quarta-feira, 21 de agosto de 2013

4º E ÚLTIMO CAPÍTULO - «UM CONTO», POR AMADEUS SARABAND

Chega hoje ao (fim?...) a história «Um Conto», por Amadeus Saraband. O personagem e figura central da obra, Rufino Potra, alentejano de nascimento e que um dia partiu para terras de África, mais precisamente para a cidade de Luanda, em Angola, regressa definitivamente à sua terra natal. Para trás fica um passado de venturas e desventuras, encontros e desencontros, e as raízes criadas no saudoso continente africano; traz consigo o seu grande amor, Ana Milongo, e mais tarde se irão juntar seus filhos gémeos João e Jacinto, as gémeas Rosalía e Evita, e os respectivos netos. A família, agora bem mais numerosa, estava finalmente reunida na pacata vila alentejana, berço natal de Rufino José Potra.
Poet'anarquista

Ler aqui:

«UM CONTO», por Amadeus Saraband
  
4º e último capítulo
Região onde nasceu Rufino Potra
Por JPGalhardas

Passado que foi um ano, quando os desgostos, as raivas e as desilusões se foram atenuando, quando se impôs a necessidade da sobrevivência económica e a saúde mental estava por um fio, foi a altura de ultrapassar tudo o que estava para trás e prosseguir. E esse caminho foi encontrado por Rufino e Ana Milongo na região em que ele tinha nascido.

E naquela rua da Vila, muito perto do Jardim das Meninas, junto à casa em que Rufino tinha nascido, na vizinhança do castelo medieval, numa região muito famosa pela sua cozinha, surgiu um restaurante que fazia a diferença.

O Vizinho Castelo Medieval 
Por JPGalhardas

Claro que as açordas e as migas, as sopas de cação, os cozidos de grão, eram os pratos fortes da casa. Uma ou outra caldeta, também brilhava na ementa. Contudo, volta e meia, aparecia um cliente, por vezes vindo de longe  –  também retornado  –  que pedia com grande à vontade:

 – « Oh comadre Ana, que mal pergunte, o compadre Rufino que diga quando é que comemos a muamba de galinha ! » 

Era o Rufino na cozinha, e a Ana Milongo às mesas, aviando a freguesia com a ligeireza que o reumático permitia.

Era o Alentejo a absorver mais um caldinho de cultura culinária, com gente que vinha de fora, como, aliás, sempre tinha acontecido ao longo dos séculos.

E foi assim que aquele casal de velhos, começou a ultrapassar o problema da sobrevivência económica.

Mas faltava alguma coisa naquelas vidas!

Era a questão dos afectos a mordê-los por dentro.

Os Afectos
Por JPGalhardas

As notícias dos filhos eram muito raras, e quando ainda escasseavam mais, instalava-se naquela casa um clima de tal tristeza que muito dificilmente ultrapassavam.

Foi por volta de 1985 que os filhos começaram a aparecer.

O primeiro foi o Jacinto. Quando deixou o governo angolano, passou a integrar a embaixada de Angola na capital espanhola e um dia apareceu no restaurante acompanhado da mulher e dos filhos. Não cabem nesta narrativa as manifestações de alegria que se seguiram, porque demorariam muito tempo a descrever, mas bem podem imaginar como foram, sobretudo por parte da avó.

Depois foram as gémeas, Rosalía e Eva. Apareceram juntas e, como era habitual, à bulha uma com a outra. Vinham para ficar.

Rosalía e Evita Discutindo
JPGalhardas

Ambas traziam filhos, mas vinham sem marido. Nem nunca se soube ao certo se alguma vez o tinham tido. Nunca lhes foram pedidas explicações sobre esse assunto, nem elas as deram.

Segundo disseram, sobretudo a Eva, a sua contribuição para a independência de Angola, tinha chegado ao fim.  Agora, competia às novas gerações prosseguir o caminho que tinha sido iniciado há mais de vinte anos atrás. E embora continuassem fiéis aos princípios que as tinham norteado, não lhes agradava falar muito sobre o assunto. Ainda, muito em jeito de desabafo, a Eva sempre foi dizendo que não lhe agradava o rumo que o governo angolano estava a dar ao país.

Vinham para trabalhar e ficar perto dos pais. Elas, e os filhos.

Mas foi o Jacinto quem trouxe a melhor notícia. E fora para dar essa novidade que tinha vindo ter com os pais tão rapidamente, pois ainda nem sequer tinha tido tempo de se instalar em Madrid.

O mano João estava vivo; estava em Moçambique; casado e com filhos.

Apenas tomara conhecimento disso poucos dias antes.

João e Jacinto jogando Xadrez
Por JPGalhardas

Depois da tentativa do chamado levantamento “Nitista”, contra o governo de Angola, em meados de 1977, e em que o mano João estivera profundamente envolvido, fugira para Cuba e, mais tarde, entrara clandestinamente em Moçambique. Aí se mantivera numa semi-clandestinidade, constituíra família, e ele, Jacinto, estava agora a tratar do assunto a fim de o trazer para Portugal. Deixara a política e trabalhava na cidade da Beira.

Eva  –  Evita  –  como era tratada em família, foi trabalhar para Évora, deixando os filhos, dois magníficos rapazes, cor de chocolate, na companhia dos avós, com o fim de prosseguirem os estudos secundários que ainda tinham iniciado em Angola.

Rosalía iria trabalhar com o irmão Jacinto na embaixada de Angola, em Madrid. E deixaria as duas filhas com os avós, também para estudarem no colégio local.

Foi então que de Moçambique chegou o João.

Trazia com ele a mulher, uma mulata alta e bonita. E as duas filhas, que eram a cara chapada da avó Ana.

Nessa altura Rufino Potra e Ana Milongo, realizaram o seu maior sonho: Juntar à mesa todos os filhos e netos.

E aquela vila alentejana, nesse verão de meados da década de oitenta, ficou marcada por gente que, vinda doutras paragens, fez daquela terra o seu ponto de encontro.

Monte do Meio, perto da Vila Alentejana
Por JPGallhardas

A planície se encarregaria de os integrar, tal como vem acontecendo há milénios, com todos os que aqui chegaram.
FIM

Amadeus Saraband

PS- Os meus agradecimentos ao escritor Amadeus Saraband pela partilha de «Um Conto».
Poet'anarquista

2 comentários:

Anónimo disse...

Estive hoje a ler a história completa e devo dizer que aprecio esta forma de contar. Escrita simples, acessível ao mais comum dos leitores e bem fluída; ao contrário do que por vezes se tenta ler por aí, ou não se chega de todo a ler em virtude da sua complexidade. Aproveito também para elogiar o bom gosto nas ilustrações que acompanham a obra, e a forma como ela foi apresentada. Espero bem que haja mais matéria para publicar brevemente.

Agradecido

Anónimo disse...


EXCELENTE CONTO !

BELÍSSIMAS E ADEQUADAS ILUSTRAÇÕES !

QUE VENHAM MAIS...


Muito Grata

Uma Alandroalense (L...)