«A Noite e o Riso»
Romance de Nuno Bragança
970- «A NOITE E O RISO»
[Excertos]
[Excertos]
(I)
Criado embora entre hálitos de faisão, cedo me especializei na arte de estender
os braços. Dia após dia os mais laboriosos, cansativos forcejos projectavam
meus membros anteriores em-frentemente. E isto assim até que perdi as mãos de
vista.
Não que o meu sorriso fosse esgar, ou o meu gargalhar inexistente; mas uma certa palidez no semblante geral denunciava (ao que parece) más possibilidades. Foi nessa época que se pôs o problema de eu ser ou não envolvido a fundo nas malhas da F.R.I.P.M.S. (Fundação do Recrutamento Infantil Pró Movimento Selecta). Reunido o Conselho de Família, verificou-se (e registou-se em acta) a ausência do meu tio Augusto, que não pôde comparecer, ocupado, como estava, a violentar a filha menos vesga do jardineiro. Decidiu-se que eu não seria imediatamente recrutado: a debilidade era o meu forte. Foi-me oferecido um gato de peluche e, como nesse dia perfiz cinco anos, assim terminou a minha recuada infância.
(II)
Nascido nu dum sexo de mulher, raro é o homem que se encontrará antes que, de
novo assim vulnerável, descubra pistas de subir além do ponto de partida. Para,
renovado nessa escala, retomar a marcha e ir certeiramente à supercópula do
final dos tempos.
Pelo que devo pacientar. Deixar que a palavra escrita acabe
achando o orgasmo perfeito e infindável do rigor poético. Etapa: o reencontro
com a porta viva através da qual furei nos dois sentidos, direcção luz.
Que agora ainda me encontro hirsuto à força de engravatado à
força. Só a escrever alcançarei a mansidão de quem possui a terra.
(III)
Aos onze de Novembro de mil novecentos e trinta, a
companheira do funileiro ambulante Aufredo vira a cabeça no travesseiro pardo e
olha Aníble, vendedor à escala do País.
«Se a gente levasse a menina?»
Aníble levanta-se e acende um cigarro sem palavras. Começa a vestir-se lentamente.
«Aníble?»
Acaba de vestir-se e vai direito à porta, um silêncio
metalífero. A mulher salta nua e interpõe-se. O homem pega-a pelo pescoço e afasta-a:
«Amanhã às seis e meia, Cais Sodré. É pega ou larga.»
«Eu vou, já disse que vou. Homem. Pensei só...»
«Não tragas nada. Só o que tiveres no corpo. O resto» -
pausa e olhadela panorâmica – «o resto ele que o pendure nos cornos.»
A mulher da casa é finalmente a mãe de Aufredo. A Velha. Corrida a nora, o
território é seu, de lés-a-lés, manhã à noite. Sair para a Viela é sair d'A
Velha.
«Donde é que vens, galdéria?»
«Da rua, Senhora.»
«Às onze da noite, na rua?»
«A calçada não se derrete com o escuro.»
«Ordinária. Cabra filha de cabra.»
«E de cabrão, senhora.»
A ruiva ganfa o cabaz e grita para a esquerda:
«O chui.»
Vendedeiras engrenam, gestos rápidos treinados. Reunir o
material para pirarem. Ela permanece exactamente como estava, sentada na orla
do passeio. Come uma das bananas que há no seu cabaz.
«Luísa, olha o chui.»
«Quero vê-lo.»
O da municipal avança, tranquilidades de canhoneira em águas
imperiais.
«Estás aqui a fazer?»
«A comer.» Estendendo uma banana: «É servido?»
«Onde é que está a tua licença de venda?»
«Onde é que está a minha venda?»
O guarda aponta o cabaz.
«Isso? É o meu lanche. O doutor mandou-me comer à borda
d'água, diz que abre o apetite.»
O polícia move-se no pesadume de quem não pode com uma rata
no rabo. Repente, um salto para agatanhar. Luísa escapa-se entre mãos gordaças,
como um fumo. Ri.
«Querias? Fica-te com as bananas. Uma para cada colega. Para
o chefe, o cabaz enrolado. Sempre é mais grosso.»
Corpo magro encostado à chita velha do vestido, sem combinação. Agitar íntimo,
mesmo antes de romperem os primeiros pêlos, os secretos. Entranhas novas
apertando-se em vontades de morder, galgar tudo dum salto. Fúrias: odores d'A
Velha e do ácido na caixa do ambulante pai Aufredo, enovelado em aguardente; as
fomes variegadas. Luta tenaz entre a selvajaria eriçada e o desejo: agarrar e
ter em si o membro que lhe falta e a natureza deu de brinde a todos os rapazes,
mereçam-no ou não. Mas que uma mão ou um olhar falado tentem devassar-lhe o
retiramento, alto: e ele é responder apedrado e ele são uns reforços no
isolamento.
Depois, há os homens. Perseguem-na, sortidos, ainda
novos, uns, outros já no resvalo, catarosos. E todos passam mais rentes,
obstinados. A miúda do Aufredo: ninguém atirará navalhas ou polícias
contra quem lhe mexa. Andar na Viela é cada vez mais complicado.
Dentro da noite e frente a um portal, dois braços jorram
deste e caçam-na. Treva de vão de escada e uma de duas mãos cheirando a sêmeas
tenta amordaçá-la, enquanto a outra faz o resto: erguer a criança em peso e
atirá-la ao chão - «cá, bezerra» - ; arrancar-lhe as calças; um murro, que a
entontece o suficiente para ser largada enquanto o agressor desata as próprias
calças.
«Quando aquilo começa a tentar rasgá-la, a mão dela vai-lhe
ao encontro, defesa mas também curiosidade mais forte do que o medo, misturas
complicadas.
O tipo fila-lhe o pulso, e ela ancora os dedos nos
testículos do homem, prensando-lhos, um quase acaso. Mas ele grita e prega um
novo murro, que bate de raspão: assim a catraia ficou a saber que o apertão
doeu. Na viela aprendem-se depressa ancestrais sapiências no lutar: se o
adversário contra-ataca (diz esse manual) é porque o nosso ataque inquieta.
Antes que novo soco venha, junta as forças num apertamento estorcedor, a máxima
brutalidade ao seu alcance. O corpo que a mantinha fixe no lajedo sujo
arqueia-se num esforço de soltar-se. A rapariga deixa-o ir e salta-lhe por
cima, abre a porta num esticão que a devolve ao ar, intacta. Corre pela viela.
Ainda não emaranhada na aranheira gafa, o homem: chistes saprófilos, sebáceas
energias. E bagaceiro, o hálito.
Tarde ventada em que ela vende jogo aos automóveis de Cacilhas. Pega conversa
com um ardina de quinze anos, Sílvio. Percebe-o tímido e ri-se; dele, com ele,
por ambos. Nisto, um ardina adulto arranca para o Sílvio, razões que quer
travar de uns antecedentes, quezilar. Luísa, rasteirando o homem, abre espaço e
tempo à fuga na qual os dois seguem correndo ao longo comprido quebra-mar.
Achado um poiso arrecadado, estendem-se nele, a descansar.
O Sílvio apetece aos quinze anos de Luísa. Que avança o
braço, brusquidão de quem decide fazer coisa grossa. Enfia a mão no entre
calças velhas e corpo novo de rapaz. Cujo sexo não tarda a segurar, dedos
quilatadores, instintivamente delicados.
Chamar-lhe amores? Pois que outra coisa? Dois seres se interexperimentam na
própria passada de se autoexperimentar. Fingem saber completamente tudo. Antes
do primeiro, acontecido coito rente ás águas da vazante, ambos eram virgens. O
Sílvio excitado-incerto não deu por que varara donzelia. A Luísa tinha ocultado
a hemorragia, que a irritara como uma franqueira. Andava ela na procura da
independência, portanto em ascetismos no comportamento, autodisciplinar.
Aguentar sóis e frios de cara alegre.
O Sílvio é mais novo do que a rapariga: têm a mesma idade. E é manso nos humores. Luísa sente o à-vontade indispensável à bebida de paisagens importantes. O desajeitamento do rapaz: rápida, compreende-lhe o sentido oculto, o desconhecimento dele na prática daquilo que ambos vinham querendo devassar havia tempos. Tem arteirices de fingir saber empírico em quanto qualquer deles ignora. Isto desde o primeiro gesto genital; assim se vai alicerçando uma futura torre de injustiça. Assim passam tempos de investigar, em que ela (e ele, por tabela) explora em concretas carnes quanto sabia existir, de ouvido. Águas de sexo-em-sexo. E o par voga. Pelas correntes fortes sem idade, o grande rio no qual flutua o ser-se humano. Fá-lo como fragata rebocando o seu escaler imprescindível.
O corpo de Luísa é Luísa que se transforma em si. Toda
submersa em ira contra aqueles jejuns no instinto libertário, sente o
descravejar de alfinetadas múltiplas, sofridas dia a dia, por ser ela mesma e
naqueles locais (filha dos pais que tinha; e do bairro equimótico onde aprendera
as dores de acordar em carne viva todas as manhãs). Essa, a primeira
consequência do que encontra na privança duma relação com muitíssimos reflexos
sorridentes. E ela ignora que essa etapa vai ser galgueiro rápido ao longo dum
minúsculo trajecto, a ração de amor jovem aberto, que os fados vão
ceder-lhe por minutos. Enquanto Luísa pensa (sem pensar) que entra na vida,
leis implacáveis organizam dores, o Direito oculto, as vocações que do viver
conhecerão apenas as durezas de quanto o contradiz.
Na mesma prontidão com que o seu sexo acolhe o complemento,
a iniciada dá consigo prenhe. O sémen ronda a carne fêmea nada da miséria para
nela lançar sementes de um morrer. Primeiro menstruar falhado é vezes numerosas
o sinal primeiro de como arremete a morte: cuidadosamente oculta nas dobras do
que parece ser o seu oposto (e que até pode sê-lo se); nos minutos raros da
desopressão total - a prazo.
Nuno Bragança
Nuno Bragança
Sem comentários:
Enviar um comentário