terça-feira, 8 de março de 2011

POESIA - JOÃO DE DEUS

O poeta lírico João de Deus de Nogueira Ramos, conhecido como João de Deus, nasceu em São Bartolomeu de Messines, a 8 de Março de 1830. Considerado na época como o primeiro poeta lírico do seu tempo e gozando de extrema popularidade, quase transformada em culto, foi homenageado por diversas vezes ao longo da sua carreira de escritor. João de Deus faleceu em Lisboa no dia 11 de Janeiro de 1896, e está sepultado no Panteão Nacional. Eis pois... «O Poeta do Amor»!
Poet'anarquista
João de Deus
Poeta Português
BIOGRAFIA

Estudou Direito na Universidade de Coimbra entre 1849 e 1859. Neste período conviveu com notáveis homens de letras, entre os quais se destacam Teófilo Braga e Antero de Quental. Aí desenvolve a sua veia poética, dedicada sobretudo à Mulher, a Deus e à Natureza mas que inclui também registos satíricos, típicos da vida académica coimbrã. Pintor, tocador de viola e cantador de modas populares, amante da vida boémia, vagueou por Coimbra em busca da sua vocação.

Depois de uma actividade profissional sem relevo como advogado e jornalista foi eleito deputado pelo círculo algarvio de Silves em 1869, mantendo uma actividade dispersa e irregular como poeta de vários estilos, do lírico ao epigrama.

À época discutia-se ardentemente nas Cortes portuguesas se o Livro de Leitura deveria ser o poema épico "Os Lusíadas" de Luís de Camões (c. 1524-1580) ou o poema romântico "Dom Jaime" de Tomás Ribeiro (1831-1901), publicado em 1862. A ineficácia das duas soluções era comprovada pelo estado miserável da instrução elementar em Portugal, reservada aos filhos dos ricos e, com sorte, aos soldados e marinheiros que aprendiam a ler uns com os outros.

Entre os amantes das letras, houve quem procurasse alternativas melhores: o médico e escritor portuense Júlio Dinis (1839-1871), que partilhava as preocupações e interesses de João de Deus, pôs a heroína do seu livro "A Morgadinha dos Canaviais" (1867) a ensinar as crianças pobres a ler usando o Evangelho de São Lucas.

Numa abordagem pedagógica ao problema, um grupo de amigos de João de Deus e uma editora do Porto - que viria a falir - propôs-lhe escrever um método de leitura dedicado às crianças. Em 1876 foi publicada a Cartilha Maternal. 

O sucesso da Cartilha Maternal foi tão grande e tão rápido - mau grado algumas críticas de falta de fundamento científico - que em 1888 as Cortes a adoptaram como método oficial de leitura e João de Deus foi nomeado Comissário Geral do Ensino da Leitura. Os amigos de João de Deus, com destaque para Casimiro Freire, lançaram em 1882 a "Associação das Escolas Móveis pelo Método de João de Deus".

Em 1895, é organizada uma grande homenagem ao poeta à qual se associou o Rei D. Carlos, contrariamente à tradição portuguesa que só reconhece os seus grandes depois de mortos. Foi-lhe proposto um título nobiliárquico, que recusou. A Academia Real das Ciências proclamou-o Sócio de Honra. Em resposta à homenagem de estudantes de todo o país que se dirigiram a sua casa em grande cortejo, João de Deus assoma à varanda e declama de improviso:

«Estas honras e este culto
Bem se podiam prestar
A homens de grande vulto.
Mas a mim, poeta inculto,
Espontâneo, popular...
É deveras singular!»

Quando o seu filho João de Deus Ramos ingressa na Universidade de Coimbra, ao contrário dos hábitos de menoridade impostos aos caloiros, é-lhe reservada uma recepção apoteótica com capas pelo chão, tão-só por ser filho do poeta e pedagogo João de Deus.
Fonte: www.gomes-mota.nome.pt

A VIDA

Foi-se-me pouco a pouco amortecendo
a luz que nesta vida me guiava,
olhos fitos na qual até contava
ir os degraus do túmulo descendo.

Em se ela anuviando, em a não vendo,
já se me a luz de tudo anuviava;
despontava ela apenas, despontava
logo em minha alma a luz que ia perdendo.

Alma gémea da minha, e ingénua e pura
como os anjos do céu (se o não sonharam...)
quis mostrar-me que o bem bem pouco dura!

Não sei se me voou, se ma levaram;
nem saiba eu nunca a minha desventura
contar aos que inda em vida não choraram ...

João de Deus

AMIGO VELHO

(A Martins de Carvalho num dia dos seus anos)

Uma vez encontrámo-nos os dois
Nesse mar da política; depois,
Como diversa bússola nos guia,
Cada qual foi seu rumo: todavia,
Em certas almas nunca se oblitera
A afeição de um companheiro antigo:
Sou para vós por certo o que então era;
E eu, como então na minha primavera,
Abraço o venerando e velho amigo!

João de Deus

AVARENTO 

Puxando um avarento de um pataco 
Para pagar a tampa de um buraco 
Que tinha já nas abas do casaco, 
Levanta os olhos, vê o céu opaco, 
Revira-os fulo e dá com um macaco 
Defronte, numa loja de tabaco... 
Que lhe fazia muito mal ao caco! 

Diz ele então 
Na força da paixão: 
— Há casaco melhor que aquela pele? 
Trocava o meu casaco por aquele... 
E até a mim... por ele. 

Tinha razão,
Quanto a mim.
Quem não tem coração,
Quem não tem alma de satisfazer
As niquices da civilização,
Homem não deve ser;

Seja saguim,
Que escusa tanga, escusa langotim:
Vá para os matos,
Já não sofre tratos
A calçar botas, a comprar sapatos;
Viva nas tocas como os nossos ratos,
E coma cocos, que são mais baratos!

João de Deus

Sem comentários: