terça-feira, 25 de março de 2014

A POESIA POPULAR, POR JRGASPAR

Por aqui:

José Rabaça Gaspar
Professor de Língua Portuguesa

A POESIA E O CANCIONEIRO POPULAR PORTUGUÊS

Sobre o cancioneiro... 

E termina assim a sua introdução (Maria Arminda Zaluar Nunes, in CANCIONEIRO POPULAR PORTUGUÊS, coligido por josé Leite de Vasconcellos, coordenado e com introdução de MAZN, vol. I, por Ordem da Universidade, 1975, p. XXXIX:

“As cantigas são valiosas nos seus aspectos literário, filológico e etnográfico. É o Cancioneiro importantíssimo documento para a revelação do povo português, encarado tanto na sua vida psíquica como na material e na evolução dentro do meio em que habita. Conceitos de vida, sentimentos, usos e costumes tradicionais, frequentemente já obliterados nas classes evoluídas, tudo aí se espelha.”

E termina:

“Não será insistência demasiada recordar que eminentes etnógrafos da actualidade são concordes em que, para o perfeito conhecimento dum país, é imprescindível o estudo das suas manifestações não só cultas mas também populares.”

Sobre as décimas...

Seria bom ouvir aqui, só de Manuel de Castro, “Fui nova cortante enxada...” e “Em tudo sinto poesia...”

- De mineral, a metal, a enxada que se gastou até ir para a um canhão, tudo isto dito como quem fala e fala como quem canta, temos aí alimento para ver a vida do Homem e da Humanidade!!!

- O encanto perante as maravilhas da Natureza e da Vida, desde o mais simples, aos sons sotaques, aos montes e montanhas, é um Cântico que é muito raro encontrar em poesia!!!

Eis aí um desafio que o Povo lança aos estudiosos, com o respeito, a tolerância, a seriedade que é apanágio dos verdadeiros estudiosos que buscam a sabedoria.

As décimas, pela sua raridade, pela sua originalidade, pelo seu enraizamento em certas regiões do Sul do país, são ou devem ser consideradas de alto valor artístico, são ou devem ser consideradas património inalienável da Humanidade, talvez não como catedrais, mas pelo menos como jóias de uma arquitectura rara, e para nossa glória, são, obra do Povo, que não foi à Escola, se foi não as aprendeu na Escola, porque a Escola nem sequer lhe tem dado a atenção, que esta extraordinária forma de expressão poética, merece. Somos nós que temos de fazer este estudo e de o apreciar devidamente, ou estamos à espera que os estranhos o venham fazer?

As décimas, caro leitor e amigo, acho que têm a magia e o encanto daqueles misteriosos livros circulares que todos desejavam ter ou escrever, mas que os monges medievais disseram não existir nas suas bibliotecas, nem nunca ter existido, como denuncia Humberto Eco no seu labiríntico Nome da Rosa.

Assim, após longas e aturadas investigações, chegámos à conclusão que pode começar a ler uma décima por onde lhe aprouver.


Dando seguimento... (não faz parte do texto de José Rabaça Gaspar)

Saudação cordial entre dois poetas (no Poet'anarquista, só podia ser...)

«AMIZADE POÉTICA»

Não tem que pedir desculpa!...
Acontece até aos melhores
Às vezes momentos piores,
Sem que disso tenham culpa.
Quando a cabeça se ocupa
E o pensar é interrompido,
Pode dar-se por perdido
Muito tempo a magicar...
Não me estou a desculpar,
O assunto está resolvido!!

Matias José


Olha! Por esta não esperava eu...
Então, lá vai!


"O assunto está resolvido!!"
E resolvido a bom gosto.
Mau seria o oposto...
Noto que não está ofendido!
Eu fico-lhe agradecido
E pela sua bondade,
Dou-lhe a minha amizade
E se a quiser receber,
Eu dá-me um grande prazer
Ter amigos de verdade!

Boa noite e obrigado.

Versos Diversos

Fim de saudação!


Continuação do texto de José Rabaça Gaspar...

O mote, ou quadra redonda se for perfeita ou de rima quadrada, há-de dar-lhe o quadrado que se vai transformar num círculo, à medida que as décimas, que vão terminar em cada verso, começarem a girar, construindo a circulatura do quadrado, ou a quadratura do círculo, que nunca foi conseguida por nenhuma das artes.

Só esta arte, de cariz e índole popular e tradicional, pela sua ingenuidade e ousadia, tenta ir mais além daquilo que as ciências exactas e as exegeses eruditas permitem arriscar.

Talvez seja mesmo a realização da «utopia».

Ousamos pois dizer que, através da magia das «décimas, a utopia é possível».

José Rabaça Gaspar

4 comentários:

Anónimo disse...

Conteúdo, todo ele, muito bom!

Anónimo disse...


Faço minhas as palavras do l.º Comentador.
Postagem Excelente e esclarecedora.

Parabéns !

Uma Alandroalense (L...)

Camões disse...

Agradeço ao poeta com o pseudónimo Versos Diversos, a partilha da sua décima no Poet'anarquista.

As décimas de Matias José e Versos Diversos fazem agora parte da «Quadratura do Círculo», rubrica que irá surgir brevemente neste espaço das artes.

Um abraço a todos os poetas!

Anónimo disse...

Esta publicação tem nota máxima! Para quem ainda tinha dúvidas sobre a excelência poética de alguns conterrâneos, as duas décimas postadas são o melhor exemplo do que falo. A poesia popular parece mesmo coisa de deuses, como refere o professor José Rabaça Gaspar. Muito importante consultar os linkes sobre poetas do concelho de Alandroal. Obrigado ao poet'anarquista!!!