domingo, 24 de maio de 2015

CARTOON versus SONETO

Sim, Aceito
HenriCartoon

«SIM, ACEITO»

- Os irlandeses são povo estupendo!...
A inteligência e maturidade é reflexo
Da legalização aprovada em referendo,
Pra casarem pessoas do mesmo sexo.

Nós ainda temos muito que aprender…
A eles não importa com quem fornicas!

- Zé, davas o teu aval sobre esse parecer?
- Maria!… tu ‘tás-me a chamar maricas!??

- Homem, segundo consta na nova lei
Esse calão já passou à história…
Agora é mais moderno a palavra gay!

- Não sabia dessa alcunha vexatória…
Mulher, eu cá de leis… pouco sei,
O lado lésbico ocupa-me a memória!!

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

BOB MARLEY - «Sun is Shining»

Poet'anarquista

O SOL ESTÁ BRILHANDO

O sol está brilhando, o clima é doce
Faz você querer mover seu pés dançantes
Para o resgate, aqui estou eu!
Você gostaria de me conhecer, saber onde eu fico?

Manhã de segunda: aqui estou eu! você gostaria de saber, apenas se puder...
Noite de terça: onde eu fico?
Manhã de quarta: digo a mim mesmo que um novo dia está nascendo
Noite de quinta: acompanhe o nascimento, um novo dia está nascendo
Manhã de sexta: aqui estou eu!
Noite de sábado: você gostaria de saber apenas...
Você gostaria de saber apenas onde eu fico?

Quando a manhã traz o arco-íris
Você quer saber? Eu sou um arco-íris também.
Então, para o resgate, aqui estou eu!
Você quer saber, apenas se puder...
Onde eu fico? Saiba, saiba, saiba, saiba, saiba, saiba, saiba, saiba

Ergueremos nossa cabeça e ofereceremos elogios a jah.
Ergueremos nossas cabeças e ofereceremos elogios a jah, yeeaaah

O sol está brilhando, o clima é doce agora
Faz você querer mover seus pés dançantes
Para o resgate, aqui estou eu!
Você quer saber, apenas se puder...
Onde eu fico? Saiba, saiba, saiba, saiba, saiba, saiba, saiba, saiba

Manhã de segunda, scoo-be-doop-scoop-scoop
Noite de terça, scoo-be-doop-scoop-scoop
Manhã de quarta, scoo-be-doop-scoop-scoop
Noite de quinta, scoo-be-doop-scoop-scoop
Manhã de sexta, scoo-be-doop-scoop-scoop
Noite de sábado, scoo-be-doop-scoop-scoop

Então para o resgate, para o resgate, para o resgate
Acorde da sua dormida e sono
Hoje poderia ser o seu número da sorte
O sol está brilhando e o clima é doce

Bob Marley
Músico e Compositor Jamaicano

OUTROS CONTOS

«A Fronteira de Asfalto», por José Luandino Vieira.

(Em 24 de Maio de 2006, foi-lhe atribuído o «Prémio Camões» que viria a recusar, alegando «motivos íntimos e pessoais». Mais tarde soube-se que não aceitara o prémio por se considerar um escritor morto e, como tal, entendia que o mesmo deveria ser entregue a alguém que continuasse a produzir. Ainda assim publicou dois novos livros no ano de 2006.)
Poet'anarquista
«A Fronteira de Asfalto»
Conto de Luandino Vieira

513- «A FRONTEIRA DE ASFALTO»

A menina das tranças loiras olhou para ele, sorriu e estendeu a mão.

 – Combinado?

– Combinado – Disse ele.

Riram os dois e continuaram a a andar, pisando as flores violeta que caiam das árvores.

– Neve cor de violeta – disse ele.

– Mas tu nunca viste neve…

– Pois não ,mas creio que cai assim…

– É branca, muito branca…

– Como tu!

E um sorriso triste aflorou medrosamente aos lábios dele.

– Ricardo! Também há neve cinzenta… cinzenta escura.

– Lembra-te da nossa combinação. Não mais…

– Sim, não mais clara da tua cor. Mas quem falou primeiro fostes tu.

Ao chegarem a ponta do passeio ambos fizeram meia volta e vieram pelo mesmo caminho.

A menina tinha tranças loiras e laços vermelhos.

– Marina, lembras-te da nossa infância? – e voltou-se subitamente para ela.

Olhou-a nos olhos. A menina baixou olhar para a biqueira dos sapatos pretos e disse:

– Quando tu fazias carros com rodas de patins e me empurravas a volta do bairro?

– Sim lembro-me…

A pergunta que o persegui há meses saiu, finalmente.

– E tu achas que esta tudo como então? Como quando brincávamos a barra do lenço ou as escondidas? Quando eu era o teu amigo Ricardo, um pretinho muito limpo e educado, no dizer da tua mãe? Achas…

E com as própria palavras ia-se excitando. Os olhos brilhavam e o cérebro ficava vazio, porque tudo o que acumulara saía numa torrente de palavras.

– Que eu posso continuar a ser teu amigo…

– Ricardo!

– Que a minha presença na tua casa…no quintal da tua casa, poucas vezes dentro dela ! não estragará os planos da tua família a respeito das tuas relações…

Estava a ser cruel. Os olhos azuis de Marina não lhe diziam nada. Mas estava a ser cruel.
O som da própria voz fê-lo ver isso. Calou-se subitamente.

– Desculpa – disse por fim.

Virou os olhos para o seu mundo. Do outro la da rua asfaltada não havia passeio. Nem árvores de flores violeta. A terra era vermelha, com piteiras e casas de pau-a-pique à sombra de mulembas. As ruas de areia eram sinuosas. Uma ténue nuvem de poeira que o vento levantava cobria tudo. A casa dele ficava ao fundo. Via-se do sítio donde estava. Amarela. Duas portas, três janelas. Um cercado de aduelas e arcos de barril.

– Ricardo – disse a menina das tranças loiras – tu dissestes isso para quê? Alguma vez te disse que não era tua amiga? Alguma vez que se te abandonei ? Nem os comentários da minhas colegas, nem os conselhos velados dos professores, nem a família que se tem voltado contra mim…

– Está bem. Desculpa. sabes, isto fica dentro de nós. Tem de sair em qualquer altura.

E lembrava-se do tempo em que não havia perguntas, respostas, explicações. Quando ainda não havia a fronteira de asfalto.

– Bons tempos – encontrou-se a dizer.

– A minha mãe era a tua lavadeira. Eu era o filho da lavadeira. Servia de palhaço a menina Nina. A menina Nina dos caracóis loiros. Não era assim que te chamavam? – Gritou ele.

Marina fugiu para casa. Ele ficou com os olhos marejados, as mãos ferozmente fechadas e as flores violeta caindo-lhe na carapinha negra.

Depois, com passos decididos, atravessou a rua, pisando com raiva a areia vermelha e sumiu no emaranhado do seu mundo. Para trás ficava a ilusão.

Marina viu-o afastar-se. Amigos desde pequenos. Ele era o filho da lavadeira que distraía a menina Nina. Depois a escola. ambos na mesma escola ,na mesma classe. A grande amizade a nascer.

Fugiu para o quarto. Bateu com a porta. Em volta o aspecto luminoso, sorridente, o ar feliz, o calor suave das paredes cor-de-rosa. E lá estava sobre a mesa de estudo «… Marina e Ricardo – amigos para sempre». Os pedaços da fotografia voaram e estenderam-se pelo chão. Atirou-se para cima da cama e ficou de costas a olhar o tecto. Era ainda o mesmo candeeiro. Desenhos de Walt Disney. Os desenhos iam-se diluindo nos olhos marejados. E tudo se cobriu de névoa. Ricardo brincava com ela.

Ela corria feliz, o vestido pelos joelhos, e os caracóis loiros brilhavam. Ricardo tinha uns olhos grandes. E subitamente ficou a pensar no mundo para lá da rua asfaltada. E reviu as casas de pau-a pique onde viviam famílias numerosas. Num quarto como o dela dormiam os quatro irmãos de Ricardo…Porquê? Porque é que ela não podia continuar a ser amiga dele, como fora em criança? Porque é que agora era diferente?

– Marina, preciso falar-te.

A mãe entrara e acariciava os cabelos loiros da filha.

– Marina, já não és nenhuma criança para que não compreendas que a tua amizade por esse… teu amigo Ricardo não pode continuar. Isso é muito bonito em criança. Duas crianças. Mas agora … um preto é um preto…

As minhas amigas todas falam da minha negligência na tua educação. Que te deixei…Bem sabes que não é por mim!

– Está bem, eu faço o que tu quiseres. Mas agora deixa-me só.

O coração vazio. Ricardo não era mais que uma recordação longínqua. Uma recordação ligada a uns pedaços de fotografia que voavam pelo pavimento.

– Deixas de ir com ele para o liceu, de vires com ele do liceu, de estudares com ele…

– Está bem mãe.

E virou a cabeça para a janela. Ao longe percebia-se a mancha escura das casas de zinco e das mulembas. Isso trouxe-lhe novamente Ricardo. Virou-se subitamente para a mãe. Os olhos brilhantes, os lábios arrogantemente apertados.

– Está bem , está bem, ouviu? – gritou ela.

Depois mergulhando a cara na colcha chorou.

Na noite de luar, Ricardo, debaixo da mulemba, recordava. Os  e a barra do lenço. Os carros de patins. E sentiu necessidade imperiosa de falar-lhe. Acostumara-se demasiado a ela. Todos aqueles anos de camaradagem, de estudo em comum.

Deu por si a atravessar a fronteira. Os sapatos de borracha rangiam no asfalto. A lua punha uma cor crua em tudo. Luz na janela. saltou o pequeno muro. Folhas secas rangeram debaixo dos seus pés. O “Toni” rosnou na casota. Avançou devagar até a varanda, subiu o rodapé e bateu com cuidado.

– Quem é? – a voz de Marina veio de dentro, íntima e assustada.

– Ricardo!

– Ricardo? Que queres?

– Falar contigo. Quero que me expliques o que se passa.

– Não posso. Estou a estudar. Vai-te embora. Amanhã na paragem do maximbombo. Vou mais cedo…

– Não. Precisa de ser hoje. Preciso de saber tudo já.

De dentro veio a resposta muda de Marina. A luz apagou-se. Ouvia-se chorar no escuro. Ricardo voltou-se lentamente. Passou as mãos nervosas pelo cabelo. E, subitamente o facho da lanterna do polícia caqui bateu-lhe na cara.

– Alto aí! O qu’ é que estás a fazer?

Ricardo sentiu medo. O medo do negro pelo polícia. Dum salto atingiu o quintal.
as folhas secas cederam e ele escorregou. O “Toni” ladrou.

Ricardo levantou-se e correu para o muro. O polícia correu também. Ricardo saltou.

– Pára, pára! – gritou o polícia.

Ricardo não parou. Saltou o muro. Bateu no passeio com a violência abafada pelos sapatos de borracha. Mas os pés escorregaram quando fazia o salto para atravessar a rua. Caiu e a cabeça bateu violentamente de encontro a aresta do passeio.

Luzes acenderam-se em todas as janelas. O “Toni” ladrava. Na noite ficou o grito loiro da menina de tranças.

Estava um luar azul de aço. A lua cruel mostrava-se bem. De pé o polícia caqui desnudava com a luz da lanterna o corpo caído. Ricardo , estendido do lado de cá da fronteira , sobre as flores violeta das árvores do passeio.

Ao fundo, cajueiros curvados sobre casas de pau-a-pique estendem a sombra retorcida na sua direcção.

Luandino Vieira

sábado, 23 de maio de 2015

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

VADIM SAKHAROV
«Piano Sonata/ Amadeus Mozart»

Poet'anarquista

Vadim Sakharov
Pianista Russo

OUTROS CONTOS

«O Cão», por Teolinda Gersão.

«O Cão»
O Cego, a Rapariga e o Cão/ Karl Hofer

512- «O CÃO»

A qualquer momento a mulher ou a sogra poderiam chamá-lo e ele não estaria lá para mudar uma mesa de lugar, abrir uma janela emperrada, soldar um cano roto ou pôr uma anilha numa torneira que pingava.

Àquela hora já costumava estar em casa, pensou apressando o passo, lembrando-se de que a cega podia querer sair e precisar que ele a ajudasse a atravessar a rua. No entanto, nunca lhe tinha ocorrido que esse pudesse ser um papel de cão. Nunca até àquele momento em que ele próprio atravessava a rua pelo meio da faixa, atento ao semáforo, uma tal ideia lhe atravessara o espírito. Mas agora que a pensara, a ideia perseguia-o, parecia caminhar a seu lado, colada aos seus passos como uma sombra.

Olhou com curiosidade os cães que passavam perto: de coleira ao pescoço, presos pela trela. Segura na mão de alguém. De cores e raças diferentes ― não sabia grande coisa sobre cães, sempre se interessara pouco pelo assunto. Até então. Pela primeira vez olhava atentamente os pequenos quadrúpedes que não o olhavam a ele; apenas pareciam apostados em seguir em determinado sentido, atentos à pressão da trela, que uma mão segurava com mais ou menos força.

Ali estava justamente um cego, ao lado do seu cão, ambos esperando a mudança de luz no semáforo em frente. Viu-lhe a cara, assomando debaixo do chapéu: os olhos vítreos, como água podre, a boca entreaberta num esgar, ao canto da boca um resto de saliva.

Atravessar a rua com os cegos, pensou outra vez, era um papel de cão. O que nunca lhe ocorrera, até àquele dia. No entanto, agora que pensava nisso, tudo parecia ficar claro. O cego era ele, como é que não dera conta? Era, ao mesmo tempo, cego e cão. De repente o mundo estava cheio de evidências. 

Nunca tinha pensado, por exemplo, que daquela vez que insultara o director do departamento esse facto se devera a uma enorme raiva acumulada. Nesse dia, via agora, portara-se como um cão. Só que raivoso. Uivara, ladrara, ganira, mordera. Ou pelo menos arreganhara os dentes, pronto a morder.

O que lhe custara a carreira, para o resto da vida. Nunca mais seria promovido, gritara a cega, torcendo as mãos. E ainda tivera sorte em não ser despedido, com um processo em cima. Não sabia falar, se tinha reclamações?

Não, não sabia, verificava agora. Desaprendera de falar, porque ninguém o escutava. Serviam-se dele apenas, como de um objeto útil, que se põe de parte depois de usado. Falava pouco e muito depressa, como se tivesse medo de que as pessoas se fossem embora. Vendo que bem, na maior parte das vezes iam-se de facto embora. Ele atirava duas ou três palavras para dentro das conversas, mas era sempre demasiado tarde. É verdade em que às vezes pareciam escutá-lo, mas de repente interrompiam-no com outro assunto, como se ele nunca tivesse começado a falar, ou como se nem sequer lá estivesse.

E quando foi transferido nenhum dos colegas pareceu importar-se, e ninguém lhe desejou boa sorte. Como se mudassem para outro escritório uma peça avulsa de mobília, que tanto fazia estar num lado como noutro.

Em casa também ninguém lhe perguntou se a mudança lhe agradava, se o novo lugar era pior ou melhor do que o primeiro. A sogra não fez perguntas, ficou como sempre vigiando e escutando, a cega só quis saber se ganhava mais. Quando soube que ganhava o mesmo ficou decepcionada e gritou que só a ele isso acontecia. O que aliás também ele pensava. De modo que não respondeu, e as coisas ficaram assim.

Continuou a receber as mesmas pequenas quantias, que a cega ia tirando do ordenado que ele recebia ao fim do mês e depositava inteiro nas mãos dela. Ou antes, nas mãos dela e nas da sogra, porque ambas contavam e recontavam, suspirando, para verificarem sempre que era pouco e nunca chegava, apesar dos esforços que faziam.

Talvez por isso nunca lhe davam nada no Natal. Embora ele gostasse de lhes dar presentes. À mulher sobretudo, coisas que ela cobiçava, perfumes, um lenço de pescoço, um par de sapatos caros. Porque a cega gostava de vestir-se e enfeitar-se, ainda que não pudesse ver-se ao espelho. Vestidos novos eram-lhe indispensáveis, mesmo só para ir à mercearia e ao café. Já que nascera cega e a vida fora tão cruel, algo de bom teria também de lhe caber em sorte.

Tens um bom marido, ouviu dizer a sogra. Faz o que pode, coitado.

Mas não sabe mexer-se neste mundo, disse a cega. Vissem o Chinchas, que começara do nada, encostado à parede das esquinas, e agora tinha apartamento, carro e empregados. Para já não falar dos anéis de brilhantes no dedo.

Pois, disse a sogra, mas falava-se de droga e de chulo.

Ora, tornou a cega, eram tudo más-línguas e invejas.

Lá isso, concordou a sogra, o que todos queriam era estar no lugar dele, que era o lugar dos que mandavam.

Há os que mandam e os paus-mandados, suspirou a cega, e a conversa continuou como se ele não estivesse a ouvir. Na verdade nenhuma se preocupara em verificar se ele as ouvia ou não. Estar ou não presente acabava por ser praticamente igual.

A cega falava agora das tristezas da vida: para além de ser invisual, moravam naquele bairro suburbano, onde só se alojava quem não tinha escolha.

De repente ele enfureceu-se com tanta ingratidão, mas não se atreveu a dizer nada. Só pensou. Era cega e ele não casara com ela, apesar disso? Não trouxera logo duas mulheres para casa, em vez de uma?

Sim, porque aceitara trazer também a sogra, quantos homens, no lugar dele, fariam isso?
Então e os lenços, os sapatos e os vestidos? E quantas meias tinha ele, e em que estado estavam os seus fatos e camisas? Disso ela não queria saber, nem perguntava. Até porque não via, desculpava-se. Mas ele também era gente, ora essa. Ou ela pensava que não? Pensava que ele lhe servia para descarregar a raiva de ser cega e pobre e de viver contra o mundo? Que culpa tinha ele das desgraças dela?

Passou a estar muito menos em casa, e a ir de vez em quando ao futebol e ao café. A seguir quis fazer um curso noturno de contabilidade, mas a cega opôs-se. Queixou-se de que ele a deixava sozinha e andava atrás de outras mulheres, que não eram cegas como ela. Recusou todas as refeições e adoeceu. 

A seguir foi a mãe que adoeceu. Não se levantaram durante quinze dias e ele tinha de vir a correr fazer o jantar e deixar-lhes comida para o dia seguinte, embora a cega tivesse praticamente deixado de comer.

Quando a viu mais calma e a vida se normalizou, começou a fazer um curso de contabilidade por correspondência. No fim do jantar abria os livros e os cadernos na mesa da cozinha e punha tampões nos ouvidos para não ouvir a televisão.

No entanto a cega encontrava sempre pretextos para o interromper. Chamava-o para colocar um calce no pé da mesa, para descer melhor as persianas, que deixavam frinchas por onde entrava o frio, para lhe ler as legendas dos filmes estrangeiros. Ao fim de três semanas meteu no caixote do lixo os livros e os cadernos e foi beber um copo ao café da esquina, o que a partir daí se tornou um hábito, depois do jantar. Durante os dias em que a cega o consentiu. Porque logo pouco depois passou a enchê-lo de recriminações. Se queria ir ao café, também ela queria. Levasse-a consigo, que era a sua obrigação, não ia ficar em casa, que nem um trapo deitado fora, enquanto ele se divertia com outras. Passou a acompanhá-lo a toda a parte. Mesmo ao cinema, onde ele lhe ia contando o que se passava no ecrã, apesar dos protestos de quem ficava ao lado.

Por vezes ele fugia, ia sozinho ao cinema, marcava encontros com um ou outro amigo, e depois ouvia a cega acusá-lo uma semana inteira. Mas na verdade quase não tinha amigos, porque ela sempre lhe preenchera a vida toda. E porque quase deixara de falar, desaprendera também a conversa. Nem mesmo já rir sabia, verificou com espanto. Em vez do riso, fazia um pequeno som sibilante, como um latido.

Com o tempo desinteressara-se de tudo e deixara de saber o que se passava no mundo. Nem sabia o que ia pelo bairro, quanto mais no mundo.

Fizera-se um bicho de toca, sentado na poltrona, olhando a televisão sem ver nada. Nos intervalos em que a cega não o chamava, para tratar de qualquer coisa. E quando ela chamava, ele ia. Como um cão. Agora via tudo muito claro e sentia-se outra vez raivoso. Como daquela vez, no escritório.

Um cão não morde no dono. E muito menos o mata, pensou. Mas ele não era cão. Era essa a diferença.

Levantou-se e apagou a TV.

Vamos sair, disse com doçura. Põe um vestido bonito. E quando ela perguntou: Aonde? disse apenas: 
É surpresa. Com a voz alegre como há muito tempo não tinha.

Vem, disse-lhe, atravessando a rua quando a luz ficou vermelha.

Pegou-lhe no braço e abandonou-a de repente, no meio da faixa, quando o carro se aproximou tanto que não seria mais possível, para ela, saltar.

Foi só ele quem saltou, no último instante, e se estatelou, são e salvo, no passeio, caindo de borco, batendo com a cara, ouvindo os gritos, o ruído confuso de vozes, o chiar dos travões do carro que parou ― tarde demais.

Teolinda Gersão

sexta-feira, 22 de maio de 2015

OUTROS CONTOS

«As Historietas de um Rebuscador de Antiguidades», por José Régio.

«As Historietas dum Rebuscador de Antiguidades»
Conto de José Régio

511- «AS HISTORIETAS DUM REBUSCADOR DE ANTIGUIDADES»

Tinham-me chamado “para ver umas coisas”- fórmula já conhecida. Apresentei-me na casa indicada, que era de boa aparência: casa antiga, com o aspecto ao mesmo tempo nobre e rude que têm por aqui certas moradias quase apalaçadas. Pertencia a uma gente que “vivera bem”, e a senhora que me apareceu era a última representante feminina da família. Velha, mas vestida com certa pretensão, e a cara enfarinhada de pó de arroz. No seu tempo de nova, ainda o pó de arroz devia estar muito em uso. 

Todo o seu ar era de senhora; mas não sei quê nela havia que vagamente me soou a falso, como se aquela empertigada compostura que mantinha fosse devida a um esforço da vontade contra qualquer debilidade das pernas.Conduziu-me a um quarto inferior, onde havia um oratório vul­gar com três imagens de marfim: Cristo crucificado, Nossa Senhora da Conceição, Santo António de Lisboa. Eram as coisas que pretendia vender-me, estas imagens de marfim, – e faiscaram a meus olhos como três jóias! Sobretudo o pequeno Cristo, numa cruz de pau-santo com aplicações de prata, era duma perfeição e uma finura, uma expressão conseguida à custa de subtilíssimos toques (tenho-o vivo na memória, e perdi-o há um par de anos) que puseram em sobressaltos o meu coração de coleccionador. 

A Nossa Senhora e o Santo António, sem atingirem o mesmo requinte, não deixavam de ser notáveis.Balbuciei que sim, que estava pronto a comprar as ditas coisas, e senti-me tremer um pouco ao perguntar quanto me pediam por elas. O meu dinheiro, então, ainda era menos do que hoje. A dona pediu-me um preço quase irrisório pelas três peças, – ou vendia as três ou nenhuma. Parecia recear que eu não estivesse por este ajuste. O meu coração de coleccionador pelintra (e um pouco artista, se me permitem dizê-lo) teve um imenso alívio, senti-me respirar melhor, o pequeno quarto interior iluminou-se-me todo em volta…, eu ia possuir aquelas três pequenas maravilhas, eu que receara não poder dispor de dinheiro para as pagar! Ao mesmo tempo, senti-me pouco à vontade: teria preferido que a senhora me houvesse pedido mais. Não muito mais… não muito: um coleccionador pobretão não pode caprichar em demasias de escrúpulos. Um pouquinho mais.Estava, pois, ao mesmo tempo radiante e hesitante, com os olhos nas três imagens e ruminando nem bem sabia o quê; talvez qualquer processo de dar esse pouquinho mais sem ver “o negócio ir por água abaixo”. É muito perigoso a gente oferecer ou dar mais do que nos pedem: acham o caso anormal, calculam que o objecto em venda vale uma fortuna – que, geralmente, não vale – e, algumas vezes, voltam com a palavra atrás. Já o não querem vender, calculando que o venderão, a outro, muito melhor. Pois estava eu assim, a imaginar comigo qualquer subterfúgio que me permitisse mascarar a minha mesquinha e gratuita generosidade, quando senti abrir-se outra porta no quarto, e entrar uma terceira pessoa. Era uma rapariga, que se agarrou à velha empoada suplicando-lhe que não vendesse “os santinhos”. Já devia saber do que se tratava. A velha empoada sacudia-a de si com palavras cada vez mais ásperas, depois gaguejadas, e a rapariga já chorava e não desistia.“Lá se vai tudo!” eis o primeiro pensamento, naturalmente egoísta, que assaltou um apaixonado amador de velharias de arte. 

Durante um momento, foi como se o mundo acabasse. Mas a velha não parecia disposta a ceder. E, então, senti-me profundamente constrangido. A rapariga era mulata, muito nova, e tinha gestos quase selvagens que me chocaram. Estava mal penteada, vestida sem cuidado; mas, pela familiaridade com que tratava a outra, não devia ser uma criada. O que não estava era “preparada para aparecer”; ao contrário da outra, que se preparara. Como a cena já se arrastava, fiz um grande esforço contra a minha cobiça, a disse timidamente:- A senhora veja lá: parece que sua filha tem amor às imagens, custa-lhe perdê-las…- Minha filha?!… – exclamou indignadamente a velha. – Não vê que não é minha filha?!- Ora essa… – fiz eu o mais estupidamente possível. Mas foi-me possível acrescentar ainda mais estupidamente: – Com efeito…Calei-me, que era o melhor que tinha a fazer. Não sabia o que dizia. “Ora essa!” pensara comigo “podia ser filha dela e dum preto. Já se tem visto! Mas pode ser sobrinha: filha de algum irmão que foi às Áfricas, às Américas… Ou até neta”. E devo ter sorrido durante esta breve divagação etnológica (também, não sei por que tais pensamentos me surgiram com um carácter humorístico), pois a criatura se tornou furiosa:- Ai,  o senhor acha graça?… ri-se? …dá–lhe vontade de rir?- Não, minha senhora… – balbuciei eu, fazendo-me logo sério. E uma desconfiança me aflorou, que já direi qual. Mas ela continuou:- Eu é que nenhuma! Não acho graça nenhuma! Isto são termos…, aparecer aqui neste preparo?! E quem manda aqui? Que tem ela com isto? O senhor sabe …é uma afilhada. Vive comigo de pequena. E já se julga dona das coisas! Já pensa que estou a esticar o pernil…- Madrinha…! – suplicou a rapariga. Os desconchavos da velha como que tinham apaziguado os seus próprios. Estava, agora, encostada à parede, com as faces cheias de lágrimas, e parecia envergonhada do que fizera ou ouvira. 

Olhei-a melhor: Era bonita. Mas os seus belos olhos esverdidos tornaram-se duros ao encontrar os meus.- Vai-te embora, Maria Mandioca! – gritou a velha voltando-se para ela com a mão fechada no ar.- Maria quê?! – fiz eu sem querer. E fiz mal, porque novamente me via ameaçado por um inoportuno acesso humorístico. O mais curioso, porém, é que estava triste, e continuava constrangido. A suspeita que pouco antes me aflorara tornara-se uma certeza: A velha estava embriagada; e a rapariga sabia-o.- Mandioca!… – respondeu ela. É um nome que a gente lhe dá, o senhor compreende… Chama-se Maria Felícia. Ao dirigir-se-me, procurava afeiçoar o tom com uma volubilidade notável. Ensaiava reaver a compostura do princípio, e que só agora eu via bem como logo me parecera forçada. Mas as palavras empastavam-se-lhe desde que não gritasse.- A madrinha não venda os santinhos! – rogou a rapariga pondo as mãos por um gesto reflexo – não venda os santinhos que se arrepende!- Vais-te embora ou não vais, estafermo! – berrou a velha crescendo para ela. Mas, como fizera um movimento mais precipitado, cambaleou, e foi a própria afilhada que a susteve. Interpus-me, então, com energia, e disse mesmo sobre a cara da velha:- Eu compro-lhe as imagens, se quiser. Mas a sua afilhada está desgostosa …custa-me levá-las nessas condições. A senhora pense bem, está a entender-me? Quando estiver mais sossegada. Converse com alguém de família. Eu volto cá amanhã, à mesma hora. Mas, se tiver resolvido não vender, não faz mal: até prefiro, apesar de ter pena…Via quase sob a minha aquela cara enfarinhada de pó, agora congestionada, como inchada, e aqueles olhos envidraçados e estúpidos. 

Depois, num daqueles rápidos olhares intensos dos apaixonados, o meu olhar procurou as três imagenzinhas impassíveis no seu oratório: Jesus crucificado, morto, mas tão divinamente sereno que estava mas era vivo da vida eterna; Nossa Senhora com as mãos delicadamente postas, a cabeça inclinada num jeito de ave; Santo António com o Menino sentado no livro, e um sorriso deliciado, quase garoto, na boca juvenil. Decerto, neste breve olhar, eu não abarcava agora tais pormenores. 

Via-os, porém, através da memória e da imaginação, – examinara as peças com olhos de verdadeiro amador.Nessa noite, mal pude dormir. Estava excitado e desgostoso. Dava e tornava a dar voltas na cama, e pensava: “Por que não hei-de ter sossego? Para quê incomodar-me com estas coisas? Maldito vício de coleccionador! Tudo isto são ninharias, no fim de contas! A minha vida não é isto…” Vãos pensamentos, que nada podiam contra a inquietação e a paixão. Nos intervalos da insónia, os sonos arquejantes eram atravessados de sonhos em que revia as minhas três imagens, e a velha brandindo o punho trémulo contra a afilhada (a sua cara inchava e enrubescia como um balão), mas já não era ela que ameaçava a rapariga mulata, era a rapariga mulata, com olhos de gata, que levantava o punho contra mim, e tudo isto se passava dentro dum oratório enorme que era ao mesmo tempo o quarto em que eu dormia (não sabia se dormia ou estava acordado) a o quarto interior duma casa que vacilava como um barco…No dia seguinte, à hora marcada, de novo me apresentei na casa em questão. De novo me recebeu a senhora da véspera, agora reintegrada no seu papel de senhora: de única representante feminina duma família que vivera bem; que pertencia, talvez, à nobreza. Hoje, não bebera. Logo senti que não, o que me deu um grande alívio. Estava empoada como na véspera, com o mesmo vestido um pouco pretensioso para a sua idade, mas decente. Apresentava um ar altivo e frio, firme, até duro, com não sei quê de dignidade ofendida que inexplicavelmente me fez sentir-me culpado. Sim, a penosa impressão que eu tinha era de culpa! – não sabia porquê.- Venho saber se resolveu alguma coisa… – balbuciei. Revoltava-me comigo por me sentir intimidado, pensava que era ela quem deveria sentir-se envergonhada, mas quem se sentia intimidado, até envergonhado, era eu.- Já estava resolvido – respondeu ela.- Como a sua afilhada mostrou tanta pena…- Não se fala mais nisso. Ou não posso dispor do que é meu?- Decerto, minha senhora. Eu só não queria desgostar.- Pois o senhor pega ou larga, e pronto. Se não quer as imagens vendo-as a outro, há-de haver quem as compre.- Quero, sim, minha senhora. Quanto me pede hoje por elas…?- O que lhe pedi ontem.Perante a firmeza da sua resolução, a secura das suas respostas, o seu ar como formalizado, não hesitei mais. “Para outro é que não!” bradava o meu instinto de coleccionador “para outro é que não!” Empertiguei-me também um pouco, ti­rei a carteira, e estendi-lhe a quase mesquinha importância que me ela pedira.- Obrigada – disse ela.- Obrigado eu – disse eu. – Gosto muito das imagenzinhas. Queria, talvez por gratidão, deixar qualquer impressão mais afável entre nós; obter, por exemplo, um sorriso daquela face balofa e empoada; mas ela perguntou com a mesma imperturbável secura:- Manda-as buscar hoje?- Levo-as agora eu mesmo, minha senhora. Se me fizesse o favor duns papeizinhos…Via-me ridículo – e um pouco vil – com os meus diminutivos, para os quais tenho uma tendência piegas quando faço qualquer aquisição duplamente feliz. Ela arranjou-me, aliás habilmente, o precioso embrulho, que meti debaixo do braço. Saímos ao corredor; mas estacámos súbito: a rapariga da véspera estava em frente de nós, encostada à parede, com as mãos não digo postas, mas agarradas uma à outra no peito. Os olhares das duas chocaram-se violentamente. 

E as duas fitavam-se e não diziam nada, quando eu tive uma ideia que se me afigurou luminosa: Com ela apaziguava um tanto o meu duplo remorso de causar tal desgosto à rapariga e levar tão baratas aquelas pequeninas obras-primas. Poisei o embrulho no chão, porque me embaraçava os movimentos; e, tirando da carteira a nota mais alta que aí tinha (metera, esse dia, na carteira todo o meu dinheiro disponível) ia dizendo num tom que me saía melífluo, e, apesar de tudo, pouco natural:- Esta menina tem pena de se desfazer dos seus santinhos… e eu compreendo-a bem. Se a senhora me dá licença… a título de compensação… para comprar uma prendazinha que lhe agrade…E estendia um pouco o braço, com a nota na mão, – uma nota cuja importância excedia a da compra já efectuada – sem saber se a deveria entregar à velha ou à rapariga. Então, a rapariga desviou o olhar para mim. O ódio como fulgurou nesses belos olhos esverdidos; e parecia um belo sentimento, o ódio, nesses olhos! As suas feições acusavam mais que na véspera a ascendência negra, – o que a não tornava menos bela.- 

Guarde o seu dinheiro nojento! – disse ela com desprezo e a voz um pouco rouca. – Não preciso de prendas.Foi assim mesmo que disse. Os meus dedos recolheram a nota, que amarrotaram contra a palma da mão como se a quisessem esmagar, e, depois, a mão fechada com a nota escondeu-se-me no bolso exterior do casaco. Ainda fiquei um momento sem saber que fazer, ou se conseguiria dizer qualquer coisa. Depois, apanhei o precioso embrulho, segui um pouco às cegas pelo corredor, desci as primeiras escadas que encontrei…Há já uns anos que não possuo as três peças. Nem sei se alguma vez cheguei a possuí-las. Não é meu costume, não é!, vender qualquer peça que verdadeiramente me agrade. Aquelas bem me agradavam. Mas lá as perdi, lá foram, não sei como ou porquê: Primeiro, o Santo António com o Menino no livro, e o seu sorriso encantado, quase garoto ou malicioso, no lábio juvenil. Depois a Nossa Senhora de mãos delicadamente postas, a cabeça airosa e inclinada no seu jeito de ave. Foram ambos cedidos por baixos preços a uns quaisquer, já me não lembro a quem. E por fim o Cristo, o meu admirável Cristozinho, que era pequeno e era grande, tão humanamente morto e divinamente imortal, – entregue também não sei como, não sei porquê, também por baixo preço, a um colega que logo mo namorou, sem acreditar que eu alguma vez lho cedesse. 

José Régio

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

THE CLASH
«The Magnificent Seven»

Poet'anarquista

O SETE MAGNIFICÊNCIA

Toca, toca, são 7 da manhã.
Eu me movo para ir outra vez
Água fria no rosto
Trazer você de volta para esse lugar terrível
Junta de comerciantes e você bancário, também.
Deve levantar e aprender aquelas regras
Homens do tempo e chefes loucos
Um diz que é o sol e outra que é a geada
De manhã, a FM, à tarde. Também
Fabricando esse ritmo latino
Comece de cima e começa para fora
Mas quanto tempo você pode se manter em cima?
Dê-me Honda, Me de Sony.
Assim barato e telefone verdadeiro
Dólares de Hong Kong e moedas da Índia
Libras inglesas e moedas de um centavo dos Esquimós

Você cheio? Quê?
Não pare! De tudo que você tem!
Você cheio? Quê?
Não pare! Yeah!

Trabalhar para uma ascensão, melhorar minha estação.
Dê, amor, a sofisticação.
Viu os anúncios, ela pensa que são bons.
Melhorar o trabalho duro – Eu vi o preço
Nunca se esqueça que é hora do autocarro
Nós começamos a trabalhar e você é um de nós
O relógio vai devagar no lugar do trabalho
Arrasto os minutos e empurro as horas

'Quando eu posso dizer para eles o que eu faço?'.
Um segundo, homem... Tudo certo idiota

Vaga do rapaz para o chefe
É o nosso lucro, é sua perda.
Mas de qualquer maneira no almoço os sinos tocam
Mais uma fora e faca a sua diversão
X-Burger

O que nós temos para se entreter?

A polícia juntando os ciganos da calçada
Agora a nova – Preste a atenção
A aterragem na lua da convenção de dentista
O mafioso italiano atira numa lagosta
O restaurante de frutos do mar sai da mão
Um carro numa frigideira
Ou uma frigideira num carro?
Como os cowboys fazem na TV.

Você esta cheio?
O Quê?
Não pare!
Oh!

Então vamos voltar a trabalhar e suar mais.
Vai anoitecer e nós vamos sair pela a porta
Não é bom para um homem trabalhar em gaiolas
Bate a cidade, ele bebe seu salário.
Você está irritando, você está suando.
Mas você notícia você não está lucrando.
Você não pára sempre o suficiente para começar?
Tire o seu carro dessa engrenagem
Você não pára sempre o suficiente para começar?
Karl Marx e Fredrich Engels
Veio a verificação geral no 7-11
Marx era rico – mas teve sentido
Engels emprestou as moedas necessárias

O que nós ganhamos? Yeah magnificência.

Luther King e Mahatma Gandhi
Foram ao parque verificar o jogo
Mas eles assassinaram o outro grupo
Que foi para ganhar 50 mil
Você pode ser verdadeiro, você pode ser falso.
Você vai ganhar a tal recompensa
Sócrates e Milhous Nixo
Platão da Grécia ou Rim Tim Tim.
Quem é o mais famoso para os Bilhões Milhões
Flash de notícia: o aspirador sugou os passarinhos

Ohhhhhhh, rapaz.

Magnificência

Caralho! Na lêndea?

The Clash
Banda Britânica

quinta-feira, 21 de maio de 2015

CARTOON versus QUADRA

As 21 Medidas de Costa
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HenriCartoon

«AS 21 MEDIDAS DE COSTA»

Análise às 21 medidas do Bosta:
Mudam as varejeiras no poder,
E os do costume vão-se foder...
Remate: demagogia dá à costa!

POETA

CARTOON versus DÉCIMAS

Como Apanhar um Criminoso
HenriCartoon

«COMO APANHAR UM CRIMINOSO»

- Ladrão d’armazém português
Apanhado em flagrante a roubar!
- Senhor guarda, só estou a atirar
Garrafada ao velho Marquês…
O prevaricador é aquela rês
Que me lançou mau olhado,
Eu vou servido e bem aviado
Nada mais preciso por agora…
Está na hora de ir embora
Mandar pedrada noutro lado!!

- Jogando pedras e garrafas?…
Isso não lembra a ninguém!
- Sou assaltante de armazém,
Comigo tu não te safas!
Tens que mudar as gafas
Pois quem andas à procura,
Foi por aquela viela escura
Com um menor p’la mão...
Sofre do mal da visão
Esta pobre criatura!

POETA

OUTROS CONTOS

«As Crianças que Matam», por João do Rio.

«As Crianças que Matam»
Conto de João do Rio

510- «AS CRIANÇAS QUE MATAM»

É assombrosa a proporção do crime nesta cidade, e principalmente do crime praticado por crianças! Estamos a precisar de uma liga para a proteção das crianças, como a imaginava o velho Júlio Vallés…

– Que houve de mais? – indagou Sertório de Azambuja, estirando-se no largo divã forrado de brocado cor de ouro velho.

– Vê o jornal. Na Saúde, um bandido de treze anos acaba de assassinar um garotinho de nove. É horrível!

O meu amigo teve um gesto displicente.

– Crime sem interesse… A menos que não se dê um caso de genialidade, um homem só pode cometer um belo crime, um assassinato digno, depois dos dezesseis anos. Uma criança está sempre sujeita aos desatinos da idade. Ora, o assassinato só se torna admirável quando o assassino fica impune e realiza integralmente a sua obra. Desde Caim nós temos na pele o gosto apavorador do assassinato. Não estejas a olhar para mim assim assustado. As mais frágeis criaturas procuram nos jornais a notícia das cenas de sangue. Não há homem que, durante um segundo ao menos, não pense em matar sem ser preso. E o assassínio é de tal forma a inutilidade necessária ao prazer imaginativo da humanidade, que ninguém se abala para ver um homem morto de morte natural, mas toda gente corre ao necrotério ou ao local do crime para admirar a cabeça degolada ou a prova inicial do crime. Dado o grau de civilização atual, civilização que tem em germe todas as decadências, o crime tende a aumentar, como aumentam os orçamentos das grandes potências, e com uma percentagem cada vez maior de impunidade. Lembra-te das reflexões de Thomas de Quincey na sua pedagogia do crime. É dele esta frase profunda: “O público que lê jornais contenta-se com qualquer coisa sangrenta; os espíritos superiores exigem alguma coisa mais…”

Humilhadamente, dobrei o jornal:

– Então só os espíritos superiores?…

– Podem realizar um crime brilhante. Esse caso da Saúde não tem importância alguma. É antes um exemplo comum da influência do bairro, desse bairro rubro, cuja história sombria passa através dos anos encharcada de sangue. Nunca foste ao bairro rubro? Queres lá ir agora? São oito horas. Vamos? Vem daí…

Descemos. Estava uma noite ameaçadora. No céu escuro, carregado de nuvens, relâmpagos acendiam clarões fugazes. A atmosfera abafava. Uma agonia vaga pairava na luz dos combustores.

Sertário de Azambuja ia de chapéu mole, com um lenço de seda à guisa de gravata. Ao chegar ao Largo do Machado, chamou um carro, mandou tocar para o começo da Rua da Imperatriz.

– Que te parece o nosso passeio? Estamos como Dorian Gray, partindo para o vício inconfessável. 

Lord Henry dizia: “Curar os sentidos por meio da alma e a alma por meio dos sentidos”. Vamos entrar no outro mundo..

Eu atirara-me para o fundo da vitória de praça e via vaga-mente a iluminação das casas, os grandes panos de sombra das ruas pouco iluminadas, a multidão, na escuridão às vezes, às vezes queimada na fulguração de uma luz intensa, os risos, os gritos, o barulho de uma cidade que se atravessa. Na Rua Marechal Floriano, Sertório pagou ao cocheiro, dizendo:

– Saltaremos em movimento.

E para mim:

– Não vale dar na vista…

Um instante depois saltou. Acompanhei-o. O carro continuou a rodar. O bairro rubro não é um distrito, uma freguesia: é uma reunião de ruas pertencentes a diversos distritos, mas que misteriosamente, para além das forças humanas, conseguiu criar a rede tenebrosa, o encadeamento lúgubre da miséria e do crime, insaciáveis. A Rua da Imperatriz é um dos corredores de entrada.

O bairro onde o assassinato é natural abraça a Rua da Saúde, com todos os becos, vielas e pequenos cais que dela partem, a Rua da Harmonia, a do Propósito, a do Conselheiro Zacarias, que são paralelas à da Gamboa, a do Santo Cristo, a do Livramento e a atual Rua do Acre. Naturalmente as ruas que as limitam ou que nelas terminam – São Jorge, Conceição, Costa, Senador Pompeu, América, Vidal de Negreiros e a Praia do Saco – participam do estado de alma dominante.

Toda essa parte da cidade, uma das mais antigas, ainda cheia de recordações coloniais, tem, a cada passo, um traço de história lúgubre. A Rua da Gamboa é escura, cheia de pó, com um cemitério entre a casaria; a da Harmonia já se chamou do Cemitério, por ter aí existido a necrópole dos escravos vindos da costa da África; a da Saúde, cheia de trapiches, irradiando ruelas e becos, trepando morro acima os seus tentáculos, é o caminho do desespero; a da Prainha, mesmo hoje aberta, com prédios novos, causa, à noite, uma impressão de susto.

Como dizia o meu guia, estávamos num novo mundo…

A Rua da Imperatriz, às oito e meia, com uma porção de casas comerciais velhas e tão juntas, tão trepadas na calçada, que parecem despejadas na rua, estava em plena febre. Os botequins reles, as barbearias sujas, as tascas imundas gargulejavam gente, e essa gente era curiosa – trabalhadores em mangas de camisa, carroceiros, carregadores, fumando mata-ratos infectos, cuspinhando cachaça em altos berros, num calão de imprevisto, e rapazes mulatos, brancos, de grandes calças a balão, chapéu ao alto, a se arrastarem bamboleando o passo, ou em tabernas barulhentas. A nossa passagem era acompanhada com um olhar de ironia, e bastava parar dois segundos defronte de uma taberna, para que dentro todos os olhos se cravassem em nós.

Eu sentia acentuar-se um mal-estar bizarro. Sertório ria.

– A vulgaridade da populaça! Há por aqui, entre esses marçanos fortes, gente boa. Há também ruim. Estão fatalmente destinados ou a apanhar ou a dar, desde crianças. É a vida. Alguns são perversos: provocam, matam. Vais ver. Nasceram aqui, de pais trabalhadores…

Tínhamos chegado à Rua Camerino, esquina da da Saúde. Há aí uma venda com um pequeno terraço de entrada. O prédio desfaz-se, mas dentro redemoinha uma turba estranha: negralhões às guinadas, inteiramente bêbedos, adolescentes ricos de músculos, embarcadiços, foguistas.

Fala-se uma língua babélica, com termos da África, expressões portuguesas, frases inglesas. Uns cantam, outros rouquejam insultos. Sertório aproxima-se de um grupo. Há um mulato de tamancos, que parece um arenque ensalmonado, no meio da roda. O mulato cuspinha:

– Go on, go on… yeah. farewell! yeah!

É brasileiro. Está aprendendo todas essas línguas estrangeiras com os práticos ingleses.

Há um venerável ancião, da Colônia do Cabo, tão alcoolizado que não consegue senão fazer um gesto de enjôo; há um copta, apanhado por um navio de carga no Mar Vermelho; há dois negrinhos retintos, com os dentes de uma alvura estranha, que bradam:

– Eh oui, petit monsieur, nous sommes du Congo. Étudiés avec pères blancs…

Todos incondicionalmente abominam o Rio: querem partir.
Sertório paga maduros; eles fazem roda. O mulato brasileiro está delicado.

– Hip! Hip! Cambada! Para mostrar a vocês que cá na terra há gente para embrulhar língua direito! Agüente, negrada!

– Sai burrique! – grunhe o ancião.

Dando guinadas com os copos a escorrer o líquido sujo do maduro, essa tropa parecia toda vacilar com a casa, com as luzes, com os caixeiros. Saí antes, meio tonto. Sertório livrava-se da matilha distribuindo níqueis.

Quando conseguiu não ser acompanhado, meteu-se pelo beco. Segui-o e, de repente, nós demos nos trechos silenciosos e lúgubres. Nas ruas, a escuridão era quase completa. Um transeunte ao longe anunciava-se pelo ruído dos passos.

De vez em quando uma rótula aberta e dentro uma sombra. Que lugares eram aqueles? O outro mundo! A outra cidade! A atmosfera era aquecida pelo cheiro penetrante e pesado dos grandes trapiches. Em alguns trechos, a treva era total. Na passagem da estrada de ferro, a luz elétrica, muito fraca, espalhava-se como um sudário de angústias.

Foi então que começamos a encontrar em cada esquina, ou sentados nas soleiras das portas, ou em plena calçada, uns rapazes, alguns crescidos, outros pequenos. À nossa passagem calavam-se, riam. Mas nós íamos seguindo, cada vez mais curiosos.

Afinal, demos no Largo da Harmonia, deserto e lamentável. À porta da igreja uma outra roda, maior que as outras, confabulava. Aproximamo-nos.

– Boa noite!

– Boa noite! – respondeu um pretalhão, erguendo-se com os tamancos na mão.

Os outros ficaram hesitantes, desconfiando da amabilidade.

– Que fazem vocês aí?

– Nós? – indagou um rapazola já de buço, gingando o corpo – Contamos histórias: ora aí tem! Interessa-lhe muito?

– Histórias! Mas eu gosto de histórias. Quem as conta?

– Isso é costume cá no bairro. Há rapazes que sabem contar que até dá gosto. Aqui quem estava contando era o José, este caturrita…

Era um pequeno franzino, magro, com uma estranha luz nos olhos.

Talvez matasse amanha, talvez roubasse! Estava ingenuamente contando histórias…

Sertório insistia, entretanto, para ouvi-lo. Ele não se fez de rogado. Tossiu, pôs as mãos nos joelhos…

– Era uma vez uma princesa, que tinha uma estrela de briIhantes na testa.

A roda caíra de novo num silêncio atento. A escuridão parecia aumentar, e, involuntariamente, ou e o meu amigo sentimos na alma a emoção inenarrável que a bondade do que julgamos mau sempre nos causa…

João do Rio

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(21 de Maio de 1904, nasce o compositor e músico de jazz norte-americano, Fats Waller)

FATS WALLER - «Hallelujah»

Poet'anarquista

Fats Waller
Retrato de David Lloyd Glover

quarta-feira, 20 de maio de 2015

OUTROS CONTOS

«Os Sinos», conto poético por Raul Proença.

«Os Sinos»
Conto Poético de Raul Proença

509- «OS SINOS»

[Excerto]

Lede este simples conto, que vos dá
Muito singelamente,
A historia de uns amores como não há
Na época presente.

Era um vasto mosteiro o dessa terra linda
Onde vivia a flor dos beijos sensuais,
E respirava um ar da Idade Media, ainda,
A imponente altivez das graves catedrais.

Tinha uns sinos de bronze, uns sinos clangorosos,
Que em metálicos sons deitavam para os céus
Ora o encanto febril dos beijos voluptuosos,
Ora a amarga aflição do derradeiro adeus.

E em sua solidão soberana, ingente, estóica,
Levantando-se ao céu e dominando o vale,
Os sinos tinham sons duma doçura heróica,
Com soluços de bronze e risos de cristal.

Raul Proença

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(20 de Maio de 2000, morre o flautista francês Jean-Pierre Rampal)

JEAN-PIERRE RAMPAL
«Romance, Op. 37»

Poet'anarquista

Jean-Pierre Rampal
Flautista Francês

terça-feira, 19 de maio de 2015

CARTOON versus DÉCIMA

Cuidado com o Polícia
HenriCartoon

«CUIDADO COM O POLÍCIA»

- Há por aí gente pacata
A quem possa fazer mal?
- E sou eu o irracional
Às ordens deste psicopata!…
Atiça-me, e diz mata
Por dá cá aquela palha,
Se não ataco, ainda ralha
Ameaçando tirar-me a ração…
Que triste vida de cão
Atrelado a um escumalha!!

POETA

OUTROS CONTOS

«Pierrette», por Júlio Dantas.
«Pierrette»
Conto de Carnaval de Júlio Dantas

508- «PIERRETTE»
Júlio Dantas

segunda-feira, 18 de maio de 2015

«A MUSA E O POETA»

O amigo Tony enviou a quadra do poeta Pedro Bial, e eu fiz o remate em décima com a respectiva sextilha. Os meus agradecimentos aqui ficam! 
Poet'anarquista
«A Musa e o Poeta»
Quadra versus Sextilha

«A MUSA E O POETA»

Poesia não dá camisa.
Mas quando o poeta tem uma musa,
não precisa de blusa,
vive de brisa.

“Pedro Bial”

E mais nada ele precisa
Para a vida ser completa,
Assim sente um poeta
Se tem musa inspiradora…
Encantei-me numa moura
Que tinha a medida certa!

POETA 

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(18 de Maio de 1911, morre o compositor austríaco, Gustav Mahler)

GUSTAV MAHLER
«Com Prazer por Floresta Verdejante»

Poet'anarquista

Gustav Mahler
Compositor Austríaco

OUTROS CONTOS

«Austerlitz», por W.G. Sebald.

«Austerlitz»
Romance de W.G Sebald

507- «AUSTERLITZ»

[Excerto/ pág. 32]

«Quando a chuva começou a fustigar as ruas, busquei refúgio em um minúsculo bar chamado, se bem me lembro, Café des Espérances, onde para considerável surpresa minha encontrei Austerlitz debruçado sobre seus apontamentos em uma das mesinhas de fórmica.

Nesse primeiro reencontro, tal como em todas as ocasiões seguintes, retomamos nossa conversa sem desperdiçar uma única palavra sobre a improbabilidade de nosso reencontro em um local como aquele, que nenhuma pessoa sensata teria procurado.

Do lugar onde ficamos sentados até tarde da noite no Café des Espérances, era possível avistar lá em baixo, por uma janela que dava para os fundos, um vale, talvez no passado cortado por campinas e regatos, no qual o reflexo dos alto-fornos de uma gigantesca fundição chamejava contra o céu escuro, e ainda me lembro claramente como Austerlitz, enquanto nós dois mirávamos imóveis aquele espectáculo, deu início a um discurso de mais de duas horas sobre como, no curso do século XIX, a visão de uma cidade operária ideal nascida da cabeça de empresários filantrópicos se transformou inadvertidamente na prática de acomodá-los em casernas, do mesmíssimo modo que nossos melhores planos, disse Austerlitz, como me lembro , sempre se convertem no seu exacto oposto quando postos em prática.»

W.G. Sebald

domingo, 17 de maio de 2015

CARTOON versus DÉCIMA

O Mercado dos Escravos
HenriCartoon

«O MERCADO DOS ESCRAVOS»

– Quem dá mais? – perguntou
O produto interno bruto…
– Podem apreciar o fruto,
Faz de conta que não voou.
A TAP se apresentou
Recauchutada à maneira,
Com material de primeira
Não há como enganar…
Se alguém quiser apalpar,
Tem que mostrar a carteira!

POETA