«As Crianças que Matam»
Conto de João do Rio
510- «AS CRIANÇAS QUE MATAM»
É assombrosa a proporção do crime nesta cidade, e
principalmente do crime praticado por crianças! Estamos a precisar de uma liga
para a proteção das crianças, como a imaginava o velho Júlio Vallés…
– Que houve de mais? – indagou Sertório de Azambuja, estirando-se
no largo divã forrado de brocado cor de ouro velho.
– Vê o jornal. Na Saúde, um bandido de treze anos acaba de
assassinar um garotinho de nove. É horrível!
O meu amigo teve um gesto displicente.
– Crime sem interesse… A menos que não se dê um caso de
genialidade, um homem só pode cometer um belo crime, um assassinato digno,
depois dos dezesseis anos. Uma criança está sempre sujeita aos desatinos da
idade. Ora, o assassinato só se torna admirável quando o assassino fica impune
e realiza integralmente a sua obra. Desde Caim nós temos na pele o gosto
apavorador do assassinato. Não estejas a olhar para mim assim assustado. As
mais frágeis criaturas procuram nos jornais a notícia das cenas de sangue. Não
há homem que, durante um segundo ao menos, não pense em matar sem ser preso. E
o assassínio é de tal forma a inutilidade necessária ao prazer imaginativo da
humanidade, que ninguém se abala para ver um homem morto de morte natural, mas
toda gente corre ao necrotério ou ao local do crime para admirar a cabeça
degolada ou a prova inicial do crime. Dado o grau de civilização atual,
civilização que tem em germe todas as decadências, o crime tende a aumentar,
como aumentam os orçamentos das grandes potências, e com uma percentagem cada
vez maior de impunidade. Lembra-te das reflexões de Thomas de Quincey na sua
pedagogia do crime. É dele esta frase profunda: “O público que lê jornais
contenta-se com qualquer coisa sangrenta; os espíritos superiores exigem alguma
coisa mais…”
Humilhadamente, dobrei o jornal:
– Então só os espíritos superiores?…
– Podem realizar um crime brilhante. Esse caso da Saúde não
tem importância alguma. É antes um exemplo comum da influência do bairro, desse
bairro rubro, cuja história sombria passa através dos anos encharcada de
sangue. Nunca foste ao bairro rubro? Queres lá ir agora? São oito horas. Vamos?
Vem daí…
Descemos. Estava uma noite ameaçadora. No céu escuro,
carregado de nuvens, relâmpagos acendiam clarões fugazes. A atmosfera abafava.
Uma agonia vaga pairava na luz dos combustores.
Sertário de Azambuja ia de chapéu mole, com um lenço de seda
à guisa de gravata. Ao chegar ao Largo do Machado, chamou um carro, mandou
tocar para o começo da Rua da Imperatriz.
– Que te parece o nosso passeio? Estamos como Dorian Gray,
partindo para o vício inconfessável.
Lord Henry dizia: “Curar os sentidos por
meio da alma e a alma por meio dos sentidos”. Vamos entrar no outro mundo..
Eu atirara-me para o fundo da vitória de praça e via
vaga-mente a iluminação das casas, os grandes panos de sombra das ruas pouco
iluminadas, a multidão, na escuridão às vezes, às vezes queimada na fulguração
de uma luz intensa, os risos, os gritos, o barulho de uma cidade que se
atravessa. Na Rua Marechal Floriano, Sertório pagou ao cocheiro, dizendo:
– Saltaremos em movimento.
E para mim:
– Não vale dar na vista…
Um instante depois saltou. Acompanhei-o. O carro continuou a
rodar. O bairro rubro não é um distrito, uma freguesia: é uma reunião de ruas
pertencentes a diversos distritos, mas que misteriosamente, para além das
forças humanas, conseguiu criar a rede tenebrosa, o encadeamento lúgubre da
miséria e do crime, insaciáveis. A Rua da Imperatriz é um dos corredores de
entrada.
O bairro onde o assassinato é natural abraça a Rua da Saúde,
com todos os becos, vielas e pequenos cais que dela partem, a Rua da Harmonia,
a do Propósito, a do Conselheiro Zacarias, que são paralelas à da Gamboa, a do
Santo Cristo, a do Livramento e a atual Rua do Acre. Naturalmente as ruas que
as limitam ou que nelas terminam – São Jorge, Conceição, Costa, Senador Pompeu,
América, Vidal de Negreiros e a Praia do Saco – participam do estado de alma
dominante.
Toda essa parte da cidade, uma das mais antigas, ainda cheia
de recordações coloniais, tem, a cada passo, um traço de história lúgubre. A Rua
da Gamboa é escura, cheia de pó, com um cemitério entre a casaria; a da
Harmonia já se chamou do Cemitério, por ter aí existido a necrópole dos
escravos vindos da costa da África; a da Saúde, cheia de trapiches, irradiando
ruelas e becos, trepando morro acima os seus tentáculos, é o caminho do
desespero; a da Prainha, mesmo hoje aberta, com prédios novos, causa, à noite,
uma impressão de susto.
Como dizia o meu guia, estávamos num novo mundo…
A Rua da Imperatriz, às oito e meia, com uma porção de casas
comerciais velhas e tão juntas, tão trepadas na calçada, que parecem despejadas
na rua, estava em plena febre. Os botequins reles, as barbearias sujas, as
tascas imundas gargulejavam gente, e essa gente era curiosa – trabalhadores em
mangas de camisa, carroceiros, carregadores, fumando mata-ratos infectos,
cuspinhando cachaça em altos berros, num calão de imprevisto, e rapazes
mulatos, brancos, de grandes calças a balão, chapéu ao alto, a se arrastarem
bamboleando o passo, ou em tabernas barulhentas. A nossa passagem era
acompanhada com um olhar de ironia, e bastava parar dois segundos defronte de
uma taberna, para que dentro todos os olhos se cravassem em nós.
Eu sentia acentuar-se um mal-estar bizarro. Sertório ria.
– A vulgaridade da populaça! Há por aqui, entre esses
marçanos fortes, gente boa. Há também ruim. Estão fatalmente destinados ou a
apanhar ou a dar, desde crianças. É a vida. Alguns são perversos: provocam,
matam. Vais ver. Nasceram aqui, de pais trabalhadores…
Tínhamos chegado à Rua Camerino, esquina da da Saúde. Há aí
uma venda com um pequeno terraço de entrada. O prédio desfaz-se, mas dentro
redemoinha uma turba estranha: negralhões às guinadas, inteiramente bêbedos,
adolescentes ricos de músculos, embarcadiços, foguistas.
Fala-se uma língua babélica, com termos da África,
expressões portuguesas, frases inglesas. Uns cantam, outros rouquejam insultos.
Sertório aproxima-se de um grupo. Há um mulato de tamancos, que parece um
arenque ensalmonado, no meio da roda. O mulato cuspinha:
– Go on, go on… yeah. farewell! yeah!
É brasileiro. Está aprendendo todas essas línguas
estrangeiras com os práticos ingleses.
Há um venerável ancião, da Colônia do Cabo, tão alcoolizado
que não consegue senão fazer um gesto de enjôo; há um copta, apanhado por um
navio de carga no Mar Vermelho; há dois negrinhos retintos, com os dentes de
uma alvura estranha, que bradam:
– Eh oui, petit monsieur, nous sommes du Congo. Étudiés avec
pères blancs…
Todos incondicionalmente abominam o Rio: querem partir.
Sertório paga maduros; eles fazem roda. O mulato brasileiro
está delicado.
– Hip! Hip! Cambada! Para mostrar a vocês que cá na terra há
gente para embrulhar língua direito! Agüente, negrada!
– Sai burrique! – grunhe o ancião.
Dando guinadas com os copos a escorrer o líquido sujo do
maduro, essa tropa parecia toda vacilar com a casa, com as luzes, com os
caixeiros. Saí antes, meio tonto. Sertório livrava-se da matilha distribuindo
níqueis.
Quando conseguiu não ser acompanhado, meteu-se pelo beco.
Segui-o e, de repente, nós demos nos trechos silenciosos e lúgubres. Nas ruas,
a escuridão era quase completa. Um transeunte ao longe anunciava-se pelo ruído
dos passos.
De vez em quando uma rótula aberta e dentro uma sombra. Que
lugares eram aqueles? O outro mundo! A outra cidade! A atmosfera era aquecida
pelo cheiro penetrante e pesado dos grandes trapiches. Em alguns trechos, a
treva era total. Na passagem da estrada de ferro, a luz elétrica, muito fraca,
espalhava-se como um sudário de angústias.
Foi então que começamos a encontrar em cada esquina, ou
sentados nas soleiras das portas, ou em plena calçada, uns rapazes, alguns
crescidos, outros pequenos. À nossa passagem calavam-se, riam. Mas nós íamos
seguindo, cada vez mais curiosos.
Afinal, demos no Largo da Harmonia, deserto e lamentável. À
porta da igreja uma outra roda, maior que as outras, confabulava.
Aproximamo-nos.
– Boa noite!
– Boa noite! – respondeu um pretalhão, erguendo-se com os
tamancos na mão.
Os outros ficaram hesitantes, desconfiando da amabilidade.
– Que fazem vocês aí?
– Nós? – indagou um rapazola já de buço, gingando o corpo –
Contamos histórias: ora aí tem! Interessa-lhe muito?
– Histórias! Mas eu gosto de histórias. Quem as conta?
– Isso é costume cá no bairro. Há rapazes que sabem contar
que até dá gosto. Aqui quem estava contando era o José, este caturrita…
Era um pequeno franzino, magro, com uma estranha luz nos
olhos.
Talvez matasse amanha, talvez roubasse! Estava ingenuamente
contando histórias…
Sertório insistia, entretanto, para ouvi-lo. Ele não se fez
de rogado. Tossiu, pôs as mãos nos joelhos…
– Era uma vez uma princesa, que tinha uma estrela de
briIhantes na testa.
A roda caíra de novo num silêncio atento. A escuridão
parecia aumentar, e, involuntariamente, ou e o meu amigo sentimos na alma a
emoção inenarrável que a bondade do que julgamos mau sempre nos causa…
João do Rio
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