segunda-feira, 31 de outubro de 2011

domingo, 30 de outubro de 2011

PINTURA - ALFRED SISLEY

O pintor franco-britânico Alfred Sisley, nasceu em Paris a 30 de Outubro de 1839. Companheiro e amigo de Renoir, Bazille e Monet, as suas telas paisagísticas, não tão conhecidas historicamente como as obras dos seus amigos pintores, são de uma clareza e limpidez impressionantes. Foi sempre um pintor fiel aos princípios do impressionismo como se pode observar nas suas paisagens maravilhosas. Sisley faleceu em Moret-sur-Loing, a 29 de Janeiro de 1899.
Poet'anarquista
Alfred Sisley
Pintor Franco-Britânico
BIOGRAFIA

Muito menos citado historicamente do que os seus companheiros Renoir e Monet, o pintor Alfred Sisley distinguiu-se do grupo pela limpidez das suas paisagens, algumas das obras mais fiéis aos princípios do impressionismo.

Alfred Sisley nasceu em Paris, em 30 de outubro de 1839, membro de uma família de financistas britânicos radicada na França. Abandonou os estudos comerciais em Londres para iniciar os seus estudos no atelier parisiense de Charles Gleyre. Ali travou conhecimento com Renoir e Monet, pioneiros do impressionismo.

As suas primeiras obras revelam de forma inequívoca a influência do paisagista francês Camille Corot e também a predilecção pela pintura ao ar livre e a constante evolução para os tons claros, característica da sua maturidade.

O colapso económico da sua família, em decorrência da guerra franco-prussiana de 1870-1871, marcou o início de uma luta contínua contra a pobreza que duraria o resto da vida do artista. Nesse período, Sisley decidiu dedicar-se profissionalmente à pintura. Os seus trabalhos mais expressivos foram realizados entre 1872 e 1880, nos arredores de Paris, enquanto viveu em estreito contacto com Monet. Participou do Salão dos Recusados e da maior parte das exposições impressionistas.

Diante da escassa repercussão obtida pelas suas obras, retirou-se definitivamente para o lugarejo de Moret-sur-Loing em 1880. A partir de então, procurou firmar um estilo cada vez mais pessoal, embora guardasse afinidades com as concepções pictóricas de Monet e Camille Pissarro. Distinguia-se desses companheiros pela suave harmonia de cores e por um sentido quase arquitectónico da composição, como em «Igreja de Moret» (1893).

Alfred Sisley morreu em Moret-sur-Loing, em 29 de janeiro de 1899.
Fonte: EmDiv.Org
«Neve Antecipada em Louveciennes»
Sisley

«Avenida das Amendoeiras»
Sisley

«Ponte em Villeneuve-la-Garennne»
Sisley

«Prado»
Sisley

«Inundação em Pont-Marley»
Sisley

«Caminho em Roches-Coutaut/ Verão de São Martinho»
Sisley

«Canal de St. Martin»
Sisley

«IMPRESSIONISMO»
ALFRED SISLEY

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

ARLO GUTHRIE - «Coming Into Los Angeles»

Poet'anarquista

sábado, 29 de outubro de 2011

POESIA - ADALGISA NÉRY

Adalgisa Maria Feliciana Noel Cancela Ferreira, mais conhecida por Adalgisa Néry, nasceu no Rio de Janeiro a 29 de Outubro de 1905. Esta importante poetisa e jornalista brasileira, da escola modernista, viria a falecer na sua cidade natal, a 7 de Junho de 1980.
Poet'anarquista
Adalgisa Néry
 Poetisa Brasileira
BREVE BIOGRAFIA

A escritora, jornalista e política brasileira Adalgisa Néry, nasceu no Rio de Janeiro a 29 de Outubro de 1905. Casou-se aos 16 anos com o pintor e poeta paraense Ismael Néry, um dos precursores do Modernismo no Brasil. Graças a frequentes reuniões em sua casa, ingressou num sofisticado circuito intelectual, passando a conviver com literários como Manuel Bandeira, Carlos Drumond de Andrade e Murilo Mendes. Após o falecimento de Ismael Néry iniciou carreira na literatura, publicando o seu primeiro trabalho em 1935 na Revista Académica. 

Em 1940 casou-se com o jornalista e advogado Lourival Fontes, director-geral do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), órgão do estado Novo responsável pela censura, posteriormente nomeado embaixador do Brasil no México. Com isso Adalgisa Néry passou a frequentar a elite intelectual daquele país, tendo sido retratada por Diogo Rivera e Frida Kalo.

De volta ao Brasil, após a sua separação, iniciou carreira como articulista política, tendo escrito, de 1955 a 1966 no jornal Última Hora, numa coluna diária intitulada «Retratos sem Retoques». O sucesso da coluna levou a candidatar-se pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB). Foi eleita à Assembleia Constituinte do então estado da Guanabara, em 1960; foi reeleita por mais dois mandatos em 1962 e 1966.

Adalgisa alcançou o seu maior sucesso literário com o romance autobiográfico «A Imaginária» publicado em 1959. Em seguida publicou livro de contos, volumes de poesias. Foi presa pela junta militar em 1969. Faleceu em 1980 em um abrigo de idosos no Rio de Janeiro.
Fonte: Mulher500Anos


PENSAMENTOS QUE REÚNEM UM TEMA

Estou pensando nos que possuem a paz de não pensar,
Na tranqüilidade dos que esqueceram a memória
E nos que fortaleceram o espírito com um motivo de odiar.
Estou pensando nos que vivem a vida
Na previsão do impossível
E nos que esperam o céu
Quando suas almas habitam exiladas o vale intransponível.
Estou pensando nos pintores que já realizaram para as multidões
E nos poetas que correm indefinidamente
Em busca da lucidez dos que possam atingir
A festa dos sentidos nas simples emoções.
Estou pensando num olhar profundo
Que me revelou uma doce e estranha presença,
Estou pensando no pensamento das pedras das estradas sem fim
Pela qual pés de todas as raças, com todas as dores e alegrias
Não sentiram o seu mistério impenetrável,
Meu pensamento está nos corpos apodrecidos durante as batalhas
Sem a companhia de um silêncio e de uma oração,
Nas crianças abandonadas e cegas para a alegria de brincar,
Nas mulheres que correm mundo
Distribuindo o sexo desligadas do pensamento de amor,
Nos homens cujo sentimento de adeus
Se repete em todos os segundos de suas existências,
Nos que a velhice fez brotar em seus sentidos
A impiedade do raciocínio ou a inutilidade dos gestos.
Estou pensando um pensamento constante e doloroso
E uma lágrima de fogo desce pela minha face:
De que nada sou para o que fui criada
E como um número ficarei
Até que minha vida passe.

Adalgisa Néry

POEMA NATURAL

Abro os olhos, não vi nada
Fecho os olhos, já vi tudo.
O meu mundo é muito grande
E tudo que penso acontece.
Aquela nuvem lá em cima?
Eu estou lá,
Ela sou eu.
Ontem com aquele calor
Eu subi, me condensei
E, se o calor aumentar, choverá e cairei.
Abro os olhos, vejo um mar,
Fecho os olhos e já sei.
Aquela alga boiando, à procura de uma pedra?
Eu estou lá,
Ela sou eu.
Cansei do fundo do mar, subi, me desamparei.
Quando a maré baixar, na areia secarei,
Mais tarde em pó tomarei.
Abro os olhos novamente
E vejo a grande montanha,
Fecho os olhos e comento:
Aquela pedra dormindo, parada dentro do tempo,
Recebendo sol e chuva, desmanchando-se ao vento?
Eu estou lá,
Ela sou eu.

Adalgisa Néry 

EU TE AMO!!!

Eu te amo
Antes e depois de todos os acontecimentos
Na profunda imensidade do vazio
E a cada lágrima dos meus pensamentos.

Eu te amo
Em todos os ventos que cantam,
Em todas as sombras que choram,
Na extensão infinita do tempo
Até a região onde os silêncios moram.

Eu te amo
Em todas as transformações da vida,
Em todos os caminhos do medo,
Na angústia da vontade perdida
E na dor que se veste em segredo.

Eu te amo
Em tudo que estás presente,
No olhar dos astros que te alcançam
Em tudo que ainda estás ausente.

Eu te amo
Desde a criação das águas,
desde a idéia do fogo
E antes do primeiro riso e da primeira mágoa.

Eu te amo perdidamente
Desde a grande nebulosa
Até depois que o universo cair sobre mim
Suavemente.

Adalgisa Néry

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(Escolha musical da blogosfera»

NANA MOUSKOURI - «Libertad»

Poet'anarquista

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

POESIA - MATIAS JOSÉ

«Fernando Pessoa»
JPGalhardas

A  INCOMPARÁVEL LEVEZA DO SER

Escrevi sobre esta beleza
 (Assim «Pessoa» a enalteceu)…
 As palavras são com certeza
 O melhor que Deus me deu!

O tempo não me interessa
 Na distância percorrida...
 Qualquer coisa com pressa,
 Espera uma nova partida!

Em procura de um lugar
 Onde amar sempre quis,
 Encontrei o teu olhar
 E por instantes… fui feliz!

A incomparável leveza do ser
 Entrou num coração,
 Mais querer… é nada querer,
 Que o resto urtigas são!

Matias José

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

CHICAGO BLUES REUNION - «Wine»

Poet'anarquista

«CONTOS DO NASCER DA TERRA»

Mia Couto
Escritor Moçambicano

XXXV CONTO - «A viúva nacional»

«Viúva»
Aldemir Martins

A VIÚVA NACIONAL

Ou foi Jesus que traiu Judas? Ninguém pode saber. Se mesmo Deus passa o tempo aprovar que não existe! Pensamentos que fartam a cabeça de Azaria Azar, director do Cemitério Central. Ideias que endemoniam o juízo do funcionário, outrora zeloso, agora acabranhado. Verdade é como ninho de cobra: se confirma apanhando não o ovo, mas a fatal picada.
- “Culpa minha, quem me mandou?” - insiste em aceno de cabeça.
Afinal, quem quer fumo tem que juntar palha. Sentado na sombra de um cipreste,
olha a velha Donalena, onde tudo começou. E vai desabrindo os recentes passados.
1 - Ante e ontem
Azaria Azar se resolveu nessa tarde. Iria interditar Helena Cemitela, a velha visitadora dos defuntos. Não havia dia que a senhora não visitasse o cemitério, umas muitas florinhas lhe avulsando no regaço. Donalena, como era chamada, desomenageava a morte. Como? Ela não sabia qual campa devia honrar. Cada vez se joelhava numa diferente. Dias havia em que até rezava em mais que dez lápides. E todas as campas eram, para ela, as do “falecido. Até os coveiros já suspeitavam se alguma vez chegara de haver algum respectivo dela. Donalena se perdoava:
- “É que já esqueci bem-bem onde que é”.
A gente nasce grão, morre terra. Donalena, pré-defunta, já cheira a tábua deitada. Criatura roída pelo tempo, tão escaravelhota que só pode ter saída de tumba. A velha desafia o Outono: cai a árvore e fica a folha? Entre as campas, ela se descampa até o céu dessorar, maligno. Só no poente Donalena abandona o cemitério, fazendo chiar os pesados portões. Nas trevas vai pisando trevos.
Pois naquela tarde, o chefe Azaria chamou a velha e lhe deitou proibição: ela podia
nunca mais ali voltar.
- “Mas eu, agora, já lembrei a campa. Não viu eu rezar ali? Aquela é mesmo a do meu falecido...
- “Acabou conversa. Já dei ordem nos milícias”.
A velha então desfiou um choro magrinho, soluço de gota caindo em poço seco.
Nem Azaria notou, no começo, que ela chorava.
- “Me deixe vir aqui. É que eu não tenho morto para chorar. Todos tem seus mortos,
só eu que não tenho. Me favoreça, Doutor”.
2 - Ontem, oficialmente
Ontem à tarde, o Vice-Adjunto, Dr. Maurício Salbuquerque, chegou ao cemitério em sua solene viatura. Vinha na véspera de uma função: homenagear Herói da Revolução. Procurara candidato, até pagara. Mas não encontrara ninguém, nem próprio nem parente. Nos tempos de hoje quem quer se apresentar com os louros vermelhos do leninismo?
Com o director do cemitério se acordou encontrar rápido um candidato a órfão, viúvo, parente de herói. Azaria lembrou, então, a deslembrada Donalena. Ela havia de servir que nem peúga. Não fosse a incoincidência: ainda ontem Azaria a expulsara. Contudo, o Vice-Adjunto insistiu: ele a fosse a procurar, quem sabe a velha desobedecera?
- “Desobedecer a mim, Excelência? Com o devido respeito, eu só tenho recebido
obediência das instâncias inferiores”.
O Doutor teimou e Azaria lá foi, rarefeito, procurar a improvável doida. Querem saber? Donalena Cemitela lá estava, soletrando lápides, sempre em busca. Azaria chamou, ela mal-entendeu e desatou-se. Fugia a sete chãos. Azaria Azar agarrou-lhe e a conduziu à direcção. O Doutor Maurício olhou a mulher, antecipando triunfos.
- “Você é esposa do malogrado?
- “Esposa por casamento, sim senhor.
- “Já lhe conheço de nome, isto é, nomeadamente: Donalena. Ora, até está como convém: Lena rima com quê? Com leninismo!”
E o plano foi instaurado, instantâneo como toda a mentira. Se encontrou uma campa devidamente incógnita. Se aldrabou lápide, às pressas. E se convenceu a velha Donalena que seu marido morreu em plenos sacrifícios pela Revolução. E que ele pacificava ali, naquela precisa tumba. Donalena Cemitela estava sendo promovida a última dama, viúva nacional.
Quando chegou a comitiva oficial, se apresentou Azaria, portões oleados, muro pintado de palavras de ordem do proletariado mundial. Foi chamada a viúva. Houve banda, discurso, tiros de pólvora sonora. Donalena, com vestes de empréstimo, recebeu as póstumas medalhas. Então, lhe pediram que ela encabeçasse o desfile fúnebre para a campa do falecido herói. A marcha se alongou pelos carreiros, respeitosa e lenta. Deu-se uma, duas, três voltas ao cemitério. Andava-se em vertigem, já alguns murmuravam. O Excelência Máximo inquiriu solenemente a viúva:
- “Afinal, onde está enterrado o seu falecido?”
A viúva desenhou um gesto vago, circungirando o dedo por todo o cemitério. Seu marido estava enterrado em todas campas e em cada uma também. Azaria e Salbuquerque perdiam as falas, afligidos. A Máxima Excelência desentendeu mas depois abriu um sorriso.“Pois, compreendo-lhe; é uma metáfora: o povo inteiro é que é herói. Mas agora, camarada viuva, agora necessitamos de uma única sepultura, apenas a verdadeiramente única”.
- “A verdadeira?!”
Estava ali, bem defronte. E apontou a verdadeira e autêntica. A marcha se deteve, se depositaram as flores em coroas, se entoaram hinos e orações. Os máximos prontuaram discurso - que ali jazia, o próprio, o mencionado, o supracitado. Azaria e Salbuquerque suspiravam alívios. No final, já as oficiais tristezas se recolhiam de regresso, a viúva puxou de volta a manga do dirigente máximo. Apontou uma outra campa e disse:
- “Oh, me enganei. Afinal, era aquela!”
E depois outra, outra e outra. Até ao grito final do Excelência. Até à ordem de
despedimento de Azaria e companhia.
3 - Hoje, de novo
Sentado na entrada do seu ex-domínio, Azaria Azar encara a viúva Donalena desfiando entre as passadeiras. As medalhas lhe tilintam no vestido negro. Passa-lhe, por momento, a raiva de matar a causadora de sua desgraceira. Vai congeminando planos: desgargantear a velha? Suspendurá-la em galho? É quando vê um corvo pousar no ombro de Donalena. Azaria Azar sorri, se levanta e se encaminha para a idosa mulher. Cavalheiro, lhe oferece o braço e sussurra:
- “Eu lhe guio Donalena, eu lhe mostro a sua campa”...

Mia Couto
Até prá semana...
Poet'anarquista

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

PINTURA versus POESIA

«Paz Inquieta»

ANTÓNIO PEDRO


INQUIETUDE

Esta inquietude
De não saber
Se deva escrever,
Ou parar para ser
Uma alma igual
A tantas outras...
Que não a minha!


Matias José

PINTURA - DI CAVALCANTI

Emiliano Augusto Cavalcanti de Albuquerque e Melo, mais conhecido por Di Cavalcanti, nasceu no Rio de Janeiro, Brasil, a 6 de Setembro de 1897. Pintor, desenhador, ilustrador e caricaturista, frequentou o atelier do impressionista George Fischer Elpons e tornou-se grande amigo do poeta Mário Oswald de Andrade. Entre o cubismo e o expressionismo, foi um pintor de várias correntes artísticas inovadoras. Di Cavalcanti faleceu na sua cidade natal, a 26 de Outubro de 1976.
Poet'anarquista
Di Cavalcanti
Pintor Brasileiro

«Auto-Retrato»
Di Cavalcanti
BIOGRAFIA

O pintor Emiliano Di Cavalcanti nasceu em 6 de setembro de 1897. Naquela época, o panorama das artes plásticas no Brasil era bastante desolador: a pouca informação, conjugada ao tradicionalismo conservador das elites vigentes deixavam o cenário da pintura a depender ainda de ecos das já ultrapassadas correntes artísticas europeias.

Nesse contexto, tornaram-se muito importantes as exposições de Lasar Segall, em 1913, e de Anita Malfatti, em 1917, esta duramente criticada. Esses dois episódios fazem parte da história de um movimento em direcção às correntes modernistas europeias, que iria culminar na Semana de Arte Moderna de 1922. Di Cavalcanti já era um artista de talento bastante reconhecido nessa época, e a sua actuação em 1922 foi essencial: o artista foi um dos idealizadores da Semana de Arte Moderna e uma referência importantíssima para todo o grupo modernista e, desde então, para a história das artes plásticas no Brasil. 

Di Cavalcanti era um intelectual muito bem informado sobre as vanguardas modernistas do seu tempo, interessado não só por artes plásticas, mas por outras áreas também. Por isso mesmo, em 1921, o artista fora convidado a ilustrar o livro «Balada do Cárcere de Reading», de Oscar Wilde, um dos mais significativos escritores contemporâneos. Em 1923, Di Cavalcanti realiza viagem a Paris, frequentando o ambiente intelectual e boémio da época e convivendo com Picasso e Braque, entre outros, numa relação de admiração mútua. Sua experiência do contacto com o cubismo, expressionismo e outras correntes artísticas inovadoras, conjugadas à consciência da sua posição de artista brasileiro, concorreram para aumentar a sua convicção no propósito de ousar e destruir velhas barreiras, colocando a arte brasileira em compasso com o que acontecia no mundo. Di Cavalcanti sabia estar no caminho certo esteticamente e a viagem a Paris só reforçou as suas certezas. Entretanto, o ambiente do pintor não era o dos boulevares de Paris: Di Cavalcanti estava impregnado dos trópicos, de uma atmosfera sensual e quente.

À sua ousadia estética e perícia técnica, marcada pela definição dos volumes, pela riqueza das cores, pela luminosidade, vem somar-se a exploração de temas ligados ao seu quotidiano, que ele percebia com vitalidade e entusiasmo. A profunda inclinação aos prazeres da carne e a vida noctívaga influenciaram sobremaneira sua obra: o Brasil das telas de Di Cavalcanti é carregado de lirismo, revelando símbolos de uma brasilidade personificada em mulatas que observam a vida passar, moças sensuais, foliões e pescadores. A sensualidade é imanente à obra do pintor e os prostíbulos são uma de suas marcas temáticas, assim como o carnaval e a festa, como se o quotidiano fosse um permanente deleitar-se. A originalidade de uma cultura constituída por um caldo de referências indígenas, europeias e africanas, de forma contraditória e única, transparece nas suas telas através de uma luminosidade ímpar. 

A pintura de Di Cavalcanti representa toda uma imagem do país no mundo afora, ressaltando a sua exuberância natural e humana: é indiscutivelmente figura chave da arte brasileira. Todo o seu entendimento tem passagem obrigatória por Di Cavalcanti.
Fonte: PinturaBrasileira.com
«Cinco Moças de Guaratinguetá»
Di Cavalcanti

«Colon»
Di Cavalcanti

«Pierrot, Arlequim e Colombina»
Di Cavalcanti

«Samba»
Di Cavalcanti

«Mulheres de Pescadores»
Di Cavalcanti

«Pierrete»
Di Cavalcanti

«Retrato Lateral de Berta Singerman»
Di Cavalcanti

«CORRENTE INOVADORA BRASILEIRA»

DI CAVALCANTI

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

JOE HILL - «Pastel Celestial»

Poet'anarquista

terça-feira, 25 de outubro de 2011

AGENDA 21

Agenda 21 - Sessão Pública
Auditório Câmara Municipal de Alandroal

Município de Alandroal Aprofunda e Discute Diagnóstico do Concelho com a População Local no Âmbito da Elaboração da Agenda 21 Local

A Agenda 21 Local é um instrumento privilegiado de proximidade aos problemas dos cidadãos (sociais, culturais, económicos e ambientais) ao mesmo tempo que procura chegar a consensos para a resolução dos mesmos. É, por isso, um processo participativo e dinâmico que procura englobar todos os sectores da sociedade civil.

Este trabalho foi iniciado pelo Município de Alandroal este ano e, neste momento, estão concluídos os trabalhos da primeira fase que consistiram na realização do diagnóstico com a identificação dos principais problemas, potencialidades e oportunidades de desenvolvimento do concelho de Alandroal.

Com o objectivo de aprofundar este trabalho têm sido aplicados inquéritos à população por todo o concelho no sentido de auscultar os problemas do seu dia-a-dia e apontar possíveis soluções. Está igualmente prevista a realização de uma sessão pública no dia 25 de Outubro pelas 20H30, no auditório da Câmara Municipal de Alandroal, para ouvir e discutir os contributos dos presentes. Todos são convidados a participar e a envolver-se neste processo de construção de um plano de acção para o desenvolvimento sustentado do concelho.

Após o tratamento dos inquéritos estão já agendadas sessões de apresentação em cada uma das seis freguesias do concelho, prevendo-se a conclusão de todo este trabalho nos primeiros meses do ano de 2012.

Participe e colabore connosco na construção de um concelho com mais e melhor qualidade de vida, melhor ambiente e uma sociedade mais justa, saudável e desenvolvida!
Fonte: gabinete imprensa/cmalandroal

MÚSICAS DO MUNDO

A PALAVRA É UMA ARMA

A nossa voz, a luta p'la liberdade,
Um poema, palavra que não oprime...
Solidários unidos em sã fraternidade
Nesta causa quão preciosa e sublime!


Matias José


E as músicas de hoje são...
(Escolhas musicais de Orson W. C.)


ZECA AFONSO - «Venham Mais Cinco»

Poet'anarquista


JOAN BAEZ - «Grândola, Vila Morena»

Poet'anarquista


JOAN BAEZ - «Don't Cry For Me Argentina»

Poet'anarquista


JOAN BAEZ - «Guantanamera»

Poet'anarquista


JOAN BAEZ - «La Llorona»

Poet'anarquista


VIOLETA PARRA - «Gracias a la Vida»

Poet'anarquista


JOAN BAEZ E MERCEDES SOSA - «Gracias a la Vida»

Poet'anarquista


JOAN BAEZ - «Joe Hill»

Poet'anarquista


MERCEDES SOSA - «Como la Cigarra»

Poet'anarquista


ZECA AFONSO - «Vampiros»

Poet'anarquista

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

POESIA - MATIAS JOSÉ

«O Outro Eu»
JPGalhardas

O OUTRO EU

Alma que sentes
Estás inquieta.
E nesse sentir
Há um porvir...
Logo a amar,
Sempre a sorrir
Em outro lugar!

Matias José

PINTURA - CHAVANNES

O pintor francês Pierre Cecile Puvis de Chavannes nasceu em Lion, a 14 de Dezembro de 1824. Ligado à corrente impressionista da época, foi considerado um dos principais inspiradores da pintura moderna. Chavannes faleceu em Paris, a 24 de Outubro de 1898.
Poet'anarquista
Pierre Cecile Puvis de Chavannes
Pintor Francês

«Auto-Retrato»
Chavannes
BREVE BIOGRAFIA

Pierre Cecile Puvis de Chavannes, pintor francês, nasceu a 14 de Dezembro de 1824 em Lion. 

Fez os seus estudos em Paris com os pintores Eugène Delacroix e Thomas Couture. 

No Salão de 1861 expôs «Guerra» e «Paz» (Museu de Amiens), dois murais com os quais alcançou notoriedade. 

Criou um novo estilo na arte plástica, cargado de poesia, e, ao mesmo tempo, baseado na tradição. 

Foi igualmente autor de grandes murais para edifícios públicos. 

Entre os seus quadros destacam-se «O Bosque Sagrado (1887, Art Institute, Chicago) e «As musas Inspiradoras Aclamando o Génio Mensageiro da Luz» (1894-1898, Biblioteca Pública de Boston, Chicago). 

Foi considerado como um dos principais inspiradores da pintura moderna. 

Faleceu a 24 de Outubro de 1898, em París.
Fonte: Buscabiografias
«Bombeiros na Aldeia»
Chavannes

«Concórdia»
Chavannes

«O Sono»
Chavannes

«Guerra Bellum»
Chavannes

«Marselha Porta para o Oriente»
Chavannes

«O Pobre Pescador»
Chavannes

«O Filho Pródigo»
Chavannes

«DO IMPRESSIONISMO AO SIMBOLISMO»
CHAVANNES

CARTOON versus QUADRAS

Nunca Digas Desta Água Não Beberei
HenriCartoon

«NUNCA DIGAS DESTA ÁGUA NÃO BEBEREI»

Pior do que estou pouco provável (?)
A partir de agora é sempre a subir…
Há muito tratado como descartável,
Espero melhor tempo que há-de vir (?)

Previsões meteorológicas pra concluir:
Chuva, granizo e vento desfavorável…
Num mar de impostos vou submergir
Com agitação marítima muito instável!

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

SÉRGIO GODINHO - «Espalhem a Notícia»

Poet'anarquista

domingo, 23 de outubro de 2011

POESIA - MATIAS JOSÉ

«Sonho»
Picasso

DESPERTAR

Acordo de um sonho…
Um sono profundo
Com traços e cores
Coberto de flores,
Um Anjo no mundo!

Se puderes…
Pinta mesmo tudo!!    
                                                                                     
Matias José

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

JAQUES BREL - «Amsterdam»

Poet'anarquista

PINTURA - JÚLIO RESENDE

O pintor português Júlio Martins Resende da Silva Dias, conhecido como Júlio Resende, nasceu no Porto a 23 de Outubro de 1917. Discípulo de Dórdio Gomes, expôs pela primeira vez no ano de 1944 na exposição dos «Independentes». Sendo um expressionista, assimilou também algum estilo cubista, mas a sua obra destaca-se essencialmente pelo expressionismo lírico. Pode considerar-se que foi um pintor de transição entre o figurativo e o abstracto. Entre outros prémios na sua carreira, foi agraciado com o honroso «Nacional de Pintura da Academia de Belas-Artes». Júlio Resende faleceu em Valbom, Gondomar, a 21 de Setembro de 2011 com 93 anos de idade.
Poet'anarquista
Júlio Resende
 Pintor Português
BREVE BIOGRAFIA

Frequentou a Escola Superior de Belas-Artes do Porto. Iniciou sua actividade artística como ilustrador em semanários infantis e na imprensa diária.

Na década de 1940, as passagens por Madrid, onde tem contacto com as obras de Goya, e posteriormente por Paris, irão influenciar a sua obra de estilo expressionista.

Marcado também pelo cubismo de Picasso, os seus quadros apresentam uma pintura dinâmica, geométrica, que caminha progressivamente para a abstração.

Destaca-se também o carácter social de muitos dos seus quadros, nos quais situações do quotidiano popular são retratadas de forma geométrica e por vezes quase abstracta, como se pode observar nas pinturas do Alentejo realizadas entre 1950 e 1951 - «Regresso do Trabalho» e «Guardador de Cavalos», entre outras.

A mudança do Alentejo para o Porto irá produzir telas com uma pincelada mais solta e leve, mas nas quais a temática do trabalho e a vertente social mantêm-se como aspecto dominante.
Fonte: NetSaber
Painel de Azulejos (Detalhe)
Júlio Resende

«Porto de Leixões»
Júlio Resende

«Olhar de Pássaro»
Júlio Resende

«Cavalo»
Júlio Resende

«Homem a Cavalo»
Júlio Resende

«Alentejo»
Júlio Resende

«Sem Título»
Júlio Resende

«EXPRESSIONISMO»

JÚLIO RESENDE

sábado, 22 de outubro de 2011

POESIA - MATIAS JOSÉ

Publica-se poema que abriu as portas a Matias José, pseudónimo de Carlos Camões Galhardas (assina igualmente com o pseudónimo POETA em quadras de crítica social e política, humor e peripécias do quotidiano), na revista internacional multicultural da Roménia editada em três línguas, «Horizonte Literário Contemporâneo». Eis pois, o poema «Última Poesia?...», que deu origem a Carlos Camões Galhardas ser contactado pela revista romena para publicação da sua escrita poética.
Poet'anarquista
«A Ilha dos Mortos»
Bocklin

«ÚLTIMA POESIA?...»

Se eu não escrever mais nenhuma poesia
Fica aqui uma última e derradeira homenagem,
A todos os poetas do mundo na sua viagem
Pelas palavras autênticas que cada um escrevia!

Depois sigo o meu caminho na noite estrelada
Com a esperança, enfim... de ter alguma calma,
Já não estarei quando chegar a madrugada...
Para onde será que vai descansar a alma?

Talvez encontre o caminho dos poetas mortos
Ou outro qualquer lugar onde me abrigar;
Eu que no mar atraquei em tantos portos,
Porque não hei-de mais uma vez navegar?

Última poesia?... será mesmo que vou escrever
Neste poema toda a magia das frases escritas?
Num golpe de génio deixar a escrita acontecer,
Escrevendo assim, quanto penses e sintas!

Matias José

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(Escolha musical da blogosfera)

ANA MOURA - «Os Meus Olhos»

Poet'anarquista

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

«CONTOS DO NASCER DA TERRA»

Mia Couto
Escritor Moçambicano

XXXIV CONTO - «O fintabolista»

«Futebolista Azul»
Gilmar Fraga

O FINTABOLISTA

(“Ninguém pode imaginar a pequenez da minha cidadezinha. Lá, porém, há gente
que me dá os bons-dias-”)
Sempre onde chego é um lugar. Mas abrigo maior não encontrei senão nas paragens da memória. É lá que reside minha cidadezinha natal, que se acende devagarinhosa, como barco saindo de um lodoso escuro.
Esse lugar se senta em minha meninice como se o único território fosse o tempo. Esse outro tempo escorria em obediência a secretos mandos de preguiça. Os acontecimentos do mundo ali aportavam sempre tarde, bem depois de atravessarem distancias tais que se desbotava a realidade que lhes tinha ditado origem.
As notícias da Europa nos chegavam como tábuas de navios naufragados para além de extensas neblinas. Essas novidades desembarcavam húmidas em nossas mãos, moldáveis à nossa ideia. O tamanho e gravidade das acontecências éramos nós que ditávamos. Assim destrocado, o mundo parecia um brinquedo.
Engigantecidos ficámos foi quando o nosso patrício Eusébio fintou o universo até penetrar nos relvados no Campeonato Mundial. Wembley e Maracanã passaram a estadiozitos no bairro da nossa infância. O nosso pé sonhava em chuteiras e cada chuto disputava cabeçalhos de jornais. De noite nos desenhávamos em figura dos livrinhos de cromos.
Nesse tempo, a mais mundial das guerras era a que opunha o meu bairro aos restantes bairros da Beira. No centro desse conflito estava o campeonato de futebol em que assanhávamos soco e batota. Ali estava a nossa honra, partíamos de casa como fazem os guerreiros ao despedirem-se das famílias.
Não que a futebolada fosse a única disputa. Passámos por anterior batalha – o basquetebol. Mas na bola ao cesto nós não estávamos tão bem aquilatados. Aquilo era modalidade de gente rica. Tanto estávamos desfasados que, em meio de decisiva batalha, o nosso pivô interrompeu a partida para perguntar ao árbitro se não podia encestar com a cabeça.
Faltavam-nos jogadores altos. O nosso mais alto era o Tony Candeeiro que era cardíaco - tinha pouca válvula para muito coração. A mais centimétrica corrida e já ele exibia um tom arroxeado semelhando a flor do nenúfar. Pedíamos uma pausa para o Tony reganhar a visão e ele, passados segundos, interrompia a ofegação para gemer um“continuemos!”.
E lá seguíamos, perdendo sempre. A única vez que ganhámos nem demos por isso. O esforço tinha sido tal que nem deitámos tento no resultado. Estavámos deitando fresco sobre o Tony quando os adversários nos vieram congratular. Nós retorquimos, surpresos:“Ganhámos?!!”
Desistidos da elitista modalidade, regressamos ao futebol, actividade mais a jeito da nossa condição. E foi então que me vi convertido num glorioso avançado de centro. Minha fama emergiu numa jogada confusa - todas as jogadas para mim eram confusas – quando um poderoso remate disparou a bola na minha direcção. Minha única reacção foi proteger os óculos, fechando os olhos e desviando a cabeça da trajectória.
Por instantes, deixei de ver o estádio. Senti a bola raspar-me o penteado. Sonhe depois que esse impensado reflexo tinha feito “anichar caprichosamente o esférico no fundo das redes adversárias”. Com estas palavras o meu feito se maiusculizou na história do meu bairro. No final do jogo fui conduzido em ombros, me aplicaram a vitalícia braçadeira de capitão. Com duvidoso mérito, ganhara o estatuto de comandar a minha equipa e a honra do meu bairro.
Acontecia, no entanto, que a minha equipa sofria de carência grave de rematadores. Passávamos o jogo fintando de um ao outro lado do campo sem nunca nos decidirmos a rematar. Ainda adoptámos a táctica de chutar alto para aproveitar a altura do nosso Tony Candeeiro mas ele, com sua falta de válvula, assim que saltava, perdia a visão.
“Falta-nos a concretização”, dizia o Senhor Herberto, nosso ilustre treinador, um goês cinquentão que suspeitávamos nunca ter sequer assistido a um partida de futebol. Queixava-se assim: “vocês só fintam, não rematam”. E suspirava: “somos uma equipa de fintabolistas”.
Entre esforçados empates e involuntárias vitórias lá conseguimos chegar à finalíssima do campeonato inter-bairros. O Senhor Herberto que estava sempre calado trouxe então a solução - que tinha ouvido falar que, na vila de Marromeu, havia um jovem dotado de poderosíssimo remate. De tal modo, que era conhecido pelo “Chimbo de Marromeu”. Com seu vertiginoso pontapé o moço já tinha derrubado postes e árvores e só de mencionar o seu nome os guarda-redes eram acometidos de terrores imobilizantes.
A proposta era contratar o “Chimbo, pagando-lhe para que ele actuasse como avançado da nossa equipa. A ideia foi como pedra em charco. Enviou-se logo mensagem para o mercenário rematador. A resposta veio célere: “Chego no próprio dia da grande final. Eis o meu preço - 150 escudos. Pagos, claro, antes do encontro.”
Exultámos. O dinheiro era uma fortuna, mas nós cobriríamos a parada roubando afincandamente as carteiras dos nossos velhos. O optimismo era tal que deixámos de treinar. O treinador disse que a imobilidade era boa conselheira e os treinos só serviam para esfolar canela e gastar sapatilha.
Na tarde da finalíssima o estádio estava repleto. Até as miúdas lá estavam, com seus risos e segredinhos. Já nos preparávamos para entrar em campo e nem sombra do famoso “Chimbo”. Marromeu era longe, teria ele desconseguido apanhar a carreira?
Mas eis que, no derradeiro instante, surge garboso e portentoso o nosso avançado vindo directamente das savanas de Marromeu. Vê-lo entrar em campo foi como um bálsamo para a nossa angústia. Ali estava ele, fardado diferente da nossa equipa, camisete azul-clara com estrelas prateadas que faiscavam ao fulgor do sol. Penteado até à risca, o nosso precioso reforço entrou em campo com aqueles saltinhos que só os grandes profissionais usam para aquecer o próprio corpo e o animo da multidão. O mais espantoso eram as pernas, cilindróides, tão grossas em baixo como em cima. O moço nem deu as confianças. Sem sequer nos olhar, continuando a saltitar, cochichou-nos:
- “O dinheiro, já têm?”
Herberto respondeu que já tinha colocado no lugar combinado. “E a táctica?”, perguntou o contratado, sempre aos pulinhos. A táctica herbertiana era a mais simples: “passar o esférico imediatamente ao Chimbo de Marromou”. E lá começou o jogo.
Na primeira jogada, a bola vem a meus pés e eu, ofuscado pelo sol, levanto a perna ao acaso. A bola toca no meu joelho, ganha efeito, passa por cima de dois adversários, e vai na direcção de Tony. Este salta e, obviamente, sem visão, cabeceia o esférico com a nuca. Atónitos com a arquitectura destas trocas estavam o adversário, o público e, mais que todos, nós próprios. A bola volta a ficar comigo e a nossa claque urra, frenética:
- “Passa ao Chimbo, passa ao Chimbo!”
Eu fiz a bola rolar para os pés do nosso salvador. Ele não rematou logo. Deixou a bola parar e, com estilo de exímio executante, deu uns passinhos para trás para ganhar balanço. Um silêncio se instalou em todo o campo como se o universo inteiro se atentasse no virtuosismo do futebolista. O Chimbo, qual búfalo, deflagrou um tropel em direcção à bola. O barulho dos seus passos e a poeira que se levantou à sua passagem foram tais que eu fechei os olhos. Esperava escutar o vigoroso bater da bola. Mas o tudo que ouvi foi um tímido “trrrrr”, igual a um rasgão de roupa, uma costura se desfazendo. Quando reabri os olhos ainda vi a perna gorda do Chimbo chutando o ar e uma suspeitosa mancha castanha lhe surgindo nos calções. O mercenário rematara em falso, com impulso tal, que se borrara em vergonhoso descuido.
O que se passou em seguida foi o maior embaraço - o glorioso rematador saindo em soluços, rodeado por nós que parecíamos nem dar pelos odores castanhos que lhe escorriam pelas pernas. Enquanto ele se retirava ainda um de nós balbuciou:
- “Eh pá... e o nosso dinheiro?”
Contudo, já o mercenário escapava pelos caniços que rodeavam o estádio. Me recordo ainda de ver rebrilhar, entre as densas folhagens, as estrelas prateadas do seu espantoso fardamento. Com o poente daquelas estrelas se extinguia a minha ilusão de ser campeão mundial de futebol.

Mia Couto
Até prá semana...
Poet'anarquista