domingo, 14 de julho de 2013

POESIA - ANTÓNIO QUADROS

O poeta, escritor, filósofo, ensaísta e tradutor António Gabriel de Quadros Ferro, conhecido como António Quadros, nasceu em Lisboa a 14 de Julho de 1923. Foi membro da geração da «Revista 57», autor de «Portugal, Razão e Mistério», e entre muitos cargos que exerceu na cultura, foi fundador da extinta Sociedade Portuguesa de Escritores e fundou a actual Associação Portuguesa de Escritores. António Quadros faleceu em Lisboa, a 21 de Março de 1993.
Poet'anarquista
António Quadros
Poeta e Escritor Português
SOBRE O AUTOR…

Escritor e pensador português, natural de Lisboa. Licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas. Foi fundador e director do Instituto de Artes e Design (IADE), em Lisboa, e da Sociedade Portuguesa de Escritores. Foi director das revistas Acto, 57 e Espiral, nos anos 50. 

Influenciado por Leonardo Coimbra, esteve ligado ao movimento da chamada «filosofia portuguesa». Romancista, poeta e ensaísta, distinguiu-se sobretudo nesta última área com estudos sobre filosofia, história, figuras e mitos importantes da cultura portuguesa (como o sebastianismo), analisados numa perspectiva especulativa, pontuada por um certo misticismo.

Um dos temas que mais atenção lhe mereceram foi o da vida e obra de Fernando Pessoa, que muito o marcou. Estreou-se, em 1947, com o ensaio Modernos de Ontem e Hoje. Outros volumes de ensaio e crítica por si escritos foram Introdução a Uma Estética Existencial (1954), O Movimento do Homem (1963), Crítica e Verdade (1964), O Espírito da Cultura Portuguesa (1967), Uma Viagem à Rússia (1969), A Arte de Continuar Português (1978), Poesia e Filosofia do Mito Sebastianista (1982), Fernando Pessoa (1981-1982), Portugal, Razão e Mistério (1986) e A Ideia de Portugal na Literatura Portuguesa dos Últimos Cem Anos (1989).

Como poeta, escreveu Além da Noite (1949) e Imitação do Homem (1966). É ainda autor de obras de ficção narrativa, como Anjo Branco, Anjo Negro (1960), Histórias do Tempo de Deus (1965, Prémio Ricardo Malheiros e Prémio da Imprensa) e Pedro e o Mágico (1973, Prémio Nacional de Literatura Infantil e Juvenil).
Fonte: astormentas

POÉTICA CONTRADITÓRIA

Não digas o que sabes nos teus versos,
Deixa para trás a ciência e a consciência;
Tudo aquilo que em ti não for ausência
São ideais perdidos, ou submersos.

Abandona-te às vozes que não ouves,
E liberta os teus deuses nos teus dedos;
Não busques os sorrisos, mas os medos,
E o que não for ignoto e só, não louves.

Ser misterioso e triste, é ser poeta:
Mesmo a luz que palpita nos teus cantos.
É uma imagem heroica dos teus prantos.
Percorre o teu caminho até ao fundo,
E com os versos que achaste, aumenta o mundo.
Não sejas um escritor, mas um profeta.

António Quadros

A ESTA TERRA QUE SOFRE

A esta terra que sofre,
Diminuída, mutilada,
À procura de si própria,
Perdida, abandonada.

Mas ouvi, ó portugueses,
Corruptos ou estrangeiros,
Tontos, traidores, burocratas,
Ingénuos, fanatizados,

E vós também, os fiéis
Da verdade da raiz,
Ouvi o que diz o povo,
Ouvi a voz do país.

Portugal somos ainda,
Porque a semente que outrora
Germinou em terra ingrata,
Há-de reviver agora!

Em cada volta do tempo,
De novo começa o mundo.
Juventude, redescobre
O Portugal mais profundo!

(....)

Transviados, cabisbaixos,
Levantai o vosso olhar!
Pátria antiga, que sofreste
Há mais mar, p'ra além do mar!

(...)

António Quadros

O BANQUETE INFINITO

Poesia chorada, como o mar sob a chuva?
Poesia aflita, como um farol no denso nevoeiro?
Poesia angustiada, como a futura mãe?
Alegre o olhar, os meus dedos são mensageiros dos deuses
E cantam o que me sobra e eu não sei entender.
Alegre o coração, escapa-se de mim um fumo de dor,
E enquanto rio, sou também lágrimas e soluços.
O acordo é uma promessa do paraíso perdido mas não morto,
pois as suas portas choram por mim em mim. 
Poesia triste, triste face, coração ardente, sorriso imanente,
Tudo se comprime num verso obscuro e intocável.
Julgo perder-me num meandro de luzes e sombras,
De estrelas e pântanos, profetas e deuses.
Tarda-me a achar o caminho dos caminhos.
Aquele que, enfim, conduz a alguma parte.
Sei que tudo é — mas como conhecer o que, sendo, indica e ilumina?
Os meus gestos são pesados e lentos, pois temem
Matar o inocente e dar vida ao monstro.
Já não hesitam, porém, e quando eu puder olhar atrás de mim
A estrada percorrida, os destroços abandonados,
Os cadáveres imolados à vontade torturada,
Então sabereis os frutos a escolher e os manjares a saborear
espera-me o banquete infinito.
Iguaria ou conviva, o que importa é chegar com o destino cumprido. 

António Quadros

2 comentários:

Anónimo disse...

O poema «Sobre a mesa» é da autoria do neto de António Quadros, que assinada António Quadros Ferro (n.1983).

Camões disse...

Agradeço ao anónimo de 13 de Abril de 2014 às 23:48 a informação, que já verifiquei correcta, sobre o autor do poema «Sobre a Mesa». De facto a autoria é de António Quadros Ferro, neto do poeta António Quadros.

Coloquei no seu lugar o poema «A Esta Terra Que Sofre». As palavras ajustam-se aos tempos que correm, e o título é bem sugestivo.

Obrigado!