sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

OUTROS CONTOS

«O Impotente», por Nuno Bragança.

«O Impotente»
A Impotência/ J. J. Tales

733- «O IMPOTENTE»

Eram uma vez duas e um quarto da manhã à porta do dancing «o Canário».
     
  Pela Cidade ia conspiração, de luz acesa e janela aberta, tudo euforia de civis de civismo e baixas patentes descomandáveis. E eu vinha duma sessão dessa música. Horas longas de tabaco e copos de água inúteis, que me traziam ensopado em fúrias lentas. Por isso, a finais de reunião, entrara pensando «O Canário» com intensidades de arrastar comigo um subversor muito alto e magro.
      
Ele suava nome, Sancho. E porque era enorme e quase famigerado avançou adiante. Entrámos como um iate de escaler à arreata.
      
Sentados no bar, o Sancho encolheu o nariz.
     
  «Loca de burgueses», disse. Mas sorria e afagava-me um ombro. Talvez para lembrar que, de sua ideia expressa minutos antes, tínhamos noite ganha. O que, na minha inconfessa, significava irmos perder comboios sucessivos de qualquer mudança válida nos ritmos de ser gente e em País.
      
Eu pus olhar a farejar a sala até que parou de pata no ar. Peguei no copo e saltei do bar sem prevenir o Sancho por coisa diferente dum sorriso manso.
      
Fui sentar-me, grupo descortinado num recanto, e perguntei dez coisas para meter no meio delas «Onde pára a Zana?». «Olhe-a», disse um rapaz pintor.
      
Havia mesmo ao pé da nossa mesa um par em dança lenta, e era ela.

Nunca eu viria a saber qual homem segurava tal mulher. Dois segundos depois de a ter olhado viu-me, e sorriu-se em contraponto.

      Estou sentado num dancing e tenho a mão ainda em volta de uma bebida de pressão de ar.
      Às vezes, acontece num sítio destes e em hora assim que o pecado original se derreteu num shaker, acabando-se a mortalidade infantil e a Polícia. Sinto essa harmonia. Por cima dos ombros cansados, como um xaile de leveza dum suspiro de gato. Pelas luzes das mesas e fumo nos olhos trotam as mais certeiras notas de piano.
      
Ando a treinar-me para conspirador, e até deixei um Sancho no bengaleiro. Permitam-me, porém: que arregace outro género de mangas e talvez a minha noite não morra sem uma pitada de seriedade.
      
Há exactamente dez segundos que perguntei dez coisas. Ouvi então um homem de pincéis que me disse «Olhe-a», e atingiu ao fazê-lo a sua razão, de ter nascido, crescido e hesitado, pintadamente. 

A partir desse instante em que me disse «Olhe-a» (com a autoridade de ser
pessoa viva, que pintava) a missão dele no mundo, pareceu-me, atingiu o fim. E eu sorri das telas todas que porventura ainda pintaria.

Tal os anjos, à gargalhada por cada dinossauro nado após a Evolução ter decidido despedir esse bicho.
      
Com os olhos na mulher encosto-me aos acordes do pianista Epaminondas, como quem se apoia às cordas dum ringue. Ela vê-me e nem me deixa o tempo de pensar: começa sorrindo, em contraponto.
      
Larga imediatamente o tipo - «estou cansada» - e vai sentar-se sem olhar. Sem me deter, toco-lhe dois dedos num ombro - «Olá Zana» -; e através da sala até chegar de novo ao bar.
      
Que saí daquela mesa para outra faina senão sentar-me outra vez chez Sancho: nenhum dos circunstantes adivinharia.
      
Portanto, uma fracção de tempo em que ela sorriu. Em contraponto.

Fenómeno andor de procissão. Tambores que o precederam e fanfarras ladeantes merecem narração, é certo. E mais merecem, se possível: escrita.

Tempo e trabalho, inevitavelmente; pois se trata de numerosa coisa e muita gente, e agitada. Milhões, assim por alto. Mas tudo isso periclita como um universo de loiça das Caldas; que se escaqueirará ou (o que seria pior) permanecerá cristalizado - e portanto ridículo se não localizarmos desde o início o ponto estratégico que legaliza o facto de eu estar escrevendo: um sorriso; que me atravessou o amor próprio como um torpedo varando em plena noite um paquete de luxo iluminado; e que ficou sendo para sempre e desde sempre o lugar geométrico dos meus dias sem nome.

Ali, numa escassa fracção de tempo, perdi-me e reencontrei-me logo, cabelo doutra cor e roupa até então desconhecida.
     
  Mais do que morrermos todos, custa-me a dificuldade de dar forma escrita ao que acabei uma vez mais de rabiscar: que, sentado no bar e novamente ao lado do Sancho, comecei então a desesperada carreira de impotência que tem sido a minha. Assinalada por revoadas de páginas escritas mentalmente, humilhação raivosa de Filipe arremessando esquadras tantas às canelas duma Inglaterra impermeável.
     
  Pedi um vodka, temendo de antemão quanto me poderia suceder: viverei até ao fim de mim rondando um sorriso símbolo? Como um alcoólico sem tustas, do lado de fora do local onde se bebe? 

Mas entrar escrevendo. Nada mais.
     
  Querida Zana:
      
Estou sentado numa esplanada de Azeitão. O que não é de todo irreverente, se considerarmos como o tempo mexe.
      
Há cinquenta e sete mil e quinhentos lustros que ficaste morta: de Norte a Sul e Leste e Oeste. O que - como adivinhas - perfaz uma cruz à escala natural e deixa uma certa parte de mim à vontade para se escrever. Pela primeira vez em tantos anos.
      
Poderia, até, dirigir-me a qualquer daqueles que então mais te rodeavam, nomeadamente os teus irmãos. E o incestuoso primo Jaime, o teu marido e outros miúdos mais crescidos. Havia nessa matulagem toda - ah, disso estou certíssimo - suficiente de ti para me bastar, nesta manhã com pó de Agosto meio antigo.
      
(Lembras-te de como te irritava a história do telefone? Quando eu marcava o número e respondia a Teresa. Eu falava com ela, quarto de hora, e desligava. Nem sempre quiseste aceitar a minha versão das coisas. Ora, nesse ponto só esta te podia esclarecer. Porque - e tanta vez to expliquei e tu a reguingar - a tua voz telefónica era um dos catorze espíritos que velavam o teu trono, o sorriso de que aqui tão imperfeitamente me ocupo. Queria lá saber que o motor humano desse som fosse às vezes a voz duma tua filha).
      
Jurei a mim mesmo acabar este trecho antes de me levantar daqui, exactamente porque estou com medo de sentir a caneta encolher-se numa nega, uma vez mais.
      
Vezes e vezes debati a hipótese de um sorriso significar, em contra-ponto. Concerto para nação e sorriso. Será isso, e possível?
      
Consultei historiadores, pugilistas, ligeiros pianistas, revolucionários orto e heterodoxos, algumas mulheres em meia-noites especiais. Coisa de estudar o assunto com a grande minúcia que ele merece. 

Não seria justo omitir que recorri também a certa gente muito ferida pela Terra, e que, depois de convenientemente bem bebida, se torna imbatível na arte de abordar problemas insolúveis, passeando ao longo deles noites inteiras, de mãos atrás das costas e aquele ar solene e sensível de quem discute com a morte em frente do mar.
      
Não vou sequer resumir todas as baboseiras que aturei, esses falsos rumos temporários, minha investigação falhada.
      
A verdade está por desvendar, doutra maneira. Porque (lembro-me agora) o Sancho, ao sairmos de «O Canário» (onze minutos depois de nele termos entrado), me pediu que lhe pagasse o que eu bebera e que fora uma Sagres e um vodka polaco.
      
Ao entregar-lhe o dinheiro encontrei-me na rua e disse para o porteiro do dancing:
      
«Estou no topo dum cedro e vem aí um pintassilgo partir-me os olhos».
      
Foi a minha maneira quase rigorosa de informar o mundo. Parecia-me impossível ser-se mais feliz.

Nuno Bragança

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

OUTROS CONTOS

«O Piano Velho», por Gabriela Carvalho.

«O Piano Velho»
Limpando o Pó/ Théophile Duverger

732- «O PIANO VELHO»

Quando ela vem e se senta, o meu coração começa a bater mais forte.
Os seus dedos, macios de veludo, seguram-me a tampa, encostam-na, com cuidado, à parte de trás. Dois panos do pó que um dia a avó bordou, que me tapam e protegem as teclas, são atirados para cima da escrivaninha, ao meu lado, onde ela costuma sentar-se a estudar e a ler.

É então que sinto as cordas do meu coração quase a estoirar de alegria, pois que é agora que lhe posso dizer tudo o que me vai na alma!!!

Os seus deditos a medo, titubeantes, começam a arrancar os primeiros acordes. E eu a fazer todo o possível para que tudo saia bem e ela não desista e me tape outra vez. Que esforço eu faço!… Mas alguns dos meus dentes brancos já não correspondem totalmente ao acorde que ela pretende. E eu esforço-me…

Ela levanta-se, e eu penso sempre, de cada vez, que se vai embora, que já não quer mais,… mas não! São sobressaltos do vem-que-não-vem, do fica-que-não-fica,… mas a vida é isso mesmo!
Só que desta vez ela não foi. Procurou apenas a partitura de Beethoven.

Que lindo! Toda a minha sensibilidade se motiva e canaliza nesta bonita sonata. Todo eu estou ali, inteiro, a dar o meu melhor; eu e ela numa música só, em uníssono, na produção da música-vida-beleza que Beethoven nos deu.

São os meus melhores momentos…! Em que eu dou conta que sou mais que um simples móvel de quarto…; em que sinto que faço parte da vida presente-futuro dela, pois sou eu que a ajudo a criar, a ser capaz de transmitir a todo o universo o que sente, o que lhe vai na alma e que lhe sai pelas pontas dos dedos.

Quando ela acaba, e me tapa outra vez, já não me importa! Demos a nossa contribuição à vida, por hoje.

O que me entristece e me faz infeliz, isso sim, é o facto de ela deixar o amanhã para depois de amanhã. O de ela, pequenina ainda, não compreender que a vida se vive em cada minuto, que o dia que passa se não recupera mais!

Mas só lho posso dizer através dela e é ela que tem de o compreender sozinha, enquanto eu, fechado, tapado, espero o toque da sua mão.

Gabriela de Carvalho

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

SÁTIRA...

Isso nem se Pergunta
HenriCartoon

«ISSO NEM SE PERGUNTA»

- Em doença terminal,
Recorrias à eutanásia?
- Que dizes tu, Eufrásia!?...
Essa cura é mortal!!
- Pra acabar com o mal,
Eu cá não me importo.
- Não me traz conforto…
Toma nota de pedido,
Que quero ver atendido:
Eutanásia, nem morto!!!

POETA

OUTROS CONTOS

«Vento», conto poético por Boris Pasternak.

«Vento»
Vento/ Rackham

731- «VENTO»

Eu acabei e tu estás viva. 
E o vento, queixando-se e chorando, 
abana a casa e as árvores à volta. 
Não cada pinheiro isoladamente, 
mas todas as árvores juntas 
de todos os infinitos distantes, 
como navios ao sabor das correntes 
nas baías brilhantes ancorados. 
E isso não por audácia 
ou por frenesia insensata, 
mas para na melancolia encontrar a palavras 
para a tua canção de embalar. 

É assim que começam. Pelos dois anos 
separam-se da ama para o enigma das melodias, 
gorjeiam, assobiam, - e as palavras 
surgem por volta dos três anos. 

É assim que começam a entender. 
E no ruído pior que uma turbina 
parece que a mãe não é mãe, 
que eles não são eles e a casa é outra. 

Que fazer da terrível beleza 
que se senta no banco lilás? 
Realmente quer roubar crianças? 
E assim nascem as suspeitas. 

Assim amadurecem os receios. Aceitar 
a estrela alta inatingível, 
quando se é Fausto, quando se é visionário? 
E assim começam os ciganos. 

É assim que se abrem, voando alto 
sobre as cercas, onde estão as casas ausentes, 
dos mares súbitos como suspiros. 
É assim que nascerão os jambos. 

Assim nas noites de Verão, de barriga 
na areia, e a súplica: Seja! 
Ameaçam a aurora com a tua pupila. 
E até se atrevem a discutir com o sol. 

É assim que começam a viver de poesia.

Boris Pasternak

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(Rescaldo da Folia Carnavalesca)

ELIS REGINA
«Marca da Quarta- Feira de Cinzas»

Poet'anarquista

MARCHA DA QUARTA-FEIRA DE CINZAS

Acabou nosso carnaval, ninguém, ouve cantar canções
Ninguém passa mais brincando feliz
E nos corações saudades e cinzas foi o que restou
Pelas ruas o que se vê é uma gente que nem se vê
Que nem se sorri, se beija e se abraça
E sai caminhando, dançando e cantando cantigas de amor
E no entanto é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e alegrar a cidade
A tristeza que a gente tem qualquer dia vai se acabar
Todos vão sorrir, voltou a esperança
É o povo que dança, contente da vida feliz a cantar
Porque são tão tantas coisas azuis, há tão grandes promessas de luz
Tanto amor para amar que a gente nem sabe
Quem me dera viver pra ver e brincar outros carnavais
Que marchas tão lindas
E o povo cantando seu canto de paz

Elis Regina
Cantora e Compositora Brasileira

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

OUTROS CONTOS

«O Idiota», por Fiódor Dostoiévski.
«O Idiota»
Fiódor Dostoiévski/ CarlosCartoons

731- «O IDIOTA»

[Excerto]

— Não  estaria  mal que jogássemos algum petit jeu – disse a senhora espevitada

— Conheço um petit jeu novo e magnífico – encareceu Fierdíchtchenco — Embora tivesse sido jogado uma vez só no mundo e mesmo então não obteve êxito

— E qual é? – perguntou a senhora espevitada.

— Vão ver: estávamos uma vez reunidos e havíamos bebido, a verdade é esta, quando, de repente, um de nós propôs que cada um, sem levantar-se de sua cadeira, contasse algo de seu, muito íntimo, em voz alta, mas algo que ele próprio, sinceramente, em consciência, considerasse a mais feia de todas as suas acções, feias, no decurso de toda sua vida; mas com a condição de que fosse sincero, isto era o principal, que fosse sincero, que não mentisse.

—  Estranha  ideia – disse o general.

—  Mas quanto mais estranha, general, tanto melhor.

— Pensamento ridículo – disse Tótski – embora, afinal, compreensível vaidade de uma índole especial.

— Talvez tivesse algo disso, Afanássi  Ivânovich.

— Mas tal petit jeu faria a gente chorar e não rir! – observou a senhora espevitada.

— A coisa é totalmente impossível e absurda – declarou Ptísin.

— E teve êxito? – indagou  Nastássia Filípovna.

— Já lhe disse que não, tornou-se antipática. Todos, efectivamente, contaram alguma anedota, muitos disseram a verdade e, imaginem, houve quem fizesse o relato com satisfação. Mas depois todos ficaram com vergonha e não puderam mais suportar aquilo. No fundo, aliás, foi uma coisa muito divertida, embora, está claro, em seu estilo.

— Mas na verdade não seria nada mal – observou Nastássia Filípovna, animando-se subitamente. — Não quereriam os senhores, deveras, experimentar? Na realidade, não parece que estejamos muito alegres. Se cada um dos senhores consente em contar algo…nesse estilo… é claro que espontaneamente, por sua própria vontade. Talvez nós pudéssemos suportar. Pelo menos, trata-se de algo enormemente original.

— Genial ideia – encareceu Fierdíchtchenco — as senhoras, naturalmente, ficam excluídas. Comecem os cavalheiros. A coisa se fará por sorte, como fizemos naquela ocasião. Vamos, vamos! Se alguém fizer muita questão de não tomar parte, não contará nada; mas será de sua parte muito pouco amável. Tirem a sorte senhores, aqui em meu chapéu. O príncipe a tirará. A coisa não pode ser mais simples. Referir à ação mais feia de toda a vida que se tenha praticado. Isto é muito fácil, senhores! Aqui está, vejam! Se alguém se esquecer, eu imediatamente o chamarei à ordem.

A ideia não foi do agrado de ninguém. Uns franziram a testa, outros sorriram ladinamente. Alguns fizeram objecções, embora não com muita energia, pois não queriam incorrer no desagrado de Nastássia Filípovna e tinham podido observar quão de seu agrado era aquela estranha ideia. Em seus caprichos era Nastássia Filipovna sempre irascível  e implacável, quando se decidia a manifestá-los, ainda que se tratasse dos desejos mais voluntariosos e mais inúteis para ela. E agora estava como que atacada de histerismo: tremia, ria convulsivamente, como presa de uma indisposição repentina, sobretudo diante das objecções do alarmado Tótski. Seus escuros olhos cintilavam; em suas faces pálidas acusavam-se duas manchas rubras.  Os matizes de contrariedade  e de esquivança da fisionomia de algum de seus amigos, talvez contribuíssem para tornar mais ousado ainda seu ridículo capricho: talvez o que mais precisamente lhe agradasse fossem o cinismo e a crueldade daquela ideia. Alguns tinham até a convicção de que tinha ela um especial objectivo nisso. Afinal de contas, acederam. Em todo o caso era curioso e, para mais de um, muito atraente. Fierdíchtchenco era o que mais barulho armava.

Fiódor Dostoiévski

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

JIMMY SMITH - «Respect»

Poet'anarquista

Jimmy Smith
Organista de Jazz Norte-Americano

OUTROS CONTOS

«A Sombra», por Mário-Henrique Leiria.

«A Sombra»
A Grande Sombra/ Johan Tischbein

730- «A SOMBRA»

Foi exactamente durante o jantar anual da empresa que Valter teve a sensação de que era seguido. Na altura do discurso final. Falava o doutor Raimondi, quando a sombra passou veloz, recortando-se por instantes no fundo da sala. Valter sentiu um arrepio súbito, ergueu-se de repente e, sem esperar o fim do arrazoado e as palmas consequentes, saiu pela porta fora entre a estranheza dos colegas.

Na rua olhou em volta. Uma rua calma, iluminada, burguêsmente nocturna, sem tragédias à vista. Isso deu-lhe um certo alívio. Afinal fora apenas impressão sua, uma sombra que lhe parecera, talvez só a ele, ser mais do que uma sombra a segui-lo.

Foi andando devagar pelo passeio, acendeu um cigarro e olhou uma montra de artigos para caçador, admirando um magnífico tigre que, em posição de rosnido feroz, propagandeava uma marca de cartuchos para assassinar coelhos. E, de repente, aquela coisa empalhada olhou para ele e a sombra que os spots atiravam para o fundo da loja pareceu avançar.

Valter deu um passo atrás, em pânico, tropeçando numa jovem que lhe sorriu, agradável. Pediu uma desculpa entaramelada, quase engolindo o cigarro, engasgou-se, cuspiu e caminhou em frente, apressado.

Não podia ser. Aquilo não tinha lógica. Como diabo um tigre empalhado... Evidentemente, o que ele estava era cansado.

Abrandou o passo, aquecido, pelo neon dos Grandes Armazéns Bulora.

As pessoas passavam, normais, apressadas umas, outras escorregando lentamente até ao tempo de ir para casa, ora vermelhas, ora azuis, ora amarelas, mas todas confortavelmente familiares, entrando e saindo do neon que escorria pelo passeio.

Atravessou a rua, um pouco incerto no caminho a seguir, quase caindo em frente de um carro que buzinou, furioso. Por momentos sentiu-se tapado por aquela sombra ensurdecedora. Saltou, num arranco, para o passeio do outro lado.

Ficou a olhar o carro que desaparecia na esquina e outros que iam passando num zumbido de escapes em liberdade nocturna, até se sentir mais calmo, mais capaz de saber onde estava. Na rua, claro, a caminho de casa.

Acendeu outro cigarro e continuou. Logo ali à frente o Rodeo, um barzinho seu conhecido. Entrou, na ânsia de uma bebida e de um repouso temporário. Pediu um gin-tonic duplo com bastante gelo, a noite estava mesmo quente. Foi bebendo lentamente, à procura de qualquer justificação para aquilo. Ao olhar para a porta, viu-a passar, viu-a com nitidez, vibrante e rápida, deixando o ar a oscilar como se fosse água. Acabou o gin e pediu outro, que engoliu de seguida. Não, aquilo não era nada, só cansaço.

Pagou e saiu. Procurou um táxi. Um táxi não, era fechado, melhor ir a pé. Queria chegar a casa, queria descansar. Precisava de chegar a casa.

Começou a andar, cada vez mais depressa. E viu-a. Lá estava, naquele vão de escada. Apertou o passo, mas ela chegou primeiro à esquina.

Na esquina olhou, atento. Era a sua rua, o prédio ficava ali em baixo, acolhedor.

Ela continuava, uma sombra escondida na sombra, a olhá-lo do outro lado da rua.

Começou a correr. Da lado de lá via-a deslizar de porta em porta, de escuro em escuro, sempre a acompanhá-lo, silenciosa.

Ia começar a gritar quando reparou que estava à porta de casa. Entrou no edifício, esbaforido mas aliviado. Olhou em volta. Não a viu.

- Boas-noites, senhor Valter. Sente-se mal? - interessou-se o Josué porteiro de noite, com uma solicitude matreira.

- Boas noites, Josué. Não é nada. Apenas cansaço. Venho do jantar anual lá do emprego. Com patrões e tudo, sabe como é.

- Pois. Essas coisas cansam - concordou o Josué, julgando saber. Cansam mesmo, senhor Valter.

- Até amanhã, Josué.

- Até amanhã, senhor Valter.

Entrou no elevador com a sensação de se ter libertado de um acontecimento atroz.
Saiu no décimo andar. O corredor estava calmo, brilhante de luz e repouso. Abriu a porta do apartamento e entrou.

Foi até ao bar, preparou apressado um gin saudavelmente triplo sem tónica e, sentando-se confortável no sofá, saboreou-o com um prazer todo novo, com lentidão, com luxo. Um bom sono e amanhã tudo seria apenas um motivo para sorrir. E se não fosse?

Bocejou, sentindo-se realmente cansado. Acendeu um cigarro, bebeu o resto do gin num arrepio de gozo, pousou o copo e levantou-se.

Dirigiu-se para o quarto e abriu a porta.

A sombra ergueu-se da cama e avançou para ele, de braços abertos.

- Querido! Vieste cedo...

Mário-Henrique Leiria

sábado, 6 de fevereiro de 2016

DEAMBULAÇÕES

Pintura de Luís Ralha.
«Deambulações»
Luís Ralha

OUTROS CONTOS

«Estrofes de D. Jaime», conto poético por Tomás Ribeiro.

«Estrofes de D. Jaime»
Poeta Português Tomás Ribeiro

729- «ESTROFES DE D. JAIME»

Meu Portugal, meu berço de inocente,
lisa estrada que andei débil infante,
variado jardim do adolescente,
meu laranjal em flor sempre odorante,
minha tarde de amor, meu dia ardente,
minha noite de estrelas rutilante,
meu vergado pomar dum rico outono,
sê meu berço final no último sono!

Costumei-me a saber os teus segredos
desde que soube amar; e amei-os tanto!...
Sonhava as noites de teus dias ledos
afogado de enlevo, em riso e em pranto.
Quis dar-te hinos de amor, débeis os dedos
não sabiam soltar da lira o canto,
mas amar-te o esplendor de imenso brilho...
eu tinha um coração, e era teu filho!

Jardim da Europa à beira-mar plantado
de loiros e de acácias olorosas;
de fontes e de arroios serpeado,
rasgado por torrentes alterosas,
onde num cerro erguido e requeimado
se casam em festões jasmins e rosas,
balsa virente de eternal magia
onde as aves gorjeiam noite e dia.

Tomás Ribeiro

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

BOB MARLEY - «Punk Reggae Party»

Poet'anarquista

FESTA REGGAE PUNK

 Nova onda, nova frase
Nova onda, novo entusiasmo

Indo a uma festa
E espero você tenha coragem
Mas por favor não seja desobediente
Isto é uma festa Reggae punky

Nova onda, nova frase
Nova onda, novo entusiasmo

Ele leva um alegre som
Faz o mundo girar
Vem com sua alma e coragem
Venha e Dance

É uma Festa Reggae Punky
E esta é a noite
É uma Festa Reggae Punky
Este é o certo

Que você diz?

Rejeitado por sociedade
Tratado com impunidade
Protegido por minha dignidade
Eu procuro por realidade

Nova onda, nova frase
Nova onda, nova onda, novo entusiasmo

Eu estou dizendo...
The Wailers será ali
O amaldiçoado, o lamentado, a tristeza
Maytals será ali
E a boa vibração virá também

Nenhum velho chato aborrecido,
nenhum velho chato aborrecido,
nenhum velho chato aborrecido,
Será ali!
Nenhum velho chato aborrecido,
nenhum velho chato aborrecido,
nenhum velho chato aborrecido,
Será ali!

É uma Festa Reggae Punky
E esta é a noite
É uma Festa Reggae Punky
Este é o certo

Uma cigana fazia sugestões
E ela dizia "homem você está obtendo opiniões"
Se escondendo da realidade
No seu mundo de hipocrisia
No seu mundo de hipocrisia
No seu mundo de hipocrisia
No seu mundo de hipocrisia
No seu mundo de hipocrisia

Bob Marley 
Músico, Cantor e Compositor Jamaicano

SÁTIRA CARNAVALESCA...

O Grande 'Enterteiner'
HenriCartoon

«O GRANDE ‘ENTERTAINER’»

- Senhor Primeiro-Ministro…
Confirma haver tolerância,
Neste Carnaval abundância
E esquecer o tempo sinistro?
- Agora eu é que administro…
Podem todos sair do buraco,
Eu não me chamo Cavaco!...
Esse Animal está Acabado,
O Coelho desmascarado…
Moça, não encha o saco!!

POETA

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

OUTROS CONTOS

«Hino à Morte», conto poético por Lou Andreas-Salomé.

«Hino à Morte»
Conto Poético de Lou Andreas-Salomé

728- «HINO À MORTE»

No dia em que eu estiver no meu leito de morte
Faísca que se apagou,
Acaricia ainda uma vez meus cabelos
Com tua mão bem-amada
Antes que devolvam à terra
O que deve voltar à terra…
Pousa sobre minha boca que amaste
Ainda um beijo.
Mas não esqueças: no esquife estrangeiro
Eu só repouso em aparência
Porque em ti minha vida se refugiou
E agora sou toda tua.

Lou Andreas-Salomé

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

NEIL YOUNG - «Old Man»

Poet'anarquista

VELHO

Velho, olhe para a minha vida
Eu sou um pouco do que você era
Velho, olhe para a minha vida
Eu sou um pouco do que você era

Velho, olhe para a minha vida
Vinte e quatro anos e há muito mais
Vivo sozinho num paraíso
Que me faz pensar em nós

Amor perdido, a tal custo
Dá-me coisas que não se perde
Como uma moeda que não será lançada
Rolando até você

Ó velho, dê uma olhada na minha vida, eu sou muito parecido com você
Eu preciso de alguém para me amar o dia inteiro
Ah, um olhada em meus olhos e você pode dizer que é verdade

Canções de ninar, olho em seus olhos
Correndo em volta da mesma cidade velha
Não significa muito para mim
Significa muito para você

Eu fui o primeiro e o último
Olha como o tempo passa
Mas eu estou só e atrasado
Rolando até você

Ó velho, dê uma olhada na minha vida, eu sou muito parecido com você
Eu preciso de alguém para me amar o dia inteiro
Ah, um olhada em meus olhos e você pode dizer que é verdade

Velho, olhe para a minha vida
Eu sou um pouco do que você era
Velho, olhe para a minha vida
Eu sou um pouco do que você era

Neil Young
Músico e Compositor Canadense

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

OUTROS CONTOS

«Aflição», conto poético por Hilda Hilst.

«Aflição»
Manhã/ Edvard Munch

727- «AFLIÇÃO»

“Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha
Objeto de amor, atenta e bela.

Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha)

Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel

Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.”

Hilda Hilst

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(Escolha musical da blogosfera)

RODRIGO LEÃO - «Sleepless Heart»

Poet'anarquista

CORAÇÃO SEM DESCANSO

Acredita eu não te desejo sofrimento
Apenas te desejo bem

Eu só senti
Que o meu coração tem que seguir em frente

Eu sinto-me tão feia, tímida
Talvez devesse conter-me
E forçar-me a mentir

Amor louco
Em breve se desmoronará
Porque não se pode abrandar
Para um coração sem descanso

Olhar para ti poderia aliviar a minha dor
Podia ser o suficiente para mim

Eu perdi-me
Como nos perdemos um ao outro

Pergunto-me se sabes
A forma como chegaste ao meu coração
E tocaste na minha alma alienígena

Amor louco
Em breve se desmoronará
Porque não se pode abrandar
Para um coração sem descanso

Agora

Amor louco
Em breve se desmoronará
Porque não se pode abrandar
Para um coração sem descanso

Agora

Em breve

Amor louco
Em breve se desmoronará

Rodrigo Leão
Músico e Compositor Português

OUTROS CONTOS

«Trovas a Inês de Castro», conto poético por Garcia de Resende.

«Trovas a Inês de Castro»
Inês de Castro/ Azulejo Português

726- «TROVAS A INÊS DE CASTRO»

"Estes homens d'onde irão?"
Qual será o coração
tão cru e sem piedade,
que lhe não cause paixão
uma tão grã crueldade
e morte tão sem razão?
Triste de mim, inocente,
que, por ter muito fervente
lealdade, fé, amor
ao príncipe, meu senhor,
me mataram cruamente!
A minha desaventura
não contente d’acabar-me,
por me dar maior tristura
me foi pôr em tant’altura,
para d’alto derribar-me;
que, se me matara alguém,
antes de ter tanto bem,
em tais chamas não ardera,
pai, filhos não conhecera,
nem me chorara ninguém.
Eu era moça, menina,
por nome Dona Inês
de Castro, e de tal doutrina
e virtudes, qu’era dina
de meu mal ser ao revés.
Vivia sem me lembrar
que paixão podia dar
nem dá-la ninguém a mim:
foi-m’o príncipe olhar,
por seu nojo e minha fim.
Começou-m’a desejar
trabalhou por me servir;
Fortuna foi ordenar
dous corações conformar
a uma vontade vir.
Conheceu-me, conheci-o,
quis-me bem e eu a ele,
perdeu-me, também perdi-o;
nunca té morte foi frio
o bem que, triste, pus nele.
Dei-lhe minha liberdade,
não senti perda de fama;
pus nele minha verdade,
quis fazer sua vontade,
sendo mui formosa dama.
Por m’estas obras pagar
nunca jamais quis casar;
pelo qual, aconselhado
foi el-rei qu’era forçado,
pelo seu, de me matar.
Estava mui acatada,
como princesa servida,
em meus paços mui honrada,
de tudo mui abastada,
de meu senhor mui querida.
Estando mui de vagar,
bem fora de tal cuidar,
em Coimbra, d’assossego,
pelos campos do Mondego
cavaleiros vi somar.
Como as cousas qu’hão de ser
logo dão no coração,
comecei entristecer
e comigo só dizer:
“Estes homens onde irão?”
E tanto que perguntei,
soube logo qu’era el-rei.
Quando o vi tão apressado,
meu coração trespassado
foi, que nunca mais falei.
E quando vi que descia,
saí a porta da sala,
devinhando o que queria;
com grão choro e cortesia
lhe fiz uma triste fala.
Meus filhos pus de redor
de mim com grande humildade;
mui cortada de temor
lhe disse: - “Havei, senhor,
desta triste piedade!
“Não possa mais a paixão
que o que deveis fazer;
metei nisso bem a mão,
qu’é de fraco coração
sem porquê matar mulher;
quanto mais a mim, que dão
culpa não sendo razão,
por ser mãe dos inocentes
qu’ante vós estão presentes,
os quais vossos netos são.
“E tem tão pouca idade
que, se não forem criados
de mim, só com saudade
e sua grande orfandade
morrerão desamparados.
Olhe bem quanta crueza
fará nisto Voss’Alteza,
e também, senhor, olhai
pois do príncipe sois pai,
não lhe deis tanta tristeza.
“Lembre-vos o grand’amor
que me vosso filho tem,
e que sentir grã dor
morrer-lhe tal servidor
por lhe querer grande bem.
Que, s’algum erro fizera,
fora bem que padecera
e qu’estes filhos ficaram
orfãos tristes e buscaram
quem deles paixão houvera;
“Mas, pois eu nunca errei
e sempre mereci mais,
deveis, poderoso rei,
não quebrantar vossa lei,
que, se morro, quebrantais.
Usai mais de piedade
que de rigor nem vontade,
havei dó, senhor, de mim,
não me deis tão triste fim,
pois que nunca fiz maldade!”
El-rei, vendo como estava,
houve de mim compaixão
e viu o que não olhava:
qu’eu a ele não errava
nem fizera traição.
E vendo quão de verdade
tive amor e lealdade
ao príncipe, cuja são,
pôde mais a piedade
que a determinação;
Que, se m’ele defendera
que seu filho não amasse,
e lh’eu não obedecera,
então com razão pudera
dar-m’a morte qu’ordenasse;
mas vendo que nenhum’hora,
dês que nasci até’gora,
nunca disso me falou,
quando se disto lembrou,
foi-se pela porta fora.
Com seu rosto lagrimoso,
co propósito mudado,
muito triste, mui cuidoso,
como rei mui piedoso,
mui cristão e esforçado.
Um daqueles que trazia
consigo na companhia,
cavaleiro desalmado,
de trás dele, mui irado,
estas palavras dizia:
“-Senhor, vossa piedade
é digna de reprender,
pois que, sem necessidade,
mudaram vossa vontade
lágrimas duma mulher.
E quereis qu’abarregado,
com filhos, como casado,
estê, senhor, vosso filho?
De vós mais me maravilho
que dele, qu’é namorado.
“Se a logo não matais,
não sereis nunca temido
nem farão o que mandais,
pois tão cedo vos mudais
do conselho qu’era havido.
Olhai quão justa querela
tendes, pois, por amor dela,
vosso filho quer estar
sem casar e nos quer dar
muita guerra com Castela.
“Com sua morte escusareis
muitas mortes, muitos danos;
vós, senhor, descansareis,
e a vós e a nós dareis
paz para duzentos anos.
O príncipe casará
filhos de benção terá,
será fora de pecado;
qu’agora será anojado,
amanhã lh’esquecerá.”
E ouvindo seu dizer,
el-rei ficou mui torvado
por em tais estremos ver,
e que havia de fazer
ou um ou outro, forçado.
Desejava dar-me vida,
por lhe não ter merecida
a morte nem nenhum mal:
sentia pena mortal
por ter feito tal partida.
E vendo que se lhe dava
a ele tod’esta culpa,
e que tanto o apertava,
disse àquele que bradava:
“-Minha tenção me desculpa.
Se o vós quereis fazer,
fazei-o sem mo dizer,
qu’eu nisso não mando nada,
nem vejo essa coitada
por que deva de morrer.”

Fim

Dous cavaleiros irosos,
que tais palavras lh’ouviram,
mui crus e não piedosos,
perversos, desamorosos,
contra mim rijo se viram;
com as espadas na mão
m’atravessam o coração,
a confissão me tolheram:
este é o galardão
que meus amores me deram.

Garcia de Resende

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

LLOYD COLE & THE COMMOTIONS
«Forest Fire»

Poet'anarquista

FLORESTA EM CHAMAS

Ela fez o sinal da cruz enquanto guardou suas coisas
Ela prometeu uma vez antes não viver desse jeito
Se ela não se acalmar, ela vai se incendiar
Como uma floresta em chamas, bem, isso não vai fazer você sorrir

Se você não se abrandar, eu juro que eu ficarei por aqui
E atrapalhar o seu lugar, vamos dar uma volta
Eles dizem que não devemos conhecer um ao outro
E que seremos desfeitos
Isso não faz você sorrir como uma floresta em chamas

Eu acredito no amor, eu acreditarei em qualquer coisa
Que vai me dar o que eu quero e me tirar dos joelhos
Então nós vamos queimar a sua casa abaixo, não parece tão bom
Há uma floresta em chamas de cada vez que estamos juntos

Doo doo doo, doo doo doo doo doo doo
Doo doo doo doo doo, doo doo doo doo doo doo

Ei te pegar, te deixar triste
Rasgá-lo para cima e rodá-lo por aí
Exatamente como dissemos que faríamos
Porque somos uma floresta em chamas
Acredite em mim, nós vamos arruinar este lugar

Se formos apanhados neste vento então poderíamos queimar o oceano
Se formos apanhados neste cenário que vamos ser desfeitos
É só uma simples metáfora, é por um amor ardente
Isso não te faz sorrir como uma floresta em chamas

Lloyd Cole & The Commotions
Banda Escocesa

OUTROS CONTOS

«Quem me Quiser», conto poético por Rosa Lobato Faria.

«Quem me Quiser»
Tiriel, Plato II/ William Blake

725- «QUEM ME QUISER»

(Uma poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria)

Quem me quiser há-de saber as conchas
a cantigas dos búzios e do mar.
Quem me quiser há-de saber as ondas
e a verde tentação de naufragar.

Quem me quiser há-de saber as fontes,
a laranjeira em flor, a cor do feno,
à saudade lilás que há nos poentes,
o cheiro de maçãs que há no inverno.

Quem me quiser há-de saber a chuva
que põe colares de pérolas nos ombros
há-de saber os beijos e as uvas
há-de saber as asas e os pombos.

Quem me quiser há-de saber os medos
que passam nos abismos infinitos
a nudez clamorosa dos meus dedos
o salmo penitente dos meus gritos.

Quem me quiser há-de saber a espuma
em que sou turbilhão, subitamente
- Ou então não saber a coisa nenhuma
e embalar-me ao peito, simplesmente.

Rosa Lobato Faria

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

RODRIGO LEÃO - «Pasión»

Poet'anarquista

PAIXÃO

Não me esqueças
Eu morro
Amor
Minha vida é sofrimento
Eu
Quero-te no meu caminho
Por ti
Mudava o meu destino

Ai,
Abraça-me esta noite
Mesmo que não tenhas vontade
Prefiro que me mintas
Breves nossas tristes vidas
Chega-te a mim
Abraça-me a ti por Deus
Entrega-te nos meus braços.

Tenho
Um coração aflito
Eu sei
Que você está ouvindo
Mil lágrimas eu te quero.
Paixão
Sois meu amor sincero

Ai,
Abraça-me esta noite
Mesmo que não tenhas vontade
Prefiro que me mintas
Breves nossas tristes vidas
Chega-te a mim
Abraça-me a ti por Deus
Entrega-te nos meus braços.


Rodrigo Leão
Músico e Compositor Português

SÁTIRA...

No Papo
HenriCartoon

«NO PAPO»

- Zé, o que dizes do Passos
Ser reeleito novamente,
No partido como presidente?
Parecem-me erros crassos…

- Cá a mim parece-me bem…
A hipótese de haver maioria
De esquerda no PSD, é utopia…
A direita radical não se abstém!

POETA

OUTROS CONTOS

«A Um Poeta», conto poético por Antero de Quental.

«A Um Poeta»
O Poeta/ Roger Fresnay

724- «A UM POETA»

Tu, que dormes, espírito sereno,
Posto à sombra dos cedros seculares,
Como um levita à sombra dos altares,
Longe da luta e do fragor terreno,

Acorda! é tempo! O sol, já alto e pleno,
Afugentou as larvas tumulares...
Para surgir do seio desses mares,
Um mundo novo espera só um aceno...

Escuta! é a grande voz das multidões!
São teus irmãos, que se erguem! São canções...
Mas de guerra... e são vozes de rebate!

Ergue-te pois, soldado do Futuro,
E dos raios de luz do sonho puro,
Sonhador, faze espada de combate!

Antero de Quental

PIET MONDRIAN


Auto-Retrato
Piet Mondrian

Fim de Tarde em Weesperzijde 
Piet Mondrian