor se nós fizermos logo um acordo”, ela me disse. Mas eu não queria e lutei contra. Com poucas palavras mandei-a embora.

“Será melhor se nós fizermos logo um acordo!” Como isso soou! Foi-me profundamente desagradável! Tão austero, tão enfadonho, tão burguês! Nunca conheci um sentimento de tão fria e sarcástica decepção.

11 de Outubro (11 horas da noite)

Compreendo-a? Oh! Acredite em mim, eu a compreendo!

Há uma hora e meia, quando eu estava sentado em meu quarto, o velho Franz veio até mim; ele tremia e soluçava. “A senhorita!”, ele gritou, “a criança! Ah, venha rápido, senhor!” – E eu fui rapidamente.

Eu não chorei, e apenas um frio arrepio estremeceu-me. Ela estava deitada em sua caminha e seus cabelos pretos emolduravam seu pálido e sofrido rosto. Eu me ajoelhei ao seu lado e nada fiz e nada pensei. – O doutor Gudehus chegou.

“Foi uma insuficiência cardíaca”, ele me disse e anuiu como alguém que não estivesse surpreendido. Esse tolo e trapalhão age como se soubesse!

Eu, mas – eu a compreendi? Oh, quando eu estava sozinho com ela – lá fora chuva e mar ressoavam, e o vento uivava na chaminé – eu bati na mesa, em um momento tornou-se claro para mim! Por longos vinte anos eu me aproximei da morte, do dia que começará em uma hora, e profundamente dentro de mim algo era sabido, algo oculto era sabido, eu não podia desamparar essa criança. Eu não poderia morrer depois da meia-noite, mas isso deveria ser! Eu deveria novamente mandá-la embora quando ela chegasse: mas ela foi primeiro para a criança porque ela deveria obedecer meu conhecimento e minha crença. Eu mesmo coloquei a morte em sua caminha, eu a matei, minha pequena Assunção? Ah, essas são palavras pífias e miseráveis para coisas subtis e misteriosas!

Adeus, adeus! Talvez eu reencontre um pensamento, uma intuição, lá fora. Então veja: o ponteiro do relógio se move, e a lâmpada que ilumina seu doce rosto logo estará apagada. Eu seguro sua mão pequena, fria, e aguardo. Logo ela caminhará em minha direcção, e eu apenas anuirei e fecharei os olhos quando a ouvir dizer: “Será melhor se nós fizermos logo um acordo”...

Thomas Mann

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(6 de Junho de 1991, morre o saxofonista de jazz norte-americano, Stan Getz)

STAN GETZ QUARTET- «Navy Blue»

Poet'anarquista

Stan Getz Quartet
Quarteto Norte-Americano

sexta-feira, 5 de junho de 2015

CARTOON versus QUADRAS

Descubra as Diferenças
HenriCartoon

«DESCUBRA AS DIFERENÇAS»

- Fedelho, seria uma grande cruz
E a desgraça prás tuas ovelhas,
Se eu te fizesse o que fez Jesus
Ao benfa Luís Filipe Orelhas…

- Olha, Tortas… sem comparação!
- Ah, sim?... podes dizer porquê??
- Jesus é um treinador campeão…
Nós, maus políticos como se vê!!

POETA

OUTROS CONTOS

«Soneto da Carta», conto poético por Federico García Lorca.

«Soneto da Carta»
A Carta/ Frans Wesselman

524- «SONETO DA CARTA»

Amor, que a vida em morte em mim convertes,
espero em vão tua palavra escrita
e, flor a se murchar, meu ser medita
que se vivo sem mim quero perder-te.

É infinito o ar. A pedra inerte
nada sabe da sombra e não a evita.
Íntimo, o coração não necessita
do congelado mel que a lua verte.

Por ti rasguei as veias às dezenas,
tigre e pomba, cobrindo-te a cintura
com luta de mordiscos e açucenas.

Tuas palavras encham-me a loucura
ou deixa-me viver minha serena
e infinda noite da alma, escura, escura.

Federico García Lorca

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(5 de Junho de 2002,  morre o baixista e co-fundador da banda punk Ramones, 
Dee Dee Ramone)

THE RAMONES - «Poison Heart»

Poet'anarquista

CORAÇÃO ENVENENADO

Ninguém pensou que este sobreviveria
Criança infelizes, sempre a um passo atrás
Prendo-te em um sonho, e nunca a deixarei escapar
Nunca te deixarei gargalhar ou sorrir, você não.

Eu só quero ir embora deste mundo
Pois todos têm um coração envenenado
Eu só quero ir embora deste mundo
Pois todos têm um coração envenenado

Fazendo amizades com um mendigo em farrapos.
Cheio de sorrisos e gentilezas, realmente me comove
Há perigo em cada esquina mas estou indo bem
Andando pelas ruas tentando esquecer o passado

Bem, só quero ir embora deste mundo
Pois todos têm um coração envenenado
Eu só quero ir embora deste mundo
Pois todos têm um coração envenenado
Um coração envenenado, um coração envenenado, um coração envenenado.. yeah!

Sabe, a vida cobra mesmo o seu preço
E a reação corajosa de um poeta é se encontrar
Há muita confusão perante meus olhos,
Mas nada mais me perturba e este aqui vai perdurar

Eu só quero ir embora deste mundo
Pois todos têm um coração envenenado
Eu só quero ir embora deste mundo
Pois todos têm um coração envenenado
Eu só quero ir embora deste mundo
Pois todos têm um coração envenenado
Um coração envenenado, um coração envenenado, um coração envenenado
Um coração envenenado, um coração envenenado, um coração envenenado, um coração envenenado

The Ramones
Banda Norte-Americana

quinta-feira, 4 de junho de 2015

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

JOSÉ AFONSO - «O País vai de Carrinho»

Poet'anarquista

O PAÍS VAI DE CARRINHO

O país vai de carrinho
Vai de carrinho o país
Os falcões das avenidas
São os meninos nazis

Blusão de cabedal preto
Sapato de bico ou bota
Barulho de escape aberto
Lá vai o menino-mota

Gosta de passeio em grupo
No mercedes que o papá
Trouxe da Europa connosco
Até à Europa de cá

Despreza a ralé inteira
Como qualquer plutocrata
Às vezes sai para a rua
De corrente e de matraca

Se o Adolfo pudesse
Ressuscitar em Abril
Dançava a dança macabra
Com os meninos nazis

Depois mandava-os a todos
Com treze anos ou menos
Entrar na ordem teutónica
Combater os sarracenos

Os pretos, os comunistas
Os Índios, os turcomanos
Morram todos os hirsutos!
Fiquem só os arianos !

Chame-se o Bufallo Bill
Chegue aqui o Jaime Neves
Para recordar Wiriamu,
Mocumbura e Marracuene

Que a cruz gamada reclama
e novo o Grão-Capitão
Só os meninos nazis
Podem levar o pendão

Mas não se esqueçam do tacho
Que o papá vos garantiu
Ao fazer voto perpétuo
De ir prá puta que o pariu

José Afonso
Músico, Cantor e Compositor Português

OUTROS CONTOS

«Homenagem ao Papagaio Verde», por Jorge de Sena.

«Homenagem ao Papagaio Verde»
O Papagaio Verde/ Van Gogh

523- «HOMENAGEM AO PAPAGAIO VERDE»

Um dia, quando, arquejante da rua e das escadas, cheguei à varanda, o Papagaio Verde estava inerte no canto da gaiola, com o bico pousado no chão. Peguei-lhe, aspergi-o com água, sacudi-o, com a mão auscultei-o longamente. Não morrera ainda. Levei-o para a sala, deitei-o nas almofadas, puxei a cadeira para junto do piano, e, enquanto com os dedos da mão esquerda lhe apertava a pata, toquei só com a direita a música de que ele gostava mais.

As lágrimas embaciavam-me as teclas, não me deixavam ver distintamente. Senti que os dedos dele apertavam os meus. Ajoelhei-me junto da cadeira, debruçado sobre ele, e as unhas dele cravaram-se-me no dedo. Mexeu a cabeça, abriu para mim um olho espantado, resmoneou ciciadas algumas sílabas soltas.

Depois, ficou imóvel, só com o peito alteando-se numa respiração irregular e funda. Então abriu descaidamente as asas e tentou voltar-se. Ajudei-o, e estendeu o bico para mim. Amparei-o pousado no braço da cadeira, onde as patas não tinham força de agarrar-se. Quis endireitar-se, não pôde, nem mesmo apoiado nas minhas mãos. Voltei a deitá-lo nas almofadas, apertou-me com força o dedo na sua pata, e disse numa voz clara e nítida, dos seus bons tempos de chamar os vendedores que passavam na rua:

– Filhos da puta! – Eu afaguei-o suavemente, chorando, e senti que a pata esmorecia no meu dedo. Foi a primeira pessoa que vi morrer.

Jorge de Sena

quarta-feira, 3 de junho de 2015

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(3 de Junho de 2009, morre a cantora norte-americana, «Rainha do Blues», Koko Taylor)

KOKO TAYLOR - «I'm a Woman»

Poet'anarquista

EU SOU UMA MULHER

Fale - Oh sim, oh, sim
Tudo,tudo,tudo ficará bem, oh sim

Quando eu era uma menina de apenas doze anos de idade
Não foi possível fazer nada
Para salvar meu cachorro que foi embora
Minha mãe me disse
O dia em que foi cultivado
Ela disse "Cante o blues criança, Cante a a partir de agora".

Eu sou uma mulher,
Oh sim
Eu sou uma mulher, eu sou uma bola de fogo
Eu sou uma mulher, eu posso fazer amor com um crocodilo
Eu sou uma mulher, eu posso cantar o blues
Eu sou uma mulher, eu posso mudar o antigo para o novo
Soletre m u l h e r
Oh sim
Isso significa que eu estou crescida

Eu sou uma mulher, eu sou um vento impetuoso
Eu sou uma mulher, eu posso cortar pedra com um alfinete
Eu sou uma mulher, eu sou uma fabricante de amor
Eu sou uma mulher, você sabe eu sou uma agitadora da terra

Eu sou uma mulher, eu sou um vento impetuoso
Eu sou uma mulher, eu posso cortar pedra com um alfinete
Eu sou uma mulher, conheço as minhas coisas
Eu sou uma mulher, eu nunca tive o suficiente

Vou lá embaixo, atrás do sol
Eu vou fazer algo por você, que nunca foi feito
Eu vou segurar o relâmpago, com a palma da minha mão
Agitar as mãos com o diabo, fazê-lo rastejar na areia

Eu sou uma mulher, oh sim
Eu sou uma mulher
Eu sou uma bola de fogo
Eu sou uma mulher
Eu posso fazer amor com um crocodilo
Eu sou uma mulher
Eu sou uma fabricante de amor
Eu sou uma mulher
Você sabe eu sou uma agitadora da terra
OH oh oh oh
Eu sou uma mulher

Koko Taylor
Cantora Norte-Americana

POEMA DE ALLEN GINSBERG

«Arte é Ilusão, pois eu não Ajo»
Poema de Allen Ginsberg

ARTE É ILUSÃO, POIS EU NÃO AJO

Fico ou Parto – com constante alegria
Meus pensamentos, embora céticos, são sagrados
Santa prece para o conhecimento ou puro facto.

Então enceno a esperança de que posso criar
Um mundo vivo em torno de meus olhos mortais
Um triste paraíso é o que imito
E anjos caídos cujas asas perdidas são suspiros.

Neste estado não mundano em que me movimento 
Minha Fé e Esperança são diabólica moeda corrente
Em mundos falsificados, cunho pequenos donativos
Em torno de mim, e troco minha alma por amor.

Allen Ginsberg

OUTROS CONTOS

«A Natividade Relutante», por João de Aguiar.

«A Natividade Relutante»
Conto de João Aguiar

522- «A NATIVIDADE RELUTANTE»

À porta da Sala fui encontrar o Supervisor, rodeado pelos seus Técnicos. Aqueles rostos tensos, angustiados, confirmaram o meu pressentimento: havia crise.

Mal me viu, o Supervisor correu ao meu encontro.

– Ainda bem que veio, é a nossa última esperança!

– O que se passa? Algum contratempo?

Ele dominava-se, mas era evidente que estava à beira do pânico.

– Contratempo? Se fosse só um contratempo... mas é bem pior. Pode muito bem ser uma catástrofe!

Indicou a porta da Sala, que se mantinha fechada, e acrescentou:

– O Processo foi interrompido.

Como assim, perguntei. Isso nunca tinha acontecido, era uma coisa inconcebível. O Supervisor encolheu os ombros e explicou:

– Ele abandonou a Câmara de Transformação e recusa-se a voltar para lá.

Não percebi logo o significado da frase.

– Não quer voltar? Quer dizer que...

Gravemente, o Supervisor fez um aceno afirmativo: – Recusa-se a nascer.

– Como? (...)

João Aguiar

terça-feira, 2 de junho de 2015

CARTOON versus QUADRAS

Os Bons Ares da Madeira
HenriCartoon

«OS BONS ARES DA MADEIRA»

- Meu grande amigo Fedelho,
Podes vir de visita à Madeira…
Aqui ninguém come coelho,
 E serás recebido à maneira!

 - Caríssimo Pastel, irei sim
Provar a ementa renovada…
Essa casa sem ter «jardim»,
Fica muito mais arejada!!

POETA

ESPECIAL MÚSICAS DO MUNDO

E a música especial de hoje é...
(2 de Maio de 2008, morre o guitarrista norte-americano, considerado um dos criadores do «Rock’n’Roll», Bo Diddley)

BO DIDDLEY - «I'm a Man»

Poet'anarquista

EU SOU UM HOMEM

Oh yeah, oh yeah.
Tudo vai ficar bem esta manhã.

Agora, quando eu era menino,
Na idade de cinco anos.
Minha mãe disse que eu seria,
O maior homem vivo.
Mas, agora eu sou um homem,
Eu fiz 21.
Eu quero que você acredite em mim, mel,
Nós estamos tendo muita diversão.

Eu sou um homem,
Um feitiço
Bem dentro do homem.
Uma criança
Aquele mágico menino masculinizado.

Eu sou um homem, eu sou um homem maduro.
Eu sou um homem, eu sou uma pedra rolando.
Eu sou um homem, eu sou um Hoochie Coochie Man.

Sentado do lado de fora,
Era só eu e meu companheiro.
Eu fiz a mudança,
Ele veio com duas horas de atraso.

Eu sou um homem
Um feitiço
Bem dentro do homem.
Uma criança
Aquele mágico menino masculinizado.

Eu sou um homem, eu sou um homem maduro.
Eu sou um homem, eu sou uma pedra rolando.
Eu sou um homem, eu sou um homem maduro.

Oh bem, oh bem...

Bo Diddley
Músico Norte-Americano

«XÁCARA», POR GLÓRIA DE SANT' ANNA

«Xácara»
Poema de Glória de Sant' Anna

XÁCARA

Na poeira meiga do caminho morno,
aquela negrinha,

(Quem era
por sob
o cílio suspenso
e o rosto sem nome?)

Na luz inclinada da tarde macia,
aquela negrinha todos os dias.

(Quem era
por sob
as densas ramadas
até lá longe? )

Na tarde cansada,
aquela negrinha…

(Quem foi o m’kunha
que a vestiu bonita
e fez de seus olhos
uma coisa antiga ?)

Aquela negrinha na tarde cansada,
correndo infantil de cílio suspenso,
de chita vermelha, de face voltada,
era mais feliz
do que eu penso.

Glória de Sant’Anna

OUTROS CONTOS

«Há Lugar para Dois», por Marquês de Sade.

«Há Lugar para Dois»
Ilustração/ Milo Manara

521- «HÁ LUGAR PARA DOIS»

Uma belíssima burguesa da rua Saint-Honoré, de aproximadamente vinte e dois anos, gorduchinha e roliça, carnes as mais viçosas e apetitosas, todas as formas modelares ainda que um pouco cheias, e que acrescentava a tão fartos encantos presença de espírito, vivacidade, e gosto o mais aguçado por todos os prazeres que lhe proibiam as rigorosas leis do himeneu, decidira, havia quase um ano, arranjar dois ajudantes para seu marido que, sendo velho e feio, a ela não somente desagradava muito, como também cumpria mal, se não raramente, os deveres que, talvez, com um pouco mais de desempenho, poderiam acalmar a exigente Dolmène – assim se chamava nossa bela burguesa.

Nada mais bem combinado do que os encontros marcados com esses dois amantes: Des-Roues, jovem militar, ficava normalmente das quatro às cinco horas da tarde e das cinco e meia às sete chegava Dolbreuse, jovem negociante com o rosto mais bonito que se pode ver. Era impossível fixar outros momentos; eram os únicos em que a Sra. Dolmène estava tranqüila: de manhã, era preciso estar na loja e, à tarde, também tinha de aparecer por lá algumas vezes, ou então o marido voltava, e deviam falar de seus negócios. Por sinal, a Sra. Dolmène havia confidenciado a uma de suas amigas que ela gostava muito que os momentos de prazer se sucedessem assim muito próximos um do outro: a chama da imaginação não se apagava, ela assegurava; desse modo, nada mais temo do que passar de um prazer a outro; não era difícil retomar a ação, pois a Sra. Dolmène era uma criatura encantadora que calculava ao máximo todas as sensações do amor; pouquíssimas mulheres conheciam-nas como ela própria e, em virtude dos seus talentos, reconhecera que, depois de muito meditar, dois amantes valiam muito mais do que um; com respeito à reputação, era quase a mesma coisa, um encobria o outro; poderiam se equivocar, poderia ser sempre o mesmo a entrar e sair várias vezes durante o dia, e com relação ao prazer, que diferença! A Sra. Dolmène, que temia em particular a gravidez, bem segura de que seu marido jamais com ela cometeria a loucura de lhe arruinar a cintura, havia igualmente imaginado que, com dois amantes, havia muito menos risco, quanto ao que temia, do que com um, porque, dizia ela, na condição,de excelente anatomista, dois frutos se destruíam mutuamente.

Certo dia a ordem fixada nos encontros veio a se alterar, e nossos dois amantes, que nunca se tinham visto, conheceram-se de maneira engraçada, conforme mostraremos. Des-Roues foi o primeiro, mas chegara muito tarde, e como se o diabo tivesse se intrometido, Dolbreuse, que era o segundo, chegou um pouco mais cedo.

O leitor inteligente percebe de imediato que, da combinação desses dois pequenos erros, deveria acontecer, infelizmente, um encontro infalível: e assim sucedeu. Porém, mencionaremos como isso se deu e, se possível, ocupemos-nos desse assunto com toda decência e moderação que tal assunto já por si muito licencioso, exige.

Por obra de um capricho bastante bizarro – mas tão comum entre os homens – nosso jovem militar, cansado do papel de amante, quis, por uns momentos, representar o da amante; em lugar de ser amorosamente abraçado por sua divindade, quis, por sua vez, abraçá-la: em resumo, o que está em baixo, coloca-o em cima, e, por essa inversão de posição, inclinada sobre o altar onde normalmente se oferecia o sacrifício, era Sra. Dolmène que, nua como a Vénus calipígia, e encontrando-se estendida sobre seu amante, apresentava, diante da porta do quarto onde se celebravam os mistérios, o que os gregos adoravam com devoção na estátua que acabamos de mencionar, essa parte mui bela que, em suma – sem sair à procura de exemplos tão remotos – encontra tantos adoradores em Paris.

Tal era a atitude quando Dolbreuse, acostumado a entrar sem dificuldade, chega cantarolando, e vê por um ângulo o que uma mulher verdadeiramente honesta não deve, segundo dizem, jamais mostrar.

O que teria causado grande prazer a muitas pessoas fez com que Dolbreuse recuasse.

- O que vejo? – exclamou -… Traidora… é isso que me reservas?

A Sra. Dolmène que, naquele momento, se encontrava numa dessas crises em que uma mulher age infinitamente melhor do que raciocina, resolve mostrar-se audaciosa:

- Que diabo tens tu, – diz ela ao segundo Adónis – sem deixar de se entregar ao outro – não vejo nisso nada que te cause muito pesar; não nos perturbes, meu amigo, e contenta-te com o que te resta; como bem podes notar, há lugar para dois.

Dolbreuse, não conseguindo deixar de rir-se do sangue-frio de sua amante, pensou que o mais simples era seguir o conselho dela, não se fez de rogado, e dizem que os três lucraram com isso.

Marquês de Sade

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(2 de Junho de 2006, morre o músico norte-americano, membro dos Grateful Dead, Vince Welnick)

GRATEFUL DEAD - «Friend of the Devil»

Poet'anarquista

AMIGO DO DIABO

Eu saí de Reno
Eu estava me arrastando por vinte horas
Não consegui dormir a noite passada
Até a manhã chegar

Comecei a correr
Mas tomei meu tempo
Um amigo do diabo é um amigo meu
Se eu chegar em casa antes do amanhecer
Eu só poderia dormir um pouco à noite

Correndo para o diabo, querida
Ele me emprestou vinte dólares
Eu passei a noite em Utah
Numa caverna no topo da colina

Comecei a correr
Mas tomei meu tempo
Um amigo do diabo é um amigo meu
Se eu chegar em casa antes do amanhecer
Eu só poderia dormir um pouco à noite

Eu corri para baixo para a barragem
Mas o diabo me pegou lá
Ele tomou meus vinte dólares
E desapareceu no ar

Comecei a correr
Mas tomei meu tempo
Um amigo do diabo é um amigo meu
Se eu chegar em casa antes do amanhecer
Eu poderia dormir um pouco à noite

Tenho duas razões
Pelas quais eu choro toda noite solitária
A primeira delas se chama doce Anne Marie
E ela é a alegria do meu coração

A segunda, é uma prisão, querida
O xerife está na minha pista
E se ele me apanhar
Eu vou passar minha vida na prisão

Tenho uma esposa em Chino, querida
E outra em Cherokee
A primeira me diz que tem um filho meu
Mas ele não se parece comigo

Comecei a correr
Mas tomei meu tempo
Um amigo do diabo é um amigo meu
Se eu chegar em casa antes do amanhecer
Eu poderia dormir um pouco à noite

Grateful Dead
Banda Norte-Americana

segunda-feira, 1 de junho de 2015

POESIA - MATIAS JOSÉ

«Santo Contestável»
D. Nuno Álvares Pereira/ Henrique Tigo

SANTO CONDESTÁVEL

Dom Nuno, nobre guerreiro lusitano
Conhecido como Santo Condestável…
Génio militar, de bravura inigualável,
E uma força além do que é humano!

Combatendo em número inferior
Os inimigos do reino de Castela,
O maior guerreiro português revela
Coragem, e inteligência superior!

De desempenho fundamental
Na crise que fustigava a Nação…
Foi no reinado d' El Rei D. João,
Estratega como não se viu igual!

Nos Lusíadas lhe faz referência
Camões, ao chamar «forte Nuno»…
Não podia ser mais oportuno
Ao inscrevê-lo com tal deferência!

P’la Pátria, lutando em defesa
Dos interesses do povo português…
Foi nomeado pelo que então fez,
Patrono da Infantaria Portuguesa!!

Matias José

Brasão d' Armas
Nuno Álvares Pereira

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(Aniversariante Ron Wood, guitarrista dos Rolling Stones)

THE ROLLING STONES - «Simpathy for the Devil»

Poet'anarquista

SIMPATIA PELO DIABO

Por gentileza me permita que eu me apresente
Sou um homem de fortuna e requinte
Estou por aí já faz alguns anos
Roubei as almas e a fé de muitos homens

E eu estava por perto quando Jesus Cristo
Teve seu momento de duvida e dor
Fiz a maldita questão de garantir que Pilatos
Lavasse suas mãos e selasse seu destino

Prazer em lhe conhecer
Espero que adivinhe o meu nome
Mas o que lhes intrigam
É a natureza do meu jogo

Eu aguardei em São Petersburgo
Quando percebi que era hora para mudanças
Matei o Czar e seus ministros
Anastácia gritou em vão

Rodei com um tanque
Usei a patente de general
Quando a Blitzkrieg* urgiu
E os corpos apodreciam

Prazer em lhe conhecer
Espero que adivinhe o meu nome
Mas o que lhe intrigam
É a natureza do meu jogo

Assisti com orgulho
Enquanto seus reis e rainhas
Lutaram por dez décadas
Pelos deuses que eles criaram

Gritei bem alto
"Quem matou os Kennedys? "
Quando afinal de contas
Foi apenas você e eu

Permita-me por gentileza me apresentar
Sou um homem de fortuna e requinte
Deixei armadilhas para ministreis
Que morreram antes de chegarem a Bombaim

Prazer em lhe conhecer
Espero que adivinhem o meu nome
Mas o que lhes intrigam
É a natureza do meu jogo

Prazer em lhe conhecer
Espero que adivinhem o meu nome
Mas o que lhes confunde
É a natureza do meu jogo

Assim como todo policial é um criminoso
E todos os pecadores Santos
Como cara é coroa
Basta me chamar de Lúcifer
Pois estou precisando de alguma restrição

Então se me conhecer
Tenha alguma delicadeza
Tenha a simpatia, e algum requinte
Use toda sua educação bem aprendida
Ou deitarei sua alma para apodrecer

Prazer em lhe conhecer
Espero que adivinhem o meu nome, oh yeah
Mas o que lhes intrigam
É a natureza do meu jogo

Woo, quem
Oh yeah, se abaixe
Oh yeah
Oh yeah!

Diga-me baby, qual é o meu nome
Diga-me doçura, qual é o meu nome
Diga-me baby, qual é o meu nome
Lhe digo uma vez, é sua culpa

Oh, quem
woo, woo
Woo, quem
Woo, woo
Woo, who, quem
Woo, who, quem
Oh, yeah

Qual é o meu nome
Diga-me, baby, qual é o meu nome
Diga-me, doçura, qual é o meu nome

The Rolling Stones
Banda Britânica

OUTROS CONTOS

«O Herói do Conto», por Camilo Castelo Branco.

«O Herói do Conto»
Don Quixote/ Honoré Daumier

520- «O HERÓI DO CONTO»

Calisto Eloy de Silos e Benevides de Barbuda, morgado da Agra de Freimas, tem hoje quarenta e nove anos, por ter nascido em 1815, na aldeia de Caçarelhos, termo de Miranda.

Seu pai, também Calisto, era cavaleiro fidalgo com filhamento, e décimo sexto varão dos Barbudas da Agra. Sua mãe, D. Basilissa Escolástica, procedia dos Silos, altas dignidades da igreja, comendatários, sangue limpo, já bom sangue no tempo do senhor rei D. Affonso I, fundador de Miranda.

Fez seus estudos de latinidade no seminário bracharense o filho único do morgado da Agra de Freimas, destinando-se a doutoramento in utroque jure. Porém, como quer que o pai lhe falecesse, e a mãe contrariasse a projetada formatura, em razão de ficar sozinha no solar de Caçarelhos, Calisto, como bom filho, renunciou à carreira das letras, deu-se ao governo da casa algum tanto, e muito à leitura da copiosa livraria, parte de seus avós paternos, e a maior dos doutores em cânones, cônegos, desembargadores do eclesiástico, catedráticos, chantres, arcediagos e bispos, parentela ilustríssima de sua mãe.

Casou o morgado, ao tocar pelos vinte anos, com sua segunda prima D. Teodora Barbuda de Figueroa, morgada de Travanca, senhora de raro aviso, e muito apontada em amanho de casa, e ignorante mais que o necessário para ter juízo.

Unidos os dois morgadios, ficou sendo a casa de Calisto a maior da comarca; e, com o rodar de dez anos, prosperou a olho, tendo grande parte neste incremento a parcimônia a que o morgado circunscreveu seus prazeres, e, por sobre isto, o gênio cainho e apertado de D. Teodora.

Remenda teu pano, chegar-te-á ao ano, dizia a morgada de Travanca; e, aferrada ao seu adágio predileto, remendava sempre, e cerzia com perfeição justamente admirada entre a família, e falada como exemplo na área de quatro léguas, ou mais.

Enquanto ela recortava o fundilho ou apanhava a malha rota da pinga, o marido lia até noite velha, e adormecia sobre os in-folios, e acordava a pedir contas à memória das riquezas confiadas.

Os livros de Calisto Eloy eram cronicões, histórias eclesiásticas, biografias de varões preclaros, corografias, legislação antiga, forais, memórias da academia real da historia portuguesa, catálogos de reis, numismática, genealogias, anais, poemas de cunho velho etc.

Respeito a idiomas estranhos, dos vivos conhecia o francês muito pela rama; porém, o latim falava-o como língua própria, e interpretava correntemente o grego.

Memória pronta, e cultivada com aturado e indigesto estudo, não podia sair-se com menos de um erudito em história antiga, e repositório de noticias miúdas sobre fatos e pessoas de Portugal.

Consultavam-nos os sábios transmontanos como juiz indeclinável em decifrar cipos e inscrições, em restabelecer épocas e sucessos controvertidos por autores contraditórios.

Sobre castas e linhagens, coisa que ele tirasse a limpo, não dava pega a duvida nenhuma. Ia ele desenterrar geração já sepultada há setecentos anos, e provar que, na era de 1201, D. Fuas Mendo casara com a filha de um mesteiral, e D. Dorzia se havia sujado casando mofinamente com um pajem da lança de seu irmão D. Paio Ramires.

Farpeados pela viperina língua dele, os fidalgos provincianos retaliavam quanto podiam a prosápia dos Benevides, propalando que naquela família se gerara um clérigo grande femeeiro, beberrão e lambaz, a quem o santo arcebispo D. Frei Bartolomeu dos Mártires, uma vez, perguntara que nome havia; e, como quer que o padre respondesse Onofre de Benevides, o arcebispo acudira dizendo: “melhor vos acertará com o nome, segundo a vida que fazeis, quem vos chamará de bene bibis e male vivis”. O remoque, talvez por ser de santo, era medianamente engraçado e pouco para afligir; assim mesmo Calisto Eloy, à conta desta injúria dos fidalgos comarcões, tanto lhes esgravatou nas
gerações, que descobriu radicalmente serem quase todas de má casta.

É supérfluo dizer-se a qual doutrinação política pendia o ânimo do morgado da Agra de Freimas. Estava com a decisão das cortes de Lamego. Fizera-se nelas, e cuidava ter assistido, em 1145, àquele congresso mitológico, e ter conclamado com Gonçalo Mendes da Maia, o Lidador, e com Lourenço Viegas, o Espadeiro: Nos liberi summus, rex noster líber est. Todavia, se assim fossem todos os doutrinários políticos, a gente apodrecia na mais refestelada paz, e supina ignorância do andamento da humanidade.

Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda queria que se venerasse o passado, a moral antiga como o monumento antigo, as leis de João das Regras e Martim d'Ocem, como o mosteiro da Batalha, as ordenações manuelinas como o convento dos Jerônimos.

O mal que daqui surdia ao gênero humano, a falar verdade, era nenhum. Este bom fidalgo, se lhe tirassem o sestro de esmiuçar desdouros nas gerações das famílias patrícias, era inofensiva criatura. Deste senão, a causa foi um chamado Livro-Negro, que herdara de seu tio avô Marcos de Barbuda Tenazes de Lacerda Falcão, genealógico pavoroso, o qual gastara sessenta dos oitenta anos vividos, a coligir borrões, travessias, mancebias, adultérios, coitos danados, e incestos de muitas famílias naquelas satânicas costaneiras, denominadas Livro Negro das Linhagens de Portugal.

Em suma, Calisto era legitimista quieto, calado, e incapaz de impecer a roda do progresso, contanto que o progresso não lhe entrasse em casa, nem o quisesse levar consigo.

Prova cabal de sua tolerância foi ele aceitar em 1840 a presidência municipal de Miranda. Na primeira sessão camarária falou de feito e jeito que os ouvintes cuidavam estar escutando um alcaide do século xv levantado do seu jazigo da catedral. Queria ele que se restaurassem as leis do foral dado a Miranda pelo monarca fundador. Este requerimento gelou de espanto os vereadores; destes, os que puderam degelar-se, riram na cara do seu presidente, e emendaram a galhofa dizendo que a humanidade havia já caminhado sete séculos depois que Miranda tivera foral.

- Pois se caminhou, replicou o presidente, não caminhou direita. Os homens são sempre os mesmos e quejandos; as leis devem ser sempre as mesmas.

- Mas... – retorquiu a oposição Il lustrada –, o regime municipal expirou em 1211, Sr. presidente! V. Ex.ª não ignora que há hoje um código de leis comuns de todo o território português, e que desde Afonso II se estatuíram leis gerais. V. Ex.ª de certo leu isto...

- Li, atalhou Calisto de Barbuda, mas reprovo!

- Pois seria útil e racional que V. Ex.ª aprovasse.

- Útil a quem? perguntou o presidente.

- Ao município, responderam.

- Aprovem os Srs. vereadores, e façam obra por essas leis, que eu despeço-me disto. Tenho o governo de minha casa, onde sou rei e governo, segundo os forais da antiga honra portuguesa.

Disse; saiu; e nunca mais voltou à Câmara.

Camilo Castelo Branco

domingo, 31 de maio de 2015

CARTOON versus SONETO

Sem Provas Dadas
HenriCartoon

«SEM PROVAS DADAS»

- Estudar?...  seca ter que ler
Para os exames nacionais…
Avô, que pode acontecer
Se não fizer provas globais??

- Ordem de prisão, meu menino…
Sem as provas, estás perdido!
Vê o que sucedeu ao Isaltino,
Mesmo sem elas, foi detido...

- Ouvi falar que esteve preso,
Com provas, tudo aprovado,
E num repente saiu ileso...

- Isso foi antes de ser ilibado...
Agora diz estar repeso
Porque nada foi provado!!

POETA