segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

SÁTIRA...

O Enteado
HenriCartoon

«O ENTEADO»

E os parabéns vão
Pró presidente Martelo…
Em dia cinzento, amarelo,
Foi segundo a abstenção.
Nem palavra de gratidão
Aos cinquenta e um por cento,
Esquecem reconhecimento
A quem não quer votar…
Estou de papo pró ar
A fazer figura de jumento!

POETA

OUTROS CONTOS

«Retrato de uma Londrina», por Virgina Woolf.

«Retrato de uma Londrina»
Amadeo Modigliani

717- «RETRATO DE UMA LONDRINA»

Ninguém pode se considerar expert sobre Londres se não conhecer um verdadeiro cockney¹; se não dobrar numa rua lateral, longe das lojas e dos teatros, e bater em uma porta particular numa rua de casas particulares.

Casas particulares em Londres têm tendência a serem muito parecidas. A porta se abre para um vestíbulo escuro, ergue-se uma escada estreita; do patamar superior abre-se uma dupla sala de estar e nessa dupla sala de estar vê-se dois sofás, um de cada lado de um fogo crepitante, seis poltronas e três compridas janelas dando para a rua. Sempre é matéria de considerável conjectura o que acontece na segunda metade da sala dos fundos debruçando-se para os jardins de outras casas. Mas é com a sala de estar da frente que estamos preocupados; pois era ali que mrs. Crowe sentava-se sempre numa poltrona junto ao fogo; era ali que sua existência transcorria; era ali que ela servia o chá.

Que tenha nascido no campo, embora estranho, parece ser um fato; que ela às vezes deixasse a cidade, naquelas semanas de verão em que Londres não é Londres, também é verdade. Mas para onde ia ou o que fazia quando saía de Londres, quando sua poltrona estava vazia, sua lareira apagada e a mesa desfeita, ninguém sabia ou podia imaginar. Pois conceber mrs. Crowe com seu vestido preto, seu véu e seu chapéu caminhando num campo de nabos ou subindo um monte de pasto está além da mais desvairada imaginação.

Ali, junto à lareira no inverno ou à janela no verão, sentara-se ela por 60 anos — mas não sozinha. Havia sempre alguém na poltrona oposta, fazendo uma visita. E antes que o primeiro visitante estivesse sentado por dez minutos, a porta sempre se abria e a criada Maria, de olhos e dentes proeminentes, que por 60 anos abrira a porta, abria-a mais uma vez e anunciava um segundo visitante; e a seguir um terceiro, e logo depois um quarto.

Nunca se soube de um tête-à-tête com mrs. Crowe. Ela não gostava de tête-à-têtes. Era uma peculiaridade que compartilhava com muitas anfitriãs, a de nunca ser especialmente íntima de alguém. Por exemplo, havia sempre um homem idoso no canto junto ao armário; e que parecia tanto fazer parte daquela admirável mobília do século XVIII quanto seus pegadores de bronze. Mas mrs. Crowe sempre se dirigia a ele como mr. Graham; nunca John, nunca William; embora, às vezes, o chamasse de “caro mr. Graham” como para sublinhar que já o conhecia havia 60 anos.

A verdade é que não desejava intimidade, desejava conversa. A intimidade é um dos caminhos para o silêncio, e mrs. Crowe abominava o silêncio. Era preciso haver conversa, e que esta fosse geral e que abarcasse tudo. Não devia ser profunda demais nem inteligente demais, pois se progredisse muito nessas direcções alguém certamente se sentiria de fora, e ficaria sentado ali, balançando a xícara de chá, sem dizer nada.

Portanto, a sala de estar de mrs. Crowe tinha pouco em comum com os celebrados salões dos memorialistas. Gente inteligente ia lá com frequência — juízes, médicos, membros do parlamento, escritores, músicos, viajantes, jogadores de pólo, actores e completos anónimos —, mas se alguém dissesse uma coisa brilhante isto era sentido quase como uma gafe, um acidente que se ignorava, como um acesso de espirros ou alguma catástrofe com um bolinho. A conversa de que mrs. Crowe gostava e que a inspirava era uma versão glorificada do mexerico da cidade. A cidade era Londres, e o mexerico era sobre a vida de Londres. Mas o grande dom de mrs. Crowe consistia em tornar a grande metrópole tão pequena quanto uma aldeia, com uma igreja, um solar e 25 chalés. Mrs. Crowe tinha informação de primeira mão sobre cada peça, cada exposição de pintura, cada julgamento, cada caso de divórcio. Ela sabia quem estava casando, quem estava morrendo, quem estava na cidade e quem estava fora. Ela mencionava o fato de que acabara de ver o carro de lady Umphleby passar, e arriscava o palpite de que ia visitar a filha cujo bebê nascera na noite anterior, exactamente como uma mulher da aldeia fala sobre a esposa do juiz de paz dirigindo até a estação para receber mr. John, que estaria voltando da cidade.

E enquanto mrs. Crowe fazia essas observações pelos últimos 50 anos ou algo assim, adquiria um surpreendente arquivo sobre a vida de outras pessoas. Quando mr. Smedley, por exemplo, disse que sua filha estava noiva de Arthur Beecham, mrs. Crowe observou imediatamente que nesse caso ela seria uma prima em terceiro grau de mrs. Pirebrace, e num certo sentido sobrinha de mrs. Burns, pelo primeiro casamento com mr. Minchin de Blackwater Grange. Mas mrs. Crowe não era nem um pouco snobe. Era apenas uma cultivadora de relações; e sua surpreendente habilidade nesse campo servia para dar um carácter familiar e uma personalidade doméstica às suas colheitas, pois muitas pessoas se espantariam de serem primos em vigésimo grau, se soubessem disso.

Portanto, ser admitido na casa de mrs. Crowe significava tornar-se membro de um clube, e o pagamento exigido era a contribuição com um número de tópicos de mexerico por ano. O primeiro pensamento de muita gente quando a casa incendiava ou os canos rebentavam ou a criada fugia com o mordomo deve ter sido: “Vou correr até mrs. Crowe e lhe contar isso.” Mas nisso também as distinções precisavam ser observadas. Certas pessoas tinham o direito de aparecer na hora do almoço; outras, em maior número, podiam ir entre cinco e sete horas. A classe que tinha o privilégio de jantar com mrs. Crowe era pequena. Talvez somente mr. Graham e mrs. Burke realmente jantassem com ela, pois mrs. Crowe não era rica. Seu vestido preto estava um tanto gasto; seu broche de diamante era sempre o mesmo broche de diamante. Sua refeição favorita era chá, porque a mesa do chá pode ser suprida economicamente, e há uma elasticidade no chá que combinava com o temperamento gregário de mrs. Crowe. Mas fosse almoço ou chá, a refeição mostrava um carácter distinto, exactamente como um vestido ou a joia que usava combinavam com ela à perfeição, traziam em si uma moda própria. Haveria um bolo especial, um pudim especial, algo peculiar à casa e tanto parte dela quanto Maria, a velha criada, ou mr. Graham, o velho amigo, ou o velho chintz da poltrona, ou o velho carpete no assoalho.

É verdade que mrs. Crowe deve ter saído algumas vezes, convidada para almoços e chás de outras pessoas. Mas em sociedade ela parecia furtiva, fragmentária e incompleta, como se tivesse meramente passado para uma espiada no casamento ou na reunião noturna ou no funeral, a fim de recolher as migalhas de notícias de que precisava para completar seu próprio estoque. Por isso, era raramente induzida a sentar-se; estava sempre voando. Parecia deslocada entre as mesas e cadeiras dos outros; precisava ter seus próprios chintzes, seu próprio armário e seu próprio mr. Graham junto a ele a fim de ser completamente ela própria. À medida que os anos foram passando, as pequenas incursões no mundo exterior praticamente cessaram. Mrs. Crowe construiu seu ninho de modo tão compacto e completo que o mundo exterior não tinha uma pena ou um graveto a lhe acrescentar. 

Além disso, seus próprios camaradas lhe eram tão fiéis que podia confiar neles para transmitir qualquer noticiazinha que ela devesse acrescentar à sua coleção. Era desnecessário que abandonasse a própria poltrona junto ao fogo no inverno, ou junto à janela no verão. E com a passagem dos anos seu conhecimento não se tornou mais profundo — a profundidade não era a linha de nossa anfitriã — e sim mais redondo e completo. Deste modo, se uma nova peça fazia um grande sucesso, mrs. Crowe conseguia no dia seguinte não só registar o facto com uma pitada de mexerico divertido dos bastidores, como também podia remeter-se a outras estreias, nos anos 1880, 1890, e descrever o que Ellen Terry usara, o que Duse tinha feito, o que o querido mr. Henry James comentara — nada muito notável talvez; mas enquanto falava, era como se todas as páginas da vida de Londres nos últimos 50 anos fossem levemente folheadas para sua diversão. Havia muitas, e suas ilustrações eram vivas e brilhantes, e de pessoas famosas; mas mrs. Crowe de modo nenhum vivia no passado, de modo nenhum o exaltava acima do presente.

Na verdade, era sempre a última página, o momento presente que mais importava. O delicioso de Londres era que sempre dava ao indivíduo algo novo para observar, algo fresco sobre o que falar. Era preciso apenas manter os olhos abertos e sentar em sua própria poltrona das cinco às sete horas todos os dias da semana. Enquanto mrs. Crowe sentava-se com os convidados em torno de si, dava de tempos em tempos uma rápida olhadela de pássaro por sobre o ombro para a janela, como se tivesse meio olho na rua, meio ouvido para os carros e ônibus e os gritos dos jornaleiros lá fora. Ora, algo novo podia estar acontecendo naquele mesmo instante. Não se podia passar tempo demais no passado: não se devia dar uma atenção total ao presente.

Nada era mais característico e talvez um pouco desconcertante do que a ansiedade com a qual mrs. Crowe erguia os olhos e interrompia a frase no meio quando a porta sempre se abria e Maria, que se tornara muito corpulenta e um pouco surda, anunciava uma nova visita. Quem estaria prestes a entrar? O que teria a acrescenta à conversa? Mas sua habilidade em extrair fosse o que fosse que poderiam oferecer e sua destreza em atirar a notícia no quotidiano, eram tais que nenhum dano ocorria; e fazia parte de seu peculiar triunfo que a porta jamais se abrisse com demasiada frequência; o círculo nunca ultrapassava sua possibilidade de controle.

Assim, para conhecer Londres não apenas como um espectáculo deslumbrante, um mercado, uma corte, uma colmeia de indústria, mas como um lugar onde pessoas se encontram, conversam, riem, casam-se e morrem, pintam, escrevem e actuam, mandam e legislam, era essencial conhecermos. Crowe. Era em sua sala de estar que os inúmeros fragmentos da vasta metrópole pareciam juntar-se num todo animado, compreensível, divertido e agradável. Viajantes ausentes por anos, homens esgotados e ressecados pelo sol, recém-chegados da Índia ou da África, de remotas viagens e aventuras entre selvagens e tigres, iam directo para a casinha na rua quieta para serem conduzidos novamente ao coração da civilização numa única pernada. Mas nem a própria Londres podia manter mrs. Crowe viva para sempre. E é fato que um dia ela já não estava sentada na poltrona junto ao fogo quando o relógio bateu cinco horas; Maria não abriu a porta; mr. Graham separara-se do armário. Mrs. Crowe está morta; e Londres, embora Londres ainda exista, jamais será de novo a mesma cidade.

Virginia Woolf

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

JOHANN STRAUSS - «La Marcha Persa»

Poet'anarquista

Johann Strauss
Compositor Austríaco

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

HOMENAGEM A HERGÉ

Georges Prosper Remi, de pseudónimo Hergé, escritor e artista de banda desenhada, escreveu e ilustrou a célebre personagem Tintim desde 1929, até à data da sua morte em 1983. Foram 54 anos de aventuras dum herói que vive dentro de muitos de nós. JPGalhardas não fugiu à regra...
Poet'anarquista
Tintim, de Hergé
Desenho de JPGalhardas

MOTE 

A arte em nós se revela
Sempre de forma diferente:
Cai no papel ou na tela
Conforme o artista sente 

António Aleixo 

***

«A ARTE»/ Homenagem a Hergé

Glosas

I
Certo dom surge connosco
Logo no berço, ao nascer,
Não é coisa pra entender
Nem resposta eu busco.
A quadra pode dizer pouco
Escrita assim, de forma singela,
Mas quando assomo à  janela
E sinto o mundo lá fora…
Percebo que sem demora
A arte em nós se revela.

II
Alguém disse que a arte
Não se ensina ou se aprende,
E por não haver quem mande
Nasce e morre com a gente…
Será assim exactamente
A arte tão dependente?...
Forma abstracta crescente
Que a espaços se difunde,
Em obra d’ arte se funde
Sempre de forma diferente!

III  
As mãos que traçam árduas
O destino da própria vida,
Riscam com alma sentida
Alegrias e velhas mágoas.
Podem ser densas névoas…
Luar de Agosto em aguarela,
Pode ser triste ou mais bela
A pincelada de uma mão…
Mas só com sentir do coração
Cai no papel ou na tela.

IV 
A alma desperta sentidos
Que ninguém sabe explicar,
Assim se começam a riscar
Os primeiros traços desmedidos…
Parecem desenhos perdidos
Mas não o são, certamente,
Nasce pois naturalmente
Qualquer arte, estou seguro,
Eis então o sentir mais puro
Conforme o artista sente!

Matias José

EDUARDO, MÃOS DE TESOURA

Eduardo, Mãos de Tesoura
Pintura de David, meu Sobrinho

EDUARDO, MÃOS DE TESOURA

Eduardo, mãos de tesoura
Ao estilo matador…
David foi o autor
Da imagem duradoura.
A veia criadora
Surge no imaginário,
Vai riscando o cenário
Com toda a confiança…
Bonita idade de criança
Esse tempo extraordinário!

Matias José

SÁTIRA...

Corrida Presidencial
HenriCartoon

«CORRIDA PRESIDENCIAL»

- Yes!... acabei de ganhar
Esta corrida presidencial…
- Amigo, não leve a mal,
Segunda volta há que dar.
- Não era suposto acabar
Logo na primeira volta?
- É bom que tome nota…
Não vai ser brincadeira!
- Penso ganhar à primeira…
À segunda, certa a derrota!!

POETA

OUTROS CONTOS

«Lança e Presa», por Robert E. Howard.
                                                                       
«Lança e Presa»
Família Neandertal

716- «LANÇA E PRESA»

A-aea se agachou perto da entrada da caverna, observando Ga-nor com olhos
admiradores. A ocupação de Ga-nor interessava a ela, tanto quanta o próprio Ga-nor.
Quanta a Ga-nor, ele estava ocupado demais com seu trabalho para percebê-la. Uma
tocha, fincada num nicho da parede da gruta, iluminava fracamente a caverna espaçosa,
e, à sua luz, Ga-nor estava laboriosamente desenhando figuras na parede. Com um
pedaço de silex, ele riscava o contorno; e depois, com um pequeno ramo mergulhado
em tinta ocre, completava a ilustração. O resultado era tosco, mas uma real evidência de
verdadeiro génio artístico, se esforçando por expressão.

Era um mamute, o que ele tentava pintar, e os olhos da jovem A-aea se arregalavam de
surpresa e admiração. Maravilhoso! Que importava se o animal tinha uma perna a
menos e não possuía cauda? Os críticos eram homens tribais, que acabavam de sair
arduamente do total barbarismo, e para eles, Ga-nor era um perito.

Entretanto, não foi para observar a reprodução de um mamute que A-aea se escondeu
entre as escassas moitas pela caverna de Ga-nor. A admiração pela pintura se
empalidecia, ao lado do olhar de incontestável adoração com o qual aprovava o artista.
De facto, Ga-nor não era desagradável de se ver. Era alto, medindo mais de 1m90, de
constituição esguia, com ombros fortes e quadris estreitos - a estrutura de um lutador.
Ambas as mãos e os pés eram longos e esguios; e suas feições, enchidas de contornos
destemidos pela tremula luz da tocha, eram inteligentes, com uma testa alta e larga,
encimada por uma juba de cabelos amarelados.

A própria A-aea era bastante confortável de se olhar. Seus cabelos, assim como os
olhos, eram negros e caíam-lhe ao redor dos ombros esguios como uma onda cacheada.
Nenhuma tatuagem ocre pintava-lhe a face, pois ela ainda era solteira.

Tanto a garota quanta o jovem eram exemplos perfeitos da grande raça Cro-Magnon,
que veio não se sabe de onde, anunciando e impondo sua supremacia sobre feras e
homens-fera.

A-aea olhou quase nervosamente. Todas as ideias contrárias, costumes e tabus são
muito mais intolerantes e vigorosamente impostos entre povos selvagens.

Quanta mais primitiva a raça, mais intolerantes seus costumes. Vício e licenciosidade
podem ser a regra, mas o aspecto de vício é evitado e condenado. Desse modo, se A-aea
fosse descoberta, se escondendo perto da gruta de um jovem descomprometido, a
denuncia como uma mulher desavergonhada seria seu destino, e sem duvida, um
acoitamento em publico.

Para ser conveniente, A-aea deveria bancar a donzela modesta e recatada, talvez
despertando habilmente o interesse do jovem artista, sem parecer fazê-lo. Depois, se o

jovem gostasse, ele a cortejaria publicamente, através de rudes canções de amor e
música de flauta de caniço. Depois, permutaria com os pais dela, e então... casamento.
Ou simplesmente não cortejaria, se a amada fosse rica.

Mas a jovem A-aea era, por si só, um sinal de progresso. Olhadelas dissimuladas
haviam falhado em atrair a atenção do jovem, que parecia inteiramente ocupado em sua
maestria. Então, ela usou a maneira não-convencional de espiona-lo, na esperança de
achar algum meio de ganha-lo.

Ga-nor se afastou de seu trabalho concluído, levantou-se e olhou em direcção a entrada
da caverna. Como um coelho assustado, a pequena A-aea abaixou a cabeça e se afastou
em disparada.

Quando Ga-nor saiu da gruta, ficou perplexo ao ver uma pegada pequena e fina no
marga macio, do lado de fora da caverna.

A-aea caminhou cerimoniosamente em direcção a própria caverna, que ficava, como
quase todas, a alguma distância da de Ga-nor. Enquanto o fazia, ela notou um grupo de
guerreiros, conversando agitadamente diante da caverna do chefe.

Uma simples garota não tinha permissão para entrar nos conselhos dos homens, mas a
curiosidade de A-aea era tamanha, que ela se arriscou a levar uma repreensão, ao se
mover furtivamente para mais perto. Ouviu as palavras "pegada" e "gur-na" (homem-
macaco).

As pegadas de um gur-na haviam sido achadas na floresta, não muito longe das
cavernas.

"Gur-na" era uma palavra de odio e horror para o povo das cavernas, pois as criaturas a
quem os homens da tribo chamavam "gur-na", ou homens-macaco, eram os monstros
peludos de outra era, os rudes homens de Neandertal. Mais temidos que mamutes ou
tigres, eles haviam governado as florestas, ate chegarem os homens de Cro-Magnon, os
quais empreenderam guerras selvagens contra eles. Com enorme força e mentes
pequenas, selvagens, bestiais e canibais, eles inspiraram os homens tribais com
repugnância e horror - um horror transmitido através das eras, em histórias de ogros e
duendes, de lobisomens e homens-fera.

Agora, eles estavam em menor número e eram mais astutos. Há não muito tempo, eles
investiam rugindo para combater; mas, astuta e assustadoramente, eles se moveram
furtivamente ao redor das florestas, o terror de todas as feras, guardando em suas mentes
rudes o ódio pelos homens que os enxotaram dos melhores territórios de caça.

E os homens de Cro-Magnon sempre os perseguiam e massacravam, até eles terem se
retirado sombriamente para longe, para dentro das florestas. Mas o medo deles
permanecia nos homens tribais, e nenhuma mulher ia sozinha para a floresta.

Às vezes, as crianças iam, e às vezes não retornavam. E os buscadores só achavam
sinais de um medonho banquete, com pegadas que não eram nem de animais e muito
menos de homens.

E então, um grupo de caça partia para perseguir o monstro. Às vezes, ele lutava e era
morto; e, às vezes, fugia deles e escapava nas profundezas da floresta, onde eles não
ousavam segui-lo. Certa vez, um grupo de caça temerário havia perseguido um gur-na
fugitivo nas profundezas da floresta, e lá, num profundo desfiladeiro, onde ramos
pendentes obstruíam a passagem do sol, vários neandertais atacaram-nos de surpresa.

Deste modo, nunca mais adentraram as florestas.

A-aea se desviou, com um rápido olhar para a floresta. Em algum lugar nas suas
profundezas, se escondiam os homens-fera, com seus olhos de porco brilhando em ódio
astuto, malévolos e assustadores.

Alguém andava na trilha dela. Era Ka-nanu, filho de um conselheiro do chefe.

Ela se afastou, dando de ombros. Não gostava de Ka-nanu e tinha medo dele. Ele a
cortejava com um ar de zombaria, como se o fizesse apenas por diversão e fosse toma-la
sempre que quisesse, de qualquer modo. Ele agarrou-a pelo pulso.

- Não se afaste, bela virgem. - ele disse - E seu escravo, Ka-nanu.

- Deixe-me ir. - ela respondeu - Preciso ir a nascente, buscar água.

- Irei com você, então, lua de prazer, para que nenhuma fera possa lhe fazer mal.
E ele a acompanhou, apesar dos protestos dela.

- Há gur-nas por toda a parte. - ele disse, carrancudo - É lÍcito para um homem
acompanhar até mesmo uma donzela solteira, para protege-la. E eu sou Ka-nanu. -
acrescentou, num tom diferente - Não me resista muito, ou lhe ensinarei a obedecer.

A-aea conhecia algo da natureza impiedosa do homem. Muitas garotas na tribo olhavam
com aprovação para Ka-nanu, pois ele era mais largo e alto que o próprio Ga-nor, e
mais bonito, de uma forma temerária e cruel. Mas A-aea amava Ga-nor e temia Ka-
nanu. Seu próprio temor a ele a impedia de resistir demais às suas aproximações. Ga-nor
era conhecido por ser gentil com mulheres, embora desatento com elas, enquanto Ka-
nanu, mostrando desse modo a si mesmo ser uma outra marca de progresso, tinha
orgulho de seu sucesso com as mulheres e usava seu poder sobre elas de forma nada
gentil.

A-aea descobriu que Ka-nanu era mais temível que um animal, pois, assim que ficaram
longe do alcance visual das cavernas, ele agarrou-a com os braços.

- A-aea - ele sussurrou -, meu pequeno antílope, finalmente eu tenho você. Não irá me
escapar.

Foi em vão que ela se debateu e se defendeu dele. Erguendo-a em seus braços
poderosos, ele caminhou a passos largos para dentro da floresta.

Ela lutou freneticamente para escapar, para dissuadi-lo.

- Não sou forte o bastante para lhe resistir - ela disse -, mas vou lhe acusar diante da
tribo.

- Você jamais vai me acusar, pequeno antílope. - ele disse, e ela leu outra intenção,
ainda mais sinistra, na cruel fisionomia dele.

Ininterruptamente, ele a carregou para dentro da floresta e, no meio de uma clareira, fez
uma pausa, com seu instinto de caçador alerta.

Das arvores diante dele, apareceu um mostro horrendo, uma coisa peluda, disforme e
assustadora.

O grito de A-aea ecoou repetidamente pela floresta, enquanto a coisa se aproximava.
Ka-nanu, com os lábios pálidos e horrorizado, deixou A-aea cair ao chão e disse a ela
que fugisse. Depois, puxando faca e machado, ele avançou.

O homem de Neandertal saltou para a frente, com suas pernas curtas e nodosas. Era
coberto de pelos, e suas feições eram mais hediondas que as de um macaco, por causa
da grotesca qualidade humana nelas. Nariz chato e alargado, queixo recuado, presas,
nenhuma testa; braços grandes e imensamente longos, pendendo de incríveis ombros
sujos, o monstro parecia o próprio demónio para a garota aterrorizada. Sua cabeça
simiesca mal alcançava os ombros de Ka-nanu, embora ele devesse pesar uns 45 kg a
mais que o guerreiro.

Avançou como um búfalo no ataque, e Ka-nanu se defrontou directa e corajosamente
com ele. Com o machado de silex e a adaga de obsidiana, ele perfurou e golpeou, mas o
machado foi posto de lado como se fosse um brinquedo, e o braço que segurava a faca
se partiu como um graveto na mão disforme do neandertal. A jovem viu o filho do
conselheiro sendo puxado violentamente do chão e sacudido no ar, o viu sendo
arremessado por toda a clareira, e viu o monstro pular atrás dele e dilacerá-lo membro a
membro.

Então, o neandertal voltou a atenção para ela. Uma nova expressão surgiu em seus olhos
horrendos, enquanto ele se movia pesadamente em sua direcção, com as grandes mãos
peludas, lambuzadas de sangue, se estendendo em direcção a ela.

Incapaz de fugir, ela jazia atordoada de horror e medo. E o monstro arrastou-a para si,
olhando-a malevolamente nos olhos. Ele lançou-a sobre o ombro e caminhou
bamboleando por entre as árvores; e a garota, meio desmaiada, sabia que ele a estava
levando para seu covil, onde nenhum homem ousaria vir resgatá-la.

Ga-nor desceu a nascente para beber. Ociosamente, ele percebeu as leves pegadas de
um casal que chegara antes dele. Ociosamente, notou que não haviam retornado.

Cada pegada tinha sua característica individual. A masculina, ele sabia que era de Ka-
nanu. O outro rastro era idêntico aquele diante de sua caverna. Ele se surpreendeu, tão
ociosamente quanta Ga-nor estava acostumado a fazer com todas as coisas, excepto a
pintura de desenhos.

Então, na nascente, ele percebeu que as pegadas da garota terminavam, mas as do
homem seguiam em direcção à selva e estavam mais profundamente impressas do que
antes. Portanto, Ka-nanu estava carregando a garota.

Ga-nor não era tolo. Ele sabia que um homem não carrega uma moca para dentro da
floresta com bons propósitos. Se ela quisesse ir, não estaria sendo carregada.

Agora, Ga-nor (outro sinal de progresso) estava disposto a se intrometer em coisas que
não lhe diziam respeito. Talvez outro homem tivesse dado de ombros e continuado seu
caminho, reflectindo que não seria bom se intrometer com o filho de um conselheiro.
Mas Ga-nor tinha poucos interesses, e uma vez que seu interesse era despertado, ficava
disposto a ver algo até ao fim. Alem disso, embora não tivesse fama de lutador, não
temia homem algum.

Desse modo, puxou o machado e a adaga em seu cinto, agarrou sua lança e seguiu o
rasto.

Ininterruptamente, cada vez mais para dentro da floresta, o neandertal carregava a
jovem A-aea.

A floresta era silenciosa e maligna: nenhum pássaro, e sem insectos para quebrar o
silêncio. Pelas árvores pendentes, nenhuma luz solar se filtrava. Sobre pés almofadados,
que não faziam ruídos, o neandertal seguia depressa.

Os animais se afastavam furtivamente de seu caminho. Em certo momento, uma grande
piton veio deslizando pela selva, e o neandertal se dirigiu para as árvores, numa
velocidade surpreendente para alguém do seu volume gigantesco. Ele não se sentia em
casa nas árvores, entretanto - nem mesmo tanto quanto A-aea se sentiria.

Uma ou duas vezes, a jovem vislumbrava outro monstro, como seu captor.
Evidentemente, eles se afastavam muito dos limites vagamente definidos da raça dela.
Os outros homens de Neandertal os evitavam. Era evidente que viviam como animais,
se unindo apenas contra inimigos comuns, de forma não-frequente. La estava a razão
para o sucesso da guerra do Cro-Magnon contra eles.

Para dentro de uma ravina, ele levou a moca; e para dentro de uma caverna - pequena e
vagamente iluminada pela luz do lado de fora. Ele jogou-a rudemente no chão da
caverna, onde ela ficou deitada, apavorada demais para se levantar.

O monstro olhou para ela, como um demónio da floresta. Nem sequer algaraviou com
ela, como um macaco o faria. Os neandertais nao tinham nenhuma forma de fala.

Ele lhe ofereceu algum tipo de carne - crua, é claro. Com a mente cambaleando de horror,
ela viu que se tratava do braço de uma criança Cro-Magnon. Quando viu que ela não
iria comer, ele mesmo devorou, rasgando a carne com grandes presas.

Tomou-a entre os grandes braços, machucando-lhe a carne macia. Ele correu os rudes
dedos pelo cabelo dela e, ao ver que a tinha ferido, pareceu preenchido por uma alegria

demoníaca. Arrancou punhados do cabelo dela, parecendo gostar diabolicamente. A-aea
apertou os dentes, e não ia gritar como fizera no inicio; e dentro em pouco, ele desistiu.

A roupa de pele de leopardo, que ela vestia, parecia enfurece-lo. O leopardo era seu
inimigo hereditário. Ele arrancou-a dela e rasgou-a em pedaços.

Enquanto isso, Ga-nor se apressava pela floresta. Agora estava correndo, e seu rosto era
uma máscara demoníaca, pois ele havia alcançado a clareira e encontrado as pegadas do
monstro, que se afastavam dali.

E, na caverna dentro da ravina, o neandertal estendia a mão para pegar A-aea.

Ela pulou para trás, e ele lançou-se em sua direcção. Ele a tinha num canto, mas ela
escapuliu sob seu braço e recuou. Ele ainda estava entre ela e o lado de fora da caverna.

Se ela não conseguisse passá-lo, ele iria acua-la e se apoderar dela. Então, ela fingiu
pular para um lado. O neandertal se moveu pesadamente nessa direcção, e, rápida como
um gato, ela pulou na outra direcção e passou por ele em disparada, saindo para a ravina.

Com um bramido, ele se lançou atras dela. Uma pedra rolou sob o pé dela, derrubando-a
de ponta-cabeça; antes que ela pudesse se erguer, a mão dele agarrou-lhe o ombro.
Enquanto ele a puxava para dentro da gruta, ela gritava selvagem e desvairadamente,
sem esperança de resgate - simplesmente, o grito agudo de uma mulher sob o domínio
de um animal.

Ga-nor ouviu aquele grito agudo, enquanto saltava para dentro da ravina. Ele se
aproximou da caverna, rápida mas cautelosamente. Enquanto olhava para dentro, sentia
ódio vermelho. Sob a vaga luz da caverna, se erguia o grande neandertal, com seus
olhos de porco em seu inimigo; hediondo, peludo e lambuzado de sangue, enquanto, aos
seus pés, com o macio corpo branco contrastando com o monstro desgrenhado e o longo
cabelo agarrado pela mão ensanguentada do mesmo, estava A-aea.

O neandertal urrou, largou sua cativa e atacou. E Ga-nor o enfrentou, sem competir
força bruta com sua força menor, mas pulando para trás, pra fora da gruta. A lança foi
estocada, e o monstro urrou, quando a mesma lhe atravessou o braço. Dando outro pulo
para trás, o guerreiro puxou a lança e se agachou. O neandertal investiu novamente, e
novamente o guerreiro pulou e estocou, desta vez no grande peito peludo. E assim
lutaram: velocidade e inteligência contra força bruta e selvageria.

Num dado momenta, o grande braço fustigante do monstro pegou Ga-nor pelo ombro e
o lançou violentamente a uma distância de mais de três metros e meio, deixando aquele
braço quase inutilizado por um tempo. O neandertal saltou atrás dele, mas Ga-nor
lançou-se para um lado e ergueu-se de um pulo. Repetidas vezes, sua lança arrancava
sangue, mas ela aparentemente só fazia enfurecer o monstro.

Então, antes que o guerreiro percebesse, a parede da ravina estava nas suas costas e ele
ouviu A-aea soltar um grito agudo, quando o monstro investiu. A lança foi arrancada de
sua mão, e ele estava sob o domínio de seu inimigo. Os longos braços lhe envolviam o
pescoço e ombros, e as grandes presas buscavam-lhe a garganta. Ele empurrou o
cotovelo sob o queixo recuado de seu antagonista e, com a mão livre, golpeou

repetidamente o rosto hediondo; golpes que teriam derrubado um homem comum, mas
que não eram sequer percebidos pelo bruto neandertal.

Ga-nor sentiu a consciência o abandonando. Os terríveis braços estavam espremendo-
o, ameaçando quebrar-lhe o pescoço. Sobre o ombro de seu inimigo, ele viu a garota se
aproximar com uma pedra grande, e tentou fazer sinal para que ela recuasse.

Com grande esforço, estendeu a mão para alem do braço do monstro e encontrou seu
machado. Mas estavam tao engalfinhados, que ele não conseguia brandi-lo. O homem
de Neandertal se preparou para quebrar seu adversário em pedaços, como se fosse um
galho seco. Mas o cotovelo de Ga-nor estava enfiado sob seu queixo, e quanto mais o
homem de Neandertal o puxava, mais profundamente ele dirigia o cotovelo a sua
garganta peluda. Logo, ele percebeu o que acontecia e lançou Ga-nor para longe.
Quando fez isso, o guerreiro puxou o machado e, atacando com a fúria do desespero,
partiu a cabeça do monstro.

Por um instante, Ga-nor cambaleou sobre seu inimigo, e depois sentiu uma forma macia
entre seus braços e viu um lindo rosto, próximo ao seu.

- Ga-nor! - sussurrou A-aea, e Ga-nor carregou a garota nos braços.

- Cuidarei daquilo pelo que lutei. - ele disse.

E foi assim que a garota, que adentrou a floresta nos braços de um raptor, voltou nos
braços de um amado e companheiro.

Robert E. Howard

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(22 de Janeiro de 1988, morre o guitarrista e compositor espanhol, autor da música para 
'Bodas de Sangue' de Frederico Garcia Lorca, Sabastian Maroto)

SABASTIAN MAROTO - «Romance anonyme»

Poet'anarquista

Sabastian Maroto
Guitarrista e Compositor Espanhol

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

SÁTIRA...

O Premiado
HenriCartoon

«O PREMIADO»

Sou quem recebe o Óscar,
Mas não fui eu que fiz a lei…
Há dificuldades, bem sei,
Vejo políticos a agonizar.
A depender do familiar
Estes pobres coitados,
Tinham os dias contados
Não fosse a boa notícia…
Repor subvenção vitalícia
Aos baixos ordenados…?

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

GRACE JONES
«I've Seen That Face Before/ Libertango»

Poet'anarquista

EU JÁ VI ESSE ROSTO ANTES

[Libertango]

Estranho eu já vi esse rosto antes
Vi-o batendo em minha porta
Como um falcão roubando da presa
Como a noite esperando pelo dia

Estranho, ele me persegue até em casa
Pegadas ecoando nas pedras
Noites chuvosas, na Avenida Hausman
Música parisiense, vinda dos bares

Você procura reencontrar a morte
Para que quer isso? Você também detesta a vida

Dançar em bares e restaurantes,
Ir para casa com qualquer um
Estranho ele está lá sozinho
Olhos penetrantes que me fazem tremer até os ossos

Em seu quarto, Joel e sua mala
Um olhar sobre seus trapos velhos
Na parede as fotos
Sem pesar, sem alegria
A porta está rangendo, Joel está bloqueado

Grace Jones 
Cantora Jamaicana

OUTROS CONTOS

«Burrice», por Monteiro Lobato.

«Burrice»
Pequeno conto de Monteiro Lobato

715- «BURRICE»

 Caminhavam dois burros, um com carga de açúcar, outro com carga de esponjas.

Dizia o primeiro:

— Caminhemos com cuidado, porque a estrada é perigosa.

O outro redarguiu:

— Onde está o perigo? Basta andarmos pelo rastro dos que hoje passaram por aqui.

— Nem sempre é assim. Onde passa um, pode não passar outro.

— Que burrice! Eu sei viver, gabo-me disso, e minha ciência toda se resume em só imitar o que os outros fazem.

— Nem sempre é assim, nem sempre é assim… continuou a filosofar o primeiro.

Nisto alcançaram o rio, cuja ponte caíra na véspera.

— E agora?

— Agora é passar a vau.

O burro do açúcar meteu-se na correnteza e, como a carga se ia dissolvendo ao contato da água, conseguiu sem dificuldade pôr pé na margem oposta.

O burro da esponja, fiel às suas ideias, pensou consigo:

— Se ele passou, passarei também — e lançou-se ao rio.

Mas sua carga, em vez de esvair-se como a do primeiro, cresceu de peso a tal ponto que o pobre tolo foi ao fundo.

— Bem dizia eu! Não basta querer imitar, é preciso poder imitar — comentou o outro.

Monteiro Lobato

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

OUTROS CONTOS

«O Defunto Inaugural», por Aníbal Machado.

«O Defunto Inaugural»
O Defunto/ Edvard Munch

714- «O DEFUNTO INAUGURAL»

[Relato de um Fantasma]

Vamos subindo devagar. Quando alcançarmos o espigão, poderei saber para onde... Saber, não: desconfiar. Mas os homens não falam; apenas exalam um ou outro gemido nas rampas mais fortes. Eu não sou tão pesado assim. Pelo contrário: tantos dias exposto ao ar livre, o sol reduziu-me bastante, curtindo-me as carnes.

Conheço estes caminhos. Muitas vezes, bêbado ou vencido pelo cansaço, deixei-me ficar encostado à cangalha, sobre o pedregulho do leito, enquanto o meu cachorro farejava os bichos e a mula aproveitava o capinzinho das margens.

Só acordava quando trovejava lá em cima e me vinha o medo de ser arrastado pelas enxurradas; ou então quando se aproximavam esses caminhões enormes que começam a invadir a serra depois que se abriu a estrada que vira para a encosta de lá. 

A garoa afastou-se do vale. Não sei por que os galos ainda cantam. Chegamos ao alto onde o pé de coqueiro joga uma sombra curta para o lado das jazidas.

Deve ser pouco mais de meio-dia. Tomara que o nosso rumo seja no sentido contrário ao dessa sombra. Conquanto para a minha pele seja indiferente solou chuva, prefiro a vertente de cá, onde deve ter ficado o molde irregular das patas da alimária.

Os homens param. Depois se decidem: será mesmo pela estrada nova! Tal corno eu queria. O dia clareou bonito. Nunca o vira assim. Estou feliz. Circulo nele agora participo-lhe da atmosfera.

Vem subindo Josefina com a criança ao colo. Eu queria dar-lhe bom-dia, mas não posso. Se ela soubesse quem vai aqui!... Passou sem desconfiar...

Na ponte provisória um dos homens falseia o pé, e meu corpo rola. Vão pescá-lo mais adiante. Tive receio de que o deixassem seguir com as águas. Já começo a ser menos indiferente ao destino de minha carcaça.

Ao longe — mancha de sangue na vegetação — uma bomba de gasolina. A primeira instalada nestes ermos de montanha. Depois, a estalagem. O dono grita, ao dar com os meus despojos:

— Que há lá em cima que estão mandando defuntos cá para baixo? Já é o segundo!...

Os homens não respondem. Desanimaram não sei por quê. Quererão largar-me ali mesmo, nalguma grota, tal como me encontraram. Se fosse antes, não me importaria. Mas já agora nasce em mim um capricho: chegar primeiro, ganhar a corrida. Eles prosseguem mais soturnos.

A que distância andaria o outro? Foi um tropeiro que informou mais adiante: — Cruzei com ele há coisa de duas léguas da Igrejinha; levantei o lenço. Imagine quem era? O Antão, caçador de parasitas. Catingando já, coitado...

E reconhecendo a qualidade da mercadoria que ia na rede: - Se vosmecês querem chegar na dianteira, carece andar ligeiro. A festança vai ser de arromba. Só estão esperando o material. Parece que pagam bem. Comprar defunto pra cemitério, foi coisa que nunca vi! concluiu o tropeiro soltando uma gargalhada. E depois de relancear o meu corpo embrulhado no lençol:

— Óiá! o pé dele tá aparecendo!...

Agora sim, compreendo por que, e sei para onde me estão carregando: fizeram cemitério nalgum lugar, mas faltou defunto para inaugurá-lo. Daí o pedido às redondezas. Que cemitério será?

O dia vinha escurecendo. Os homens tinham agora pela frente uma planície animada de sapos e pirilampos.

— Engulam a cachaça, disse eu, já impaciente. E toquem depressa!

Minha voz não ressoa, mas produz efeito. Tanto assim que os homens empunham logo o pau da rede e me erguem aos ombros.

E eu vou seguindo, o rosto voltado para a primeira estrela.

Um era careca, o outro tinha bigode. Atravessaram o pântano. Se não conhecessem tão bem o caminho, ficaríamos os três atolados na lama. Quase não se falavam.

— Espanta a varejeira da testa, gritei para o careca... Isto é, quis gritar. O homem sacudiu a cabeça.

— Por menos de quatrocentas pratas, nós voltamos com ele, disse o de bigode. 

— Até trezentos, a gente fecha o negócio, responde o careca.

— Vosmecê vê que ele nem tá cheirando!...

Era a minha vantagem sobre o concorrente. Pelo que percebi da conversa deles, e pela marcha batida em que vínhamos, o outro devia ser alcançado na curva do Bananal, antes de o sol raiar. A esse pensamento, trocaram-me de ombro e apressaram a marcha.

Surgiram na cerração as primeiras mulheres que se encaminhavam para o eito. Ao darem comigo, caíram de joelhos, persignando-se. A mais moça fez uma pergunta; a que só de longe o careca respondeu:

— Foi tiro, não; morte de Deus.

— Toca depressa, toca! gritava eu sem poder gritar.

Receavam os homens que outros cadáveres, além do que seguia à frente, estivessem afluindo ao mesmo tempo para o Arraial Novo.

Morrer, sempre se morre por estas terras abandonadas. Mas com a friagem dos últimos dias e o advento dos caminhões, contando-se bem, é fácil encontrar defunto apodrecendo pelos caminhos, ou dentro da mata.

O interesse dos que me carregavam era chegar primeiro e negociar depressa os despojos: o meu, era ganhar a corrida com o colega que ia na frente.

— O outro já deve estar perto, diz o de bigode. Tá largando catinga...

Surge ao longe um bananal oscilando suas folhas tostadas de vento frio. Experimento certo bem-estar, como nunca na vida. Não propriamente um bem-estar comum, mas o sentimento, quase apagado em mim, quando me apanharam na grota, de que ainda vagueio e vaguearei algum tempo pelas imediações de meu corpo.

Mais de quarenta anos tem esta carcaça. À frente dela vou seguindo, como a projeção de uma luz distanciada mas não excluída de sua lanterna.

Que bom este passeio! Tudo tão fluido que posso perceber o que se faz e acontece na área mais próxima de meu corpo.

E lá vai o tropeiro Fagundes — eu me chamava Fagundes (Fagundes?) — descendo de rede para o cemitério do Arraial Novo!...

Por que, nesse arraial, tanta pressa em inaugurá-lo? Por que não esperar pelos defuntos da localidade? A vida lá é boa, eu sei. Tem aguadas, milharais, moinhos; terras férteis e homens fortes. Ninguém há de querer morrer ali, só para estrear cemitério!...

— Eh, Bigode!... Eh, Careca! Depressa!...

No Ribeirão das Mulatas alcançamos os outros. Vão perder a partida. Além do mais, a mercadoria que oferecem apodrece tão depressa que será capaz de ser recusada, mesmo que chegue em primeiro lugar; ao passo que meu corpo, magro e curtido, parece intacto.

E os meus homens passaram silenciosos. Os do outro defunto olharam com raiva. Meus fluidos atravessaram depressa aquela área, como que fugindo ao mau cheiro...

Ao avistarem o arraial que sorria ao longe, no meio do arvoredo, os dois homens suspiraram.

Fui recebido por um bando de crianças em meio do latido geral dos cães. Colocaram-me num estrado que me esperava no centro da igrejinha. Correram a avisar a professora rural, enquanto os meus carregadores, à porta, discutiam o preço.

Os curiosos foram chegando. Descobriram-me a cara. Era a primeira vez que viam defunto. Ante o meu dente único plantado na gengiva esbranquiçada, puseram-se a rir. A maioria eram rapazes.

— Agora o cemitério vai ser cemitério mesmo, dizia um.

— Lá se vai o nosso campo de futebol! suspirava outro.

— Acho que não se devia recorrer a defunto de fora, opinava um terceiro.

— Uma vergonha para nossa terra!

Entrou um cachorro. Dentro da pequena nave ecoavam-lhe os latidos. Entrou em seguida uma velha que se ajoelhou junto de mim, impondo silêncio aos rapazes e ao cachorro. Ao se retirarem de lenço ao nariz, os moços tropeçaram na escadaria com um fardo que cheirava mal, envolto em jornais e folhas de bananeira. Era o outro. Com bastante atraso, numa carrocinha, vinha chegando o terceiro concorrente. Três defuntos ao todo.

Os rapazes indignaram-se. Era a invasão do Arraial por gente podre. Revoltante, aquilo. Foram queixar-se ao Fundador: na pressa de inaugurar o cemitério as mulheres inundam o povoado de cadáveres! Um, ainda passava. Mas tantos assim!... Não acha um perigo, Fundador?

Assim chamava todo mundo a esse velho robusto, três vezes casado, figura principal e dono de quase todo o povoado, que enchera de filhos e netos.

— Vocês se entendam com as mulheres. Elas que inventaram esse negócio de cemitério. Eu, por mim, quando chegar a minha hora, vou morrer sozinho lá em cima, no mato, já disse.

Um dos jovens entristeceu subitamente.

— Não se amofine, rapaz, disse o Fundador batendo-lhe no ombro. Mandarei fazer outro campo para vocês.

— Não estou pensando no campo. Me refiro aos defuntos.

— Ele está fingindo, Fundador! interveio o companheiro. Está com o sentido é no campo mesmo. Não pensa noutra coisa. Eu também. Nosso clube foi desafiado, o senhor sabe. Estávamos treinando todos os dias. Agora, depois desse enterro, como é que vai ser? E com certa astúcia: — O senhor não acha que um só defunto é pouco para dar àquilo um ar de cemitério? Ainda mais um sujeito que ninguém conhece... que nem é cidadão do Arraial.

— Isso mesmo, isso mesmo! ciciava eu aos ouvidos do rapaz.

Mas ele não me ouvia, não me podia ouvir...

— São vocês os culpados, disse o Fundador. Eu mandei abrir um cemitério, vocês fizeram um campo de futebol.

— Saiu sem querer, Fundador, saiu sem querer...

— Até as medidas são iguais, me disseram!

Calou-se o primeiro rapaz, a fisionomia transtornada. E num impulso de paixão que lhe venceu a timidez, dirigiu-se ao velho:

— Fundador, nós nunca tivemos disso aqui! Ninguém falava em morte. Todo mundo só pensava em trabalhar e viver. O senhor bem que podia salvar o nosso time. O jogo está marcado para o fim do mês. Virá gente da redondeza. Nosso clube é novo, mas a vitória é certa. Vai ser uma honra para o Arraial. Se o senhor deixar, nós damos um jeito no cadáver, adia-se a inauguração e em três semanas fazemos outro cemitério. Talvez até melhor do que este...

— Agora é tarde, respondeu o Fundador.

Realmente, era tarde. As velhas já me tinham lavado e agora me vestiam. Nunca me vi tão bem trajado. Larguei os trapos; enfiaram-me um casaco impreciso e negro, entre jaquetão e fraque. Fiquei um defunto bem passável. Pelo menos, limpo.

A professora assumiu um ar doloroso. Vestida também de preto, a face chorosa, embora sem lágrima - era a dona do enterro. Cercavam-na outras mulheres. Conduzia-se como se fora a minha viúva.

Notaram os rapazes nos modos reticentes do Fundador certa indiferença pelos preparativos do enterro. Combinaram não comparecer. Faziam mesmo trabalho surdo contra a cerimônia da inauguração. Serviam-se de dois argumentos: um, que eu não era do lugar; outro que, enchendo-se o povoado de cadáveres, uma epidemia era iminente ali. Se alguém duvidasse, fosse perguntar aos doutores da cidade vizinha.

O Fundador invalidou o último argumento mandando fechar as estradas e enterrar logo os defuntos restantes. À outra razão responderam as mulheres que ninguém sabe quando o nosso dia chegará. Que destino se daria então à nossa carne?

Os rapazes ouviram desconcertados. Jamais cuidaram de tal coisa.

— Sim, é porque vocês são moços, não pensam nisso, insistiam as mulheres. Saibam que não é só de velhice que se morre neste mundo. Vamos pensar um pouco no futuro. Lembrem-se de que a morte anda pegada à nossa pele.

E como os sinos começassem a repicar forte anunciando o meu enterro para o dia seguinte, os rapazes se retiraram desanimados. Desceram até a pracinha. Um sentimento novo amargava-lhes o coração.

— Tudo perdido. Temos que mandar avisar que o jogo foi adiado. Que azar! 

Na conversa junto ao chafariz, circulavam uns termos até então desconhecidos no Arraial: "esquife", "féretro", "funeral" e outros, lançados pela professora.

As moças não pareciam tristes. Iam perder o futebol, é verdade; em compensação, o enterro valeria a pena como festa. A primeira cerimônia pública desse gênero que se ia realizar no Arraial. Muitas ficaram em casa, preparando os vestidos.

Vendo-me de preto entre círios e mulheres que rezavam ou fingiam rezar — os rapazes se impressionaram.

Ecoava neles a advertência fúnebre da velha, reforçada agora pelo sino que não parava de tocar. Desistiram da campanha contra o enterro. A cancha ia mesmo virar cemitério...

Eu estava de fato um defunto convincente. As crianças trepavam para espiar, e recuavam de pavor, repelidas sempre pela ponta de lança de meu dente único.

No dia seguinte, o povoado acordou cedo. Fora uma noite diferente, noite em que cada um se deitara com a convicção de que eu estava presente a seu lado. Os cães ganiam a cada minuto. Ninguém punha o rosto à janela.

Para todos, eu era um defunto imenso e difuso, presidindo à noite do Arraial. 

Na verdade, não passei um minuto sequer junto a meu corpo. Quem se incumbira disso fora a professora e uma velha.

Flutuei por cima dos telhados, penetrei de mansinho nos lares. Quedei-me junto de várias criaturas, acompanhei-lhes os movimentos íntimos. Como toda essa gente é. simples, a portas fechadas!

De alguns que dormitavam toquei-lhes de leve a nuca. Apenas toquei. O suficiente para apreciar-lhes o estremecimento de pavor. Ninguém me viu. Senti não poder apresentar meu vulto em forma de vapor, como no tempo em que se acreditava em fantasmas. Nem mesmo consegui apagar as lamparinas acesas por minha causa. Talvez porque meus fluidos estivessem enfraquecendo, talvez porque não tardasse a desintegração de meu corpo.

Estou reduzido ao mínimo, pensei. Mas posso perfeitamente dar uma chegadinha até o cemitério, onde vão instalar-me hoje à tarde.

O portão foi colocado, os muros caiados de novo. A cova está aberta. Retiraram as traves do gol. Foi pena. Aquilo tinha mesmo formato de cancha de futebol, mais que de campo-santo. Não sei como vão se arranjar agora os rapazes.

O sino começa a badalar. Os cachorros põem-se a latir. Está chegando a hora. Eu me recolho aonde se acha meu cadáver para assistir ao saimento. Lá está a mesma mulher. (— Mas a senhora não me larga, professora!)

Ah, se eu pudesse articular as palavras. Que olheiras as dela, que maneira suspeita de olhar para um corpo morto.

Já vou sendo levado. O ambiente é festivo. Todo mundo me acompanha exceto o Fundador. Alegou que precisava cortar uns toros lá em cima, deixou Dona Maria doente e grávida na cama, sumiu-se. Não quer saber de nada com a morte; diz que não gosta de cemitério.

Eu também não gosto. Principalmente nas condições em que estou sendo enterrado, com esse péssimo sino que mais parece batucada confusa e sem ritmo. Nunca ouvi tocar tão mal a finados. A população me acompanha com relativa decência. Pelo menos, faz o possível. Os rapazes compareceram, afinal. Friamente.

Sob a aparência fúnebre, as senhoras escondem certo entusiasmo. Algumas quase sorrindo. Estou perto, e estou vendo. De vez em quando se lembram e simulam consternação. Consternação verdadeira, porém, reina atrás, perto da bandinha de música, onde os rapazes deploram ainda a perda do campo. Como compensação, namoram as moças.

— Aqui não, diz uma. Olha o morto.

— Deixa, deixa que ele te aperte, moça — insuflo aos ouvidos dela. Não te preocupes com o que vai lá na frente; aquilo é apenas um corpo abandonado, arranjo de velhas que só pensam na morte.

Parece que a moça me atendeu...

O préstito atravessa o portão de ferro. Meu caixão é colocado perto de seu lugar definitivo. Começo a achar aborrecido o papel a que me obrigaram. Despertar tantas idéias tristes numa aldeia tão despreocupada!... Não reclamo nenhum respeito pelo meu corpo. Será que já está descendo à sepultura? Um momento. Deixem-me voar até lá...

O padre terminava as palavras em latim. Referiu-se depois ao significado da cerimônia: entregava aos futuros mortos do Arraial Novo a sua verdadeira morada; e exortava o povo "a que pensasse sempre na morte!" Quando terminou, todos olhavam para o chão e simulavam tristeza.

Ouviu-se em seguida a voz bonita do vereador distrital. Disse que ali se enterrava um dos últimos tropeiros do nosso amado sertão, "raça que se extingue -ante a avançada progressista dos caminhões"; que me conhecera (onde? como? se nunca me viu, se nunca votei!) e tinha importante declaração a fazer: "Eu não era um defunto estranho ao local, nascera ali mesmo!..." Baixa demagogia... Pois se o Arraial não tinha trinta anos! Os rapazes sorriram. E resolveram, baixinho, expulsar do clube o sujeito amarelento que se prestara ao papel de coveiro.

A professora avança e dá instruções. As moças me cercam e eu me surpreendo numa onda de alegria indefinida. Aura de juventude emanando delas! Que fazer de tanta primavera desaproveitada? Meus fluidos roçam-lhes o colo. Somente os fluidos. A invisível carícia arrepia-lhes a pele, enquanto a musiquinha toca uma coisa triste debaixo das árvores.

Que se passou com elas que enrubesceram de repente? Algumas cruzam os braços ou tapam com o xale o busto arrepiado; outras se escondem, perturbadas, no meio do povo.

Está na hora de eu ir para o fundo. Quem é que me aparece à boca do buraco? A mula com a cangalha! Ó mulinha, ainda bem que não esqueceste o antigo dono. Coitada! Meio desmanchada, como um brinquedo abandonado...

Logo atrás, sorrindo com os dentes brancos, a metade do corpo comida pela sombra, quem vejo? Isabela!

— Tu te lembras, pretinha, daquele banho no ribeirão? o único momento bom de minha vida. Ah! agora não posso, mulinha!... Agora não posso, Isabela! Pois vocês não vêem que estou muito ocupado, inaugurando?!

Os rojões explodem, rejubilam-se as velhas. Só não conseguem chorar. E com frenesi atiram sobre o meu corpo uma chuva de pétalas. Em seguida, torrões de terra, como se me apedrejassem. Abraçam-se e despedem-se felizes.

Tinham arranjado sede para os seus despojos.

O portão foi fechado. E eu fiquei lá dentro, como ovo de indez. A espera dos mortos que hão de vir...

Fiquei, é modo de dizer; saía sempre. A idéia de corpo sepultado sossegou a princípio os meus fluidos. Durante dias perdi a memória; alguma interrupção, talvez mergulho mais demorado no vazio. O fato é que reapareci depois. E ainda há pouco dei um giro até à pracinha.

Há lá um arbusto onde gosto de ficar. Uma moça que passava perto parou de repente, assustada, olhando para mim, sem me ver. Tratei de voltar logo ao cemitério. E foi bom, pois um vira-lata, o mesmo da chegada, o que mais latiu na igreja e rosnou todo tempo no enterro, o cachorro de sempre, esgravatava com fúria o meu túmulo em direção aos ossos! E eu, pensando em seus dentes, experimentava a sensação de mal-estar análoga à que em vida se chama pavor.

Afinal de contas, é mesmo ao meu corpo que pertenço; dele não devo afastar-me muito, sem risco de me dissolver para sempre.

Francamente, o que não me agrada é ser o usufrutuário único deste local. Se uma só andorinha não faz verão - disseram os rapazes -, uma única sepultura não devia fazer cemitério. Deram para chegar atrasados e abatidos ao eito. Põem-se a sorrir quando encontram as velhas. Elas não compreendem, sentem-se satisfeitas com o seu cemitério.

O Fundador desconfia, mas finge que não sabe. E para ter a certeza, usa um estratagema:

— Para apanhar?

— Que jeito! Não temos onde treinar...

— Então? Ficou de pé o desafio?

— Nós jogaremos assim mesmo.

— Por que não falam com a professora? Ela tem a chave do portão.

— Mas só abre quando vai rezar lá dentro.

— Para um morto que não conhecem... acrescentou o outro.

— É isso mesmo, exclama o Fundador. Inventaram a morte no Arraial Novo! 

As velhas, de fato, não largam o cemitério. Entram ao cair da tarde e se ajoelham. Não rezam por mim, rezam pelo futuro defunto, rezam para a morte. Há pouco, entrou a professora. Debruçada sobre a sepultura não fez senão murmurar:

— José, meu José...

Ora, eu não me chamo José... Esqueci meu nome, é verdade; mas sei que não era José...

Razão tem o Fundador. O espírito da morte apoderou-se do Arraial. Ainda ontem senti isso quando estive pousado nos arbustos da pracinha. Todo mundo silencioso e triste, aguardando a abertura da igreja. Só não vi os rapazes. É o cemitério, pensei; é a minha presença!

De alguns dias para cá, se uma parte da população se entrega aos trabalhos de rotina, a outra se ocupa em interrogar a alma.

As velhas dizem que se alguma dúvida houver, é só passar a noite pelas imediações. Ouvem-se barulhos estranhos, estrupidos de correria. E se não fosse o rumor dos moinhos, todo o arraial poderia escutar. Ao saber disso, tomou-se a população de certo orgulho: já havia fantasmas no cemitério do Arraial Novo!

Um defunto extranumerário, um simples tropeiro tivera a força de transformar em campo-santo uma área terraplenada, logradouro inexpressivo antes.

Que todos respeitassem agora o cemitério com as almas que nele transitam!...

Essas almas eram quase sempre vinte e duas, fora as que permaneciam a certa distância, olhando apenas. Escalavam o muro e, uma vez lá dentro, vestiam depressa os calções.

As lavadeiras que passavam perto mal ouviam o barulho, saíam correndo. Se tivessem coragem de verificar, poderiam reconhecer vultos familiares sob o projetor da lua cheia.

Eu adorava ficar ali. Acompanhava o movimento do jogo. Torcia. Metia-me no meio dos jogadores. Só faltava gritar. Não sei como ninguém dava pela minha presença. A bola saltava às vezes o muro e ia aninhar-se no capinzal de fora. Um dos jogadores cobria-se de uma capa escura e saía a buscá-la. O jogo então recomeçava forte. De repente, fora de propósito, parava.

— Que houve? quem apitou?

Ninguém apitara. Era eu que soprara no apito do juiz. Muitas e muitas vezes intervinha sem que ninguém soubesse, só para animar, só para mostrar que me achava ali, vendo, participando. Substituído o juiz, as marcações continuavam desencontradas. Ninguém desconfiava. Antes de raiar a madrugada, esvaziava-se o campo. Os "fantasmas" seguiam para o eito e eu ficava... Ficava...

Era bem triste, à hora quente dos comentários, continuar sozinho ali. 

Deliciava-me só de pensar em novas noites de jogo. Às vezes os rapazes demoravam, e eu me tornava impaciente. Primeiro, atiravam a bola. Sabia então que estavam perto, preparando-se para a escalada. A bola corria até para junto de minha sepultura. Despertado do sono, eu subia depressa no muro e, sem garganta, sem voz, punha-me a chamá-los. Iniciava-se então mais uma partida animada.

Evitei repetir a proeza do apito, não só porque podia afugentar os jogadores, privando-me do espetáculo, como pelo receio de submeter a uma prova infeliz a força cada vez menor de meus fluidos.

As velhas já desconfiavam. Não todas. E, por certo, nenhuma, se a professora não deparasse com a minha cruz de madeira caída ao chão. Culpa dos rapazes que se esqueceram de recolocá-la quando, da última vez, fugiram do sol que raiara depressa.

— Fantasma não faz isso, disse a professora, suspeitosa. Quem teria sido?

As mulheres foram de novo queixar-se ao Fundador:

— Isso não é comigo. Falem com D. Maria, mas depois que nascer a criança, pois a minha velha já está em dores.

— Mas jogaram uma bola na cruz! É uma profanação! exclamava a professora. 

— Deve ter sido algum fantasma, explicava um dos rapazes.

— Ou então chutaram de fora, disse outro.

— O muro não deixa, insistiu uma das mulheres.

— Só se foi um tiro de parábola e aqui ninguém sabe chutar assim...

— O Zequinha, lembrou o coveiro, chuta suspendendo a bola.

Ora, todo mundo sabe que Zequinha fugiu com a mulher do vereador. Jogava tão bem, que ela fugiu com ele...

Os rapazes só contavam agora com a mediação de Dona Maria que não estava bem, depois que lhe nascera a criança.

Daí por diante, nunca mais se bateu bola no cemitério. Reforçada a vigilância, meus fantasmas não apareciam.

Fiquei mais triste. Agora, nem para voar até o arraial tenho força. Para nada, aliás, tenho mais forças.

Já não percebo bem o que se passa atrás dos muros. A paisagem se dissolve ao meu olhar que está se apagando.

Parece que ainda resta para os ouvidos um canto de lavadeira batendo roupa. Tão longe...

Mas está acontecendo qualquer coisa lá na entrada. O portão se abriu todo! O povo chegando!...

Ah, é a senhora?! Pois entre, a casa é sua... Eu, sozinho, já não podia responder por todo este cemitério. Estou sumindo... O espaço endureceu. Meu prazo terminou.

Só vejo figuras opacas imobilizadas no gesto de chutar a bola. E essa coisa fixa, mancha final de luz remota que deve ser o Sol.

Entre, Dona Maria. Sirva-se de seu cemitério...

Aníbal Machado