segunda-feira, 13 de outubro de 2014

OUTROS CONTOS

«Fracasso do Rotativismo», texto de Ramalho Ortigão. 


«Fracasso do Rotativismo»
Retrato de Ramalho Ortigão
(Columbano Bordalo Pinheiro)

295- «FRACASSO DO ROTATIVISMO»
(Últimas Farpas - 1911)

«O acordo de dois partidos, revezando-se sucessivamente no poder, dizendo-se um liberal e outro conservador, segundo o regime inglês, falhara inteiramente na sua reiterada aplicação prática. O jogo permanente dessa rotatividade representativa, com vinte anos de funcionamento automático, desgastara todas as engrenagens, boleara todos os ângulos, puíra todas as arestas, safara todos os cunhos que caracterizavam o sistema.

Quem eram os liberais que pela contribuição de novas ideias se propunham acelerar a energia propulsora do parlamentarismo no sentido do mais rápido progresso?

Quem eram os conservadores incumbidos de coordenar a marcha e de manobrar os travões do maquinismo?...

Ninguém o saberia dizer, porque nenhum dos dois partidos a si mesmo se distinguia do outro, a não ser pelo nome do respectivo chefe, politicamente diferenciado, quando muito, pela ênfase pessoal de mandar para a mesa o orçamento ou de pedir o copo de água aos contínuos.

Um facto sumamente grave preocupava, no entanto, a atenção dos que isoladamente contemplavam a integral concatenação dos acontecimentos.

Esse facto era a decomposição da sociedade, lentamente, surdamente, progressivamente contaminada pela mansa e sinuosa corrupção política.

Quantos sintomas inquietantes!

A indisciplina geral,

O progressivo rebaixamento dos caracteres,

A desqualificação do mérito,

O descomedimento das ambições,

O espírito de insubordinação,

A decadência mental da Imprensa,

A pusilanimidade da opinião,

O rareamento dos homens modelares,

O abastardamento das letras,

A anarquia da arte,

O desgosto do trabalho,

A irreligião,

E, finalmente,

A pavorosa inconsciência do povo.»

Ramalho Ortigão 

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