domingo, 18 de agosto de 2013

1º CAPÍTULO - «UM CONTO», POR AMADEUS SARABAND

Só uma breve nota: «a obra de ficção», como o próprio autor refere na sua introdução e de que daremos conta aos leitores, vai ser dividida em «quatro capítulos», com publicação diária no Poet'anarquista. 

Acerca de Amadeus Saraband,/ pouco poderei acrescentar.../ a escrita soa-me familiar,/ não sei ao certo d' onde!?... 

Sobre «Um Conto»: apenas dizer que o personagem Rufino Potra se assemelha um pouco a um personagem da vida real, que minha mãe de quando em vez falava. Era o carpinteiro de serviço lá de casa, como tinha por hábito dizer-se, sempre chamado para fazer ou consertar fosse o que fosse, trabalhando a madeira como poucos. Minha mãe adorava observá-lo e ouvir as suas histórias, dizia que se fartava de rir e que ele tinha um jeito especial para contar todas as peripécias, dando grande ênfase aos pequenos pormenores. Um certo dia, meados dos anos sessenta, o carpinteiro foi chamado para mais uma vez acrescentar o parque de madeira. O parque já tinha aprisionado cinco irmãos, sem nenhum deles alguma vez ter escapado, que é como quem diz, dar o salto para o outro lado, o lado da liberdade. Mas com o sexto irmão as coisas mudaram de figura. Apanhou-lhe o jeito, e volta que não volta, lá estava ele do outro lado a fazer das suas. Parecia serem precisos muitos olhos para controlar todos os movimentos do petiz, muito desinquieto por sinal. 

Concluindo: o carpinteiro tinha sido chamado novamente para consertar o velho parque de família. Terminado o acrescente, despediu-se com um sorriso para minha mãe, e disse-lhe: «menina, quantos dias vai estar sem o saltar desta vez?...». 

Ainda o carpinteiro não tinha chegado à porta da rua, já minha mãe gritava com todas as suas forças: «ele já saltou, ele já saltou! Volte para acrescentar!...». 
Poet'anarquista

«UM CONTO», por Amadeus Saraband 

1º capítulo

«Esta obra é uma ficção. Qualquer semelhança com a realidade, é pura coincidência.»

Era uma vez um homem ...
Alentejano por nascimento, um dia partiu para África, e por lá fez a sua vida.
Anos mais tarde, muitos anos mais tarde, voltou à sua terra.
Rufino José Potra, assim se chamava.
Esta ... é a sua história ...
 Rufino José Potra
Por JPGalhardas

O Rufino, nasceu exactamente um mês depois da morte do pai. 

Corria o ano de 1922.

Aquela que viria a ser sua mãe, mulher bonita e trigueira, muito desembaraçada de modos, perdera-se de amores por um amolador de facas e tesouras, também exímio a consertar guarda-chuvas e a rebitar panelas, tachos e alguidares. Homem sem pouso regular, amigo de copos e farras, com um certo ar boémio. Na carroça em que transportava a bigorna, o engenho da roda de esmeril e as restantes ferramentas do ofício, e que simultaneamente lhe servia de casa, também transportava uma guitarra. E todas as tabernas eram apropriadas para exercitar os seus dons de fadista. Todos os meses aparecia pelos largos e ruas da Vila, anunciando a sua presença com os melodiosos gorjeios da gaita que simbolizava a profissão.

O romance foi arrebatado e teve um desenlace que era previsível: Poucos meses depois já a rapariga tinha a barriga a crescer. E outros tantos meses mais tarde, chegou a notícia de que o amolador de facas tinha sido mortalmente anavalhado, numa briga de barraca, durante as Festas dos Capuchos.
«O Romance»
Por JPGalhardas

Assim, aos oito meses de gravidez, ficou a saber que o filho ia nascer órfão de pai.

Condoídos, os patrões, não a devolveram à casa paterna e deixaram passar o tempo até ao nascimento da criança.

Todos ganharam com essa decisão: a Rosalía Potra, assim se chamava a rapariga, porque assegurou uma casa farta para o nascimento do filho; e os patrões, porque sabiam que não era fácil arranjar outra criada com as condições de honestidade e trabalho que aquela lhes garantia.
Pela parte dos patrões, nunca houve grande preocupação com o desgosto da criada. Até lhes pareceu que tinha sido uma sorte a Rosalía ver-se livre do amolador de facas, pois era sabido o feitio quezilento e brigão do rapaz, sempre disposto a largar o trabalho para se meter na fadistagem. E constantemente a vadiar por tudo quanto era feira e festa no Alentejo.

Quanto a Rosalía, bastará dizer que a partir dessa altura apenas teve como preocupação o bem estar do filho. Este, nasceu no palacete dos patrões da mãe, uma estalagem que se situava, ali mesmo, na Praça da República, e aí viveu até à morte desta, também ele como criado da casa. Primeiro, como moço de mandados, e mais tarde como cozinheiro. Excelente cozinheiro, para sermos precisos no que dizemos.

E foi já depois da morte prematura da mãe, uma santa e esforçada mulher, como todos reconheciam, e a quem uma estranha doença consumiu, que chegou a carta de chamada, enviada de Angola, por um tio, irmão da falecida.

Esse tio, que ele não conhecia pessoalmente, pois tinha sido deportado para essa colónia, por motivos políticos, muitos anos antes do seu nascimento, estava estabelecido em Luanda com uma empresa que era, simultaneamente, armazém, padaria, mercearia, drogaria, restaurante e pensão. «Casa Pero Rodrigues», assim se chamava o estabelecimento.

«Viagem de Barco para Luanda»
Por JPGalhardas

Foi nessa cidade, Luanda, que já fez a entrada do ano de 1945. Tinha chegado uns dias antes, depois duma longa viagem de barco, com escalas nas ilhas de Cabo Verde e São Tomé.

Amadeus Saraband

(continua amanhã...)
Poet'anarquista

2 comentários:

Anónimo disse...


Relativamente ao "PETIZ" aqui citado
por Poet'Anarquista, parece-me que adivinhei de quem se trata...

Com amizade,

(L...)

Camões disse...

Também me parece que adivinhou, cara conterrânea...

Minha mãe contava que quando estavam na cozinha a preparar os alimentos, o petiz não dava descanso. Dizia ela serem precisos muitos olhos para o vigiarem, e por vezes não chegavam.

Então resolviam trancar o desinquieto na despensa, com uma saca de batatas encostada à porta. Sem resultados práticos! A criança além de muito mexida, tinha uma força fora do comum para a sua idade. A saca de batatas era afastada e o petiz saía com um sorriso vitorioso no olhar.

Em virtude dessas traquinices e aceleramentos, causou alguns dissabores que lhe podiam ter custado a vida.

Mas como diz o ditado... «ao menino e ao borracho, põe Deus a mão por baixo.»

Tudo de bom...

Kabé