quarta-feira, 1 de abril de 2015

OUTROS CONTOS

«Gulodice», por Mário-Henrique Leiria.

«Gulodice»
Conto de Mário-Henrique Leiria

462- «GULODICE»

A maior parte das pessoas come bolos executando uma espécie de rito. Olha-os, regala-se por antecipação, observa a forma e a cor, entregando-se a suposições sobre o que será recheio oculto, espera um pouco para a surpresa ser mais excelente e só então come com discretas dentadas saboreantes.

Makarel não. Quando via um bolo avançava com raiva. Adquiria-o, furioso, e acabava com ele logo ali. Então lambia o beiço, esfregava as mãos e, satisfeito, ia à procura de outro.

Portanto, nada mais compreensível do que ver Makarel entrar, já zangado, na pastelaria «Ao Doce da Malásia». Foi logo direito ao balcão envidraçado e observou o que havia, disposto a tudo.

Viu-o imediatamente. Era redondo, bem grande coberto de creme amarelado, maligno e quase tão agressivo como Makarel.

Não hesitou

- Este !

Apontava o bolo com o dedo, enquanto olhava imperativamente o empregado.

O empregado pegou no bolo com a pinça e estendeu-o a Makarel, com um guardanapo de papel a acompanhar.

Makarel abriu a boca, sorriu na vingança a vir, ergueu o bolo e avançou a cabeça, com a outra mão por baixo para não sujar o fato.

O bolo saltou-lhe da mão e ficou pousado na mesa, atento.

Makarel teve um sobressalto. Que era aquilo? Resistência?

Atirou uma sapatada velocíssima, na intenção certa de pegar no bolo.

Qual nada! O bolo, mais veloz ainda, zás, em cima do balcão.

Então Makarel encanzinou-se. A ferocidade recalcada veio-lhe toda acima. Arreganhou os lábios, com os caninos à vista, em agressão declarada.

E atirou um murro demolidor ao bolo e ao balcão.

Acertou no balcão e partiu tudo. No bolo, não.

O bolo engrossara, estava de pé junto à porta dos Cavalheiros, fitando friamente Makarel através do creme cor de creme.

Pessoas levantavam-se, algumas cadeiras caíam, o empregado rugia entre os restos do balcão.

Makarel avançou para o bolo. Perdera a noção da prudência, queria comer, matar aquele bolo queria destruir a coisa redonda, mergulhar as mãos até ao fundo no creme, esfrangalhar, triturar.

O bolo avançou também, determinado, num caminhar maciço.

Enfrentaram-se.

Makarel atirou-se de punhos para a frente e cabeça encolhida entre os ombros.

As portas rebentaram, deixando os gonzos solitários, a montra estilhaçou-se e vomitou lampreias de ovos. Lascas de madeira tinham sido mesas, cadeiras esmagavam-se ao sopro de uma fúria ciclópica.

As pessoas saíam, numa correria de alucinação. Procuravam a polícia, os bombeiros, o exército, o ministério, a presidência, até mesmo a NATO pelo telefone.

O primeiro a chegar foi Gumersindo, da charcutaria ao lado, com a tranca da porta das traseiras.
Deu uns passos temerosos, avançando com cuidado entre o desastre caótico. Tudo estava calmo, num silêncio e abismo milenário.

Lá ao fundo o bolo abominável sorria, a limpar o creme que lhe escorria ao de leve entre o açúcar.

Mais ninguém, na pastelaria «Ao Doce da Malásia».

Mário-Henrique Leiria

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