segunda-feira, 16 de maio de 2016

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(Escolha musical da blogosfera)

MERCEDES SOSA & JOAN BAEZ 
«Gracias a la Vida»

Poet'anarquista

GRAÇAS À VIDA

Graças à vida que me deu tanto
Me deu dois olhos que quando os abro
Perfeitamente distingo o preto do branco
E no alto céu seu fundo estrelado
E nas multidões o homem que eu amo

Graças à vida que me deu tanto
Me deu o ouvido que em todo seu alcance
Grava noite e dia grilos e canários
Martelos, turbinas, latidos, aguaceiros
E a voz tão terna de meu bem amado

Graças à vida que me deu tanto
Me deu o som e o abecedário
Com ele, as palavras que penso e declaro
Mãe, amigo, irmão
E luz clareando o caminho da alma de quem estou amando

Graças à vida que me deu tanto
Tem me dado o ritmo de meus pés cansados
Com eles andei nas cidades e nos charcos
Praias e desertos, montanhas e planícies
E a sua casa, sua rua e seu pátio

Graças à vida que me deu tanto
Me deu o coração que agita seu marco
Quando olho o fruto do cérebro humano
Quando olho o bom tão longe do mal
Quando olho o fundo de seus olhos claros

Graças à vida que me deu tanto
Tem me dado o riso e me dado o pranto
Assim eu distingo alegria da aflição
Os dois materiais que formam meu canto
E o canto de vocês que é o mesmo canto
E o canto de todos que é meu próprio canto

Graças à vida, graças à vida

Mercedes Sosa & Joan Baez
Cantoras Argentina e Norte-Americana

OUTROS CONTOS

«Prontas Estão», conto poético por Nelly Sachs.

«Prontas Estão»
Poema de Nelly Sachs

791- «PRONTAS ESTÃO» 

Prontas estão
as terras todas para erguer-se
do mapa.
Sacudir a sua pele de estrelas
os fardos azuis dos seus mares
atá-los às costas
os seus montes com as raízes de fogo
pô-los como boinas sobre os cabelos fumegantes.

Prontas a levar na mala o último
peso de melancolia, este casulo de borboleta,
em cujas asas um dia levarão
a viagem ao fim.

Nelly Sachs

sábado, 14 de maio de 2016

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

SIDNEY BECHET - «St Louis Blues»

Poet'anarquista

Quarteto Sidney Bechet
Clarinetista, Saxofonista e Compositor 
Norte- Americano

OUTROS CONTOS

«Bocage e a Lésbica», conto poético por Matias José.

«Bocage e a Lésbica»
Manuel Maria de Barbosa l´Hedois du Bocage

790- «BOCAGE E A LÉSBICA»

Menina que sois tão boa,
porque estais a fazer isso?...
Porque comeis pão com pão,
se é tão bom pão com chouriço?

Bocage

 Eis Bocage no seu melhor
Dando conta da ementa…
Perde quem não experimenta,
Pão com pão é bem pior!
Conhece as moças de cor
Do vale do Sado a Lisboa,
A memória não atraiçoa
Este génio da poesia…
A qualquer hora dizia:
- Menina que sois tão boa!

Sempre de língua afiada
E membro em prontidão…
Pra ser gostosa a refeição,
Pão com pão, é que nada!
Marmelo sem marmelada
Achava grande desperdiço,
Género igual pegadiço
A nenhuma aconselhou…
Foi quando lhe perguntou:
- Porque estais a fazer isso?...

Pão mais pão de conduto
Deixa o estômago inchado…
O comer deve ser variado,
Diz o chouriço resoluto.
Escolher outro produto
Indispensável condição,
Pra uma sã alimentação
O género quer-se diferente…
A questão é pertinente:
- Porque comeis pão com pão?

Adepto da vida boémia
Este poeta de bom gosto,
Apreciava o seu oposto
Com pitada de blasfémia.
Sobre mulher abstémia
Mostrava-se insubmisso,
Um soneto atiradiço
Se lhe calhava tal em sorte…
Pra quê comer do mesmo lote,
- Se é tão bom pão com chouriço?

Matias José

quarta-feira, 11 de maio de 2016

OUTROS CONTOS

«O Pequeno Vagabundo», conto poético por William Blake.

«O Pequeno Vagabundo»
Poema de William Blake

789- «O PEQUENO VAGABUNDO»

Querida mãe, querida mãe, a Igreja é fria,
Mas a Taberna é agradável, quente e sadia;
Além disso, digo: tratam-me bem por lá,
De um modo que não sei se no céu haverá.

Mas se na Igreja a cerveja nos fosse dada,
E um bom fogo a nos manter a alma animada,
Cantaríamos e, rezando o dia inteiro,
Não teríamos fora da Igreja paradeiro.

O pastor a pregar, beber e cantar,
E nós felizes como aves soltas no ar;
E Dona Abandono que na igreja tem abrigo,
Não teria filhos fracos, jejum ou castigo.

E Deus, pai amoroso que se alegra em ver
Seus filhos, como ele, felizes em viver,
Com o Diabo e o Barril não mais altercava,
Mas dava-lhe roupa, bebida e então o beijava.

William Blake

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

BOB MARLEY & THE WAILERS
«Crisis»

Poet'anarquista

CRISE

Dizem que o sol, brilha para todos
Mas, para algumas pessoas no mundo, nunca irá brilhar
Dizem que o amor é um riacho, que vai encontrar o seu caminho
Algumas pessoas ainda pensam que a vida é um sonho
Então eles pioram as coisas ainda mais

Não importa qual é a crise
Eleve-se, eleve-se, eleve-se
Dê a JAH todas as graças e louvores
Eleve-se, eleve-se, eleve-se
Dê a JAH todas as graças e louvores

Tanto tem sido dito, muito pouco foi feito
Eles continuam a matar, matar o povo
E estão tendo muita diversão
Matando as pessoas, tendo sua diversão
Eles apenas querem ser o líder
Na Casa do Sol Nascente

Não importa qual é a crise
Eleve-se, eleve-se, eleve-se
Dê a JAH todas as graças e louvores
Eleve-se, eleve-se, eleve-se
Dê a JAH todas as graças e louvores

Dizem que o sol, brilha para todos
Mas, para algumas pessoas no mundo, nunca irá brilhar
Dizem que o amor é um riacho, que vai encontrar o seu caminho
E cada rio corre para o mar
Algumas pessoas ainda pensam que a vida é um sonho
Então eles pioram as coisas ainda mais

Não importa qual é a crise
Eleve-se, eleve-se, eleve-se
Dê a JAH todas as graças e louvores
Eleve-se, eleve-se, eleve-se
Dê a JAH todas as graças e louvores
Sua misericórdia perseverá para sempre yeah
Dê a JAH todas as graças e louvores
Oh filhos, venham dar JAH
Dê a JAH todas as graças e louvores

Bob Marley & The Wailers
Músico Jamaicano e sua Banda

terça-feira, 10 de maio de 2016

OUTROS CONTOS

«A Flor que havia na Água Parada», conto poético por Maria Judite de Carvalho.

«A Flor que havia na Água Parada»
Poema de Maria Judite de Carvalho

788- «A FLOR QUE HAVIA NA ÁGUA PARADA»

Antes este veio
descia sem pressa
não era tão frio
como hoje parece.

Era um rio quente
sem fundo nem fim
ausente-presente
bem dentro de mim.

Quase que parado
via-o eu às vezes
em dia feriado
de seis em seis meses.

Os barcos quietos
boiavam, luziam,
fechados, secretos,
e logo seguiam.

Os velhos, fumando,
olhavam, sem ver,
o rio passando 
sem nunca correr.

A virgem tranquila,
terrena, bisonha,
mete os pés na argila,
olha a água e sonha.

Maria Judite de Carvalho

domingo, 8 de maio de 2016

SÁTIRA...

A Luz
Sátira...

«A LUZ»

- Contente por ser convidado
Para a tardia inauguração
Do famoso túnel do Marão…
Vejo que estou perdoado!

- Realmente vejo uma luz
Ao fundo do túnel acesa…
Pra mim não há surpresa,
A luz do dia ainda reluz!

- Quer dizer… publicamente
O teu apoio está garantido
À minha causa deprimente…?

- Esse assunto é proibido…
A justiça certamente
Apoia o teu caso perdido!!

POETA

SÁTIRA...

Não se Brinca com Coisas Sérias
Sátira...

«NÃO SE BRINCA COM COISAS SÉRIAS»

- Detesto inaugurações,
Deixo prós meus compinchas…
Isso pra mim são pechinchas,
Tenho outras ambições!
- Hoje houve demissões,
Tem vaga de primeiro-ministro…
- Novamente eu administro!!
Ouço o povo a clamar…
- Calma!... era só a reinar,
Não se repete tal sinistro!

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

THE VELVET UNDERGROUND
«I'm Waiting For The Man»

Poet'anarquista

ESPERANDO PELO MEU HOMEM

Eu estou esperando pelo meu homem
Vinte seis dólares na minha mão
Subindo para Lexington, 125
Sentindo-me doente e sujo, mais morto do que vivo
Eu estou esperando pelo meu homem

Ei, garoto branco, o que você está fazendo nessa parte da cidade?
Ei, garoto branco, você está perseguindo nossas mulheres por aí?
Oh perdão senhor, isso vai muito além da minha mente
Eu só estou procurando por um querido, querido amigo meu
Eu estou esperando pelo meu homem

Aqui vem ele, ele está todo vestido de preto
Sapatos PR e um grande chapéu de palha
Ele nunca chega cedo, ele sempre está atrasado
Primeira coisa que você tem que aprender é que você sempre tem que esperar
Eu estou esperando pelo meu homem

Subindo para Brownstone, subindo três degraus da escada
Todos pregados em você, mas ninguém liga
Ele tem as mercadorias, lhe dá uma doce provada
Ah então você tem que dividir porque você não tem tempo para gastar
Eu estou esperando pelo meu homem

Querida não grite, querida não berre ou grite
Eu estou me sentindo bem, você sabe eu vou dar um jeito
Eu estou me sentindo bem, eu estou me sentindo tão bem
Até amanhã, mas isso é apenas outra hora
Eu estou esperando pelo meu homem

The Velvet Underground
Banda Norte-Americana

OUTROS CONTOS

«A Esfinge Sem Segredo», por Oscar Wild.

«A Esfinge Sem Segredo»
Conto de Oscar Wild

787- «A ESFINGE SEM SEGREDO»

Uma água-forte

Achava-me numa tarde sentado no terraço do Café Paz, contemplando o fausto e a pobreza da vida parisiense, a meditar, enquanto bebericava o meu vermute, sobre o estranho panorama de orgulho e miséria que desfilava diante de mim, quando ouvi alguém pronunciar o meu nome. Voltei-me e dei com os olhos em Lord Murchison. Não nos tínhamos tornado a ver desde que estivéramos juntos no colégio, havia isto uns dez anos, de modo que encheu-me de satisfação aquele encontro e apertamos as mãos cordialmente. Tínhamos sido grandes amigos em Oxford. Gostaria dele imensamente. Era tão bonito, tão comunicativo, tão cavalheiresco. Costumávamos dizer dele que seria o melhor dos sujeitos, se não falasse sempre a verdade, mas acho que, na realidade, o admirávamos mais justamente por causa da sua franqueza. Encontrei-o muito mudado. Parecia inquieto, perturbado e em dúvida a respeito de alguma coisa. Senti que não podia ser o cepticismo moderno, pois Murchison era um dos conservadores mais inabaláveis e acreditava no Pentateuco com a mesma firmeza com que acreditava na Câmara dos Pares. De modo que conclui que havia alguma mulher naquilo e perguntei-lhe se ainda não se havia casado.

– Não compreendo as mulheres bastante bem – respondeu.

– Meu caro Geraldo – disse -, as mulheres estão feitas para serem amadas e não para serem compreendidas.

– Não posso amar sem ter confiança absoluta – replicou.

– Creio que há um mistério na sua vida, Geraldo – exclamei. – Conte-me isso.

– Vamos dar um passeio de carro – respondeu. – Há gente demais aqui. Esse carro amarelo, não. Um de qualquer outra cor… aquele ali, verde escuro serve.

Dentro de poucos minutos estávamos a descer a trote o bulevar na direcção da Madalena.

– Para onde vamos? – perguntei.

– Oh! para onde você quiser! – respondeu. – Para o restaurante do Bosque. Jantaremos ali e 
contar-me-á tudo a respeito da sua vida.

– Primeiro quero que você me conte a sua. Revele-me o seu mistério.

Tirou do bolso uma pequena carteira de marroquim com fecho de prata e entregou-ma. Abri-a. Dentro havia a fotografia de uma mulher. Era alta e esbelta e de aspecto singular com grandes olhos misteriosos e cabelos soltos. Parecia uma clairvoyante¹ e achava-se envolta em ricas peles.

– Qual é a sua opinião a respeito desse rosto – perguntou ele. – Inspira confiança?

Examinei o retrato atentamente. Parecia-me o rosto de alguém que guarda um segredo, mas o que não podia dizer era se o segredo fosse bom ou mau. Aquela beleza parecia feita de muitos mistérios reunidos, uma beleza, de facto, mais psicológica do que plástica, e o ligeiro sorriso que lhe flutuava nos lábios era demasiado subtil para ter realmente encanto.

– Bem – exclamou ele, impaciente – que me diz?

– É a Gioconda em vestes de luto – respondi. – Conte-me tudo quanto a ela se refere.

– Agora não; depois do jantar – disse ele e começou a conversar a respeito de outras coisas.

Quando o empregado trouxe o nosso café e os cigarros, lembrei a Geraldo a sua promessa. Ele levantou-se da sua cadeira, caminhou duas ou três vezes acima e abaixo na sala e, deixando-se cair numa cadeira de braços, contou-me a seguinte história:

– Uma tarde, aí pelas cinco horas, descia eu pela Rua Bond. Havia uma terrível aglomeração de veículos e o tráfego quase parado. Perto do passeio estava parado um carrinho fechado, amarelo, que, por esse ou aquele motivo, atraiu a minha atenção. Ao passar ao seu lado, vi surgir dele, a olhar para fora, o rosto que lhe mostrei ainda há pouco. Fascinou-me imediatamente. Fiquei a noite inteira a pensar nele e o dia seguinte também. Subi e desci várias vezes por entre aquela maldita confusão, lançando um olhar perscrutador para dentro de todo carro, à espera do carro fechado amarelo. Mas não pude descobrir ma belle inconnue² e afinal comecei a pensar que era ela apenas um sonho. Cerca de uma semana depois, estava a jantar com Madame de Rastail. O jantar estava marcado para as oito horas, mas às oito e meia ainda nos achávamos à espera na sala de visitas. Por fim o criado abriu a porta e anunciou Lady Alroy. Era a mulher que eu estivera a procurar. Entrou muito devagar, parecendo um raio de lua cercado de renda cinzenta, e, para intenso deleite meu, pediram-me que a conduzisse à sala de jantar. Depois de nos sentarmos, observei-lhe com a maior inocência:
“Creio que já a vi, há algum tempo, na Rua Bond, Lady Alroy”.

Ela ficou muito pálida e disse-me, em voz baixa:

“Por favor, não fale tão alto. Podem ouvi-lo”.

Senti-me desditosíssimo por ter começado tão mal e mergulhei cegamente numa dissertação sobre peças francesas. Ela falava pouquíssimo, sempre com a mesma voz baixa e musical, parecendo receosa de que alguém a estivesse escutando. Senti-me apaixonadamente, estupidamente enamorado e a indefinível atmosfera de mistério que a cercava excitava, a mais não poder, a minha curiosidade. Quando ela se retirou, logo após o jantar, perguntei-lhe se poderia visitá-la. Hesitou um momento, olhou em redor para ver se alguém estava perto de nós e depois disse:

“Sim; amanhã a um quarto para as cinco”.

Roguei a Madame de Rastail que me desse informações a respeito dela; mas tudo quanto pude saber é que era uma viúva, morando numa bela casa em Park Lane e, como naquele momento um desses cientistas cacetes começasse uma dissertação a respeito de viúvas, para exemplificar a sobrevivência dos matrimonialmente mais ajustados, despedi-me e fui para casa.

No dia seguinte cheguei pontualmente a Park Lane, no momento exacto, mas o mordomo disse-me que Lady Alroy tinha acabado de sair. Dirigi-me ao clube, bastante desiludido e confuso e, depois de muito reflectir, escrevi-lhe uma carta, perguntando-lhe se me seria permitido tentar a sorte em alguma outra parte. Por vários dias não recebi resposta, mas afinal chegou-me às mãos um bilhetinho, dizendo-me que estaria ela em casa no domingo, às quatro e com este extraordinário pós-escrito: “Por obséquio não torne a escrever para mim aqui; explicar-lhe-ei, quando o vir”. No domingo, recebeu-me e mostrou-se perfeitamente encantadora. Mas quando me despedia, pediu-me que, se alguma vez tivesse ocasião de escrever-lhe de novo, dirigisse a minha carta para “Sra. Knox, aos cuidados da Biblioteca Whittaker, Rua Verde”. “Há motivos – disse ela – pelos quais não posso receber cartas em minha própria casa”.

Durante toda a temporada via-a amiudadas vezes e a atmosfera de mistério sempre se manteve em torno dela. Às vezes pensava que se achava ela em poder de algum homem, mas parecia tão inabordável que não podia acreditar naquilo. Era realmente difícil para mim chegar a qualquer conclusão, pois ela era como um desses estranhos cristais que a gente vê em museus e que são, num momento, claros, e em outro, turvos. Por fim, decidi-me a pedi-la em casamento. Senti-me doente e cansado daquele incessante segredo que impunha a todas as minhas visitas e às poucas cartas que lhe enviei. Escrevi-lhe para a biblioteca, perguntando-lhe se podia ver-me na segunda-feira seguinte, às seis horas. Respondeu que sim e senti-me transportado ao sétimo céu. Estava apaixonado por ela, a despeito do mistério, pensava então… em consequência dele, vejo agora. Não; era a mulher mesma que eu amava. O mistério perturbava-me, enlouquecia-me. Porque o acaso fez-me descobrir a pista?

– Descobriu-a então? – exclamei.

– Receio que sim – respondeu. – Julgue você por si mesmo. Quando chegou a segunda-feira, fui almoçar com meu tio e cerca das quatro horas encontrava-me em Marylebone Road. Meu tio, como você sabe, mora em Regent’s Park. Queria alcançar Piccadilly e, para atalhar, meti-me por uma enfiada de becos miseráveis. De repente avistei à minha frente Lady Alroy, com um espesso véu e caminhando muito apressada. Ao chegar à derradeira casa da rua, subiu os degraus, tirou do bolso uma chave, abriu a porta e entrou. “Aqui está o mistério”, disse a mim mesmo e apressei-me em examinar a casa. Parecia uma espécie de prédio de aluguer. No degrau da porta estava caído o lenço dela. Apanhei-o e meti-o no bolso. Depois comecei a reflectir no que devia fazer. Cheguei à conclusão de que não tinha o direito de espioná-la. Tomei um carro e segui para o clube. Às seis horas fui visitá-la. Estava sentada num sofá, em traje de chá, um tecido prateado, preso por uns broches de certas estranhas pedras lunares que sempre usava. Era de uma beleza perfeita.

“Alegra-me tanto vê-lo – disse. – Não saí hoje durante o dia”.

Olhei para ela, estupefacto e tirando o lenço do meu bolso, entreguei-lho.

“Deixou cair isto esta tarde, Lady Alroy, na Rua Cumnor” – disse eu, calmamente.

Ela olhou para mim, aterrorizada, mas não fez o menor gesto para pegar no lenço.

“Que estava a fazer ali?” – perguntei.

“Que direito tem o senhor de fazer-me perguntas?” – replicou.

“O direito de um homem que a ama” – respondi-lhe. – “Vim aqui para pedi-la em casamento”.

Ocultou o rosto nas mãos e desfez-se em pranto.

“Tem de responder-me” – continuei.

Ela ergueu-se e, fitando-me o rosto, disse:

“Lorde Murchison, nada tenho a dizer-lhe”.

“Foi encontrar alguém” – exclamei. – “É esse o seu mistério”.

Ela ficou terrivelmente pálida e disse:

“Não fui encontrar ninguém”.

“Não pode dizer a verdade?” – exclamei.

“Já a disse” – replicou ela.

Eu estava a enlouquecer, alucinado. Não sei o que disse, mas foram coisas terríveis. Por fim, saí à pressa da casa. Escreveu-me uma carta no dia seguinte. Devolvi-lha, intacta e parti para a Noruega, em companhia de Alan Colville. Um mês depois regressei e a primeira coisa que vi no Morning Post foi a notícia da morte de Lady Alroy. Apanhara um resfriado na Ópera e morrera, dentro de cinco dias, de congestão pulmonar. Fechei-me em casa e não quis ver ninguém. Tinha-a amado tanto, tinha-a amado tão loucamente! Meu Deus! Quanto amara eu aquela mulher!

– E você, foi àquela rua, àquela casa? – perguntei.

– Sim – respondeu.

– Um dia, fui à Rua Cumnor. Não podia deixar de fazê-lo. Vivia torturado pela dúvida. Bati à porta e uma mulher de aspecto respeitável abriu-a para mim. Perguntei-lhe se havia quartos para alugar.

“Bem, meu senhor – respondeu ela – as salas podem ser alugadas, mas há três meses que não tenho visto a senhora e como os alugueres estão-se a acumular, o senhor poderá alugá-las”.

“É esta a senhora?” – perguntei, mostrando-lhe a fotografia.

“É ela, sim, com toda certeza” – exclamou a mulher. – “E quando estará de volta, meu senhor?”

“Morreu” – respondi.

“Oh! meu senhor, não diga!” – disse a mulher. – “Era a minha melhor inquilina. Pagava-me três guinéus por semana simplesmente para vir sentar-se nesta minha sala de vez em quando”.

“Encontrava-se com alguém aqui?” – perguntei, mas a mulher garantiu-me que tal não ocorria, que ela sempre vinha sozinha e não via ninguém.

“Mas afinal que fazia ela aqui?” – exclamei.

“Ficava simplesmente sentada na sala, meu senhor, lendo livros e às vezes tomava chá” – respondeu a mulher.

Não sabia o que dizer, de modo que lhe dei um soberano e saí. Agora, que pensa que significava tudo aquilo? Não acredita que a mulher estivesse a dizer a verdade?

– Acredito.

– Então por que ia Lady Alroy ali?

– Meu caro Geraldo – respondi – Lady Alroy era simplesmente uma mulher com a mania do mistério. Alugava aqueles quartos somente pelo prazer de ir ali, de véu descido e imaginando ser uma heroína. 

Tinha paixão pelo segredo, mas não passava de uma simples esfinge sem segredo.

– Estou convencido disto – repliquei.

Lorde Murchison tirou do bolso a carteira de marroquim, abriu-a e olhou a fotografia.

Quem sabe? – disse afinal.

Oscar Wild

quinta-feira, 5 de maio de 2016

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

NINA HAGEN - «Personal Jesus»

Poet'anarquista

JESUS PESSOAL

Alcançar e tocar fé
Seu próprio Jesus pessoal
Alguém para ouvir suas orações
Alguém que se importa
Seu próprio Jesus pessoal
Alguém para ouvir suas orações
Alguém que está lá
Sentindo-se desconhecido e você está sozinho
Carne e osso pelo telefone
Levante o receptor, vou fazer de você um crente
Pegue o segundo melhor, ponha-me para o teste
Coisas em seu peito, você precisa confessar
Eu vou entregar, você sabe que eu sou um perdoador
Alcançar e tocar fé
Alcançar e tocar fé
Seu próprio Jesus pessoal
Alguém para ouvir suas orações
Alguém que se importa
Seu próprio Jesus pessoal
Alguém para ouvir suas orações
Alguém que está lá
Sentindo-se desconhecido e você está sozinho
Carne e osso pelo telefone
Levante o receptor, vou fazer de você um crente
Pegue o segundo melhor, ponha-me para o teste
Coisas em seu peito, você precisa confessar
Eu vou entregar, você sabe que eu sou um perdoador
Alcançar e tocar fé
Seu próprio Jesus pessoal
Alcançar e tocar de facto

Nina Hagen
Cantora Alemã

OUTROS CONTOS

«Com que é que se parece um Professor?», por Pepetela.

«Com que é que se parece um Professor?»
Terricolas/ Eleutério Sanches

786- «COM QUE É QUE SE PARECE UM PROFESSOR?»

Ngunga tinha um princípio: se havia algum problema, ele preferia resolvê-lo logo. Deveria esperar que o Comandante o chamasse. Mas não esperou. Foi ele mesmo falar ao Comandante. Para quê ter medo?

O Comandante Mavinga estava divertido com a conversa. Falou:

— És um rapaz esperto e corajoso. Por isso deves estudar. Chegou agora um professor que vai montar uma escola aqui perto. Deves ir para lá, aprender a ler e a escrever. Não queres?

Ngunga ficou silencioso. Escola? Nunca vira. Ouvira falar, isso sim. Era um sítio onde tinha de se estar sempre sentado, a olhar para uns papéis escritos. Não devia ser bom.

— Prefiro ser guerrilheiro. Se não me querem aqui, então vou para outro sítio.

— Ngunga, tu és pequeno demais para ser guerrilheiro. Aqui já te disse que não podes ficar. Andar só, como fazes, não é bom. Um dia vai acontecer-te uma coisa má. E não estás a aprender nada.

— Como? Estou a ver novas terras, novos rios, novas pessoas. Oiço o que falam. Estou a aprender.

— Não é a mesma coisa. Numa escola aprendes mais. E assim vais conhecer o professor. Já viste um professor? Diz-me com que é que se parece um professor? Vais conhecer a escola. Eu parto amanhã e tu vais comigo.

Sem o saber, Mavinga encontrou o que podia convencer Ngunga. Com que é que se parecia um professor? Sim, precisava de conhecer o professor. Se não gostasse da escola, o seu saquito era fácil de arrumar. Vendo bem as coisas, não perdia nada em experimentar.

A escola era só uma cubata de capim para o professor e, numa sombra, alguns bancos de pau e uma mesa. Ngunga imaginara-a de outra maneira. Também o professor o surpreendeu. Julgava que ia encontrar um velho com cara séria. Afinal era um jovem, ainda mais novo que o Comandante, sorridente e falador. Esse aí sabia mesmo para ensinar aos outros?

Mavinga apresentou-o. Disse que ele não tinha família.

— Tem de ficar a viver aqui comigo! — disse o professor — Também já tenho o Chivuala, que veio comigo do Guando. Os outros alunos são externos, vivem nos quimbos e vêm só receber aulas. Para estes dois, vai haver o problema da alimentação.

— Não há problema! — respondeu o Comandante — Vou falar com o povo. Quando derem comida para o camarada professor, acrescentam um pouco para os dois pioneiros. O Ngunga precisa de estudar, para não ser como nós. Se se portar mal avise-me. Estás a ouvir, Ngunga? Se não trabalhares bem, eu vou saber. E, se fugires da escola, eu encontrar-te-ei.

— Eu nunca fujo! — respondeu Ngunga — Quando quiser, digo que vou embora e vou mesmo. Não preciso de fugir como um porco-de-mato.

O professor riu.

— Espero então que não queiras ir embora. Vais ver como gostarás da escola.

Pepetela

terça-feira, 3 de maio de 2016

SÁTIRA...

O Mundo ao Contrário
HenriCartoon

«O MUNDO AO CONTRÁRIO»

- Senhor Primeiro Ministro:
O governo anda a fazer
Ao invés, como deve ser…
Pior, só eu administro!
- Tens um olhar sinistro
Visto das avessas,
Por favor não aborreças
E deixa de ser gaiato…
O povo ficou farto
De falsas promessas!!

POETA

OUTROS CONTOS

«Colheita», por Nélida Piñon.

«Colheita»
A Mulher Madura/ Affonso Romano de Sant'Anna

785- «COLHEITA»

Um rosto proibido desde que crescera. Dominava as paisagens no modo activo de agrupar frutos e os comia nas sendas minúsculas das montanhas, e ainda pela alegria com que distribuía sementes. A cada terra a sua verdade de semente, ele se dizia sorrindo. Quando se fez homem encontrou a mulher, ela sorriu, era altiva como ele, embora seu silêncio fosse de ouro, olhava-o mais do que explicava a história do universo. Esta reserva mineral o encantava e por ela unicamente passou a dividir o mundo entre amor e seus objectos. Um amor que se fazia profundo a ponto de se dedicarem a escavações, refazerem cidades submersas em lava.

A aldeia rejeitava o proceder de quem habita terras raras. Pareciam os dois soldados de uma fronteira estrangeira, para se transitar por eles, além do cheiro da carne amorosa, exigiam eles passaporte, depoimentos ideológicos. Eles se preocupavam apenas com o fundo da terra, que é o nosso interior, ela também completou seu pensamento. Inspirava-lhes o sentimento a conspiração das raízes que a própria árvore, atraída pelo sol e exposta à terra, não podia alcançar, embora se soubesse nelas.

Até que ele decidiu partir. Competiam-lhe andanças, traçar as linhas finais de um mapa cuja composição havia se iniciado e ele sabia hesitante. Explicou à mulher que para a amar melhor não dispensava o mundo, a transgressão das leis, os distúrbios dos pássaros migratórios. Ao contrário, as criaturas lhe pareciam em suas peregrinações simples peças aladas cercando alturas raras.

Ela reagiu, confiava no choro. Apesar do rosto exibir naqueles dias uma beleza esplêndida a ponto de ele pensar estando o amor com ela por que buscá-lo em terras onde dificilmente o encontrarei, insistia na independência. Sempre os de sua raça adotaram comportamento de potro. Ainda que ele em especial dependesse dela para reparar certas omissões fatais.

Viveram juntos todas as horas disponíveis até a separação. Sua última frase foi simples: com você conheci o paraíso. A delicadeza comoveu a mulher, embora os diálogos do homem a inquietassem. A partir desta data trancou-se dentro de casa. Como os caramujos que se ressentem com o excesso da claridade. Compreendendo que talvez devesse preservar a vida de modo mais intenso, para quando ele voltasse. Em nenhum momento deixava de alimentar a fé, fornecer porções diárias de carpas oriundas de águas orientais ao seu amor exagerado.

Em toda a aldeia a atitude do homem representou uma rebelião a se temer. Seu nome procuravam banir de qualquer conversa. Esforçavam-se em demolir o rosto livre e sempre que passavam pela casa da mulher faziam de conta que jamais ela pertencera a ele. Enviavam-lhe presentes, pedaços de toicinho, cestas de pêra, e poesias esparsas. Para que ela interpretasse através daqueles recursos o quanto a consideravam disponível, sem marca de boi e as iniciais do homem em sua pele.

A mulher raramente admitia uma presença em sua casa. Os presentes entravam pela janela da frente, sempre aberta para que o sol testemunhasse a sua própria vida, mas abandonavam a casa pela porta dos fundos, todos aparentemente intocáveis. A aldeia ia lá para inspecionar os objetos que de algum modo a presenciaram e eles não, pois dificilmente aceitavam a rigidez dos costumes. Às vezes ela se socorria de um parente, para as compras indispensáveis. Deixavam eles então os pedidos aos seus pés, e na rápida passagem pelo interior da casa procuravam a tudo investigar. De certo modo ela consentia para que vissem o homem ainda imperar nas coisas sagradas daquela casa.

Jamais faltou uma flor diariamente renovada próxima ao retrato do homem. Seu semblante de águia. Mas, com o tempo, além de mudar a cor do vestido, antes triste agora sempre vermelho, e alterar o penteado, pois decidira manter os cabelos curtos, aparados rentes à cabeça — decidiu por eliminar o retrato. Não foi fácil a decisão. Durante dias rondava o retrato, sondou os olhos obscuros do homem, ora o condenava, ora o absolvia: porque você precisou da sua rebeldia, eu vivo só, não sei se a guerra tragou você, não sei sequer se devo comemorar sua morte com o sacrifício da minha vida.

Durante a noite, confiando nas sombras, retirou o retrato e o jogou rudemente sobre o armário. Pôde descansar após a atitude assumida. Acreditou deste modo poder provar aos inimigos que ele habitava seu corpo independente da homenagem. Talvez tivesse murmurado a algum dos parentes, entre descuidada e oprimida, que o destino da mulher era olhar o mundo e sonhar com o rei da terra.

Recordava a fala do homem em seus momentos de tensão. Seu rosto então igualava-se à pedra, vigoroso, uma saliência em que se inscreveria uma sentença, para permanecer. Não sabia quem entre os dois era mais sensível à violência. Ele que se havia ido, ela que tivera que ficar. Só com os anos foi compreendendo que se ele ainda vivia tardava a regressar. Mas, se morrera, ela dependia de algum sinal para providenciar seu fim. E repetia temerosa e exaltada: algum sinal para providenciar meu fim. A morte era uma vertente exagerada, pensou ela olhando o pálido brilho das unhas, as cortinas limpas, e começou a sentir que unicamente conservando a vida homenagearia aquele amor mais pungente que búfalo, carne final da sua espécie, embora tivesse conhecido a coroa quando das planícies.

Quando já se tornava penoso em excesso conservar-se dentro dos limites da casa, pois começara a agitar nela uma determinação de amar apenas as coisas venerandas, fossem pó, aranha, tapete rasgado, panela sem cabo, como que adivinhando ele chegou. A aldeia viu o modo de ele bater na porta com a certeza de se avizinhar ao paraíso. Bateu três vezes, ela não respondeu. Mais três e ela, como que tangida à reclusão, não admitia estranhos. Ele ainda herói bateu algumas vezes mais, até que gritou seu nome, sou eu, então não vê, então não sente, ou já não vive mais, serei eu logo o único a cumprir a promessa?

Ela sabia agora que era ele. Não consultou o coração para agitar-se, melhor viver a sua paixão. Abriu a porta e fez da madeira seu escudo. Ele imaginou que escarneciam da sua volta, não restava alegria em quem o recebia. Ainda apurou a verdade: se não for você, nem preciso entrar. Talvez tivesse esquecido que ele mesmo manifestara um dia que seu regresso jamais seria comemorado, odiaria o povo abundante na rua vendo o silêncio dos dois após tanto castigo.

Ela assinalou na madeira a sua resposta. E ele achou que devia surpreendê-la segundo o seu gosto. Fingia a mulher não perceber seu ingresso casa adentro, mais velho sim, a poeira colorindo original as suas vestes. Olharam-se como se ausculta a intrepidez do cristal, seus veios limpos, a calma de perder-se na transparência. Agarrou a mão da mulher, assegurava-se de que seus olhos, apesar do pecado das modificações, ainda o enxergavam com o antigo amor, agora mais provado.

Disse-lhe: voltei. Também poderia ter dito: já não te quero mais. Confiava na mulher; ela saberia organizar as palavras expressas com descuido. Nem a verdade, ou sua imagem contrária, denunciaria seu hino interior. Deveria ser como se ambos conduzindo o amor jamais o tivessem interrompido.

Ela o beijou também com cuidado. Não procurou sua boca e ele se deixou comovido. Quis somente sua testa, alisou-lhe os cabelos. Fez-lhe ver o seu sofrimento, fora tão difícil que nem seu retrato pôde suportar. Onde estive então nesta casa, perguntou ele, procure e em achando haveremos de conversar. O homem se sentiu atingido por tais palavras. Mas as peregrinações lhe haviam ensinado que mesmo para dentro de casa se trazem os desafios.

Debaixo do sofá, da mesa, sobre a cama, entre os lençóis, mesmo no galinheiro, ele procurou, sempre prosseguindo, quase lhe perguntava: estou quente ou frio. A mulher não seguia suas buscas, agasalhada em um longo casaco de lã, agora descascava batatas imitando as mulheres que encontram alegria neste engenho. Esta disposição da mulher como que o confortava. Em vez de conversarem, quando tinham tanto a se dizer, sem querer eles haviam começado a brigar. E procurando ele pensava onde teria estado quando ali não estava, ao menos visivelmente pela casa.

Quase desistindo encontrou o retrato sobre o armário, o vidro da moldura todo quebrado. Ela tivera o cuidado de esconder seu rosto entre cacos de vidro, quem sabe tormentas e outras feridas mais. Ela o trouxe pela mão até a cozinha. Ele não se queria deixar ir. Então, o que queres fazer aqui? Ele respondeu: quero a mulher. Ela consentiu. Depois porém ela falou: agora me siga até a cozinha.

— O que há na cozinha?

Deixou-o sentado na cadeira. Fez a comida, se alimentaram em silêncio. Depois limpou o chão, lavou os pratos, fez a cama recém-desarrumada, tirou o pó da casa, abriu todas as janelas quase sempre fechadas naqueles anos de sua ausência. Procedia como se ele ainda não tivesse chegado, ou como se jamais houvesse abandonado a casa, mas se faziam preparativos sim de festa. Vamos nos falar ao menos agora que eu preciso?, ele disse.

— Tenho tanto a lhe contar. Percorri o mundo, a terra, sabe, e além do mais...

Eu sei, ela foi dizendo depressa, não consentindo que ele dissertasse sobre a variedade da fauna, ou assegurasse a ela que os rincões distantes ainda que apresentem certas particularidades de algum modo são próximos a nossa terra, de onde você nunca se afastou porque você jamais pretendeu a liberdade como eu. Não deixando que lhe contasse, sim que as mulheres, embora louras, pálidas, morenas e de pele de trigo, não ostentavam seu cheiro, a ela, ele a identificaria mesmo de olhos fechados. Não deixando que ela soubesse das suas campanhas: andou a cavalo, trem, veleiro, mesmo helicóptero, a terra era menor do que supunha, visitara a prisão, razão de ter assimilado uma rara concentração de vida que em nenhuma parte senão ali jamais encontrou, pois todos os que ali estavam não tinham outro modo de ser senão atingindo diariamente a expiação.

E ela, não deixando ele contar o que fora o registro da sua vida, ia substituindo com palavras dela então o que ela havia sim vivido. E de tal modo falava como se ela é que houvesse abandonado a aldeia, feito campanhas abolicionistas, inaugurado pontes, vencido domínios marítimos, conhecido mulheres e homens, e entre eles se perdendo pois quem sabe não seria de sua vocação reconhecer pelo amor as criaturas. Só que ela falando dispensava semelhantes assuntos, sua riqueza era enumerar com volúpia os afazeres diários a que estivera confinada desde a sua partida, como limpava a casa, ou inventara um prato talvez de origem dinamarquesa, e o cobriu de verdura, diante dele fingia-se coelho, logo assumindo o estado que lhe trazia graça, alimentava-se com a mão e sentia-se mulher; como também simulava escrever cartas jamais enviadas pois ignorava onde encontrá-lo; o quanto fora penoso decidir-se sobre o destino a dar a seu retrato, pois, ainda que praticasse a violência contra ele, não podia esquecer que o homem sempre estaria presente; seu modo de descascar frutas, tecendo delicadas combinações de desenho sobre a casca, ora pondo em relevo um trecho maior da polpa, ora deixando o fruto revestido apenas de rápidos fiapos de pele; e ainda a solução encontrada para se alimentar sem deixar a fazenda em que sua casa se convertera, cuidara então em admitir unicamente os de seu sangue sob condição da rápida permanência, o tempo suficiente para que eles vissem que apesar da distância do homem ela tudo fazia para homenageá-lo, alguns da aldeia porém, que ele soubesse agora, teimaram em lhe fazer regalos, que, se antes a irritavam, terminaram por agradá-la.

— De outro modo, como vingar-me deles?

Recolhia os donativos, mesmo os poemas, e deixava as coisas permanecerem sobre a mesa por breves instantes, como se assim se comunicasse com a vida. Mas, logo que todas as reservas do mundo que ela pensava existirem nos objetos se esgotavam, ela os atirava à porta dos fundos. Confiava que eles próprios recolhessem o material para não deteriorar em sua porta.

E tanto ela ia relatando os longos anos de sua espera, um cotidiano que em sua boca alcançava vigor, que temia ele interromper um só momento o que ela projetava dentro da casa como se cuspisse pérolas, cachorros miniaturas, e uma grama viçosa, mesmo a pretexto de viver junto com ela as coisas que ele havia vivido sozinho. Pois quanto mais ela adensava a narrativa, mais ele sentia que além de a ter ferido com o seu profundo conhecimento da terra, o seu profundo conhecimento da terra afinal não significava nada. Ela era mais capaz do que ele de atingir a intensidade, e muito mais sensível porque viveu entre grades, mais voluntariosa por ter resistido com bravura os galanteios. A fé que ele com neutralidade dispensara ao mundo a ponto de ser incapaz de recolher de volta para seu corpo o que deixara tombar indolente, ela soubera fazer crescer, e concentrara no domínio da sua vida as suas razões mais intensas.

À medida que as virtudes da mulher o sufocavam, as suas vitórias e experiências iam-se transformando em uma massa confusa, desorientada, já não sabendo ele o que fazer dela. Duvidava mesmo se havia partido, se não teria ficado todos estes anos a apenas alguns quilômetros dali, em degredo como ela, mas sem igual poder narrativo.

Seguramente ele não lhe apresentava a mesma dignidade, sequer soubera conquistar seu quinhão na terra. Nada fizera senão andar e pensar que aprendeu verdades diante das quais a mulher haveria de capitular. No entanto, ela confessando a jornada dos legumes, a confecção misteriosa de uma sopa, selava sobre ele um penoso silêncio. A vergonha de ter composto uma falsa história o abatia. Sem dúvida estivera ali com a mulher todo o tempo, jamais abandonara a casa, a aldeia, o torpor a que o destinaram desde o nascimento, e cujos limites ele altivo pensou ter rompido.

Ela não cessava de se apoderar das palavras, pela primeira vez em tanto tempo explicava sua vida, tinha prazer de recolher no ventre, como um tumor que coça as paredes íntimas, o som da sua voz. E, enquanto ouvia a mulher, devagar ele foi rasgando o seu retrato, sem ela o impedir, implorasse não, esta é a minha mais fecunda lembrança. Comprazia-se com a nova paixão, o mundo antes obscurecido que ela descobriu ao retorno do homem.

Ele jogou o retrato picado no lixo e seu gesto não sofreu ainda desta vez advertência. Os actos favoreciam a claridade e, para não esgotar as tarefas a que pretendia dedicar-se, ele foi arrumando a casa, passou pano molhado nos armários, fingindo ouvi-la ia esquecendo a terra no arrebato da limpeza. E, quando a cozinha se apresentou imaculada, ele recomeçou tudo de novo, então descascando frutas para a compota enquanto ela lhe fornecia histórias indispensáveis ao mundo que precisaria apreender uma vez que a ele pretendia dedicar-se para sempre. Mas de tal modo agora arrebatava-se que parecia distraído, como pudesse dispensar as palavras encantadas da mulher para adoptar afinal o seu universo.

Nélida Piñon

sábado, 30 de abril de 2016

OUTROS CONTOS

«O Outono», por Bernardo Soares.

«O Outono»
Jardim Outonal/ Vincent van Gogh

784- «O OUTONO»

[Excerto do Livro do Desassossego]

 Atrás dos primeiros menos-calores do estio findo vieram, nos acasos das tardes, certos coloridos mais brandos do céu amplo, certos retoques de brisa fria que anunciavam o outono.

Não era ainda o desverde da folhagem, ou o desprenderem-se das folhas, nem aquela vaga angústia que acompanha a nossa sensação da morte externa, porque o há-de ser também a nossa. Era como um cansaço do esforço existente, um vago sono sobrevindo aos últimos gestos de agir. Ah, são tardes de uma tão magoada indiferença, que, antes que comece nas coisas, começa em nós o outono.

Cada outono que vem é mais perto do último outono que teremos, e o mesmo é verdade do verão ou do estio; mas o outono lembra, por o que é, o acabamento de tudo, e no verão ou no estio é fácil, de olhar, que o esqueçamos. Não é ainda o outono, não está ainda no ar o amarelo das folhas caídas ou a tristeza húmida do tempo que vai ser inverno mais tarde. Mas há um resquício de tristeza antecipada, uma mágoa vestida para a viagem, no sentimento em que somos vagamente atentos à difusão colorida das coisas, ao outro tom do vento, ao sossego mais velho que se alastra, se a noite cai, pela presença inevitável do universo.

Sim, passaremos todos, passaremos tudo. Nada ficará do que usou sentimentos e luvas, do que falou da morte e da política local. Como é a mesma luz que ilumina as faces dos santos e as polainas dos transeuntes, assim será a mesma falta de luz que deixará no escuro o nada que ficar de uns terem sido santos e outros usadores de polainas.

No vasto redemoinho, como o das folhas secas, em que jaz indolentemente o mundo inteiro, tanto faz os remos como os vestidos das costureiras, e as tranças das crianças louras vão no mesmo giro mortal que os ceptros que figuraram impérios.

Tudo é nada, e no átrio do Invisível, cuja porta aberta mostra apenas, defronte, uma porta fechada, bailam, servas desse vento que as remexe sem mãos, todas as coisas, pequenas e grandes, que formaram, para nós e em nós, o sistema sentido do universo.

Tudo é sombra e pó mexido, nem há voz senão a do som que faz o que [o] vento ergue e arrasta, nem silêncio senão do que o vento deixa. Uns, folhas leves, menos presas de terra por mais leves, vão altas do rodopio do Átrio e caem mais longe que o círculo dos pesados. Outros, invisíveis quase, pó igual, diferente só se o víssemos de perto, faz cama a si mesmo no redemoinho. Outros ainda, miniaturas de troncos, são arrastados à roda e cessam aqui e ali.

Um dia, no fim do conhecimento das coisas, abrir-se-á a porta do fundo e tudo o que fomos - lixo de estrelas e de almas - será varrido para fora da casa, para que o que há recomece.

Meu coração dói-me como um corpo estranho. Meu cérebro dorme tudo quanto sinto. Sim, é o princípio do outono que traz ao ar e à minha alma aquela luz sem sorriso que vai orlando de amarelo morto o arredondamento confuso das poucas nuvens do poente.

Sim, é o princípio do outono, e o conhecimento claro, na hora límpida, da insuficiência anónima de tudo. O outono, sim, o outono, o que há ou o que vai haver, e o cansaço antecipado de todos os gestos, a desilusão antecipada de todos os sonhos.

Que posso eu esperar e de quê? Já, no que penso de mim, vou entre as folhas e os pós do átrio, na órbita sem sentido de coisa nenhuma, fazendo som de vida nas lajes limpas que um sol angular doura de fim não sei onde.

Tudo quanto pensei, tudo quanto sonhei, tudo quanto fiz ou não fiz - tudo isso irá no outono, como os fósforos gastos que juncam o chão em diversos sentidos, ou os papéis amarrotados em bolas falsas, ou os grandes impérios, as religiões todas, as filosofias com que brincaram, fazendo-as, as crianças sonolentas do abismo.

Tudo quanto foi minha alma, desde tudo a que aspirei à casa vulgar em que moro, desde os deuses que tive ao patrão Vasques que também tive, tudo vai no outono, tudo no outono, na ternura indiferente do outono.

Tudo no outono, sim, tudo no outono…

Bernardo Soares
(Semi-heterónimo de Fernando Pessoa)

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

MUDDY WATERS - «Trouble No More»

Poet'anarquista

MAIS NENHUM PROBLEMA

Não me importo à quanto tempo você se foi
Não me importo quanto tempo vai ficar
Mas um belo tratamento
Te trará de volta pra casa algum dia

Mas algum dia querida
Você não será problema
Pobre de mim, não mais

Você continua apostando
Que os dados não vão passar
Bem, você sabe querida
Você está vivendo rápido demais

Mas algum dia querida
Você não será problema
Pobre de mim, não mais

Contarei a todo mundo
Na sua vizinhança
Que a doce garotinha
Não me diz nada de bom

Mas algum dia querida
Você não será problema
Pobre de mim, não mais
Sem mais problemas
Sem mais problemas

Bem, eu sei que está vivendo
Você chama isso de dar fora
Sem amor
Não pode ficar muito tempo

Mas algum dia querida
Você não será problema
Pobre de mim, não mais

Bem, adeus querida
Venha e aperte minha mão
Eu não quero mulher nenhuma
Você não pode ter um homem

Mas algum dia querida
Você não será problema
Pobre de mim, não mais

Muddy Waters (O Rei dos Blues)
Cantor, Guitarrista e Compositor Norte-Americano

sexta-feira, 29 de abril de 2016

OUTROS CONTOS

«Romance do Homem da Boca Fechada», conto poético por Jaime Cortesão.

«Romance do Homem da Boca Fechada»
Pintura de Yosl Bergner

783- ROMANCE DO HOMEM DA BOCA FECHADA

– Quem é esse homem sombrio
Duro rosto, claro olhar,
Que cerra os dentes e a boca
Como quem não quer falar?
– Esse é o Jaime Rebelo,
Pescador, homem do mar,
Se quisesse abrir a boca,
Tinha muito que contar.

Ora ouvireis, camaradas,
Uma história de pasmar.

Passava já de ano e dia
E outro vinha de passar,
E o Rebelo não cansava
De dar guerra ao Salazar.
De dia tinha o mar alto,
De noite, luta bravia,
Pois só ama a Liberdade,
Quem dá guerra à tirania.
Passava já de ano e dia…
Mas um dia, por traição,
Caiu nas mãos dos esbirros
E foi levado à prisão.

Algemas de aço nos pulsos,
Vá de insultos ao entrar,
Palavra puxa palavra,
Começaram de falar
– Quanto sabes, seja a bem,
Seja a mal, hás de contá-lo,
– Não sou traidor, nem perjuro;
Sou homem de fé: não falo!
– Fala: ou terás o degredo,
Ou morte a fio de espada.
– Mais vale morrer com honra,
Do que vida deshonrada!

– A ver se falas ou não,
Quando posto na tortura.
– Que importam duros tormentos,
Quando a vontade é mais dura?!

Geme o peso atado ao potro
Já tinha o corpo a sangrar,
Já tinha os membros torcidos
E os tormentos a apertar,
Então o Jaime Rebelo,
Louco de dor, a arquejar,
Juntou as últimas forças
Para não ter que falar.
– Antes que fale emudeça! –
Pôs-se a gritar com voz rouca,
E, cerce, duma dentada,
Cortou a língua na boca.

A turba vil dos esbirros
Ficou na frente, assombrada,
Já da boca não saia
Mais que espuma ensanguentada!

Salazar, cuidas que o Povo
Te suporta, quando cala?
Ninguém te condena mais
Que aquela boca sem fala!

Fantasma da sua dor,
Ainda hoje custa a vê-lo;
A angústia daquelas horas
Não deixa o Jaime Rebelo.
Pescador que se fez homem
Ao vento livre do Mar,
Traz sempre aquela visão
Na sombra dura do olhar,
Sempre de boca apertada,
Como quem não quer falar.

Jaime Cortesão