sexta-feira, 22 de agosto de 2014

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(20 de Agosto de 1948, nasce o músico, cantor e compositor britânico de hard-rock, 
membro do famosa banda Led Zepellin, Robert Plant)

ROBERT PLANT - «Another Tribe»
Another Tribe by Robert Plant on Grooveshark
Poet'anarquista

OUTRA TRIBO 

Outra tribo... outro irmão
dividido entre a amante e a arma
Outro deus... outra mãe
Choras para justificar o dano feito

Gostaria de saber através das mentiras e sujeira
Eu me pergunto, se os mansos herdarão toda a terra?

Como colide verdade com propaganda
Apenas mais uma vítima em fuga
O mundo, lá fora, toda fofa e sinceridade
Procura justificar o dano feito

Não admira, tanta dor e mágoa
Eu me pergunto, se os mansos herdarão toda a terra?

Eu acho que pode haver... uma guerra no céu
Paraíso sob a arma fumegante
Como todos os santos e pequena cidade salvador
Corrida para justificar o seu escolhido

Eu me pergunto, como colide o nosso mundo
Quero chegar lá
Através da grande divisão

Robert Plant

OUTROS CONTOS

«O Azar», conto poético por Matias José.

«O Azar»
Horta da Vinha

244- «O AZAR»

O azar bateu à porta
Entrou sem pedir licença,
Arrasou a nossa horta
Com grande indiferença.

De olhar amargurado
Só me apetecia chorar...
Todo o espaço violado,
 Não queria acreditar!

Mas tudo tem solução
(Menos a morte, é sabido)
Quando há força de união!

O hortejo foi destruído...
Resta por fim a consolação,
Que nem tudo está perdido!

Matias José

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

OUTROS CONTOS

«Um Conto de Natal», por Alexandre O'Neill.

«Um Conto de Natal»
Ilustração de Danuta Wojciechowska

243- «UM CONTO DE NATAL»

A ideia de há muito que o andava a desassossegar. Depois dos primeiros ensaios de auto-apoucamento, Valério conseguiu um primeiro grande resultado: meter-se todo, todinho, numa das pernas (por sinal, a esquerda) do par de calças de sarja que comprara nas Confecções Nilo por trezentos convidativos escudos. Com voz-de-dentro-de-calça chamou a mulher:

- Ó Quinhas anda ver!

Quinhas levou um susto ao dar com uma perna de calça sustentando-se em pé sem, aparentemente, homem lá dentro. Logo se refez para fingir que não era capaz de o encontrar:

- Mas onde é que se teria metido meu Lèrinho!

- Aqui, sua estúpida! – desabafou-abafou a voz de Valério.

Quinhas continuava a brincadeirinha apalpando a perna vazia e bichanando:

- Lèrinho, Lèrinho!

Quando Valério, por fim, se libertou da perna da calça e retomou o seu (natural) ascendente, trocaram prazenteiramente insultos como só os casais muito unidos sabem trocar.

Quinhas seguira os exercícios de auto-apoucamento de Valério. Este começara a enovelar-se pelos cantos da casa: passara de seguida aos gavetões da cómoda e acabara por ser encontrado numa das gavetas da mesa da cozinha. Dessa feita, Quinhas gritara. É que Valério saltara lá de dentro e avantajara-se brandindo aos urros um facalhaz.

- Que horror, querido, pareces um cossaco! – dissera Quinhas que, no autocarro dessa manhã, lera nas Selecções um artigo dum biólogo americano sobre cossacos.

E, então, solenemente, como só os casais muito amigos sabem fazer, combinaram logo ali que Valério, por mais apoucado e encafuado que estivesse, não pregaria sustos daqueles à sua Quinhas. E beijocaram-se, prazidos. Os exercícios de auto-apoucamento de Valério tinham um fim: preparar a grande surpresa para o Necas, quando ele viesse a férias pelo Natal. E vai daí – como o tempo corre! – o Necas veio. Valério considerou o filho com apreensão. Valeria a pena a surpresa? Necas estava tão grande! Aquela sombra no beiço, aquela voz do peito pontuada de estridulações…

- Ora, o Necas é ainda tão criança! – sossegou-o Quinhas.

Criança que era, o Necas só muito raramente acordava no meio do sono com as movimentações tardias que naquela casa estavam a ser o teor diário. Mas na véspera do Natal, o silêncio foi inesperadamente tão grande que o Necas passou toda a noite numa excitação que nem te digo. Coisas de crianças, coisas da quadra?

Ao levantar-se, pés nus, para ir ver o sapatinho, o Necas já ia a bordo dos patins que a mãe lhe prometera. Quando deu com o pai, apoucado, a acenar-lhe amigavelmente da amurada do sapato, Necas fugiu a procurar no regaço de Quinhas a verdadeira dimensão do seu horror:
- Sa…Sa…Saiu-me o…o… o pai no sa…sa…sapato! – soluuuuçava o órfão de vivo. E a mãe, ultrapassada pela reacção do Necas, consolava-o como ia podendo, prometendo-lhe que o pai voltaria a crescer, a crescer. 

Alexandre O’Neill

CARTOON versus QUADRA

Moda Solidária
HenriCartoon

«MODA SOLIDÁRIA»

- Água, por favor!... bebo da rede…
Sirva-me um metro cúbico!!

- Primeiro está o banho público,
Se sobrar, pode matar a sede…

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(21 de Agosto de 1904, nasce o compositor e pianista de jazz norte-americano, Count Basie)

COUNT BASIE - «Blues in the Dark

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

CARTOON versus QUADRA

Políticos Aderem ao Banho Gelado

HenriCartoon

«POLÍTICOS ADEREM AO BANHO GELADO»

Banho gelado, seus caras de pau!!!
Político quer-se bem geladinho...

(...?...)

Sobra pra mim tudo o que é mau,
Assim estou eu... congeladinho!

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

TALITHA MACKENZIE
«Rol Hol Ill Leó»

OUTROS CONTOS

«O Desejo de Ser Inútil», por Hugo Pratt.

«O Desejo de Ser Inútil»
«Corto Maltese e Tebocua», por Hugo Pratt

242- «O DESEJO DE SER INÚTIL»
[Excerto]

“Descolamos, imediatamente, e o meu companheiro de viagem leva-me então aos índios Chavantes – no Brasil escreve-se «Xavantes» –, que me descreveu como boa gente, muito simpáticos. Mas eles são realmente simpáticos, e aprendi a viver com eles. Comunico mediante desenhos.

Felizmente, tinha comigo o meu material de desenho… Viam-me trabalhar e ficavam fascinados com a minha mão, faziam-me desenhar quase sem parar. Como o americano nunca mais vinha buscar-me, ao cabo de alguns dias integraram-me numa família. Havia tantas famílias quantas as mulheres. Os homens eram mais numerosos e, consequentemente, os Chavantes praticavam a poliandria. Cada mulher tinha quatro maridos. Foi assim que na Amazónia eu tive um filho, Tebocua. Só o soube dois anos mais tarde, em 1966, aquando de uma nova estadia no Brasil. Alguém que fora ver os Chavantes contara aos meus amigos Lipszyc e Lisboa que nascera um menino mestiço, e que os índios diziam ser o filho de Hugo – de “Uca”, como eles me chamavam.

Para compreender bem os Chavantes, eu comecei a organizar um pequeno dicionário da sua língua. E até fiz parte das suas sociedades secretas! Os homens reuniam-se entre eles e era suposto ocuparem-se de magia, mas na realidade ficavam sentados, a fumar. Quando lhes perguntei que magia havia afinal naquilo, deram-me a entender que os ritos mágicos eram um mero pretexto para ficarem sossegados, entre homens, longe das mulheres e das suas histórias. No fundo, era o mesmo princípio dos clubes da alta sociedade britânica: entre um guerreiro da tribo dos Chavantes e um coronel do exército das Índias, não havia grande diferença.

Quanto a Tebocua, é hoje um belo jovem de vinte e cinco anos. É cor de chocolate com leite, com olhos verdes. Quando ri, leva a mão à boca, porque entre os Chavantes mostrar os dentes é sinal de agressividade. Eu propiciei-lhe a riqueza, levando-lhe uma lata de anzóis. Ele vende anzóis, e o negócio corre-lhe bem: a minha pequena prenda fez dele um dos homens mais importantes da tribo”.

Hugo Pratt

terça-feira, 19 de agosto de 2014

CARTOON versus QUADRAS

A Nova Marca
HenriCartoon

«A NOVA MARCA»

- Bora lá, cambada… tudo a pensar
Num novo nome pró Novo Banco…
Ou ainda estão todos em branco?
Vamos pôr os crânios a trabalhar…

- Eu já escolhi, senhor presidente…
E que tal se lhe chamarmos BES?

- Esse era o nome de antigamente,
E está conectado com uma má rés!

- Presidente, só a sigla continua igual…
Agora é o Banidos Espíritos Santos,
De espírito antigo já não são tantos…?
Que dizem desta ideia fenomenal??

POETA

OUTROS CONTOS

«A Rela», conto poético por Matias José.

«A Rela»
Poética Popular

241- «A RELA»

Quase desidratada plo calor
No depósito d’água esvaziado,
Emergiu rela de castanha cor
Que aí havia pernoitado.

Depositei-a junto à hortelã
Virada ao sol de fim-de-tarde,
Para despertar pela manhã
E poder sentir-se em liberdade.

 Resolveu ela (eu senti mágoa?)
Ao mesmo sítio querer voltar…
Mas com o depósito raso d’ água
Não corria perigo em desidratar.

Surgiu do nada!... e logo saltou
Para a borda onde ficou segura,
Foi quando a dúvida se instalou:
Seria então a mesma criatura?

Aí permaneceu muito serena
Parecia até me conhecer,
E eu indagando sobre a cena:
 És quem não deixei morrer?

Logo de pronto fiz menção…
(Não sem antes me questionar)
Movimento rápido com a mão
E a rela castanha apanhar…?

De seguida observei: o ideal!...
Vou tentar bem de mansinho
Fazer-lhe festa no saco vocal,
Com o meu dedo mindinho.

Duvidei ainda desse intento…
Mas lá avancei com cautela
Nesse ténue movimento…
Finalmente acariciava a rela!

E o sucedido voltou a ter bis!...
No mesmo poiso à minha espera
Encontrava-se ela muito feliz!!
(Não se tratou duma quimera)

Matias José

OUTROS CONTOS

«Urbano – As Duas Caras», por Vera Lagoa.

«Urbano – As Duas Caras»
Duas Caras/ Picasso

240- «URBANO – AS DUAS CARAS»

Já esperavas. Já esperavas, Urbano. Já esperavas, Urbano Tavares Rodrigues. Pediu-me um amigo íntimo (dos dois) que te poupasse. Sempre tinhas sido o “nosso” Urbano. Mas tu, o “nosso”, esqueceste-te de quem te estimou e rodeou de carinho a vida inteira. Tu esqueceste-te dos teus amigos para endeusares os teus colegas do MUTI, do “PC” e indústrias correlativas. Tu provocaste-me, chamando fascista ao jornal onde trabalho, conhecendo-me há mais de vinte anos, tendo acompanhado a minha luta. Sabias, pois, que eu não me calaria. E, afinal, não tenho muito para dizer. Ou melhor. Tenho, mas não digo. Contendo-me, para te revelar como “revolucionário”, em contar a tua mania das dedicatórias, a tua colaboração íntima e ternurenta (és um poço de ternura) com altas figuras do regime deposto e com os escritores, teus colegas, da direita. Ser da direita não envergonha ninguém. Mas é preciso e necessário ter coragem para sê-lo. Navegar entre duas águas é que não. Sabes a que me refiro.

«Homenagem a Salazar»

Tu, Urbano, um homem “sempre, sempre ao lado da esquerda”, não colaboraste na Távola Redonda e no Graal dirigidos por António Manuel Couto Viana, esse, sim, um homem de direita? Até fazia parte do Conselho de Redacção o Goulart Nogueira, que também não enjeita a cor política que prefere. Ora ninguém, ao que me parece, te obrigou a colaborar. Foste voluntário.

Mais. Gabavas-te a esses teus amigos (és capaz de agora não lhes falar) de Salazar ter prestado homenagem à tua prosa. E fala-se muito (infelizmente não tenho o livro em meu poder) duma dedicatória tua feita ao prof. Marcelo Caetano. Acho que esse livro anda por Coimbra. Mas tu deves saber.

A respeito de dedicatórias, lembro-me das tuas “Jornadas na Europa”, dedicadas a Marcelo Matias! A Marcelo Matias, Urbano, que não era, precisamente, o expoente máximo da esquerda portuguesa…

Pois, falemos de dedicatórias. Tenho na minha frente (eu ia lá perder essa preciosidade!), asJornadas no Oriente, editadas pela Bertrand em 1956. Com uma dedicatória linda como todas as que me fizeste nos livros que me ofereceste, mas “dedicada” a obra ao “comandante Sarmento Rodrigues” (também será da esquerda?) e à guarnição do ‘Bartolomeu Dias’ na Volta da Índia”.

«Ao Lado dos Soldados… Rapagões Viris…»

Falemos, Urbano, violeta deliquescente, no capítulo VI do mesmo livro. Aqui vai:

“… A presença portuguesa em Goa, no passado e no presente, fez-me vibrar, irresistível, emocional, instintivamente. Ao lado dos nossos soldados, que aqui velam pela continuidade de Portugal em Goa, eu sentir-me-ia honrado, feliz, por dar a este solo ardente, se preciso fosse, o sangue que me corria nas veias. Aqui redescobri, não com a mente, que de há muito o sabia, mas com os nervos, que Portugal não é na verdade europeu, senão verdadeiramente universal.”

E mais adiante:

“… Rapagões azambrados de Trás-os-Montes, toscos e viris como a rocha e a torga das suas serras, grossos e entroncados pegureiros beirões, lépidos estremenhos maliciosos, esbeltos e aquilinos alentejanos meditativos, todos eles, soldados de Portugal, aqui estão, na brecha, dispostos a lutar ao sol pela Pátria e a morrer, se lhes couber a sorte, no caminho da honra. E não levam na boca nem o ódio, nem o insulto, incompatíveis com o verdadeiro valor.”

Não posso deixar de comentar. Quando Salazar enviou o célebre telegrama mandando que morressem para salvar Goa, não me lembro, Urbano, de teres concordado com ele. Todos nós (recordas-te?) achámos que Goa devia ser livre. E tu não vieste a público brandindo o teu livro e oferecendo-te para “ali derramares o sangue que te corre nas veias”. E aplaudiste os “rapagões azambrados de Trás-os-Montes, os aquilinos alentejanos, os lépidos estremenhos maliciosos”, etc., por lá não terem morrido. Quantas palavras tens, Urbano Tavares Rodrigues.

«Em que Fronteira Estás?»

Estou magoada, Fui muito amiga do teu pai, que hoje choraria por te ver nesta coluna de falsos revolucionários. Mas não te posso poupar. Aliás, aqueles que aqui descrevo são quase todos amigos. Ou antes. Eram-no até ao 25 de Abril, que os revelou, que nos revelou a todos. Aos nossos olhos e aos olhos de todo o mundo. Quem era cobarde, mostrou-o com demasiada evidência. Quem era valente também não o escondeu. Diz-me, Urbano, em que fronteira estás?

Voltemos às Jornadas no Oriente.

Continuamos a ler o teu livro que eu não vendia por uma fortuna e chegamos à página 92, quando tu falas da “Homenagem à memória dos heróis de Dadrá”:

“… Foi colocada mais uma lápide alusiva à morte heroica de Aniceto do Rosário e de António Fernandes. Aqui ouvi da boca do povo, repetida com emoção, a frase que Aniceto do Rosário disse ao governador de Damão, quando, pela última vez, este, apreensivo, o visitou no seu posto: ‘Parta V. Excelência descansado que, haja o que houver, não deixarei mal a bandeira de Portugal’. Palavras belas! Mais belo ainda foi o gesto que as confirmou. Aniceto do Rosário escolheu a morte, com plena consciência do seu acto. Natureza simples, etc., etc.”

E ainda:

“A expressão dos seus rostos não enganava. São homens prontos a dar a vida por uma realidade abstracta que os embriga e os transcende: Portugal.

“Diante do monumento aos heróis, perante a heterogénea população de Damão, ali reunida, sob os coqueiros e as mangueiras da praça, com o sol a pino, ardendo, rútilo, no céu lavado da Índia, houve uma cerimónia breve, mas impressionante.

Dois pelotões de Caçadores, marciais, de capacetes fúlgidos, um pelotão da Polícia, não menos aprumado, de farda de caqui, e um castelo da Mocidade formaram o largo. Em frente do monumento postaram-se os guarda-marinhas, de espada nua. Um deles, quando cessaram os últimos acordes do hino nacional, depôs um ramo de flores do pedestal e dirigiu uma rápida alocução ao povo de Damão, exaltando a sua lealdade e a sua coragem, traduzidas e simbolizadas no holocausto de Aniceto do Rosário e de António Fernandes.”

---

Pois, Urbano, tu cantaste a homenagem aos heróis de Dadrá (sendo um deles da PIDE) com um nacionalismo, um entusiasmo, um amor a Portugal Colonial por nenhum outro igualado. Consultando os jornais da época, não se encontra amor mais extremado, mais vontade de ali morrer, mais desejo de ali “deixar correr, em defesa de Portugal, o sangue das veias.”

Para um vulto hoje lutador pela independência dos povos colonizados, um homem tão perseguido pela PIDE, um homem que tanto sofreu com os rigores do antigo regime, deves confessar que o teu entusiasmo pela colonização da Índia te deixa ficar um pouco mal.

«Tinhas Muito Mau Hálito!»

Foste um homem de esquerda. Mas não muito. Eu vi. Eu assisti à tua chegada a Portugal, vindo de Poitiers ou Montpellier ou coisa parecida, magro, moreno, olho quebrado, oferecendo o sangue das tuas veias a Portugal e a todas nós, mulheres do teu país. Tinhas uma fragilidade que aproximava, uma fragilidade que provocava da nossa parte a tal necessidade de te proteger. Usavas e abusavas disso. Embora eu não estivesse imune a esse género de homem (elas, bem pelo contrário…), a ti, Urbano, nunca me foi difícil resistir. Eras um homem sem espinha dorsal e… tinhas muito mau hálito.

«O Triste Caso da Sociedade Portuguesa de Escritores»

O que, verdadeiramente, começou a afastar-me de ti foi a atitude que tomaste quando do célebre e triste caso da Sociedade Portuguesa de Escritores.

Nessa altura, eu tomei decididamente uma atitude, decididamente deixei de falar a quem devia deixar de falar (não nomeio, porque hoje está vencido e eu não ataco vencidos) e tu continuavas terníssimo para com essa criatura. Um dia, na praia, no Algarve, na areia, muito ao fim da tarde, com a tua mulher, grande escritora e digníssima mulher, comentámos o facto. Eu apontava-te o romance que esse escritor (dum escritor se tratava) acabara de escrever pondo de rastos, enlameando, duas presas políticas portuguesas, que tu conhecias, que eu conhecia, que a Maria Judite conhecia. E eu explicava-te que não podia haver duas atitudes. Tua Mulher concordava comigo. Mas tu, mexendo na areia, sorrindo tristemente, explicavas que não te era possível tomar atitudes, cortar com essas pessoas. Muito longa seria esta história, mas como disse, não quero tocar mais no assunto. Só quero mostrar que foste sempre assim. Bem com uns e com outros. Indignado nas reuniões de escritores e afável e ternurento quando encontravas na rua as pessoas a quem os escritores não falavam.

«Violeta Roxa… e Branca»

Duas caras, Urbano. Violeta roxa… e branca, no mesmo pé. Foste sempre um homem protegido. Tiveste sempre muito trabalho. Colaboraste assiduamente no SNI e, não quero jurar, mas julgo que recebeste mesmo um prémio da dita organização.

Eras o nosso Urbano nacional. As esquerdas louvavam-te e as direitas… sorriam-te.

Agora, passado o 25 de Abril, não me consta que tivesses ido visitar à prisão o almirante Sarmento Rodrigues que cantaste tão ardentemente nas Jornadas.

Não. Não ouvi dizer que lá tivesses ido. E essas coisas sabem-se sempre…

Quando frequentavas a casa do Augusto de Castro, como te derretias com o dono da casa e seus convidados. Que não eram, note-se, figuras de esquerda. Oh, não!

A tua indignação contra os jornais independentes não tem limites. “Fascista e fascizante” foi o menos que chamaste a este jornal que também dirijo. Tu, Urbano, em consciência, sem ser para agradar aos teus novos senhores, podias chamar-me fascista ou fascizante? Podias?

Já depois do 25 de Abril, já depois da revolução que mostrou as nossas verdadeiras caras (como, por exemplo, a tua e a minha) na Galeria de S. Mamede, em noite de exposição, pedias a um canto, com a tua voz mais macia, mais aveludada, à Manuela de Azevedo que servisse de empenho para o teu irmão Miguel (que tinha chegado ou estava a chegar) entrar para o Diário de Notícias. A Manuela de Azevedo não é pêcê, mas servia-te. Influenciaria o Ribeiro dos Santos e arranjava-se um trabalhinho para lá infiltrar o Miguel, arcanjo de que também me ocuparei nestas colunas. Não é preciso ir muito longe para saber a história do mano. Senti-a na pele. Fui vítima da “generosidade e camaradagem” do mano Miguel. Mas, adiante. Não é dele que se trata.

«Comunistas, Essa Populaça Hedionda»…

Não posso acabar sem me referir à tua primeira edição, de A Porta dos Limites, feita pela empresa do Diário de Notícias, em 1952. A 2ª edição, feita pela Arcádia, é de 1960. Nesta suprimiste a novela “Se Nós não Sabemos!...” É ambientada em Espanha e trata da guerra civil de 1936-39, numa perspectiva pró-franquista. Eis dois trechos significativos:

“… eu visionava os campos de Aragão, escorrendo sangue; as estradas desertas, onde se erguiam os letreiros do medo e do espanto, por onde passavam camiões carregados de espingardas e onde soava a risada suja e cruel da “milícia roja”: via as “milicianas”, apeando-se dos carros da morte para desfeitearem os feridos; e relembrava as notícias que então lera num grande assombro: o julgamento desse jovem inspirado, figura de lenda, José António Primo de Rivera; o “bluff” de Sevilha, as batalhas, Talavera, a gesta épica de Toledo, os bombardeamentos atrozes de Barcelona” (páginas 149-150).

“… Não eram os idealistas que se batiam pela legalidade democrática (como também havia) que violavam e fuzilavam a todas as horas do dia luminoso: eram os voluntários comunistas, a populaça hedionda, escumante, cega, vingativa, que exigia a desforra da longa sujeição e crucificava os pálidos senhoritos, culpados de haverem nascido do outro lado. E vira mais: vira crianças empaladas nas grades dos jardins senhoriais, à porta das cidades sarracenas que eram a graça e o sorriso de Espanha: vira-lhes os corpos pequeninos roxos e descompostos; e vira o sangue que tinha pingado, que se apagaria amanhã daquela terra, mas dos seus olhos nunca mais” (páginas 150-151).

A respeito desta novela, Urbano, o Carlos de Oliveira disse-te: “Aquilo até tem piada, mas não se compreende.” E tu, sempre conciliador, respondeste; “Sabe, aquilo é uma história que me contaram em Espanha, e ao contrário, mas se a publicasse, a censura cortava-ma.”

Para quem escrevias, Urbano?

Afinal razão tem um amigo meu que me disse ultimamente que andavas com a cara de “lâmpada fundida”.

Quanto ao Romanceiro Português, de 1956, um antologia editada pela Campanha Nacional de Educação de Adultos, o volume XXX da Colecção Educativa traz, à entrada, antes do prefácio, esta epígrafe:

“É certo que a humanidade acaba sempre por encontrar o seu caminho. Não está aí o problema. O problema está em que o encontre limpo de ruínas e isento de sofrimentos sem conta e sem par que são o preço por demais elevado de algumas viragens na história – SALAZAR”

Foste tu quem o citou, Urbano. Esta é a tua obra.

«Tens o Linfático Aspecto duma Camélia Melada»

Tu agora és PC convicto. Que assim continues é o que desejo, porque ao menos sempre tinhas tomado uma atitude definitiva. Mas se o PC se apaga?

Adeus, suave Urbano, nosso antigo Urbano nacional.

Conhecendo-te como me conheces, deves ter visto como te poupei. Hoje estou muito generosa.

Se tens memória, Urbano, que julgo não tens, já te esqueceste, certamente, dos serões em minha casa, quando procuravas intensamente agradar ao Eugénio Montes, meu amigo antigo. Não só procuravas a sua influência para ti, como a procuravas para os outros. Lembro-me, como se fosse hoje: eu morava naquela casita da Rua da Artilharia Um, que tinha um pé de glicínia no quintal, e tu lá levaste um poeta chatíssimo para que o Eugénio o ouvisse e apadrinhasse. O poeta lia os seus poemas e o Eugénio, maçado, dizia: “Adelante, adelante”. Foi um horror. Claro que o poeta que levaras pela mão ficou sem prefácio, a grande amizade do Eugénio perdoou o serão frustrado, mas tu ficaste muito triste.

O Eugénio Montes continua, já lá vão vinte e cinco anos, a ser um dos teus maiores amigos e continua da direita. E tu?

“Tens o linfático aspecto duma camélia melada”.

Vera Lagoa 
(Revolucionários que eu conheci, edição Intervenção, 1977) 

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(19 de Agosto de 1999, morre o cantor e guitarrista norte-americano, Johnny Guitar)

JOHNNY GUITAR - «Gangster of Love»
Johnny Guitar - Gangsta Of Love by Johnny "Guitar" Watson on Grooveshark
Poet'anarquista

GANGSTER DO AMOR

Jesse James and Frank James,
Billy the Kid e o resto,
Conhecidos por serem homens maus
Lá no oeste.

Mas quando eles me viram
E meus jeitos de gangster,
Eles largaram suas armas
E foram para suas sepulturas.

Porque eu sou um gangster do amor,
Digam, eu sou gangster do amor .
Oh, tudo bem agora,
E quando eu desço a rua
Todas as garotas que eu conheço
Dizem: «eu sou um gangster do amor».

(yeah!)

Eu roubei num concurso de beleza local
A ganhadora do primeiro lugar.
Eles encontraram-me com ela em Hollywood,
Comendo um bife de jantar.
Eles tentaram levá-la de volta
Para pegar seu prémio.
Ela parou e lhes disse:
«Vocês não toparam que ele é um gangster do amor».

E pela manhã,
Gangster do amor.
(Uuh yeah, agora!)
Quando eu entro num bar,
Garotas daqui e de lá,
Dizem: «ele é um gangster do amor».

(isso aí!)

Eu entrei no meu Cadillac branco,
Eu dirigi no estacionamento,
Eu espero 65 garotas,
Eu beijei todas ao mesmo tempo,
Eu peguei 25 ou 30,
Eu pus todas num frete,
Um milhão de recompensa,
Em cada e todos os estados,
Xerife disse: «você é Johnny «Guitar» Watson?»
Numa voz rouca…
E eu respondi «sim Sr.xerife, e aquela é a sua
Esposa no banco de trás do meu carro»

Porque eu sou um gangster do amor
Eu sou um gangster do amor

(yeah!)

E quando eu desço a rua,
Todas as garotas que eu conheço
Dizem: «eu sou um gangster do amor»

Johnny Guitar

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

OUTROS CONTOS

«A Rela», pequeno conto por Matias José.

«A Rela»
Pequeno Conto de Matias José

239- «A RELA»

Quase todos os dias pela tardinha repete-se o ritual. Corda nos sapatos e aí vou eu a caminho da Horta da Vinha (fui eu que a baptizei assim por se encontrar na extrema da extinta vinha da Pipeira, outrora «Campo de Experiências»). Com seu poço d’água e tanque lateral que noutro tempo serviu de apoio para rega do hortejo, encontra-se delimitado por colunas de granito no espaço que o circunda. Fez-se agora estrutura em madeira e cobertura em canas para embarrar as videiras que partem de cada uma das colunas, e desse modo se usufruir de sombra nos dias quentes de verão. Também se construiu mesa debaixo do mesmo espaço (pedra grande em xisto que se apoia em cinco paus de cerca), e a que dei o nome de «Anta». A rega utilizada é 'gota a gota', com um depósito de 1000 litros que serve de apoio a todo o hortejo. Uma bomba é o sistema utilizado para tirar água do poço, trabalhando com o auxílio de um gerador a gasolina. Muito simples. 

Mas não é sobre isso que vos quero falar. O que hoje me motivou a escrever chama-se rela (ou pequena rã), uma história de amizade ou talvez muito mais que isso.

O depósito d’água, não havendo qualquer percalço, leva cerca de 20 minutos até ficar repleto. Certo dia ao verificar se ainda faltava muito para estar cheio, comecei por observar à tona d’água relas mortas que surgiam à superfície. Fui retirando todas as que pude para dentro de uma garrafa de litro e meio de água. Contei 25 relas mortas. Quando me preparava para as jogar em terra, reparei que dentro da garrafa algo se tinha mexido... e tinha razão! Uma rela, de cor castanha, agitava sofregamente as suas patinhas. Retirei-a, e a coloquei ao sol. As restantes estavam efectivamente mortas, mas a rela de cor castanha havia resistido ao calor no fundo do depósito d’água. Eu a tinha salvo, e ela podia seguir o seu caminho. Assim aconteceu nesse certo dia que vos falo.

Mais tarde (ou melhor, em outro certo dia), o mesmo ritual de encher o depósito; e quando este se encontrava quase cheio, saltou do seu interior uma rela ficando segura na borda ou boca do depósito, virada na minha direcção. Pensei de imediato em apanhá-la, mas logo desisti da ideia. Disse para com os meus botões: «talvez ela me deixe fazer uma festa… quem sabe? Não querias mais nada, fazer festas a uma rã… só em sonhos!». 

Então avancei com o dedo mindinho e acariciei o seu saco vocal ou membrana de pele. E a rela de cor castanha assim permaneceu imóvel o tempo todo, talvez na procura de uma antiga amizade.

A cena já se repetiu… 
eu e a rela de cor castanha estamos definitivamente ligados! 

E só nós dois é que sabemos…

Matias José

ESPECIAL MÚSICAS DO MUNDO

E a música especial de hoje é...
(18 de Agosto de 1842, morre o compositor português João Domingos Bomtempo)

JOÃO DOMINGOS BOMTEMPO

Requiem in C-minor, Op.23 «À memória de Camões»
Poet'anarquista

CARTOON versus SEXTILHA

O Calduço

HenriCartoon

«O CALDUÇO»

- Zé, o tabefe que acabas de levar
Não foi meu, foi do Constitucional!

- Não usamos violência para julgar…
Senhor Zé, eu sou o do Tribunal!!

- Então e se fossem os dois marrar
Um no outro? Seria sensacional!!!

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

THE ROLLING STONES
«Shattered»
Shattered by The Rolling Stones on Grooveshark
Poet'anarquista

QUEBRADO

Quebrado, quebrado
Amor, esperança e sexo e sonhos
Ainda estão sobrevivendo na rua
Olhe para mim, estou em frangalhos!
Estou despedaçado
Quebrado

Amigos são tão alarmantes
Meu amante nunca é encantador
A vida é apenas uma festa na rua
Grande Maçã
Pessoas vestidas de sacos de plástico
Direccionam o tráfego
Algum tipo de moda
Quebrado

Riso, alegria e solidão, sexo e sexo e sexo e sexo
Olhe para mim, estou em frangalhos
Estou despedaçado
Quebrado

Tudo isso trapaça-vibração, trapaça-vibração, trapaça-conversa
Luta shmatta, shmatta, shmatta - Eu não posso na Sétima Avenida
Esta cidade tem sido vestida em farrapos (quebrado, quebrado)
Trabalhar e trabalhar para o amor e sexo
Não é você com fome de sucesso, sucesso, sucesso, sucesso
Será que isso importa? (Quebrado) Será que isso importa?
Eu estou despedaçado
Quebrado

Ahh, olha para mim, eu sou um quebrado
Estou despedaçado
Olhe para mim, eu sou um quebrado, sim

Orgulho e alegria e ganância e sexo
Isso é o que torna a nossa cidade melhor
Orgulho e alegria e sonhos sujos e ainda sobreviver na rua
E olhe para mim, estou em frangalhos, sim
Eu fui espancado, o que importa
Será que isso importa, uh-huh
Isso importa, uh-huh, eu sou um quebrado

Você não sabe que a taxa de criminalidade está subindo, subindo, subindo, subindo
Para viver nesta cidade vai ser difícil, duro, duro, duro, duro!
Você tem ratos no lado oeste
Percevejos em cima
Que confusão esta cidade está em frangalhos eu tenho quebradas
Meu cérebro tem sido agredido e espalhado por toda Manhattan

Uh-huh, esta cidade está cheia de ladrões de dinheiro
Vá em frente, morder a Grande Maçã, não me importo das larvas, hein
Shadoobie, meu cérebro foi atingido
Meus amigos vêm ao redor
Lisonjear, bajular, adular, bajular, adular, bajular, adular
Pilha-lo, pilha alta na travessa

The Rolling Stones

OUTROS CONTOS

«Parábola dos Sete Vimes», por Trindade Coelho.

«Parábola dos Sete Vimes»
Ilustração de Teresa Conceição

238- «PARÁBOLA DOS SETE VIMES»

  «Era uma vez um pai que tinha sete filhos. Quando estava para morrer, chamou-os todos sete 
e disse-lhes assim:

 - Filhos, já sei que não posso durar muito; mas antes de morrer quero que cada um de vós me vá buscar um vime seco e mo traga aqui.

- Eu também?– perguntou o mais pequeno, que tinha só quatro anos. O mais velho tinha vinte e cinco e era um rapaz muito reforçado e o mais valente da freguesia.

- Tu também – respondeu o pai ao mais pequeno.

Saíram os sete filhos; e daí a pouco tornaram a voltar; trazendo cada um seu vime seco.
   
O Pai pegou no vime que trouxe o filho mais velho e entregou-o ao mais novinho, dizendo-lhe:

- Parte este vime.

O pequeno partiu o vime, e não lhe custou nada a partir.

Depois, o pai entregou outro ao mesmo filho mais novo e disse-lhe:

 - Agora parte também esse.
  
O pequeno partiu-o; e partiu, um a um, todos os outros, que o pai lhe foi entregando, e não lhe custou nada parti-los a todos. Partido o último, o pai disse outra vez aos filhos:

- Agora ide por outro vime e trazei-mo.

Os filhos tornaram a sair, e daí a pouco estavam outra vez ao pé do pai, cada um com seu vime.

- Agora dai-mos cá – disse o pai.
  
E dos vimes todos fez um feixe, atando-os com um vincelho. E, voltando-se para o filho mais velho, disse-lhe assim:

- Toma este feixe! Parte-o!

O filho empregou quanta força tinha, mas não foi capaz de partir o feixe.
     
- Não podes? -perguntou ele ao filho.  
     
 - Não, meu pai, não posso.
      
- E algum de vós é capaz de o partir? Experimentai.

Não foi nenhum capaz de o partir, nem dois juntos, nem três, nem todos juntos.

O pai disse-lhes então:
     
 - Meus filhos, o mais pequenino de vós partiu sem lhe custar nada todos os vimes, enquanto os partiu um por um, e o mais velho de vós não pôde parti-los todos juntos; nem vós, todos juntos, fostes capazes de partir o feixe. Pois bem, lembrai-vos disto e do que vos vou dizer: enquanto vós todos estiverdes unidos, como irmãos que sois, ninguém zombará de vós, nem vos fará mal, ou vencerá. Mas logo que vos separeis, ou reine entre vós a desunião, facilmente sereis vencidos.
   
Acabou de dizer isto e morreu – e os filhos foram muito felizes, porque viveram sempre de boa irmandade ajuntando-se sempre uns aos outros; e como não houve forças que os desunissem, também nunca houve forças que os vencessem.»

Trindade Coelho

CARTOON versus OITAVA

A Tampa
HenriCartoon

«A TAMPA»

- Deita aqui na minha esquerda, Inseguro…
- Nem pensar!... só estou seguro à direita (?)
- Vá lá… eu prometo tratar-te bem… juro!
- Fedelho, essas promessas são uma treta!
- Gosto da tua combinação cor rosa escuro…
- E eu dessa colcha laranja… cama perfeita!
- Se deitares à minha esquerda tens futuro…
- Já agora, com ou sem socialismo na gaveta?

POETA

domingo, 17 de agosto de 2014

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

LEAHY - «B Minor»

OUTROS CONTOS

«A Um Ausente», conto poético por Carlos Drummond de Andrade.

«A Um Ausente»
Conto Poético de Carlos Drummond de Andrade

237- «A UM AUSENTE»

Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o acto sem continuação, o acto em si,
o acto que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.

Carlos Drummond de Andrade

sábado, 16 de agosto de 2014

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

JOHANN SEBASTIAN BACH
«Air on a G String»

OUTROS CONTOS

«O Teu Retrato», conto poético por António Nobre.

«O Teu Retrato»
Conto Poético de António Nobre

236- «O TEU RETRATO»

Deus fez a noite com o teu olhar,
Deus fez as ondas com os teus cabelos;
Com a tua coragem fez castelos
Que pôs, como defesa, à beira-mar.

Com um sorriso teu, fez o luar
(Que é sorriso de noite, ao viandante)
E eu que andava pelo mundo, errante,
Já não ando perdido em alto-mar!

Do céu de Portugal fez a tua alma!
E ao ver-te sempre assim, tão pura e calma,
Da minha Noite, eu fiz a Claridade!

Ó meu anjo de luz e de esperança,
Será em ti afinal que descansa
O triste fim da minha mocidade!

António Nobre

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(15 de Agosto de 1907, morre o compositor e violinista húngaro, Joseph Joachim)

JOSEPH JOACHIM
«Hungarian Dance No.1 in G minor»

OUTROS CONTOS

«A Última Visita», por Euclides da Cunha.

«A Última Visita»
Euclides da Cunha e Machado de Assis

235- «A ÚLTIMA VISITA»
(O artigo abaixo, a respeito da morte de Machado de Assis, 
foi publicado por Euclides da Cunha em 30 de Setembro de 1908, 
no «Jornal do Comércio». In: «Machado de Assis: um génio brasileiro», 
de Daniel Piza, 2005.)

Na noite em que faleceu Machado de Assis, quem penetrasse na vivenda do poeta, em Laranjeiras, não acreditaria que estivesse tão próximo o desenlace de sua enfermidade. Na sala de jantar, para onde dizia o quarto do querido mestre, um grupo de senhoras – ontem meninas que ele carregara no colo, hoje nobilíssimas mães de família – comentavam-lhe os lances encantadores da vida e reliam-lhe antigos versos, ainda inéditos, avaramente guardados em álbuns caprichosos. As vozes eram discretas, as mágoas apenas rebrilhavam nos olhos marejados de lágrimas, e a placidez era completa no recinto, onde a saudade glorificava uma existência, antes da morte.

No salão de visitas viam-se alguns discípulos dedicados, também aparentemente tranqüilos.

E compreendia-se desde logo a antilogia de coração tão ao parecer tranquilos na iminência de uma catástrofe. Era o contágio da própria serenidade incomparável e emocionante em que ia a pouco e pouco extinguindo-se o extraordinário escritor. Realmente, na fase aguda de sua moléstia, Machado de Assis, se por acaso traía com um gemido e uma contração mais viva o sofrimento, apressava-se a pedir desculpas aos que o assistiam, na ânsia e no apuro gentilíssimo de quem corrige um descuido ou involuntário deslize. Timbrava em sua primeira e última dissimulação: a dissimulação da própria agonia, para não nos magoar com o reflexo da sua dor. A sua infinita delicadeza de pensar, de sentir e de agir, que no trato vulgar dos homens se exteriorizava em timidez embaraçadora e recatado retraimento, transfigurava-se em fortaleza tranquila e soberana.

E gentilissimamente bom durante a vida, ele se tornava gentilmente heróico na morte...

Mas aquela placidez aguda despertava na sala principal, onde se reuniam Coelho Neto, Graça Aranha, Mário de Alencar, José Veríssimo, Raimundo Correia e Rodrigo Otávio, comentários divergentes. Resumia-os um amargo desapontamento.

De um modo geral, não se compreendia que uma vida que tanto viveu outras vidas, assimilando-as através de análises subtilíssimas, para no-las transfigurar e ampliar, aformoseadas em sínteses radiosas – que uma vida de tal porte desaparecesse no meio de tamanha indiferença, num círculo limitadíssimo de corações amigos. Um escritor da estatura de Machado de Assis só devera extinguir-se dentro de uma grande e nobilitadora comoção nacional.

Era pelo menos desanimador tanto descaso – a cidade inteira, sem a vibração de um abalo, derivando imperturbavelmente na normalidade sua existência complexa, quando faltavam poucos minutos para que se cerrassem quarenta anos de literatura gloriosa...

Neste momento, precisamente ao enunciar-se este juízo desalentado, ouviram-se umas tímidas pancadas na porta principal da entrada.

Abriram-na. Apareceu um desconhecido: um adolescente, de 16 a 18 anos no máximo. Perguntaram-lhe o nome. Declarou ser desnecessário dizê-lo: ninguém ali o conhecia; não conhecia, por sua vez, ninguém; não conhecia o próprio dono da casa, a não ser pela leitura de seus livros, que o encantavam. Por isto ao ler nos jornais da tarde que o escritor se achava em estado gravíssimo tivera o pensamento de visitá-lo. Relutara contra essa ideia, não tendo quem o apresentasse: mas não lograra vencê-la. Que o desculpassem, portanto. Se não lhe era dado ver o enfermo, dessem-lhe ao menos notícias certas do seu estado.

E o anônimo juvenil – vindo da noite – foi conduzido ao quarto do doente.

Chegou. Não disse uma palavra. Ajoelhou-se. Tomou a mão do mestre; beijou-a num belo gesto de carinho filial. Aconchegou-o depois por algum tempo ao peito. Levantou-se e, sem dizer palavra, saiu.

À porta José Veríssimo perguntou-lhe o nome. Disse-lho.

Mas deve ficar anônimo. Qualquer que seja o destino dessa criança, ela nunca mais subirá tanto na vida. Naquele momento o seu coração bateu sozinho pela alma de uma nacionalidade. Naquele meio segundo – no meio segundo em que ele estreitou o peito moribundo de Machado de Assis – aquele menino foi o maior homem de sua Terra.

Ele saiu – e houve na sala há pouco invadida de desalentos uma transfiguração.

No fastígio de certos estados morais concretizaram-se às vezes as maiores idealizações. Pelos nossos olhos passara a impressão visual da Posteridade.

Euclides da Cunha

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

CARTOON versus QUADRA

Vá para Fora cá Dentro
HenriCartoon

«VÁ PARA FORA CÁ DENTRO»

- Amor, hoje não dá pra ir ao cinema...
Em dia lindo, nunca me concentro!
Já agora… e esse filme, qual o tema?
- É portuga… vá para fora cá dentro!!

POETA