segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

OUTROS CONTOS

«A Colher», por Samuel Beckett.

22 de Dezembro de 1989, morre o escritor e dramaturgo irlandês Samuel Beckett, aos 86 anos, Prémio Nobel da Literatura.
Poet'anarquista
«A Colher»
Colher Cerimonial/ Civilização DAN 
Libéria - The Art of Africa

366- «A COLHER»

Excerto

Falar de gerações exige, então, o breve esclarecimento: trata-se da geração que partilha e acompanha a minha vida de fora ou a minha vida de dentro? É que tendo duas vidas tenho assim também duas possibilidades de me ligar a outras pessoas humanas, supondo aqui que o termo de geração se refere exclusivamente aos bípedes com biblioteca e tecnologia, e não alude aos animais com os seus excrementos ou às plantas insensatas e verdes. Se o cão da vizinha não faz parte da minha geração e a vizinha sim, pois bem, eis um problema que também poderia ser pensado.

Mas o que quero dizer é isto: há pessoas (fiquemos nelas) que pertencem à minha geração, considerando a vida de fora, e pessoas - outras pessoas - que pertencem à minha geração, considerando a vida de dentro.

Os meus contemporâneos da vida que existe um milímetro acima da pele são aqueles, então, com quem posso partilhar acções; no limite: o meu contemporâneo desta vida 1, é aquele que eu posso assassinar, com um tiro bem colocado, ou amar - fisicamente falando (com um coração bem colocado, como diriam os românticos para manter a simetria da frase, ou com a pele viril e erecta como diriam os de gosto mais simples).

Os meus contemporâneos da vida de dentro, esses, são aqueles cujas ideias ou imaginações se aproximam das minhas ideias ou imaginações. Estes contemporâneos da minha vida 2 podem não ser contemporâneos da minha vida 1 e, neste caso, eu não os posso matar, nem despir ou abraçar - fisicamente falando, sempre.

Samuel Beckett

1 comentário:

Anónimo disse...

Este excerto de Beckett é soberbo!