terça-feira, 14 de junho de 2016

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

CANNED HEAT - «Going Up The Country»

Poet'anarquista

SUBIR ATÉ AO PAÍS

Eu vou até ao país, querida, não quero ir
Eu vou até ao país, querida, não quero ir
Eu estou indo para algum lugar onde eu nunca estive antes
Eu vou, eu vou, onde a água tem gosto de vinho
Bem, eu vou onde a água tem gosto de vinho
Podemos pular na água, ficar grogues o tempo todo
Vou deixar esta cidade, tenho que ir embora
Vou deixar esta cidade, tenho que ir embora
Tudo isso agitação e lutando, homem, você sabe que eu com certeza não posso ficar
Agora querida, arrume sua mala pra sair, você sabe que nós temos que sair hoje
Exatamente para onde estamos indo eu não posso dizer, mas nós podemos até mesmo deixar
Porque os EUA não é um novo jogo que eu queira jogar

Sem uso de você correr ou gritar e chorar
Porque você tem uma casa, desde que eu tenho a minha

Canned Heat
Banda Norte-Americana

OUTROS CONTOS

«Não Perdi Nada», conto poético por Salvatore Cuasimodo.

«Não Perdi Nada»
Poema de Salvatore Cuasimodo

810- «NÃO PERDI NADA»

Estou Aqui agora, o sol gira
às minhas costas como um falcão e a terra
repete minha voz na tua.
Recomeça o tempo visível
no olho que redescobre a luz.
Não perdi nada...
perder é andar mais além
de um diagrama do céu
em movimentos de sonhos, um rio
pleno de folhas.

Salvatore Cuasimodo

segunda-feira, 13 de junho de 2016

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

ANTÓNIO VARIAÇÕES - «Sempre Ausente»

Poet'anarquista

SEMPRE AUSENTE

Diz-me que solidão é essa
Que te põe a falar sozinho
Diz-me que conversa
Estás a ter contigo

Diz-me que desprezo é esse
Que não olhas para quem quer que seja
Ou pensas que não existes
Ninguém que te veja

Que viagem é essa
Que te diriges em todos os sentidos
Andas em busca dos sonhos perdidos

Uhhhhh...
Uhhhhh...

Lá vai uma luz
Lá vai o demente
Lá vai ele a passar
Assim te chama toda essa gente

Mas tu estás sempre ausente e não te conseguem alcançar

Diz-me que loucura é essa
Que te veste de fantasia
Diz-me que te liberta
Que vida fazias

Diz-me que distância é essa
Que levas no teu olhar
Que ânsia e que pressa
Tu queres alcançar

Que viagem é essa
Que te diriges em todos os sentidos
Andas em busca dos sonhos perdidos

Uhhhhh...
Uhhhhh...

Lá vai uma luz
Lá vai o demente
Lá vai ele a passar
Assim te chama toda essa gente

Mas tu estás sempre ausente e não te conseguem alcançar
Mas eu estou sempre ausente e não conseguem alcançar
Não conseguem alcançar

António Variações
Cantor e Compositor Português

OUTROS CONTOS

«Aniversário», conto poético por Fernando Pessoa.

«Aniversário»
Fernando António Nogueira Pessoa

809- «ANIVERSÁRIO»

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui…
A que distância!…
(Nem o acho…)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes…
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio…

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim…
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Fernando Pessoa

domingo, 12 de junho de 2016

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

MEN AT WORK - «Down Under»

Poet'anarquista

LÁ EMBAIXO

Viajando numa Kombi acabada
Numa trilha hippie, a cabeça cheia de maconha
Conheci uma mulher estranha que me deixou nervoso
Ela me acolheu e me deu café da manhã
E ela disse:

"Você vem da Austrália
Onde as mulheres brilham e os homens roubam?
Você não ouve, você não ouve o trovão?
É melhor você correr, é melhor achar abrigo."

Comprando pão de um homem em Bruxelas
Ele tinha 1, 95m e era cheio de músculos
Eu disse, "Você fala minha língua?"
Ele só sorriu e me deu uma sanduíche de Vegemite
E ele disse:

"Eu venho da Austrália
Onde a cerveja flui e os homens vomitam
Você não ouve, você não ouve o trovão?
É melhor você correr, é melhor achar abrigo."

Deitado numa toca em Bombay
De queixo caído, sem muito o que dizer
Eu disse pro homem, "Você está me tentando
Porque eu venho de uma terra de fartura?"
E ele disse:

"Oh! Você vem da Austrália (oh yeah yeah)
Onde as mulheres brilham e os homens roubam?
Você não ouve, você não ouve o trovão?
É melhor você correr, é melhor achar abrigo."

Men at Work
Banda Australiana

SÁTIRA...

O Onze
Sátira...

«O ONZE»

- Fernando, não mente:
Já escolheste quem joga?...
O jogo vai ser droga
Se não jogar o Presidente!
- Detrás para a frente
Jogam todos no início,
Depois começa o vício
Só querem recuar…
Talvez a Martelar
Eu obtenha benefício (?)

POETA

OUTROS CONTOS

«Conto Nº 01», por Eugène Ionesco.

«Conto Nº 01»
Jacqueline Kennedy

808- «CONTO Nº 01»

Josette já é uma menininha bem crescida, ela tem trinta e três meses. Uma manhã, como de costume, ela avança com seus passinhos até a porta do quarto dos seus pais. Ela tenta empurrar a porta, tenta abri-la, como se fosse um cachorrinho. Ela perde a paciência, chama, e isso acorda os seus pais, que fazem de conta que não estão ouvindo.

Nesse dia, seu papai e sua mamãe estavam muito cansados. Na véspera, eles tinham ido ao teatro, ao restaurante; depois do restaurante, ao teatro de marionetes. Agora, eles estavam com muita preguiça. E isso não é bonito para os pais!...

A empregada também perde a paciência. Ela abre a porta do quarto e diz: “Bom-dia, senhora, bom-dia, senhor, aqui está o seu jornal da manhã, aqui está a correspondência que os senhores receberam, aqui está seu café com leite adoçado, aqui está seu suco de frutas, aqui estão seus croiassants, aqui está seu pão torrado, aqui está sua manteiga, aqui está seu doce de laranja, aqui está sua geleia de morango, aqui está seu ovo estrelado, aqui está o presunto e aqui está a sua filhinha.”

Os pais estavam enjoados, pois eu esqueci de dizer que, após o teatro de marionetes, eles ainda tinham ido ao restaurante. Os pais não querem beber o café com leite, eles não querem o pão torrado, eles não querem os croissants, eles não querem o presunto, eles não querem o ovo estrelado, eles não querem o doce de laranja, eles não querem seu suco de frutas, eles não querem também a geleia de morango (não era mesmo de morango, era de laranja). 

— Dê tudo isso a Josette, diz o papai à empregada, e quando ela tiver terminado, traga-a de volta.

A empregada pega a criança nos braços. Josette berra. Mas como ela é gulosa, ela se consola comendo na cozinha: o doce da mamãe, a geleia do papai, os coissants dos dois; ela bebe o suco de frutas.

— Oh! que apetite de ogro! diz a empregada. Você tem o olho maior que a barriga!...

E para que a criança não fique doente, é a empregada que bebe o café com leite, come o ovo estrelado, o presunto, e também o arroz-doce que havia sobrado da noite anterior.

Durante esse tempo, o papai e a mamãe adormecem de novo e roncam. Mas não por longo tempo. A empregada leva de volta Josette ao quarto deles.

— Papai!... diz Josette, Jacqueline (esse é o nome da empregada), Jacqueline comeu o seu presunto. 

— Não faz mal, diz o pai.

— Papai, diz Josette, conte uma história para mim. 

E enquanto a mamãe dorme, pois ela está muito cansada por ter se divertido tanto, o papai conta uma história para Josette.

— Tinha uma vez uma menininha que se chamava Jacqueline.

— Como Jacqueline? pergunta Josette.

— Sim, diz o papai, mas não era Jacqueline. Jacqueline era uma criança.

Ela tinha uma mamãe que se chamava senhora Jacqueline. O papai da pequena Jacqueline se chamava senhor Jacqueline. A pequena Jacqueline tinha duas irmãs que se chamavam Jacqueline, e dois priminhos que se chamavam Jacqueline e uma tia e um tio que se chamavam Jacqueline. 

O tio e a tia, que se chamavam Jacqueline, tinham dois amigos que se chamavam senhor e senhora Jacqueline, e eles tinham uma filhinha que se chamava Jacqueline, e um garotinho que se chamava Jacqueline, e a filhinha tinha umas bonecas, três bonecas, que se chamavam: Jacqueline, Jacqueline, e Jacqueline. O garotinho tinha um coleguinha que se chamava Jacqueline, e cavalos de madeira que se chamavam Jacqueline, e soldadinhos de chumbo que se chamavam Jacqueline. 

Um dia, a pequena Jacqueline, com seu papai Jacqueline, seu irmãozinho Jacqueline, sua mamãe Jacqueline, vai ao bosque de Boulogne. Lá, eles encontram seus amigos Jacqueline com a filhinha Jacqueline, com o filho Jacqueline, com os soldadinhos de chumbo Jacqueline, com as bonecas Jacqueline, Jacqueline, e Jacqueline. 

Enquanto o papai conta essas histórias para a pequena Josette, entra a empregada. Ela diz: “O senhor vai deixar essa menina louca!....”

Josette diz à empregada: “Jacqueline, nós vamos ao mercado?” (pois como eu disse, a empregada se chamava também Jacqueline). 

Josette vai fazer as compras com a empregada. 

O papai e a mamãe dormem de novo, pois eles estavam muito cansados, eles tinham ido, na véspera, ao restaurante, ao teatro, ainda ao restaurante, ao teatro de marionetes, depois ainda ao restaurante. 

Josette entra numa loja com a empregada e lá ela encontra uma menininha que estava com os pais. Josette pergunta à menininha:

— Você quer brincar comigo? Como você se chama?

— Eu me chamo Jacqueline, responde a menininha.

— Eu sei, diz Josette, seu papai se chama Jacqueline, seu irmãozinho se chama Jacqueline, sua boneca se chama Jacqueline, seu vovô se chama Jacqueline, seu cavalo de madeira se chama Jacqueline, sua casa se chama Jacqueline, seu potinho se chama Jacqueline....

Então, o dono da loja, a esposa do dono da loja, a mamãe da outra menininha, todos os clientes que estavam na loja voltaram-se para Josette e fitaram-na com os olhos cheios de espanto. “Não é nada, diz tranquilamente a empregada, não se preocupem, são as histórias idiotas que o seu pai lhe conta.”

Eugène Ionesco

sábado, 11 de junho de 2016

OUTROS CONTOS

«Identidade», conto poético por Matias José.

«Identidade»
Fusão/ Paul Richmong

IDENTIDADE (CAMÕES, ÉCLOGAS II)

E sou já do que fui tão diferente 
Que, quando por meu nome alguém me chama, 
Pasmo, quando conheço 
Que ainda comigo mesmo me pareço.

Luís Vaz de Camões

807- «IDENTIDADE»

Fui criança irrequieta,
Dois olhos pra mim era pouco…
Todo o mundo ficava louco,
E eu oculto em parte incerta.
Não queria sossegar à sesta
Pra incómodo de toda a gente,
Eu era gaiato resistente
Lutando contra o sono…
Foi assim, ano após ano,
E sou já do que fui tão diferente

Facilmente me agitava
Se havia novas à solta…
Toda a casa era revolta,
Comigo ninguém sossegava!
Encarcerado eu acabava
Mas pra mim não era drama,
Na verdade eu tinha fama
De sempre me safar…
Tantas vezes ouvi gritar
Que, quando por meu nome alguém me chama… 

Desse tempo de outrora
Pouco ou nada descortino…
Conta-se, e eu imagino,
Quão diferente de agora.
Tudo passa sem demora
Cada dia mais envelheço,
O que passou reconheço
Como sendo irreversível…
Por ser de todo impossível
Pasmo, quando conheço!

 Olho-me frente ao espelho
Não vejo mais quem fui…
O passado se dilui,
E com ele me esguelho.
Aceito bom conselho
De quem não desconheço,
Por ti bem que mereço
Não cair no esquecimento…
Digo com convencimento,
Que ainda comigo mesmo me pareço.

Matias José

quarta-feira, 8 de junho de 2016

SÁTIRA...

Devolução ao Remetente
HenriCartoon

«DEVOLUÇÃO AO REMETENTE»

— Toc! Toc! Toc!... Ó de casa…
Está alguém no Parlamento?
— Quem será o jumento
A incomodar com esta brasa?
— É Martelo que não se atrasa,
Venho entregar a encomenda…
— Não temos nada em agenda,
Mas pode deixar onde quiser.
— Devolvo barriga de aluguer…
Vocês não têm emenda!!!

POETA

«4 POETAS EM MACAU»

Gruta de Camões em Macau
Postal de Choi Su Weng

4 POETAS EM MACAU

Camões

"Em que ano subi esta colina,
Repousei nesta gruta e respirei
Brandas auras? Da pátria e do meu rei,
Aqui, sublime, sublimei a sina?

Que fama do meu vulto peregrina
Na voz destas paragens, e da lei
Da morte me liberta? Onde enlacei
A amizade do jau e o amor de Dina?

Deixei sinais na areia, no arvoredo?
Quem me ocultou de mim como um segredo?
-Até o longínquo China navegou…

Aqui cheguei? Daqui parti? E quando?
Quem salvou do naufrágio miserando
Aquele que não sei se fui, mas sou?"

António Manuel do Couto Viana

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

JACINTA - «Duerme Negrito»

Poet'anarquista

DUERME NEGRITO

Duerme, duerme, negrito
Que tu mama está en el campo, negrito
Duerme, duerme, mobila
Que tu mama está en el campo, mobila

Te va traer codornices
Para ti.
Te va a traer rica fruta
Para ti
Te va a traer carne de cerdo
Para ti.
Te va a traer muchas cosas
Para ti.

Y si el negro no se duerme
Viene el diablo blanco
Y zas le come la patita
Chacapumba, chacapumba, apumba, chacapumba.
Duerme, duerme, negrito
Que tu mama está en el campo,
Negrito

Trabajando
Trabajando duramente, (Trabajando sí)
Trabajando e va de luto, (Trabajando sí)
Trabajando e no le pagan, (Trabajando sí)
Trabajando e va tosiendo, (Trabajando sí)

Para el negrito, chiquitito
Para el negrito si
Trabajando sí, Trabajando sí
Duerme, duerme, negrito
Que tu mama está en el campo
Negrito, negrito, negrito.

Jacinta
Cantora de Jazz Portuguesa

OUTROS CONTOS

«O Último Amor do Príncipe Genghi», por Marguerite Yourcenar.

«O Último Amor do Príncipe Genghi»
Conto de Marguerite Yourcenar

806- «O ÚLTIMO AMOR DO PRÍNCIPE GENGHI»

Quando Genghi, o Resplandescente, o maior sedutor que jamais surpreendeu a Ásia, atingiu os cinquenta anos, deu-se conta de que tinha de começar a morrer. A sua segunda mulher, Murasaki, a princesa Violeta, que ele tanto amara através de tantas infidelidades contraditórias, precedera-o num desses Paraísos aonde vão os mortos que conquistaram algum mérito durante esta vida inconstante e difícil, e Genghi atormentava-se por não conseguir recordar exactamente o seu sorriso ou o esgar que esboçava antes de chorar. A sua terceira esposa, a Princesa do Palácio do Poente, enganara-o com o genro, tal como ele enganara o pai nos seus tempos de juventude com uma imperatriz adolescente. Representava-se a mesma peça no palco do mundo, mas desta vez sabia que lhe estava apenas reservado o papel de velho, e a semelhante personagem preferia a de fantasma. Por isso mesmo distribuiu os seus bens, reformou os seus servos e preparou-se para acabar os seus dias num eremitério que tivera o cuidado de mandar construir na encosta da montanha. Atravessou pela última vez a cidade, seguido apenas por dois ou três companheiros dedicados que não se resignaram a despedir-se, nele, da sua própria juventude. Não obstante a hora matinal, havia mulheres com o rosto encostado às delgadas ripas das persianas. Murmuravam em voz alta que Genghi era ainda muito belo, o que provou uma vez mais ao príncipe que chegara a hora de partir.

Levaram três dias a alcançar o eremitério, situado em pleno campo silvestre. A casita erguia-se à sombra de um bordo centenário; como era Outono, as folhas daquela bela árvore revestiam-lhe o telhado de colmo com uma coberta de oiro. A vida nesta solidão revelou-se ainda mais simples e mais dura do que nos longos exílios que na sua turbulenta juventude Genghi suportara no estrangeiro, e aquele homem requintado pôde finalmente saborear à saciedade o luxo supremo que consiste em distanciar-se de tudo. Breve se anunciaram os primeiros frios; as encostas da montanha cobriram-se de neve como as amplas pregas das vestes acolchoadas que se usam no Inverno, e o nevoeiro abafou o sol. Da aurora ao crepúsculo, à parca luz de um braseiro avaro, Genghi lia as Escrituras e achava naqueles austeros versículos certo sabor de que eram doravante falhos os mais patéticos versos de amor.

Mas breve se deu conta de que estava a perder a vista, como se todas as lágrimas que vertera sobre as suas frágeis amantes lhe houvessem queimado os olhos, e teve de reconhecer que, para ele, as trevas começariam antes da morte. De quando em vez, um correio transido chegava da capital, arrastando os pés inchados de cansaço e de frieiras, e apresentava-lhe respeitosamente mensagens de parentes ou amigos que desejavam visitá-lo uma derradeira vez neste mundo, antes dos encontros infinitos e incertos da outra vida. Mas Genghi receava inspirar aos seus hóspedes mera compaixão ou respeito, dois sentimentos a que tinha horror e aos quais preferia o esquecimento.

Sacudia tristemente a cabeça, e aquele príncipe outrora famoso pelo seu talento de poeta e calígrafo mandava o carteiro de volta com uma folha em branco. Pouco a pouco, os contactos com a capital abrandaram; o ciclo das festas sazonais continuava a girar longe do príncipe, que em tempos as dirigia com um aceno do leque, e Genghi, abandonado sem pejo às tristezas da solidão, agravava sem cessar o mal que lhe afligia os olhos, pois já não se envergonhava de chorar.

Duas ou três das suas antigas amantes haviam-lhe proposto virem partilhar o seu isolamento cheio de recordações. Chegavam-lhe as mais ternas cartas da Dama-da-aldeia-das-flores-que-caem: era uma antiga concubina de casta meã e de beleza medíocre; servira fielmente de dama de honor às outras esposas de Genghi e durante dezoito anos amara o príncipe sem nunca se cansar de sofrer. Ele fazia-lhe de vez em quando umas visitas nocturnas, e esses encontros, embora raros como estrelas em noite de chuva, haviam sido o bastante para alumiar a pobre vida da Dama-da-aldeia-das-flores-que-caem. Pois que não alimentava ilusões acerca da sua beleza, nem do seu espírito, nem do seu nascimento, a Dama, única entre tantas amantes, tributava a Genghi uma terna gratidão, porquanto não achava nada natural que ele a tivesse amado.

Como as suas cartas continuavam sem resposta, alugou uma modesta carruagem e fez-se conduzir à cabana do príncipe solitário. Empurrou timidamente a porta feita de ramos entrançados; ajoelhou-se com um risinho humilde, para se desculpar de estar ali. Foi na época em que Genghi reconhecia ainda o rosto dos que o visitavam, quando se aproximavam de muito perto. Uma raiva amarga o tomou frente àquela mulher que despertava nele as mais dolorosas recordações dos dias mortos, não tanto pelo efeito da sua própria presença, mas porque as suas mangas continuavam impregnadas do perfume que usavam as suas defuntas mulheres. Suplicou-lhe tristemente que a retivesse pelo menos como criada. Implacável pela primeira vez, expulsou-a; mas ela guardara amigos entre os poucos velhotes que asseguravam o serviço do príncipe, e estes davam-lhe notícias de quando em quando. Cruel também pela primeira vez na vida, ela vigiava de longe a progressão da cegueira de Genghi, como uma mulher impaciente de juntar-se ao amante espera que a noite caia por completo.

Quando o soube quase totalmente cego, despiu a sua indumentária da cidade e cobriu-se com um vestido curto e grosseiro, como os que usam as jovens camponesas; entrançou os cabelos à maneira das raparigas do campo; e armou-se de um fardo de tecidos e de louças, como os que se vendem nas feiras de província. Assim enfarpelada, deixou-se conduzir ao sítio em que o exilado voluntário vivia na companhia dos corços e dos pavões da floresta; percorreu a pé a última parte do percurso, para que a lama e o cansaço a ajudassem a desempenhar o seu papel. A chuva miúda da Primavera caía do céu sobre a terra mole, afogando os derradeiros lampejos do crepúsculo: era a hora em que Genghi, envolto no rigor das suas vestes de monge, passeava lentamente pelo carreiro donde os seus velhos servos haviam cuidadosamente afastado o menor seixo, não fosse ele tropeçar. O seu rosto ausente, esvaziado, embaciado pela cegueira e as investidas da idade parecia um espelho plúmbeo que em tempos reflectira beleza, e a Dama-da-aldeia-das-flores-que-caem não precisou de fingir para começar a chorar.

Àquele som de soluços femininos Genghi sobressaltou-se e dirigiu-se lentamente para o lado donde vinham as lágrimas.

— Quem és tu, mulher? — perguntou inquieto.

— Sou Ukifune, a filha do rendeiro So-Hei — disse a Dama, sem se esquecer de adoptar a pronúncia da aldeia. — Fui à cidade com minha mãe, para comprar tecidos e tachos, porque me casam para a próxima lua. E eis que me perdi nos caminhos da montanha, e choro porque tenho medo dos javalis, dos demónios, do desejo dos homens e dos fantasmas dos mortos.

— Estás encharcada, menina — disse o príncipe pousando-lhe a mão no ombro.

Estava realmente ensopada até aos ossos.

O contacto daquela mão que tão bem conhecia fê-la estremecer da ponta dos cabelos aos dedos dos pés descalços, mas Genghi pensou porventura que ela tremia de frio.

— Vem para a minha cabana — retomou o príncipe com voz calorosa. — Poderás aquecer-te à minha lareira, muito embora tenha menos brasas do que cinzas.

A Dama seguiu-o, tendo o cuidado de imitar o andar simplório de uma camponesa.

Acocoraram-se os dois junto ao lume quase morto. Genghi estendia as mãos para o calor, mas a Dama escondia os dedos, demasiado delicados para uma rapariga do campo.

— Estou cego — suspirou Genghi ao cabo de um instante. — Podes despir sem pejo a tua roupa molhada, menina, e aquecer-te nua junto à lareira.

A Dama despiu docilmente o seu vestido de camponesa. O lume rosava-lhe o corpo esguio, que parecia talhado no mais pálido âmbar, De repente, Genghi murmurou:

— Enganei-te, menina, pois não estou ainda completamente cego. Adivinho-te através de uma névoa que talvez mais não seja do que o halo da tua própria beleza. Deixa-me pousar a mão no teu braço ainda tremuroso.

Foi assim que a Dama-da-aldeia-das-flores-que-caem voltou a ser a amante do príncipe Genghi, que humildemente amara durante mais de dezoito anos. E não se esqueceu de imitar as lágrimas e as hesitações de uma rapariga no seu primeiro amor. O seu corpo mantivera-se surpreendentemente jovem, e a vista do príncipe era demasiado fraca para distinguir os seus parcos cabelos grisalhos.

Chegados ao fim das carícias, a Dama ajoelhou-se aos pés do príncipe e disse-lhe:

— Enganei-te, Príncipe. Sou realmente Ukiíune, a fílha do rendeiro So-Hei, mas não me perdi na montanha. A glória do príncipe Genghi espalhou-se até à aldeia e vim por minha vontade, para descobrir o amor nos teus braços.

Genghi levantou-se cambaleante, como um pinheiro vacila ao embate do Inverno e do vento. Com voz sibilante, gritou:

— Maldita sejas, que acabas de trazer-me a lembrança do meu pior inimigo, o belo príncipe de olhar aceso cuja imagem me traz desperto todas as noites ... Vai-te daqui...

E a Dama-da-aldeia-das-flores-que-caem afastou-se, lamentando o erro que acabava de cometer.

Durante as semanas que seguiram, Genghi ficou só. Verificava com desalento que continuava enleado nos enganos deste mundo e bem pouco afeito ao despojamento e à renovação da outra vida. A visita da filha do rendeiro So-Hei despertara nele o gosto pelas criaturas de pulso esguio, de longos peitos cónicos, de riso patético e dócil. Depois que começara a cegar, o sentido do tacto era o seu único meio de captar a beleza do mundo, e as paisagens onde fora refugiar-se já lhe não dispensavam qualquer consolo, pois o barulho de um regato é mais monótono que a voz de uma mulher e as curvas das colinas ou as madeixas das nuvens são feitas para quem as vê e pairam demasiado longe para se deixarem afagar.

Decorridos dois meses, a Dama-da-aldeia-das-flores-que-caem fez segunda tentativa.

Desta feita vestiu-se e perfumou-se com esmero, mas teve o cuidado de dar ao corte dos tecidos qualquer coisa de acanhado e tímido em toda a sua elegância, e de deixar que o perfume discreto, mas banal, sugerisse a falta de imaginação de uma mulher jovem saída de um honrado clã da província e que nunca viu a corte.

Desta vez, alugou carregadores e uma liteira imponente, mas à qual faltavam os últimos aperfeiçoamentos da cidade. E arranjou maneira de alcançar as proximidades da cabana de Genghi já noite cerrada. O Verão chegara à montanha antes dela. Sentado ao pé do bordo, Genghi ouvia os grilos cantar. Ela aproximou-se, escondendo um pouco o rosto por detrás de um leque, e murmurou embaraçada:

— Eu sou Chujo, a mulher de Sukazu, fidalgo de sétima ordem da província de Yamato. Vou em peregrinação ao templo de Isê, mas um dos meus carregadores acaba de torcer um pé e não posso prosseguir caminho antes da aurora. Indica-me uma cabana onde possa hospedar-me sem receio de calúnias e dar descanso aos meus criados.

— Onde estará uma mulher nova mais abrigada das calúnias do que na casa de um velho cego? — disse o príncipe amargamente. — Minha cabana é demasiado pequena para os teus servos, que poderão instalar-se debaixo desta árvore, mas ceder-te-ei o único colchão do meu retiro.

Levantou-se tacteando para lhe ensinar o caminho. Nem uma única vez ergueu os olhos para ela, que por este sinal reconheceu que ele estava completamente cego.

Depois que ela se estendeu no colchão de folhas secas, Genghi retomou o seu lugar melancólico à entrada da cabana. Estava triste, e nem sequer sabia se aquela mulher jovem era bela.

A noite estava quente e luminosa. A lua despejava um clarão no rosto erguido do cego, que parecia esculpido em jade branco. Ao cabo de um longo momento, a Dama deixou o seu leito campestre e foi também sentar-se à entrada. E disse com um suspiro:

— Está uma noite bonita e eu não tenho sono. Deixa-me cantar uma das canções de que trago o peito cheio.

E sem esperar pela resposta entoou uma romança de que o príncipe gostava muito, pois muitas vezes a ouvira, em tempos, nos lábios da sua mulher preferida, a princesa Violeta. Perturbado, Genghi aproximou-se insensivelmente da desconhecida:

— Tu donde vens, jovem mulher que sabes cantar canções que tanto afeiçoávamos na minha juventude? Harpa onde se dedilham árias de antigamente, deixa-me passar a mão nas tuas cordas.

E acariciou-lhe os cabelos. Ao fim de um instante, perguntou-lhe:

— Ai de mim! Pois não é o teu esposo mais belo e mais jovem do que eu, jovem mulher do país de Yamato?

— O meu esposo é menos belo e parece menos jovem — respondeu simplesmente a Dama-da-aldeia-das-flores-que-caem.

Assim se tornou a Dama, sob novo disfarce, a amante do príncipe Genghi, a quem em tempos pertencera. De manhãzinha, ajudou-o a preparar umas papas quentes e o príncipe Genghi disse-lhe:

— És terna e hábil, jovem mulher, e creio que nem o príncipe Genghi, que tão feliz foi no amor, jamais teve amante mais doce do que tu.

— Nunca ouvi falar do príncipe Genghi disse a Dama sacudindo a cabeça.

— Quê? — exclamou Genghi amargamente. Pois tão depressa o esqueceram? E todo o dia se manteve sombrio. A Dama compreendeu então que se enganara pela segunda vez, mas Genghi não falava em mandá-la embora e parecia feliz de ouvir o sussurro do seu vestido de seda na erva.

O Outono chegou, mudando as árvores da montanha noutras tantas fadas vestidas de ouro e púrpura, mas destinadas a morrerem com os primeiros frios. A Dama descrevia a Genghi aqueles castanhos-cinza, aqueles castanhos-dourados, aqueles castanhos-malva, tendo o cuidado de os referir só por acaso, e evitando sempre dar mostras de ir ostensivamente em seu auxílio. E a toda a hora encantava Genghi com a invenção de engenhosos colares de flores, de pratos requintados de tão simples, de letras novas adaptadas a velhas modas ternas e dolentes. Já no seu pavilhão de quinta concubina, onde Genghi a visitara em tempos, fizera valer aqueles mesmos encantos; distraído, porém, por outros amores não dera conta deles.

Pelo fim do Outono, as febres subiram dos pântanos. Os insectos pululavam no ar empestado, e cada respiração era como um gole de água sorvido numa fonte envenenada.

Genghi caiu doente e deitou-se na sua enxerga de folhas mortas, sabendo que não voltaria a levantar-se. Envergonhava-se da sua fraqueza e dos cuidados humilhantes a que a doença o obrigava frente à Dama, mas àquele homem, que toda a sua vida procurara em cada experiência aquilo que ela tinha simultaneamente de mais único e de mais dilacerante, apenas restava provar o que aquela intimidade nova e miserável entre dois seres acrescentava às estreitas doçuras do amor.

Certa manhã em que a Dama lhe massajava as pernas, Genghi ergueu-se apoiado nos cotovelos, procurou as mãos da Dama, tacteando, murmurou:

— Jovem mulher que cuidas deste que vai morrer, enganei-te. Eu sou o príncipe Genghi.

— Quando vim ao teu encontro, não passava de uma provinciana ignorante — disse a Dama —, e não sabia quem era o príncipe Genghi. Sei agora que foi o mais belo e o mais desejado de entre os homens, mas não precisas de ser o príncipe Genghi para seres amado.

Genghi agradeceu-lhe com um sorriso.

Desde que se lhe haviam emudecido os olhos, dir-se-ia que o seu olhar lhe palpitava nos lábios.

— Vou morrer — disse a custo. — Não me queixo de uma sorte que partilho com as flores, com os insectos, com os astros. Num universo onde tudo passa como um sonho, seria censurável durar sempre. Não me queixo de que as coisas, os seres, os corações sejam perecíveis, porquanto parte da sua beleza é feita desse infortúnio. O que me aflige é que sejam únicos. Antigamente, a certeza de obter em cada instante da minha vida uma revelação que não mais se repetiria constituía o que havia de mais luminoso nos meus prazeres secretos: agora, morro envergonhado como um privilegiado que tivesse assistido sozinho a uma festa sublime que apenas terá lugar uma vez. Queridos objectos, apenas tendes por testemunha um cego à beira da morte ... Outras mulheres hão-de florescer, tão sorridentes como as que eu amei, mas o seu sorriso será diferente, e aquele sinal que me apaixonava na sua face de âmbar ter-se-á deslocado a espessura de um átomo. Outros corações hão-de ceder ao peso de um amor insuportável, mas não serão nossas as suas lágrimas. Mãos húmidas de desejo continuarão a enlear-se sob as amendoeiras em flor, mas nunca a mesma chuva de pétalas se desfolha duas vezes sobre a mesma felicidade humana. Ah! Sinto-me como um homem levado pela cheia, que quisera encontrar ao menos um quinhão de terra seca para aí deixar algumas cartas amarelecidas e alguns leques de cores já desbotadas ... Que será de ti quando já aqui não estiver para me enternecer contigo, Recordação da Princesa Azul, minha primeira mulher, em cujo amor apenas acreditei no dia seguinte ao da sua morte? E de ti também, desolada Recordação da Dama-do-Pavilhão-das-Volúveis, que morreu nos meus braços porque uma rival ciumenta teimara em ser a única a amar-me? E de vós, insidiosas Recordações da minha demasiado bela madrasta e da minha demasiado jovem esposa, que se encarregaram de me ensinar à vez quanto se sofre ao ser-se o cúmplice ou a vítima de uma infidelidade? E de ti, subtil Recordação da Dama-Cigarra-do-Jardim, que por pudor se esquivou, de tal modo que tive de consolar-me junto do seu jovem irmão, cujo rosto infantil reflectia alguns traços daquele tímido sorriso de mulher? E de ti, cara Recordação da Dama-da-Longa-Noite, que tão doce foi e consentiu em ser tão-só a terceira em minha casa e no meu coração? E de ti, pobre e breve Recordação pastoral da filha do rendeiro So-Hei, que em mim apenas meu passado amava? E sobretudo de ti, de ti, deliciosa Recordação da pequenina Chujo que neste momento me massaja os pés e nem tempo terá de ser recordação? Chujo, que gostaria de ter encontrado mais cedo na minha vida; mas também é justo haver frutos reservados para o Outono mais tardio ...

Ébrio de tristeza, deixou tombar a cabeça no travesseiro duro. A Dama-da-aldeia-das-flores-que-caem inclinou-se para ele e murmurou tremurosa:

— Não havia acaso em teu palácio outra mulher, cujo nome não pronunciaste? Uma mulher meiga? Uma mulher chamada Dama-da-aldeia-das-flores-que-caem? Ai, recorda-te ...

Mas já os traços do príncipe Genghi haviam conquistado aquela serenidade que só aos mortos é reservada. O termo de toda a dor apagara do seu rosto o menor vestígio de saciedade ou de amargura e parecia tê-lo convencido a ele próprio de que tinha ainda dezoito anos. A Dama-da-aldeia-das— flores-que-caem deitou-se ao chão, gritando para além de toda a medida; as lágrimas salgadas devastavam-lhe as faces como a chuva da tempestade e os cabelos que arrancava às mancheias voavam como penugem. O único nome que Genghi esquecera era precisamente o dela.

Marguerite Yourcenar

terça-feira, 7 de junho de 2016

SÁTIRA...

Faro Apurado
HenriCartoon

«FARO APURADO»

Tenho um faro apurado,
De cócoras muito baril…
Cheira a Mota-Engil
Este osso desenterrado.
Foi tudo negociado
Com o devido retorno,
O hemiciclo está morno
Não tem mais que farejar…
Favor é pra se pagar!...
Quem falou em suborno (?)

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

FLEETWOOD MAC - «Albatross»

Poet'anarquista

Fleetwood Mac
Banda Anglo-Americana

OUTROS CONTOS

«A Valsa», por Dorothy Parker.

«A Valsa»
A Valsa/ Escultura de Camille Claudel

805- «A VALSA»

Oh, encantada. Adoraria.

Não quero dançar com ele. Não quero dançar com ninguém. E, mesmo que quisesse, não seria com ele. Ele estaria no pé de uma lista dos dez últimos. Já vi como ele dança; parece atacado pela doença de São Guido. Imaginem, há menos de quinze minutos, eu estava com pena da pobre coitada que dançava com ele. E agora eu é que vou ser a pobre coitada. Não é mesmo um mundo muito pequeno?

E é uma delícia de mundo, também. Tudo que acontece nele é tão fascinante e imprevisível, não? Eu estava quietinha no meu canto, metendo-me com o meu próprio nariz, sem fazer mal a ninguém. E aí ele entra em minha vida, fazendo aqueles olhos e bocas, e me arrasta para uma memorável mazurca.

Ora, ele nem sabe o meu nome, e muito menos o que significa. Pois significa Desespero, Perplexidade, Degradação, Futilidade e Crime Premeditado, mas ele nem desconfia. Também não tenho a mínima ideia do seu nome, mas, pelo jeitão dele, só pode ser Jukes. Como vai, sr. Jukes? E como vai passando o seu querido irmãozinho, aquele com duas cabeças?

Por que ele teve de vir infernizar justamente a mim, com suas más intenções? Por que não me deixou cuidar da minha vida? Peço tão pouco! Só queria ficar quieta no meu canto da mesa, ruminando sozinha a minha solidão pelo resto da noite. E aí ele chega, com suas mesuras, rapapés e seus pode-me-dar-a-honra. E ainda sou obrigada a dizer que adoraria dançar com ele. Não entendo como um raio não desabou directo sobre a minha cabeça. Podem crer, um raio na cabeça seria como um fim de semana na praia, comparado ao contorcionismo de uma dança com este rapaz. Mas, o que eu podia fazer? Todo mundo já estava dançando, excepto eu e ele. Eu estava numa arapuca. Como uma arapuca dentro de outra arapuca.

O que se pode dizer, quando um rapaz nos vem tirar para dançar? Obrigada, mas não quero dançar com você, e pode ir lamber sabão. Ou então: Oh, muito obrigada, adoraria dançar, mas é que, neste exato momento, estou entrando em trabalho de parto. Ou então: Oh, claro, vamos dançar, é tão raro hoje em dia conhecer um rapaz que não tenha medo de contrair minha beribéri. Não. Eu não podia fazer nada a não ser dizer que adoraria dançar com ele. Está bem, vamos acabar logo com isso. Cara ou coroa? Deu cara, você leva.

Linda valsa, não? Dá vontade de apenas ficar ouvindo a orquestra, não? Não se importa? Oh, que linda valsa! Estou arrepiada. Não, claro, adoraria dançar com você.

Adoraria dançar com você. Adoraria também extrair as amígdalas. Adoraria estar num barco em chamas. Mas agora é tarde. Já estamos a caminho da pista. Oh. Oh, Deus. Oh, Deus, oh, Deus, oh, Deus. É ainda pior do que eu pensava. Acho que é uma das poucas coisas da vida de que sempre se pode ter certeza - tudo que promete ser ruim acaba sendo ainda pior.’ Se eu realmente soubesse como seria dançar com ele, teria fingido um desmaio ou coisa assim. Bem, acho que, no fim, vai dar na mesma.

Vamos acabar no chão em menos de um minuto, se ele continuar desse jeito. Foi ótimo tê-lo convencido de que a orquestra estava tocando uma valsa. Só Deus sabe o que teria acontecido se ele achasse que era algum ritmo mais rápido; acho que já teríamos voado pela janela. Por que ele tem essa mania de dançar no ar, em vez de ficar paradinho com você nos braços por apenas alguns segundos? É esse maldito lufa-lufa da vida neste país que é responsável por esses celerados. Ai! Puxa, pare de me chutar, seu idiota! Já é a segunda vez que você me acerta a canela. É minha canela de estimação. Tenho-a desde que era garotinha.

Oh, não, não, não. Não doeu nem um pouquinho. Além disso, foi minha culpa. Claro que foi. De verdade. Você é uma gracinha de se desculpar, mas não precisa. A culpa foi toda minha.

O que será que devo fazer: matá-lo neste exacto momento, com minhas próprias mãos, ou esperar que ele tenha um enfarte em poucos segundos? Talvez seja melhor não fazer uma cena. Acho que vou relaxar e esperar que a natureza se encarregue dele. Ele não pode manter esse ritmo indefinidamente - afinal, é apenas feito de carne e osso. Mas vai morrer pelo que fez comigo. Não pensem que sou hipersensível, mas ninguém me convencerá de que aquele chute na canela foi sem querer. Segundo Freud, não existem acidentes. Não sou do tipo enclausurada e já dancei com rapazes que me pisaram nos calos ou acertaram meus joanetes; mas, quando é a canela que está em jogo, torno-me uma besta-fêmea. Viro para o rapaz e digo: “Está bem, quando me chutar a canela, pelo menos sorria” . Talvez ele não tenha feito por mal. Podia estar apenas querendo mostrar animação. Eu deveria ficar feliz por ver que pelo menos um de nós está se divertindo. E mais feliz ainda se sair viva da pista. Não será pedir demais a um rapaz que você acabou de conhecer que ele devolva suas canelas exactamente como as encontrou? Afinal, o pobre rapaz está fazendo o melhor que pode. Provavelmente nasceu e foi criado no interior e só foi calçar botinas no exército.

Sim, é uma delícia, não é? É simplesmente uma delícia. Não é uma valsa deliciosa? Oh, eu também estou achando uma delícia.

Bem, estou positivamente à mercê de um dançarino que quer bater todos os recordes do mundo. Ele é meu herói. Tem um coração de leão e a força de um búfalo. Vejam só: não dá a mínima para as consequências, não liga para o que os outros pensam, contorce-se como se tivesse o diabo no corpo, com os olhos chispando e chamas no rosto. Pensam que vou recuar’? Mil vezes não. Afinal, que me importa passar os próximos dois anos num colete de gesso? E quem quer viver para sempre?

Oh. Oh, Deus. Ora, ele é até legal. Por um momento pensei que iam expulsá-lo da pista. Não suportaria que alguma coisa lhe acontecesse. Eu o adoro. Adoro-o mais que qualquer outra coisa no mundo. Incrível a animação que ele tira de uma valsa chocha e vulgar; em comparação, os outros dançarinos parecem uns palermas. Ele representa a juventude, o vigor e a coragem, a força e a alegria e - Ai! Saia de cima do meu pé, seu caipira! Por que não pisa em sua avó?

Não, claro que não doeu. Ora, nem um pouco. Sinceramente. E foi minha culpa. É aquele passo que você dá - uma delícia, mas difícil de seguir á primeira vez. Oh, foi você que o inventou? Mesmo? Incrível! Ah, agora acho que aprendi. Observei quando você dançava com a outra moça. É excitante!

É, é excitante. Aposto que eu também pareço excitada. Estou completamente descabelada, minha saia está toda enroscada em meu corpo, posso sentir um suor frio na testa. Devo estar parecendo algum espectro saído de “A queda da casa de Usher”. Essas coisas não devem fazer bem à saúde de uma mulher na minha idade. E ele inventou aquele passo sozinho, o tarado. Parecia meio complicado a princípio, mas agora acho que peguei. Dois tropeções aqui, uma escorrega da ali e uma deslizada de seis ou sete metros. Mas consegui. Consegui também outras coisas, entre as quais um buraco na canela e um coração em pandarecos. Detesto esta criatura à qual estou atrelada. Detestei-o desde o momento em que vi o seu olhar de soslaio naquele rosto bestial. E agora me vejo travada nos seus braços pelos 35 anos que esta valsa está durando. Será que a merda da orquestra nunca vai parar de tocar? Ou essa coisa ridícula a que chamam de dança vai durar até os quintos dos infernos?

Olhe, vão tocar mais uma. Oh, que óptimo. Que delícia. Cansada? Não, nem um pouco. Poderia continuar dançando pelo resto da vida!

Eu deveria ter dito que não estava cansada. Que estava morta. Faleci, sem motivo justo. A música não pára nunca e lá vamos nós, eu e meu pé-de-valsa, a caminho da eternidade. Acho que talvez me acostume, depois dos primeiros cem mil anos. A esta altura, nada vai importar mesmo, nem dor nem calor, nem um coração partido e muito menos um tédio cruel e mortal. Quanto mais rápido, melhor.

Não sei por que não lhe disse que estava cansada. Por que não sugeri voltarmos à mesa? Poderia ter dito, vamos apenas ouvir a música, que tal? Porque, se ele aceitasse, seria a primeira vez que ele estaria dando um tico de atenção à música naquela noite. George Jean Nathan disse que o ritmo de uma valsa deveria ser ouvido em tranquilidade e não acompanhado por estranhos rodopios das pessoas: Bem, seja o que for que Nathan esteja fazendo neste momento, está melhor do que eu. Pelo menos está seguro. Qualquer pessoa que não esteja valsando com aquela vaca da sra. O’Leary, responsável pelo grande incêndio de Chicago, deve estar se divertindo muito.

O problema é que, se voltássemos para a mesa, teria que conversar com ele. E o que eu poderia perguntar a uma mula dessas? Já foi ao circo este ano? Qual é o seu sorvete favorito? Como você pronuncia gato? Melhor ficar por aqui mesmo, na pista de dança. É quase tão bom quanto estar dentro de uma betoneira ligada.

Já nem sinto mais nada. Só percebo quando ele me pisa nos calos porque ouço o esmigalhar dos ossinhos. E tudo de importante que me aconteceu na vida passa diante dos meus olhos. Revejo aquele dia em que estive no centro de um furacão nas índias Ocidentais; lembro o dia em que rachei a cabeça numa batida de carro; houve aquela noite em que a dona da festa, bêbada, jogou um cinzeiro de bronze em seu namorado e acertou em mim; para não falar num verão em que o barco virou de borco. Ah, que bons tempos e que tranquilidade … até cair nas garras deste monstro aqui. Nunca soube o que eram problemas, até ser arrastada para essa danse macabre. Acho que minha mente vagueia. Até parece que a orquestra parou. Não pode ser. Nunca poderia ser. E, no entanto, em meus ouvidos, há um silêncio que parece produzido pelos anjos …

Oh, eles pararam de tocar, aqueles cretinos. Não vão tocar mais. Oh, droga. Você acha que eles vão voltar? Acha mesmo, se você lhes der 20 dólares? Oh, seria incrível! E, olhe, peça-lhes para tocarem de novo aquela mesma valsa. Eu poderia dançar com você pelo resto da vida.

Dorothy Parker

segunda-feira, 6 de junho de 2016

SÁTIRA...

Sentido Democrático
Sátira...

«SENTIDO DEMOCRÁTICO»

Meus caros amigos:
Não deixa de ser democrático,
Igualmente carismático
Eu ter tantos inimigos.
Corremos alguns perigos…
Desde logo a Europa,
Esta malta não topa
Que posso perder o tacho…
Sabem o que acho?
É tudo a mesma tropa!

POETA

OUTROS CONTOS

«O Caçador Simão», conto poético por Guerra Junqueiro.

«O Caçador Simão»
Poema de Guerra Junqueiro

804- «O CAÇADOR SIMÃO»

Jaz el-rei entrevado e moribundo
Na fortaleza lôbrega e silente…
Corta a mudez sinistra o mar profundo …
Chora a rainha desgrenhadamente …

Papagaio real, diz-me quem passa?
- É o príncipe Simão que vai à caça.

Os sinos dobram pelo rei finado …
Morte tremenda, pavoroso horror!...
Sai das almas atónitas um brado,
Um brado imenso d’amargura e dor …

Papagaio real, diz-me, quem passa?
- É el-rei D. Simão que vai à caça.

Cospe o estrangeiro afrontas assassinas
Sobre o rosto da pátria a agonizar …
Rugem nos corações fúrias leoninas,
Erguem-se as mãos crispadas para o ar!...

Papagaio real, diz-me quem passa?
- É el-rei D. Simão que vai à caça.

A Pátria é morta! A Liberdade é morta!
Noite negra sem astros, sem faróis!
Ri o estrangeiro odioso à nossa porta,
Guarda a Infâmia os sepulcros dos Heróis!

Papagaio real, diz-me, quem passa?
- É el-rei D. Simão que vai à caça.

Tiros ao longe numa luta acesa!
Rola indomitamente a multidão …
Tocam clarins de guerra a Marselheza …
Desaba um trono em súbita explosão!...

Papagaio real, diz-me, quem passa?
- É alguém, é alguém que foi à caça
Do caçador Simão!...

Guerra Junqueiro

quarta-feira, 1 de junho de 2016

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

RON WOOD - «Don't Worry»

Poet'anarquista

Ron Wood
Guitarrista Britânico

OUTROS CONTOS

«Anel», conto poético por Camilo Castelo Branco.

«Anel»
Poema de Camilo Castelo Branco

803- «ANEL»

Dá-me um anel; mas que seja
Como o anel em que cingida
Tem gemido toda a minha vida.
Dá-me um anel; mas de ferro,
Negro, bem negro, da cor
Desta minha acerba dor,
Deste meu negro desterro!

Dá-me um anel; mas de ferro...
Sempre comigo hei-de tê-lo;
Há-de ser o negro elo,
Que me prenda à sepultura.
Quero-o negro...seja o estigma,
que decifre o escuro enigma,
Duma grande desventura.

Dá-me um anel; mas de ferro,
Que resista mais que os ossos
Dum cadáver aos destroços
Do roaz verme do pó.
Entre as cinzas alvacentas,
como espólio das tormentas
Apareça o ferro só.

E o teu nome impresso nele,
Falará dum grande amor,
Nutrido em ânsias de dor,
Pelo fel da sociedade...
Que teu nome nele escrito,
Nesse padrão infinito,
Vá comigo à Eternidade.

Camilo Castelo Branco

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(Escolha musical da blogosfera)

CELINA DA PIEDADE - «Ceifeira»

Poet'anarquista

Celina da Piedade
Cantora e Acordeonista Portuguesa