«Barcelona - 1980»
Hotel Colon, Barcelona/ Catedral Gótica ao Fundo
170- «BARCELONA - 1980»
Da sua mesa
habitual, no restaurante do hotel Colón, no Bairro Gótico de Barcelona, Javier,
observava com muita atenção as duas mulheres que jantavam no outro lado da sala.
Uma delas, a mais alta, há vários dias que o mantinha interessado. Reparara
nela quando se tinham cruzado à entrada da sala e ele tivera que se desviar
para que ela e a companheira pudessem passar. Eram duas mulheres muito
interessantes, seguramente estrangeiras, e decerto estavam de passagem. O Hotel
Colón, situava-se na zona mais antiga da cidade, perto da Catedral Gótica de
Barcelona, no local que servira de ponto de chegada a Baltazar Barca, o romano
que fundara a cidade cerca de 200 anos a. C. Era aí que ele vivia
já há vários anos e chegavam a passar-se semanas sem que saísse do bairro.
Herdara uma considerável fortuna aquando da morte dos pais, e passara a viver
com a sua avó paterna, única pessoa de família que lhe restava. Agora, depois
da morte da avó, ocupava uma grande casa medieval nesse mesmo bairro, mas
praticamente só utilizava o último andar, “La Mansarda”, como lhe chamava. Aí,
tinha instalado um estúdio de pintura, esporadicamente utilizado para pintar.
De facto, esse estúdio servia mais como local de encontros amorosos e ruidosas
festas que não raro viam nascer o dia e faziam perder a paciência aos vizinhos.
Não se pense, porém, que era um homem sem interesses pela vida, ou que só se
interessava pela farra. Pelo contrário, mantinha interesse pelas coisas belas
da vida, que tanto podia ser uma mulher bonita, uma criança risonha, um bom
vinho, ou uma poesia. Talvez um quadro de Picasso ou Miró, dos quais, aliás,
possuía alguns exemplares. Sentia, por exemplo, uma grande curiosidade e
admiração por Portugal. Por um motivo bem simples: Segundo ele, a Catalunha,
depois de ocupada por Castela, tivera oportunidade de ver-se livre dessa
ocupação, quando em 1640, se levantou em armas contra o invasor. No entanto,
esse “levantamiento“, falhara. Ao mesmo tempo, no mesmo ano,
ergue-se Portugal também contra Castela, contra os Filipes, e a revolução
triunfa e dá-se a Restauração em Portugal. ---“ Qué gran pueblo, lo
portugués... qué ay toreado a los castellanos...qué gran pueblo!“--- dizia com
admiração. E foi com estas palavras que começou a conversar com as duas
mulheres que tinham despertado o seu interesse no restaurante do Hotel Colón.
Nesta altura da narrativa já todos perceberam que Javier era um homem ainda
novo, aí à volta dos vinte e cinco anos, desenvolto fisicamente, rico, com uma
grande apetência por mulheres bonitas, tempo livre e um grande descaramento.
Tinha treinado em Paris, quando os pais para ali o tinham mandado para aprender
artes... calculem... aprender artes, repito. Não aprendeu nada, é claro, a não
ser esturrar todo o dinheiro que lhe era enviado. Mas também não aprendeu
por gostar apenas da borga, não, ele tinha alguma vontade, o que não tinha era
vocação, jeito e habilidade, e muito menos tinha talento. Bem... vamos voltar
ao que interessa. Quando passou algumas pesetas à camarera, esta fez um
relatório completo sobre as duas mulheres: ---“Eram portuguesas, eram casadas,
pelo menos usavam aliança, eram advogadas e estavam em Barcelona a tratar dos
papéis dum catalão muito rico e velho que se tinha instalado em Lisboa durante
a guerra civil espanhola e que nunca mais tinha vindo a Espanha. Inicialmente
deviam demorar apenas uns dias, mas as burocracias complicaram-se e agora já
nem elas sabiam quando estariam despachadas de todas as formalidades. Não
regressariam a Portugal sem terem tudo despachado, era a única certeza que
tinham.“ --- Como vêem, o relatório estava mesmo completo. E despertou ainda
mais o interesse de Javier. E passou a fazer plantão no hall do hotel durante
todo o dia. Assistia, de manhã, ao pequeno almoço das mulheres, assistia depois
às diversas entradas e saídas, e até reparava nas vezes que elas trocavam de
roupa durante o dia. A mulher que era objecto maior do seu interesse tinha um
corpo bem proporcionado, certamente em tempos praticara algum desporto. Era
alta e larga de ombros e com os exercícios físicos ganhara uma elasticidade que
se reflectia em todos os seus movimentos.
«As Duas Mulheres Interessantes»
BD, por JPGalhardas
Naquele dia, feriado na Comunidade da Catalunha, Javier, esperava por ela para
a acompanhar numa visita à cidade. Eram cerca das onze horas da manhã. Tinham
combinado na véspera o passeio, quando ele, com o descaramento que lhe era
peculiar, a tinha abordado no bar do hotel, numa altura em que ela estava
acompanhada pela outra mulher, sua compatriota, e com a qual tratava do
processo burocrático, referente ao tal catalão que desde o fim da guerra civil
espanhola vivia em Portugal, e que agora pretendia voltar a Barcelona,
juntamente com a família. A outra, reparando que o interesse de
Javier se dirigia exclusivamente para a companheira, escusara-se,
delicadamente, a acompanhá-los, dizendo que pretendia aproveitar esse feriado
catalão para descansar. A abordagem de Javier, quando as duas se encontravam no
bar, tomando uma bebida, primeiro, suscitara desconfiança, mas depois,
como verificaram que ele era bem conhecido por todos os empregados do hotel,
que o tratavam com muita deferência, a desconfiança foi-se atenuando e acabaram
a noite já falando com alguma descontracção. Foi quando Javier fez o convite
para lhes mostrar a cidade, já que elas dentro de dias voltariam para Portugal.
Segundo ele, não se arrependeriam de o acompanhar, pois não havia melhor guia
em Barcelona para lhes mostrar as partes interessantes da cidade sem cair
naquilo a que chamava los roteros turísticos. Assim ficou combinado.
«Javier ao Encontro da Portuguesa»
BD, por JPGalhardas
A aparência física, a passada larga, característica de família, o rosto um
pouco quadrado e em que se destacavam o nariz aquilino, os olhos cinzentos
escuros, e os cabelos castanhos com madeixas mais claras, aliada à maneira um
pouco provocante como se vestia, faziam com que os olhares, sobretudo os
masculinos, se virassem à sua passagem. Estamos a falar da mulher que há vários
dias mantinha interessado o nosso já conhecido Javier que, como também já
dissemos, se mantinha de plantão no hall do hotel em que aquela mulher se
encontrava hospedada na cidade de Barcelona, e com quem tinha tido o primeiro
contacto na noite anterior. Na altura em que acabava de acender mais um
cigarro, saiu ela do elevador e, num olhar rápido, logo o localizou. Dirigiu-se
para ele, que imediatamente se levantou e a esperou de pé, enquanto os olhos de
todos os que se encontravam no hall se fixavam nela. Não admira. Ela estava
deslumbrante. Vestia uma saia branca, mais curta que o habitual, e calçava umas
sandálias de tiras com o salto muito alto. O top, também branco, apenas
lhe cobria os seios que levava soltos, sem soutien. Ao andar, a saia
balançava, deixando à vista as longas coxas atléticas. O top, por sua vez,
descobria as costas e a barriga, que se adivinhava dura e onde se destacava o
umbigo de uma cor mais escura. Vinha assobiando. Já na noite anterior, enquanto
conversavam, Javier reparara que ela, de vez em quando, começava a assobiar.
Perante o seu espanto a colega explicara que uma das particularidades dela era
assobiar. Assobiar bem, frisara a outra. Bom... naquele momento quem teve
vontade de assobiar foi ele, Javier. --- “Qué mujer... coño!“
«Qué Pedazo de Mujer, Coño!»
Milo Manara
«Qué Pedazo de Mujer, Coño!»
Milo Manara
Saíram e fizeram a volta habitual. Afinal não havia muita originalidade no passeio proposto por Javier. Fizeram o circuito de António Gaudi, a Catedral Gótica, ali a dois passos, mais uma ou duas curiosidades, e por fim Las Ramblas, onde almoçaram. Os intentos de Javier tinham sido atingidos. Conseguira convencê-la a jantarem juntos, ela iria trazer a companheira e ele arranjaria um amigo que lhes faria companhia. Mais tarde, depois do jantar, se para isso houvesse disposição, dariam uma volta pela “movida” da capital catalã. Eram cinco horas da tarde quando a deixou de novo no hotel. Voltaria por las nueve de la noche.
Assim foi. Jantaram num restaurante típico no próprio Bairro Gótico,
acompanhados de Pedro, o amigo de Javier, e durante o jantar foram
interrompidos por um grupo de amigos, muito barulhentos e visivelmente bem
bebidos, que se juntaram na mesa deles. Quando saíram para a noite já todos
confraternizavam, eram já um grupo de cerca de dez pessoas, todas com copos a
mais e dispostas a continuar a divertir-se. Algumas das mulheres do grupo, as
espanholas, que não as duas portuguesas, na boite para onde se dirigiram, começaram
a passar um charro de bico em bico, o que provocou a expulsão do grupo, assim
se encontrando todos na rua com a ameaça, feita pelos porteiros do
estabelecimento, de chamarem a polícia se insistissem em voltar a entrar. Foi
então que Javier, já que se encontravam muito perto de sua casa, propôs que ali
fossem, pois se estaria muito bem e sem polícia. As duas portuguesas ainda
hesitaram antes de subirem àquele terceiro piso. Eram elas as menos bebidas,
mas por fim, a rogo de todos os outros, lá foram todos para o estúdio de
Javier.
«Las Ramblas»
Barcelona
O estúdio de pintura de Javier era um “open space“ de cerca de cem metros
quadrados. Era todo o terceiro andar da casa que lhe servia de habitação.
Aliás, aquele estúdio, era a sua habitação. Ele, praticamente, não utilizava
os outros pisos da casa, que se mantinham vazios de vida, embora mobilados com
os velhos e valiosos móveis, faianças e quadros que tinham sido herança de seus
pais.
«Javier no Estúdio, com Amiga Portuguesa»
Picasso no Estúdio em Cannes, com Brigitte Bardot
Quando o grupo entrou no estúdio, as duas portuguesas que o integravam, ficaram
surpreendidas pela completa desarrumação que reinava naquele espaço. Ali se
misturavam esboços, telas semi pintadas e outras que, aparentemente, estariam
acabadas, como é que isso se saberia, cavaletes, pincéis, tintas, enfim, toda a
qualidade de meios de que os pintores se servem para executar as suas obras. A
um canto estavam, rente ao chão, duas camas em completo desalinho de roupas, e
pelas paredes muitas peças de vestuário, penduradas anarquicamente. Não se sabe
de onde, surgiu uma garrafa de absinto que começou a circular de boca em boca,
sendo que rapidamente ficou vazia. Aquela gente parecia possuída pelo demónio.
Foi quando alguém, uma voz de homem, pediu uma “tarjeta“ para cortar la niña.
Logo, como por magia, apareceram também os “canudiños“, feitos com notas de mil
pesetas, e todos começaram a sorver as linhas, que de uma forma muito
criteriosa, iam sendo alinhadas na mesa de vidro que servia de altar para
aquela adoração. Até as gengivas e os dentes ficavam mais brilhantes depois da
esfrega final.
«Possuídos p'lo Demónio»
La Niña y el Canudiño
Por essa altura já se tinham desfeito de parte da roupa que vestiam, alguns
estavam mesmo nus e dançavam com copos na mão. A música estava em tom muito
alto, e na varanda, alguns casais já ensaiavam danças de acasalamento. E nem
todos os casais eram de sexo diferente. Ainda não passara uma hora que tinham
chegado e já aquilo parecia uma Babilónia. Para utilizar uma expressão que se
usa na nossa terra, uns falavam em alhos e outros respondiam em bugalhos, e em
línguas diferentes, pois havia ali gente de três ou quatro nacionalidades. Ou
antes, aquilo não parecia uma Babilónia, parecia mais Sodoma e Gomorra.
A bebida e demais abusos, sobretudo o absinto e as linhas de pó, que
rapidamente desapareceram da mesa de vidro, fizeram que as atitudes
degenerassem em comportamentos de carácter licencioso. Assim, a mulher
portuguesa, objecto da atenção de Javier, logo se viu sem roupa e deitada numa
das camas, acompanhada de mais duas mulheres e de dois homens, enquanto na cama
ao lado outros tantos bacantes, de ambos os sexos, se entregavam a práticas
sexuais próprias de pessoas que estavam habituadas a essas orgias. Antes de se
deixar envolver completamente naquela situação, ainda procurou, já com os
olhos nublados, a sua companheira de aventura. Pareceu-lhe vê-la na varanda,
abraçado por um dos homens do grupo enquanto outro procurava tirar-lhe a roupa
que ainda tinha vestida. A partir desse momento perdeu o contacto com a
realidade e sentiu-se transportada de braços para braços, sendo usada e usando
ela, por sua iniciativa, todos e todas que lhe passavam perto, dando livre
curso à luxúria de que sentia invadida.
«Luxúria no Estúdio de Javier»
Milo Manara
A autora destas linhas não se sente com suficiente capacidade narrativa para
descrever, com autenticidade bastante, o que se passou nessa noite naquele
terceiro piso daquela casa situada no Bairro Gótico de Barcelona. Por
conseguinte, remete o leitor que tenha a paciência de ler estas linhas, para
artistas que, por serem muito mais expressivos, decerto lhe darão uma melhor
imagem do acontecido: Ver o quadro de Ticiano, pintor italiano do fim da Idade
Média, princípio do Renascimento, que se intitula “Bacanal“ e que se encontra
no museu do Prado em Madrid; ler o livro “Os Contos do Decameron“, do escritor
italiano Bocaccio, que viveu no século XIV, (este escritor, quase
seiscentos anos antes, antecipou com muita fidelidade, o que se passou naquela
noite, no estúdio de pintura de Javier); ou então ver o filme de Piero Paolo
Pasolini, “O Decameron“, inspirado nos contos de Bocaccio.
«O Grande Bacanal»
Bacanal, por Ticiano
Para terminar esta narrativa resta acrescentar que Javier, no dia seguinte, no
meio de uma grande ressaca, encontrou a “tarjeta“ que tinha sido utilizado para
cortar o pó. Estava sobre a mesa de vidro que tinha servido de ara para o
sacrifício, e mais não era que um cartão de crédito do banco American Express e
tinha como titular Eva Rodriguez Potra Casablanca.
«La Tarjeta para cortar la Niña»
American Express
Eveline Sambraz
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